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Brazilian Journal of Veterinary Research and Animal Science

Print version ISSN 1413-9596

Braz. J. Vet. Res. Anim. Sci. vol.36 n.2 São Paulo  1999

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-95961999000200009 

NOTA PRÉVIA/SHORT COMMUNICATION

Diagnóstico de leishmaniose canina na área urbana do município de Cuiabá, Estado de Mato Grosso, Brasil

Diagnosis of canine leishmaniasis in the urban area of the District of Cuiabá, State of Mato Grosso, Brazil

 

Saulo Teixeira de MOURA1; Cláudia Gorgulho Nogueira FERNANDES2; Vanda Coutinho PANDOLPHO3; Rosângela RODRIGUES E SILVA4

 

CORRESPONDÊNCIA PARA:
Saulo Teixeira de Moura
Faculdade de Medicina Veterinária
Universidade de Cuiabá – UNIC
Av. Beira Rio, 3.100 – Jd. Europa
78015-480 – Cuiabá – MT
e-mail: demoura.st@uol.com.br

 

 

RESUMO

Iniciou-se um estudo sobre a ocorrência de leishmaniose visceral e tegumentar em cães da área urbana de Cuiabá, Estado de Mato Grosso. No período de agosto de 1997 a julho de 1998, foram coletadas amostras de sangue de 800 cães, de diferentes bairros de Cuiabá, escolhidos aleatoriamente, e remetidos ao Serviço de Parasitologia do Instituto Municipal de Medicina Veterinária Jorge Vaitsman, no Rio de Janeiro, para exame pelo teste de imunofluorescência indireta. Foram processadas preliminarmente 62 amostras de soro, das quais 64,5% (40 amostras) estavam positivas para leishmaniose. Quanto às titulações encontradas nos soros reagentes, 92,5% (37 amostras) apresentaram títulos acima de 1:160, sugerindo forte suspeita da presença de leishmaniose visceral. Deste total, 72,5% (29 amostras) dos soros positivos são provenientes de cães da região Sul-Leste e 27,5% (11 amostras) da região Centro-Leste de Cuiabá. Este é o primeiro registro da detecção de cães sorologicamente positivos para leishmaniose em área urbana do Estado de Mato Grosso.

UNITERMOS: Leishmaniose; Cães; Zoonoses; Imunodiagnóstico.

 

 

Os protozoários flagelados do gênero Leishmania são causadores de enfermidades zoonóticas que acometem o sistema fagocítico mononuclear que, por suas características clínico-epidemiológicas, podem ser classificadas como leishmaniose cutânea, cutâneo-mucosa ou mucocutânea, cutânea difusa e visceral7.

A principal fonte de infecção para o homem são os canídeos em geral. A enzootia canina tem precedido a ocorrência de casos humanos, sendo mais prevalente do que no homem3. Com a identificação e eliminação dos cães infectados, podem-se desenvolver ações de controle contra a leishmaniose, pois espera-se que, diminuindo-se a prevalência da doença canina, haja redução na incidência humana4. Entretanto, é referido que no Brasil mais de 30% dos cães infectados são assintomáticos1.

Para o diagnóstico da leishmaniose, o encontro do parasito constitui requisito básico, mas os métodos sorológicos como o teste ELISA e imunofluorescência indireta (IFI) são úteis para uma triagem de casos ou em inquéritos epidemiológicos6,7. Carvalho et al.2 citaram registros de casos de leishmaniose visceral em cães do Estado de Mato Grosso do Sul, e leishmaniose tegumentar nas regiões Amazônica, Brasil Central, Sudeste e Norte do Paraná. A proximidade com essas regiões, a existência de fauna flebotomínica e estilo de habitação semelhantes, que são os principais fatores de risco5,8, concorreriam para a presença desta antropozoonose em Mato Grosso.

Com base nesses fatos, iniciou-se um estudo sobre a ocorrência de leishmaniose na população canina urbana do município de Cuiabá, Estado de Mato Grosso, por meio de inquérito epidemiológico. Foram colhidas aleatoriamente, através de punção asséptica da veia cefálica, 800 amostras de sangue (aproximadamente 7 ml), de cães de qualquer raça, sexo ou idade, em domicílios localizados em bairros das quatro regiões administrativas do município de Cuiabá (Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano). Após a centrifugação, os soros foram transferidos para microtubos plásticos próprios, identificados e congelados a -20ºC, sendo posteriormente encaminhados para o centro de referência do Serviço de Parasitologia do Instituto Municipal de Medicina Veterinária Jorge Vaitsman, no Rio de Janeiro, para diagnóstico por IFI. Para cada animal preencheu-se ficha padronizada com dados sobre identificação, localização e presença de uma ou mais alterações clínicas compatíveis com a leishmaniose canina.

Preliminarmente, 62 amostras de soro foram analisadas pelo método de IFI, sendo 64,5% (40 amostras) positivas para leishmaniose. Deste total, 72,5% (29 amostras) são provenientes de cães da região administrativa Sul-Leste, e 27,5% (11 amostras) da região administrativa Centro-Leste de Cuiabá. Esse método de diagnóstico não permite diferenciar o tipo de leishmaniose; no entanto, 88% dos casos positivos (37 amostras) apresentaram titulações altas, sendo 50% com 1:640 (21 cães), 33,3% com 1:320 (14 cães) e 4,8% com 1:160 (2 cães), o que sugere forte indício da presença de leishmaniose visceral6,9.

Os bairros com animais positivos, em geral, estão localizados próximos de pequenas áreas de mata característica da região, o que viabilizaria a presença do vetor junto às residências5. Porém, devido à gravidade desses resultados, torna-se necessário um estudo de maior amplitude, com maiores informações epidemiológicas, o isolamento do agente patogênico e a captura e identificação dos hospedeiros intermediários

Este é o primeiro registro científico da ocorrência de leishmaniose canina em área urbana de Mato Grosso, Estado não incluído como região endêmica de leishmaniose visceral3.

 

 

SUMMARY

An investigation was carried out to determine the occurrence of cutaneous and visceral leishmaniasis in the urban canine population of the District of Cuiabá, State of Mato Grosso. In the period from August of 1997 to July of 1998 blood samples of 800 dogs were collected, from different neighborhoods of Cuiabá, chosen at random and sent to the Service of Parasitology of the Municipal Institute of Veterinary Medicine Jorge Vaitsman, in Rio de Janeiro, for examination by the indirect immunofluorescent test. At the beginning 62 serum samples were processed, from which 64.5% (40 samples) were positive for leishmaniasis. In relation to the titters found in the reacting serum, 92.5% (37 samples) presented titters above 1:160, what suggests strong suspicion of the presence of visceral leishmaniasis. From this total, 72.5% (29 samples) of the positive serum came from dogs of the South-East region and 27.5% (11 samples) of the Center-East region of Cuiabá. This is the first report of the detection of serum positive dogs for leishmaniasis in urban area of the State of Mato Grosso.

UNITERMS: Leishmaniasis; Dogs; Zoonoses; Immunodiagnosis.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1- ACHA, P.N.; SZYFRES, B. Zoonoses and communicable diseases common to man and animals. Washington : Pan American Health Organization, 1991. p.640-8: Visceral leishmaniasis.        [ Links ]

2- CARVALHO, S.F.G.; VICENTE, M.A.; VALLI, L.C.P.; RABELO, M.I.R.; MOREIRA, T.C.S.; URIAS, E.V.R.; LAGES, A.M.R.; FIGUEIREDO, N.C.; CANELA, J.R.; GRÖGL, M.; DIETZE, R. Aspectos epidemiológicos da leishmaniose visceral (LV) no município de Montes Claros - MG - 1995-96. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, n.29, p.149-50, 1996. Suplemento 1.        [ Links ]

3- CASTRO, A.G. Controle, diagnóstico e tratamento da leishmaniose visceral (calazar). 2. ed. Brasília : Fundação Nacional de Saúde, 1996. 88p.        [ Links ]

4- LIMA, J.W.O.; FIUZA, I.R.; BRANCO, F.J.D. Correlação entre prevalência do calazar no cão e incidência no homem, em áreas endêmicas no Estado do Ceará. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, n.29, p.146-7, 1996. Suplemento 1.        [ Links ]

5- MARZOCHI, M.C.A. Epidemiologia das leishmanioses no Brasil. Revista de Patologia Tropical, v.23, n.2, p.82-4, 1994.        [ Links ]

6- MARZOCHI, M.C.A.; COUTINHO, S.G.; SOUZA, W.J.S.; AMENDOEIRA, M.R.R. Leishmaniose Visceral (calazar). Jornal Brasileiro de Medicina, v.41, n.5, p.69-84, 1981.        [ Links ]

7- REY, L. Bases da parasitologia médica. Rio de Janeiro : Guanabara Koogan, 1992. p.46-65: Leishmanioses cutâneas e mucocutâneas do Novo Mundo. Leishmaniose visceral ou calazar.        [ Links ]

8- RODRIGUES JÚNIOR, L.; SANTOS, M.V; MOURA, L.S.; LIMA, S.S.; MOREIRA, S.R.S.; SOUZA, C.J.L.; SILVEIRA, M.G.P.; COSTA, A.C.M.M.A.; RODRIGUES, C.M.A.; OLIVEIRA, W.S.; COSTA, C.A.S.A.; GOMES, R.B.B.; SILVA, I.R.C. Fatores de risco para a ocorrência de leishmaniose visceral em área urbana de Teresina. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, n. 29, p.147, 1996. Suplemento 1.        [ Links ]

9- SIDERIS, V.; KARAGOUNI, E.; PAPADOPOULOU, G.; GARIFALLOU, A.; DOTSIKA, E. Canine visceral leishmaniasis in the great Athens area, Greece. Parasite, n.3, p.125-30, 1996.        [ Links ]

 

 

Recebido para publicação: 10/09/1998
Aprovado para publicação: 24/05/1999

 

 

1 Departamento de Parasitologia Veterinária da Universidade Federal do Rio de Janeiro – RJ
2 Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Cuiabá – MT
3 Superintendência de Controle de Zoonoses da Prefeitrua do Rio de Janeiro – RJ
4 Laboratório de Helmintos Parasitos de Vertebrados do Departamento de Helmintologia do Instituto Oswaldo Cruz da FIOCRUZ – RJ