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Perspectivas em Ciência da Informação

versão On-line ISSN 1981-5344

Perspect. ciênc. inf. vol.22 no.2 Belo Horizonte abr./jun. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1981-5344/2830 

Artigos

Preprints na comunicação científica da Física de Altas Energias: análise das submissões no repositório arXiv (2010-2015)

Preprints in scholarly communication of High Energy Physics: analysis of submissions to the arXiv repository (2010-2015)

Gonzalo Rubén Alvarez1 

Sônia Elisa Caregnato2 

1Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mestre em Ciência da Comunicação e Informação pelo PPGCOM/UFRGS.

2Doutora em Information Studies pela University of Sheffield, Inglaterra. Professora Associada do Departamento de Ciências da Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

RESUMO

A circulação de preprints na Física de Altas Energias (FAE) remonta a mais de meio século, tendo como objetivos principais acelerar o processo de comunicação científica entre os pares e estimular o acesso livre à literatura especializada da área. O artigo analisa o conjunto de preprints submetidos às diferentes categorias FAE do repositório temático especializado arXiv no período 2010-2015 que foram posteriormente publicados em revistas peer review. Os indicadores bibliométricos demonstram a potencialidade dos preprints como canal precursor de difusão de resultados científicos visto que 70% das submissões foram em seguida absorvidas pelas principais revistas da FAE. Conclui que o êxito alcançado pelas iniciativas Open Access arXiv e INSPIRE-HEP favoreceu o intercâmbio de informações e conhecimentos entre os pesquisadores. O modelo proposto pela FAE pode incentivar cientistas de áreas com características similares a instalarem repositórios e bancos de dados de preprints para suas disciplinas com o intuito de fortalecer a comunicação das descobertas científicas.

Palavras-chave: Comunicação científica; Preprints; Open Access; Física de Altas Energias

ABSTRACT

The preprint circulation in High Energy Physics (HEP) goes back over half a century, with the main objective of accelerating the process of scholarly communication among peers and encourage free access to specialized literature. This paper analyzes a subset of preprints submitted to different HEP categories of the arXiv subject repository from 2010 to 2015 which were subsequently published in peer review journals. Bibliometric indicators show the potential of preprints as a forerunner channel for the diffusion of scientific output since 70% of submissions were then absorbed by leading HEP journals. It concludes that the success of the Open Access initiative arXiv and INSPIRE-HEP has improved the exchange of information and knowledge among researchers. The model proposed by HEP can encourage scientists of areas with similar characteristics to setup repositories and preprint databases to their disciplines in order to strengthen the communication of scientific discoveries.

Keywords: Scientific communication; Preprints; Open Access; High Energy Physics

1 Introdução

A produção, disseminação e uso da informação são fundamentais para o desenvolvimento das comunidades científicas. Desde séculos passados, o ato de comunicar através de canais informais e formais se tornou um fator necessário para a construção de novo conhecimento. Na atualidade, o periódico peer review é o canal de comunicação formal mais utilizado para publicação das descobertas científicas.

Desde a década de 1960, os físicos teóricos e experimentais, ansiosos para divulgarem os resultados científicos para seus pares de uma forma mais rápida do que a publicação convencional, submetem seus relatórios de pesquisa nos repositórios de preprints. Anos mais tarde, os avanços tecnológicos e o advento da Internet aceleraram o processo de comunicação científica e tornaram as pesquisas mais visíveis, uma vez que permitiu o acesso remoto de repositórios e bancos de dados informatizados como arXiv e SPIRES (atualmente INSPIRE-HEP).

A adoção por um sistema de comunicação depende muitas vezes das particularidades da área e do tipo de conhecimento que está sendo transmitido (GOLDSCHMIDT-CLERMONT, 2002). À diferença de outros campos, a Física de Altas Energias (FAE) é uma disciplina que está em continuo desenvolvimento e que exige grandes investimentos de capital para realizar seus programas experimentais. Nesse sentido, a velocidade é um fator importante na comunicação visto que o atraso no processo de transmissão das informações pode causar uma significativa perda econômica e duplicidade dos experimentos. O fio condutor da inovação FAE na comunicação científica é a sua forte cultura preprints (AYMAR, 2009).

Dada a preocupação e a necessidade de comunicação ao longo do tempo, o movimento Open Access dentre os membros da comunidade da FAE já não é mais novidade. Por tanto, a importância deste estudo reside na possibilidade de compreender o valor dos preprints como mecanismo diferenciado e alternativo na comunicação científica da Física de Altas Energias. Os padrões de comunicação aqui relatados podem ter alguma semelhança com os de outros campos com características similares às da FAE: ciência em rápido desenvolvimento, alta complexidade dos experimentos, grande investimento de capital, pequeno número de laboratórios envolvidos, código de ética tradicional amplamente aceito pelos membros da comunidade científica (GOLDSCHMIDT-CLERMONT, 2002). Esta pesquisa bibliométrica analisa o potencial dos preprints na comunicação científica da Física de Altas Energias a partir das submissões recebidas pelo repositório arXiv no período de 2010-2015 e posteriormente publicados em revistas peer review.

2 Cultura preprints na física de altas energias

Em qualquer área do conhecimento, a realização de pesquisas e a comunicação de seus resultados são atividades inseparáveis (MEADOWS, 1999). No caso da FAE, desde a realização dos primeiros experimentos, os cientistas tiveram a necessidade de transmitir os resultados para a sociedade da qual faziam parte. O diálogo é primordial para o desenvolvimento dessa área destacada pelo trabalho em colaboração. Segundo O’Connell (2000), a FAE sempre teve uma forte cultura de comunicação.

A divulgação das pesquisas e os canais formais e informais de comunicação tornaram-se fatores essenciais na troca de ideias e métodos científicos, sendo que a escolha deles varia segundo a área de conhecimento. Para o avanço da ciência, a submissão de artigos em periódicos científicos com avaliação dos pares ou “peer review” torna-se fundamental (MUELLER, 2000). Geralmente, a avaliação de instituições de pesquisa e jovens pesquisadores é realizada com base nas publicações em prestigiosos jornais peer-review. O principal papel das revistas da FAE é ser o “guardião dos registros” (AYMAR, 2009). Entretanto, o surgimento do World Wide Web e a criação de bancos de dados específicos de pré-publicações em áreas como a FAE modificaram o comportamento dos cientistas, passando-se para uma “cultura de preprints” (MEADOWS, 1999; HURD, 2000; KLING; McKIM, 2000; AYMAR, 2009).

Segundo Søndergaard, Andersen e Hjørland (2003, p. 295): “Apesar de muitas vezes passarem por algum processo de revisão, os preprints são documentos distribuídos antes da sua publicação formal e talvez antes da conclusão do processo de avaliação por pares.” Na concepção de Aman (2013), os preprints são documentos digitais que foram submetidos a um repositório sem uma revisão prévia por pares. Para Goldschmidt-Clermont (2002), os preprints são cópias disseminadas de artigos submetidos para publicação em revistas científicas. Segundo a autora, os preprints são documentos temporários que compensam o atraso das publicações e estimulam novas abordagens científicas. Eles são distribuídos para os cientistas que participam em um mesmo campo. Assim que o artigo for publicado, o preprint pode e deve ser destruído, referenciando-se apenas a publicação (GOLDSCHMIDT-CLERMONT, 2002).

Na década de 1960, os físicos já submetiam seus relatórios impressos a clearinghouses, que são instituições envolvidas com a obtenção, armazenamento e disseminação de documentos não publicados de uma área (SØNDERGAARD; ANDERSEN; HJØRLAND, 2003). Hoje, as versões eletrônicas, como os servidores de preprints do Los Alamos National Laboratory (LANL) e European Organization for Nuclear Research (CERN), são mera e exclusivamente extensões desses serviços (KLING; McKIM, 2000). Com relação à comunicação, Mueller (1994) complementa que os preprints se popularizaram como um veículo semiformal naquele período e que em comparação com os canais formais, eles ofereciam maior rapidez e flexibilidade, permitindo a inclusão de comentários. Meadows (1999) certifica que nas pré-publicações impressas, a iniciativa competia ao autor, no caso das pré-publicações eletrônicas, ao leitor. Em termos de inovação, o advento do fax acelerou a distribuição desses documentos, mas não foi capaz de diminuir a lentidão na comunicação. Todavia, anos mais tarde, a Internet se apresentaria como uma opção eficiente para contornar o atraso entre a divulgação de um trabalho e a sua publicação em um periódico (AMAN, 2013).

Hurd (2000) comenta que já em 1945, Vannevar Bush, em seu artigo As we may think, teve a visão de um sistema mais eficaz para o armazenamento e recuperação científica de informações por meio de computadores. A ideia de Bush (1945) era a de inspirar os cientistas das diferentes áreas a se envolverem em um esforço após a Segunda Guerra Mundial para organizar e disponibilizar a quantidade cada vez maior de informações científicas e técnicas através da tecnologia. Bush viu aparentemente o potencial dos computadores e dispositivos de armazenamento que podem ser ligados a sistemas inovadores de indexação para melhor servir informações à comunidade científica (HURD, 2000). Os físicos podem ter se inspirado nas ideias de Bush e optado pela criação de servidores de preprints para acelerar o processo de comunicação das pesquisas entre os membros da comunidade.

Ainda, Hurd (2000) aponta que a cultura de preprints valoriza a rápida disseminação de resultados preliminares, acelera o processo de comunicação entre os pesquisadores, proporciona a participação ativa dos colégios invisíveis1, permitindo que prevaleçam as colaborações em grande escala, a dispersão geográfica dos grupos de pesquisa e o acesso à informação por parte das outras áreas que participam nos projetos. A velocidade de transformação na comunicação científica dependerá da aceitação do veículo de cada disciplina.

Søndergaard, Andersen e Hjørland (2003) entendem que o crescente uso e impacto dos canais baseados na Internet mudou o fluxo da comunicação científica. Na FAE, o desenvolvimento de banco de dados de preprints como nova via de conversação teve um papel vital devido ao descontentamento dos cientistas com atrasos de publicação e problemas de distribuição dos periódicos impressos. Essas dificuldades diminuem a velocidade da comunicação, tendo um efeito adverso sobre a ciência (AMAN, 2013). Sena (2000) explica que Bush na sua obra também apontava o tempo perdido entre a redação do trabalho científico e a sua publicação. Como foi comentado anteriormente, a FAE é um campo que está se desenvolvendo rapidamente e que exige para isso grandes investimentos de capital; nesse sentido, a velocidade é um fator importante na comunicação (GOLDSCHMIDT-CLERMONT, 2002). A autora também comenta que os atrasos que ocorrem no processo de transmissão de informações podem causar uma quantidade significativa de experimentos duplicados, sendo necessária uma rígida vigilância por causa dos gastos envolvidos. Bourdieu (2004) aponta a preocupação dos pesquisadores das grandes revistas americanas da Física com relação à demora dos artigos, já que cinco minutos de atraso podem provocar a perda do benefício de vinte anos de pesquisa. Os editores assumiram o compromisso de reduzirem o atraso e manterem a qualidade do conteúdo, buscando o equilíbrio. Os preprints são uma técnica que permite compensar o aspecto negativo desse equilíbrio (GOLDSCHMIDT-CLERMONT, 2002). Meadows (1999) aponta que, apesar da falta de controle de qualidade (uma característica invisível), os servidores de preprints bem poderiam constituir um periódico eletrônico plenamente desenvolvido.

O alto custo dos experimentos também teve influência no sistema de comunicação da FAE visto que os trabalhos submetidos aos servidores de preprints passam por um forte controle de revisão antes de serem publicados nas revistas da área. De tal modo, um relatório de pesquisa pode ser lido e comentado por dezenas de revisores antes da sua divulgação (KLING; McKIM, 2000). Nas grandes colaborações, a interação e o consenso entre os cientistas são fatores primordiais para a promoção das pesquisas. O’Connell (2000) afirma que as revistas da área tiveram pouca dificuldade para lidar com a existência dos preprints. O autor considera que a publicação em uma revista arbitrada é muito importante, sendo que quase 70% dos preprints eventualmente são publicados em periódicos e outros 20% aparecem em anais de congresso.

A ampla aceitação dos repositórios de preprints como canal de comunicação diferenciado e alternativo supõe pensar que, os membros da comunidade científica da FAE compartilham os mesmos paradigmas, pois, como expressa Kuhn (1997, p. 219), “Um paradigma é aquilo que os membros de uma comunidade partilham e, inversamente, uma comunidade científica consiste em homens que partilham um paradigma.” Conforme Hochman (1994), a comunicação entre as várias comunidades, por vezes, é bastante difícil, o que não acontece dentro de um grupo ou comunidade científica que partilha da mesma tradição, crenças, valores, técnicas etc. O autor explica que, para Kuhn, a aceitação de um paradigma pode ser comprovada com o surgimento de jornais, revistas especializadas, fundação de sociedades científicas, currículos de cursos universitários, citações, livros didáticos etc. Estas são algumas das formas de socialização e comunicação entre os membros do grupo. Devido ao consenso observado na FAE, os preprints como meio de comunicação podem ser interpretados como um paradigma criado pela área e utilizados como vias principais de acesso para a literatura publicada nas revistas científicas.

3 Iniciativas Open Access em FAE: SPIRES e ARXIV

A cultura Open Access na FAE não é notícia e, como foi dito anteriormente, remonta a décadas, quando os cientistas mandavam preprints (manuscritos que ainda não tinham sido publicados em revistas) para seus pares. Dessa conduta, as bibliotecas dos centros de pesquisa classificaram e indexaram esses trabalhos, dando origem ao Stanford Public Information Retrieval System (SPIRES), o primeiro servidor de pré-publicações e ao repositório arXiv (GENTIL-BECCOT; MELE; BROOKS, 2010).

Originalmente, SPIRES foi desenvolvido no centro de pesquisa Stanford Linear Accelerator Center (SLAC) em 1969, o sistema foi concebido como um sistema de gerenciamento de banco de dados de preprints da FAE. No início de 1970, foi adotado pela Stanford University para ser utilizado por professores, estudantes e funcionários. Paralelamente, o SLAC e o laboratório Deutsches Electronen Síncrotron (DESY) começaram a trabalhar juntos para criar um único banco de dados na área. Com o lançamento da World Wide Web em 1991, SPIRES tornou-se o primeiro banco de dados na Web (O’CONNELL, 2010).

No SPIRES, as citações a preprints são agregadas às citações das versões publicadas, tratando as duas como uma entidade única. O estudo de Gentil-Beccot, Mele e Brooks (2010) demonstrou que os artigos da FAE submetidos a um repositório Open Access, como o arXiv, e posteriormente publicados em revistas, recebem cinco vezes mais citações do que os artigos que são publicados somente em revistas ou em repositório e que 20% das citações aos artigos da área, em um período de dois anos, ocorre antes da publicação. Em conjunto, esses resultados levaram a três conclusões gerais sobre a comunicação científica na FAE: adoção Green Open Access2 para as publicações; maior visibilidade e reconhecimento dos pares devido à livre e imediata circulação de trabalhos; valor dos repositórios de preprints como meio de discurso complementar dos periódicos científicos. Atualmente, uma das ferramentas de busca mais utilizada pela área é o INSPIRE. Baseado na experiência SPIRES, o INSPIRE (INvenio + SPIREs) é um sistema de informação da FAE construído pelos laboratórios CERN, DESY, Fermi National Accelerator Laboratory (FERMILAB) e SLAC. Ele combina o sucesso do banco de dados SPIRES com a tecnologia da biblioteca digital Invenio desenvolvido no CERN. INSPIRE é gerido pela colaboração dos quatro laboratórios e interage de perto com outros sistemas como arXiv, NASA-ADS, PDG, HEPDATA. Representa uma evolução natural da comunicação científica, construída sobre sistemas de informação bem-sucedidos baseados em uma comunidade e fornece uma visão para a gestão da informação em outros campos da ciência (INSPIRE-HEP, 2016b, documento on-line).

Em agosto de 1991, Paul Ginsparg no LANL de Novo México, Estados Unidos, criou o primeiro servidor de e-print (electronic pre-print), o arXiv (SENA, 2000; MUELLER, 2006). O arXiv é um repositório temático especializado de preprints de acesso aberto. As áreas abrangidas incluem Física, Matemática, Ciências da Computação, Ciências não-lineares, Biologia Quantitativa e Estatística. O servidor é mantido e operado pela biblioteca da Cornell University, com orientação do Conselho Consultivo Científico do arXiv. As submissões são analisadas por especialistas da área, verificando-se a relevância das mesmas para a comunidade científica. O arXiv complementa o sistema de publicação tradicional e proporciona a divulgação imediata e gratuita da informação em acesso aberto. O foco do arXiv é a disponibilidade perpétua das submissões. As submissões aceitas recebem um ID de arXiv. Os autores podem fazer atualizações das suas pesquisas a partir da inserção de novas versões. As versões antigas não podem ser removidas (arXiv, 2015, documento on-line).

Sena (2000) acrescenta que a essência do modelo de comunicação Open Access na FAE é a livre circulação dos manuscritos, sendo que os especialistas podem discutir, criticar e complementar o trabalho dos pares antes da publicação nos importantes periódicos da área. Muitos pesquisadores fazem as atualizações no arXiv das versões revisadas e corrigidas durante o processo de publicação nos periódicos (GENTIL-BECCOT; MELE; BROOKS, 2010). Na visão de O'Connell (2000) e Mueller (2006) o ingrediente chave na criação de bases de dados de preprints foi a centralização. Os cientistas da área da física e outras áreas relacionadas, localizados em qualquer parte do mundo, poderiam enviar seus trabalhos para um repositório central e ao mesmo tempo se manter atualizados com relação às últimas pesquisas na FAE. Mueller (2006) acrescenta que embora os trabalhos enviados não tivessem sido avaliados por pares, o sistema verificava alguns pontos de maneira a garantir uma qualidade mínima (por exemplo, filiação do autor). Assim, os cientistas remetiam seus trabalhos para a base de dados do LANL, ao mesmo tempo em que os submetiam para as editoras das principais revistas científicas da área. Posteriormente, a ascensão do serviço de redes de computadores consolidou a prática. Segundo Aymar (2009), três inovações marcaram avanços cruciais na comunicação científica da FAE: o surgimento da base de dados SPIRES, a concepção do repositório especializado arXiv e a invenção da Web no CERN. Graças à sua cultura preprints, a FAE é uma disciplina que valoriza a rápida disseminação e acesso à informação (AYMAR, 2009). Como canal de comunicação informal, os preprints podem ser considerados os antecessores da publicação formal. Sua relação com os periódicos da área está firmemente estabelecida na essência da pesquisa científica.

4 Metodologia

O corpus de análise deste estudo bibliométrico é composto pelos preprints submetidos ao repositório arXiv no período de 2010-2015 e classificados em uma das quatro categorias FAE: hep-ex para high energy experimental physics; hep-lat para studies of lattice field theory; hep-ph para particle phenomenology; hep-th para string, conformal and field theory. A coleta das informações foi realizada em maio de 2016 na base de dados INSPIRE-HEP. Esse sistema de acesso aberto para o campo da Física de Altas Energias foi escolhido uma vez que tem cobertura completa dos preprints submetidos em arXiv, incluindo informações sobre publicação. Na estratégia de busca foi utilizado o campo 037 do código MARC da base que contém dados referentes ao número de relatório e categoria do preprint submetido ao arXiv. O uso do operador booleano asterisco (*) possibilitou a recuperação dos preprints com qualquer número de relatório arXiv que contenha, por exemplo, a raiz arXiv:10, o que significa que a submissão foi realizada em arXiv em 2010 (uma vez que a primeira parte do número arXiv refere-se ao ano). A amostra de preprints submetidos às diferentes categorias FAE do arXiv no período de 2010-2015 foi obtida a partir da seguinte expressão de busca: (037:arXiv:10* or 037:arXiv:11* or 037:arXiv:12* or 037:arXiv:13* or 037:arXiv:14* or 037:arXiv:15*) and (037:hep-ex or 037:hep-lat or 037:hep-ph or 037:hep-th). Dados correspondendo aos preprints submetidos em 2015 e subsequentemente publicados em revistas arbitradas foram utilizados para analisar a concentração dos artigos por veiculo de comunicação. A partir da opção Citesummary foi possível conhecer a quantidade de preprints publicados em periódicos peer-review. Por meio das referências dos documentos geradas pela ferramenta de formatação BibTex da base INSPIRE-HEP, realizou-se a coleta dos dados sobre os veiculos de publicação dos 6.415 preprints de 2015. Indicadores de produção científica foram gerados através da análise das variáveis Ano de submissão (Year), Categoria do preprint em arXiv (primaryClass) e Periódico de publicação do preprint (Journal). Com relação ao tratamento dos dados, foi utilizado o programa Microsoft Excel 2007 para a confecção de tabelas e gráficos.

5 Resultados

Com base no conjunto de preprints submetidos às diferentes categorias da FAE no período de 2010-2015 e posteriormente publicados em periódicos peer review, os resultados apresentados na Tabela 1 manifestam a potencialidade desse tipo de literatura cinzenta na FAE visto que 70% das submissões foram absorvidas mais tarde pelas principais revistas da área, coincidindo com os dados da pesquisa de O’Connell (2000). Em nível individual, as categorias hep-th e hep-ph apresentaram os percentuais de preprints publicados em periódicos peer review mais altos, 81% e 69% respectivamente.

Tabela 1 Preprints submetidos no arXiv no período 2010-2015 e posteriormente publicados em revistas peer review 

hep-ex hep-lat hep-ph hep-th Total
Ano Ns Np % Ns Np % Ns Np % Ns Np % Ns Np %
2015 849 479 56 624 259 42 4.939 3.098 63 3.714 2.579 69 10.126 6.415 63
2014 923 507 55 589 259 44 4.630 3.396 73 3.618 3.028 84 9.760 7.190 74
2013 924 452 49 719 283 39 4.538 3.210 71 3.318 2.811 85 9.499 6.756 71
2012 1.084 616 57 579 305 53 4.541 3.240 71 3.298 2.745 83 9.502 6.906 73
2011 1.110 499 45 589 261 44 4.620 3.210 69 3.332 2.743 82 9.651 6.713 70
2010 696 309 44 573 250 44 4.205 2.813 67 3.366 2.764 82 8.840 6.136 69

Fonte: INSPIRE-HEP (2016a).

Legenda: hep-ex para high energy experimental physics; hep-lat para studies of lattice field theory; hep-ph para particle phenomenology; hep-th para string, conformal and field theory; Ns Número de preprints submetidos a arXiv; Np Número de preprints posteriormente publicados em periódicos peer-review; % Percentual de preprints publicados em periódicos peer-review. Dados sobre os preprints de 2015 posteriormente publicados foram utilizados para analisar a dispersão dos artigos por título de periódico.

Com relação à evolução temporal dos preprints submetidos às diferentes categorias da FAE no período de 2010-2015 e posteriormente publicados em periódicos peer-review, infere-se que a regularidade do número de submissões anuais representada pela baixa variação percentual manifesta uma consolidada adoção do sistema como canal precursor de comunicação das descobertas dentre os membros da comunidade científica da FAE, confirmando o comportamento observado por Mele et al. (2006) ao analisar a evolução histórica do número de submissões em SPIRES entre 1991 e 2005. Esse indicador retrata a coexistência pacífica de dois canais de difusão com características diferentes, os preprints e os artigos de revista.

Na Figura 1, aprecia-se o desempenho das submissões da FAE em arXiv por categoria (hep-ex, hep-lat, hep-ph e hep-th) assim como o número total (hep-*) durante o período estudado. Os preprints posteriormente publicados em revistas peer-review são indicados com ‘P’. Com relação à leve queda destes últimos registrada em 2015 pode-se argumentar que alguns preprints submetidos no final de dito ano em arXiv podem se encontrar ainda no processo editoral de revistas peer-review, coincidindo com os resultados de Mele et al. (2006).

Fonte: INSPIRE-HEP (2016a). Legenda: hep-ex Preprints high energy experimental physics; hep-lat Preprints studies of lattice field theory; hep-ph Preprints particle phenomenology; hep-th Preprints string, conformal and field theory; hep-* Total de preprints das quatro categorias FAE submetidos no arXiv; hep-* (P) Total de preprints das quatro categorias FAE posteriormente publicados em periódicos peer review.

Figura 1 Dinâmica de crescimento de preprints submetidos no arXiv no período 2010-2015 e posteriormente publicados em periódicos peer review 

A Figura 2 apresenta a distribuição por categoria FAE (hep-ex, hep-lat, hep-ph e hep-th) dos 6.415 preprints de 2015 posteriormente publicados em periódicos peer review nos quais a pesquisa foi baseada. O número de artigos em cada categoria hep é proporcional ao tamanho da subárea da FAE que ela representa. A predominância das publicações das categorias hep-ph (48%) e hep-th (40%) pode ser justificada pelo fato delas englobarem uma maior quantidade de assuntos de diferentes campos da Física de Altas Energias. Os artigos relacionados às pesquisas experimentais (hep-ex), envolvendo grandes colaborações internacionais, representam apenas 8% do total de publicações. A categoria hep-lat (4%) é a menos representativa dentre as subáreas da FAE dada a insuficiência de grupos no mundo com suporte computacional de alto desempenho suficiente para a realização dos estudos.

Fonte: INSPIRE-HEP (2016a) Legenda: hep-ex para high energy experimental physics; hep-lat para studies of lattice field theory; hep-ph para particle phenomenology, hep-th para string, conformal and field theory.

Figura 2 Distribuição por categoria FAE dos preprints de 2015 posteriormente publicados em revistas peer-review 

Outras iniciativas Open Access na FAE como o Sponsoring Consortium for Open Access Publishing in Particle Physics (SCOAP3) pretendem converter a literatura publicada nos principais periódicos da área para acesso aberto, redirecionando as taxas das assinaturas das revistas para pagamento dos avaliadores peer-review. Algumas editoras como a Elsevier, Springer e IOP Publishing já estão participando do SCOAP3.

A Figura 3 apresenta as revistas que receberam preprints de 2015 submetidos em alguma das quatro categorias FAE no arXiv para publicação. Verifica-se que quase 90% dos 6.415 artigos são publicados em apenas sete periódicos de quatro editoras, sendo eles Physical Review D e Physical Review Letters (APS), Journal of High Energy Physics e European Journal Physical C (Springer), Nuclear Physics B e Physics Letters B (Elsevier), Journal of Cosmology and Astroparticle Physics (IOP Publishing). Percebe-se como a alta concentração de publicações em poucas revistas facilita a iniciativa de acesso aberto proposta pelo modelo SCOAP3.

Fonte: INSPIRE-HEP (2016a).

Figura 3 Distribuição dos preprints de 2015 posteriormente publicados por título de periódico favorecido 

O fato de os autores optarem por submeter seus trabalhos em repositórios Open Access por causa do maior volume de citações recebidas conforme observado na pesquisa de Gentil-Beccot, Mele e Brooks (2010), pode estar influenciando as editoras a flexibilizar seu controle sobre o acesso aos textos que publicam dado que o maior número de citações eleva o Fator de Impacto (FI) e aumenta o prestígio e as vendas dos periódicos (MULLER, 2006).

6 Considerações finais

A disponibilização dos resultados de pesquisas ainda não publicadas em periódicos pelos físicos remonta à década de 1960 e tem como objetivos principais acelerar o processo de comunicação entre os pares e estimular o acesso livre à literatura científica. Anos mais tarde, o surgimento da Internet, a criação de repósitorios e banco de dados informatizados e o atraso das publicações nas revistas especializadas terminaram por confirmar a “cultura preprints” na FAE. Essa prática de comunicação proporciona aos pesquisadores da área maior rapidez e flexibilidade no diálogo e estimula a inserção de comentários, tornando o desenvolvimento científico mais consensual e participativo. Como canal de comunicação, os preprints podem ser considerados os antecessores da publicação formal. Sua relação com os periódicos está firmemente estabelecida na essência da pesquisa científica, conforme observado neste estudo visto que 70% dos preprints submetidos em arXiv no período de 2010-2015 foram posteriormente publicados em revistas arbitradas da área. Em termos de inovação, o êxito alcançado pelas iniciativas Open Access arXiv e SPIRES (INSPIRE) na Física de Altas Energias pode ter estimulado cientistas de outros campos científicos a instalarem repositórios e bancos de dados de preprints para suas disciplinas com o intuito de melhorar a comunicação das descobertas. É o caso do Cognitive Sciences Eprint Archive (CogPrints) que indexa e-prints de Psicologia, Lingüística, Neurociências e de algunas áreas da Ciência da Computação, Filosofia e Biologia e do Research Papers in Economics (RePEc) de Economia. Por último, a natureza das investigações, o tipo de conhecimento a ser transmitido e a necessidade dos cientistas têm influência na escolha dos canais de comunicação dos resultados de pesquisa e, consequentemente, na legitimação das descobertas através da avaliação científica.

Referências

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1“[...] grupo de pesquisadores que está, em um dado momento, trabalhando em torno de um mesmo problema ou área de pesquisa e se comunica sobre o andamento das pesquisas.” (MUELLER, 1994, p. 310).

2O termo indica a disponibilidade gratuita de publicações acadêmicas em repositórios digitais de acesso livre. No caso da FAE, a submissão a esses repositórios, como por exemplo, o arXiv, não é obrigatória por universidades ou agências de financiamento, mas é uma escolha dos autores buscando o reconhecimento dos colegas e uma maior visibilidade (GENTIL-BECCOT; MELE; BROOKS, 2010).

Recebido: 03 de Junho de 2016; Aceito: 11 de Abril de 2017

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