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Brazilian Journal of Veterinary Research and Animal Science

Print version ISSN 1413-9596

Braz. J. Vet. Res. Anim. Sci. vol.37 n.2 São Paulo  2000

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-95962000000200003 

Infecções naturais em cervídeos (Mammalia: Cervidae) procedentes dos Estados do Mato Grosso do Sul e São Paulo, por nematódeos Trichostrongyloidea Cram, 1927

Natural Trichostrongyloidea Cram, 1927 infections in deer (Mammalia: Cervidae) from the States of Mato Grosso do Sul and São Paulo

 

Adjair Antonio do NASCIMENTO1; Marcos Roberto BONUTI2; Elaine Bernardo MAPELI2; José Hairton TEBALDI1; Isaú Gouveia ARANTES1; Cláudia Dias ZETTERMANN2

 

CORRESPONDÊNCIA PARA:
Adjair Antonio do Nascimento
Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Reprodução Animal
Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da UNESP
Campus de Jaboticabal
Via de Acesso Prof. Paulo Donato Castellane, s/n
14884-900 – Jaboticabal – SP
e-mail: adjair@fcav.unesp.br

 

 

RESUMO

No período compreendido entre 1985 e 1996 foram necropsiados, para pesquisa de helmintos, 42 cervídeos, sendo sete Mazama americana, 16 M. gouazoubira, 13 Ozotoceros bezoarticus e seis Blastocerus dichotomus. Desses animais, foram colhidos 14.426 nematódeos Trichostrongyloidea, sendo 13.281 (92,06%) parasitos de abomaso e 1.145 (7,94%), de intestino delgado. Nesses órgãos, foram identificadas seis espécies de nematódeos: Haemonchus contortus, H. similis, Trichostrongylus axei, T. colubriformis, Cooperia punctata e C. pectinata. Todos os animais apresentaram infecções helmínticas por uma ou mais espécies, ocorrendo grande variação na intensidade de infecção (1 a 4.345 nematódeos). Ainda com relação à intensidade de infecção, os dados expressavam valores menores que 100 parasitos em 25 (59,52%) animais. Os valores mais altos de intensidade média das infecções foram observados em M. gouazoubira (596,37 helmintos) e em O. bezoarticus (331), e os menores, em M. americana (17,57) e B. dichotomus (75,5). Os dados mais expressivos de intensidade de infecção, abundância e prevalência foram observados para Haemonchus (larvas de 4º estágio), H. contortus, H. similis e T. axei. O gênero Haemonchus foi constatado em 35 animais, com prevalência de 83,33%; apresentou carga parasitária de 11.616 exemplares, representando 80,52% dos nematódeos verificados, sendo a maioria (8.903) constituída por formas imaturas. Por outro lado, H. similis foi a espécie predominante nas infecções e, portanto, a que apresentou maiores valores de abundância. Verificou-se o gênero Trichostrongylus em 24 (57,14%) animais, com carga parasitária de 2.444 exemplares, sendo 1.665 espécimes de T. axei, que representou 11,54% da carga parasitária obtida. As seis espécies de vermes identificadas nos cervídeos são comuns aos ruminantes domésticos nos Estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul e dessa maneira não se observou nenhuma espécie de Trichostrongyloidea exclusiva dos cervídeos.

UNITERMOS: Helmintos; Trichostrongylidae; Cervidae.

 

 

INTRODUÇÃO

Os cervídeos constituem um grupo de animais pertencentes à Ordem Artiodactyla, à família Cervidae, encontram-se dispersos mundialmente em florestas, cerrados, campos, desertos e pântanos e distribuem-se praticamente em todo o território nacional.

A região do Pantanal do Mato Grosso do Sul (Paiaguás) constitui um sistema ecológico de aproximadamente 25.457 km2, composto por áreas de matas, cerrados, campos e várzeas, onde convivem harmonicamente diversas espécies de cervídeos, de taiassuídeos, e outros animais domésticos e silvestres.

Na revisão do gênero Haemonchus Cobb, 1898, elaborada em 1935, há citação de H. contortus como parasito de Mazama americana, de M. gouazoubira e de Blastocerus dichotomus1.

Em 1968, foi relatada a presença de Trichostrongylus axei, em Odocoileus virginianus, nos Estados Unidos da América13.

Os estudos efetuados sobre a estrutura da composição da fauna helmíntica de cervídeos (O. virginianus), de bovinos selvagens (Bos taurus) e de suínos silvestres (Sus scrofa) na Geórgia, EUA, comprovaram a presença de 39 espécies de helmintos. Dessas, os cervídeos albergavam 19, os bovinos 17 e os suínos 13. Observaram ainda que bovinos e cervídeos estavam infectados com Capillaria bovis, Cooperia punctata, Dictyocaulus viviparus, Gongylonema verrucosum, H. contortus, Moniezia benedeni e Trichostrongylus axei, e que G. pulchrum era o único helminto comum aos três hospedeiros9.

Pesquisas no oeste da Virgínia, EUA, relataram a presença de helmintos em cervídeos (O. virginianus) e em ovinos domésticos criados na mesma pastagem, tendo observado 20 espécies de nematódeos nos ovinos, e seis em cervídeos: C. bovis, Trichuris ovis, T. skrjabini, Oesophagostomum venulosum, Chabertia ovina, C. curticei, C. mcmasteri, C. oncophora, C. punctata, H. contortus, Ostertagia circumcincta, O. dikmansi, O. mossi, O. trifurcata, Skrjabinagia odocoilei, T. vitrinus, Nematodirus filicollis, N. spathiger, D. filaria, D. viviparus, Muellerius capillaris, Parelaphostrongylus tenuis, G. pulchrum, e que apenas três nematódeos eram comuns a ambas as espécies10.

Pesquisas feitas no sudoeste dos Estados Unidos, sobre nematódeos intestinais de O. virginianus, revelaram a presença de C. bovis, Eucyathostomum webbi, Monodontus louisianensis, N. odocoilei, O. venulosum, Trichuris sp, C. punctata, T. longispicularis, Strongyloides sp., Cooperia sp., C. oncophora, C. spatulata e T. calcaratus11.

Os estudos sobre helmintos parasitos de O. virginianus realizados em duas comunidades norte- americanas demonstraram que os cervídeos de Nova Jersey eram parasitados por nove espécies de helmintos: P. andersoni, P. tenuis, D. viviparus, Setaria yehi, G. pulchrum, O. dikmansi, O. mossi, S. odocoilei e C. bovis, e os de Oklahoma por quinze: P. tenuis, S. yehi, G. pulchrum, G. verrucosum, H. contortus, O. dickmansi, O. mossi, N. odocoilei, T. askivali, T. axei, Moniezia sp., C. bovis, Trichuris sp., E. webbi e O. venulosum, e que apenas sete espécies eram comuns às duas regiões12.

Em cervídeos autóctones e exóticos, no sul do Chile, foi observada a presença de Spiculopteragia asymmetrica, Ostertagia sp., H. contortus, Muellerius sp., T. axei, Trichostrongylus sp., O. venulosum, O. radiatum, Bunostomum trigonocephalum, Capillaria sp., Dictyocaulus sp., Moniezia sp. e Sarcocystis sp3.

Estudos epidemiológicos sobre nematódeos gastrintestinais de bezerros zebus no Pantanal Mato-grossense revelaram as seguintes espécies de vermes: H. similis, H. contortus, C. punctata, C. pectinata, T. longispicularis, Toxocara vitulorum, S. papillosus, B. phlebotomum, O. radiatum e T. discolor2.

Em estudos sobre interação de helmintos de cervídeos (Cervus elaphus), de suínos selvagens (Sus scrofa) e de bovinos domésticos (B. taurus), na Ilha de Malokai (Havaí), foi verificada a presença de C. bovis, C. punctata, H. contortus e T. axei nos cervídeos e bovinos e de G. pulchrum em cervídeos e suínos selvagens6.

Estudos sobre a estrutura da composição da fauna helmíntica dos cervídeos nos Estados do Mato Grosso do Sul e São Paulo evidenciaram a presença de seis espécies de Trichostrongyloidea: H. contortus, H. similis, T. axei, T. colubriformis, C. pectinata e C. punctata7,8,14.

As perspectivas de exploração zootécnica dos cervídeos brasileiros são promissoras, devido à sua facilidade de adaptação ao cativeiro, bem como por possuírem carne e produtos derivados do couro de excelente qualidade e de bom valor comercial.

O objetivo deste estudo foi catalogar as espécies de nematódeos Trichostrongyloidea e avaliar em condições naturais os indicadores das infecções: intensidade, intensidade média, carga parasitária, abundância e prevalência. Dessa maneira, pretende-se oferecer subsídios que possam colaborar para um melhor conhecimento da fauna helmíntica dos cervídeos.

 

MATERIAL E MÉTODO

Os helmintos estudados foram obtidos de 42 cervídeos adultos, de ambos os sexos, pertencentes a quatro espécies, quais sejam: 7 Mazama americana, 16 M. gouazoubira, 13 Ozotoceros bezoarticus e 6 Blastocerus dichotomus. Esses seis animais procederam de Promissão, São Paulo, e foram gentilmente doados pela Companhia Energética de São Paulo (CESP), após a morte. A maioria dos animais era do sexo masculino e procedentes dos municípios de Coxim, Pedro Gomes e Corumbá (região do Pantanal), Mato Grosso do Sul.

Os cervídeos foram necropsiados no período entre 1985 e 1996. Após a morte, retirava-se o tubo digestivo de cada animal, dividindo-o em seus segmentos anatômicos (rúmen, retículo, omaso, abomaso e intestinos delgado e grosso). Posteriormente, cada segmento era aberto em bandeja de metal, e suas mucosas lavadas com água corrente. A seguir, o material era tamisado, utilizando-se peneiras de 100 mm de diâmetro, e o conteúdo obtido fixado em formol-acético, identificado e envasado em frascos individuais. Os helmintos eram colhidos, na sua totalidade, com o auxílio de microscópios estereoscópicos, separados por gênero e por sexo e mantidos em líquido fixador de Railliet & Henry. Os nematódeos foram identificados1,16 após serem diafanizados consecutivamente em solução de ácido acético a 80% e creosoto de Faya. Os indicadores de infecção natural utilizados foram: prevalência (número de hospedeiros infectados com uma espécie particular de parasito ÷ número total de hospedeiros examinados), intensidade média (número total de indivíduos de uma espécie particular de parasito ÷ número total de hospedeiros infectados pela referida espécie), intensidade (maior e menor números de determinada espécie de parasito, encontrados em uma amostra de hospedeiros), abundância ( número total de uma espécie particular de parasito, de uma amostra de hospedeiros ÷ número total de hospedeiros examinados), estando de acordo com "Report of an Ad Hoc Committee of the American Society of Parasitologists"5.

 

RESULTADOS

Identificaram-se nos animais examinados 14.426 nematódeos, sendo 13.281 (92,06%) colhidos dos abomasos e os demais 1.145 (7,94%), dos intestinos delgados, pertencentes a seis espécies de Trichostrongyloidea, relacionadas a seguir: H. contortus, H. similis, T. colubriformis, T. axei, C. punctata, C. pectinata (Tab. 1). Todos os cervídeos examinados apresentaram infecções helmínticas. O número total de nematódeos identificados em cada animal variou entre um e 4.345.

 

Tabela 1

Indicadores das infecções naturais por nematódeos Trichostrongyloidea, em quatro espécies de cervídeos, procedentes dos Estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul (área do pantanal), no período de julho de 1985 a setembro de 1996.

( ) = nº de animais infectados

 

O gênero Haemonchus foi observado em 35 (83,3%) animais. Identificaram-se 11.616 exemplares, representando 80,52% da carga parasitária total, sendo 1.153 (9,93%) H. contortus, 1.560 (13,43%) H. similis e 8.903 (76,64%) formas imaturas (larvas de 4º estágio) (Tab. 1). A maioria de H. contortus (639) e de H. similis (989) foram recuperados de O. bezoarticus, com os seguintes indicadores: para H. contortus, 49,15; 7-173; 76,19%; 27,45 e 36,03, de média, intensidade, prevalência, abundância e intensidade média, respectivamente e de 76; 8-275; 45,23%; 37,13 e 82,10, respectivamente para H. similis. Por outro lado, a maioria das formas imaturas (8.506) foi verificada em M. gouazoubira com média de 531,62 (1-4.198) por animal. Verificou-se o gênero Trichostrongylus em 24 (57,14%) animais, totalizando 2.444 (16,94%) exemplares, sendo 1.665 (68,13%) T. axei e 779 (31,87%) T. colubriformis. A maioria de T. axei (1.558) foi observada em O. bezoarticus, com média de 119,84 nematódeos por animal, intensidade 1-1.057, prevalência de 50%, abundância de 39,64 e intensidade média de 79,28; bem como a de T. colubriformis (765), com média de 58,84 nematódeos (Tab. 1).

Observaram-se 366 exemplares do gênero Cooperia em 19 (45,23%) animais, sendo 321 (87,70%) C. punctata, 1 (0,30%) C. pectinata e 44 (12,02%) formas imaturas. A maioria (212) de C. punctata foi observada em M. gouazoubira, em média 13,25 (1-102) nematódeos por animal. O único exemplar de C. pectinata foi observado em M. gouazoubira (Tab. 1).

 

DISCUSSÃO E CONCLUSÕES

Observações pertinentes às infecções naturais de cervídeos por helmintos quase sempre expressam baixos valores de abundância e intensidade média e, ao mesmo tempo, caracterizam-se por serem afecções causadas por diversas espécies. Nesse particular, os resultados obtidos concordam com aqueles dos EUA9,15, Chile3 e Brasil7,8,14.

Os dados configurados na Tab. 1 mostram que todos os cervídeos estavam infectados por uma ou mais espécies de Trichostrongyloidea e que na maioria deles (73,80%) foram observadas até três espécies de nematódeos. Esses resultados evidenciaram que os valores mais expressivos de intensidade média das infecções foram verificados em M. gouazoubira (596,37 helmintos) e em O. bezoarticus (331,38) e os menores em M. americana (17,57) e em B. dichotomus (75,5 helmintos). Esses valores mais altos estão indubitavelmente correlacionados com o fato de que dois (12,5%) exemplares de M. gouazoubira possuíam carga parasitária de 8.651 nematódeos e em um (7,69%) espécime de O. bezoarticus obtiveram-se 1.845 helmintos. Por outro lado, com relação à carga parasitária total das infecções, os dados verificados em 39 (92,85%) animais evidenciam baixos valores, de tal sorte que, em 25 (59,52%) deles ela foi inferior a 100 nematódeos. Estes dados, ao menos sob o ponto de vista teórico, parecem evidenciar infecções subclínicas e imunizantes e, nesse particular, nossas observações concordam com pesquisas em cervídeos na França4, nas quais infecções pequenas e progressivas estimulam nos animais selvagens o processo de imunidade, tornando-os mais resistentes às infecções parasitárias do que os animais domésticos. Esses baixos valores observados nas intensidades das infecções dos cervídeos por helmintos podem estar também correlacionados com o bom estado de higidez de 36 (85,71%) dos animais utilizados nessa pesquisa.

Os hospedeiros de H. contortus são os seguintes gêneros de Cervidae: Alce, Capreolus, Rangifer, Odocoileus, Cervus, Mazama e Blastocerus1,16,18. Nos EUA e Canadá, H. contortus e H. similis são relatados como parasitos de O. virginianus e O. hemionus17. No Brasil, H. contortus e H. similis foram observados em M. gouazoubira, M. americana e B. dichotomus7,14. As observações obtidas com relação ao espectro de hospedeiros de H. contortus e H. similis é, ao menos em parte, similar ao apresentado por aqueles autores; no entanto, observou-se a presença de H. similis em novo hospedeiro, O. bezoarticus.

Os estudos sobre helmintos parasitos de O. virginianus9,10,12 comprovaram baixos valores de intensidade média de infecção e de prevalência de H. contortus: 84 helmintos e 25,6% e 9,20 nematódeos e 6%, respectivamente. Baixos valores de prevalência do nematódeo (10%) foram também observados em C. axis6. Em estudos das nematodioses gastrintestinais de bezerros zebus, realizados no Pantanal do Mato Grosso do Sul, foi observada prevalência de 83,53% e 90,90% para H. similis em animais lactentes e desmamados, respectivamente2. Os resultados obtidos assemelham-se parcialmente às constatações nos EUA9,10,12 e diferem das realizadas no Havaí6.

As observações pertinentes ao espectro de hospedeiros de T. axei ou de T. colubriformis entre os cervídeos evidenciaram os seguintes animais: Capreolus, Alces, Odocoileus, O. virginianus, M. americana, M. gouazoubira e B. dichotomus7,13,14,16,18. Neste particular, as observações atuais assemelham-se às apresentadas na região do Pantanal7,14; no entanto constatou-se a presença dos nematódeos em O. bezoarticus. Com relação à intensidade média das infecções por T. axei, as constatações obtidas em C. axis6, em O. virginianus9,12, em M. americana, M. gouazoubira e B. dichotomus7,14 e em Bos indicus2, caracterizam-se por apresentarem baixos valores, concordando com as observações atuais (Tab. 1). Por outro lado, os dados apresentados por aqueles autores, sobre a prevalência do nematódeo, eram mais expressivos, variando de 3 a 75,7%, e nesse particular os resultados ora relatados diferem dos apresentados no Havaí6 e nos EUA9,12 e assemelham-se, em parte, aos apresentados no Mato Grosso do Sul e São Paulo2,7,14.

Os cervídeos no Texas, EUA, são parasitados por C. punctata, C. pectinata, C. oncophora e C. mcmasteri17. Em estudos realizados com O. virginianus, também nos EUA9,10,11, foi observada a presença de C. punctata, C. spatulata e C. oncophora. Em C. axis, no Havaí, verificou-se a presença de C. punctata6. Em M. americana e B. dichotomus, provenientes dos Estados do Mato Grosso do Sul e São Paulo, identificou-se C. punctata7,14. Uma prevalência de 60% e número máximo de 17 C. punctata foi constatada em C. axis, no Havaí6. Prevalência de 1,19% e intensidade de infecção 0-212 foi observada em O. virginianus, provenientes de 11 estados norte-americanos11. A maioria dos exemplares de C. punctata (107) foi identificada em M. gouazoubira7,14. As atuais observações pertinentes à intensidade de infecção e prevalência de C. punctata assemelham-se, em parte, aos resultados apresentados no Havaí6, e são muito próximos dos mencionados nos EUA9,10,11 e Brasil7,14.

Com relação às possibilidades de infecções cruzadas de helmintos parasitos de cervídeos para ruminantes domésticos, de acordo com a literatura compulsada, o assunto é bastante controvertido. Dessa maneira, apesar de as condições ambientais e do convívio regular de suínos, de bovinos e de cervídeos (O. virginianus), existentes na costa da Geórgia, EUA, constituírem em caracteres de bom potencial para transmissão de helmintos entre aquelas espécies animais, e, ainda, embasados nos baixos índices de similaridade das faunas estudadas, os helmintos parasitos dos bovinos e cervídeos são distintos9. Além disso, os cervídeos não são importantes reservatórios de helmintos para os bovinos9. Em estudos da estrutura da composição da fauna helmíntica de ovinos e de cervídeos (O. virginianus) criados na mesma pastagem, foi observado baixo índice de similaridade, fauna helmíntica distinta e estes animais possivelmente não funcionam como reservatórios de parasitos para ovinos domésticos10. Em estudos helmintológicos em cervídeos (C. axis), suínos silvestres (S. scrofa) e bovinos (Bos taurus), que conviviam na mesma área fisiográfica, não se observou nenhuma espécie de helminto comum às três espécies animais6. Com relação à fauna helmíntica dos cervídeos, os autores consideraram que é originária dos bovinos selvagens e consiste de espécies de helmintos capazes de parasitarem uma gama de ruminantes ou de muitas espécies de mamíferos6. A concentração de animais domésticos e silvestres em áreas restritas de pastagens, situadas nas proximidades das vazantes, que ocorrem nos períodos secos do ano (maio a setembro), facilita o aumento da tensão ambiental de contaminação (ovos e larvas de helmintos), onde as condições ambientais são adequadas ao desenvolvimento e à sobrevivência de formas pré-parasitárias, e facilitam a transmissibilidade das infecções causadas pelos helmintos, principalmente nos animais silvestres, haja vista que ainda não há citação na literatura nacional sobre a ocorrência de parasitos exclusivos de animais silvestres em bovinos.

Os dados ora apresentados tornaram evidente que H. similis e T. axei eram as espécies mais freqüentes de parasitos dos cervídeos, pois, em condições ambientais adequadas ao desenvolvimento e sobrevivência de formas larvais, o contato regular entre bovinos e cervídeos parece favorecer, ao menos em parte, a transmissão de helmintos para as espécies silvestres.

 

 

SUMMARY

From 1985 to 1996, 42 deers (seven Mazama americana, 16 M. gouazoubira, 13 Ozotoceros bezoarticus and six Blastocerus dichotomus) were submitted to necropsy. From those animals, 14,426 Trichostrongyloidea nematodes were gathered, being 13,281 (92.05%) parasites of abomasum and 1,145 (7.95%) parasites of small intestine. Haemonchus contortus, H. similis, Trichostrongylus axei, T. colubriformis, Cooperia punctata and C. pectinata were identified in those organs. All of the animals had helminthic infections by one or more worm species, occurring a wide variation in the intensity of infection (from one to 4,345 nematodes). The results showed low intensity of infection values, less than 100 worms, in 25 (59.52%) of the animals. The higher results of mean intensity of infection were observed in M. gouazoubira (596.37) and in O. bezoarticus (331), and the lower results, in M. americana (17.57) and B. dichotomus (75.5). The most expressive values of intensity of infection, abundance and prevalence were observed for Haemonchus spp (fourth stage larvae – L4 ), H. contortus, H. similis and T. axei. Genus Haemonchus was verified in 35 animals, and, therefore, with a prevalence of 83.33%; the total intensity of infection of this genus was 11,616 specimens, representing 80.52% of the Trichostrongyloidea nematodes verified, being that the majority (8,903) of those worms were constituted of young forms. Otherwise, H. similis was the specie predominating in the infections and, therefore, the one that showed the highest value of abundance. Genus Trichostrongylus was verified in 24 (57.14%) animals, and the total intensity of infection was 2,444 specimens, being 1,655 specimens of T. axei, that represented 11.54% of the parasitic burden observed. The six worm species observed in deers are also common to domestic ruminants in the states of São Paulo and Mato Grosso do Sul, and, in this way, none species of Trichostrongyloidea exclusive to deers was observed.

UNITERMS: Helminths; Trichostrongylidae; Cervidae.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação: 29/12/1997
Aprovado para publicação: 16/09/1999

 

1 Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Reprodução da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da UNESP, Jaboticabal – SP
2 Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da UNESP, Jaboticabal – SP