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Psicologia Escolar e Educacional

versão On-line ISSN 2175-3539

Psicol. Esc. Educ. vol.21 no.1 Maringá jan./abr. 2017

https://doi.org/10.1590/2175-3539201702111050 

Relato de Prática Profissional

Entre a universidade e a escola: propostas de intervenção em instituições escolares

Between university and school: proposals for intervention in school institutions

Entre la universidad y la escuela: propuestas de intervenciones en instituciones escolares

Suzana Feldens Schwertner1 

1Centro Universitário Univates - Lajeado - RS - Brasil


Entre a universidade e a escola: o que almejamos, o que pretendemos? Entre a escola e a universidade: o que perdemos, o que abandonamos? Buscamos, com este relato de experiência, produzir pensamento acerca da formação do psicólogo no meio universitário, espaço de complexidade e caracterizado por uma multiplicidade de saberes, conceitos, linhas teóricas, projetos de intervenção, práticas supervisionadas, atividades de pesquisa, ensino e extensão. Mais especificamente, pretendemos discutir sobre possibilidades de articulação entre propostas de intervenção em instituições escolares desenvolvidas por estudantes de Psicologia e a formação acadêmica, sobre possíveis encontros entre o espaço da escola e a universidade.

Para tanto, apresentamos uma experiência de formação, realizada com estudantes de Psicologia do 5º semestre de um Centro Universitário do interior do Rio Grande do Sul. Na disciplina de Psicologia e Instituições Escolares I e II, com a carga horária de 90 horas, os universitários organizam atividades de intervenção em escolas, propondo encontros entre o Ensino Superior e a Educação Básica: durante cinco semanas, participam ativamente do cotidiano escolar e desenvolvem propostas de trabalho que envolvam a atuação do psicólogo nas escolas. O relato discorre sobre algumas intervenções realizadas, analisando a participação dos estudantes - da universidade e da escola - e apontando diferentes formas de aproximação entre a graduação e o Ensino Fundamental.

Propomos pensar sobre a relação da Psicologia com a Educação; mais especificamente, sobre a atuação e o trabalho do psicólogo no espaço escolar (Araújo & Caldas, 2012; Almeida, 2010; Souza, 2009; Kupfer, 2008; Antunes, 2008; Valore, 2003; Maluf, 2001).

Os espaços educativos não são apenas constituídos por estruturas físicas compostas por professores, gestores e estudantes, que teriam como função o exercício da educação formal. Entendemos aqui a instituição escolar a partir de autores como Júlio Groppa Aquino (1996; 2000) e Marlene Guirado (2004; 2010), os quais destacam não apenas sua função de organização dos sujeitos e suas práticas, mas espaço produtor de modos de subjetividade.

Conforme Guirado (2004, p. 114), “{...} a instituição não é um lugar no espaço ou uma organização em particular, mas um conjunto de práticas ou de relações sociais concretas (que se reproduzem e, nesta reprodução, se legitimam)”. Assim, tomamos instituição como o conjunto de práticas sociais que é proposto em meio a um exercício de poder entre diferentes atores institucionais e seu fazer cotidiano. E uma instituição, dessa maneira, jamais deixa de ser atravessada pelo seu contexto histórico, político, econômico, cultural e social.

O olhar da Psicologia Institucional para as instituições escolares passa por entender, como nos alerta Valore (2003), os movimentos, o que se diz naquele espaço e o modo como as coisas são ditas. Assim, atentamos para relações de poder (e com elas, a possibilidade de resistências) entre os diferentes atores do cenário institucional, para aquilo que se diz sobre alunos, pais, professores, sobre os diferentes funcionários da escola, sobre as expectativas, idealizações. E, ainda, articulamos esses movimentos e aspectos a quem fala, de que modo utiliza as palavras, em que espaços, com quais dificuldades, com que ideias de potencialidade aos sujeitos que compõem esta instituição (Valore, 2003).

Para tanto, precisamos destacar a conexão intensa entre Psicologia e Educação, que, muito antes da regulamentação da profissão de psicólogo no Brasil, já era discutida e problematizada (Antunes, 2008; Souza, 2009). A suposta polaridade teoria X prática, por muito tempo caracterizada na delimitação das áreas Psicologia Educacional e Psicologia Escolar, foi muito bem discutida por Souza (2009) e hoje segue como tema de produção de pensamento na área, em busca de articulação e composição: pesquisar e atuar na escola, em espaços educativos, deve constituir parte da mesma atividade. Esta relação entre Psicologia e Educação é também permeada por uma enormidade de temáticas que são constitutivas da atualidade e que transversalizam a escola contemporânea: as diversas manifestações de violência, a sexualidade e os jovens, uso e abuso de álcool e drogas, relações entre Educação e Direitos Humanos; (ainda) a indisciplina escolar, a sacralização dos espaços formais de aprendizagem; entre tantos outros que vêm surgindo mais recentemente (Almeida, 2010; Araújo & Caldas, 2012).

Preparar o psicólogo para o espaço da escola e para o universo da Educação passa por aproximar graduandos (do Ensino Superior) de estudantes (da escola) e do corpo de funcionários. O psicólogo que busca atender às necessidades educacionais dos sujeitos e grupos escolares precisa ir além do comportamento manifesto e dos aspectos que envolvem os processos de aprendizagem: cabe-lhe a compreensão dos microssistemas em que a criança, o adolescente e os trabalhadores da escola se inserem e suas mútuas relações, além de reconhecer estes participantes como sujeitos, como pessoas a serem escutadas (Maluf, 2001). Juntamente a isto, a necessidade de compreender as relações entre todos os atores da cena institucional - no caso, a escola e seus gestores, diretores, coordenadores, professores, estudantes, pais, comunidade que dela fazem parte. Sem esquecermo-nos, como ressalta Souza (2009, p.181),

{...} que precisamos trabalhar e estar sempre atentos para responder às finalidades do trabalho que vimos desenvolvendo, discutindo e analisando por que e para que realizar uma determinada intervenção ou ação, sob pena de nos transformarmos em animadores ou educadores sociais ou técnico qualificados, perdendo as especificidades do conhecimento psicológico a serviço da educação.

No caminho entre a universidade a escola: propostas de intervenções

Vislumbramos, com este trabalho, apresentar os efeitos do desafio de propor encontros entre o universo do Ensino Superior e escolas de Ensino Fundamental de um município no interior do Rio Grande do Sul, articulando teoria e prática por meio de projetos de intervenção. Entendemos por intervenção aquilo que Ferreira Neto (2008) aponta, a partir de Foucault: não aquilo que vem de fora, com um saber maior, para resolver os problemas e indicar soluções. O interventor deve ser aquele que catalisa, que aparece como um coadjuvante cujo protagonista é o coletivo local: “{...} os interventores comparecem como coadjuvantes de um processo coletivo, onde os sujeitos envolvidos são considerados como sendo os mais capazes de afirmar, a partir de certa colaboração, onde estão os verdadeiros problemas” (Ferreira Neto, 2008, p. 65).

Tais intervenções vêm sendo construídas e problematizadas a partir de trabalhos realizados na disciplina Psicologia e Instituições Escolares (I e II), do Centro Universitário Univates (Lajeado/RS). A disciplina propõe, em seu primeiro semestre, estudos teóricos acerca dos compromissos da Psicologia Escolar e Educacional, análise institucional no contexto educacional, saúde e sofrimento nas escolas (abordando as temáticas dificuldades de aprendizagem, trabalho docente, violência, inclusão, relação professor-aluno), além de visitas a instituições escolares. No segundo semestre, os alunos são organizados em pequenos grupos para a realização de trabalhos de intervenção em escolas públicas estaduais do município, objetivando articular teoria e prática na aprendizagem sobre o trabalho do psicólogo escolar.

Os graduandos de Psicologia experimentam, então, o universo escolar de outra maneira: adentram aquele espaço agora não mais como alunos, mas como estudiosos da Psicologia. Também não ocupam a instituição como aqueles que “vêm de fora” para apresentar soluções aos sujeitos que estão na escola, mas como parte integrante deste território, que vem para aprender e construir alternativas, pensando coletivamente sobre o trabalho da Psicologia no cenário escolar.

Nesta proposta de intervenção, uma série de apontamentos tem surgido a partir do contato com professores, gestores e alunos, especialmente aqueles que versam sobre problemáticas de nosso contexto histórico, político, econômico e social, que perpassam a escola: as mais diversas formas de violência, o abandono familiar, a carência na alimentação e cuidados de primeira necessidade, o acesso à saúde, a orientação profissional, o uso de drogas, aspectos da sexualidade, as relações de amizade e convivência. Todas estas temáticas estão contempladas na ementa e cronograma da disciplina, cujo objetivo principal é compreender as possibilidades de atuação do psicólogo no espaço escolar por meio das relações entre os diferentes atores institucionais.

Vale ressaltar, igualmente, as habilidades a serem desenvolvidas durante a disciplina (conforme ementa que consta no Projeto Pedagógico de Curso) e que envolvem, entre outras, a “identificação, definição e formulação de questões de investigação no campo da Psicologia Escolar e Educacional, vinculando-as a decisões metodológicas de escolha e coleta de dados, bem como a análise e interpretação dos problemas sociais, em uma perspectiva crítica e criativa” (Centro Universitário Univates, 2012, p. 89).

Aproximando a universidade do mundo da escola

Os trabalhos de intervenção partem de dois encontros iniciais, realizados ainda no primeiro semestre (na disciplina Psicologia e Instituições Escolares I): inicialmente, quando toda a turma conhece o espaço físico da escola, conversa com representantes da gestão e coordenação, conhece a história e os modos de trabalho organizados naquela instituição. O segundo encontro já envolve uma reunião com o público-alvo da intervenção: trata-se do primeiro momento com estudantes, professores ou gestores, para o início do processo de vinculação. Após estes dois encontros, o grupo volta a se reunir para iniciar a composição do projeto que será desenvolvido sob a forma de intervenção, no segundo semestre.

Para este segundo momento do trabalho (na disciplina Psicologia e Instituições Escolares II), durante cinco encontros, que acontecem de maneira consecutiva em cinco semanas, os estudantes de Psicologia organizam e participam de atividades: buscam articular as teorias com suas intervenções, propiciar espaços de fala e de escuta ao público-alvo, propondo encontros compostos pelos diferentes atores escola. Ressaltam a sensibilidade da escuta aos sujeitos que compõem esta instituição, atentos às necessidades de modificações nos planejamentos, avaliando constantemente o trabalho e enfrentando o desafio de instigar alunos, professores, funcionários e gestores a produzir outros olhares sobre si mesmos, seus colegas e sobre o vasto mundo da instituição escolar.

O mais importante - e em consonância com o que Valore (2003) define como um dos desafios do psicólogo escolar institucional (em nossa opinião, o mais significativo de todos): “{...} contribuir para o resgate do espaço escolar como sendo um lugar de alegria, de prazer, de abertura para o novo, e em que o ofício de ensinar e de aprender possa ser vivenciado como algo que vá além do inevitável sacrifício, do mal necessário” (Valore, 2003, p. 04).

As atividades realizadas pelos graduandos nestes quatro anos de experiência (desde 2011, quando passei a assumir a disciplina) passam por dramatizações sobre os papéis de professor e aluno, composições musicais e artísticas acerca do que é ser estudante, implementação de conselhos de classe participativos, organização de rodas de conversa sobre sexualidade, discussões sobre as relações de amizade, escolha profissional, relações familiares na contemporaneidade, além de abordagem de temáticas como “a importância da escola na minha vida”, “a vinculação de estudantes do sétimo ano”, “o sentido da escola no olhar do professor”.

O público-alvo da intervenção não é constituído apenas pelos estudantes das escolas, mas igualmente seus gestores e os docentes, que participam do trabalho de forma intensa e articulada com os universitários. Em uma das ações realizadas junto à equipe gestora de uma das escolas participantes, os graduandos elaboraram, junto com a direção da escola, um vídeo para acompanhar a palestra organizada aos pais, no início do ano letivo seguinte. A partir do momento de encontros com a gestão, imagens e músicas serviram de inspiração para um roteiro que abordou a temática “violência”, elemento de importância a ser discutido com os pais e com aquela comunidade escolar.

Em outra proposta de intervenção, estudantes do 8º ano conversaram sobre suas possibilidades de atividades futuras, discutindo sobre o mundo das profissões e as diferentes formas de compor o mundo do trabalho na contemporaneidade. Estudantes da universidade e da escola pensaram sobre uniformes típicos de cada trabalho, representações sociais das profissões, regras e solicitações específicas nas unidades de trabalho e produziram fotografias de cada estudante em seu futuro profissional, conforme suas escolhas: repórteres munidos de microfones, engenheiros e seus equipamentos de proteção e outros tantos registros possíveis do mundo do trabalho foram contemplados nesta atividade.

Com um grupo de 7º ano, os assuntos bullying, drogas e juventude vieram à tona: a divisão da turma em grupos para a discussão da temática gerou a produção de dois vídeos que exploraram o espaço da escola e as relações entre os colegas, sugerindo a amizade e a confiança no grupo como uma alternativa possível para o enfrentamento da violência e no combate às drogas na escola.

Considerações finais

A partir desta atividade de intervenção, os estudantes de Psicologia buscam articular as teorias com suas intervenções, propiciar espaços de fala e de escuta aos diferentes atores institucionais, atentos às necessidades de modificações nos planejamentos. Como resultado, podemos apontar para o desenvolvimento das habilidades preconizadas no plano de ensino do Projeto Pedagógico de Curso (PPC), ampliando a participação ativa, crítica e autônoma do universitários no processo contínuo de ensino-aprendizagem. Paralelamente, a problematização e a discussão das intervenções contemplam a participação ativa da comunidade e dos sujeitos envolvidos na resolução das demandas e necessidades identificadas. Trata-se de desenvolver reflexões téoricas intrinsicamente articuladas à prática e, paralelamente a estas, à ação social, repensando o papel da universidade na formação dos estudantes (Perim, 2007).

Ao final, destacamos que os universitários puderam entender que o caminho entre a universidade e a escola é trilhado com muito estudo, investigações, reflexões, encontros e vínculos. Ressaltamos a abertura do olhar possibilitada aos graduandos, que a partir desta atividade passam a compreender - e exercer - os múltiplos papeis do psicólogo na instituição escolar.

Referências

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Araújo, M.V.; & Caldas, R.F.L. (2012). Psicologia e Educação: expectativas, desafios e possibilidades. Em: Molina, R.; & Angelucci, C.B. Interfaces entre Psicologia e Educação: desafios para a formação do psicólogo (pp. 45-62). São Paulo: Casa do Psicólogo. [ Links ]

Centro Universitário Univates. Projeto Pedagógico de Curso. Curso de Psicologia. 2012. [ Links ]

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Kupfer, M.C.M. (2008). O que toca a/à Psicologia Escolar. Em: Souza, M. P.R.; & Machado, A. M. (Orgs.), Psicologia Escolar: em busca de novos rumos (pp. 55-65). São Paulo: Casa do Psicólogo . [ Links ]

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2Trabalho originalmente apresentado na modalidade comunicação oral, durante a II Jornada de Psicologia Escolar da CAPE (28 de setembro de 2013, em Porto Alegre, RS).

Recebido: 04 de Setembro de 2015; Aceito: 11 de Novembro de 2016

Sobre a autora - Suzana Feldens Schwertner (suzifs@univates.br), Centro Universitário Univates, Doutora em Educação, Psicóloga.

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