SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.16 issue1Stimulating creativity of teachers of mathematics and student motivationViolence among peers: a case study in a public school in Esteio/RS - Brazil author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Psicologia Escolar e Educacional

Print version ISSN 1413-8557

Psicol. Esc. Educ. vol.16 no.1 Maringá Jan./June 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-85572012000100008 

ARTIGOS

 

Educadores e a morte

 

Educator in face of death

 

Educadores y la muerte

 

 

Maria Julia Kovács

Professora livre docente do Instituto de Psicologia USP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A morte interdita e a escancarada convivem no século XXI. Crianças e jovens podem ter a morte no seu cotidiano, pela perda de pessoas significativas, pela violência e pelos meios de comunicação. A morte invade também o contexto escolar, com crianças e jovens enlutados ou mortes que ocorrem nas instituições de educação. O artigo discute como a instituição escolar e os educadores veem a morte e sua implicação neste processo, suas necessidades e dificuldades. São apresentadas propostas para inclusão do tema da morte nas atividades pedagógicas regulares ou em instituições especiais e na formação de educadores.

Palavras-chaves: Morte, crianças em idade escolar, educadores.


ABSTRACT

Death, both hidden and wide open, live together in the XXI century. Children and young people face death in their daily lives by seeing the loss of significant relatives by living under violence and by viewing and hearing the media. Death also pervades the school environment with children and young people bereaved or because of deaths that occur in educational institutions. In this article we discuss how the school and educators see death. We study their involvement in this process, their needs and difficulties. We make proposal for inclusion of this theme the regular educational activities or in special institutions and teacher education.

Keywords: Death and dying, school age children, educators.


RESUMEN

La muerte velada y la explícita conviven en el siglo XXI. Niños y jóvenes pueden tener la muerte en su cotidiano, por la pérdida de personas significativas, por la violencia y por los medios de comunicación. La muerte invade también el contexto escolar, con niños y jóvenes de luto o muertes que ocurren en las instituciones de educación. El artículo discute como la institución escolar y los educadores ven la muerte y su implicación en este proceso, sus necesidades y dificultades. Se presentan propuestas para inclusión del tema de la muerte en las actividades pedagógicas regulares o en instituciones especiales y en la formación de educadores.

Palabras Clave: Muerte, niños y adolescentes, educadores.


 

 

Introdução

Num mapeamento da literatura envolvendo o tema da morte nas escolas, em livros, teses e artigos em periódicos sobre a questão da morte, verificamos que há poucos textos que a abordam em relação a educadores. Os poucos artigos que acessamos apontam para a falta de discussão sobre a questão da morte na escola (Kovács, 2010).

Schilling (2002), ao abordar a interdição do tema da morte na sociedade, afirma que há poucos estudos sobre o tema porque é considerado assunto particular. Por outro lado, meios de comunicação expõem o tema maciçamente. Endo (2005) aponta que há cada vez mais imagens de morte e violência, levando à banalização pela superexposição, perdendo-se o potencial de alarme ou impacto. Mecanismos de defesa para lidar com sofrimento envolvem supressão, adiamento ou negação. Crianças e jovens podem ser espectadores involuntários de sofrimento e imagens de violência, consumindo imagens de morte no sofá. Cenas de sofrimento e de desgraça são repetidas à exaustão acompanhadas de texto superficial com rápida expressão emocional, sem reflexão ou elaboração, seguidas por amenidades ou propagandas. O risco desta superexposição de morte e violência pode levar, principalmente para jovens, à ideia de que a morte é evento banal, cotidiano, comum, impessoal, a não ser que entre as vítimas se encontre alguém conhecido (Kovács, 2003).

Rodriguez (2010) aponta que é preciso refletir por que há tantas mortes injustificadas de jovens, envolvendo mortes escancaradas, que invadem a vida das pessoas sem proteção ou antídotos provocando fortes sentimentos de vulnerabilidade. Exemplos de morte escancarada são situações de violência traumáticas, catástrofes, desastres, homicídio e suicídio.

É preciso considerar com cuidado o bullying como exemplo de morte simbólica para crianças e jovens na atualidade, envolvendo exclusão, isolamento, humilhação, relações desiguais, provocando medo, opressão, maus tratos, angústia e sofrimento. Podem ocorrer brigas, agressões físicas e, em casos extremos, até morte. Pode causar depressão, baixa autoestima, receio de expressar emoções, problemas de relacionamento interpessoal, uso excessivo de álcool e drogas, automutilação e, em casos mais graves, tentativa de suicídio. Crochik (1995) aponta situações de humilhação sofridas e perpetuadas e os preconceitos em relação à diferença. O local por excelência do bullying é a escola. No cyberbullying que acontece na Internet são incluídas difamações em páginas de relacionamento. Nesta via, garante-se anonimato e impunidade. Um dos problemas mais complicados a ser enfrentado é que vítimas de bullying têm medo de denunciar e sofrer represálias, como aponta Rodriguez (2010).

As crianças e a morte

Torres (1999) realizou vários estudos sobre o desenvolvimento do conceito de morte em crianças, considerando seus atributos principais: irreversibilidade, universalidade, funcionalidade e causalidade. O período pré-operacional oferece as maiores preocupações, pois crianças nesta fase ainda não dominam os atributos acima referidos e, quando ocorrem mortes, precisam ser informadas sobre a irreversibilidade e a universalidade. Questões complexas como pensamento mágico onipotente, culpa, egocentrismo, animismo, precisam ser abordadas (Kovács, 1992, 2003; Lima, 2007; Torres, 1999).

No período das operações concretas as crianças já distinguem seres animados e inanimados, embora ainda apresentem dificuldades com abstrações e aspectos biológicos essenciais. As experiências de morte vividas pela criança podem acelerar o processo de compreensão de seus principais atributos.

Segundo Schoen, Burrough e Schoen (2004), o luto é período de crise para a criança que vive este processo observando adultos próximos. A expressão do luto terá características e peculiaridades de acordo com ritos familiares e a cultura em que vive. Mazorra e Tinoco (2005) observam que crianças podem apresentar tristeza, perda de interesse, culpa e problemas na escola, identificação com a pessoa morta, pânico, medo e culpa por se acharem responsáveis pelo que ocorreu, manifestação do pensamento mágico onipotente. Raimbault (1979) afirma que o sentimento de culpa pode ser mais forte quando ocorre morte de irmãos. A morte de alguém próximo também pode trazer a possibilidade da sua própria. Como crianças ainda não se expressam bem com palavras, outros recursos são fundamentais, como brinquedos ou desenhos. Buscam o adulto como apoio, que pode acolher e legitimar seus sentimentos, responder perguntas, numa tentativa de ordenar o mundo abalado após perdas significativas. O luto atinge o sistema familiar, tendo que se estabelecer novas organizações para lidar com esta situação, como apontam Bromberg (1996, 1998), Walsh e Mc Goldrick (1998) e Worden e Silverman (1996).

O aumento da violência nas metrópoles atinge também crianças. Lione (2005) aponta que, quando estas perdem irmãos e amigos, pensam que esse fato pode ocorrer com elas, aumentando sua sensação de vulnerabilidade. É fundamental esclarecer que o eventual desejo de destruição ou morte do irmão não foi o que causou sua morte.

Harris (1991) verificou que crianças, ao viverem perdas de pessoas próximas, manifestam sintomas físicos e psíquicos, problemas escolares, baixa autoestima, ansiedade. Esclarecimentos precisam ser dados para ajudá-las a lidar com a culpa, que pode dificultar o processo do luto.

Em tempos de morte interdita tira-se a morte de cena das crianças para poupar o sofrimento argumentando-se que não entendem o que está acontecendo. Falar com a criança abertamente sobre o tema ajuda a enfrentar medos que podem surgir pelo desconhecido.

Lima (2007) aponta dificuldades dos adultos para se comunicar com crianças sobre a morte. Não responder a perguntas ou silenciar com o intuito de protegê-las pode ser uma forma de defesa quando não sabem o que fazer e a criança também se cala. Torres (1999) propõe que família ou adultos próximos sejam ouvintes compreensivos, observando cuidadosamente a experiência da criança, considerando seu estágio de desenvolvimento. Ser bom ouvinte representa estar disponível ao que a criança expressa, compartilhando sentimentos, lidando com a culpa, lembrando que não há receitas ou formas padronizadas para se falar sobre a morte.

Rituais ajudam a elaborar perdas de forma construtiva. Para Schachter (1991-1992) a criança é membro da família, por isso é importante que participe dos rituais propostos. O contexto social dos rituais ajuda na aquisição de significados, assim crianças têm oportunidade de se despedir do falecido, tendo seus sentimentos reconhecidos. Rituais oferecem conforto e suporte, respondendo assim à pergunta de familiares e professores sobre a participação de crianças em velórios e enterros. Numa sociedade que interdita a morte, há crença de que esses eventos poderiam causar sofrimento à criança. Não é o que se observa, já que nessas cerimônias emoções podem ser expressas, acolhidas e compartilhadas e a criança se sente parte da família.

Gonçalves e Valle (1999) realizaram estudo com 11 crianças de 9 a 15 anos. Foram estudados: limitações impostas pela doença e tratamentos; interferências destes no processo de escolarização da criança motivadas pelo seu afastamento; visão da escola; lembranças de situações negativas vividas durante a hospitalização; reflexão sobre desempenho escolar; esforço para continuidade das atividades na escola. Os participantes sentiam vergonha pelas alterações físicas da doença, como perda de cabelo, magreza, palidez, inchaço e uso de máscaras para evitar contaminação. Tinham medo de serem esquecidos pelos amigos. Percebiam suas dificuldades e ficavam desanimados vendo o avanço pedagógico de seus colegas. Segundo as autoras, algumas crianças amadurecem pela experiência da doença e tratamentos a que foram submetidas. Observaram que seus professores não conhecem a doença e não sabem como lidar com a perspectiva da morte, mostrando dificuldades na sua reintegração. Crianças doentes querem ser tratadas como sempre foram.

Silva e Valle (2008) apontam que não é só o prejuízo acadêmico que precisa ser considerado e sim o isolamento, abandono social, perda de contato com os colegas. Observando-se estes problemas com os alunos doentes reintegrados na escola, cronogramas precisam ser flexibilizados, o que nem sempre acontece.

Crianças e adolescentes com câncer podem apresentar efeitos tardios dos tratamentos, como apontam Perina, Mastellaro e Nucci (2008). Quimioterapia e radioterapia podem levar à obesidade, emagrecimento, queda de cabelos, modificando a aparência e a imagem corporal, influenciando na autoestima de jovens, prejudicando seus relacionamentos. Podem ocorrer déficits intelectuais, de memória e de raciocínio, dificultando o desempenho escolar. O conhecimento desses aspectos por pais e professores ajuda na reintegração destes jovens na sociedade.

Muitas equipes de saúde não consideram como sua a tarefa de orientar educadores para lidar com a criança doente. Os educadores, por sua vez, também não sabem o que fazer e não consideram esta como sua tarefa, principalmente diante de uma agenda lotada.

Silva e Valle (2008) sugerem a criação de atividades de capacitação para educadores incluindo informações sobre doenças, tratamentos e como lidar com crianças e jovens doentes. Esta proposta deveria ser estendida para os colegas de sala, que convivem com o jovem no seu processo de recuperação, respondendo às questões e possíveis processos de identificação. Crianças e jovens enfermos serão assim acolhidos em suas limitações, tendo suas potencialidades valorizadas. A coordenação das escolas precisa ter flexibilidade e consideração com faltas das crianças por causa dos sintomas da doença, efeitos colaterais dos tratamentos. Como exemplo de parceria entre instituições, os trabalhos escolares podem ser levados ao hospital, buscando-se criar melhores condições no leito, com adaptações necessárias.

Adolescentes e a morte

Em consulta ao Núcleo de Estudos sobre a Violência da USP (www.nevusp.org.br), observamos dados que indicam a importância da abordagem do tema da morte na escola. O levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em 2008 aponta o índice de mortes de jovens de 15 a 24 anos por causas externas, chegando a 68% nesta faixa etária. O Sudeste do país lidera estas estatísticas, mostrando que 87% dos professores sofrem violência na sala de aula, 70% têm conhecimento sobre uso e tráfico de drogas e 46% têm informação de que os alunos estão armados.

Segundo esse mesmo grupo de pesquisa, há superposição de vários problemas para jovens na atualidade: desigualdade na educação e saúde, moradia, trabalho, baixa renda e escolaridade. Houve aumento significativo de suicídios na faixa de 15-24 anos, resultado de muitas pressões: inserção social, vestibular, emprego.

A morte não deveria estar presente no período da adolescência, já que jovens estão ativamente envolvidos na construção de seu futuro, na consolidação da identidade e na definição da profissão. Infelizmente não é o que mostram as estatísticas atuais. A questão é como traçar a fronteira entre experimentar potência e ousadia, desafiar limites, situações tão comuns na adolescência e se expor a riscos efetivos de vida, que precisam ser conscientizados.

Rodriguez e Kovács (2006) apontam que o crescimento da mortalidade entre jovens pode estar relacionado também com comportamentos autodestrutivos. Cotter (2003) questiona como mudar a perspectiva de jovens que acreditam que a morte não vai acontecer com eles, passando da negação para conscientização.

Em pesquisa1 sobre o tema da morte na adolescência e sua inserção na escola, perguntamos a 25 alunos do curso de Psicologia - USP com idades variando de 19 a 26 anos como viam a questão da morte e os adolescentes. A escolha desse grupo foi pela proximidade em termos de idade e etapa de desenvolvimento. Os estudantes responderam que a morte para adolescentes está distante, conflitando com o sentimento de onipotência, escancarando sentimentos de invulnerabilidade, às vezes com irresponsabilidade. Pode também causar incerteza, angústia, ligadas ao vazio e falta de perspectiva. Os alunos enfatizam a necessidade um cuidado maior para este grupo.

Para alguns adolescentes, a primeira experiência de morte é de pessoas com idade próxima, muitas vezes, de forma violenta. Skallar e Hartley (1990) afirmam que a morte, principalmente de pares e amigos, confronta a ideia de imortalidade presente neste período do desenvolvimento. Harrison e Harrington (2001) afirmam que a vivência do luto pode ser experiência marcante para jovens, principalmente quando é a primeira morte de pessoa significativa que vivenciam. Alguns se isolam, afastam-se dos familiares, dando a impressão de que não se importam com o acontecido. Liotta (1996) aponta que a negação da morte pelo adolescente pode dificultar o processo de luto, aumentando o sentimento de revolta e não aceitação da situação. Mortes violentas por acidentes, homicídios, suicídios podem tornar o luto complicado pelo caráter inesperado, envolvendo perdas múltiplas e sequelas físicas. Christ (2002) aponta que há pouco material sobre o luto na adolescência. Em nosso meio, podemos citar o estudo de Pereira (2004), que pesquisou o processo de luto em adolescentes que perderam seus pais.

As situações de perda são somadas às várias crises presentes na adolescência, despertando no jovem a sensação de vulnerabilidade em relação à própria vida e à dos amigos, como apontam Balk e Corr (2001), Griffa e Moreno (2000), Matheus (2002) e Rask (2002). Peluso (1998) afirma que nas grandes cidades há o agravamento dessas crises por conta de mudanças no núcleo familiar, separação, desestruturação e solidão, afetando o jovem de forma significativa.

Adolescentes podem sentir vergonha de expressar sentimentos, vistos como sinal de fraqueza. Procuram os pares, que também não sabem o que fazer. Alguns adolescentes sentem-se vulneráveis, buscando alívio do sofrimento no uso de álcool e drogas, como apontam Fleming e Adolf (1986). Parkes (1998) destaca que jovens apresentam sentimentos de raiva em situação de crise e que, se não forem elaborados, poderão resultar em comportamento agressivo e violência.

Domingos (2003) realizou pesquisa com adolescentes que perderam pessoas significativas por homicídio, suicídio e AIDS, situações carregadas de forte estigma. Essas situações podem levar a um não reconhecimento do luto porque são formas de perdas acompanhadas de violência e preconceito, como apontam Casellatto (2005) e Doka (1989). Nesses casos, família e escola deveriam trabalhar em parceria e não empurrar a tarefa como se não coubesse realizá-las. Às vezes o que se observa é que ambos os lados ficam na defensiva, família sentindo-se sem condições por estar sofrendo muito e educadores por não estarem preparados e também porque consideram que não é sua função.

Domingos desenvolveu sua pesquisa em escolas públicas do município de São Paulo, nas quais a violência estava presente no cotidiano dos alunos. Verificou que a comunidade escolar tinha dificuldades em lidar com a morte, não havia proposta de cuidados e acolhimento dos alunos. Em algumas escolas, havia educadores que se preocupavam em cuidar e, em outras, a questão era ignorada. Os jovens citaram os colegas como principais fontes de apoio, corroborando os estudos já mencionados. Muitos jovens relataram que não confiavam nos professores e a escola era pouco receptiva. Referiram dificuldade de voltar às atividades escolares após a perda de pessoas significativas. Essa situação está em conformidade com os dados de Corr (1998/1999) sobre o não reconhecimento do luto vivido pelos adolescentes: os jovens podem permanecer como "enlutados anônimos", perdidos entre colegas, sem ter reconhecido seu sofrimento.

Muitos adolescentes não sabem lidar com sentimentos de vulnerabilidade, que não reconhecem, mesmo perdendo amigos próximos. A vulnerabilidade atinge o sentimento de potência e controle tão fundamentais para a consolidação da identidade. Fica muito difícil congregar onipotência e vulnerabilidade, expondo um processo de identificação, como apontam Servaty e Pistole (2006/2007).

Adolescentes buscam confirmação de sua identidade, muitas vezes, em confronto com pais e professores. O grupo de amigos, a turma, a tribo podem se constituir então em referência para jovens, oferecendo segurança, proximidade e reafirmação da identidade, como apontam Ringler e Hayden (2000). Weiss (1991) afirma que o jovem não procura figuras parentais e sim os pares, figuras amorosas e amigos como principais fontes de apoio e encorajamento. Creenshaw (1997) confirma a importância dos amigos nas horas de crise e aponta que experiências de morte provocam amadurecimento rápido destes jovens

O adoecimento atinge de forma significativa os jovens. A aparência física é essencial para constituição da identidade. Aumento ou diminuição de peso, sensação de fragilidade causada pela doença trazem problemas emocionais que precisam ser cuidados. Segundo Perina, Mastellaro e Nucci (2008), o temor de ser ridicularizado faz com que adolescentes doentes se afastem dos colegas.

Rodriguez (2005) pesquisou adolescentes com o foco principal de compreender os altos índices de mortalidade nesta fase de desenvolvimento. Quais fatores podem contribuir para compreender e transformar esta realidade? O estudo realizado teve como objetivo observar como adolescentes se referiam à morte após assistirem a um filme didático sobre o tema da morte para adolescentes2. A autora investigou se o filme aborda o tema da morte de maneira adequada para adolescentes, se é recurso didático para debater o tema na escola. Participaram desta pesquisa adolescentes do ensino médio de duas escolas da cidade de São Paulo. Numa das escolas participaram 11 adolescentes e em outra, 37 com idade média de 16 anos.

O filme mencionado inclui cenas de esportes radicais, perda de amigos e irmãos, violência, amor, sexo, uso abusivo de drogas e álcool e suas consequências, transtornos alimentares, acidentes, tentativas de suicídio, entre outras. As cenas buscam trazer visão realista da situação, focalizando a possível vulnerabilidade e fragilidade a que os adolescentes possam estar submetidos. O filme foi apresentado aos jovens e posteriormente se abriu o debate sobre temas ligados à morte. Investigou-se a repercussão do filme para pensar questões como: uso de drogas, risco de acidentes, contaminação pelo vírus HIV, busca do corpo ideal, suicídio e exercício irresponsável da sexualidade.

A autora observou que adolescentes esperavam cenas mais reais sobre a morte, maneiras de enfrentá-la e não como é provocada, pois esse fato já é conhecido, pela exibição cotidiana da violência pela TV. As cenas sobre suicídio e drogas tão temidas pelos adultos foram aceitas de forma natural pelos jovens, que as consideram como fazendo parte do seu dia a dia.

Jovens podem ser auxiliados na elaboração do luto. Nesta fase da vida, há desenvolvimento do pensamento formal com potencialidade para abstrações, por isso é importante estimular o jovem a fazer escolhas e expressar seus argumentos Neste período, a ideia da morte se consolida, a discussão pode ser abrangente, permitindo reflexão. Jovens podem discutir e colaborar para a elaboração de programas de acolhimento de alunos que vivem situação de perda.

Educadores e a morte

Educadores precisam entrar em contato com sua visão de morte, seus processos de luto, já que exercem influência significativa em seus alunos, atentos às suas palavras e ações. E importante haver espaço para emoções e sentimentos, favorecendo a comunicação.

Sukiennik (2000) aponta que educadores podem perceber sinais de luto complicado, ajudando no encaminhamento de seus alunos. Mudanças de comportamento, faltas, quedas de rendimento e comportamentos autodestrutivos são indícios importantes de problemas. Entre as dificuldades apontadas para lidar com a morte, educadores referiram-se a: resistência, falta de preparo, necessidade de reforma curricular para evitar sobrecarga de trabalho, estabelecer parcerias com o meio acadêmico e limites pessoais.

Segundo Mahon, Goldberg e Washington (1999), professores se sentem desconfortáveis ou constrangidos quando precisam abordar o tema com seus alunos. Afirmam que o currículo já está montado e não há possibilidade de se abrir espaço para além do previsto. Esses autores verificaram que menos de um terço dos professores se sentem preparados para lidar com o tema da morte com seus alunos, a maioria acha que é importante que a criança tenha espaço para lidar com o tema. Entretanto, não cabe a eles cuidar desse aspecto, a responsabilidade é de profissionais especializados.

McGovern & Barry (2000) realizaram estudo transversal sobre ensino e atitudes envolvendo pais e professores de crianças de 5 a 12 anos, com 119 pais e 142 professores na Irlanda. Observaram o desconforto dos adultos ao lidarem com o tema da morte com as crianças. Professores pensavam que esclarecer e acolher crianças que vivem situações de perda e morte era problema dos pais e que, se interferissem, poderiam provocar conflitos.

Rodriguez (2010) realizou pesquisa sobre abordagem do tema da morte no contexto escolar. Entrevistou sete educadores de escola pública e privada. Os eixos temáticos foram: formação e trajetória de profissionais de educação; morte na sociedade atual: questões pessoais, dificuldades, sentimentos; morte no contexto escolar; experiências vividas envolvendo morte; suporte e comunicação para abordar o tema da morte com adolescentes; opinião sobre a abordagem do tema na escola; disponibilidade do educador para se preparar; busca do educador mais sensível; preparação do educador; inserção do tema da morte em atividades pedagógicas ou especiais. As seguintes questões emergiram: por que cursos de graduação e formação de educadores não incluem o tema da morte? Como a morte mobiliza educadores? Como conciliar atividades pedagógicas regulares quando ocorrem mortes na escola? O educador considera importante a abordagem do tema da morte nas escolas? Como professores pensam se preparar para lidar com as mortes concreta, simbólica ou escancarada na escola? Quem fará a preparação dos educadores? Como detectar lideranças? Como desenvolver a empatia nos educadores? Como inserir o tema da morte na escola como atividade didática, para complementar e ampliar a formação de crianças e jovens? Como escolher educadores que tenham mais sensibilidade e disposição interna para acolher alunos que sofreram perdas e que possam conduzir atividades em que o tema da morte se faça presente?

Ainda não há respostas para essas questões, mas elas fundamentam a reflexão sobre a preparação de educadores para lidar com o tema da morte na escola. Sims (1991) aponta como qualidade principal para essa tarefa a empatia em relação ao sofrimento dos alunos e oferecer acolhida. A proposta não é de psicoterapia, e sim cuidado, que educadores podem oferecer se houver disponibilidade psíquica.

Rodriguez (2005) observou que educadores consideram a visão de morte no âmbito pessoal e profissional de forma diferente. Não atribuem como sua tarefa o cuidado a crianças vivendo situações de morte e se referem a dificuldades de conjugar atividades pedagógicas e a questão da morte. Domingos (2003) discute o impacto de professores que se veem obrigados a confrontar a experiência de morte de seus alunos, afirmando não ter sido preparados para a tarefa. Afirmar que não houve preparo não encerra o problema, já que o assunto é frequente no cotidiano escolar. A questão é como oferecer subsídios aos educadores para que possam abordar a questão na escola. Como cuidar de jovens em risco de morte, que perderam pessoas próximas e que podem entrar em processo de luto com risco de adoecimento?

Rowling (1995) afirma que educadores, assim como profissionais de saúde, não têm seu luto reconhecido. Precisam continuar atividades de aula após perdas vividas no contexto escolar, sofrendo e sentindo desamparo. A ênfase nesses casos é que tudo deve continuar como se nada tivesse ocorrido, para não atrasar o programa, assim não há espaço para expressão do seu luto.

Em pesquisa com 478 professores do ensino fundamental de escolas participantes do Programa Amigos do Zippy3 que voluntariamente aceitaram responder a questões propostas, verificamos os seguintes resultados:

Ao perguntar a professores se pensam que o tema da morte deveria ser abordado nas escolas: 33% dos professores consideram o tema importante, significativo e interessante; 26% afirmam que pode contribuir para a criança lidar melhor com a morte; 23% consideram o assunto complexo, difícil e delicado e 15% afirmam que faz parte da existência, é natural. Afirmam que é necessário preparar-se para lidar com o tema. Embora não estejam preparados, a morte vai ocorrer com todos e por isso não deveriam evitar falar do assunto. Apontam dificuldades ao abordar questões religiosas. O tema deve ser tratado no cotidiano escolar, criando-se espaços de reflexão.

Ao especificar dificuldades em abordar o tema da morte, 38% dos professores apontaram as seguintes dificuldades: a morte é questão delicada e dolorosa, suscitando sentimentos fortes; pouca experiência com o tema; conflitos religiosos entre pais e professores; dúvidas sobre como lidar com crianças que viveram situação de morte; dificuldade de falar sobre a irreversibilidade da morte. Por outro lado, 37% dos professores mencionaram que não têm problemas com a questão da morte.

Para abordar o tema, os professores afirmam necessitar preparo e que a experiência pessoal é ferramenta importante. É necessário ter cuidado ao abordar o tema da morte levando em conta perguntas e sentimentos das crianças. Perguntamos aos educadores que tipo de ajuda gostariam de receber para facilitar a abordagem do tema e eles mencionaram palestras, leituras e filmes. Gostariam que especialistas pudessem orientá-los sobre como conversar com as crianças. Questões teóricas e práticas precisam ser contempladas, estratégias propostas envolvem discussões e dinâmicas de grupo. Gostariam de ter preparo para enfrentar conflitos, lidar com pais e se preparar emocionalmente, ampliando o leque de opções. Educadores propõem que o tema da morte seja abordado em disciplinas como filosofia, literatura, ética e biologia. Nenhum dos educadores propôs criação de disciplina específica sobre o tema. Indicaram que a questão deve ser abordada quando ocorrerem situações de morte na escola com alunos, professores e seus familiares.

Observou-se que os professores que participam do Programa Amigos do Zippy consideram que a morte é preocupação de educadores, refletem sobre o tema, suas necessidades e o tipo de preparação. Os dados dessa pesquisa serão aprofundados num projeto em andamento em que pretendemos mapear com precisão como é abordado o tema da morte em escolas da cidade de São Paulo e como educadores se posicionam a respeito desta questão.

A formação do educador precisa ser repensada para incluir a questão da morte, luto, comportamentos autodestrutivos e formas de acolhimento de crianças e adolescentes vivendo estas experiências. O educador com atitude empática pode ser mediador de conversas entre adolescentes, tornando a morte familiar. Quando se fala em preparo para lidar com a morte, não se propõem receitas, ou respostas gerais. Trata-se de questionamento, autoconhecimento, sensibilização e abertura pessoal.

É fundamental levar em conta o nível de desenvolvimento cognitivo das crianças para cuidar daquelas que viveram situações de perda e morte. O educador pode ter o papel de cuidador na escola, complementando o da família. Este papel é ainda mais importante quando pais estão abalados pelas perdas vividas e não conseguem cuidar dos filhos. Professores, pela convivência diária com as crianças, têm conhecimento de suas reações e atitudes e podem ser referência para elas neste momento de sofrimento e dor.

A questão da morte na escola

Segundo Mahon e cols. (1999), a escola não pode se furtar a discutir o tema da morte. Como crianças passam uma grande parte de sua vida na escola, não há como evitar a abordagem da questão, justificando-se que professores não estão preparados para lidar com o tema da morte, pela falta de pessoal ou de tempo. Outro argumento é que a morte é assunto pessoal e por isso não precisa ser discutido na escola.

A escola é local por excelência de socialização para crianças, por isso deveria oferecer suporte a alunos que vivem processos de perda e morte. O acolhimento é essencial para ajudar a significar perdas, promovendo prevenção de sofrimento, em parceria com os pais. Para Parkes (1998), é fundamental que a comunidade possa ajudar pessoas enlutadas e, no caso de crianças e jovens, a escola é parte integrante desse processo.

Para Domingos (2003), cabe à escola acolher, suportar e encaminhar casos complicados para atendimento. A escola não substitui a família, mas sua ajuda é importante pelo menos no período em que crianças e adolescentes estão na escola. As situações que necessitam de cuidados são: perda de pessoas significativas, de animais de estimação, morte de alunos por adoecimento ou acidentes, bullying, violência, exclusão e humilhação, hospitalização, separação ou distanciamento de familiares e automutilação.

Para Meirelles e Sanches (2005), a escola pode ajudar na prevenção de situações traumáticas e dificuldades no desenvolvimento emocional dos alunos. Rodriguez (2010) se refere à morte "ignorada" na sociedade, a ser debatida na escola incluindo família e comunidade, com adolescentes e educadores compartilhando ideias. Apoio e acolhimento ajudam a lidar com a morte concreta, simbólica e escancarada.

Não há evidências de que escolas realizem trabalhos com alunos enlutados. Uma das possíveis explicações é que para educadores cabe à família desempenhar essa tarefa. Jovens consideram como base de apoio principal os amigos, como já referimos.

Há muitas questões a pensar, ao ser confirmada a necessidade de incluir o tema da morte na escola: deverá ser atividade pedagógica regular ou esporádica, específica quando ocorrerem situações de perda e morte com alunos e educadores no âmbito escolar? Quem assumirá a responsabilidade por essa tarefa: o orientador educacional, o coordenador pedagógico, o psicólogo, os professores de determinada disciplina ou a escola deveria contratar especialistas externos? Longe de haver consenso, essas questões merecem reflexão. Foram mencionadas disciplinas que podem abordar o tema da morte: biologia, ecologia, ciências sociais, filosofia, literatura e história. Há recursos didáticos como filmes e livros que se tornam elementos facilitadores para abordagem do tema da morte, como, por exemplo, "Longas cartas a ninguém" sobre suicídio, escrito por Julio Emilio Braz (1998).

Antes de não autorizar o trabalho sobre o tema da morte na escola dever-se-ia, primeiramente, propiciar espaços para ouvir o que jovens têm a dizer sobre a questão, como aponta Rodriguez (2005). A autora apresenta os dados de uma escola pública da cidade de São Paulo cuja coordenadora pedagógica demonstrou grande interesse pela facilitação da comunicação sobre o tema da morte na escola. Considerou que a exibição de um filme sobre morte e adolescentes, já citado, seria trabalho oportuno nesta escola, pois a maioria dos alunos reside numa favela próxima. Destacou que as questões levantadas pelo filme fazem parte do cotidiano dos alunos, envolvendo drogas, comportamentos autodestrutivos, violência e medo da morte.

Os adolescentes assistiram ao filme e conversaram sobre o tema da morte na sua vida. A maioria dos participantes citou a morte de familiares, amigos, conhecidos e pessoas que cometeram suicídio como experiências pessoais. Foram também relatados acidentes de carro, afogamentos, coma alcoólico e pessoas que morreram devido a comportamentos autodestrutivos. A maioria dos participantes disse que conversa com a família, filhos e amigos quando conhecem algum colega que está apresentando comportamentos autodestrutivos, uso de álcool, direção perigosa e/ou consumo de drogas em festas e shows. Conversam com amigos sobre uso de drogas, conselhos que recebem dos pais e acontecimentos que aparecem na televisão.

Catorze adolescentes disseram que não precisam pensar na morte, pois o que mais querem no momento é viver, a morte só acontece com os mais velhos. Só pensam na morte quando assistem a filmes e quando conhecidos morrem. Um número maior de adolescentes (23) pensa com frequência na morte, por motivos diferentes: quando estão sozinhos buscam leituras ou reflexão; sentem medo de perder alguém que amam; pensam sobre o que vai acontecer após a morte; quando familiares adoecem; a violência nas ruas e vivência de situações de risco.

A escola deveria abordar o tema da morte? 23 jovens responderam que sim, propondo o seguinte: convidar psicólogos e outros profissionais na discussão do tema; discutir a vivência do luto em situações de perda; possibilidade de alerta diante de comportamentos autodestrutivos; propor atividades descontraídas e educativas como forma de prevenção; mostrar que há pessoas que se preocupam com eles. O tema da morte é importante, faz parte do cotidiano, tem relação com outros assuntos, promove conhecimento, reflexão e conscientização. Sugeriram também debates e palestras. Dez jovens afirmaram que a morte não é tema para ser abordado na escola. O motivo alegado foi que discutir o tema da morte poderia abalar os alunos. Sete jovens ficaram em dúvida e disseram que a morte é tema delicado para ser discutido na escola.

Vemos, então, a necessidade de abordar o tema por estar presente na vida dos jovens e para ajudar na elaboração do luto. As negativas dos jovens envolviam o medo de repercussão, de "contágio". Rodriguez (2005) reforça a ideia de que reflexão e compreensão podem ajudar a lidar com o que é inesperado na vida. No estudo citado, questionou a relação entre prazer e autodestruição, a falta de limites e a sensação de onipotência e invulnerabilidade; alguns jovens apontaram que para eles a vida não tem sentido, há tédio e vazio na alma. Os comportamentos de risco podem trazer adrenalina, o sabor da vida.

Perguntamos a 26 alunos de Psicologia4 se achavam que a questão da morte deveria ser abordada nas escolas. 20 participantes (77%) disseram que sim, enfatizando os seguintes pontos: com reflexão, cuidado, delicadeza, promovendo debate, compartilhando experiências, levando ao autoconhecimento. É preciso cuidar para não adotar tom moralista para não intimidar os jovens. Tem caráter preventivo. Podem ser utilizadas matérias já existentes incluindo-se o tema, utilizar palestras, filmes, oficinas, notícias de jornais.

Observa-se, nas falas dos autores e nas pesquisas citadas, que se propõe a inserção do tema da morte na escola, enfatizando reflexão, debate e não de respostas prontas ou receitas. Apresentamos a seguir proposta de inserção do tema da morte nas escolas.

Propostas de inclusão do tema da morte em instituições educacionais

Glass (1990) vê a educação como aprendizagem significativa para lidar com perdas e morte. Permite rever experiências, elaborar e construir significados, sensibilização e escuta de processos internos. É fundamental criar atmosfera de confiança, sem julgamento, permitindo o contato com os próprios sentimentos e dos outros. Educação para morte envolve dimensões cognitivas, conhecimento sobre morte, rituais e culturas afetivas para lidar com sentimentos (Kovács, 2003).

Apresentamos as propostas de inclusão do tema da morte na escola: discussão de casos de alunos vivendo situações de morte; criação de espaços para sensibilização, escuta, acolhimento, reflexão, esclarecimento e expressão de sentimentos; participação da comunidade escolar em rituais de morte e apoio familiares; atividades para o dia de Finados e outras datas significativas; encaminhamento a profissionais especializados, produção de material didático sobre a morte.

O programa Amigos do Zippy (já citado) ligado à Associação para a Saúde Emocional da Criança (ASEC) apresenta propostas para educação infantil e fundamental abordando perdas e mudanças na vida, incluindo a morte. Entre as práticas pedagógicas, incluem-se visita a cemitérios como local de enterro e de culto aos mortos.

Livros são recursos interessantes para abordar o tema da morte com crianças e adolescentes nas escolas. Paiva (2008) realizou estudo com 56 professores de escolas públicas e privadas para verificar como abordam o tema da morte utilizando literatura infantil como elemento facilitador. Apresentou 36 livros sobre a morte pedindo aos educadores participantes da pesquisa que fizessem uma apreciação sobre sua possível utilização nas escolas. Observou que livros ainda são pouco utilizados como ferramenta pedagógica na escola.

Apresentamos a seguir algumas propostas internacionais de inserção do tema da morte na escola. Rosenthal (1986), Mc Neil (1986) e Schachter (1991/1992) sugerem cursos para adolescentes que estão vivendo a perda de amigos em situações inesperadas e violentas. Attig (1992) recomenda cursos centrados nos sentimentos relatados pelos alunos, estimulando assim a empatia como possibilidade da escuta de pontos de vista diferentes. Cunningham e Hare (1989) propõem cursos de quatro horas envolvendo temas como: conhecimentos sobre luto infantil, percepção da morte pelas crianças, atitudes diante da morte e exercícios para lidar com o luto. Cullinan (1990), ao se referir a cursos para educadores, ressalta a necessidade de se considerar sua visão de morte, estimulando a expressão de sentimentos e emoções frentes ao tema. É interessante apresentar conteúdos informativos e atividades práticas: estratégias para falar com crianças sobre a morte, como oferecer apoio e estrutura para que possam lidar com situações, por vezes, fortemente carregadas de sentimentos.

No Brasil, as propostas de cursos para adolescentes e educadores sobre o tema da morte ainda são embrionárias. Apresentamos a seguir algumas ideias para se pensar educação para a morte que possa ter lugar em instituições de educação, numa época em que convivem a morte interdita e a escancarada. (Kovács, 2003). Próxima ou distante, a morte pode tocar de modo profundo, principalmente se envolver a perda de pessoas com as quais foram estabelecidos fortes vínculos.

Propomos o oferecimento de cursos sobre o tema da morte com os seguintes tópicos: morte e desenvolvimento humano com foco em crianças e adolescentes; perdas e processos de luto; comportamentos autodestrutivos e suicídio; morte escancarada: violência, acidentes; adoecimento e reintegração na escola; educação para a morte e o educador.

Outra modalidade a ser pensada é o treinamento em serviço para educadores com os seguintes módulos: comunicação em situações de perda e morte, com crianças e adolescentes; integração de crianças ou jovens doentes, egressos de internação hospitalar com sequelas; ações direcionadas a crianças e jovens com comportamentos autodestrutivos, ideação ou tentativas de suicídio. O foco é na relação professor aluno e trabalho com a classe. Em adição é interessante disponibilizar um banco de dados com bibliografia sobre vários aspectos relacionados à morte, incluindo literatura e filmes para crianças e jovens. O projeto Falando de Morte, já mencionado neste artigo, pode ser instrumento facilitador para discussão em classe sobre tópicos relacionados à morte, a partir das cenas e texto do filme.

Sukiennik (2000) destaca a ideia de se proporcionar cuidados aos educadores para que possam cuidar, transformando-se assim em cuidadores. Há propostas envolvendo cursos com vários temas, supervisão de casos e atividades em que se possam agregar aspectos cognitivos, sensibilização para recursos internos e reflexão sobre práticas educacionais. Mas, antes de implantar qualquer proposta, é necessário abrir a discussão entre os coordenadores, educadores e os proponentes dessas atividades.

 

Considerações finais

A abordagem do tema da morte nas escolas ainda é incipiente. Educadores propõem que o tema seja abordado nas escolas, em algumas disciplinas como filosofia, literatura, ética e biologia, citadas pelos educadores que participaram deste projeto. Nenhum educador propôs criação de disciplina específica sobre o tema. A questão deveria ser abordada quando ocorressem situações de morte na escola, com alunos, professores e seus familiares.

Embora ainda se veja com surpresa a abordagem da morte nas instituições educacionais, esta surge como tema importante a ser trabalhado por profissionais especializados no tema.

Por outro lado, educadores podem não se sentir capacitados para abordar o tema da morte, por não terem tido preparo na sua formação. Nas respostas aos questionários, educadores não acreditam que seja sua função abordar o tema da morte. Nas instituições educacionais, observa-se que a morte ainda não é vista como tema a ser considerado. Também não há consenso entre aqueles que propõem sua inclusão, seja como tema nas disciplinas do programa pedagógico, ou como espaço de acolhimento, discussão ou reflexão quando da ocorrência da morte na escola com seus alunos ou educadores (este parágrafo se refere aos dados obtidos na pesquisa mencionada na pág. 63).

O que fica mais claro é que alguns educadores não se veem tendo a função de abordar o tema da morte, que, em sua opinião, deveria ser tarefa dos pais. Há dificuldades quando educadores têm crença religiosa diferente da família. Os que não consideram o trabalho com a morte como sua tarefa também não veem necessidade de se preparar.

Um número significativo de educadores pensa que o tema da morte deva ser abordado nas escolas, mas não se sentem preparados para esta função. Observa-se a necessidade de preparo em várias propostas e formatos enfocando aspectos cognitivos: palestras, informações, esclarecimentos, supervisão; e emocionais: sensibilização frente a questões pessoais e cuidados psicológicos. Houve também pedidos de consultoria com profissionais especializados.

À semelhança de profissionais de saúde que têm a morte em seu cotidiano, o mesmo ocorre com educadores. A diferença é que, no caso dos primeiros, esse fato é sabido e confirmado como parte de seu trabalho, enquanto que, para educadores, estes dificilmente dirão que lidar com a morte ou cuidar de alunos em processo de luto que estejam elaborando suas perdas seja sua tarefa.

Finalizando este artigo, mas não a discussão, assim como nas instituições de saúde, a questão da morte deverá ser incluída na programação das escolas. Cuidado, reflexão e competência são importantes para que não se crie uma barreira defensiva no trato do tema da morte, ainda uma terra de ninguém no âmbito educacional. Não há receitas ou formas padronizadas no cuidado a alunos enlutados ou enfermos.

 

Referências

Attig, T. (1992). Person centered death education. Death studies, (16), 357-370.

Balk, D. E., & Corr, C. A. (2001). Bereavement during adolescence: a review research. Em M. S. Stroebe (Org.), Handbook of bereavement research (pp. 199-218). Washington: United Book Press.         [ Links ]

Braz, J. E. (1998). Longas cartas a ninguém. São Paulo: Ediouro.         [ Links ]

Bromberg, M. H. P. F. (1996). Luto: a morte do outro em si. Em M. H. P. F. Bromberg, M. J. Kovács, M. M. J. Carvalho V. A. & Carvalho, Vida e morte: laços da existência (pp. 99-121). São Paulo: Casa do Psicólogo.         [ Links ]

Bromberg, M. H. P. F. (1998). Psicoterapia em situações de perda e luto. Campinas, SP: Editorial Psy.         [ Links ]

Casellatto, G. (2005). Dor silenciosa ou dor silenciada? Perdas e lutos não reconhecidos por enlutados e sociedade. Campinas, SP: Livro Pleno.         [ Links ]

Christ, G. (2002). Adolescent grief. It never really hits me until it actually happened. Jama, 28(10), 269-278.         [ Links ]

Corr, C. A. (1998/1999). Enhancing the concept of disenfranchised grief. Omega, Journal of Death and Dying, 38(1), 1-20.         [ Links ]

Cotter, R. P. (2003). High risk behaviors in adolescents and their relationship to death anxiety and death personifications. Omega, Journal of Death and Dying, 47(2), 119-137.         [ Links ]

Creenshaw, D. (1997). Bereavement counseling the grieving throughout the life cycle. New York: Crossroad.         [ Links ]

Crochik, L. (1995). Preconceito, indivíduo e cultura. São Paulo: Robe.         [ Links ]

Cullinan, A. L. (1990). Teacher's death anxiety ability to cope with death and perceived ability to aid bereaved students. Death studies, 14, 147-160.         [ Links ]

Cunningham, B., & Hare, J. (1989). Essential elements of a teacher in a service program on child bereavement. Elementary School Guidance and Counseling, (23), 175-182.         [ Links ]

Doka, K. (1989). Disenfranchised grief - recognizing hidden sorrow. New York, Lexington Books.         [ Links ]

Domingos, B. (2003). Experiências de perda e luto em escolares de 13 a 18 anos. Psicologia: Reflexão e Crítica, 16(3), 577-589.         [ Links ]

Endo, P.C. (2005). A violência no coração da cidade: um estudo psicanalítico sobre as violências na cidade de São Paulo. São Paulo: Escuta.         [ Links ]

Fleming, S. J., & Adolf, R. A. (1986). Helping adolescent's needs and responses. Em C. A. Corr & J. N. Mc Neil (Eds.), Adolescent and death. New York: Springer.         [ Links ]

Glass Jr, J. C. (1990). Changing death anxiety through death education in public schools. Death studies, 14, 31-52.         [ Links ]

Gonçalves, C. F., & Valle, E. R. M. (1999). O significado do abandono escolar para crianças com câncer. Em E. R. M. Valle & L. P. C. Françoso (Orgs.), Psico-oncologia pediátrica. Vivências de crianças com câncer. (pp.123-143). Ribeirão Preto, SP: Scala.         [ Links ]

Griffa, M. C., & Moreno, J. E. (2001). Chaves para a psicologia do desenvolvimento, infância, adolescência, vida adulta e velhice. São Paulo: Paulinas.         [ Links ]

Harris, E. S. (1991). Adolescent bereavement following the death of a parent. An exploratory study. Child Psychology and Human Development, 21(4), 17-32.         [ Links ]

Harrison, L., & Harrington, R. (2001). Adolescent's bereavement experience. Prevalence, association with depressive symptoms and use of services. Journal of Adolescence, (24), 159-169.

Kovács, M. J. (1992). Morte e desenvolvimento humano. São Paulo: Casa do Psicólogo.         [ Links ]

Kovács, M. J. (2003). Educação para a morte: Desafio na formação de profissionais de saúde e educação. São Paulo: Casa do Psicólogo.         [ Links ]

Kovács, M. J. (2010). A morte no contexto escolar: desafio na formação de educadores. Em M. H. P. Franco (Org.), Formação e rompimento de vínculos: O dilema das perdas na atualidade (pp. 145-168). São Paulo, Summus.         [ Links ]

Lima, V. R. (2007). Morte na família: um estudo exploratório acerca da comunicação à criança. Dissertação de Mestrado, Programa de Psicologia Escolar e Desenvolvimento Humano, Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo.         [ Links ]

Lione, F. R. (2005). Sobre as vivências dos irmãos de crianças com câncer. Em E. Perina & N. G. Nucci (Orgs.), Dimensões do cuidar em Psico-Oncologia Pediátrica (pp. 163-182). Campinas, SP: Livro Pleno.         [ Links ]

Liotta, A. J. (1996). When students grieve: a guide to bereavement in the schools. Pennsylvania: LRP Publications.         [ Links ]

Mahon, M. M., Goldberg, R. L., & Washington, S.K. (1999). Discussing death in the classroom: believes and experiences of educators and education students. Omega, Journal of Death and Dying, (39), 99-121.

Matheus, T. C. (2002). Ideias na adolescência. A falta de perspectivas na virada do século. São Paulo: Annablume.         [ Links ]

Mazorra, L., & Tinoco,V. (Orgs.). (2005). O luto na infância. Campinas, SP: Livro Pleno.         [ Links ]

Mc Govern, M. E., & Barry, M. M. (2000). Death Education: Knowledge, attitudes and perspectives of Irish parents and teachers. Death Studies, 24(4), 325-333.         [ Links ]

Mc Neil, J. N. (1986). Talking about death: Adolescents, parents and peers. Em C. A. Corr & J. N. Mc Neil (Eds.), Adolescent and death. New York: Springer.         [ Links ]

Meirelles, F., & Sanches, R. M. (2005). Um olhar psicanalítico na instituição educacional. Em R. M. Sanches (Org.), Winnicott na clínica e na instituição. (pp. 159-172). São Paulo: Escuta.         [ Links ]

Paiva, L. E. (2008). A arte de falar da morte: a literatura infantil como recurso para abordar a morte com crianças e educadores. Tese de Doutorado, Programa de Psicologia Escolar e Desenvolvimento Humano, Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo.         [ Links ]

Parkes, C. M. (1998). Luto. Estudos sobre a perda na vida adulta. São Paulo: Summus.         [ Links ]

Peluso, A. (Org). (1998). Adolescentes: pesquisa sobre uma idade de risco. São Paulo: Paulinas.         [ Links ]

Pereira, K. M. (2004). Adolescência, luto e enfrentamento. Dissertação de mestrado, Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.         [ Links ]

Perina, E., Mastellaro, M. J., & Nucci, N. A. G. (2008). Efeitos tardios do tratamento do câncer na infância e adolescência. Em V. A. Carvalho e cols., Temas em Psico-Oncologia (pp. 496-504). São Paulo: Summus.         [ Links ]

Raimbault, G. (1979). A criança e a morte. Rio de Janeiro: Francisco Alves.         [ Links ]

Rask, K. (2002). Adolescent coping with grief after the death of a loved one. International Journal of Nursing Practice, 8(3), 137-142.         [ Links ]

Ringler, L. L., & Hayden, D. C. (2000). Adolescents bereavement and social support peers loss compared to other losses. Journal Adolescent Research, 15(2), 209-230.         [ Links ]

Rodriguez, C. F. (2005). O que os jovens têm a dizer sobre a adolescência e o tema da morte. Dissertação de mestrado, Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo.         [ Links ]

Rodriguez, C. F. (2010). Falando de morte na escola: O que os educadores têm a dizer. Tese de Doutorado, Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo.         [ Links ]

Rodriguez, C. F., & Kovács, M. J. (2006). O que os jovens têm a dizer sobre as altas taxas de mortalidade na adolescência? Revista Imaginário USP, (11), 111-136.

Rosenthal, N. R. (1986). Death education. Developing a course of study for adolescents.Em C. A. Corr & J. N. Mc Neil (Eds.), Adolescent and death. New.York: Springer.         [ Links ]

Rowling, L. (1995). The disenfranchised grief of teachers. Omega, Journal of Death and Dying, 31(4), 317-329.         [ Links ]

Schachter, S. (1991/1992). Adolescent experience with the death of a peer. Omega, Journal of Death and Dying, 24(1), 1-11.         [ Links ]

Schilling, F. (2002). Reflexões sobre justiça e violência: o atendimento a familiares de vítimas de crimes fatais. São Paulo: Educ/ Imprensa Oficial do Estado        [ Links ]

Schoen, A. A., Burrough, M., & Schoen, S. F. (2004). Are the developmental needs of children in America adequately addressed during the grief process? Journal of Inner Psychology, 3(2), 143-148.         [ Links ]

Servaty, H. L., & Pistole, M. C. (2006/2007). Adolescent grief: Relationship category and emotional closeness. Omega, Journal of Death and Dying, 54(2), 147-167.         [ Links ]

Silva, G. M., & Valle, E. R. M. (2008). Reinserção escolar de crianças com câncer: desenvolvimento de uma proposta inter profissional de apoio em psico-oncologia pediátrica. Em Carvalho, V. A. e cols., Temas em Psico-Oncologia (pp. 517-528). São Paulo: Summus.         [ Links ]

Sims, D. A. (1991). A model for grief intervention and death education in the public schools. Em J. D. Morgan (Eds.), Young people and death. (pp. 185-190). Philadelphia: Charles Press Publishers.         [ Links ]

Skallar, F. A., & Hartley, S. F. (1990). Close friends as survivors. Bereavement patterns in a "hidden" population. (pp. 185-190). Omega, Journal of Death and Dying, 21(2), 103-112.         [ Links ]

Sukiennik, P. B. (2000). Implicações da depressão e do risco de suicídio na escola durante a adolescência. Adolescência latino-americana, 2(1), 36-44.         [ Links ]

Torres, W. C. (1999). A criança diante da morte: desafios. São Paulo: Casa do Psicólogo.         [ Links ]

Walsh, F., & Mc Goldrick, M. (1998) Morte na família: sobrevivendo às perdas. Porto Alegre: Artes Médicas.         [ Links ]

Weiss, R. S. (1991). The attachment bond in childhood and adulthood. Em C. M. Parkes, P. Marris & J. Stevenson-Hinde (Orgs.), Attachment across the life cycle (pp. 66-76). New York: Routledge,         [ Links ].

Worden, J. W., & Silverman, P. R. (1996). Parental death and adjustment in school-age children. Omega, Journal of Death and Dying, 33(2), 91-102.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência: Maria Julia Kovács
Av. Mello Moraes, 1721 - Cidade Universitária
São Paulo - SP - CEP 05508-900
e-mail: mjkoarag@usp.br

Recebido em:17/03/2011
Reformulado em: 14/02/2012
Aprovado em: 24/02/2012

 

 

1 Pesquisa: A questão da morte nas instituições de saúde e educação. Do interdito à comunicação para profissionais de saúde e educação (2006-2009) - não publicada - CNPq.
2 Falando de morte com adolescente. Filme didático do projeto Falando de Morte. Para maior detalhamento, consultar Kovács (2003). Educação para a morte: desafio na formação de profissionais de saúde e educação. São Paulo, Casa do Psicólogo.
3 Para maiores informações sobre o Programa Amigos do Zippy e Associação para a Saúde Emocional da Criança, consultar o site: http://www.amigosdozippy.org.br
4 Alunos que cursaram a disciplina Psicologia da Morte (Instituto de Psicologia - USP) e responderam a questões sobre morte e adolescência.