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Brazilian Journal of Veterinary Research and Animal Science

Print version ISSN 1413-9596

Braz. J. Vet. Res. Anim. Sci. vol.37 n.2 São Paulo  2000

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-95962000000200014 

Piômetra na espécie felina – Relato de um caso em Panthera onca

Pyometra in feline species – Report of a case in Panthera onca

 

Gilson Hélio TONIOLLO1; Domingos de FARIA Jr.1; Elzylene LEGA1; Cristina Mendes BATISTA2; Newton NUNES2

 

CORRESPONDÊNCIA PARA:
Gilson Hélio Toniollo
Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Reprodução Animal
Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da UNESP
Campus de Jaboticabal
Via de Acesso Prof. Paulo Donato Castellane, s/n
14884-900 – Jaboticabal – SP
e-mail: toniollo@fcav.unesp.br

 

 

RESUMO

Foi atendida, no Hospital Veterinário "Governador Laudo Natel" da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinária – UNESP – Campus de Jaboticabal, uma onça (Panthera onca) apresentando quadro de piometrite com cérvix fechada, confirmado através de radiografia abdominal. O animal foi submetido a ovarioisterectomia por celiotomia na linha mediana, sob anestesia dissociativa com manutenção através de anestesia geral inalatória. O pós-operatório foi baseado em curativos locais e antibioticoterapia, sendo a recuperação rápida, em torno de 10 dias.

UNITERMOS: Piômetra; Jaguar; Ovarioisterectomia.

 

 

INTRODUÇÃO

O Complexo Hiperplasia Endometrial Cística - Piômetra é uma desordem uterina mediada pela progesterona. Durante a fase luteal do ciclo estral, a progesterona suprime a resposta leucocitária no útero, diminui a contratilidade miometrial e estimula o desenvolvimento e atividade secretória das glândulas endometriais, predispondo a um meio para infecção bacteriana secundária. Não há patologia nos ovários, nem aumento na taxa de progesterona endógena11.

Acomete animais de meia-idade a mais idosos, sendo mais comum em cadelas do que em gatas, devido à fase luteínica da cadela ser longa e só ocorrer na gata quando sua ovulação é induzida através da cópula3,5,11. Há informações sobre piômetra felina10, porém escassez de relatos em felinos silvestres, tendo sido encontrada somente uma citação7.

A prevalência de Hiperplasia Endometrial Cística aumenta com a idade em fêmeas felinas sexualmente intactas, e a maioria dos casos de piômetra ou endometrite em gatas está associada à retenção de corpo lúteo12,13.

Os sintomas gerais incluem apatia, anorexia, depressão, desidratação, o abdômen pode estar distendido, vômito, diarréia, poliúria, polidipsia e, às vezes, anúria; raramente há hipertermia (moderada). Os sintomas locais estão relacionados ao tipo de piômetra: com cérvix fechada ou com cérvix aberta, nesta última há corrimento vaginal abundante e vulva edemaciada1,2,3,4,5,8,10,11,14.

A piômetra pode levar a complicações renais, digestivas e cardíacas, sendo a síndrome urêmica a maior causa de óbitos5.

O diagnóstico é baseado na história clínica, nos sintomas e exames complementares. A imagem radiológica revela útero aumentado e deslocamento de órgãos; a imagem ultra-sonográfica evidencia útero com conteúdo fluido anecogênico4,10,14.

Os exames hematológicos e bioquímicos podem demonstrar leucocitose com neutrofilia; anemia, que pode estar mascarada pela desidratação; aumento na taxa de uréia, creatinina e proteínas totais (globulina); e diminuição do nível de albumina. Na urinálise pode haver proteinúria e presença de cilindros3,4,5,10,11,14.

O tratamento mais eficiente é o cirúrgico, através da ovarioisterectomia, desde que o estado geral do animal seja melhorado, sendo que a maior complicação pós-cirúrgica está relacionada a toxemia e septicemia. Deve-se controlar a função renal e aplicar antibioticoterapia de amplo espectro de, no mínimo, sete dias durante o período pós-operatório3,5,6,10,11,14.

O tratamento clínico tem por objetivo drenar o conteúdo uterino, eliminar a infecção bacteriana e restaurar a capacidade reprodutiva. Ocitocina, derivados de ergometrina e estrogênios têm sido usados com sucesso limitado. O melhor resultado tem sido obtido com a prostaglandina F2a por promover luteólise, evacuação uterina e contrações miometriais, porém pode provocar efeitos colaterais como vômito, tremores e diarréia. Este tratamento deve ser acompanhado de antibioticoterapia de amplo espectro e nem sempre confere bons resultados, podendo ser seguido de recidivas. Indica-se seu uso somente em fêmeas jovens, reprodutoras, com piômetra exclusivamente aberta e que não apresentem estado geral afetado1,2,3,4,5,7,8,9,11.

Sendo assim, o presente trabalho tem a finalidade de descrever um caso de piômetra em felino da espécie Panthera onca, assim como o tratamento utilizado, visto que a literatura consultada é carente em relatos deste tipo.

 

MATERIAL E MÉTODO

Foi atendida no Hospital Veterinário "Governador Laudo Natel" da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias – Campus de Jaboticabal, uma onça (Panthera onca), com 7 anos de idade, nulípara, proveniente do Zoológico Municipal de São José do Rio Preto – SP, em novembro de 1996, acompanhada pelo Médico Veterinário responsável, apresentando quadro de apatia, inapetência, distensão abdominal (Fig. 1) e edema na base da cauda, tendo apresentado o último estro no início de 1996.

 

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Figura 1
Foto mostrando distensão abdominal de uma onça sendo submetida a exame radiológico.

 

Após indução anestésica com ZoletilA na dose de 2,5 mg/kg de peso corpóreo, por via intramuscular, foram realizados exames clínico, radiológico e colheita de material para hemograma e dosagens bioquímicas de creatinina e alanina aminotransferase (ALT).

Após os resultados dos exames clínico e radiológico (Fig. 1), foram realizadas tricotomia local e anti-sepsia prévia com solução de iodo polividona a 10%, seguido de celiotomia pré-retroumbilical na linha mediana ventral para realização de ovarioisterectomia pelo método convencional.

A manutenção anestésica foi realizada através de anestesia geral inalatória com ForaneB na dose de 2,5 V%.

Retirados útero e ovários, cujos fragmentos foram enviados para o serviço de Patologia da FCAVJ, a parede abdominal foi suturada com mononylon nº 4 e pontos em X; a redução do espaço subcutâneo feita com mononylon nº 1 e sutura tipo Cushing; e dermorrafia com fio de aço nº 3-0, com pontos tipo simples separados.

O pós-operatório foi baseado em curativos locais com Tintura de iodo a 2% uma vez ao dia, e antibioticoterapia com Penicilina G Benzatina na dose de 40.000 UI/kg de peso corpóreo a cada 48 horas durante 8 dias.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O exame físico demonstrou apatia, grande distensão abdominal, temperatura corpórea normal compatíveis com os sintomas citados pela maioria dos autores1,2,3,4,5,8,11,14, assim como o fato de tratar-se de uma exemplar nulípara e de meia-idade3,5,11,13. O edema na base na cauda provavelmente era devido à dificuldade no retorno venoso causado por compressão vascular em virtude do grande aumento de volume uterino.

Comparando-se com os valores fisiológicos normais para a espécie, os exames hematológicos e bioquímicos não apresentaram alterações significativas referentes à anemia, leucocitose e neutrofilia como as descritas na literatura3,4,5,11,14; do mesmo modo, nenhuma alteração renal pôde ser constatada. Estes resultados levam a concluir que o animal ainda não apresentava quadro de septicemia.

O exame radiológico revelou grande aumento de volume de órgão abdominal, sugerindo cornos uterinos, com deslocamento cranial de alças intestinais bastante evidenciado4,10,14.

O animal não apresentava nenhum tipo de secreção vaginal e, por este motivo, o tratamento de escolha foi o cirúrgico associado a antibioticoterapia de amplo espectro, sendo este considerado o mais eficiente1,2,3,4,5,6,7,8,9,11,14. A laparotomia revelou cornos uterinos bastante aumentados (Fig. 2), confirmando-se assim o diagnóstico de piômetra. Os fios e tipos de pontos utilizados na sutura evitaram contaminação e deiscência no período pós-operatório e foram adequados por se tratar de uma espécie silvestre.

 

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Figura 2
Foto evidenciando aumento de cornos uterinos (piômetra) em uma onça.

 

Os resultados referentes à histopatologia foram compatíveis com fase progesterônica, ou seja, ambos os ovários continham corpos lúteos.

O procedimento anestésico não trouxe nenhuma complicação, sendo que o tempo de duração da anestesia permitiu inclusive o transporte de volta ao Zoológico onde o animal ficaria em observação.

Tanto o tratamento quanto o pós-operatório foram bem-sucedidos, e o animal voltou ao seu comportamento normal em 10 dias.

 

CONCLUSÃO

Os resultados do presente relato permitem concluir que:

- A escolha do tratamento, assim como dos meios auxiliares de diagnóstico foram eficientes e adequados, visto que a fêmea recuperou-se rapidamente após a intervenção cirúrgica.

 

 

SUMMARY

An ounce (Panthera onca) diagnosed as having pyometra by abdominal radiography was admitted to the Veterinary Hospital "Governador Laudo Natel" of UNESP – Jaboticabal and was treated by ovariohysterectomy. Dissociative anesthetic and inhalation anesthesia were used for induction purpose and maintaining surgical anesthesia, respectively. Local dressing and antibiotics were used during the postoperative period and recovery was complete in about 10 days.

UNITERMS: Pyometra; Jaguars; Ovariohysterectomy.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação: 01/09/1998
Aprovado para publicação: 16/09/199

 

 

1 Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Reprodução Animal da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da UNESP, Campus de Jaboticabal, Jaboticabal – SP
2 Departamento de Clínica e Cirurgia Veterinária da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da UNESP, Campus de Jaboticabal, Jaboticabal – SP
A Virbac do Brasil.
B Abott.