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Psicologia Escolar e Educacional

On-line version ISSN 2175-3539

Psicol. Esc. Educ. (Impr.) vol.7 no.1 Campinas June 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-85572003000100012 

SUGESTÕES PRÁTICAS

 

Sexualidade e escola: um espaço de intervenção

 

Flávia Nunes de Moraes Beraldo1

Unifenas

 

As sugestões práticas, aqui apresentadas, foram desenvolvidas a partir da experiência realizada no estágio de Psicologia Escolar na área de orientação sexual em duas escolas municipais, do ensino fundamental, em uma cidade do Sul de Minas no ano de 2000, subsidiada pela Prefeitura da mesma . Pôde-se idealizar este trabalho e ainda verificar a necessidade de que estudos sejam feitos, visando explorar o tema e desmistificar tabus, preconceitos e estigmas que são impostos pela sociedade durante sua evolução.

Desde a antigüidade a sexualidade vem gerando polêmicas, mexendo com a sensação e fantasia das pessoas, associada a coisas feias, inconvenientes e impróprias. Apesar da revolução sexual, da globalização e dos meios de comunicação terem contribuído para uma modificação nas atitudes morais e nas questões ligadas ao sexo e sexualidade, esse assunto ainda assim continua sendo um tabu.

O estudo da sexualidade envolve o crescimento global do indivíduo, tanto intelectual, físico, afetivo-emocional e sexual propriamente dito. A maioria dos pais acham constrangedor conversar sobre sexo com seus filhos, ora pela educação recebida de seus pais, ora pela repressão ou por não saberem como abordar o tema. Assim, os filhos na maioria da vezes, ficam sem respostas para suas dúvidas, gerando conflitos ou acidentes inesperados por terem informações errôneas ao consultar variadas fontes impróprias.

A maior parte dos adolescentes passam seu tempo na escola onde começam a se sociabilizar, aflorando sua sexualidade devido ao desenvolvimento corporal gerado pelos hormônios. A escola é o ambiente onde a interação com o mundo ao redor e com as pessoas que o cercam acontece. Depois do ambiente familiar é a escola que complementa a educação dada pela família onde são abordados temas mais complexos que no diaa- dia não são ensinados e aprendidos, tendo esta uma imensa responsabilidade na formação afetiva e emocional de seus alunos.E quanto ao assunto sexo e sexualidade? Qual o papel da escola frente a esse tema? A escola não deve nem vai tomar o lugar da família, mas cabe a ela possibilitar uma aprendizagem correta, já que essa instituição visa o crescimento do indivíduo como um todo.

A educação sexual acontece no seio familiar. É uma experiência pessoal contida de valores e condutas transmitidos pelos pais e por pessoas que o cercam desde bebê. Já a Orientação Sexual é dada pela escola onde são feitas discussões e reflexões à respeito do tema de uma maneira formal e sistematizada que constitui em uma proposta objetiva de intervenção por parte dos educadores.

O que nos cabe é refletir acerca da importância da Orientação Sexual na Escola para a construção da cidadania, de uma sociedade livre de falso moralismo e mais feliz. O trabalho de Orientação Sexual tem como objetivo principal as mudanças nos padrões de comportamento, levando-se em conta três aspectos fundamentais: a transmissão de informações de maneira verdadeira; a eliminação do preconceito e a atuação na área afetivo-emocional. Para se fazer um bom trabalho de Orientação Sexual dentro da escola é importante dar atenção a alguns passos:

a) apresentar um projeto para a instituição com o objetivo do trabalho;

b) fazer uma reunião com os pais e professores para esclarecer quaisquer dúvidas que possam surgir ao longo do trabalho e explicar o papel de ambos junto à escola neste projeto;

c) observar a demanda da escola para que se atinja a expectativa desta;

d) a partir das séries estabelecidas para o trabalho entrar em contato com elas para explicar como este será administrado;

e) colher, por meio de “bilhetinhos sigilosos,” dúvidas e curiosidades de cada aluno garantindo-lhes total sigilo;

f) após levantar as dúvidas e curiosidades fazer uma estruturação do programa a ser cumprido em diferentes séries (conteúdo, horário, encontros, local), para uma maior eficácia;

g) estabelecer um contrato ( regras sugeridas pelo grupo);

h) garantir a ética do trabalho tanto para os alunos como para os professores;

i) garantir a liberdade de opinião e o respeito do grupo pelas dúvidas de seus colegas, sem monopólio da verdade de ambas as partes.

O primeiro conteúdo indispensável neste trabalho é a diferenciação de sexo e sexualidade e também de Educação Sexual e Orientação Sexual, que são muito confundidos na maioria das vezes. O educador de Orientação Sexual deve ser uma pessoa aberta, livre de mitos e preconceitos referentes à sexualidade para melhor ministrar a turma sem causar problemas com a instituição, pais, alunos e professores, podendo abordar os assuntos através de aulas expositivas, dinâmica de grupo, folhetos explicativos, filmes e outros materiais referentes ao tema. O trabalho não envolve nota ou reprovação.

Para finalizar seguem dois lembretes essenciais: é necessário ressaltar a importância dos pais nesse processo para que estes não se acomodem, julgando a escola responsável pelo processo da educação sexual de seus filhos; não cabe ao professor de Orientação Sexual virar conselheiro ou confidente dos alunos. Deve, se necessário, encaminhar para um profissional
especializado.

 

 

1 Psicóloga , Mestranda no Programa de Estudos Pós-graduados em Psicologia da Universidade São Francisco e docente da Unifenas.

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