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Brazilian Journal of Veterinary Research and Animal Science

versão impressa ISSN 1413-9596

Braz. J. Vet. Res. Anim. Sci. v.39 n.3 São Paulo  2002

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-95962002000300008 

Capacitação espermática in vitro com heparina e cálcio ionóforo e sua correlação com a fertilidade em touros

 

Evaluation of in vitro sperm capacitation with heparin and calcium ionophore in bulls

 

 

Mayra Elena Ortiz D'Avila Assumpção; Kátia Haipeck; Alecsandra Sobreira de Lima; Marco Roberto Bourg de Mello; Lilian Jesus de Oliveira; Viviane Purri de Oliveira; Liliam Mara Trevisan Tavares; José Antônio Visintin

Departamento de Reprodução Animal, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia Universidade de São Paulo, São Paulo - SP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O objetivo deste estudo foi avaliar os protocolos de capacitação espermática in vitro com 100 mg/ml de heparina e 5 mM de cálcio ionóforo e correlacionar a capacitação com a fertilidade in vivo. A capacitação espermática foi avaliada pela coloração com iodeto de propídio e diacetato de carboxifluoresceína e pela coloração tripla com vermelho congo, vermelho neutro e giemsa. Os espermatozóides foram avaliados quanto a viabilidade (vivos ou mortos) e a qualidade do acrossomo (lesados ou íntegros), sendo caracterizados como capacitados (vivos e lesados), não capacitados (vivos e íntegros) e mortos (lesados ou íntegros). A heparina apresentou 64,54% e 39,16% e o cálcio ionóforo 36,41% e 18,11% de espermatozóides capacitados, respectivamente, pela epifluorescência e coloração tripla. Os touros foram divididos em três grupos de fertilidade, sendo o Grupo A <63%, o Grupo B entre 63 e 68% e o Grupo C >68%. Nos três grupos houve diferença significativa (p<0,01) em relação aos espermatozóides capacitados dos tratamentos com heparina e cálcio ionóforo, tanto na epifluorescência quanto na coloração tripla. Não houve diferença estatística significativa (p>0,01) para os espermatozóides capacitados, não capacitados e mortos entre os grupos A, B e C, tanto na epifluorescência quanto na coloração tripla para ambos capacitores (heparina e cálcio ionóforo). Não houve correlação entre os espermatozóides capacitados in vitro e a taxa de fertilidade a campo. A heparina apresentou melhor taxa de espermatozóides capacitados e a epifluorescência mostrou-se mais eficiente na detecção da capacitação espermática (p<0,01).

Palavras-chave: Capacitação espermática. Heparina. Cálcio ionóforo. Colorações


SUMMARY

The aim of this particular study was to test in vitro sperm capacitation protocols, using heparin (100mg/ml) and calcium ionophore (5mM). Propidium iodide and carboxifluorescein diacetate (IP/CFDA) in a fluorescence microscope as well as triple stain (congo red, neutral red and Giemsa) in Phase contrast microscope were used as staining. The spermatozoa were classified according to its viability (alive or dead) and acrossome integrity (damaged or intact). They were considered as follows: capacitated (alive and damaged); non capacitated (alive and not damaged) and dead (damaged or intact). The heparin group showed a ratio of 64.54% and 39.16% of capacitated spermatozoa in IP/CFDA and triple stain, respectively. In the calcium group, 36.41% and 18.11% of spermatozoa were capacitated in IP/CFDA and triple stain, respectively. Bulls were divided into 3 groups according to their fertility rates as follows: Group A < 63%, Group B from 63 to 68% and Group C > 68%. For all three groups there was significant differences (p<0.01), regarding capacitated spermatozoa with heparin and calcium ionophore in both stains IP/CFDA and triple stain. On the other hand, there was no significant differences (p>0.01), when observed capacitated, non capacitated and dead spermatozoa among groups A and B; A and C; B and C, using heparin and calcium ionophore in both stains. No correlation was seen between capacitation and fertility rates. Therefore heparin treatment showed better sperm capacitation rates than calcium ionophore. The IP/CFDA technique showed itself as being a better method to evaluate sperm capacitation than the triple stain (p<0.01).

Palavras-chave: Sperm capacitation. Heparin. Calcium ionophore. Staining methods.


 

 

INTRODUÇÃO

Os espermatozóides de mamíferos não possuem habilidade para fecundar os oócitos imediatamente após a ejaculação, mesmo estando móveis e com aparente morfologia normal. No processo in vivo, os espermatozóides alcançam esta capacidade fecundante no trato genital feminino. A capacidade de adquirir competência fecundante foi denominada de capacitação espermática4;1.

A capacitação é um processo que envolve múltiplas etapas, ainda não bem compreendidas, e mudanças bioquímicas e estruturais da membrana plasmática dos espermatozóides. Estas mudanças afetam a estrutura e a permeabilidade da membrana espermática. Este processo está relacionado com mudanças na concentração iônica intracelular, na fluidez da membrana plasmática, no metabolismo e na motilidade dos espermatozóides19.

Para que ocorra a fecundação dos oócitos, os espermatozóides precisam sofrer reação acrossômica (distúrbio na membrana plasmática), ou seja, precisam estar previamente capacitados para poderem responder ao estímulo da membrana pelúcida que desencadeará o processo de reação acrossômica. Para que ocorra esta alteração da membrana plasmática in vitro, adicionam-se agentes capacitores como a heparina e o cálcio ionóforo20.

Para AX e LENZ2, touros com alto índice de fertilidade têm maior taxa de reação acrossômica em resposta às substâncias semelhantes à heparina, pois os seus espermatozóides possuem maior afinidade aos glicosaminoglicanos (GAGs) em comparação aos touros com baixa fertilidade. Os autores concluíram que os GAGs podem ser usados pelos pesquisadores como métodos de observação de alterações estruturais dos espermatozóides e pelas centrais de inseminação artificial como testes para estimar a fertilidade de touros.

YANG et al.20 compararam a capacitação espermática induzida pelo Ca A-23187 e pela heparina em meios de maturação com ou sem hormônios, concluindo que os três tratamentos foram eficientes, mas o cálcio ionóforo apresentou maiores taxas de fecundação e de desenvolvimento embrionário.

PARRISH et al.14 observaram que a heparina induz a capacitação espermática, sendo sua ação notada no início do processo de incubação, mas segundo os autores deve ser no mínimo de 4 horas.

Diferentes métodos são utilizados para verificar a integridade do acrossomo, conforme estudo realizado por KOVÁCS e FOOTE8 no qual aprimoraram a técnica de coloração de Giemsa para visualizar alterações no acrossomo após o processo de reação acrossômica. As modificações apresentadas pelos autores permitiram distinguir 10 classes de espermatozóides (vivos com acrossomo intacto; danificado; solto; sem acrossomo; sem acrossomo e com anel pós-acrossomal ou mortos com as mesmas alterações acrossômicas).

Inúmeras sondas fluorescentes estão sendo utilizados para conseguir informações sobre as funções celulares dos espermatozóides, as quais podem estar relacionadas com a fertilidade. Ainda podem ser usadas combinações de diversas sondas fluorescentes para avaliar diferentes características funcionais, aumentando a probabilidade destas características refletirem a capacidade fecundante dos espermatozóides.

GARNER et al.6 informam que a combinação do iodeto de propídio com diacetato de carboxifluoresceína resultou em coloração que determina o aspecto funcional dos espermatozóides devido às suas características moleculares. Adaptações às técnicas de coloração foram propostas por HARRISON e VICKERS7 com sondas fluorescentes, facilitando a visualização dos espermatozóides em microscópio de epifluorescência. A adição de concentrações baixas de formaldeído (1,7mM) para imobilização dos espermatozóides, durante a avaliação, permitiu a visualização em microscópio de epifluorescência, até então possível somente pela citometria de fluxo, aumentando a aplicabilidade da técnica. WHITFIELD e PARKINSON17, investigando a correlação entre a fertilidade de touros à campo e testes in vitro de indução da reação acrossômica, concluíram que o uso de sondas fluorescentes de iodeto de propídio e diacetato de carboxifluoresceína (CFDA/IP) poderia ser utilizado na avaliação da reação acrossômica. Tal conclusão foi possível comparando os resultados da coloração CFDA/IP com a microscopia de contraste de interferência diferencial (DIC). Esse método de coloração, empregando sondas fluorescentes (iodeto de propídio e diacetato de carboxifluoresceína), tem sido amplamente utilizado na avaliação da integridade do acrossomo após a criopreservação de espermatozóides em diferentes espécies (equino21 e ovino11).

De acordo com WHITFIELD e PARKINSON17, é importante estabelecer a relação entre a reação acrossômica in vitro dos espermatozóides congelados e a fertilidade de touros, pois a maioria dos trabalhos utiliza sêmen fresco. Os graus de fertilidade podem ser estabelecidos de acordo com a taxa de reação acrossômica induzida pelos glicosaminoglicanos. A possibilidade de predizer a fertilidade de espermatozóides congelados permite a investigação retrospectiva das causas de baixa fertilidade em touros. Ainda, a indução da capacitação in vitro propicia a avaliação de touros jovens destinados ao teste de progênie, descartando os animais que apresentam baixa taxa de capacitação espermática.

Os objetivos deste estudo foram:

1) comparar a eficiência da heparina e do cálcio ionóforo na capacitação espermática in vitro.

2) comparar a coloração com iodeto de propídio (IP) e diacetato de carboxifluoresceína (CFDA) e a coloração tripla com vermelho congo, vermelho neutro e giemsa para detectar a integridade do acrossomo e a viabilidade dos espermatozóides.

3) correlacionar as taxas de capacitação espermática e de fertilidade a campo.

 

MATERIAL E MÉTODO

Todos os reagentes foram adquiridos da Sigma. No entanto, os produtos que possuem mais de uma apresentação têm seus códigos descritos a seguir: "Heparin" - H-3149; "Neutral Red" - N-2880; "Trypan Blue" - T-5526; "Calcium Ionophore" - C-7522; "5-Carboxyfluorescein diacetate" - C-4916; "Sodium Chloride" - S-9625; DMSO - D-5879; "Sodium Citrate" - S-4641; "Potassium Chloride" - P-4504; "Magnesium Chloride" - M-0250; "Sodium Phosfate Monobasic"- S-0751; "Sodium Bicarbonate" - S-8875; "Calcium Chloride" - C-7902; "Phenol Red" - P-4633; "DL-Lactic Acid" - L-7900; "Albumin, Bovine" - A-6003; "Gentamicin Sulfate" - G-1264; "Pyruvic Acid" - P-2256; "HEPES" - H-0891 e "Giemsa Stain, modified" - GS-500.

Após a descongelação (37°C por 30 segundos) e a avaliação da motilidade e do vigor, o sêmen foi submetido à centrifugação (centrífuga Labofuge 300 Heraeus) de 600 g por 30 minutos em gradiente Percoll (45% e 90 %). O sedimento foi lavado uma vez em meio Sperm-Talp15 e centrifugado a 200 g por 5 minutos para retirada do Percoll.

Deste segundo sedimento, 5ml foram colocados em 250 ml de meio FIV15 para avaliação da motilidade e 5ml em 250ml de água para determinação da concentração espermática. Para cada tratamento foram colocados, em média, 3X106 espermatozóides móveis em 1 ml do meio FIV, adicionando-se, respectivamente, 100 mg de heparina ou 5 mM de cálcio ionóforo20.

O sêmen com heparina foi mantido em estufa (Revco) a 39°C e 5% de CO2 durante 6 horas. Em seguida, foi lavado em meio FIV (1:2 v/v), centrifugado a 200 g por 5 minutos e destinado às colorações. O sêmen com cálcio ionóforo foi mantido à temperatura ambiente (22 - 25°C) durante 1 minuto. Em seguida, foi lavado em meio FIV (1:2 v/v), centrifugado a 200 g por 5 minutos e destinado às colorações.

Para cada tratamento (heparina e cálcio ionóforo) foram utilizadas a coloração com iodeto de propídio (IP) e diacetato de carboxifluoresceína (CFDA) descrita por HARRISON e VICKERS7 e modificada por ZÚCCARI21 e a coloração tripla com vermelho congo, vermelho neutro e giemsa descrita por KOVÁCS e FOOTE8.

As colorações com IP e CFDA foram realizadas com 10 ml do sêmen capacitado com heparina ou cálcio ionóforo e 40 ml da solução corante, aguardando-se 8 minutos. As lâminas foram confeccionadas com 5 ml da solução corante/sêmen e cobertas com lamínula, e o excedente retirado com lenço de papel, sendo imediatamente avaliados os espermatozóides em Microscópio de Epifluorescência (ZEISS) com filtro 510-560 excitações. Foram analisadas 200 células por amostra/tratamento/touro, avaliando-se a viabilidade dos espermatozóides (vivos ou mortos) e a qualidade do acrossomo (lesado ou íntegro).

A coloração tripla foi realizada em lâmina com 5 ml de sêmen capacitado com heparina ou cálcio ionóforo e 5 ml de vermelho congo, sendo misturadas as soluções e confeccionado, imediatamente, o esfregaço. As lâminas foram secas ao ar e devidamente identificadas quanto ao tratamento (heparina ou cálcio ionóforo), data e nome do touro. Posteriormente, foram fixadas em solução de formaldeído 40%, ácido clorídrico (1 N) e vermelho neutro por 5 minutos e, finalmente, incubadas em giemsa a 7,5% por 4 horas a 40ºC. As lâminas foram secas ao ar e observadas em Microscópio de Contraste de Fase (Olympus CH 30/BH2-PC) sob imersão. Foram analisadas 200 células por amostra/tratamento/touro, avaliando-se a viabilidade dos espermatozóides (vivos ou mortos) e a qualidade do acrossomo (lesado ou íntegro).

Análise Estatística

Para analisar os resultados da capacitação espermática com heparina e cálcio ionóforo e os métodos de coloração com iodeto de propídio/diacetato de carboxifluoresceína (IP/CFDA) e de coloração tripla com vermelho congo, vermelho neutro e giemsa foi utilizado o teste do Qui-quadrado (c2) com nível de significância de 0,01.

Para avaliar a relação entre a capacitação espermática in vitro e a fertilidade a campo, foram utilizadas as análises de correlação e de regressão. Realizou-se diagramas de dispersão nos quais estão representados a taxa de fertilidade de cada touro, no eixo das abcissas e a proporção média de espermatozóides capacitados com heparina e cálcio ionóforo, no eixo das ordenadas. Procedeu-se ao ajuste da reta pelo método dos quadrados mínimos para as incertezas diferentes e o cálculo do coeficiente de correlação (R2).

Para cada amostra analisada há uma proporção e uma incerteza. Calculou-se a média das 10 amostras analisadas e propagou-se as incertezas para o valor médio. Para cada agente capacitor e método de coloração há uma equação de reta (y = ax + b) onde o a é o coeficiente angular; o b é o intercepto; o y é a proporção média de espermatozóides capacitados e o x é a taxa fertilidade.

 

RESULTADOS

Comparando-se os métodos de coloração, a técnica de epifluorescência com iodeto de propídio e diacetato de carboxifluoresceína (IP/CFDA) mostrou-se mais eficiente (p<0,01) na detecção dos espermatozóides capacitados, quando comparada à técnica de coloração tripla com vermelho congo, vermelho neutro e giemsa, tanto no tratamento com heparina (64,54 e 39,16%) quanto no tratamento com cálcio ionóforo (36,41 e 18,11%). A coloração tripla apresentou taxa (p<0,01) de espermatozóides não capacitados significativa no tratamento com heparina (48,27 e 29,00%) e não significativa no tratamento com cálcio ionóforo (76,39 e 58,38%) em comparação a coloração IP/CFDA. Não houve diferença significativa na detecção de espermatozóides mortos entre as colorações IP/CFDA e tripla (Tab. 1), tanto na heparina (6,46 e 12,57%, p=0,75) quanto no cálcio ionóforo (5,21 e 5,50%, p=0,15).

Houve diferença significativa (p<0,01) entre a heparina e o cálcio ionóforo em relação aos espermatozóides capacitados, tanto na coloração IP/CFDA (64,54 e 36,41%) quanto na coloração tripla (39,16 e 18,11%). O cálcio ionóforo mostrou significativa taxa (p<0,01) de espermatozóides não capacitados em relação a heparina, tanto na coloração IP/CFDA (58,38 e 29,00%) quanto na coloração tripla (76,39 e 48,27%). Não houve diferença significativa (p>0,01) entre a heparina e o cálcio ionóforo em relação aos espermatozóides mortos (Tab. 1), tanto na coloração IP/CFDA (6,46 e 5,21%, p=0,75) quanto na coloração tripla (12,57 e 5,50%, p=0,08).

Para avaliar se o número de espermatozóides capacitados, não capacitados e mortos nos tratamentos com heparina e cálcio ionóforo estaria relacionado com a taxa de fertilidade, os touros foram divididos em 3 grupos. No grupo A foram colocados os touros com fertilidade inferior a 63%, no grupo B entre 63% e 68% e no grupo C, superior a 68%.

Para cada grupo realizou-se análise estatística (c2), comparando os agentes capacitores e os métodos de coloração. Para verificar se houve diferença entre os grupos de touros A, B e C, comparou-se os números de espermatozóides capacitados, não capacitados e mortos nos tratamentos com heparina e cálcio ionóforo e avaliados pela epifluorescência e pela coloração tripla (Tab. 2 e 3).

Na coloração de epifluorescência com (IP/CFDA não houve diferença significativa entre os grupos de touros A e B; A e C; B e C, em relação aos espermatozóides capacitados, não capacitados e mortos (Fig.1), tanto na heparina quanto no cálcio ionóforo (Tab. 2).

 

 

 

Na coloração tripla não houve diferença significativa entre os grupos de touros A e B; A e C; B e C, em relação aos espermatozóides capacitados, não capacitados e mortos (Fig. 2), tanto na heparina quanto no cálcio ionóforo (Tab. 3).

 

 

 

Após as análises in vitro, correlacionaram-se os números de espermatozóides capacitados com as taxas de fertilidade dos touros a campo (Fig. 1 e 2).

A variação das taxas de fertilidade dos touros explica 9,94% e 21,10% (Fig. 1) da variação da proporção média de espermatozóides capacitados, respectivamente, pela heparina e o cálcio ionóforo e corados pelo IP/CFDA e 18,64% e 9,00% (Fig. 2) quando capacitados, respectivamente, pela heparina e o cálcio ionóforo e corados pela coloração tripla.

 

DISCUSSÃO

Uma das metas da indústria da inseminação artificial tem sido o encontro de um método simples e eficaz para predizer a fertilidade dos espermatozóides bovinos. Diferentes grupos de pesquisadores (2, 7) têm desenvolvido métodos de coloração para encontrar respostas quanto à viabilidade e à qualidade dos espermatozóides. As técnicas são escolhidas de acordo com a facilidade e a simplicidade de preparo, eficiência, sensibilidade e custo do método. Neste trabalho, escolheu-se a técnica de epifluorescência por apresentar boa visualização dos espermatozóides, capacitados ou não (Fig. 2), e ser rápida e de fácil preparo, utilizando as categorias classificadas por HARRISON e VICKERS7 para os diferentes tipos de espermatozóides porém relacionando-às à capacitação espermática. A primeira categoria (espermatozóides verdes em toda sua extensão) foi atribuída aos espermatozóides não capacitados (FIG. 1B). A segunda categoria (espermatozóides com cabeça vermelha e com peça intermediária e cauda verdes) foi atribuída aos espermatozóides capacitados (FIG. 1A). A terceira categoria (espermatozóides com acrossomo, cauda e peça intermediária verdes e região posterior da cabeça vermelha) foi atribuída aos espermatozóides mortos (FIG.1C). A quarta categoria (espermatozóides inteiramente vermelhos) não foi encontrada neste trabalho.

Para ter informação mais precisa sobre o processo de capacitação, duas lâminas por amostra/touro foram avaliadas, sendo observados 200 espermatozóides em cada lâmina. As lâminas do tratamento com heparina, apresentaram, muitas vezes, número reduzido de espermatozóides, dificultando a contagem, apesar do alto número de espermatozóides por teste (3X106). Possivelmente, devido ao tempo de incubação, estes espermatozóides podem ter se fixado à parede do tubo "eppendorf", pois a alteração da membrana faz com que os espermatozóides tenham maior facilidade de aderência nas superfícies lisas, conforme relatado por PARRISH et al.15.

Utilizou-se a coloração tripla descrita por KOVÁCS e FOOTE8, os quais desenvolveram esta técnica para diferenciar a reação acrossômica verdadeira da falsa (19), obtendo melhor interpretação da qualidade e da viabilidade dos espermatozóides (vivos ou mortos). Neste trabalho notou-se que, apesar de simples, esta coloração necessita de adequado preparo do material, como lavagem rigorosa das lâminas, uma vez que qualquer resíduo que permaneça será corado, dificultando a visualização dos espermatozóides. Ainda observou grande imprecisão do método quando se analisou a integridade do acrossomo, embora a técnica seja útil para avaliar a viabilidade dos espermatozóides (vivos ou mortos).

Neste estudo, o cálcio ionóforo mostrou-se inferior em relação a heparina como agente capacitor (Tab. 1 a 3), o que contradiz, de certa forma, os resultados de YANG et al.20, que mostraram que o cálcio ionóforo e a heparina são bons agentes capacitores, embora o cálcio tenha conferido taxas de fecundação e de desenvolvimento embrionário mais altas. Provavelmente esta diferença está relacionada ao tempo de incubação dos espermatozóides com a heparina empregado por YANG et al.20 que foi de 15 minutos e neste trabalho de 6 horas. Os autores utilizaram 0,1 mM de cálcio ionóforo e tempo de incubação de 1 minuto, enquanto WHITFIELD e PARKINSON17 utilizaram 1 mM de cálcio ionóforo e tempo de incubação de 1 hora para a capacitação de espermatozóides. Neste trabalho, o tempo de incubação do cálcio ionóforo foi de 1 minuto e a concentração de 5 mM, pois em ensaios prévios a taxa de capacitação espermática apresentava-se baixa com a concentração de 0,1 mM.

A dose de heparina neste experimento foi de 100 mg/ml, pois YANG et al.20 relatam maiores taxas de fecundação e de desenvolvimento embrionário nesta concentração em comparação a 10 mg/ml. FUKUI et al.5 avaliaram a heparina em diferentes doses e tempos de incubação, verificando que houve aumento da taxa de fecundação nas concentrações de 25, 50 e 100 mg/ml e diminuição a 200 mg/ml.

De acordo com PARRISH et al.13, a heparina provou ser o glicosaminoglicano mais potente para capacitar espermatozóides bovinos. Mencionam que a taxa de fecundação e a reação acrossômica são dependentes do tempo de exposição dos espermatozóides à heparina. Comentam que, após 2 horas de incubação, ocorre saturação das ligações da heparina com os espermatozóides, não devendo haver aumento da taxa de fecundação em maior tempo de incubação. Contudo não é isso que acontece, pois tratamentos com 4 e 6 horas mostraram aumento da taxa de fecundação, provavelmente devido à ação direta da heparina sobre os espermatozóides (13). MILLER e HUNTER12 relatam que não houve diferença da frequência de reação acrossômica entre 4,5 horas e 8 horas de incubação dos espermatozóides com a heparina.

No presente estudo, realizaram-se testes experimentais para comparar os tempos de incubação de 4, 6 e 9 horas, constatando que o período de 6 horas apresentou os melhores resultados, sendo adotado neste experimento.

Notou-se neste trabalho variação entre os touros e entre as amostras de sêmen quanto ao número de espermatozóides capacitados, não capacitados e mortos. No entanto, entre os grupos de touros A, B e C não houve diferença quanto a taxa de espermatozóides capacitados, não capacitados e mortos, observação esta também verificada por SHAMSUDDIN e LARSSON16.

O grande objetivo das pesquisas que envolvem a capacitação espermática está em predizer in vitro o que acontece in vivo, após a inseminação artificial. Para tanto, há necessidade de conhecer os índices de fertilidade dos touros a campo e compará-los com os resultados dos testes in vitro. As centrais de inseminação submetem o sêmen dos touros a inúmeras avaliações in vitro e, posteriormente, empregam como teste in vivo a inseminação artificial ou a cobertura natural. Geralmente, os touros permanecem por 60 dias com as vacas (estação de monta) e, após 50 a 90 dias da retirada dos touros, as vacas são avaliadas para diagnóstico de gestação. A partir deste resultado tem-se a taxa de não retorno do cio, ou seja, o número de vacas que, no período de 60 dias, foi fecundada. Este resultado só é válido quando se tem elevado número de inseminações ou de coberturas, obtendo-se, com isso, índice real da fertilidade dos touros.

MARKS e AX9, utilizando touros holandeses que tinham índices de não retorno do cio entre 59 e 90 dias e, no mínimo, 2.000 serviços por animal, concluíram que a ligação da heparina marcada aos espermatozóides está relacionada com os índices de não retorno do cio, podendo ser um teste para predizer a fertilidade de touros. Portanto o acompanhamento in vitro do processo de capacitação espermática com glicosaminoglicanos pode esclarecer as alterações espermáticas que, normalmente, ocorrem durante a capacitação in vivo.

BLOTTNER et al3 correlacionaram a motilidade e os demais parâmetros morfológicos dos espermatozóides com a fertilidade (índice de não retorno do cio), verificando baixa correlação. A indução da reação acrossômica, após o processo de capacitação espermática pela heparina (10 mg/ml), mostrou correlação alta com os índices de não retorno do cio. Ainda, relatam que a competência funcional dos espermatozóides é fundamental no processo de fecundação. Por esta razão, os ensaios biológicos devem abranger os processos de capacitação, reação acrossômica e fusão in vitro dos espermatozóides com os oócitos. Os autores consideram que o coeficiente de correlação não foi satisfatório, mas, provavelmente, com o aumento do número de ejaculados, de inseminações e de oócitos fecundados in vitro poderá haver correlação. MARQUANT-LE GUIENNE et al.10 afirmaram que, para conseguir os índices de não retorno do cio, foi necessário computar os resultados de 2 anos consecutivos de inseminação artificial, variando de 802 até 88.008 por animal, para encontrar efeito do touro. WHITFIELD e PARKINSON18 observaram que existe correlação entre a indução in vitro da reação acrossômica pela heparina (10 mg/ml) com a taxa de não retorno do cio após 90 dias da inseminação artificial. Segundo os autores, as amostras de sêmen estão sujeitas a variações e, por isso, deve-se fazer repetidas avaliações antes de predizer a fertilidade dos touros pelos testes in vitro.

No presente estudo, houve baixa correlação entre as taxas de espermatozóides capacitados e a fertilidade dos touros a campo, o que contradiz inúmeros trabalhos (9, 3, 10, 18). Esta taxa de fertilidade foi fornecida pela central de inseminação artificial, sendo oriunda de inseminações realizadas em fazendas, sem o controle da central que só conhece a qualidade do sêmen, nada podendo informar quanto a eficiência do inseminador, a qualidade das vacas, o manejo das propriedades e, principalmente, o baixo número de inseminações por touro. Baseado nestas informações, pode-se afirmar que a não existência de correlação entre as taxas de espermatozóides capacitados in vitro e os índices de fertilidade a campo deve-se ao fato destes índices não espelharem a realidade. Para contornar esta influência, as reais taxas de fertilidade devem ser calculadas com grande número de inseminações, o que demanda muito tempo ou, então, realizar experimentos com touros que tenham índices de fertilidade confiáveis, o que as centrais não conseguem controlar no Brasil.

 

CONCLUSÕES

Nas condições em que este trabalho foi realizado pode-se concluir que:

1) A heparina mostrou ser melhor do que o cálcio ionóforo como agente capacitor in vitro.

2) A coloração com iodeto de propídio e diacetato de carboxifluoresceína mostrou-se melhor do que a coloração tripla, pois apresentou maior eficiência na detecção de espermatozóides capacitados.

3) Não houve correlação positiva entre as taxas de espermatozóides capacitados in vitro e de fertilidade a campo.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
José Antonio Visintin
Departamento de Reprodução Animal Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo
Av. Prof. Orlando Marques de Paiva, 87 Cidade Universitária Armando Salles Oliveira
05508-270 –São Paulo – SP
E-mail: meoaa@usp.br

Recebido para publicação: 25/10/1999
Aprovado para publicação: 19/03/2002