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Perspectivas em Ciência da Informação

versión On-line ISSN 1981-5344

Perspect. ciênc. inf. vol.22 no.spe Belo Horizonte jul. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1981-5344/3239 

Articles

Bibliografias setecentistas e os conceitos de livro raro1

Bibliographies of the eighteenth century and the concepts of rare book

Diná Marques Pereira Araújo2 

Alcenir Soares dos Reis3 

2Bibliotecária, Conservadora-Restauradora, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UFMG.

3Doutora em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais. Professora Associada da Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais.

Resumo

O presente artigo aborda a Bibliofilia na Europa, sobretudo a partir da era moderna e o papel das bibliografias especializadas em livros raros na formação de bibliotecas particulares. A Bibliofilia e a Bibliografia são abordadas a partir da História Cultural e desse modo a análise das bibliografias distanciam-se da função prática-operacional do uso de repertórios bibliográficos, a saber, aquela apenas ligada ao uso restrito para localizar informações sobre determinado documento. Essa perspectiva visa compreender, para além dos itens arrolados, os possíveis vestígios das práticas e representações da Bibliofilia acionados para a construção dos conceitos do livro raro, no século XVIII, que podem constituir-se nas primeiras sistematizações da “Teoria da Raridade”. A bibliografia analisada foi o Catalogvs historico-criticvs librarvm rariorvm, do alemão Johannis Vogt, em função de suas práticas de compilação de conceitos do livro raro veiculados em bibliografias na Europa durante o século XVIII.

Palavras-chaves: Livro Raro; Bibliografia; Bibliofilia; Século XVIII; Vogt

Abstract

This article deals with Bibliophilia in Europe, especially since the modern era and the role of bibliographies specialized in rare books in the formation of private libraries. Bibliophilia and Bibliography are approached from Cultural History and thus the analysis of bibliographies distances themselves from the practical-operational function of the use of bibliographic repertoires, that is, only related to the restricted use to locate information about a particular document. This perspective aims to understand, in addition to the items listed, the possible vestiges of the practices and representations of Bibliophilia that are used to construct the concepts of the rare book, in the eighteenth century, which may constitute the first systematizations of the "Theory of Rarity". The bibliography analyzed was the Catalogvs historico-critiques librarvm rariorvm, by the German Johannis Vogt, due to his practices of compilation of rare book concepts published in bibliographies in Europe during the eighteenth century.

Keywords: Rare book; Bibliography; Bibliophile; XVIII century; Vogt

1 Apresentação

Apesar do livro ser considerado o objeto central da bibliofilia, ela não se dedica apenas à busca, coleta e produção de discursos sobre o códice2. Antes está voltada para o colecionismo de uma diversidade de objetos de registro da palavra e da imagem produzidas no contexto da cultura libraria. Desse modo, o objeto de desejo da bibliofilia pode ser apreendido a partir de uma gama de manifestações materiais e conceituais dos suportes de registros do conhecimento - inscritos, escritos e impressos - produzidos pela humanidade ao longo dos tempos. Pelo exposto, não é possível afirmar que há “uma” Bibliofilia3, pois o pode ser percebido são diversas manifestações do colecionismo bibliográfico com características e desdobramentos próprios de cada cultura, nas quais cada século e cada país apresenta evoluções e proposições particulares nas práticas e representações desse “ato colecionador”.

No século XX, a Bibliofilia inglesa teve em Jonh Carter (1948) um interlocutor essencial para a determinação e sistematização das práticas bibliofílicas. E quanto ao livro raro o autor apresentou em Taste and technique in book collecting as diferentes categorias que compõe essa vertente. A primeira delas foi a raridade absoluta, associada a um pequeniníssimo número de cópias existentes de uma edição de um livro. A raridade relativa, que não se preocupa diretamente com o tamanho da edição original, mas sim com a sobrevivência de exemplares e com a frequência com que aparecem no mercado. A terceira categoria, raridade temporária, está associada a um intervalo de tempo no qual o mercado livreiro está ajustando-se a novas áreas de demanda de livros, mas que, com o passar do tempo, esses livros podem deixar de interessar aos bibliófilos. A raridade local, categoria muito frequente em coleções especiais, está relacionada a particularidades da produção e posse libraria durante um período de tempo e em determinado lugar, que atrai a atenção de bibliófilos (por exemplo: as edições Aldinas, as publicações clandestinas na Holanda, dentre outras). E, finalmente, a raridade de mercado e a raridade em bibliotecas institucionais. Carter sintetiza essas categorias em quatro grandes grupos: a) escassez (tamanho da edição diretamente associado ao número de cópias existentes); b) fama (da obra, do autor, do editor ou da editora); c) estado de conservação e originalidade do livro; e d) a raridade tradicional, ou seja, um livro é raro porque é desejado por bibliófilos.

Ainda no contexto da bibliofilia inglesa William Henry Bond (1965) elenca os seis fatores balizadores da prática da Bibliofilia (book collecting), são eles:

  • a- O quê colecionar: tipologias documentais dos registros da palavra-imagem - livros manuscritos e impressos, mapas, epistolas, obras de arte sobre papel (artes gráficas), dentre outros. De modo geral, o livro será o protagonista da Bibliofilia, mas não impedirá que a formação de coleções se restrinjam ao códice.

  • b- A formação da coleção: determinação do escopo da coleção e dos esforços que podem ser empreendidos para desenvolvimento contínuo da coleção, por exemplo: a formação da coleção terá como objetivo a busca de exemplares escassos ou exemplares que estão em alta (na moda) no comércio da Bibliofilia e/ou entre colecionadores?

  • c- A abordagem temática: Bond (1965, p.934) indica, de modo geral, três tipos de abordagens temáticas para coleções de bibliofilia:

  • 1-Coleção dedicada a um autor (escritor, cientista, artista, etc.) podendo reunir todas obras de um autor, ou apenas as edições especiais, ou apenas seus manuscritos, ou, por fim, toda e qualquer manifestação manuscrita, inscrita ou impressa sobre e pelo autor.

  • 2-Coleção temática: norteada pela escolha de um assunto específico (literatura, medicina, história natural, química, etc.). Dentro do assunto específico surgirão seus desmembramentos temáticos.

  • 3-O terceiro tipo de coleção poderá aglutinar os itens citados acima (autor e temática). A coleção poderá ainda ter como ênfase as materialidades desejadas e/ou produzidas para a bibliofilia: encadernações, impressões especiais, ilustrações, edições limitadas, tiragens de pouco exemplares.

  • a) A condição e a importância: a condição está associado à preservação das caraterísticas originais e testemunhos materiais dos documentos, e, por isso mesmo, ligada ao estado de conservação do exemplar. A importância do objeto é direcionada sobretudo para seus atributos de distinção.

  • b) A proveniência e as association copies: documentos com assinaturas, anotações manuscritas, marcas de circulação, marcas de uso e marcas de propriedade compõem as características das association copies e serão elas que poderão sustentar a veracidade da proveniência dos documentos e contribuir na formação de um conjunto de distinções para os objetos da bibliofilia.

  • c) Os livreiros e as obras de referência4: as relações dos bibliófilos com livreiros e bibliografias exercem influência direta nas práticas bibliofílicas. Os fatores enumerados até aqui se mostram imbricados nas relações comerciais entre colecionadores e livreiros e terão nas obras de referência (catálogos de venda, catálogos de bibliotecas, bibliografias de livros raros, bibliografias de temáticas especializadas, etc) a continuidade de um fluxo de informações para toda a cadeia de formação das bibliotecas de bibliófilos. Será por meio desse conjunto de obras de referência que o bibliófilo se familiarizará com os termos da área temática de seu interesse e também com os conhecimentos necessários para formar uma coleção com itens raros e especiais.5

Quer sejam as categorias apresentadas por Carter (1948) ou os fatores que sustentam as práticas da bibliofilia inglesa enumerados por Bond (1965), o que observamos é a proeminência de discursos vinculados à “teoria da raridade”, razão pela qual certas obras de referência são apresentadas como mediadoras entre os colecionadores e os livros e também como instrumentos que intentam definir o que seria, em essência, o livro raro.

Diante dos distintos cenários da Bibliofilia, que transpõem em muito os limites do contexto anglo-americano no século XX, questionamos quais seriam os possíveis antecedentes históricos do conceito de livro raro e se é possível identificar publicações produzidas no seio da Bibliofilia que influenciaram na construção contemporânea do conceito de livro raro?

Caminhos possíveis para essa aproximação podem ser traçados a partir da análise de bibliografias publicadas no contexto da Bibliofilia moderna. Produzidas para atender um público específico (os bibliófilos), essas bibliografias são identificadas em nossa pesquisa como “bibliografias de livros raros”. Apreendidas enquanto documentos históricos que relatam as relações vivenciadas no seio da cultura libraria, essas bibliografias testemunham as práticas e representações estabelecidas para compra, circulação, seleção e organização de livros na Europa e são, ainda, resultado da fusão entre Bibliografia, Bibliofilia e Biblioteconomia6, sendo, por isso, essenciais para a compreensão das categorias do livro raro ainda nos dias de hoje.

Nestes termos, o presente artigo visa destacar a obra Catalogvs histórico-criticvs librarvm rariorvm, impressa no século das Luzes em Hamburgo pelo alemão Johannis Vogt. A ênfase dedicada a essa bibliografia deve-se às compilações e análises sobre os conceitos de livro raro que o autor reuniu tendo como base obras de referência que circulavam na Europa do século XVIII.

As aproximações aqui propostas buscam, em linhas gerais, distanciarem-se da função prática-operacional do uso de repertórios bibliográficos, a saber, aquela apenas ligada ao uso restrito para localizar informações sobre determinado documento. O que se pretende é compreender, para além dos itens arrolados, os possíveis vestígios das práticas e representações acionados para a construção dos conceitos de livro raro, que, a nosso ver, constituir-se-ia nas primeiras sistematizações daquilo que podemos chamar de “Teoria da Raridade”.

2 Bibliofilia moderna

A Bibliofilia acompanha pari passu a história dos suportes de registros do conhecimento. Luciano Cânfora (1989) em seu livro sobre a biblioteca de Alexandria, no capítulo Na Gaiola das Musas, faz referência às ânsias de um “apaixonado colecionador das obras de Pitágoras”. (CANFORA, 1989, p. 42). O historiador aponta que os colecionadores de livros, nesse período, ocupam polos opostos, um mantido pelos reis e ricos que tinham a biblioteca e o livros especialmente enquanto objetos de poder e distinção social, e outro, em extremo oposto, edificado àqueles que colecionavam livros por desejos que ultrapassavam a posse em si, pois o foco voltava-se para o texto veiculado no suporte. Esse antagonismo presente na Bibliofilia pode ser observado ao longo de toda sua história por meio metamorfoses, adaptações e diluições de fronteiras em torno das necessidades de posse dos suportes da palavra-imagem.

Contudo, neste cenário múltiplo, nos ocuparemos aqui das práticas bibliofílicas que floresceram no universo da comunicação impressa na Europa ocidental no período moderno. Nesse período é possível observar a formação de grandes bibliotecas (religiosas, reais e particulares) e coleções que definiram novas diretrizes para o mercado livreiro e novas dinâmicas de sociabilidades entre aqueles sujeitos que definiam seus contornos. Philobiblon do bispo inglês Richard de Bury, publicado em 1344, escrito em um período de confluências do renascimento cultural, tem como centro o livro e a prática que em muito contribuiu para o nascimento da Modernidade: os desejos e necessidades de posse do livro. Apesar de seu contexto associado ao ambiente religioso, Philobiblon explicita questões que envolvem o amor aos livros que podem ser interpretadas como precursoras das práticas que iriam se consolidar nos próximos séculos como a Bibliofilia moderna.

Galende Díaz, em uma abordagem panorâmica, destaca a formação de bibliotecas particulares nos séculos XV e XVI na Inglaterra, Itália, Espanha, França e Alemanha - e sem deixar de enfocar o papel dos livreiros na mediação e seleção de livros para os colecionadores - afirma que o movimento cultural do Renascimento será também um “momento dourado das bibliotecas privadas” (GALENDE DÍAZ, 1996, p. 92). Nesse cenário, Bibliofilia e Bibliografia são campos entrelaçados e necessários para a formação dessas bibliotecas privadas. Em suas palavras:

A bibliofilia, tal como é compreendida na atualidade, nasce na primeira metade do século XVI, quando a imprensa se estende por toda a Europa e há em circulação uma quantidade suficiente de livros para que, somada à produção manuscrita, que ainda é ampla, possa constituir-se uma coleção orgânica de textos consoante com os gostos de cada bibliófilo. A noção de bibliografia universal, preconizada pelo humanista e médico suíço Conrad Gesner em 1545, é tomada também por outros bibliófilos da época, que pretendem reunir todos os livros impressos até então (GALENDE DÍAZ, 1996, p.112, tradução nossa)7.

Em consonância com tais apontamentos, Frédéric Barbier (2015) aponta que, no período barroco, entre 1545 e 1627, um modelo vigente era a biblioteca real e a biblioteca do grande senhor e um segundo modelo era a biblioteca do intelectual, ambos formando coleções com fins distintos, mas todos em busca da biblioteca ideal para seus objetivos culturais, políticos e sociais.

No século XVII, Gabriel Naudé, em seu Advis pour dresser une bibliothèque (1627) 8, irá contribuir de forma especial para a formação de bibliotecas particulares. Isto porque, seu tratado, apesar da vocação para a formação de uma biblioteca de caráter público, cunhará sobretudo um discurso direcionado para a formação de bibliotecas particulares marcadamente encobertas por um caráter de distinção. De acordo com Ugo Rozzo (1995), a biblioteca a ser formada segundo as recomendações desse tratado da Biblioteconomia moderna será uma biblioteca para o bibliófilo. Não por acaso, ainda de acordo com Rozzo

a lição italiana aprendida por Naude entre 1626 e 1627 baseia-se em dois pilares: a realidade da Ambrosiana, repetidamente melhorada ao longo do Advis, como um protótipo da biblioteca pública funcionando de acordo com o ideal que ele compartilhava [... ] e o modelo do verdadeiro bibliófilo, encarnado pelo "padovano" Gian Vincenzo Pinelli [...] (ROZZO, 1995, p. 68, tradução nossa).9

A biblioteca naudeana negará, pois, a distinção de livros por suas materialidades, formatos e luxos em benefício do conteúdo pautado na vocação humanista. Naudé, contrário às imposições de luxo ao livro como prerrogativas de sua distinção, exortava

a ignorar tudo o que é conhecido apenas pela sua antiguidade ou para suas belas ilustrações; não é de surpreender que por muitas vezes ele mencione seu amado Sêneca, que odiava os falsos bibliófilos. O único valor do livro consiste de seu conteúdo, na validade de suas ideias, das informações que transmite; claro que, quando existe essa centralidade, pode-se também olhar para edição mais bela e acima de tudo aquela melhor impressa, mais correta, possivelmente a melhor comentada etc. (ROZZO, 1995, p.72, tradução nossa).10

Para Rozzo (1995) e Guerrini et al (2008), o tratado de Naudé é o reflexo cultural e social da formação de bibliotecas no período moderno e ele “fundamenta a base da biblioteconomia moderna não só em termos da definição de normas técnicas e operacionais destinadas ao bom funcionamento da instituição, mas também da abordagem cultural para a sua formação” (GERRINI et al., 2008, p. 27, tradução nossa)11.

Mas, tendo em vista esse conjunto de recomendações, quais livros deveriam compor a biblioteca de um homem ilustre do século XVII e XVIII? Aqueles que colaborassem para destacar a distinção social de seu dono e ainda compor de forma excepcional o patrimônio da família? Aqueles que consolidassem uma verdadeira biblioteca de trabalho para o erudito? Não se faz possível, no corpo desse artigo, elaborarmos respostas satisfatórias para todas essas questões. Entretanto, destacamos que o estudo de algumas bibliografias publicadas a partir de então podem nos ajudar a compreender demandas implícitas na primeira questão que apontamos.

Para tanto, seguimos as pistas assinaladas por Roger Chartier (1998) e Peter Burke (2003), segundo os quais as fontes para encontrar e/ou conhecer livros eram possibilitadas pela consulta em obras de referência (catálogos de bibliotecas, bibliografias, livros, catálogos de vendas e dicionários) e ainda mediadas por grupos sociais da cultura libraria (letrados12, bibliógrafos, bibliotecários, editores, livreiros). Nos primórdios da Europa moderna “multiplicavam-se obras de referência, expandiam-se bibliotecas e enciclopédias, e mais recursos se tornavam disponíveis a cada século para aqueles que buscavam conhecimento sobre um tópico particular”. (BURKE, 2003, p.20)

Dito isso, as aproximações que destacaremos buscam compreender as bibliografias de livros raros como instrumentos mediadores e eixo central das práticas de livreiros, eruditos a serviço da Bibliofilia. Proposição que nos possibilita, mais a frente, analisar os conceitos de livro raro reunidos por Vogt e averiguar o modo como os mesmos podem ser vistos enquanto fundadores do conceito moderno da raridade bibliográfica.

3 Bibliografias de livros raros

As obras de referência na era moderna (BURKE, 2003) estruturam-se como um dos artifícios para localizar informação em meio ao grande número de impressos que circulavam desde a impressão com tipos móveis.

Os títulos dessas obras incluem “antologia”, “árvore”, “atlas”, “axiomas”, “biblioteca”, “breviário” (ou resumo), “castelo”, “catálogo”, “chave” (klavis), “coleção”, “compêndio”, “corpo”, “dicionário” (ou léxico), “diretório”, “enciclopédia”, “epítome”, “espelho”, “floresta” (silva), “florilégios” (flores, polyanthea), “glossário”, “guia”, “inventário”, “itinerário”, “jardim”, “lugares comuns”, “mina de ouro” (aurofodina, Drexel, 1638), “manual” (seguindo a tradição clássica do enchiridion e do manualle), “medula”, “prontuário”, “repertório”, “sumário”, “teatro”, “tesouro”, e “vade mecum”. (BURKE, 2003, p. 154).

A proliferação de obras de referência (enciclopédias, dicionários, atlas, bibliografias, coletânea de textos, dentre outros) levou à especialização que, por sua vez, propiciou o surgimento de bibliografias temáticas (por assunto: medicina, teologia, direito etc.), bibliografias nacionais, dentre outras. Um “número crescente de obras referência era produzido para faixas específicas de público, como o clero, comerciantes, médicos, advogados, mulheres etc. (BURKE, 2003, p. 154). Nesse conjunto de sujeitos do livro, um dos públicos específicos eram os colecionadores.

Conforme relata Krzysztof Pomian (1984, p. 84), entre os séculos XVI e XVII, crescem, concomitantemente aos grupos de colecionadores, o “mercado de obra de arte, antiguidades, curiosidades diversas”. E, assim, crescem também as publicações especializadas do comércio do impresso e das obras de arte que alimentam os discursos sobre os objetos colecionáveis.

Às vendas entre os colecionadores particulares e às que se fazem por intermédio de negociantes especializados acrescentam-se as vendas públicas em leilão, que correspondem melhor ao caráter específico da mercadoria que são objectos de coleção. [...] Na organização dos sistema de hastas públicas, um dos momentos mais importantes é o que vê o aparecimento do catálogo impresso dos objetos que serão postos à venda. A primeira obra deste género foi publicada na Holanda, em 1616. (sic) (POMIAN, 1984, p. 80).

A partir desse período as publicações de obras de referência pensadas para os colecionadores se tornarão cada vez mais especializadas e, dentre elas, terão destaque - em quantidade e em procura - as bibliografias de livros raros. Destinadas aos bibliófilos, elas são um dos exemplos de tipologias de bibliografias adotadas como recursos para organização e acesso ao conhecimento. Surgiram da confluência de atores da cultura do impresso naquele período, que podem ser distribuídos em dois grandes grupos: de um lado, os donos de bibliotecas particulares - desejosos por formar bibliotecas; e do outro, especialistas dedicados a circulação de livros e à formação de bibliotecas - que envolvia tipógrafos, impressores, editores, eruditos, livreiros, bibliógrafos e bibliotecários.

Em função da grande disponibilidade de fontes possíveis para consulta selecionamos, no âmbito da presente pesquisa, bibliografias de livros raros produzidas entre os séculos XVII e XX, as quais foram subdivididas em três grandes grupos, tendo em vista suas características específicas. Identificamos 102 bibliografias13 publicadas em países como Alemanha, Amsterdam, França, Inglaterra, Itália. As primeiras citações do termo “livro raro” ou seus similares14 em bibliografias e catálogos impressos, aparecem a partir do século XVII, esse é o nosso primeiro grupo. Nos grupos seguintes (segundo e terceiro) estão contemplados os séculos XVIII e XIX-XX, respectivamente.

O primeiro grupo, século XVII, constitui-se por bibliografias que apenas citam o termo “livro raro” sem pretensões de estabelecer conceitos para a raridade bibliográfica ou mesmo justificativas para a adoção da expressão15. No segundo grupo, século XVIII, se fazem evidentes, além do aumento do uso da expressão “livro raro”, diversas iniciativas para definir o conceito de raridade. No terceiro grupo, séculos XIX e XX, as bibliografias consolidam as categorias defendidas no século XVIII e buscam detalhar informações específicas sobre cada exemplar repertoriado.

Dito isso, faz-se necessário mencionar que, visando identificar o que tais obras definem como livro raro, efetuou-se uma leitura atenta de elementos paratextuais16 dessas bibliografias. Os elementos que elegemos foram: as notas ao leitor, agradecimentos, prefácios, autorizações para publicação e posfácio.

Como o presente artigo objetiva apreender a importância das bibliografias como obras de referência para a estruturação e consolidação do conceito de raridade bibliográfica, conferindo especial atenção ao Catalogvs de Vogt, as seções que se seguem, tem por material analítico as obras sublocadas no segundo grupo (século XVIII) 17.

3.1 O axioma de Vogt: conceitos de livros raros no século XVIII

No século XVIII as tentativas para definir o livro raro se mostram constantes nas bibliografias que circulavam entre eruditos, bibliófilos, bibliógrafos e livreiros em países como Inglaterra, França, Itália, Alemanha e Amsterdã. Os conceitos de livro raro publicados por livreiros atrelados à objetivos comerciais ou por doutos membros da Republica das Letras, foram, regra geral, registrados em bibliografias produzidas por e para esses grupos.

Longe de sancionar qual foi a primeira bibliografia desse período que tentou conceituar o que seria o livro raro, dedicamos especial atenção à obra Catalogvs histórico-criticvs librarvm rariorvm, que teve sua primeira edição impressa na Alemanha em 1732 de autoria do livreiro alemão Johannis Vogt.

Johannis Vogt (1695-1764) era bibliógrafo, bibliófilo, livreiro e membro da sociedade de livreiros alemães Bibliophilorvm - dedicada ao comércio de livros para colecionadores em toda a Europa. A importância de seu Catalogvs pode ser percebida, primeiro, por seu esforço em reunir conceitos de livro raro publicados em obras de referência naquele período. Segundo, por sistematizar as categorias de raridade compilando enunciados de uma série de repertórios da Bibliofilia. E, finalmente, por, a partir desse trabalho de análise e compilação, criar Axiomas que apontavam as premissas por meio das quais se estruturou o conceito de livro raro no século XVIII.

O Catalogvs de Vogt - bem-sucedido devido às trocas epistolares com livreiros, bibliógrafos e bibliófilos de toda a Europa e também pela facilidade de acesso que ele tinha às obras de referência - foi vitoriosamente recebido pelo comércio livreiro e pelos bibliófilos. A obra listava os livros raros para venda, organizados por área de conhecimento e com entradas por ordem onomástica (às honras de Conrad Gesner) e ainda com inclusão de justificativas de distinção como faziam também as demais bibliografias de livros raros coetâneas. Contudo, o que destaca o Catalogvs de Vogt, no cenário da Bibliofilia do século XVIII é a seção denominada por ele de Axiomata historico-critica de rarirate librorvm, paratexto onde são apresentados os fundamentos empíricos compilados por ele para definir o livro raro, os quais foram estruturados em axiomas gerais e axiomas específicos.

A primeira edição do Catalogvs historico-criticvs librarvm rariorvm, em 1732, esgotou imediatamente após sua publicação. Nela Vogt afirmava que conhecer os livros raros é um trabalho infindável que envolvia tanto a discussão erudita quanto os posicionamentos da comunidade de livreiros. A segunda edição, corrigida e aumentada, publicada em 1738, também esgotou após ser publicada. Nessa edição Vogt destaca o papel das bibliografias para ordenar, organizar e selecionar a multidão de livros ditos raros que circulavam na Europa e, somado à função das bibliografias, afirma que os livreiros eram também mediadores entre os livros raros e os bibliófilos. No final do prefácio, Vogt destaca, ainda, que todo bibliotecário responsável por cuidar e guardar os livros dos bibliófilos, não poderia desconhecer as bibliografias de livros raros e, principalmente, deveria compreender a Axiomata e sua estrutura, enquanto premissa para definição do livro raro. As edições seguintes do Catalogvs - 3ª (1747), 4ª (1753), 5ª(1767) e 6ª (1793) - também esgotaram após serem publicadas.

Podemos perceber a cada nova edição do Catalogvs que a compilação de conceitos para o livro raro ganhava tanta importância quanto os livros que a obra repertoriava (escopo principal da publicação). Sobretudo, porque a reestruturação e atualização de sua Axiomata se ampliava a cada nova edição do Catalogvs. Esse pode ter sido um dos fatores de sucesso das edições e reedições da obra - fato que ocorreu com pouquíssimas bibliografias naquele século.

Desde a primeira edição, Vogt não parou de compilar conceitos que surgiam em outras bibliografias. A cada nova edição (corrigida e aumentada) ele ampliava as categorias de raridade. E para cada item de seu axioma ele indicava bibliografias que ratificavam a premissa. Na primeira edição (1732) Vogt compilou o conceito de livro raro de 28 bibliografias. Na segunda edição (1738) foram em 39 bibliografias. A terceira edição (1947) apresentou 69 bibliografias publicadas em 28 cidades da Europa entre os anos de 1700 a 1746.

Tendo em vista esse conjunto de conceitos compilados e atualizados, apresentamos a seguir a estrutura da Axiomata historico-critica de ratitate librorvm publicada em 174718.

Axiomas gerais

  1. Livros raros são aqueles dos quais há poucos exemplares, difíceis de localizar devido ao pequeno número. Livros escassos.

  2. A raridade do livro nunca é a mesma devido a categorias distintas: um livro é raro, outro é muito raro e outro é raríssimo.

  3. As raridades são locais19.

  4. Os livros podem ser raros quanto a (ao):

    • Conteúdo20

    • Forma21

    • Conteúdo e forma

  5. Nem todo livro que não está disponível para venda é raro; ele será raro se constar em repertórios22 da bibliofilia.

  6. Os livros raros, nem sempre, são ótimos, dignos ou extraordinários. Eles poderão ser livros péssimos e inúteis, mas raros pelo valor de venda.

Axiomas específicos: proposições de evidência para livros raros e raríssimos

  • 1-Livros dos primórdios da arte tipográfica, impressos até 1500.

  • 2-Livros de autores antigos editados por tipógrafos importantes do século XVI.

  • 3-Livros de Lutero e coetâneos publicados durante a Reforma Protestante.

  • 4-Livros produzidos em tipografias privadas, que nunca foram publicados.

  • 5-Livros impressos em países ou terras remotas.

  • 6-Livros com textos corrompidos, adulterados. Edições enganosas.

  • 7-Livros dedicados à idade das trevas, livros ofensivos à religião e aos bons costumes. 23

  • 8-Livros que são escassos porque sobreviveram à destruição de incêndios, inundações ou à ação destruidora de algumas pessoas.

  • 9-Livros de controvérsias, privadas, de príncipes ou de grandes personagens da história.

  • 10-Livros que se imprimiram poucos exemplares.

  • 11-Livros em grande formato e volumosos que por seu preço não podem ser comprados pelo grande público.

  • 12-Livros muito pequenos que por seu preço são de difícil aquisição.

  • 13-Livros cujo conteúdo foi refutado por muitos e aceito apenas por um grupo pequeno de eruditos.

  • 14-Livros dedicados à análise de obras de temáticas nobres ou de autores célebres.

  • 15-O objetivo final do livro raro é a consulta24.

Varella-Orol (2016, p. 632) destaca o antagonismo presente no conceito de livro raro cunhado pelos eruditos, de um lado, e pelos livreiros, de outro. Entretanto, sem desconsiderar a pertinência dessa afirmação, é necessário argumentar que as distinções dos conceitos são tênues e insuficientes para afirmarmos um antagonismo na definição do livro raro. Há sim uma forte oposição entre a raridade pela materialidade-forma e a raridade vinculada ao conteúdo registrado no suporte. E ainda, por vezes, os eruditos também eram livreiros e ao mesmo tempo bibliófilos e bibliógrafos. Para afirmarmos o antagonismo na definição do livro raro entre livreiros e eruditos seria necessária uma análise pormenorizada desses dois grupos25.

O Catalogvs não restringiu sua função apenas ao escopo de uma bibliografia de bibliografias sobre a temática livros raros. Pelo contrário, Vogt aproveita a oportunidade de repertoriar essas bibliografias e estabelecer os critérios e justificativas que sustentassem a afirmação da raridade. Apesar de destacar a questão erudita como elemento essencial na definição do livro raro, ele não deixou para último plano as definições de raridade que perpassavam pelos bibliógrafos, livreiros e bibliófilos. O panorama que sua Axiomata proporciona reflete a interlocução entre os diversos indivíduos da cultura libraria em torno do livro raro.

É possível considerarmos, assim, que as bibliografias de livros raros no século XVIII são fundamentais para a compreensão do conceito de livro raro e podem ser interpretadas como os elementos estruturantes da teoria da raridade. Seja qual for o público ao que se destinava - a alta bibliofilia, os curiosos, os eruditos - essas bibliografias comprovam que a teoria da raridade é fruto da multiplicidade de representações e interações de segmentos que envolviam o circuito do livro na Europa setecentista.

4 Considerações finais

A Bibliofilia, enquanto eixo omnidirecional, influenciou e foi influenciada pelas bibliografias destinadas às práticas de formação de bibliotecas particulares no período moderno. Nesse sentido, tendo em vista que selecionar implica em categorizar, as bibliografias produzidas para a Bibliofilia do século XVIII, especialmente a partir das análises do Catalogvs de Vogt, podem ser compreendidas como instrumentos fundadores de um movimento em prol da elaboração do conceito de livro raro a partir daquele período.

De acordo com Yann Sordet (2002, p. 285), a Bibliofilia no final do XVII e início do XVIII, tem, dentre as prerrogativas para a distinção de seus membros, um critério determinante naquilo que concerne à consolidação do sistema de valoração das bibliotecas e distinção dos colecionadores: a definição do livro raro. Com o intuito de alcançar esse objetivo, bibliógrafos, bibliotecários, editores, eruditos e livreiros tornam possível a produção de centenas de bibliografias dedicadas ao livro raro. Essas obras assumiram um lugar de destaque nas práticas da Bibliofilia por produzirem notícias bibliográficas e descrições materiais dos livros, mas, sobretudo, por tornarem-se o lugar privilegiado para a definição de sua raridade.

Varella-Orol (2016, p. 638) destaca que, em alguns itens da Axiomata, Vogt se distancia dos interesses dos livreiros para aproximar-se do discurso dos eruditos, em uma clara oposição entre raridade (matéria, valor, forma) e raridade (conteúdo). Contudo, conforme já destacado aqui, Vogt não estava disposto a assumir o antagonismo do conceito de raridade entre livreiros e eruditos, uma vez que seu esforço se voltou para a sistematização e o esclarecimento de uma centena de critérios que surgiam e circulavam em diversas outras bibliografias. Em resumo, o que Vogt fez foi aproximar esses critérios com a finalidade de mediar a procura do bibliófilo pelo livro desejado, objetivando, em um segundo plano, que essa busca fosse contextualizada pela raridade, independente das muitas justificativas para se efetuar tais distinções.

Não sem razão, na Biblioteconomia do século XX e XXI as bibliografias de livros raros do século XVIII permanecem como obras de referência para a indicação de raridade, o que podemos constatar a partir de tratados, guias e manuais dessa área. No contexto brasileiro, por exemplo, a obra de Vogt está citada no livro O que é livro raro26? (1989), de Ana Virgínia Pinheiro, estudo no qual conseguimos observar a similaridade dos axiomas do Catalogvs, especialmente no conjunto de recomendações metodológicas propostas por Pinheiro (1989, p. 29-33) para “a seleção e formação de um acervo considerado raro.”

Assim observado, os axiomas de Vogt, destinados, tanto aos livreiros e eruditos quanto aos bibliotecários e bibliófilos, podem ser interpretados como base estruturante e fundamentos teóricos da raridade bibliográfica no século XVIII. Isto porque, as edições do Catalogvs de Vogt possibilitam aproximações aos conceitos de livros raros e ainda confirmam a importância das bibliografias de livros raros enquanto instrumentos de definição e ratificação da raridade. Dessa forma, é possível concluirmos que, do século XVIII aos nossos dias, as bibliografias destinadas aos bibliófilos constituem-se como grandes produtoras e difusoras da Teoria da Raridade. Abordagem a qual nos dedicaremos, de forma mais aprofundada, em nossas próximas pesquisas e publicações.

Referências

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1Artigo compõe um dos desdobramentos de projeto de pesquisa de mestrado desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais.

2Por haver outras possibilidades tipológicas de materiais (mineral e tecido animal, por exemplo) para manufatura do códice ao longo da história optamos por não usar a expressão “códice vegetal”. Essa expressão adotada por Umberto Eco (2011, p. 15), em “A Memória Vegetal”, é contextualizada pelo autor como um recurso discursivo que pretende frisar que a maior ocorrência do códice é em tecido vegetal, sem deixar de destacar as outras materialidades que ele possuiu/possui.

3A grafia de Bibliofilia com letra maiúscula tem por objetivo caracterizar o papel histórico-teórico desse campo de estudo. A adoção de tal grafia ao longo do texto visa destacar no texto a dimensão epistêmica das práticas bibliofílicas.

4Bond (1965, p.935) faz referência direta à consulta de “catalogues and bibliographies”. Optamos por descrever como obras de referência.

5A célebre obra de Édouard Rouveyre, publicada no século XIX, é um exemplo de destaque nesse contexto. A discussão sobre essa obra não faz parte do escopo do presente artigo: ROUVEYRE, Edouard. Connaissances necessaires à un bibliophile: accompagnées de notes critiques et de documents bibliographiques. Cinquième édition, illustrée de nombreuses figur. Paris: Édouard Rouveyre..., [1899]. 10 v.

6Nossas discussões iniciais sobre essa tríade foram publicadas em: ARAÚJO, Diná Marques Pereira; REIS, Alcenir Soares dos. Bibliotecas, Bibliofilia e Bibliografia: alguns apontamentos. InCID: Revista de Ciência da Informação e Documentação, v. 7, p. 183-201, 2016.

7La bibliofilia, tal y como se entende en la actualidad, nace en la primra mitad del siglo XVI, cuando la imprenta se ha extendido por toda Europa y existe en circulación una cantidad suficiente de libros como para que, unida a la producción manuscrita, que todavia es amplia, pueda constituirse una colección orgânica de textos acorde con los gustos de cada bibliófilo. La noción de la bibliografía universal, preconizada por el humanista y médico suizo Conrad Gesner en 1545, es tomada también por otros bibliófilos de la época, que pretenden reunir todos los libros impresos hasta entonces.

8Nesse século, outros tratados para a formação de bibliotecas também merecem destaque: 1) De bene disponenda bibliotheca ad meliorem cognitionem loci & materiae, qualitatisque librorum, litteratis perutile opusculum, do espanhol Francisco de Aráoz (1583-1658). O tratado foi impresso em Madri na tipografia de Francisco Martínez no ano de 1631, em língua latina, dedicado à organização da biblioteca do bibliófilo espanhol Lorenzo Ramírez de Prado. Similar à obra de Naude, o tratado de Aráoz propunha os métodos para organização do conhecimento e orientações sobre a seleção de livros, além de uma listagem de livreiros europeus (indicando onde e como adquirir livros). 2) Idea bibliothecae ordinandae, 1679, do alemão Leibniz Gottfried Wilhelm (1646-1716). As discussões sobre esses dois tratados serão feitas oportunamente em outra publicação.

9la lezione italiana appresa da Naudé tra il 1626 e il 1627 si fonda su due pilastri: la realtà dell’Ambrosiana, più volte esaltata nel corso dell’Advis, come protótipo di biblioteca pubblica funzionante secondo l’ideale da lui condiviso [...] e il modelo del vero bibliófilo, incarnato dal “padovano” Gian Vincenzo Pinelli [...].

10esorta a trascurare tutto ciò che è rinomato solo per la sua antichità o per le belle illustrazioni; non a caso torna più volte a citare il suo amato Seneca, odiatore del falsi bibliofili. L’único valore del libro consiste del suo contenuto, nella validità delle idee, delle informazioni che veicola; certo, quando esiste questo nucleo, si cerchi pure l’edizione più bella e soprattutto quella meglio stampata, più corretta, eventualmente meglio commentata ecc.

11pone de base della moderna biblioteconomia non solo per la definizione delle norme tecniche e operative ai fini del buon funzionamento dell’istituzione, ma anche per l’approccio culturale alla formazione dele raccolte.

12Esse termo descreve “grupos sociais cujos membros se consideravam “homens de saber” (docti, eruditi, savants, Gelehrten), ou “homens de letras” (literati, hommes de lettres). Neste contexto, lettres quer dizer cultura e não literatura [...] Do século XV ao XVIII, os acadêmicos se referiam regularmente a si mesmos como cidadãos da “República das Letras” (Respublica litteraria), afirmação que expressava a sensação de pertencerem a uma comunidade que transcendia as fronteiras nacionais. Tratava-se essencialmente de uma comunidade imaginária, mas que desenvolvia costumes próprios, como a troca de cartas, livros e visitas” (BURKE, 2003, p. 26).

13A seleção foi balizada pela busca do termo raro e seus similares em obras de referência dos citados séculos. O número de bibliografias identificadas não corresponde a totalidade de bibliografias produzidas, mas sim às publicações que conseguimos localizar em bibliotecas digitais (World Digital Library, Archives, Gallica-BnF e outras).

14Varella-Orol aponta que outras expressões, em catálogos e bibliografias, nesses séculos, também guardam relação estreita com o termo “livro raro”, tais como: “praestantissimi, exquissitimi, insigni, curiousi” (VARELLA-OROL, 2016, p. 632).

15A expressão, nesse século, começa a aparecer também associada a catálogos de livreiros para venda de bibliotecas particulares (VARELLA-OROL, 2016, p. 632).

16O “paratexto é um texto” que faz referência, que fala sobre e quer identificar o texto. É “um discurso fundamentalmente heterônomo, auxiliar, a serviço de outra coisa que constitui sua razão de ser: o texto. [...] um elemento de paratexto está sempre subordinado a “seu” texto, e essa funcionalidade determina o essencial de sua conduta e de sua existência.” (GENETTE, 2009, p. 14, 17).

17Apenas como exemplo citamos as bibliografias mais citadas em trabalhos acadêmicos sobre bibliografias de livros raros no século XVIII: BAUER, J. J. Bibliotheca librorum rariorum universalis... Nürnberg: Martin Jacob Bauer, 1770-1791. Clément, D. Bibliothèque curieuse historique et critique ou catalogue raisonné de livres difficiles à trouver. Göttingen, etc.: chez Jean Guillaume Schmid, 1750-1760. Debure, G.-F. Bibliographie instructive ou Traité de la connoissance des livres rares et singuliers... A Paris: Chez Guillaume François De Bure, 1763-1768. Duclos, R. Dictionnaire Bibliographique, historique et critique des livres rares... Paris: chez Cailleau et fils, 1790. Engel, Samuel. Bibliotheca selectissima sive Catalogus Librorum in omne genere Scientiarum Rarissimorum... Bernae: Typis Francisci Sam. Fetscherin, 1743. Haym, Nicolo F. Notizia de' libri rari nella lingua italiana divisa in quattro parti principali... Londra: Giacob Tonson, e Giovanni Watts, 1726. Los Rios. Fr. de. Bibliographie instructive, ou notice de quelques livres rares, singuliers et difficiles à trouver, avec des notes historiques, pour connaitre et distinguer les diferentes éditions, et leur valeur dans le commerce. A Avignon: chez François Seguin, 1777. Ménestrier, J.-C.-F. Bibliothèque curieuse et instructive des diverses Ouvrages Anciens et Modernes... À Trevoux: chez Jean Boudoz, 1704.

18Tradução livre do latim (nossa) para o português a partir da 3ª edição de Catalogvs Historico-Criticvs librorvm rariorvm... de 1747. As 4ª e 5ª edições apresentam novas bibliografias de livros raros, mas sem modificações na Axiomata. A 6ª edição, publicada após a morte de Vogt, não teve alterações na Axiomata. Em seu prefacio há uma revisão das edições anteriores do Catalogvs e também apontamentos relacionados ao trabalho de Vogt. O paratexto, notas ao leitor, da 6ª edição será abordado em novos desdobramentos de nossa pesquisa.

19As distinções entre contextos não podem ser negligenciadas na definição da raridade.

20O termo em latim é materiam: “objeto de discussão, tópico, assunto, tema” (REZENDE; BRIANCHET, 2014, p. 224). Optamos por traduzir por conteúdo.

21São contempladas nesse item tanto as características editoriais quanto a materialidade do livro.

22Catálogos, bibliografias, tratados, dentre outros.

23Constavam aqui também os livros proibidos por conteúdo sexual ou de depravação sexual.

24Necessidade de posse para leitura, para satisfação de posse, para auxiliar na deliberação de um problema, para satisfazer um desejo.

25Essa proposta não faz parte dos objetivos do nosso projeto de pesquisa.

26Esse livro é o mais citado e referenciado na produção intelectual da Biblioteconomia brasileira sobre o livro raro, conforme tem sido evidenciado no contexto mais amplo da pesquisa de metrado que estamos desenvolvendo.

Recibido: 31 de Mayo de 2017; Aprobado: 30 de Junio de 2017

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