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Psicologia Escolar e Educacional

On-line version ISSN 2175-3539

Psicol. Esc. Educ. (Impr.) vol.7 no.2 Campinas Dec. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-85572003000200004 

ARTIGOS

 

Síndrome de BURNOUT: um estudo com professores da rede pública

 

Syndrome of BURNOUT: a teachers publics schools study

 

Graziela Nascimento da Silva1; Mary Sandra Carlotto2

Universidade Luterana do Brasil

 


RESUMO

O objetivo deste estudo foi analisar se o gênero estabelece diferenças significativas nos níveis e no processo da Síndrome de Burnout em professores de escolas da rede pública. Também procurou identificar associações das dimensões de burnout com variáveis demográficas, laborais e comportamentais. Foi utilizado como instrumento de pesquisa o MBI- Maslach Burnout Inventory e um questionário elaborado especificamente para este estudo para as demais variáveis. A amostra, do tipo de conveniência, foi composta de 31 homens e 30 mulheres. Os resultados obtidos indicam não existir diferença estatisticamente significativa entre os grupos nas dimensões e níveis de Burnout; no entanto, verifica-se a ocorrência de associação diferenciada nos dois grupos entre as dimensões de Burnout e determinadas variáveis demográficas, profissionais e comportamentais.

Palavras-Chave: Professores, Síndrome de Burnout, Gênero.


ABSTRACT

The objective of this study was to analyse if the gender establishes significant differences in the levels and in the process of the Syndrome of Burnout in the teachers of the public schools. It also tried to identify associations if the dimensions of Burnout with demographic laboural and behavior variables. It was used as instrument of research MBI – Maslach Burnout Inventory and a questionnaire elaborated specially for this study for the other variables. The sample, of the convenience kind, was composed by 31 men and 30 women. The results gotten indicate there is no difference statistically significant between the groups in the dimensions and levels of burnout. Nevertheless, it is verified the occurrence of distinguishable association in the two groups between dimensions of burnout and determined demographic, professional and behavior variables.

Keywords: Teachers, Syndrome of Burnout, Gender.


 

 

INTRODUÇÃO

A escola e o professor cumprem papel relevante na socialização do indivíduo. O bom desempenho das atividades docentes depende das suas condições emocionais favoráveis, sendo que o professor, no seu papel de educador, é para seus alunos uma referência, um exemplo nas suas atitudes, no seu caráter, na maneira de tratar o próximo. Lecionar é uma tarefa complexa que exige deste profissional muita dedicação e desprendimento.

As constantes mudanças ocorridas no sistema público de educação não raras vezes geram nesses profissionais sentimentos de mal-estar e impotência. O trabalho geralmente é realizado sob alguns fatores potencialmente estressores como: baixos salários, escassos recursos materiais e didáticos, classes superlotadas, tensão na relação com alunos, excesso de carga horária, inexpressiva participação nas políticas e no planejamento institucional e falta de segurança no contexto escolar.

Segundo Carlotto (2002b), no trabalho docente alguns estressores são típicos da natureza da função e outros são ocasionados pelo contexto onde o mesmo se realiza. Esses estressores psicossociais, se persistentes, podem levar à Síndrome de Burnout. Essa síndrome é considerada por França e Rodrigues (1999) como uma resposta emocional a situações de estresse crônico em função de relações intensas em situações de trabalho com outras pessoas. Segundo Maslach e Jackson (1981), se constitui de três dimensões conceitualmente distintas, mas empiricamente relacionadas: exaustão emocional, despersonalização e falta de realização profissional.

Os autores referem ainda que a exaustão emocional pode ser entendida pela situação na qual os trabalhadores sentem que não podem se entregar mais. É uma situação de esgotamento da energia dos recursos emocionais próprios, uma experiência de estar emocionalmente desgastado devido ao contato diário com pessoas com as quais necessitam se relacionar em função de seu trabalho. A despersonalização pode ser definida como o desenvolvimento de sentimentos e atitudes negativas e de distanciamento para as pessoas destinatárias do trabalho. A falta de realização profissional, faz com que os trabalhadores se sintam descontentes consigo mesmos e insatisfeitos com os resultados de seu trabalho.

A Síndrome de Burnout em profissionais da educação vem recebendo crescente atenção por parte de pesquisadores. Diversos estudos (Byrne, 1993; Pretorius, 1994; Carvalho, 1995; Moura, 1997; Carlotto, 2002b) têm sido realizados com essa categoria profissional. Conforme pontua Codo (1999), muitos esforços têm sido feitos para traçar um perfil do educador que é mais suscetível ao sentimento de Burnout. Esses esforços se justificam, na medida em que a severidade da síndrome em professores já é, atualmente, superior à dos profissionais de saúde, o que coloca o magistério como uma das profissões de alto risco de incidência (Iwanicki & Schwab, 1981; Farber, 1991).

Burnout na educação é um fenômeno complexo e multidimensional resultante da interação entre aspectos individuais e o ambiente de trabalho. Este ambiente não diz respeito somente à sala de aula ou ao contexto institucional, mas sim a todos os fatores envolvidos nesta relação, incluindo os fatores macrossociais como políticas educacionais e fatores sócio-históricos (Carlotto, 2002a). Sua ocorrência em professores tem sido considerada um fenômeno psicossocial relevante, pois afeta não somente o professor, mas também o ambiente educacional, interferindo na obtenção dos objetivos pedagógicos, uma vez que os profissionais acometidos pela síndrome desenvolvem um processo de alienação, desumanização e apatia (Guglielmi & Tatrow, 1998).

Muitas são as variáveis associadas ao Burnout, no entanto, a variável sexo tem chamado atenção especial de alguns pesquisadores (Burke & Greenglass; 1989; Farber, 1991; Carvalho, 1995; Burke, Greenglass & Schwarzer, 1996; Gil-Monte, Peiró & Valcárcel, 1996). Maslach e Jackson (1985) afirmam que esta variável pode não surgir como fator determinante de Burnout, porém, quando ocorre, a consistência que emerge da diferença vem de dados analisados principalmente na dimensão de despersonalização, pois homens geralmente apresentam escores mais altos que as mulheres dentro da mesma ocupação e do mesmo contexto organizacional. Estes autores entendem que tal diferença pode estar relacionada a três questões: responsabilidade familiar, tipo de ocupação e papel do sexo na socialização. Destacam que a última questão abordada é a mais importante, pois identifica a concepção de que as mulheres estão mais envolvidas com cuidados, alimentação e preocupação com o bem-estar de outras pessoas, aspectos que se colocam de forma diferenciada com relação ao homem. A elevação da exaustão emocional por parte das mulheres é interpretada pelos autores a partir da questão da emocionalidade vinculada ao papel feminino. Já a grande intensidade de insatisfação no trabalho dos homens pode estar vinculada às expectativas de sucesso, competição e desenvolvimento que são geralmente elementos mais identificados com o papel masculino. Etzion (1987) identificou resultado semelhante, também atribuindo a ele questões tradicionais do processo de socialização e organização social que se colocam diferenciadamente para homens e mulheres.

Apple (1995) e Borsoi (1995) pontuam que os problemas referentes ao trabalho enfrentados pelas mulheres não são os mesmos enfrentados pelo trabalhador do sexo masculino. Os riscos relacionados ao trabalho são diferentes para homens e mulheres (Moreno, 1999). Ao ingressar no mercado de trabalho a mulher passou a desenvolver uma dupla jornada, a profissional e a doméstico. Em nossa sociedade, as mulheres têm uma relação dupla com o trabalho assalariado. Elas são, ao mesmo tempo, trabalhadoras remuneradas e nãoremuneradas. Tal situação, no entanto, vem se modificando, pois de maneira crescente o homem está dividindo com as mulheres as responsabilidades e os afazeres do lar. Compartilhar as responsabilidades e as preocupações com a criação dos filhos e as tarefas domésticas já é bastante comum (Apple, 1995; Borsoi, 1995). Brito (1999) complementa, referindo, entretanto, que a alternância trabalho/tempo livre só tem sentido para a população masculina. Quando se trata de mulheres, a alternância significativa é a de trabalho profissional/ trabalho doméstico, ou seja, o que é central é uma visão global do emprego do tempo cotidiano.

O magistério, profissão com um número bastante elevado de mulheres, aos poucos vem se abrindo para a entrada dos homens, principalmente nos níveis de ensino médio (Codo & Gazzotti, 1999). Investigação realizada por Moura (1997) com professores revela, no entanto, que as mulheres são grupo majoritário e possuem pior situação quanto à remuneração, titulação e localização hierárquica no sistema escolar, quando comparadas aos seus colegas do sexo masculino.

Na relação entre gênero e Burnout, Farber (1991) diz que estudos têm mostrado serem professores do gênero masculino mais vulneráveis ao Burnout que os do gênero feminino, levantando a suposição de que as mulheres são mais flexíveis e mais abertas para lidar com as várias pressões presentes na profissão de ensino. Burke e cols. (1996) confirmam este resultado através de estudo realizado, ou seja, professores do sexo masculino possuíam pontuações mais altas em despersonalização, porém não foi encontrado o mesmo resultado para exaustão emocional. Burke e Greenglass (1989) também encontraram altas pontuações em despersonalização em professores homens, identificando nível global de Burnout maior em homens do que em mulheres. Ao analisarem este aspecto do ponto de vista do suporte social recebido por um e por outro grupo, concluíram que mulheres possuem maior rede de suporte social afetivo.

Estudo transcultural realizado por Pedrabissi, Rolland e Santinello (1993) identificou a existência de diferenças nos níveis de Burnout entre professoras italianas e francesas. No grupo francês existia somente diferença significativa entre homens e mulheres na dimensão de despersonalização. No italiano, a diferença ficou evidente nas dimensões de exaustão emocional e despersonalização, confirmando a hipótese de que o contexto cultural influencia os resultados de Burnout.

Estudo com professores espanhóis desenvolvido por Fernández-Castro, Doval e Edo (1994) encontrou maiores índices de Burnout em mulheres. Já outros estudos, também com professores, não encontraram diferenças significativas entre homens e mulheres (Mohammed, 1995; Aluja, 1997; Isorna, 1998; Carlotto, 2002b). Na relação com alunos, Schwab e Iwanicki (1981) identificaram que professores homens apresentavam maior número de comportamentos negativos que as mulheres.

Tendo em vista o acima exposto, o presente estudo buscou verificar se a variável gênero estabelece diferenças significativas nos níveis e no processo da Síndrome de Burnout em professores de escolas da rede pública. Também verificou se variáveis demográficas, profissionais e comportamentais se associavam ao Burnout de forma diferenciada em professores do gênero masculino e feminino. Assim, o referencial teórico orientou o trabalho para as seguintes hipóteses: H1 professores do gênero feminino apresentam maior índice de Exaustão Emocional e menor de Despersonalização e Realização Profissional que professores do gênero masculino; H2 Variáveis demográficas, profissionais e comportamentais se associam às dimensões de Burnout de forma diferenciada em professores do gênero masculino e feminino. Para tanto, buscou-se desenvolver um estudo epidemiológico observacional analítico de corte transversal.

 

MÉTODO

Participantes

A amostra, de conveniência, se constituiu de 61 homens e mulheres que exercem atividade docente em escolas públicas da cidade de Canoas, independente de estado civil e nível de ensino. Esta foi subdividida em 31 homens e 30 mulheres. Todos os participantes exerciam a atividade docente há mais de seis meses e não haviam estado em licença ou afastados do trabalho há menos de dois meses da coleta de dados.

Instrumentos

Para levantamento das variáveis demográficas, profissionais e comportamentais foi utilizado um questionário elaborado especificamente para o estudo visando atender seus objetivos, tendo como base o referencial teórico sobre a Síndrome de Burnout em professores. Foi realizado um estudo piloto com dez (N=10) professores a fim de verificar o adequado entendimento das questões que compõem os instrumentos.

Para avaliar a Síndrome de Burnout foi utilizado o MBI – Maslach Burnout Inventory – forma ED - professores, que apresenta tradução para a língua portuguesa validada por Benevides-Pereira (2001). O inventário é auto-aplicado e totaliza 22 itens. Em sua versão americana, a freqüência das respostas é avaliada através de uma escala de pontuação que varia de 1 a 7. Utilizamos, neste estudo, a versão MBI-ED para professores com validação para o uso no Brasil por Benevides-Pereira (2001). Utilizou-se ainda o sistema de pontuação de 1 a 5, também usado por Tamayo (1997) na adaptação brasileira do instrumento, pois foi verificado que os sujeitos apresentavam dificuldade em responder muitos itens dos instrumentos, devido à especificidade dos critérios da escala original. Empregamos, portanto, 1 para “nunca”, 2 para “algumas vezes ao ano”, 3 para “algumas vezes ao mês”, 4 para indicar “algumas vezes na semana” e 5 para “diariamente”.

Altos escores em exaustão emocional e despersonalização e baixos escores em realização pessoal (esta subescala é inversa) indicam alto nível de Burnout (Maslach & Jackson, 1981). Na versão original americana, a consistência interna das três dimensões do inventário é satisfatória, pois apresenta um alfa de Cronbach que vai desde 0.71 até 0.90 e os coeficientes de teste e re-teste vão de 60 a 80 em períodos de até um mês (Maslach & Jackson, 1981). Pepe-Nakamura (2002), em estudo com uma amostra brasileira, encontrou 0.82 para Exaustão Emocional, 0.77 para Despersonalização e 0.76 para a Realização Profissional.

Procedimento de coleta de dados

Primeiramente foi realizado um contato com a direção das escolas e com a orientadora pedagógica, no qual foi apresentado o objetivo do estudo a fim de obter a autorização e o apoio para a aplicação dos instrumentos. As escolas cederam um espaço de aproximadamente 20 minutos na hora do intervalo para a aplicação do instrumento. Os questionários foram aplicados em grupo. Quando da ausência de alguns professores, estes eram procurados posteriormente e convidados a responder de forma individual, até que se alcançasse o número desejado para a amostra.

Foram realizados os procedimentos éticos conforme resolução 196 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), no que diz respeito à pesquisa com seres humanos (Hutz & Spink, 1996). Foi esclarecido aos professores e aos diretores das instituições de ensino tratar-se de uma pesquisa sem quaisquer efeitos avaliativos individuais e/ou institucionais e que as respostas e os dados referentes aos resultados das escolas seriam anônimos e confidenciais. Também foi esclarecido que não haveria, no relatório de pesquisa, resultados individualizados por escolas.

 

RESULTADOS

O Banco de Dados foi digitado em EXCEL e posteriormente analisado no pacote estatístico SPSS, versão 10.0. Foram calculadas medidas descritivas, médias e desvio-padrão, e utilizado o teste t de Student e de correlação de Pearson.

Ao caracterizarmos o grupo segundo o gênero, verificamos que a maioria das mulheres possui idade média de 36 anos, são casadas (63,3%), possuem um companheiro fixo (73,3%) e tem filhos (66,7%). Quanto aos homens, possuem idade média de 37 anos, são casados (60%), possuem companheiro fixo (77,4%) e têm filhos (58%).

No perfil profissional, identifica-se que 46,6% das mulheres possuem graduação ou especialização e 43,3% encontram-se cursando estes níveis de formação. Quanto aos turnos trabalhados os resultados evidenciam que 63,3% trabalham conjuntamente no turno da manhã e no tarde. Nesse grupo 44,8% dividem sua jornada de trabalho com atividades profissionais em outra escola e o mesmo percentual atuam em uma mesma escola em tempo integral. Atuam em atividades não docentes 10,3%.

Do grupo masculino, 58,1% possuem curso de graduação e especialização, sendo que 38,7% está cursando uma nova titulação. Com relação aos turnos trabalhados, 45,2% exercem suas atividades nos três turnos. Os resultados apresentaram que 58,1% trabalham também em outra escola, 32,3% possuem outra atividade não docente e somente 9,7% trabalham turno integral em uma única escola.

Com relação às variáveis comportamentais, a remuneração para 90% das mulheres é um complemento, para 6,7% é a maior renda da família e somente para 3,3% é a única renda familiar. Quanto a executar trabalho referente à escola em casa, 86,7% referem tal prática. A intenção de mudar de profissão não foi uma preocupação para 56,7% do total. Quanto à interferência da profissão na vida pessoal, 66,7% responderam afirmativamente a esta questão. Assim, 83,3% sentem que sua profissão causa-lhe estresse. Possuir uma atividade específica de lazer foi apontado por 63,3% das profissionais. Quanto a receber auxílio nas atividades domésticas, 80% indicam partilhar tarefas com outra pessoa.

No grupo masculino, 48,4% referem que a remuneração é a maior renda da família, 19,4% indicam ser a única renda familiar e para 32,3% é somente um complemento. Quanto a desenvolver trabalhos referentes à escola em casa, 93,5% dos professores afirmam que o fazem. Com relação à intenção de mudar de atividade profissional, 64,5% não apontou tal pensamento. A profissão interfere na vida pessoal de 61,3% dos professores, sendo considerada como uma atividade estressante para 67,7% dos respondentes A prática de lazer se faz presente para 77,4% dos professores, sendo que 83,9% dividem as atividades domésticas com outra pessoa.

No que diz respeito aos resultados de Burnout, verifica-se que as mulheres apresentam índices médios maiores que os homens em Exaustão Emocional e menores em Despersonalização, bem como em Realização Pessoal.

No entanto, resultado obtido através do teste t de Student não apontou diferenças significativas nas médias das dimensões por gênero, sendo importante destacar, porém, que os resultados obtidos na dimensão de Despersonalização indicando valor de p=0,063, isto é, no limite da significância, revelam uma tendência de aumento dos escores médios no gênero masculino. Na escala de Exaustão Profissional também quase houve uma diferença estatisticamente significativa (p=0,081), o que indica uma leve tendência da Exaustão Emocional apresentar-se mais elevada, conforme indicado na Tabela 1.

 

 

Por meio da análise de correlação de Pearson realizada no grupo feminino, foi identificada associação positiva significativa entre as variáveis idade e tempo de ensino com a dimensão de Exaustão Emocional, indicando que quanto mais elevada a idade e o tempo de profissão docente, maior a tendência de elevação do nível de desgaste emocional no trabalho. Também foi identificada neste grupo uma associação estatisticamente negativa e significativa do tempo de ensino e a dimensão de realização profissional, ou seja, quanto maior o exercício profissional, menor é o sentimento de realização no trabalho. Já no grupo masculino, nenhuma das variáveis apresentou associação com as dimensões da síndrome (Tabela 2).

 

 

Os valores r sobre a diagonal correspondem ao grupo feminino e os valores abaixo da diagonal ao grupo masculino.

Análise realizada através do teste t de Student identificou, no grupo feminino, associação entre a variáveis comportamentais mudar de profissão e a variável perceber a profissão como estressante e a dimensão de Exaustão Emocional. Professoras que pensavam em mudar de profissão e tinham a percepção de que sua profissão era estressante possuíam maiores índices de desgaste emocional no trabalho. Já possuir uma atividade específica de lazer e perceber que a atividade profissional interfere na vida pessoal não apresentaram associação com nenhuma dimensão de Burnout, conforme evidenciado na Tabela 3.

 

No grupo masculino, somente a variável percepção de que a profissão é estressante evidenciou associação com a dimensão de exaustão emocional. Homens que não possuíam esta percepção apresentavam maiores índices de desgaste emocional quando comparados aos seus colegas que acreditavam ser a profissão fonte de estresse, conforme demonstrado na Tabela 4.

 

 

DISCUSSÃO

O objetivo inicial desta pesquisa foi verificar se a variável gênero estabelecia diferenças significativas nos níveis e no processo da Síndrome de Burnout em um grupo de professores de escolas da rede pública. Os resultados obtidos não confirmam a primeira hipótese do estudo, uma vez que não foi encontrada diferença estatisticamente significativa no que diz respeito ao gênero e as dimensões de Burnout. Esse resultado confirma os obtidos em alguns estudos brasileiros (Moura, 1997; Carlotto, 2002b; Pepe- Nakamura, 2002), indo, no entanto, de encontro aos encontrados na literatura internacional (Farber, 1991; Fernádez-Castro & colsl, 1994; Burke & cols., 1996).

Os resultados nos remetem a considerar o que tem sido levantado por Reichel e Neumann (1993). Os autores pontuam que cresce na literatura sobre o tema a idéia de que o estresse e o Burnout podem ter diferentes configurações dependendo do contexto cultural, social e político da população em que é estudado. Segundo Moura (1997), certos aspectos da manifestação do Burnout estão presentes em qualquer contexto sociocultural, embora juntamente com as semelhanças, as manifestações assumem por vezes contornos específicos determinados pelas particularidades no ambiente de trabalho, na organização, bem como nos aspectos socioculturais mais amplos, presentes nas diferentes sociedades.

Assim, cabe destacar o que refere Codo (1999) quando afirma que mudanças ocorreram desde a tradicional distinção do trabalho homem-mulher, pois, o que era até pouco tempo o lugar da mulher, uma força de trabalho dedicada totalmente à família, é hoje um espaço mais bem distribuído entre homens e mulheres, devido à entrada da mulher no mercado de trabalho. Na percepção de Codo (1999) e Borsoi (1995), já é bastante comum homens compartilharem as responsabilidades e as preocupações com a criação dos filhos e as tarefas domésticas com as mulheres. Essa questão pode ser analisada juntamente com os resultados obtidos na variável comportamental que aborda a responsabilidade pelos cuidados domésticos, ou seja, a grande maioria dos participantes do estudo, independente da variável gênero, afirma dividir tarefas referentes à organização doméstica com outra pessoa, indicando uma maior proximidade entre os papéis desempenhados e o que era tradicionalmente conferido às mulheres.

Outro aspecto importante é que homens e mulheres sentem que o trabalho é fonte de realização e gratificação pessoal no trabalho, não confirmando a primeira hipótese do estudo. Esse resultado contraria Maslach e Jackson (1985), que referem existir uma maior intensidade de insatisfação no trabalho entre os homens, uma vez que esta se vincula às expectativas de sucesso, competição e desenvolvimento, elementos geralmente mais identificados com o papel masculino.

É importante destacar que, mesmo não tendo sido identificadas diferenças significativas entre os grupos, os resultados apontam o limite da significância entre a exaustão emocional e despersonalização no grupo feminino. Há uma leve tendência do grupo feminino apresentar maior desgaste profissional e menor sentimento de distanciamento de sua clientela. Esse resultado pode indicar alguns resquícios históricos da profissão docente e do papel feminino neste contexto. A exaustão emocional nas mulheres pode ser associada com a idéia de que estas são mais emotivas, mais envolvidas com o cuidado, alimentação e preocupação com o bem estar do próximo. A escolha da carreira docente pode estar relacionada com o papel feminino em nossa cultura , em que as mulheres são vistas como mais adequadas para esta função (Maslach & Jackson, 1985; Apple, 1995; Carvalho, 1995). Esses aspectos também se relacionam à dimensão de despersonalização, uma vez que homens teriam mais dificuldade de expressar seus sentimentos, conforme destacam Maslach e Jackson (1985). Os resultados obtidos parecem confirmar estudo realizado por Pedrabissi e cols. (1993) com professores italianos e franceses, que destaca a relevância de fatores culturais e contextuais nos resultados de Burnout.

Já a segunda hipótese da investigação, a de que variáveis demográficas, profissionais e comportamentais se associavam de forma diferenciada nos dois grupos, foi confirmada, pois no grupo feminino houve associação entre a idade e o tempo de atuação profissional e a exaustão emocional. Pode-se entender que à medida que a idade e o tempo de atividade profissional aumentam neste grupo, aumenta também o sentimento de desgaste, provavelmente devido ao maior envolvimento e à cobrança social depositada ainda na professora com relação às atribuições e ao papel docente.

Cabe destacar que as mulheres possuem maior tempo integral na escola, contrariamente ao grupo masculino, que atua em outra escola e também em outra atividade, ficando menos expostos aos estressores organizacionais, conforme afirma Carlotto (2002b), ocasionando uma tendência de aumento do sentimento de baixa realização profissional. Assim, identifica-se que somente no grupo feminino o pensamento de mudar de profissão relacionouse à exaustão emocional, podendo este resultado ser entendido como uma possível conseqüência de Burnout. De acordo com Schwab e Iwanicki (1982), professores apresentam tendência em abandonar seu trabalho e sua profissão como conseqüência da síndrome.

Já no grupo masculino não houve associação com qualquer variável demográfica e profissional, havendo somente com a variável comportamental, uma vez que homens que não reconheciam sua profissão como estressante apresentavam maior exaustão emocional. Esse resultado pode ser entendido dentro da perspectiva que aborda a despersonalização em homens, pois, na medida em que estes expõem menos seus sentimentos, também poderiam não reconhecer os fatores de estresse na sua profissão, não impedindo, no entanto, maiores sentimentos de desgaste do que seus colegas que acreditam ser esta uma profissão estressante.

Há que se ter cautela com relação aos resultados obtidos, uma vez que estes dizem respeito a um grupo particular, não sendo, portanto, passíveis de generalização. O estudo aponta para a necessidade de aprofundamento dos resultados obtidos, uma vez que a literatura não tem sido conclusiva sobre a influência do gênero no surgimento de Burnout. Assim, sugere-se a realização de novos estudos, com outros delineamentos em contextos diferenciados.

O entendimento desta questão mostra-se relevante, na medida em que políticas de promoção e prevenção em saúde ocupacional possam ser planejadas de acordo com as especificidades dos grupos populacionais, neste caso, professores e professoras. Segundo Rohlfs (1999), os papéis atribuídos e assumidos por homens e mulheres são importantes na explicação de seu estado de saúde. Por esta razão, é importante não só estudar o impacto que o estilo de vida, o uso do tempo e as condições de trabalho tem na saúde das pessoas, mas também deve-se tentar evidenciar quais os pontos em que estes impactos são desiguais segundo o gênero.

 

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Recebido em: 12/03/03
Revisado em: 03/06/03
Aprovado em: 08/10/03

 

1 Acadêmica do Curso de Psicologia da Universidade Luterana do Brasil.
2 Mestre em Saúde Coletiva e docente do Curso de Psicologia da Universidade Luterana do Brasil.

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