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Perspectivas em Ciência da Informação

Print version ISSN 1413-9936

Perspect. ciênc. inf. vol.17 no.1 Belo Horizonte Jan./Mar. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-99362012000100015 

RESENHA

 

 

Livros & Telas. MARTINS, Aracy Alves et al. (Orgs.). Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2011. 261 p.

Quais são os novos desafios na formação de leitores de literatura no contexto da sociedade da informação e sua pluralidade de supores? Quem nos traz reflexões agudas e oportunas sobre essa importante questão é o Grupo de Pesquisa do Letramento Literário (GPELL), integrante do Ceale/FaE/UFMG e que vem realizando, desde 1995, o evento bienal intitulado Jogo do Livro. Privilegiando as temáticas mais instigantes de cada momento esse evento tem sido apreciado por especialistas em educação e leitura como foro privilegiado de discussão sobre os significados do letramento na sociedade brasileira e no mundo global contemporâneos. Segundo a Profa. Aparecida Paiva, integrante e ex-coordenadora do GPELL o evento, em todas as suas edições tem como objetivo central apreender, na diversidade histórica e social das práticas escolares, suas diferentes conseqüências lingüístico-cognitivas, sócio-culturais e políticas decorrentes da apropriação e do uso da leitura em contextos escolares e fora deles. Pois bem, no ano de 2009 foi realizado o VIII Jogo do Livro: a Tela e o Livro", tema obrigatório para educadores e pesquisadores desde a chegada definitiva da revolução digital no cotidiano do cidadão comum. Especialistas de várias partes do Brasil, além do Professor de Literatura Francesa na Universidade Nova Sorbonne Paris III Emmanuel Fraisse, ocuparam as mesas de debate para expor suas impressões sobre o modo contemporâneo de perceber as práticas de leitura possibilitadas pela diversidade de mídias e  suportes, do cinema à internet, das artes plásticas à fotografia, da folha impressa às diferentes telas digitais.

O livro Livros & Telas publicado em 2011 e objeto da presente resenha é o resultado dos trabalhos apresentados no VIII Jogo do Livro em cuidadosa edição da Editora UFMG. Está organizado em quatro partes, antecedidas por: a) um belo prefácio intitulado Tecendo manhãs, no qual Magda Soares, fundadora do Ceale e Francisca Isabel Pereira Maciel, atual diretora, traçam um breve resumo dos 20 anos do Ceale e da trajetória vitoriosa do Jogo do Livro; b)na Apresentação as organizadoras Aracy A. Martins, Maria Zélia Versiani Machado, Graça Paulino e Celia Abicalil Belmiro apresentam os autores colaboradores "cada um com seu ponto de vista, revelando diferenciadas interfaces que o livro literário estabelece com outras artes [...] bem como outras tecnologias, e com a cibercultura." c) na Introdução intitulada A Literatura e a versatilidade dos leitores Aracy A. Martins e Maria Zélia V. Machado começam indagando "O que é ler hoje?" para, em seguida, fazer uma breve retomada das importantes transformações ocorridas no século XX: de Monteiro Lobato que ousou produzir livros brasileiros para crianças brasileiras na década de 1920, passando pelo  boom  da literatura infantil e juvenil ocorrido na década de 1980 até o torvelinho de mudanças na produção e recepção de textos dos dias atuais. Se ainda é difícil perceber, sem preconceitos, o que se ganha e o que se perde quanto aos significados da leitura pós-revolução digital, o grande objetivo desse livro, para as organizadoras é, justamente, reconhecer e compreender as diferentes formas de apresentação da literatura na contemporaneidade e refletir sobre a formação de leitores na escola e em outros espaços sociais de leitura.  Mas, formar leitores é, justamente, a questão que mais desafia professores e bibliotecários no contexto atual de multiletramentos simultâneos. Citando Chartier  em A aventura do livro: do leitor ao navegador (1999) as organizadoras ressaltam que o que a revolução eletrônica trouxe de radicalmente novo foi o fato desconcertante de que "não há um processo de aprendizagem transmissível de nossa geração à geração dos novos leitores". Na verdade, admitem, "nós, professores  aprendemos mais com a versatilidade deles do que eles conosco" e, por isso mesmo, cabe ao professor e ao bibliotecário despir-se de qualquer purismo ou resistência em relação às novas práticas de leitura literária em blogs e sites até porque o número crescente de espaços desse tipo na internet tem mostrado que as novas gerações (e também as mais antigas) tem (re)inventado modos de ler e compartilhar literatura  passeando do virtual ao impresso e do impresso ao virtual.

Pesquisadores das áreas da Educação, Teoria literária, Literatura, dão Linguística, Semiologia e Artes Visuais apresentam suas reflexões e contam experiências ao longo das quatro partes que organizam o livro, a saber: O livro e a tela: o que muda, o que permanece e o que desaparece?; O impresso e o digital: mobilidades culturais e políticas; Telas e livros na formação de leitores e Literatura na TV e no Cinema.

Trata-se, enfim, de uma leitura indispensável para professores e bibliotecários que queiram entender e participar como mediadores culturais desse universo literário alargado que acolhe diversas linguagens e possibilita novos e instigantes diálogos entre as imagens verbais e visuais mas que, como um reverso da moeda, traz embutido um inexorável  processo de exclusão das pessoas que não têm e não terão acesso ao meio digital. É ler e conferir.

 

Profa. Maria da Conceição Carvalho
Professora Adjunta da ECI/UFMG