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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versión impresa ISSN 1414-3283versión On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.1 no.1 Botucatu agosto 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-32831997000200008 

ENSAIOS SOBRE PARADIGMAS

 

Algumas notas sobre pesquisa qualitativa e fenomenologia* 

 

Some notes on qualitative research and phenomenology

 

 

Antonio Vicente Marafioti Garnica 

Professor da Faculdade de Ciências da UNESP, campus de Bauru/Programa de Pós-graduação em Educação Matemática-UNESP-Rio Claro/Sociedade de Estudos e Pesquisa Qualitativos

 

 


RESUMO

Este artigo tem como objetivo delinear alguns fundantes de uma dentre as várias vertentes da Pesquisa Qualitativa: a modalidade do fenômeno situado, enraizada na Fenomenologia. Inicia-se com breves considerações acerca da Pesquisa Qualitativa e da Fenomenologia e detém-se, particularmente, na redução fenomenológica.

Palavras-chave: Pesquisa; modelos teóricos; filosofia.


ABSTRACT

This paper presents some notes on Qualitative Research and the "Situated Phenomenon" approach, rooted in Phenomenology. Brief considerations about Qualitative Research and Phenomenology are made and the "phenomenological reduction" is specially discussed.

Key words: Research; Models, theoretical; philosophy.


 

 

"Para passar-se de uma palavra ao seu significado, antes destrói-se-á em estilhaços, assim como o fogo de artifício é um objeto opaco até ser, no seu destino, um fulgor no ar e a própria morte. Na passagem de simples corpo a sentido de amor, o zangão tem o mesmo atingimento supremo: ele morre."

 (Clarice Lispector em A Descoberta do Mundo)

 Esse artigo tem como objetivo delinear alguns fundantes de uma dentre as várias vertentes da Pesquisa Qualitativa: a modalidade do fenômeno situado, enraizada na Fenomenologia. Inicia-se com breves considerações acerca da Pesquisa Qualitativa e da Fenomenologia e detém-se, particularmente, na redução fenomenológica. Sua intenção (ou talvez sua pretensão) é possibilitar a atribuição de significados a alguns termos que caracterizam um modo de investigar alternativo às posturas "clássicas" que, à luz do Positivismo, têm dominado o cenário acadêmico. Solicita-se do leitor um abandono – mesmo que temporário - de pré-conceitos para que se estabeleça a escuta atenta que trará à cena o necessário debate. Propõe-se a morte em moratória de algumas concepções como fermento para a páscoa da crítica refletida. 

 

Notas iniciais sobre Pesquisa Qualitativa

Vista de modo técnico, a ciência é tida como um sistema de proposições e procedimentos. Parte-se para uma classificação e hierarquização das ciências, acentuando a necessidade de uma utilidade do conhecimento e anulando-se a dimensão histórica da ciência que, assim tida, se preocupa com fatos, estes elementos definíveis, determináveis, manipuláveis, controláveis, observáveis. Fatos referem-se a objetos. A verdade deve ser objetiva, esclarecendo o que o mundo é "de fato". Decapitando o pensar metafísico, o Positivismo - que encontra no paradigma "clássico"  medium  fértil de proliferação - não se volta a questões que classicamente foram do domínio da Filosofia, como o ser e o fim último das coisas. O Positivismo torna-se uma espécie de decapitação do próprio  pensamento filosófico.

A pesquisa, no Positivismo, passa a ser concebida como um modo de geração de conhecimento objetivo, controlada por regras precisas de ação, garantindo a neutralidade do pesquisador em relação ao pesquisado, sendo o rigor nos procedimentos atribuído meramente à natureza exata de testes - de fundo matemático - utilizados.

As pesquisas de natureza qualitativa - que acreditamos ser um saudável exercício para a Educação (e, em especial, para a Educação Matemática, área na qual realizamos nossas pesquisas) -,  surgem menos como opositoras às pesquisas empíricas que como uma outra possibilidade de investigação. (Espósito, 1995) Já aí, nas abordagens qualitativas, o termo pesquisa ganha novo significado, passando a ser concebido como uma trajetória circular em torno do que se deseja compreender, não se preocupando única e/ou aprioristicamente com princípios, leis e generalizações, mas voltando o olhar à qualidade, aos elementos que sejam significativos para o observador-investigador. Essa "compreensão", por sua vez, não está ligada estritamente ao racional, mas é tida como uma capacidade própria do homem, imerso num contexto que constrói e do qual é parte ativa. O homem compreende porque interroga as coisas com as quais convive. As coisas do mundo lhe são dadas à consciência que está, de modo atento, voltada para conhecê-las: o homem é já homem-no-mundo, ele percebe-se humano vivendo com outros humanos, numa relação da qual naturalmente faz parte, não podendo dissociar-se dela. Assim, não existirá neutralidade do pesquisador em relação à pesquisa - forma de descortinar o mundo -, pois ele atribui significados, seleciona o que do mundo quer conhecer, interage com o conhecido e se dispõe a comunicá-lo. Também não haverá "conclusões", mas uma "construção de resultados", posto que compreensões, não sendo encarceráveis, nunca serão definitivas.

Lüdke e André (1986) dão as características básicas de uma pesquisa qualitativa:

1. .A pesquisa qualitativa tem o ambiente natural como sua fonte direta de dados e o pesquisador como seu principal instrumento. (...)

2. Os dados coletados são predominantemente descritivos. (...)

3. A preocupação com o processo é muito maior do que com o produto. (...)

4. O 'significado' que as pessoas dão às coisas e à sua vida são focos de atenção especial pelo pesquisador. (...)

5. A análise dos dados tende a seguir um processo indutivo. Os pesquisadores não se preocupam em buscar evidências que comprovem hipóteses definidas antes do início dos estudos. As abstrações se formam ou se consolidam basicamente a partir da inspeção dos dados num processo de baixo para cima. (p. 11-3).

Sob uma ótica diferenciada mas não divergente da de Lüdke e André (1986) acerca das abordagens qualitativas, Martins e Bicudo (1989) vêem o pesquisador como aquele que deve perceber a si mesmo e perceber a realidade que o cerca em termos de possibilidades, nunca só de objetividades e concretudes, a partir do que a pesquisa qualitativa, dizem, dirige-se a fenômenos, não a fatos. Fatos são eventos, ocorrências, realidades objetivas, relações entre objetos, dados empíricos já disponíveis e apreensíveis pela experiência, observáveis e mensuráveis no que se distinguem de fenômeno.

O significado de fenômeno vem da expressão grega fainomenon e deriva-se do verbo fainestai que quer dizer mostrar-se a si mesmo. Assim, fainomenon significa aquilo que se mostra, que se manifesta. Fainestai é uma forma reduzida que provém de faino, que significa trazer à luz do dia. Faino provém da raiz Fa, entendida como fos, que quer dizer luz, aquilo que é brilhante. Em outros termos, significa aquilo onde algo pode tornar-se manifesto, visível em si mesmo. (...) Fainomena ou fenomena são o que se situa à luz do dia ou o que pode ser trazido à luz. Os gregos identificavam os fainomena simplesmente como ta onta que quer dizer entidades. Uma entidade, porém, pode mostrar-se a si mesma de várias formas, dependendo, em cada caso, do acesso que se tem a ela. (Martins e Bicudo, 1989; p.21-2)

A pesquisa qualitativa, baseada nesses parâmetros iniciais, pode ser efetivada em várias modalidades. Esse cuidado em levantar as origens do termo fenômeno aproxima-se (e aproxima a pesquisa qualitativa) da visão fenomenológica de mundo: é também pela apreensão do termo fenômeno que Heidegger apresenta sua fenomenologia. A pesquisa qualitativa, porém, pode ser efetivada em outras várias modalidades que não as de perspectiva fenomenológica. A que aqui apresentaremos, a saber, a "pesquisa qualitativa na modalidade do fenômeno situado", é de enfoque fenomenológico.

 

"Zu den Sachen selbst": notas sobre Fenomenologia e pesquisa qualitativa na modalidade do fenômeno situado

A Fenomenologia é, neste século, segundo Martins, "um nome que se dá a um movimento cujo objetivo precípuo é a investigação direta e a descrição de fenômenos que são experienciados conscientemente, sem teorias sobre a sua explicação causal e tão livre quanto possível de pressupostos e de preconceitos". (Martins apud Bicudo, 1994; p.15)

Como corrente filosófica fundada por Husserl, a Fenomenologia surge intimamente ligada à Matemática: "O que motivou o  início  da fenomenologia - afirma Husserl - foi 'o problema radical de uma clarificação dos conceitos fundamentais lógicos e matemáticos, e com isso o de uma fundamentação efetivamente radical da lógica e da matemática' "(Moura, 1989; p.47). Rompendo com os tradicionais modos de filosofar, todos tributários de posições filosóficas outras, Husserl toma como máxima  o "ir às coisas mesmas" donde os princípios dessa fenomenologia não se pautarem em posições prévias, mas "exprimirem aquilo que é dado diretamente na consciência. (...) Aqui, o zu den Sachen selbst será o corolário da 'epoché filosófica' que deverá libertar a fenomenologia nascente de toda dependência em relação a uma  'ciência  tão  contestável  e  tão  suspeita  como  a   filosofia' "(Moura, 1989; p.20). A "epoché" diz do colocar em suspensão crenças prévias, uma redução de quaisquer teoria e explicação apriorísticas.

A fenomenologia, portanto, responderá ao filósofo que não se contenta com o conhecimento natural, o diretamente dado e apoucadamente questionado, pedindo por uma clarificação dos conceitos fundamentais, da realidade última1 das coisas do mundo, buscando transcender a ingenuidade, que é, exatamente, "a convivência pacífica com o não-justificado". (Moura, 1989; p.48) Visa-se, assim, à compreensão, ao conhecimento do mundo, sendo que o "voltar-se às coisas mesmas" acaba reduzido "ao voltar-se para o conhecimento ele mesmo".2

Heidegger, discípulo de Husserl, afasta-se da fenomenologia como inicialmente posta, debruçando-se sobre a existência humana e seu sentido mais profundo, vinculando suas preocupações à questão do ser, em sua ontologia fundamental. Propondo a destruição da ontologia tradicional, Heidegger volta-se à procura do sentido original do ser, construindo uma nova terminologia filosófica que possa dar conta dessa proposta, iniciando sua busca no estudo de fragmentos  pré-socráticos. É na linguagem que a apreensão do ser se dá, e toda a filosofia heideggeriana acaba sendo caracterizada como uma hermenêutica do ser. A arqueologia dos termos - e não só dos filosóficos - é uma empresa constante em Heidegger e, de um modo "complementar", retomada por Paul Ricoeur em sua Fenomenologia Hermenêutica. É necessária uma depuração dos significados das palavras, que com o tempo e o uso constante mais são obscurecidas que elucidadas. Ficam estabelecidas, nessa procura de clarificação da linguagem para a apreensão do sentido último da existência humana, as existenciálias do ser. O ser é, existencial e primordialmente, afetividade, comunicação e compreensão. Lançado no mundo, o homem percebe-se e torna-se humano no contato com os outros humanos, afetado pelo que desse convívio descortina. Comunica suas experienciações, compreende o mundo não como uma forma de apreendê-lo objetivamente, mas como um ato de descortiná-lo. O mundo-vida,3 também esse não meramente o mundo dos objetos disponíveis em sua concretização mundana, mas a totalidade das percepções vividas, é apreendido pela consciência, que é intencional no sentido de, atentivamente,  voltar-se para o que pretende compreender, interrogando.

Falar do mundo como sendo um real vivido é propor, ao mesmo tempo, duas teses. É afirmar - esta é a primeira tese - uma oposição a qualquer proposta centralizada em qualquer teoria que sustente a existência de dados sensoriais, isolados e sem  sentido em si mesmos. (...)

É afirmar - esta é a segunda tese - que a ênfase é posta na experiência viva, no mundo como ele é vivido. Nas experiências vividas combinam-se memórias, percepções, antecipações a cada momento. Esta unidade nunca é estática ou final. (Martins e Bicudo, 1989; p.80-1)

A essência4 do que se procura nas manifestações do fenômeno nunca é totalmente apreendida, mas a trajetória da procura possibilita compreensões. Fenômenos nunca são compreendidos sem que sejam inicialmente interrogados: disponíveis na percepção, são questionados e, na perspectiva fenomenológica, qualquer forma de manifestação ou objetividade implica um relacionamento intersubjetivo. O questionamento põe-nos frente ao manifesto, em atitude de abertura ao que se mostra, na intenção de conhecer, própria da consciência. O fenômeno, assim, é sempre visto contextualizadamente.

Tendo surgido como método para fundamentar tanto as ciências quanto a própria filosofia, a Fenomenologia torna-se movimento filosófico, fornecendo as concepções básicas subjacentes ao método. Conforme o tema interrogado e o pensador que faz a interrogação, a fenomenologia assume faces específicas e transforma-se: Husserl, Heidegger, Ricoeur, Merleau-Ponty e Gadamer estão entre os que têm se valido do método fenomenológico e da Fenomenologia.

Situados num determinado contexto, cercados pelas coisas do mundo, entre as tantas com as quais nos defrontamos, optamos por investigar um tema, buscando compreender o fenômeno ao colocá-lo em suspensão. Com o fenômeno em suspensão, e tendo tematizado5 o que dele se procura compreender e interpretar, o objetivo do passo seguinte dessa pesquisa é buscar sua essência ou estrutura, que se manifesta nas descrições ou discursos de sujeitos. O pesquisador busca apreender aspectos do fenômeno por meio do que dele dizem outros sujeitos com os quais vive, interrogando-os de modo a focar seu fenômeno. Quando os outros descrevem aspectos do fenômeno, eles os descrevem como os percebem, no desejo de comunicar essas suas percepções. A descrição pressupõe uma audiência que não conhece o descrito mesmo quando já exista entre pesquisador e pesquisado uma primeira aproximação, pois é sempre certa a impossibilidade de comunicação plena da experiência subjetiva:

Para uma investigação existencial, a comunicação é um enigma e até mesmo um milagre. Por quê?  Porque o estar junto, enquanto condição existencial da possibilidade de qualquer estrutura dialógica do discurso, surge como um modo de ultrapassar ou de superar a solidão fundamental de cada ser humano. (...) A experiência experienciada, como vivida, permanece privada, mas o seu sentido, a sua significação, torna-se pública. (Ricoeur, 1987; p.27-8)

Quando a descrição é feita dá-se, então, a tentativa de romper, na comunicação, a impossibilidade da apreensão total da experiência subjetiva. Captada pela escrita, a descrição dá indicativos de como o sujeito percebe o fenômeno, que vai se revelando ao mesmo tempo em que as descrições, agora transcritas, vão sendo analisadas:

(...) pode-se dizer que só haverá Ciência Humana se se visar à maneira pela qual as pessoas, ou grupos delas, representam as palavras para si mesmas, utilizando suas formas de significados; como elas compõem discursos reais; como revelam ou ocultam neles o que estão pensando ou dizendo, talvez porque o que dizem seja desconhecido para elas mesmas; como revelam mais ou menos o que desejam. Mas, de qualquer maneira, as pessoas ou o grupo de pessoas deixam um conjunto de traços verbais dos pensamentos que devem ser decifrados, tanto quanto possível, na sua vivacidade representativa, se se quiser fazer Ciência Humana. Assim, os conceitos sobre os quais as Ciências  Humanas se fundamentam, em um plano de pesquisa qualitativa, são elaborados pelas descrições. (Martins e Bicudo, 1989; p.43)

O que é dito na descrição aponta para a vivência do fenômeno que se quer compreender, e a compreensão desse fenômeno fica tanto mais clara quanto maior for o esforço de perscrutá-lo, em análises.  É a trajetória cujo itinerário é dado pela busca "às coisas mesmas", iniciado pelo movimento de epoché, no qual o fenômeno é posto em suspensão, quando o pesquisador se despe de referenciais teóricos prévios. Ficam, é claro, os pressupostos vivenciais - ou o pré-vivido, pré-reflexivo -, que ligam pesquisador e  pesquisado, o que impede o cômodo distanciamento que possibilita a neutralidade.

Consideremos, entretanto, que a análise fenomenológica não se encerra na descrição do subjetivo, como poderiam argumentar alguns. A mediação pela linguagem, sempre presente, e o "viver-com" - intersubjetivo -, permitindo a compreensão e interpretação de um discurso que não é o nosso próprio, colocam a análise conduzida pela fenomenologia como abrangendo o histórico e o social, pois encontros e mediações ocorrem temporal e contextualizadamente.

Situado o fenômeno, recolhidas as descrições, iniciam-se os momentos das análises Ideográfica e Nomotética. Na análise Ideográfica (assim chamada porque busca tornar visível a ideologia presente na descrição ingênua dos sujeitos, podendo para isso lançar mão de ideogramas ou símbolos expressando idéias), o pesquisador procura por unidades de significado, o que faz após várias leituras de cada uma das descrições. As leituras prévias fazem parte de uma primeira aproximação do pesquisador em relação ao fenômeno, numa atitude de familiarização com o que a descrição coloca. As unidades de significado, por sua vez, são recortes julgados significativos pelo pesquisador, dentre os vários pontos aos quais a descrição pode levá-lo. Para que as unidades significativas possam ser recortadas, o pesquisador lê os depoimentos à luz de sua interrogação, por meio da qual pretende ver o fenômeno, que é olhado de uma dentre as várias perspectivas possíveis.

(...) como é impossível analisar um texto inteiro simultaneamente, torna-se necessário dividi-lo em unidades. (...) as unidades de significado são discriminações espontaneamente percebidas nas descrições dos sujeitos quando o pesquisador assume uma atitude psicológica e a certeza de que o texto é um exemplo do fenômeno pesquisado.  (...)  As unidades de significado (...) também não estão prontas no texto. Existem somente em relação à atitude, disposição e perspectiva do pesquisador. (Martins e Bicudo, 1989, p. 99)

O trabalho segue, então, ancorado nessas unidades de significado que são, depois de recolhidas, transcritas para a linguagem do pesquisador, num discurso mais próprio da área na qual a pesquisa se insere. Articulando as compreensões que resultaram dessa seleção das unidades de significado e das próprias unidades, o pesquisador trata de agrupá-las em categorias - ditas abertas6 - mediante reduções7. Esses agrupamentos formam uma síntese dos julgamentos consistentes dados nas descrições ingênuas dos sujeitos. É a partir desses agrupamentos que o pesquisador passa a sua segunda fase de análise, a nomotética, quando a investigação dos individuais, feita pelo estudo e seleção das unidades de significado e posterior formação das categorias abertas, é ultrapassada pela esfera do geral. Segundo Martins e Bicudo (1989), "A ciência empírica despreza a análise ideográfica, dando preferência, indiscutivelmente, à análise nomotética. No caso da análise qualitativa, a abordagem nomotética, apenas, é praticamente impossível, pois os dados com que vai lidar provêm da análise ideográfica ou estrutura psicológica individual" (p.106).

A análise nomotética8 é feita com base na análise das divergências e convergências expressas pelas unidades de significado, estando vinculada, ainda, a interpretações que o pesquisador faz para obter cada uma dessas convergências ou divergências. Disso, novos grupos são formados e, num processo contínuo de convergências e interpretações, sempre explicitadas, novas categorias abertas, mais gerais, vão-se formando. As generalidades9 resultantes dessa análise iluminam uma perspectiva do fenômeno, dado seu caráter perspectival.10

Permeia a trajetória de análise a necessidade de constantes reduções, como nos foi possível mostrar. Tanto na instância ideográfica quanto na nomotética fazemos uso dessas reduções, por meio das quais chegamos às categorias abertas. E o termo "redução" é bastante caro ao pensamento fenomenológico, tendo origem na fenomenologia de Husserl. A perspectiva do fenômeno situado na pesquisa qualitativa, nossa opção aqui, porém, vale-se de um imbricamento da filosofia de Husserl com a de Heidegger, como já nos foi possível explicitar, se não claramente, ao menos pelo uso particular da terminologia heideggeriana nesse universo de pesquisa plasmado na Fenomenologia. Revisitemos alguns dos fundantes que tornam possível lançar mão da redução, como pensada em Husserl, fazendo interconexões com elementos vindos de Heidegger.

A proposta fundamental de Husserl era a da construção de uma ciência do rigor — a Fenomenologia — que se diferenciasse da "atitude natural". A ciência natural é "ingênua no que diz respeito a seus pontos de partida. Para ela, a natureza do que deve ser investigado está simplesmente " (Husserl apud Bell, 1991; p.158, trad. nossa). A Fenomenologia, tida como ciência do rigor, é rigorosa por não conter nenhuma afirmação que não esteja absolutamente fundamentada ou plenamente justificada, sendo que tal fundamentação ou justificação não pode ser pautada em pressuposições aceitas como se fossem dadas: tudo deve ser intensamente investigado. A Fenomenologia "não apenas será ciência do rigor como qualquer outra, como deverá ser 'a mais rigorosa e elevada de todas as ciências' " (Moura, 1989: 26). Essa exigência do rigor obrigará o fenomenólogo a nortear-se por duas proibições: aquela de não recorrer a nenhum dado científico como fundamento teórico disponível a princípio, e a de não carregar para a região da filosofia o modelo discursivo próprio das ciências11. Desse modo, abandonando referenciais prévios, constituem-se duas regiões discursivas distintas: a da fenomenologia como ciência rigorosa e a das demais ciências. Nisso a redução fenomenológica - não uma teoria ou afirmação, mas um procedimento - desempenhará papel fundamental. Redução, redução fenomenológica, redução transcendental e epoché podem, aqui, ser tidos como sinônimos (Bell, 1991). Disso surgirá, posteriormente, a redução eidética, que nos fará não só abandonar um ponto de partida estabelecido e tido como dado, mas nos indicará a trajetória rumo à essência do que focamos:  "A redução fenomenológica terá um grande trabalho a desempenhar. Entre as tarefas para as quais será chamada estão as seguintes. Primeiro, ela deve nos deixar aptos a escapar do naturalismo, ligando-nos a um ponto de vista transcendental. Segundo, ela será - ao menos em parte - a garantia do 'rigor', o que nos colocará em posição de fazer afirmações 'absolutamente fundadas'. Finalmente, e talvez o mais importante para Husserl, a redução tornará acessível a região cujos componentes deverão ser explorados pela filosofia" (Bell, 1991; p.161, trad. nossa).

Desse modo, nada do plano da atitude natural estará presente na esfera fenomenológica, pois a epoché - ou a redução12 - inibirá qualquer possibilidade de conhecimento teórico prévio, abrindo caminho para uma "ciência completamente diferente (...) na qual se fala tematicamente apenas de vividos e dos modos de consciência  e daquilo que é visado, mas apenas enquanto visado' " (Moura, 1989; p. 25). Há, em Heidegger, um eco dessa tese que nos reporta à função da epoché: "quando ele [Heidegger] define as ciências positivas como aquelas que se dirigem aos 'entes', exige que a filosofia tenha um método diferente daquele das ciências, e afirma que a fenomenologia, quer dizer, o método da filosofia, não pode proferir teses sobre os entes. A redução fenomenológica, definida como 'a parte fundamental do método fenomenológico' é vista como uma mudança de direção do olhar normalmente dirigido aos entes. Obviamente, o eco termina quando se descobre que o olhar deve sair dos 'entes' e dirigir-se ao 'ser' " (Moura, 1989; p. 40), pois "no sentido estrito, não há (...) para Husserl uma 'fenomenologia do ser' e o prefácio de 1913 [às Investigações] era plenamente fiel ao limitar o zu den Sachen zelbst a um retorno ao conhecimento" (Moura, 1989; p. 25). De Husserl a Heidegger, então, há esse distanciamento de concepções no que diz respeito à abordagem fenomenológica: esta será estrutural (visando às "coisas mesmas" ou ao "conhecimento ele mesmo" ou às estruturas da experiência) em Husserl, e postura que visa ao Ser - e, portanto, ontológica - em Heidegger.13

Uma última - mas não menos importante - consideração sobre a redução no fazer fenomenológico é a possibilidade de avaliá-la como procedimento:

(...) a redução é um procedimento para nos induzir a um particular estado da mente no qual nenhuma concepção adequada pode ser formada por quem não operou com sucesso a redução. (...) Numa tal situação, parece haver somente duas opções abertas àquele que deseja avaliar um conjunto de instruções. O primeiro é tentar e implementá-las para ver o que acontece [Não existe impedimento teórico para que se testem as instruções com o objetivo de ver se funcionam: pense na avaliação de um conjunto de instruções para cozinhar um ovo. (...) Mas se o estado final pode somente ser reconhecido ou adequadamente concebido por alguém que seguiu as instruções, então todas as formas normais de avaliação, racional ou objetiva, falham. E essa dificuldade é mais intensa quando o estado final é um estado da mente (...)]. (...) A segunda e última opção que nos resta para avaliar um conjunto de direções ou instruções (naqueles casos em que não se tem acesso independente ao estágio final a que se pretende chegar), é transformar tais instruções nas sentenças assertivas mais próximas, e então avaliá-las por sua verdade, consistência, habilidade em resolver problemas e coisas assim (Bell, 1991; p.163, trad. nossa).

Quando o que se busca é a apreensão da essência de determinado fenômeno - o que obviamente passa pela necessidade de implementação da epoché - a "avaliação" do procedimento é o trafegar pelo próprio procedimento, visto que compreensões nunca serão definitivas, mas formam-se cada vez mais elaboradamente. Assim, insere-se a epoché, vista como mais do que um mero conjunto de instruções, numa postura fenomenológica que já chegou a ser concebida, pelo próprio Husserl, como análoga, em seu início, a uma conversão religiosa: "/.../ tornar-se-á manifesto que  a atitude fenomenológica total e a epoché a ela pertencente estão destinadas a efetuar uma completa transformação pessoal, comparável, em seu início, a uma conversão religiosa. [Uma tal transformação] carrega em si a significância da maior transformação existencial que é imputada como uma tarefa ao ser humano como tal" (Husserl apud Bell, 1991; p. 162-63).

 

Sendo necessário, de alguma forma, concluir ...

Com os fundamentos dados pela Fenomenologia, a vertente da Pesquisa Qualitativa, da qual aqui tentamos esboçar alguns pressupostos teóricos,  tem encontrado ressonância nas investigações em Educação talvez por ser um modo de, radicalmente, romper a hegemonia das concepções clássicas. Esse modo de pesquisar, aliado às outras modalidades de natureza qualitativa, tem sido altamente produtivo. Talvez o caráter de "processo", naturalmente subjacente à ação educativa, indique tanto a viabilidade quanto a necessidade de abordagens que possibilitem compreender o que, de certo modo, é "impreciso", dinâmico, não "quantificável". A sensatez, entretanto, impede-nos de expor esse enfoque como redentorista: não se trata de renegar os métodos quantitativos, mas, certamente, de se tentar motivar os atuais pesquisadores a formas alternativas de descortinar outras faces dentre as inúmeras faces das coisas do mundo. Não se nega a importância da medida mas, certamente, seria desastroso, a partir disso, afirmar que só é importante o mensurável,14 o conclusivamente objetivo. O diálogo entre práticas metodológicas é, certamente, um exercício saudável mas, reconhecemos, difícil: ele exige, além de ousadia, reflexão apurada sobre fundamentos e instrumentos e, principalmente, a explicitação clara das concepções que movem o pesquisador. Pesquisar é mostrar-se. Pesquisar é um exercício para compreendermos o mundo.

 

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* Texto apresentado na Mesa-Redonda Paradigmas de interpretação da realidade organizada pelas disciplinas de Pedagogia Médica e Didática Especial do Depto. de Educação em 20/8/96., UNESP/ Botucatu.
1 "Realidade já não é tida como algo objetivo e passível de ser explicado em termos de um conhecimento que privilegia explicações em termos de causa e efeito. Porém, a realidade, "o que é", emerge da intencionalidade da consciência voltada para o fenômeno". (Bicudo, 1994; p.18)
2 "O zu den Sachen selbst significa zu der Erkenntnis selbst, nem mais nem menos. E as Investigações não deixam dúvida quanto a isso, quando indicavam que a desejada 'claridade filosófica' em relação às proposições lógicas era obtida através da evidência sobre a essência dos modos de conhecimento (Erkenntinisweise), que desempenham um papel na efetuação dessas proposições. O 'retorno aos objetos' não é assim senão o retorno aos atos através dos quais se tem um conhecimento dos objetos."(Moura, 1989; p.22)
3 Mundo-vida (lebenswelt) e intencionalidade da consciência são termos cunhados, inicialmente, por Husserl, em sua fenomenologia estrutrural.
4 O termo "essência" pode ser entendido em oposição à "aparência". A busca dessa "essência", inalcançável, inicia-se ao interrogarmos suas manifestações aparentes e, nessa busca, compreensões são possíveis. "Na filosofia contemporânea, a essência não define nem revela a natureza do homem" (Japiassu e Marcondes, 1993). Para Heidegger, a essência do ser-aí (Dasein), consiste em sua existência, daí buscarmos o Ser via suas manifestações mundanas, que são-no-mundo.
5 "Tematizar quer dizer por de forma estabelecida, localizada, um assunto ou tópico sobre o qual se vai discursar, dissertar ou falar seriamente." (Martins e Bicudo, 1989; p.76)
6 Nessa perspectiva fenomenológica  de conduzir a pesquisa, as categorias são chamadas abertas em contraposição às categorias como concebidas aristotelicamente. Categorias são, segundo Husserl, grandes regiões, não apriorísticas, de generalizações.
7 A redução é entendida como movimento do espírito humano de destacar aquilo que julga essencial ao fenômeno, o que é feito por meio de ações como o intuir, o imaginar, o lembrar e o raciocinar.
8 O termo deriva-se de nomos, que significa uso de leis. Nomotético, assim, indicaria a elaboração de leis ou princípios gerais originados do conhecimento de fatos anteriores.
9 Devem ser esclarecidas perspectivas possíveis para o termo generalização: segundo Martins e Bicudo (1989), a pesquisa qualitativa pauta-se numa generalização formal, porque diz de proposições gerais advindas de proposições particulares que se complementam num intrincado elo de referências e interpretações. Já a generalização geral, do domínio da pesquisa de natureza quantitativa, parte de um certo número de casos individuais, quantifica fatores segundo um estudo típico, procura por correlações estatísticas e probabilidades que digam se tais correlações ocorrem ou não ao acaso. Generaliza-se então o encontrado nos casos particulares, pautando-se em procedimentos estatísticos. Assim, as generalizações podem ou não ser mantidas para cada caso individual.
10 Perspectival, aqui, diz do que não pode ser percebido num todo absoluto e único. Cada fenômeno, em si, é percebido pelos diferentes sujeitos nas várias perspectivas através das quais se manifesta e pelas quais é olhado.
11 Nesse ponto, a filosofia como vista por Husserl torna o cartesianismo censurável por "estabelecer uma continuidade entre o discurso filosófico e o discurso científico" (Moura, 1989; p.26). Isso fica mais claro quando sabemos que a abordagem cartesiana à Matemática foi mais um exemplo da possibilidade de intervenção de sua filosofia nas ciências, mais um "exercício filosófico", do que o contrário, como se pode pensar.
12 "Na medida em que a fenomenologia visa a descrever os fenômenos presentes na consciência e não os fatos físicos ou biológicos, ela é levada a por esses fatos 'entre parênteses' . A epoché designa justamente essa colocação entre parênteses, essa suspensão do juízo (sinônimo de redução fenomenológica).
/.../ Esse mundo natural é um existente, uma realidade: eis a tese geral da atitude natural, diz Husserl. A epoché consiste em alterá-la radicalmente, quer dizer, em suspender o juízo sobre o mundo natural" (Japiassu e Marcondes, 1993; p.83).
13 E passará a ser fenomenologia hermenêutica em Ricoeur, visando à expressão da experiência, sendo a epoché trocada pelo exame de textos e pela investigação da linguagem simbólica. (Cf. Garnica, 1992 e Ihde, 1986).
14 Abraham Moles, em seu As Ciências do Impreciso, apresenta considerações valiosíssimas acerca da "vertigem da medida" manifestada na modificação do "a medida é boa" para "só é bom o que pode ser medido".

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