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Perspectivas em Ciência da Informação

versão impressa ISSN 1413-9936

Perspect. ciênc. inf. vol.15 no.3 Belo Horizonte  2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-99362010000300013 

ARTIGOS

 

A doação da biblioteca João do Rio ao Real Gabinete Português de Leitura: aspectos de uma história pouco conhecida*

 

The donation of João do Rio´s library to the Real Gabinete Português de Leitura: aspects of a little know history

 

 

Fabiano Cataldo de Azevedo

Bibliotecário. Professor auxiliar do Departamento de Estudos e Processos Biblioteconômicos, do Centro de Ciências Humanas da UniRio

 

 


RESUMO

Expõe resultado de investigação acerca da origem da Biblioteca de Paulo Barreto (João do Rio) no Real Gabinete Português de Leitura. Como subsídios documentais, utilizamos vários documentos pouco conhecidos pela comunidade científica. A abordagem se insere no âmbito de Formação e Desenvolvimento de Coleções, uma vez que conhecer a história das coleções que compõem uma biblioteca favorece a compreensão de sua história. Objetiva oferecer elementos para estudos acerca do escritor e jornalista. Reconstrói e relata todo o processo de doação e recepção dos livros do escritor fluminense, utilizando fontes manuscritas e impressas. Apresenta amostragem de autores presentes na coleção, analisa a forma de organização do acervo e infere que a disposição adotada atualmente é a mesma privilegiada por seu primitivo possuidor.

Palavras-chave: João do Rio; Real Gabinete Português de Leitura; Biblioteca particular; História das bibliotecas; História do livro.


ABSTRACT

This article presents results of a research conducted to discover the origins of the Paulo Barreto (João do Rio) Library, a section in the Portuguese Reading Chamber of Rio de Janeiro. Several original documents up to this date unknown to the scientific community were used as the evidence source. The approach is inserted into the realm of Collections Formation and Development since knowing the history of the collections that make up a library helps understanding the history of the library. The article also aims to provide information for further studies about writer and journalist Paulo Barreto. Using printed and manuscript sources the article tries to explain the process of donation of these books and their reception by the Chamber's members. It includes a sample list of authors present in the collection, analyzes the organizational form of the acquisition and infers that the organization of the books today is the same adopted by its original owner.

Keywords: João do Rio; Real Gabinete Português de Leitura; Private library; History of libraries.


 

 

1 Preâmbulo

Bon nombre d'honnêtes gens n'ont pas laissé d'autre oraison fúnebre que le catalogue de leur bibliothèque (JANIN, 1830 apud FRIEIRO, 1945, p. 74).

Uma biblioteca patrimonial, como a do Real Gabinete Português de Leitura (RGPL), é normalmente, composta por outras bibliotecas, que ao longo de suas histórias vão sendo incorporadas ao acervo. Todavia, são pouco frequentes os "rastros" desse processo. No âmbito de uma "arqueologia biblioteconômica", descobrir o processo de formação e desenvolvimento de uma coleção é de importância ímpar, pois ao se conhecer as coleções que formam o seu corpus, a biblioteca cresce e se complementa como um organismo vivo.

Quando o RGPL foi fundado, em 1837, estabeleceu-se a "precedência em número, e por conseqüência no emprego do capital, ás obras portuguezas [...]1" (RELATÓRIO, 1837, p. 8). Se nos primeiros dez anos de sua constituição houve compra maciça de obras, com o desenvolver das coleções e particularmente após a inauguração do edifício na rua Luís de Camões, em 1887, houve grandes ocorrências de doações de livros avulsos, lotes e até bibliotecas inteiras. A primeira que se tem notícia foi a do antigo bibliotecário do RGPL, o português Francisco Manuel de Mello, doada entre 1894 e 1895, com 5.628 volumes; em seguida, a do farmacêutico António Alves Ferreira, com 1.400 volumes. Outras doações se seguiram e, dentre elas, a biblioteca do escritor e cronista carioca João Paulo Alberto Coelho Barreto, o Paulo Barreto ou, ainda, João do Rio.

Por que a biblioteca não foi doada para a Academia Brasileira de Letras, uma vez que ele era um imortal? Como essa biblioteca foi formada? Como chegou ao Real Gabinete? Qual era a relação entre João do Rio e o RGPL? Qual era a relação dele com os livros?

É de considerar que "uma biblioteca não é simplesmente o somatório de livros", a presença de alguns títulos "demonstra uma preferência, uma forma de atribuir determinado valor aos livros, não apenas por suas qualidades implícitas". A seleção pode ser "por escolha profissional, afetiva, ou mesmo por status" (FERREIRA, 1999, p. 22).

Um forte mote para o interesse nesse acervo foram as leituras da dissertação João do Rio e/ou Paulo Barreto: a critica literária e a construção de uma imagem (1997) e da tese João do Rio: idéias sem lugar (2004), ambas da historiadora Virgínia Camilotti2.

Não há a pretensão, nessa breve exposição, de perquirir questões atinentes aos critérios de escolha que Paulo Barreto3 aplicou à formação de sua biblioteca. Para olhar com acuidade essa documentação, foi necessário lançar mão de base teórico-metodológica acerca de bibliotecas particulares, sobretudo os estudos de Ferreira (1999) que, em Palácio de Destinos Cruzados, investigou uma série de inventários e bibliotecas de médicos e advogados.

No universo dos estudos em Ciência da Informação, o artigo pretende colaborar com o histórico do fazer biblioteconômico no século passado através da recuperação das práticas de gestão e administração de biblioteca. Será possível perceber nas linhas que se seguem, rotinas de recepção de acervo que ainda hoje são praticadas em coleções especiais, tais como a criação de ex libris.

Para entender a formação de uma biblioteca particular, Antonio Cândido sugere ser necessário "conhecer mais ou menos a biografia do sujeito" (CANDIDO, 1990 apud FERREIRA, 1999, p. 17). Frieiro (1945), no escrutínio da biblioteca do cônego Luis Vieira da Silva, conseguiu delinear o perfil daquele - mesmo com poucas notas biográficas - com base nos livros arrolados no Auto de Devassa da Inconfidência Mineira. Nesse artigo, apenas por uma questão didática, apresentar-se-á um resumo de sua biografia. Propositalmente, não haverá qualquer análise sobre detalhes e polêmicas de sua curta vida.

A pesquisa que precedeu este artigo não teve o objetivo de investigar em detalhe a formação da biblioteca4, mas dar notícia de uma documentação até agora inédita e, assim, contribuir para um maior entendimento acerca do escritor. Teve-se ainda como foco mostrar o olhar da biblioteconomia sobre uma área tão pouco explorada por ela e por seus investigadores, qual seja: o universo histórico da formação de bibliotecas.

Vianna (2001, p. 101), na introdução do Catálogo da Biblioteca de Machado de Assis, afirma que "para o leitor da obra de um escritor, sua biblioteca é um verdadeiro tesouro", sendo um despretensioso subsídio a um tesouro que doravante será apresentado.

 

2 Breves apontamentos sobre a vida de João do Rio

Quando Paulo Barreto nasceu, a 5 de agosto de 1881, o Real Gabinete Português de Leitura já completava 44 anos e o edifício atual, na rua Luís da Camões, estava sendo construído. Filho do professor do Colégio Pedro II e positivista Alfredo Coelho Barreto e de Florência dos Santos Barreto, foi batizado em 1883 na Igreja do Apostolado Positivista, da qual seu pai foi um dos fundadores (MAGALHÃES JÚNIOR, 1978, p. 11).

 

 

Teve o privilégio de acompanhar as grandes mudanças no cenário nacional, entre o final do século XIX e início do XX. Todavia, não houve alimento maior à sua mente criativa e produtiva que o período da reforma de Pereira Passos e o cotidiano de uma cidade em mutação. Tornando-se cronista por excelência "do '1900' brasileiro", foi dos primeiros a vulgarizar em nossa imprensa o hábito das entrevistas (BROCA, 2004, p. 321). Seu estilo revolucionou o modo de fazer reportagens e impregnou de assuntos mundanos e cotidianos as crônicas.

Durante sua vida manteve estreitas relações com Portugal: em 1908 chegou àquele país pela primeira vez, no fatídico dia do Regicídio do Paço. Nessa época, fez amizade com o escritor português Carlos Malheiro Dias, que o ligou ao RGPL, quando veio para o Brasil.

Após três tentativas, finalmente consegue ser eleito aos 29 anos para a Academia Brasileira de Letras, em 7 de maio de 1910, tornando-se o primeiro imortal a tomar posse de fardão.

Seja nos relatos da imprensa da época, seja nas biografias, o que se percebe é que Paulo Barreto "foi um dos homens mais atacados e também mais admirados no meio intelectual brasileiro" (BROCA, 2004, p. 323), o que de certa maneira lhe trouxe um sucesso e repercussão incomum para os autores de sua geração. Broca (2004, p. 324) acredita que ele "parecia comprazer-se com a animosidade que provocava" e ainda "chegava a suscitar a onda de maledicência em torno de sua pessoa, bem à semelhança do modelo francês Jean Lorrain". Fato é que seu trabalho - de um volume espantoso - ultrapassou muito os limites do jornalismo e da literatura, alcançando grande sucesso e consumo no período (CAMILOTTI, 1997).

Vida vertiginosa, vida acelerada, vida sorvida até o derradeiro momento, vida interrompida. Na noite de 23 de junho de 1921, após deixar a redação d'A Pátria, morreu dentro de um táxi na rua Pedro Américo, no Catete, aos 39 anos, dois meses antes de completar 40 anos.

 

3 O Processo de doação

Decorridos sete dias após a morte de João do Rio, reunidos para mais uma Sessão da Diretoria, Albino Souza Cruz, Humberto Taborda, Antonio da Rocha Beça e José Rainho da Silva Carneiro, fizeram constar em Ata a seguinte nota de pesar:

[a Diretoria resolveu] consignar n'esta acta o seu profundo sincero desgosto por ver tão cedo roubado á vida o espírito brilhante de um Brasileiro devotado de coração e alma ás coisas portuguesas e que, tanto pela palavra escripta como pela fallada, jamais deixava de nos elevar e engrandecer no conceito publico, tanto quanto o fazia para as coisas do Brasil (ACTA, 30 jun. 1921).

Com a morte de João do Rio, D. Florência ficou só. Em 1898, perdera o primeiro filho, Bernardo Gutemberg; em 1908, o marido, Alfredo Coelho Barreto (RODRIGUES, 1996). Contudo, ao que parece, soube retomar sua vida e cuidar das providências relacionadas ao patrimônio de seu filho. Assim, no dia 16 de agosto de 1921, ou seja, dois meses após a morte de João do Rio, Dona Florência convidou Humberto Taborda, 1º secretário do RGPL, para ir à sua residência e declarou-lhe que doaria a biblioteca que pertenceu a seu filho (ACTA, 31 ago. 1921), tão logo fosse concluído o inventário5. Assim, transcorridos doze dias, possivelmente relacionados aos trâmites da doação, a Diretoria do RGPL informou que no dia 28 de agosto recebeu outra carta de Dona Florência. Na missiva, ela oficializava a doação e pedia que os livros fossem "guardados em logar áparte, assignalado por uma placa em que se leia o nome do seu sempre lembrado filho" (ACTA, 31 ago. 1921). Visconde de Moraes, então presidente do Real Gabinete, deliberou que o bibliotecário e acionista Alexandre Albuquerque providenciasse as modificações que se fizessem necessárias para o acondicionamento do acervo. Ficou ainda estabelecido que o sr. Albuquerque deveria arrolar e catalogar a coleção quando chegasse e, em seguida, seria gravada a placa a ser inaugurada em sessão extraordinária.

 

 

Acerca dos motivos que levaram a mãe do escritor a realizar essa doação, os biógrafos são uníssonos em afirmar que Paulo Barreto morrera com relações estremecidas com a Academia Brasileira de Letras e vivia um momento de forte relação com a comunidade portuguesa. A própria sra. Cristóvão Barreto relatou suas razões em reportagem publicada na folha fundada por seu filho, A Pátria. De acordo com aquele jornal, na tarde do dia 18 de abril de 1923, Dona Florência recebeu a diretoria do RGPL em seu palacete na rua Prudente de Moraes, nº 3916, em Ipanema. A comitiva, recebida com uma "lauta mesa de doces e champanhe" (A PÁTRIA, 19 abr. 1923), tinha o objetivo de laureá-la com uma medalha de ouro e o título de Benfeitora pela doação da biblioteca de Paulo Barreto. Na ocasião, muito emocionada, ela declarou que...

[...] logo após o desaparecimento de meu filho uma idéia tenaz, latente atormentava o meu atormentado espirito, era a preocupação dos seus livros, dos seus livros que elle tanto amava, que elle nos seus dias de recolhimento e amargura, lia-os e relia-os em verdadeiro êxtase, encontrando nelles o consolo, a calma que precisava. Que fazer delles? Eram tantos! Vendel-os? Seria profanal-os! Oh! não, não queria... e nesse dedalo de angustiosa incertesa, senti-me subitamente preza da idéa de doal-os á qualquer instituição. Qual dellas? Perguntava a mim mesma? Insistente e misteriosa resposta, indicava-me o Gabinete Portuguez de Leitura. Acto continuo compri a suggestiva ordem. Depois dos livros, veio a inquietações pelas suas honrarias conquistada a golpes de exaustivo trabalho, essa dolorosa gloria de que elle era tão cioso... sinto-me tranquilla, quase allegre, e não sei, não posso explicar doutra forma; porque nunca entrei no Gabinete , desconhecia essa instituição que é um verdadeiro templo [...] (A PÁTRIA, 19 abr. 1923).

Perquirindo as fontes, notou-se que Dona Florência continuou acompanhando o processo. Tanto assim, em setembro de 1921, escreveu ao RGPL pedindo informações do recebimento e organização da biblioteca. Em resposta, a Diretoria informou que "já se [achava] recolhida ao Gabinete a valiosa collecção" e que após sua catalogação as obras seriam incorporadas ao acervo. Em razão de atender ao pedido de manter a coleção armazenada em "logar aparte", comunicaram-lhe que "o logar mais conveniente e apropriado [seria] a galeria do fundo do salão, por cima da mesa de reuniões" (ACTA, 15 set. 1921).

Com base nessa carta de Dona Florência e na declaração da diretoria do RGPL, acredita-se que a Biblioteca de João do Rio entrou no RGPL entre o de final de agosto e início de outubro de 1921. Há, no "Diário do Gabinete", uma espécie de Livro Caixa, referências à gastos relativos à doação. Consta em "Despesas Gerais", no dia 30 de setembro de 1921, a despesa com "Serviço doação Paulo Barreto". Em 31 de outubro do mesmo ano, foi anotado: "Daniel Monteiro de Barros, s[obre] nota de despesa feitas com o transporte dos livros de Paulo Barreto". Em outro item continua: "[...] por outras despesas relativas á festa de Dante e ainda á Bibliotheca Paulo Barreto"; de acordo com outras ocorrências nesse "Diário", o processo se estendeu até outubro.

Além da repercussão que assumiu no campo literário, essa doação deve ter sido motivo de grande orgulho para o RGPL. A Diretoria tomou a providência de enviar carta ao embaixador de Portugal comunicando a doação, que respondeu pedindo "que [transmitisse] a Sra. Florência Barreto testemunho de apreço" (ACTA, 17 out. 1921).

 

 

O trabalho de catalogação e classificação da Biblioteca foi surpreendentemente rápido, posto que, em 31 de outubro de 1921, o bibliotecário declarou que já se achava quase concluído. Possivelmente, com objetivo de solenizar ainda mais o ato, a data foi marcada de maneira muito propícia ao Real Gabinete. Destarte no dia 10 de junho de 1922, "Dia da Raça" e "Dia de Camões", a Biblioteca de João do Rio foi oficialmente inaugurada.

A solenidade "revestiu-se do maior brilho, não só pela assistência, numerosa e distintíssima, como pelos discursos pronunciados" (A PÁTRIA, 19 jun. 1922). Em uma vitrina, à entrada do Gabinete, foi exposto o fardão da ABL, medalhas e condecorações que pertenceram a Paulo Barreto (O PAIZ, 11 jun. 1922). Junto com a biblioteca, um busto de bronze esculpido por Laurindo Ramos foi doado por Dona Florência e inaugurado no mesmo dia e colocado diante das estantes com a biblioteca do escritor. Essa peça, na realidade, começou a ser modelada no salão da biblioteca do jornal O Paiz meses antes de Paulo Barreto morrer (A PÁTRIA, 16 jun. 1922). No pedestal foi gravada a inscrição: "Homenagem a Paulo Barreto (João do Rio)".

Afora os livros, foram doados outros itens, a saber: fragmento manuscrito da tradução do capítulo 42 da peça Salomé, de Oscar Wilde; chapéu e espadim que compunham o fardão da ABL; diploma de posse na ABL; certificados da Ordem de São Tiago da Espada e Grã Cruz de Cristo; e uma caneta de ouro e esmeralda em forma de pena.

Continuando seu papel de promotora da memória do filho, Dona Florência Barreto escreveu à Diretoria do RGPL dois anos depois da inauguração da biblioteca lembrando do aniversário da morte de João do Rio, ocasião que julgava propícia para a inauguração da placa comemorativa da doação (ACTA, 16 jun. 1924). O presidente Albino Souza Cruz deliberou, desta feita, a confecção da placa e que fosse marcada a data para inauguração.

No dia 23 de julho de 1924, após missa na Igreja de São Francisco de Paula, os presentes dirigiram-se a pé para o Real Gabinete e às dez e meia da manhã (A NOTÍCIA, 23 jun. 1924) a placa foi inaugurada com solenidade.

 

 

4 A Biblioteca

Na época da doação a Biblioteca de João do Rio foi avaliada em Rs 15:000$00. O jornal O Paiz forneceu algumas informações, possivelmente baseadas no serviço feito pelo bibliotecário do RGPL, Alexandre de Albuquerque: coleção composta de 4.042 volumes7. Desse número: 2.589 em francês; 913 em português; 224 em italiano; 166 em espanhol; 143 em inglês; 17 em latim; 2 em música (O PAIZ, 11 jun. 1922). O Gabinete, na ocasião, disponibilizou três catálogos: onomástico, sistemático8 e topográfico. A coleção ainda recebeu um ex libris atribuído9 por um carimbo.

Mesmo sabendo da localização topográfica - que desde sua inauguração é a mesma - não havia meios de reunir o acervo em sua materialidade sob a forma de um catálogo. Infelizmente, o laborioso trabalho levado a cabo pelo bibliotecário do Gabinete em 1921, de alguma maneira, perdeu-se. Uma vez que Biblioteca de João do Rio (BJR) encontra-se reunida, como Dona Florência pediu, "em logar aparte", pelo número de tombo de um livro da coleção, fez-se uma prospecção manual em todo acervo10. Desse modo, foi possível mapear toda BJR. Em seguida, procedeu-se ao cotejamento na base de dados de todos os itens, a fim de aferir se a localização era a mesma dada à coleção em 1921. Por essa via foi possível reunir os itens em forma impressa. Seria prazeroso, como Jean-Michel Massa fez na Biblioteca de Machado de Assis, "auscultar" cada volume à procura de notas manuscritas e "de impressões de leitura rabiscadas às margens das obras" (MASSA, 2001, p. 25). Uma análise mais detalhada dos títulos que compõem a BJR ainda está por ser feita por alguém mais abalizado nessas lides; todavia, um breve passear d'olhos no catálogo desperta algumas indagações e chama a atenção pela presença de certos livros.

Dentre as questões suscitadas, a primeira e talvez a mais natural e óbvia é: como a biblioteca foi formada? Sabemos que "as bibliotecas particulares se formavam a partir de escolhas pessoais, que podiam estar vinculadas a necessidades acadêmicas, profissionais ou simples preferências do proprietário" (FERREIRA, 1999, p. 52). A reboque, pergunta-se ainda qual o uso que Paulo Barreto fez de sua biblioteca?

Há qualquer coisa de arqueologia quando se pensa a formação e o desenvolvimento de uma biblioteca histórica e patrimonial. Ao fazer uma escavação, o arqueólogo depara-se com camadas que foram se sobrepondo ao longo do tempo e formando uma estrutura, que ao olhar rápido se revela sólida. Mutatis mutandis assim são as bibliotecas. Nelas, as camadas seriam os acervos que foram se incorporando para constituir um corpus "único" e aparentemente compacto. Assim como ao primeiro profissional cabe a prospecção, do bibliotecário é esperado que conheça as fases e etapas dessa sedimentação de coleções que compõem a biblioteca que está sob sua guarda.

De acordo com Amado (1956, p. 61), João do Rio herdou "do velho Barreto, o filósofo, [...] a mania dos livros, que possuía e acumulava aos milhares". O "velho Barreto" era Alfredo Coelho Barreto, positivista e professor de matemática, mecânica e astronomia no Colégio Pedro II (SENNA, 1981, p. 9). Perquirindo o levantamento da Biblioteca de João do Rio encontram-se vários títulos nessas áreas. À guisa de exemplo: Tratado de Algebra Superior, de Antônio G. de Moraes; Elementos de Mecanica, de Eugênio Barros; Cours de mathematique arithmetique algebre, de Charles de Comberousse; Problemes de mecanique rationnelle, de M. Jullien etc. Além dos livros, há o conjunto de These[s] de concurso a vaga de substituto da cadeira de mathematica elementar do imperial collegio Pedro II - algumas com dedicatórias à Alfredo Barreto. É grande, ainda, a quantidade de livros da "Religião da Humanidade" e Darwinistas. Embora João do Rio tenha sido batizado na Igreja Positivista, não há registro na literatura de que tenha praticado sua filosofia. Assim, poder-se-ia supor que, com a morte do pai, Paulo, como único filho, herdara seu acervo.

Desse modo, a biblioteca que entrou no RGPL, em 1921, era a soma de outras duas: a de um professor no mais reputado colégio do Rio de Janeiro e a do mais emblemático cronista e jornalista da Belle Époque Carioca.

Quando João do Rio morreu, a Revista da Semana publicou um encarte especial ricamente guarnecido por fotografias11. No conjunto há uma imagem do que seria a biblioteca na casa de Ipanema. O aspecto do ambiente é aconchegante, sofisticado, nota-se uma chaise longue, porta-retratos, quadros, garrafas de bebidas, etc. Seria esse o seu "jardim das delícias?" (FERREIRA, 1999).

No entanto, há outra referência que a revista não cita. De acordo com Amado (1956, p. 61) "em sua biblioteca, à Avenida Gomes Freire [...] havia tudo que merece ser lido, antigos, e modernos. Ocupava o andar inteiro, pois não havia sala de visitas nem cozinha. Êle fazia as refeições nos restaurantes". No discurso de inauguração da Biblioteca de João do Rio no RGPL, Gustavo Barroso narrou que, a fim de pedir votos para a eleição na ABL, em uma manhã foi visitar o cronista na mesma avenida Gomes Freire. Foi recebido "entre moveis de óleo vermelho com bronze Imperio aos cantos, num pequeno gabinete, onde escrevia", e depois passaram a uma sala "rodeada de altas estantes" (A PÁTRIA, 16 jun. 1922). Desses breves relatos pode-se vislumbrar que João do Rio morava em uma verdadeira "bibliocasa", que, como tal, era pouco organizada - ao menos aos olhos dos visitantes. Que biblioteca então, era aquela exibida na Revista da Semana? Ou quais eram os títulos e usos dela? Lamentavelmente ainda não há respostas a essas perguntas.

Seria como entrar em um terreno de areia movediça esboçar aqui comentários sobre a influência das leituras em suas obras12. No entanto, após a consulta exaustiva ao levantamento dos títulos que compõem a Biblioteca de João do Rio, foi possível identificar alguns autores com maior ocorrência. No quadro a seguir (QUADRO 1), foi isolado, como objeto de análise, o autor Jean Lorrain:

 

 

Broca pondera que João do Rio teria lido Jean Lorrain porque há "traços acentuados e marcantes no livro de contos Dentro da Noite" (BROCA, 2003, p. 163)14. Graças à realização do levantamento dos títulos da BJR, verificou-se que a inferência pode ser verdadeira, pois há quase que a totalidade das obras publicadas pelo autor francês.

A BJR apresenta títulos que serviram para suas pesquisas de trabalho e também para sua fruição, como é comum em várias Bibliotecas Particulares. Há um episódio que teria se passado com Paulo Barreto que ilustra seu papel como leitor e em suas práticas de comprador de livros:

[...] a Casa Crashley mandava participar a João do Rio a chegada dos livros de Wilde que ele havia encomendado. O livreiro logo lhe foi explicando que as obras de Wilde tinham sido queimadas depois do processo, sendo difícil encontrá-las, e custavam muito caro, com exceção de Intenções, de que se fizera uma edição em Paris (BROCA, 2004, p. 162).

É possível que Paulo Barreto tenha aquiescido a compra de Intenções, pois na coleção há três exemplares, em inglês, francês e português. Além dessa obra, encontram-se na Biblioteca de João do Rio, os seguintes títulos de Oscar Wilde:

 

 

É mister novamente afirmar que este artigo não está direcionado a analisar a composição da Biblioteca em detalhes. Seguindo o plano de destacar os autores de maior ocorrência no levantamento da Biblioteca de João do Rio, isolaram-se apenas aqueles que aparecem mais de dez vezes, a saber:

 

 

A pesquisa exaustiva, tanto no levantamento da Biblioteca de João do Rio quanto nas próprias estantes com os livros que a compõem, revelou ainda algo mais interessante: a hipótese de que os livros desse acervo estão na mesma ordem estipulada pelo antigo possuidor.

O RGPL, quando foi fundado em 1837, como era comum em bibliotecas congêneres, adotou o sistema de localização fixa16. No final dos anos 80 do século XIX, com advento do sistema de Melvil Dewey, solicitou a um de seus sócios, o ilustre Ramiz Galvão, que coordenasse implantação desse modelo em seu acervo. A confusão causada por essa mudança foi tamanha que já nos anos de 1920 o sistema antigo havia voltado, por exigência dos sócios.

Pelo sistema de localização fixa é pouco provável que um livro do mesmo autor ou assunto fique lado a lado em uma prateleira. O arranjo ocorre respeitando características extrínsecas da obras, tais quais: tamanho, tipo de material empregado na encadernação, etc. Ao contrário dos sistemas de Dewey e do Código Decimal Universal, pelos quais as obras são agrupas por assunto. No que concerne à Biblioteca de João do Rio, pode-se claramente inferir que o bibliotecário e acionista Alexandre Albuquerque respeitou a ordem em que o escritor dispunha seus livros. Há uma seqüência nos números de localização - que por questões de segurança não será indicado aqui - que permite chegar a essa suposição. Não há caso semelhante no acervo do RGPL e, por isso, acredita-se que o inventário foi feito respeitando a ordem dos livros da biblioteca do escritor, preservando assim sua sequência.

 

5 Considerações finais

Diante de uma biblioteca particular cujo dono morreu, tem-se a certeza de que os livros são mais fortes e soberanos que nós próprios, mais longevos de fato. O proprietário passa e eles ficam - quase que de maneira irônica, pode-se dizer - como um descendente daquele que ao longo da vida a gestou, alimentou e a criou. Vivo, o colecionador dominava, tinha o poder do acervo; com sua morte, vive em e por seus livros. Esses, então, assumem um papel de prolongamento da memória do ente que a concebeu, pois permanece na coleção a essência dele. Com isso, ela irá ao longo dos anos perpetuá-lo. Nessa biblioteca, restaram os livros com marcas de leitura, as dedicatórias, os papeluchos esquecidos entre as folhas que testemunham momentos vividos, leituras interrompidas e, ainda, os livros mais queridos, outros nem tanto, os esquecidos, os perdidos...

Dona Florência Cristóvão dos Santos Barreto, com a decisão de doar a Biblioteca de João do Rio ao Real Gabinete Português de Leitura, contribuiu para salvaguardar não só o acervo mas a memória dele, memória que quase foi apagada após sua morte e que hoje é cada vez mais evocada. Na onda provocada pelo "esquecimento" da imagem17 de João do Rio, além de seus livros, sua própria biblioteca ficou esquecida, muito embora resguardada sob o teto da Instituição que ele tanto prezava e que tanto o acolheu.

Percorrer as estantes da Biblioteca de João do Rio, examinar os títulos e de certa maneira "ler" o que representam, certamente há de continuar contribuindo para o entendimento da figura de um dos mais instigantes personagens do início do século XX carioca. Não caberia neste artigo e fugiria muito do objetivo central uma análise dessa "enciclopédica biblioteca" - tão múltipla de interpretações quanto seu possuidor. O colacionamento que revelará as várias características intrínsecas e extrínsecas da Biblioteca de João do Rio ainda está por ser feito. São inúmeras as possibilidades de pesquisa nessa Biblioteca. Pode-se priorizar o conjunto ou algumas coleções que a compõem, que vão desde livros de medicina a livros de viagem.

O Real Gabinete Português de Leitura representa o local onde a memória portuguesa "se cristaliza e se refugia" (NORA, 1997, p. 7). Ao abrigar a bibliotecas particulares, como a de João do Rio, essa Instituição centenária aumenta seu escopo e passa a ser um espaço de "memórias individuais" (HALBWACHS, 2006).

Por suas características, os livros da Biblioteca de João do Rio representam um retrato social e antropológico do possuidor. Apesar de representar uma pequena amostragem, os títulos elencados como exemplos, neste artigo, servem para ilustrar, tanto para o pesquisador mais acostumado com as leituras de João do Rio quanto aos acostumados apenas com pesquisas acerca dos intelectuais cariocas no início do século passado, que Paulo Barreto está muito longe de ser um jornalista frívolo, como queriam alguns de seus coetâneos. Os autores presentes em sua Biblioteca mostram que, além das pesquisas de campo - que contribuíram sobremaneira para a consistência de suas crônicas - a leitura era outra fonte de investigação e inspiração que lançou mão para exercer seu ofício.

Outro dado de relevância que perpassa discretamente este artigo é a prática de gestão de biblioteca e o fazer biblioteconômico no início do século XX18. Um simples levantamento bibliográfico pode mostrar a profusão de artigos e demais trabalhos acadêmicos que tratam da recepção de bibliotecas particulares. Nesses trabalhos, são sempre apontadas as dificuldades jurídicas, administrativas e organizacionais desse procedimento. Expor aqui esse processo, levado a cabo no Real Gabinete, pode contribuir para os bibliotecários modernos perceberem e até mesmo captarem soluções relevantes para problemas bem atuais. Ora, é preciso não perder de vista que a Biblioteconomia possui um corpus teórico muito antigo que e como tal precisa ser resgatado, a exemplo de outras áreas que têm buscado respostas e soluções no passado.

É possível reputar à Biblioteca de João do Rio de "quase desaparecida", porque poucos são os pesquisadores que sabem de seu paradeiro. Muitos, inclusive, acreditam que ela desapareceu junto com a Sociedade Luso-Brasileira Paulo Barreto, no final dos anos de 1980. O presente artigo representa tão somente um primeiro passo para conhecer esse valioso acervo e retirá-lo do labirinto19, que dificultava a compreensão mais amiúde da relação livro/leitor.

 

Referências

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ACTA nº 60 da Sessão da Directoria em 16 de Junho de 1924. Rio de Janeiro: [s. n.], 1924.         [ Links ]

AMADO, G. Paulo Barreto. In: ______. A chave de Salomão e outros escritos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956.         [ Links ]

A NOTÍCIA. Rio de Janeiro, jun. 1924.         [ Links ]

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Recebido em 17.05.2010
Aceito em 18.10.2010

 

 

* Agradeço imensamente as orientações das professoras doutoras Tânia Bessone, Vírginia Célia Camilotti e a bibliotecária Kátia Marina Cunha e Silva. E, de modo especial, ao Sr. Antonio Gomes da Costa, presidente do Real Gabinete Português de Leitura, pelo respeito e reconhecimento ao meu trabalho durante o período em que fui bolsista da Instituição.
1 Em todas as citações serão mantidas as grafias da época.
2 Além das leituras, houve vários momentos de conversas e troca de e-mails que contribuíram para esclarecer dúvidas acerca de João do Rio.
3 Nesse artigo usarei indistintamente João do Rio e Paulo Barreto.
4 Ao leitor que desejar ampliar suas leituras sobre João do Rio, sugerem-se os seguintes trabalhos: ANTELO, Raul. O dândi e a especulação. Rio de Janeiro: Taurus, 1989; CAMILOTTI, Virgínia Célia. João do Rio. Idéias sem lugar. Uberlândia: Ed.UFU, 2008; GOMES, Renato Cordeiro. João do Rio. Vielas do vício, ruas da graça. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1996; LEVIN, Orna Messer. As figurações do dândi. Campinas: Ed. Unicamp, 1996; O´DONNEL, Julia. De olho na rua. A cidade de João do Rio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008; RODRIGUES, Antonio Edmilson Martins. João do Rio. A cidade e o poeta. Rio de Janeiro: Ed.FGV, 2000; SCHAPOCHNIK, Nelson. João do Rio: Um dândi na Cafelândia. São Paulo: Boitempo, 2004.
A utilização do termo "Biblioteca João do Rio" designa apenas os livros, já "Coleção João do Rio" refere-se a todo o conjunto composto por documentos e objetos tridimensionais, como se verá ao longo do texto.
5 Infelizmente a cópia desse inventário ainda não foi localizada. É possível que o cartório de Eduardo Carneiro de Mendonça tenha feito esse documento, pois foi nesse mesmo estabelecimento que ela lavrou seu testamento em 1925. Cf. Magalhães Júnior, 1978.
6 A respeito dessa residência, há uma dúvida cujo esclarecimento não alcançamos. Na Revista da Semana, no encarte ilustrado publicado na morte de João do Rio, há uma foto da casa e o endereço que aí consta é Avenida Vieira Souto. O pesquisador João Carlos Rodrigues, em João do Rio: uma biografia, confirma que a casa que Paulo construíra localizava-se na Avenida Meridional, atual Vieira Souto. A informação n'A Pátria estaria errada ou trata-se de duas casas diferentes?
7 Como era lugar-comum, considera-se número de volumes e não títulos. Todavia, perscrutando o catálogo da Biblioteca João do Rio, não encontramos muitas obras em vários tomos e sim coleções quase completas de alguns autores.
8 O mesmo jornal, explica: "por classificação de assumpto".
9 O conceito de ex libris atribuído foi estabelecido pela bibliotecária e pesquisadora Ana Virgínia Pinheiro. Trata-se de uma marca de propriedade criada pela biblioteca que recebe uma determinada coleção com o objetivo de fazer memória da sua proveniência. Como exemplo pode-se citar o ex libris criado pela Fundação Biblioteca Nacional para a "Coleção Tereza Cristina Maria".
10 Esse trabalho contou com o apoio das bibliotecárias do RGPL.
11 Essa separata foi consultada no acervo do Núcleo de Manuscritos e Autógrafos do RGPL, coordenado pela profª Drª Sheila Moura Hue. Na edição de 2 jul. 1921, atendendo a pedidos, a Revista da Semana, publicou as fotos novamente, desta vez encartada no periódico e sem a foto da biblioteca.
12 Recomenda-se, mais uma vez, a leitura da dissertação e tese - já indicadas aqui - da historiadora Virginia Camilotti. A pesquisadora ocupou-se em demonstrar as conexões existentes entre seus vários escritos; prepara como projeto de pós-doutorado uma investigação acerca do processo de composição da biblioteca.
13 Para o cotejamento e classificação das obras lancei mão da Enciclopédia Delta Larousse, 1970.
14 Sobre a influência de Jean Lorrain em alguns textos de João do Rio, ver Rodrigues, 1996, p. 49; 78-84 e Camilotti (1997, 2004).
15 Para essa relação foram mantidos os títulos nos idiomas encontrados na Biblioteca de João do Rio.
16 "A ordem de itens por tamanho, que atribui ao arranjo da coleção uma organização simétrica, independentemente do conteúdo de cada item do acervo, é o mais antigo sistema de organização de bibliotecas, que remonta às bibliotecas claustrais, denominado Sistema de Localização Fixa, posto que implica a atribuição de notação que fixa o item em local determinado" (PINHEIRO, 2007, p. 25, grifo nosso).
17 Cf. Camilotti (1997).
18 Para mais detalhes dessas práticas biblioteconômicas no Real Gabinete também no século XIX, recomendo os estudos: AZEVEDO, Fabiano Cataldo de. Contributo para traçar o perfil do público leitor do Real Gabinete Português de Leitura: 1837-1847. Rev. Ci. Inf. , Brasília, v. 37, n. 2, p. 20-31, maio/ago. 2008. Disponível em: <http://revista.ibict.br/index.php/ciinf/article/viewArticle/1039 >. Acesso em: 05 maio 2010.
AZEVEDO, Fabiano Cataldo de. A importância dos intrumentos auxiliares de seleção: considerações da literatura do século XIX e usos no Real Gabinete Português de Leitura. DatagramaZero, v. 9, n. 4, ago. 2008. Disponível em: <http://www.datagramazero.org.br/ago08/Art_05.htm >. Acesso em: 05 maio 2010.
19 PINHEIRO, Ana Virgínia. Do labirinto ao invisível: a história do livro raro no Brasil. 2003. Disponível em: http://dici.ibict.br/archive/00000679/ . Acesso em: 05 maio 2010.