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Perspectivas em Ciência da Informação

On-line version ISSN 1981-5344

Perspect. ciênc. inf. vol.13 no.1 Belo Horizonte Jan./Apr. 2008

https://doi.org/10.1590/S1413-99362008000100005 

ARTIGO

 

A leitura informacional na teia da intermedialidade1: um estudo sobre a informação no texto pós-moderno

 

The information reading in the web of the intermedia2: a study of the information in the postmodern text

 

 

Gustavo Silva Saldanha

Bibliotecário da Fundação Biblioteca Nacional; Mestrando em Ciência da Informação -ECI - UFMG

 

 


ARTIGO

O artigo investiga a presença da complexidade do texto intermidial no âmbito do pensamento e das práticas da Ciência da Informação. Na análise, são discutidos elementos inerentes ao processo de leitura informacional - aquela voltada para a representação, transmissão e preservação da informação - de um texto contemporâneo, bem como são indicados alguns pontos de relevância no plano da atuação do leitor da informação.

Palavras-chave: Leitura informacional, Intermidialidade, Pós- modernidade.


ABSTRACT

The paper investigates the presence of the intermedia text complexity in the thought and practices of information science. Elements related to the process of information reading - those oriented for the representation, transmission and preservation of information - are discussed in a contemporary text. Points that are relevant for the performance of the reader of the information are indicated.

Key-words: Information reading, Intermedia, Post-modernity.


 

 

1 Introdução

A construção e a aplicação de um conceito artístico, como também de uma tecnologia, sempre trazem efeitos de influência e intercâmbio no solo das relações sociais. Com o discurso da pós-modernidade, esses efeitos têm cada vez mais a característica de uma panspermia, uma epidemia sem controle. As possibilidades abertas ao longo do século XX, por um lado por manifestos e movimentos artísticos, como o dadaísmo e o surrealismo e, por outro, pelo advento das tecnologias de informação e comunicação, permitem o encontro de signos diversos, que são reconhecidos por leitores em diferentes arenas culturais. Antes de afirmar e cultuar um ineditismo conceitual ou tecnológico, é necessário conhecer e problematizar os argumentos e práticas que fazem o uso de categorias discursivas, como a própria categoria teórica da pós-modernidade.

Diante da grande produção de textos e meios de divulgação textual nasce o interesse por investigações no jogo da fusão de conceitos e tecnologias. Mais especificamente, aparecem nesse contexto os estudos sobre a intermidialidade, voltados para a análise da feitura de matérias semânticas e sintáticas oriundas de tais convergências. Esse processo de hibridização nos chama a atenção para a necessidade de diferentes olhares sobre artefatos contemporâneos, bem como desafia os modelos de interpretação destes registros do conhecimento, visando ao acesso e à conservação do conteúdo ali guardado; práticas cotidianas do leitor informacional, aqui entendido, para além do leitor-indexador, como o profissional da informação que trabalha com a leitura da realidade que o cerca, visando representar, transmitir e preservar o conhecimento.

O objetivo deste trabalho é discutir a presença dos discursos intermidiais no âmbito da Ciência da Informação - CI. Para tal, procuramos uma noção flexível de informação na epistemologia contemporânea e analisamos uma obra literária para debater alguns elementos que podem interferir nas leituras informacionais, identificadas em gestos científico-sociais, como indexação, classificação, catalogação ou preservação.

 

2 A Informação no texto do cotidiano

A informação é hoje objeto de preocupação da ciência, da filosofia e da sociedade em geral. Com o considerável crescimento documental ocorrido após a Segunda Guerra Mundial, a informação passou a ser ponto nuclear de discussão em diversas áreas de pesquisa. No plano acadêmico, observou-se a presença de uma corrida científica para a definição de seu escopo de estudo. Entre os campos se destacam a Biblioteconomia, a Administração, a Ciência da Computação e a CI. Esta última terminou por se destacar, assumindo o fenômeno da informação como seu objeto científico.

Inicialmente apreendida por Shannon & Weaver como elemento de amplificação da incerteza dentro da comunicação, a informação ganhou novos significados ao logo do desenvolvimento da epistemologia da CI. Se, em um primeiro momento, os estudos acerca da informação buscaram compreendê-la como uma matéria objetiva, passível de ser mensurada dentro de um canal de comunicação em estado puro - um estado neutro -; posteriormente, a análise da informação ganhou inferências de ordem mais subjetiva. A informação como entidade pura foi questionada a partir de uma abordagem cognitiva, de ordem mentalista, voltada para o estudo da relação entre usuário e documento. Posteriormente, a informação recebeu um amplo olhar social, e seu caráter intangível ganhou uma dimensão mais profunda. A partir de uma linha pragmática de argumentação, a informação pôde ser identificada como fruto de experiências cotidianas, inseridas em contextos culturais em movimento (CAPURRO, 2003). A epistemologia contemporânea da CI leva, pois, dentre inúmeras direções, até a uma antropologia da informação.

A abordagem da Antropologia da Informação re-orienta um ângulo de investigação epistemológica que perdurou, ao longo de quase meio século nos estudos informacionais, e que buscava responder à seguinte pergunta: o que é informação? Partindo de um outro plano de investigação, esta corrente de estudos da CI afastou-se da angústia pela determinação do conceito geral de informação e aproximou-se do debate sobre as funções da mesma informação no terreno sócio-histórico (MARTELETO, 1995). Tratou-se de uma virada no pensamento acerca da informação, pois a pesquisa, nessa abordagem, abandonou a busca exaustiva atrás de uma essência para a epistemologia da informação e procurou um pragmatismo que respondesse pelos repertórios sociais de cada rede de comunicação.

Para a Antropologia da Informação, a informação deve ser apreendida, inicialmente, junto da noção mais ampla de cultura. A informação, pois, designa o modo de relações e o produto deste, isto é, os artefatos criados pelas trocas simbólicas, como livros, músicas, peças teatrais, quadros, esculturas. A leitura antropológica da informação procura absorver tanto as estruturas materiais e simbólicas de uma cultura, como as relações, práticas e representações realizadas pelos indivíduos em seu cotidiano (NASCIMENTO; MARTELETO, 2004). Em suma, temos, a partir dessa corrente, a noção de informação como fruto de uma práxis, como artefato socialmente produzido, transferido e utilizado (NASCIMENTO; MARTELETO, 2004). Essa abordagem permite, pois, a compreensão de que toda obra passível de representação e transmissão do conhecimento, como um livro, um filme, uma peça teatral, traz, em si, independente da intenção de seu autor, o que poderíamos chamar de atmosfera informacional.

Essa atmosfera é notada a partir de indícios que podem ser analisados em dois planos de observação. O primeiro, o plano dos rastros semânticos. Os elementos que constituem a arquitetura textual de uma obra - isto é, sua estratégia semântica - tendem a trazer, tanto em sua textura quanto em seus silêncios, elementos que revelam marcas temporais, focos de relações sociais e traços culturais. O segundo plano diz respeito aos indícios paratextuais. Estes são compostos pela estrutura sintática de uma obra, por sua engenharia elementar, ou seja, pelos objetos utilizados na construção, pela forma de exposição, publicação ou divulgação da obra. Também estes elementos tendem a carregar uma série de pistas que trazem informações que ajudam na compreensão da obra, na contextualização de um momento histórico ou na identificação de uma manifestação cultural. A leitura e a percepção desses indícios e o deslocamento do leitor em CI por essa atmosfera informacional, sempre imersa na obra, dependem de critérios de orientação.

Para formular suas representações, visando a transmissão e a preservação do conhecimento, o leitor informacional se vê permanentemente envolvido com uma teoria da relevância, integrada a uma teoria da pertinência. São estas que lhe conferem margens sistemáticas para uma avaliação dentro da epistemologia da CI. Foskett (1980) aborda a relevância como o critério para selecionar, em serviços de indexação e resumo, o grupo de elementos que representarão o conteúdo de um documento. Por pertinência o autor conceitua o critério que leva o profissional da informação a procurar soluções, dentro das tarefas de representação, para atender as necessidades de seu usuário (FOSKETT, 1980). Em outras palavras, relevância e pertinência se somam em uma epistemologia para a ação do leitor informacional, imprimindo uma teoria mais ampla, uma teoria da coerência da representação e da transmissão da informação - uma teoria da coerência, para além do plano da análise de assunto, é aquela que, estruturada em uma filosofia pragmática, fornece critérios científicos para os diferentes campos de intervenção do leitor da informação em sua leitura sintática ou semântica da informação, identificando, nos contextos de cada domínio do conhecimento (HJORLAND; ALBRECHTSEN, 1995), os elementos que permitem classificar, indexar, construir tesauros, normalizar, formular índices.

 

3 A Ciência da Informação e o discurso da pós-modernidade

A formulação do conceito de "ciência da informação" e a legitimação de ambientes de investigação científica com o mesmo nome se inserem contextualmente no plano discursivo da pós-modernidade. Assim, a construção da CI está vinculada a um período de crise na epistemologia ocidental e de deliberação em torno de uma outra cientificidade, bem como de abertura e convergência de disciplinas científicas. O desenvolvimento inicial da CI está ligado, desta maneira, ao desejo de controlar a dispersão do conhecimento, que ampliou ilimitadamente suas formas de produção e apresentação com as novas tecnologias da informação - em outras palavras, a CI dirige sua metodologia e sua teoria rumo ao desafio da complexidade (FRANCELIN, 2003; GONZÁLEZ DE GOMÉZ, 2000).

Baudrillard (1990) classifica a pós-modernidade como a pós-orgia. Após a liberação das forças produtivas na modernidade, agora temos um estado de mutação e mimetização constante do tempo e do espaço. Não há mais mortes ou limites absolutos, mas proliferação, contaminação, saturação, tudo trespassado pela simulação. Não há mais o desaparecimento sumário, mas um modo de dispersão. Dispersar é a atividade social dos contextos em permanente nomadismo na arena da pós-modernidade. No jogo de fusões, os signos trocam significados e formas e se reproduzem sem medida. A panspermia simbólica é propiciada pelas possibilidades múltiplas de criação e dispersão abertas pelas novas tecnologias. "Cada categoria é levada ao seu mais alto grau de generalização, e por isso, perde toda a sua especificidade e se desfaz em outras" (BAUDRILLARD, 1990, p. 15).

Para Eco (1984, p. 179), o âmbito pós-moderno é marcado por "pluralidades incontroláveis". A partir dessas pluralidades, informação e ficção se sobrepõem, e são disseminadas através de simulacros (ECO, 1984, p. 191). Também no ponto de vista de Kumar (1997, p. 113), o plural convergente é identificado como marca da cultura pós-moderna. Esse pluralismo não apresenta uma organização integrada, e as fusões no plano social reduzem as fronteiras, fazendo da cultura e do comércio esferas indivisíveis (KUMAR, 1997, p. 128)

Os estudos na esfera informacional sediados pela CI têm hoje o desafio de enfrentar a proliferação e os jogos de conversão, sobreposição e transposição de linguagens. Dada, pois, pelas práticas sociais das comunidades discursivas (HJORLAND; ALBRECHTSEN, 1995), tecida no cotidiano, a informação aproxima-se e instala-se no bojo de cada obra. A partir da Antropologia da Informação compreendemos que cada texto, produzido dentro de um contexto cultural, traz em si um conjunto de informações dispersas, uma atmosfera informacional.

Essa noção de texto não vem necessariamente entender a arte como comunicação. Ao considerar que o artista trabalha ou atua em um universo contextual que intervém em sua obra, ao entender que as modificações produzidas pelo homem em cada época, como inovações tecnológicas e os diferentes modelos de produção industrial, perpassam a atmosfera de criação do artista, entendemos que a obra vem, por mais intimista que seja, carregada, contaminada ou poluída de informações. Neste aspecto, apontamos que reconhecer uma obra para interpretá-la e representá-la no plano informacional é refletir sobre os conceitos que a cercam culturalmente.

 

4 A intermidialidade: uma "iluminação mútua das artes"

Segundo Claus Clüver (2000)3 existe há muito um discurso preocupado com os contatos e as relações entre as artes. Esse discurso estaria hoje mais presente nos estudos interartes, que têm sua origem ligada ao estágio do discurso da arte e à reforma do sistema universitário - aqui, a preocupação com um conhecimento interdisciplinar, bastante explorado pela epistemologia da CI. Nesse seguimento, surgirá, segundo Clüver (2000, p. 03), o processo chamado de "iluminação mútua das artes", processo que se traduz pela possibilidade de convergência de conceitos e métodos utilizados no estudo artístico.

No cerne dos estudos interartes, Clüver (2000) chama a atenção para o ideal do século XIX de fusão das artes, na busca por uma arte total. Este movimento estaria diretamente influenciado pelas novas tecnologias, a inovação das mídias e a aceleração dos processos de informação e comunicação. Esta fusão conduziria ao surgimento de novos textos. Clüver (2000) chamará de texto qualquer obra de arte, composta dentro de um dado sistema sígnico, que a comunidade interpretativa autoriza a ler como uma obra. Desta forma, no cerne dos estudos interartes mais tradicionais, o "objeto de estudo é freqüentemente um conjunto de relações percebidas entre pelo menos dois textos" (CLÜVER, 2000, p. 07). Para o autor, o texto intermidial ou intersemiótico é aquele que "recorre a dois ou mais sistemas de signos e/ou media de uma forma tal que os aspectos visuais e/ou musicais, verbais, cinéticos e performativos dos seus signos se tornam inseparáveis" (CLÜVER, 2000, p. 08). Seriam exemplos diretos quadros realizados com palavras e a poesia sonora. Esse tratamento, que considera a obra como texto, será extraído da abordagem da semiótica4. Segundo Clüver (2000), ali encontraremos a prática de se considerar os artefatos da arte como textos aguardando leitores.

Em seus apontamentos conclusivos, Clüver (2000, p. 26) indica que a expansão dos estudos acerca da intermidialidade tende a conduzir em breve a institucionalização desta no plano acadêmico, como o ocorrido com a Literatura Comparada. O autor lembra, ainda, que a intermidialidade não é um fenômeno recente na produção literária, isto é, os "escritores sempre tiveram a tendência para atravessar não apenas as fronteiras nacionais e lingüísticas, mas ainda as que separam as artes".

Nesse âmbito discursivo, por intermidial entendemos o texto que se alimenta, intencionalmente, da conjugação de princípios que norteiam diferentes proposições estéticas e definições de mídia no plano de uma obra, produzindo um contexto múltiplo dentro de uma unidade textual específica. Trata-se, pois, da abordagem intermidial de Pavis (2003), apontada em seu estudo acerca da análise dos espetáculos. O autor trabalha com a idéia de intermidialidade como a integração de conceitos estéticos das diferentes mídias em um novo contexto.

Apreendemos, desta forma, como intermidial um livro que explora noções e inovações semânticas e sintáticas que são fruto do diálogo de diferentes mídias e de suas formas de representação e transmissão. Trata-se de um livro que, no processo de confecção de sua estrutura, estabelece relações, por exemplo, com propostas de áreas como fotografia, cinema e artes plásticas. A noção de um livro intermidial ilumina a compreensão de troca entre linguagens no processo de desenvolvimento das manifestações simbólicas.

As fronteiras da noção de livro intermidial, no plano da leitura informacional, estariam delimitadas por três linhas sensíveis: a intenção do autor em conjugar e cruzar conceitos para a obtenção de um texto com uma sensibilidade específica, isto é, que faz uso de conceitos limiares de diferentes mídias; as possibilidades de significação abertas pela sensibilidade dos leitores diante do universo multifacetado do texto híbrido; e a sensibilidade sintática e semântica do leitor informacional em seu processo de mediação na representação e na transmissão do texto híbrido visando o seu acesso.

 

5 Daxx, Zyng e Sporanox: labirintos de um livro intermidial

Como mencionado, o olhar antropológico-informacional nos permite situar os contextos pós-modernos de produção e recepção da informação do livro intermidial que desafiam o leitor classificador, indexador e conversador da CI na contemporaneidade. Refletimos sobre essa leitura a partir da análise breve do texto de Mafalda Cataraz (1998), Daxx, Zyng e Sporanox, procurando abrir a discussão para a investigação de um livro intermidial entre bibliotecários e cientistas da informação. A análise, de ordem sintática e ilustrativa, procura atuar com analogias e aproximações que pretendem identificar as chamadas estruturas materiais e simbólicas do contexto cultural em que a obra é constituída, assim como nos permite a análise antropológica da informação. No caso da obra, essa leitura antropológico-informacional da abordagem intermididal é desvelada, em primeiro lugar, na interpretação da organização do livro, que parte de uma linguagem intimamente mais ligada ao desenvolvimento das noções de performance do que à estrutura do livro tradicional.

Segundo Dempsey (2003), a arte performática foi um componente importante de muitas escolas e movimentos de vanguarda do século XX, incluindo o futurismo, construtivismo, dadaísmo e surrealismo. Entre suas características, podemos levantar a negação da especialidade artística, ou seja, da nomeação de pintor, escultor ou escritor - há, apenas, a definição de artista; a justaposição de objetos, imagens, sons e outros artefatos simbólicos, produzindo espécies de colagens vivas; a contribuição mútua de elementos do teatro, do cinema, do vídeo e da arte visual; a ação como fundamento essencial.

Muito praticada nos anos 1950, a performance se expandirá consideravelmente na década seguinte, ganhando grande popularidade. Suas influências começaram a aparecer no teatro, na música e na dança (DEMPSEY, 2003), e, naturalmente, também os princípios que norteiam a construção do livro foram contaminados pela ampla idéia de liberdade da arte performática, como se pode observar na obra de Mafalda.

A estrutura de Daxx, Zyng e Sporanox (CATARAZ, 1998) é apresentada, de forma geral, como a divisão dos setores de uma empresa. Dentre alguns dos capítulos, temos os seguintes títulos: Recepção/secretaria; Informações, Senhoras; Pacotes; Contabilidade; Serviço; Saída. Essa organização, essa arquitetura legendada, remete ao diálogo direto com as idéias que envolvem a performance. Cataraz (1998), em seu sumário, comunica-se com o leitor colocando-o como um interventor no texto, como alguém que caminhará pelo espaço aberto, participando de seu desenvolvimento, ou seja, de sua atuação. Trata-se de abordar preliminarmente a literatura como movimento, lembrando, aqui, a performance em seu fundamento essencial; e a leitura como deslocamento, assim como se dá com a leitura de um texto performático, onde o indivíduo caminha pelo espaço e se envolve com toda a teia textual.

Do mesmo modo como se dá o processo de execução da performance, o livro de Mafalda absorve claras influências de movimentos artísticos que marcaram o século XX. Na obra de Cataraz (1998) encontramos permanentemente a negação do autor, do artista e da própria arte em si. Na verdade, ela abusa desta negação já em sua contracapa. Mafalda é o pseudônimo de Jarbas Medeiros. No entanto, na redação da biografia sucinta do autor, Jarbas ora aparece como um possível indivíduo comum, que estudou, passou por empregos públicos e se aposentou, ora como um possível andarilho eterno, quixotesco, que correu o mundo atrás de suas convicções e sonhos. Abaixo, encontramos fragmentos do texto que revelam essa situação:

Jarbas Medeiros nasceu em São Gonçalo do Sapucaí, Minas Gerais, Brasil. É Bacharel em Ciências Jurídicas (...) Sociólogo da Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro. (...) Governador de Macau e Timor, na Ásia e Oceania (...). Participou de Guerra dos Setes Dias, no Oriente Médio, lutando alguns dias pelos judeus e outros, pelos palestinos (...). Completará, se vivo estiver, noventa e dois anos (...). (CATARAZ, 1998, contra-capa)

Além disso, Jarbas dedica a obra a Mafalda, a possível autora. Mas o primeiro texto do livro, chamado Cataraz, Mafalda (CATARAZ, 1998), é nada mais do que uma auto-avaliação de quem viria a ser, afinal, a própria Mafalda. Esta pode ser todas e ninguém, talvez até o próprio Jarbas, talvez não. A obra é rodeada por autobiografias diversas, que conferem absoluta falta de identidade ao autor da obra - ou, pelo contrário, evidenciam sua múltipla carga identitária. Há, por exemplo, dois textos que remetem, já em seu título, a este afastamento: "Autobiogria mamífera" e "Autobiografia formicinae". Seguem-se abaixo exemplos desses relatos autobiográficos.

Cataraz, Mafalda

Mafalda Cataraz é Ofônio Tigelino, é Arrio Varo, é Estácio Próximo, (...) Mafalda Cataraz pode ser também Jarbas Medeiros? Com certeza. Pouco provável. Absolutamente. (...) (CATARAZ, 1998, p. 11

Autobiografia mamífera

Escrevo, a pedidos, minha centésima primeira Autobiografia, de australopithecus anamensis, de australopithecus afarensis, (...) escriba de fiteumas e estergetrons, papiros mágicos (...) (CATARAZ, 1998, p. 17)

Quanto ao caráter de colagem, muito marcante na prática da performance, o livro se nutre, com freqüência, desse recurso para produzir a unidade da sua linguagem. Os capítulos são, quase todos, ilustrados por colagens e/ou pinturas. Alguns dos textos são as próprias colagens em si, como "Certidão de Nascimento" (p. 13),"Para Karl Marx" (p.51) e "Anúncio mais que perfeito" (p. 77). Neste contexto, nota-se a contribuição ou a fusão de princípios dos textos cênico, poético e em prosa para constituir a estrutura do texto, além de outros cruzamentos. Este encontro de diferentes conceitos estéticos dentro do livro e o aproveitamento de abordagens do dadaísmo e das inovações da poesia moderna anunciam a construção de um texto intermidial. Em "Certidão de Nascimento", por exemplo, Mafalda (CATARAZ, 1998) subverte o documento original de registro de natalidade, sobrepondo a este uma série de pequenas imagens, como fotografia 3x4 do possível Jarbas Medeiros, selos e impressões digitais. Essas experiências, retiradas de diferentes correntes artísticas, operam como recursos intermidiais na obra. São recursos trabalhados como uma linguagem de experimentação, assim como ocorre nos fundamentos da performance (COHEN, 2002, p. 45).

Por fim, temos a ação como elemento fundamental da proposta do texto. É como se o leitor fosse orientado a caminhar por um ambiente pós-moderno, e vivenciar sua linguagem através da leitura, assim como quem passeia por uma esquina do mundo globalizado, deparando-se com a fusão de linguagens, grafias e formas. Em meio ao texto surgem páginas com colagens simples que trazem verbos aconselhando, ordenando ou apenas convidando o leitor a essa caminhada, como: "Entre sem bater; Identifique-se; Empurre; Puxe; Pare" (CATARAZ, 1998). Os elementos apresentados são exemplos de como a leitura informacional, a partir de uma Antropologia da Informação, situa culturalmente a obra, seu autor e seu possível receptor-leitor dentro de um contexto reconhecido - no caso, a pós-modernidade.

 

6 Investigar a informação na teia da intermidialidade

Através da análise sucinta e panorâmica de uma obra literária construída dentro de determinadas noções de intermidialidade, foi possível reconhecer e explorar alguns pontos importantes para investigar a leitura informacional diante do texto contemporâneo. Assim, problematizamos a seguir diferentes chaves que podem contribuir para a discussão hodierna de critérios de avaliação do leitor em CI, levando-nos a repensar a relevância e a pertinência na epistemologia da área, bem como a refletir sobre um plano mais agudo de coerência no pensamento e nas práticas em CI diante dos textos contemporâneos.

Apontamos algumas dessas chaves críticas para a leitura em CI do texto intermidial. Não são, de longe, todas. Trata-se apenas do princípio de um debate que se acredita ser urgente. Os seguintes elementos representam, pois, questões importantes na apreensão informacional de um texto intermidial: simulacro, simulação, hibridização, deslocamento e recontextualização.

Em primeiro lugar, na análise descritivo-física do texto intermidial, o profissional da informação deve atentar para as falsas figurações do simulacro. Com a fusão de conceitos estéticos e princípios, a negação e a falsificação de certos cânones do texto, como a autoria, podem estar permanentemente presentes.

No plano do simulacro, deve-se atentar - ainda na análise informacional descritiva - para a presença de simulações, como recurso natural do texto pós-moderno. Esta simulação se dá em todas as instâncias que constituem o texto, como autoria, representação, recursos gráficos e imagéticos.

Outra questão importante diz respeito à hibridização das artes - esta já ligada à análise de assunto, à intervenção semântica da leitura informacional. Esta mestiçagem deve ser identificada em suas nuances específicas, de modo a permitir ao usuário da informação acessar o texto pelos diferentes focos que ele carrega em sua atmosfera informacional.

A instância deslocamento também deve ser previamente compreendida pela linguagem do leitor da informação no plano da análise semântica. Este deve ter em mente que o princípio de movimento, tanto do autor quanto da obra e do leitor, constrói significados que reconfiguram a informação e sua atmosfera, exigindo a permanente re-visitação - o deslocamento do próprio leitor informacional - aos ambientes de uso da obra.

Diante disso, a leitura informacional de um texto intermidial deve se caracterizar pela constante re-contextualização - processo que diz respeito tanto à representação descritiva quanto à representação temática da obra. O ambiente de presentificação do texto, que envolve apropriações e usos, é que revela os significados potenciais nela contidos.

 

7 Considerações Finais

Esse trabalho não almejou fundamentar a exigência de amplas análises literárias e críticas pelo leitor informacional, pois se sabe que isso não é tarefa de seu âmbito profissional. Procuramos atentar para a necessidade de um leitor informacional sensibilizado diante das diferentes configurações de produção e recepção de textos diante do discurso e das práticas da pós-modernidade.

Na atualidade, a informação pode se apresentar como uma entidade abstrata suspensa no jogo transtextual da intermidialidade. E essa informação tende, cada vez mais, a aparecer imersa nesses jogos, uma vez que os princípios, conceitos e práticas intermidiais, tendem a se espalhar por qualquer artefato. Notou-se que o conceito de informação formulado pela Antropologia da Informação, ao percebê-la no plano cultural, é bastante oportuno para uma interpretação informacional do texto intermidial.

Em Daxx, Zyng e Sporanox (CATARAZ, 1998) encontramos indícios para discutir questões inerentes ao texto contemporâneo. O caráter inter-artes que cerca a intermidialidade deve fomentar a solidariedade científica dos projetos interdisciplinares. Artistas, pensadores, historiadores, bibliotecários, cientistas da computação, programadores, antropólogos, entre outros, devem abrir um intercâmbio de discussões não apenas acerca da conceituação e da revelação de um texto intermidial. Faz-se também necessário um esforço teórico-crítico voltado para a compreensão desse texto dentro dos estudos informacionais, uma vez que as fusões que constituem sua apresentação tendem a desvelar outros conceitos para as noções habituais no discurso da CI, como memória, representação, transmissão e artefato.

 

Referências

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Recebido em 22.06.2007 Aceito em 06.03.2008

 

 

1 Artigo produzido ao longo do Seminário sobre Intermidialidade, no primeiro semestre de 2006, no Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários (Pós-Lit), da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais.
2 O termo "intermidialidade" é um conceito em construção, podendo aparecer como sinônimo de termos como "intermídia", "intermídias", aproximando-se ainda, no escopo dos estudos literários, de noções como "intertextualidade", "transposição intersemiótica", "estudos interartes" (CLÜVER, 1997). Optamos por adotar como seu correspondente em inglês o vocábulo "intermedia". No Brasil, especificamente no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFMG, "intermidialidade" é o termo adotado pelo grupo de pesquisa em intermídias, coordenado pela prof. Thais Flores Nogueira Diniz.
3 Clüver, pesquisador alemão, é professor de literatura comparada da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, e tem a poesia concreta como um dos principais horizontes de investigação.
4 A aproximação desta abordagem à CI é discutida e clarificada em: MOURA, M. A. Ciência da Informação e semiótica: conexão de saberes. Enc. Bibli: Rev. Eletr. Bibliot. Ci. Inf., Florianópolis, 2 º sem. 2006.

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