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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versión impresa ISSN 1414-3283versión On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.1 no.1 Botucatu agosto 1997

https://doi.org/10.1590/S1414-32831997000200013 

DEBATES

 

Dialogando com a Filosofia: notas introdutórias*

 

 

José Luiz Sigristi

Professor do Departamento de Filosofia da Educação,  Faculdade de Educação, UNICAMP

 

 

Educação e níveis de consciência

Ao propormos um diálogo com a Filosofia, pretendendo refletir sobre pressupostos teóricos do ensino e da prática médica, é importante abordarmos primeiramente a relação entre educação e níveis de consciência.  

Para discutir Educação, começo lembrando Hegel.  Para ele, nossa liberdade, nossa personalidade e nossa educação estão em  relação direta com o nível de consciência que temos da realidade, entendida por ele como a totalidade das coisas, a totalidade do ser. 

A tradição hegeliana diz que nós podemos ter três tipos de atitudes perante o real, que revelam três formas de consciência. A primeira, chamada de consciência empírica; a segunda, de consciência racional e a terceira, de consciência teórica. O objetivo da educação, o objetivo da própria vida, tendo em vista a busca da nossa liberdade, consiste em percorrermos esses três degraus possíveis, até chegarmos ao nível mais profundo, mais libertador, mais pedagógico, que é o nível da consciência teórica.

A consciência empírica é a consciência de quem apenas responde aos estímulos imediatos da experiência. A consciência racional é aquela  atitude de quem não apenas responde aos estímulos imediatos da experiência, mas que é capaz de dar razões  explicativas aos elementos constitutivos desta mesma experiência. A consciência teórica é a consciência de quem não só responde aos estímulos da experiência do cotidiano e dá certas razões explicativas aos seus elementos, mas é capaz de perceber e integrar esta experiência na totalidade das coisas que compõem aquilo que Hegel chama de mundo, realidade ou totalidade do ser.

Para exemplificar, eu diria que qualquer um de nós, assim como uma dona de casa que vai ao supermercado, se não se aprofundou nos estudos da economia, tem uma consciência empírica da ciência econômica: sabe muita coisa, sabe administrar o orçamento doméstico com grande sabedoria, de tal modo que não vai comprar mais do que o seu orçamento permite. Na verdade, uma consciência empírica significa saber trabalhar com elementos da vida cotidiana, respondendo aos estímulos.

No plano da saúde, eu poderia dizer que todos nós, de alguma forma, sabemos responder ao estímulo imediato de alguma doença, de alguma patologia, de alguma dor, mediante um repertório de conhecimentos de senso comum, que nos chega por meio da prática social, da vida familiar, da convivência com os outros. Neste ato de respondermos ao estímulo de uma dor de cabeça e buscarmos um analgésico, não nos acompanha um conhecimento de como essa dor ocorre, nem das razões porque acontece. No gesto de tomarmos um comprimido, tampouco nos acompanha um conhecimento dos componentes farmacêuticos que nele estão presentes. Falta-nos a ciência da farmacologia e da medicina. Mas todos nós temos consciência. A diferença está no nível de consciência que cada um possui. 

Voltando ao caso da economia, a dona de casa tem uma consciência empírica em relação à ciência econômica porque não vai além de saber articular, trabalhar, compor e administrar a sua existência, bem como a de sua família, com aquele saber adquirido pela tradição e pela prática social e familiar. Já um cientista econômico possui  não só a consciência empírica mas também a consciência racional. Ele saberá explicar quais são as leis que regem a produção, a circulação e o consumo de bens;  que a escassez de determinados produtos e o alto ou o baixo preço de alguns produtos, o aumento e a diminuição do consumo em determinadas situações devem-se a uma determinada economia política.

Entender as leis da economia política ou simplesmente as leis da ciência econômica  significa ter mais  consciência do que simplesmente comprar, se tiver dinheiro, ou abrir mão de certos produtos em razão da escassez de recursos econômicos.  O cientista econômico é aquele que conhece as leis da economia, conhece as leis da economia política, diferentemente de uma pessoa que tenha apenas uma consciência empírica.

Mas Hegel vai mais longe. Não basta a nós a consciência racional, diante da pretensão de sermos livres, de sermos educados, de sermos plenamente conscientes. É necessário ir em busca do que ele chama de consciência teórica. Ele define teórico no seu sentido etimológico: vem do grego "theorem" que significa ver o conjunto, a totalidade, do modo mais exaustivo possível.

No exemplo da economia, para uma consciência teórica não basta saber tudo quanto os grandes economistas descreveram — analisar a conjuntura econômica, a estrutura que determina esta conjuntura econômica. É preciso ter uma visão bem mais ampla, perceber como a economia está intimamente dependente e articulada com a totalidade da sociedade. Não só com a totalidade das outras ciências, mas com a totalidade de múltiplos fenômenos da realidade.  Esta visão de conjunto articulada, em que nada daquilo que compõe o real esteja ausente, isto é a consciência teórica.

Fica claro, a partir destes exemplos, que a consciência teórica de que falo não é consciência abstrata. Com certa freqüência, ouvimos expressões como esta: "olha, eu sou muito bom na prática, mas muito ruim na teoria".  Na verdade não há prática sem teoria. E também não é possível algum saber sem o mínimo de abstração.  Já dizia Sócrates que a ciência começa no conceito universal, que é abstrato.  Por exemplo,  ao dizer que este microfone é um instrumento de comunicação, estou fazendo abstração.  O microfone é uma categoria, é um conceito universal para todos os objetos desta mesma natureza.

Não é possível fazer ciência sem abstração. A teoria é uma visão articulada da totalidade do real. É claro que podemos, como Hegel aconselha,  dentro da grande totalidade do real, encontrar subtotalidades que são elementos constitutivos desse todo articulado e organizado. Podemos dizer que as ciências biomédicas já são uma subtotalidade das ciências em geral e, dentro desta subtotalidade biomédica, podemos encontrar vários elementos constitutivos: a fisiologia, a citologia, a anatomia e outras áreas.

Dentro da proposição de Hegel podemos dizer que a educação é um processo de conscientização. Normalmente ocorrem muitos equívocos a este propósito da educação. Na verdade, todos têm consciência e consciência com muita sabedoria.  Às vezes uma dona de casa administra muito melhor o orçamento doméstico do que o seu marido, que é economista.  O fato de ter apenas uma consciência empírica não implica que esta consciência esteja equivocada, errada, falsa.  Nem por isso  devemos legitimar o analfabetismo ou a aceitação de uma estratificação na pirâmide da escolaridade. 

Poderíamos dizer que, na educação, ou no ensino de qualquer profissão, a nossa tarefa nada mais é senão a de procurar elevar a consciência de nossos alunos até o nível de consciência teórica possível. Para tanto, no caso do ensino médico, o aluno precisa ser consciente daquilo que as ciências médicas alcançaram até hoje. Falo até hoje porque há muito caminho ainda a percorrer. Isso vale para a Medicina como para todas as demais ciências.  Então, a finalidade do ensino médico seria fundamentalmente capacitar ou dar a consciência de tudo quanto ao longo da história a humanidade conseguiu na área da Saúde. E que, além dos conhecimentos das Ciências Médicas, o estudante de Medicina (assim como qualquer outro estudante) tenha na escola os elementos para não ser apenas um bom médico, mas ser principalmente livre, integrado de forma razoável na sociedade, para perceber as articulações com a totalidade e usar o conhecimento mais atual  promovendo, também para os outros, o direito à cidadania.

Daí a necessidade de compreendermos as razões ideológicas e históricas que levaram à multipartição do saber.  Atualmente é difícil justificar o nome de Universidade como uma realidade concreta para nós.  Vivemos, na verdade, uma multiversidade ou uma pulverização do saber de tal modo que cada área de pesquisa, bem como cada área de formação profissional se fecham dentro dos limites que historicamente foram sendo estabelecidos, impedindo qualquer visão de conjunto.  Esta separação está muito longe de levar à consciência teórica.

 

Pressupostos do ensino

O que a filosofia poderia dizer a respeito da Didática ou dos pressupostos teóricos do ensino? Uma teoria é pelo menos um conjunto articulado, ordenado, de proposições a respeito de um mesmo objeto, a partir de um princípio.  Esta definição pode não ser a mais perfeita, mas pelo menos tem o consenso de todos.  Não há ciência sobre alguma coisa ou um objeto que tenha uma única lei, uma única proposição.  Uma teoria científica é um conjunto de proposições que se ligam a outras, de algum modo, vinculadas a um princípio.  Isso já os gregos diziam, aliás, mais exatamente Aristóteles dizia que a ciência é a busca dos princípios a partir dos quais as proposições se sustentam. 

Por exemplo, Skinner, psicólogo behaviorista, diz que todo e qualquer comportamento humano se reduz a um princípio: numa dada circunstância, dado um estímulo segue-se uma resposta. Este é o princípio que está presente em cada uma das proposições a respeito do comportamento humano.  Para o behaviorismo, a Didática nada mais é do que, numa circunstância qualquer, criar estímulos que provoquem respostas esperadas e desejadas.  A Didática passa,  então, a ser a criação de estímulos para alcançar certas respostas. Que respostas são essas?  Mais exatamente, aqueles conteúdos programáticos estabelecidos pela disciplina.  A questão é:  qual o estímulo mais adequado?  Dentro do behaviorismo, esta é uma questão que a Didática precisa colocar-se. E isto inclui os componentes de cada classe, as condições materiais da classe, o repertório de conhecimento que os membros da classe têm e assim por diante.  Isso seria um princípio ou uma lei mais geral, mais universal, à qual se ligam todas as outras proposições.

Continuando a exemplificar, se na Sociologia eu for funcionalista, o princípio articulador da totalidade das proposições será o princípio da funcionalidade. Quer dizer, numa dada circunstância, cada pessoa age em função de alguma coisa.  A busca dessas funções é justamente a compreensão da sociedade, dado que a Sociologia se propõe entender as leis que regem nosso comportamento e o comportamento de grupos de classe na sociedade.

Mas, o que tem isso de Filosofia?    Nada.  Mas o que tem a Filosofia a ver com isso?  É que a Filosofia, não apenas hoje, mas sempre, se propõe alcançar um nível superior, mais fundamental, que ultrapasse o nível das ciências particulares.  Ela vai querer saber a lei da gravitação universal dos corpos, mas também se haverá uma lei maior, uma forma, ou um princípio universal válido para todas as ciências e que esteja presente em cada um desses sistemas ou desses conjuntos articulados entre si. 

É nesta questão que a Filosofia tem a ver com a Didática, com a teoria pedagógica, com a teoria científica, com a teoria de qualquer ciência. A procura de um princípio unificador e articulador de tudo isso é a questão da Filosofia.   Aristóteles foi o primeiro a formular e ninguém o contestou depois disso. Segundo ele, nós podemos classificar as ciências segundo maior ou menor nível de abstração.

O primeiro nível de abstração é o das ciências empíricas.  Por que empíricas?  Porque todo saber empírico decorre necessariamente de dados experimentais.  É o que eu posso apreender a partir dos dados da experiência.  São as ciências da natureza de um modo geral. 

O segundo nível é o das ciências matemáticas, que dependem, só no início, da experiência; partem depois para um nível onde a experiência é totalmente dispensável, desnecessária e desaconselhável; abandonam as experiências para, só com as relações entre quantidades, trabalhar com a razão e não com a empiria. 

O terceiro nível Aristóteles chama de Filosofia, a ciência que independe totalmente de todo e qualquer dado empírico, tendo por objetivo a discussão do ser enquanto ser.  

Cada ciência tem um objeto particular.  A Matemática estuda o ser quântico, a Biologia, o ser vivo, a Zoologia, as plantas, a Antropologia, o homem, e assim por diante. Caberia agora, em vez do ser homem, do ser sociedade, da sociologia; do ser comportamento do homem, que é a Psicologia, do ser determinado, uma discussão do ser enquanto ser, do ser enquanto tal, antes de qualquer determinação.

Antes da prioridade temporal mais formal é possível discutir o ser enquanto ser sem se fixar no ser mundo físico, no ser mundo humano, no ser mundo político? Aristóteles diz que sim.  A este saber ele chama de terceiro grau de abstração, o mais elevado porque independe totalmente da experiência -  a Filosofia

Outra verdade que a Filosofia coloca é a de que quem não tiver capacidade de abstrair não vai muito longe em qualquer ramo do saber.  É preciso ter vôo de condor para ver a totalidade e não vôo de nambu, que voa muito raso e rasteiro e não tem visão de totalidade.  É como assistir a um desfile de escola de samba na rua, na calçada ou em cima de um prédio. Quem estiver na calçada tem o privilégio da percepção dos detalhes, mas não terá como ver a totalidade das alas da escola. Esta visão da totalidade implica uma elevação não só de se subir, mas uma elevação no plano da consciência. 

A Filosofia pretende ser condição necessária para todos os cientistas e para todas as pessoas. Como diziam os gregos, filosofar é, antes de tudo, uma condição humana.  Daí porque filosofar é comum a todos os homens. A diferença está  no nível de profundidade desse filosofar. Este varia de pessoa para pessoa. 

Mas o que tem tudo isto a ver com a contribuição da Filosofia para um curso de Pedagogia Médica, de Didática?

Primeiro é preciso lembrar que, independentemente do nível em que cada um de nós estejamos, toda a nossa visão, seja ingênua, crítica, racional, teórica, seja de primeiro grau, segundo grau ou de terceiro grau, tem dois componentes: um componente ontológico e um componente epistemológico.

Ontologia, no seu sentido primeiro, mais elementar e mais simples, que é o conceito etimológico,  significa lógica do ser: "onthos", do grego, significa ser e "logos"lógica.   

Todos nós temos, assim, uma determinada ontologia.  Esta nada mais é do que uma visão e uma justificação da realidade que nós vivemos, quer dizer, uma visão da totalidade do real que nos circunda.  Este é o sentido mais elementar da ontologia.  É uma determinada leitura da realidade. Se cada um de nós conseguisse colocar em uma página a nossa visão da realidade,  teríamos a ontologia de cada um. 

Não podemos viver sem explicar o mundo que vivemos. Ainda que esta explicação seja mística,  mítica ou mistificada.  É justamente porque conseguimos, de algum modo, explicar este mundo, que a vida tem sentido, qualquer que seja esse sentido.  Sem uma certa leitura da realidade, não saberíamos como agir e interagir dentro da sociedade, ficaríamos sem normas de comportamento, não sabendo o que fazer e no que acreditar.

Enfim, a leitura da realidade é a nossa ontologia. Se esta tiver um grau acentuado de racionalidade, um fundamento teórico sólido, muito melhor. Mas em todos os níveis -  empírico, racional e teórico, há uma ontologia presente, diretriz básica do nosso comportamento.

No caso da educação escolar, sendo professores, é a ontologia que comunicamos aos nossos alunos, qualquer que seja a disciplina que lecionemos. Não há professor que consiga ser mascarado, e ainda que ele se mascare, está comunicando uma determinada visão de mundo. Nem um professor de Anatomia, que é uma área objetiva, consegue ser neutro. Não há neutralidade, ainda que a ciência pretenda ser neutra. 

Todos nós trabalhamos e vivemos dentro de uma ontologia, de uma leitura que fazemos da realidade.  Todos os nossos comportamentos estão veiculando essa leitura, essa compreensão de mundo, de sociedade.  Quando eu falo de leitura de realidade, não estou pensando uma realidade abstrata, indefinida, estou pensando no mais concreto da nossa vida, na nossa vida pessoal, na nossa vida interpessoal, na nossa vida profissional, na nossa vida em sociedade, na nossa profissão. Em todos os momentos, queiramos ou não, comunicamos a nossa ontologia, ainda que disso não tenhamos consciência. 

Por outro lado, é preciso saber que nossa visão de mundo também tem um outro componente - o componente epistemológico. 

"Epistheme", do grego,  significa ciência;  "logos", lógica. Epistemologia nada mais é do que a lógica de uma ciência.  A lógica de uma ciência está na teoria científica  que vai dar sustentação lógica às proposições que a compõem.  Podemos discutir a dimensão epistemológica da nossa consciência em níveis diferentes.  É tarefa da Educação buscar o nível mais profundo.

Por exemplo, conforme o lugar a partir do qual eu olho uma cidade, tal será a cidade.  A busca desse lugar chamado lugar epistemológico é outra tarefa que cabe a cada educador saber.  Ele precisa saber em que lugar  está e a partir de que lugar está olhando o mundo.  A epistemologia discute esse ponto a partir do qual nós vemos o mundo. Cada ciência tem a sua epistemologia. Temos a epistemologia da Biologia, da História, da Psicologia, e assim por diante, que é o ponto a partir do qual se discute o objeto de uma  ciência. 

A epistemologia existiu praticamente desde os inícios da Filosofia e como conhecimento mais ou menos sistemático,  data do século VII a.C. Mas só recentemente, nos séculos XVI e XVII,  é que a epistemologia passou a ser encarada do ponto de vista do  problema crítico da ciência. 

E em que consiste este problema crítico? 

Kant, no século XVIII, vai dizer que o problema crítico consiste em responder a duas questões:  O que podemos conhecer? Em que condições o conhecimento é verdadeiro?  Este é o problema crítico, discutido não apenas por Kant, mas também pelos racionalistas, como Descartes, e pelos empiristas, como Hume. Mas foi Kant quem sistematizou, em seu livro "Crítica da razão pura", as questões que os racionalistas e empiristas já haviam discutido.  Ele chama de problema crítico da ciência o fato de que, antes de começarmos a fazer ciência, precisamos ter bem claras, perante nós mesmos, as respostas a duas questões. O que nós podemos conhecer: a totalidade do real ou parte do real?  Em que condições esse conhecimento é verdadeiro, inquestionável, irrefutável?

Para Kant, antes de fazer uso da razão eu tenho que criticar, ou seja, apreciar o seu limite.  Eu não posso começar a usar a razão sem saber com clareza qual o seu alcance  e quais são as leis que ela deve respeitar para chegar à verdade científica.

Estas duas questões guardam uma ligação muito grande porque, ao definir as condições do conhecimento verdadeiro, já estou definindo os limites desse conhecimento.  Ao definir o objeto eu estou definindo igualmente as condições de possibilidade do conhecimento verdadeiro. Esta é a base em que se assenta toda a Filosofia moderna e contemporânea.

Descartes, considerado o pai da Filosofia moderna, discute essas questões no livro "Discurso sobre o método": o que nós podemos conhecer e em que condições?  (método aqui é caminho pelo qual eu chego a verdade). Locke escreveu um ensaio sobre esse entendimento humano. Hegel escreveu "Fenomenologia do Espírito" e Marx vai escrever a "Ideologia Alemã" antes de escrever "Crítica à Economia Política" e "O Capital",  e assim por diante. 

Investigações lógicas e fenomenológicas vão começar a tematizar essas questões e tentar responder a elas.  Uma vez respondidas, prossegue-se nas elaborações de um sistema filosófico que vai dar base e sustentação às teorias científicas.  Podemos até não gostar da Filosofia, mas ela está presente em todo pensamento moderno e contemporâneo, a começar pelo problema crítico: O que nós podemos conhecer?

Desde o empirismo do século XVII até hoje é dominante a tese de que nós podemos conhecer apenas o fenômeno. Fenômeno, que vem do grego "Fainomenon" e "Fainestein", significa aparecer - aquilo que aparece. Nós podemos conhecer aquilo que aparece no horizonte da nossa experiência. Mas, e aquilo que está para além da experiência?  Fica uma interrogação ou uma negação. Alguns negam qualquer coisa que esteja para além do experimentável. Outros dizem: para além da experiência nós nada podemos afirmar, quer sobre a existência de algo, quer sobre a sua não existência. E nada podemos dizer sobre a natureza disso se por ventura existir. Isso é dominante, hegemônico, mas não é exclusivo. Há alguns ainda que defendem a possibilidade de um discurso científico racional, consistente e sólido a respeito de coisas que transcendem, que estão além do mundo do fenômeno. 

Respondida esta questão nos obrigamos a responder à segunda questão: Em que condições o conhecimento é verdadeiro?

Aí nós temos dois elementos indispensáveis. Não há como falar em conhecimento ou em que condições o conhecimento é verdadeiro se não houver o sujeito que conhece e o objeto que é conhecido.  E aqui está  o conflito, a divergência. A polêmica está exatamente entre aqueles que, nessa relação cognitiva sujeito-objeto, priorizam ou o sujeito ou o objeto.  Dito de outra forma: se toda a pesquisa científica pretende buscar a verdade daquilo que é pesquisado, a questão crítica, a questão epistemológica é exatamente dizer onde está a verdade. 

Platão dizia que a aspiração fundamental do homem é tríplice.  O homem aspira profundamente à verdade, está sempre desejando o bem e está sempre amando o belo.  São as três aspirações fundamentais do homem.  E até hoje nós concordamos, ninguém vai discordar que a busca da verdade, o aspirar pela verdade é uma condição humana presente na consciência de todos. Agora, o problema é definir onde está a verdade. Esta é a questão. 

Na epistemologia há um divisor de águas entre duas tendências de difícil reconciliação.  A primeira diz que a verdade reside no objeto do conhecimento.  Onde está a verdade de uma árvore?  A verdade de uma árvore está lá na própria árvore.  Outros vão dizer que toda e qualquer verdade se funda senão exclusivamente, prioritariamente no sujeito do conhecimento. É questão de priorizar, não de excluir.  Dar prioridade na relação cognitiva da ciência ao objeto significa dizer que a verdade está basicamente no objeto.  Cabe, portanto, ao sujeito, ir até o objeto para desvelar, descobrir. Daí a noção de que fazer ciência é descobrir a verdade. " Newton descobriu a lei da gravidade" .

Mas alguns teóricos vão dizer que Newton não descobriu coisa nenhuma porque a verdade não está lá para ser descoberta como se estivesse coberta por um véu. Então, na verdade, Newton não descobriu, mas construiu a verdade sobre a mecânica celeste.

Alguns priorizam ou dão ênfase ao objeto sem excluir o sujeito.  Mas Kant tem uma frase muito interessante que diz que é preciso fazermos na filosofia e nas ciências a revolução copernicana, no sentido de mudar o ponto fixo.  Até a filosofia moderna, o ponto fixo era o objeto, o realismo.  No realismo dos gregos, a verdade estava no mundo, nas coisas,  nos objetos e cabia ao homem ir até os objetos para desvelar os seus segredos. O ponto fixo era o objeto; o ponto móvel, o sujeito. O sujeito deveria ir até o objeto para conhecê-lo na sua natureza, na sua essência, na profundidade do seu ser.

Se a Filosofia "clássica" era esse ir do sujeito ao objeto porque era no objeto que residia a verdade, a revolução copernicana na Filosofia é tomar como ponto fixo o sujeito. O sujeito do conhecimento é o ponto fixo que vai interrogar a natureza. Esta é que tem que se mover ao seu redor ou em resposta às suas indagações, às suas perguntas, porque a razão é a grande ordenadora do mundo. Tanto isso é verdade que o homem nunca pode viver sem explicar o mundo.  E quando a razão científica ainda não era capaz de fazê-lo, o homem, a razão humana, utilizou os mitos para explicá-lo. A mitologia grega, romana, egípcia babilônica, são magníficos edifícios de idéias criadas pela razão humana para explicar o mundo.  Aristóteles deu-se conta disso ao dizer que o "mithos" é "logos" —  o mito é razão. Por quê? Porque é científica, é verdadeira aquela explicação que nos convence.  E os deuses eram convincentes. As razões míticas convenciam e na medida em que convenciam, levavam à certeza.  Na medida em que era certo, era científico. 

odas as grandes explicações do mundo se firmam segundo esse segundo grupo, priorizando o sujeito na construção do edifício explicativo do mundo.  Aqueles que dão prioridade ao sujeito são  denominados  idealistas.  Os que priorizam o objeto da relação cognitiva porque a verdade fundamentalmente está lá nele, são denominados realistas: a verdade está na realidade exterior ao sujeito.  Quando a verdade é um constructo do sujeito temos o idealismo. Por exemplo, para Leibnitz, o mundo é a percepção que eu, sujeito,  tenho dele.  Há várias correntes  e nomes  ligados ao idealismo: o racionalismo de Descartes, Leibnitz, Espinoza, Wolf e Kant, a dialética de Hegel, a fenomenologia de Husserl. Do lado do realismo está o empirismo do século XVII e XVIII de Locke, Hobbes e Hume; o materialismo histórico de Marx e seus seguidores; o positivismo de Comte e de todos os formados na tradição positivista. 

Essa divergência continua até os nossos tempos, está presente em todas as discussões teóricas sobre a ciência, em todas as questões sobre  paradigmas ou modelos de investigação científica. Parece-me que, depois de Kant, todo mundo é mais ou menos idealista no sentido de que sabe ou concorda que a ordem existente no universo é a ordem fundada na razão. Neste sentido todo mundo é racionalista. Todos os sistemas explicativos do mundo se fundam em última instância na razão humana.

Praticamente todo mundo é Kantiano em parte, sabe que não existe o fato científico, que o fato científico se constrói.  Não faltam fatos que desafiam a ciência.  Na Medicina, por exemplo, pensemos sobre o problema do câncer. Não faltam experiências sobre o câncer. Há milênios este fenômeno é um fato. Existe ciência sobre o câncer, mas faltam construções de hipóteses que a experiência confirme. Este é um dos argumentos dos idealistas.

É importante ressaltar que idealismo, aqui, é tomado em seu sentido epistemológico, e não no sentido ético, daquela pessoa de ideais nobres que dedica sua vida sempre a grandes causas. Idealismo porque prioriza a idéia, o conceito, a razão da relação cognitiva. Por exemplo, as maçãs sempre caíram, como caíram todos os corpos pesados, mais pesados que o ar.  Mas foi necessário que Newton fizesse um ensaio, tivesse um estalo para levantar a hipótese: quem sabe os corpos caem porque um atrai o outro em razão dos volumes de suas massas.  Nesse momento a ciência caminhou...  Há muito experimento para confirmar o que já se sabe, para demonstrar o que já está demonstrado.  É preciso fazer avançar a Física Teórica e ela implica a construção de novos modelos para dar conta de novos fenômenos. 

Todo mundo mais ou menos concorda que o idealismo é, de certa forma, prevalecente, porque o empirismo, segundo o próprio Hume, vai cair no ceticismo: toda verdade vem da experiência e só da experiência e a razão é uma tábua rasa, um quadro de giz apagado no qual a experiência vai se imprimindo; a razão, no máximo, vai arrumar essa experiência. Para Hume, toda experiência particular é contingente  e a verdade é particular e contingente. Ora, a ciência tem proposições universais e necessárias e não particulares.  Daí o próprio Hume dizer que o empirismo só leva ao ceticismo.

O positivismo é de uma enorme valia no avanço da ciência. Mas ele tem uma terrível precariedade na compreensão da totalidade do ser e leva a um tecnicismo e a uma enorme falta de consciência da totalidade das coisas. Se só são verdadeiras as constantes verificadas entre os fenômenos, isto significa ficar simplesmente na rama, ou na periferia do ser, no invólucro. O materialismo histórico de Marx, contudo,  é mais consistente. Mas nem por isso esses teóricos estão desatualizados. Todos os contemporâneos se inspiram neles, de algum modo. 

Na verdade, o problema do sujeito-objeto, a dicotomia entre sujeito e objeto, é uma falácia.  Nós vimos que todas as ciências são conjuntos de proposições articuladas entre si, a partir de um princípio. Qual é o princípio último de todo e qualquer saber?

Até Hegel, a Filosofia e os sistemas filosóficos pensaram a partir do princípio da identidade. Princípio, como vimos,  é aquilo de que alguma coisa depende de algum modo. É o princípio do qual depende todo e qualquer conhecimento, toda e qualquer ontologia e toda e qualquer epistemologia. Até Hegel, toda leitura da realidade se funda, em última instância, no princípio de identidade, para o qual ler adequadamente e verdadeiramente a realidade é identificar as coisas. Identificando as coisas nós as conhecemos e temos delas e do mundo uma leitura correta. O princípio de identidade é fundador da ontologia, mas é também um princípio epistemológico, ou princípio fundante do conhecimento. O conhecimento consiste na elaboração de conceitos, de proposições que identifiquem a verdade do objeto. 

Para  Hegel, isso levou a uma situação de conflito insuperável, a um dualismo equivocado, alguns priorizando o sujeito na relação cognitiva, outros o objeto.  A verdade está mais no sujeito do que no objeto ou a verdade está mais no objeto do que no sujeito.  Tudo isto é um equívoco, por princípio.  O princípio constitutivo último do ser (de todas as coisas) e do pensar ontologia e epistemologia — não é a identidade mas é a contradição.  No princípio da identidade o que é é, o que não é não é.  Ou, dito de outra forma, o princípio da identidade é o princípio da não contradição.  Uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto aquilo que ela é. 

Até agora, diz Hegel, toda Filosofia partiu, seja na construção da sua leitura, da sua ontologia, no seu discurso globalizante da realidade, fundada no princípio da identidade,  buscando identificar para diferenciar as coisas e articulá-las entre si. Conhecer é ir em busca da essência que identifica cada coisa.  Mas, para Hegel, o princípio último do ser e do pensar não é a identidade, mas a contradição. Princípio este que se enuncia da seguinte forma: uma coisa é e não é ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto, aquilo que ela é.  Este é o princípio último, fundante do nosso ser e do nosso pensar. É o fundamento último do nosso pensamento se nós queremos a verdade.

Por exemplo, uma coisa é eu dizer "eu sou uma pessoa que vivo tais contradições" ou que "tenho tais contradições, tais problemas, tais conflitos";  outra coisa é eu dizer, como propõe Hegel: "eu sou as minhas contradições".  Ao dizer que "eu sou uma pessoa que tem contradições", eu estou referenciado pelo princípio da identidade, estou falando de uma essência pessoal, de uma existência bem definida, de uma identidade que é a minha personalidade. Ao dizer, "eu sou uma pessoa", eu já estou identificando o ser que tem tais contradições.  Essas contradições parecem ser acidentais, contingentes.  Mas, ao dizer, com Hegel,  "eu sou as minhas contradições", as minhas contradições me definem, porque a contradição é o princípio definidor das coisas.  Definidor enquanto constituinte.  A contradição é o princípio constituinte das coisas. 

Por exemplo, eu posso conhecer esta Universidade e este Instituto onde estou, no momento,  de várias formas. Se eu sou funcionalista — vejam como é uma questão teórica — eu vou lá no organograma e vejo que tem o Diretor, o chefe do departamento, os cursos, os coordenadores dos cursos.  Eu vou ver lá no organograma como é que se distribui o poder formal, legal, estatutário, embora nem sempre o exercício desse poder seja conforme o organograma.  Mas, formalmente, o poder está lá.  Isto é uma leitura.  Mas, alguém pode dizer assim: o Instituto de Biociências é a vida que internamente pulsa nesta instituição.  O Instituto são os conflitos, são as tensões do poder. Isto é outra leitura, uma leitura dialética. Compreender as contradições que constituem este Instituto é conhecer de forma diferente. Portanto, dependendo dos paradigmas por meio dos quais nós enfocamos um objeto, nossa compreensão deste objeto muda. 

Para Hegel, para Marx, para os neo-hegelianos e os neo-marxistas, a dialética como princípio do ser e do pensar avança em relação a tudo quanto se disse antes. Nas concepções anteriores, os filósofos supõem ou pressupõem o sujeito já constituído na sua essência. Baseado num pensamento metafísico tradicional, esses teóricos acham que existe uma essência humana universal, única, comum a todos os homens desde ontem, hoje e sempre. O sujeito do conhecimento, que é o homem, desde a civilização primeira até hoje, já é um ser constituído na sua essência. Varia pelas contingências do tempo e da cultura, mas essencialmente ele é um só.  Da mesma forma, o mundo para eles já está pronto, definido e acabado na sua essência. E isso é um equívoco, diz Hegel.  Porque o homem não é um ser pronto, definido e acabado, pelo contrário, é um ser que está se fazendo, no tempo e na história. Da mesma forma o mundo, a natureza, está em processo de vir a ser.  O processo do vir a ser é constituinte de todas as coisas e não o ser.  Tudo está vindo a ser  porque ainda não é. Cada um de nós cada dia vive mais e morre mais.  Assim também  a realidade total, seja a realidade humana, seja a dos animais, seja a da natureza,  está num processo de vir a ser algo mais do que já é e já foi. 

Hegel tem uma visão positiva e otimista desse vir a ser.  Para ele o mundo caminha para uma plenitude, para a plena manifestação do que de humano existe na humanidade.  É a plena humanização do homem; é a plena naturalização da natureza.  É a plenitude ainda não alcançada do homem e da natureza.  Mas essa plenitude só se dará quando o homem compreender a totalidade da natureza e se perceber como um ser da natureza, entendendo-se na totalidade, na plenitude da sua humanidade.  A história é o processo de humanização e naturalização do homem e da natureza. A verdade está nas contradições que constituem o objeto num dado momento do seu vir a ser:  eu sou e eu não sou um menino de cinco anos hoje. Isto significa que o passado me compromete no sentido de que ele é um momento constituinte do meu presente.  Cada momento nega e afirma ao mesmo tempo.  Tudo é e não é ao mesmo tempo aquilo que é.  Então o meu presente é uma síntese de todo o passado e é uma antítese em relação ao passado e futuro.  Este processo de tese, antítese e síntese, que não vamos nos aprofundar aqui, é o princípio do ser. 

Na verdade, realismo e idealismo são concepções equivocadas e antepostas.  Todo mundo é realista e idealista, só que há também uma dialética do sujeito e do objeto.  O conhecimento dialético consiste justamente em perceber isso: à medida que eu vou conhecendo o mundo, o mundo vai chegando a mim e me transformando.  Há uma interação: eu não sou o mundo, o mundo não é eu. Esta interação entre cada um de nós e o mundo é constituinte da nossa vida, da nossa ontologia, da nossa epistemologia.

 

 

* Transcrição de palestra proferida a pós-graduandos das disciplinas de Pedagogia Médica e Didática Especial dos Cursos de Pós-Graduação da Faculdade de Medicina da UNESP, campus de Botucatu, em agosto de 1996. Correções e adaptações feitas pelo autor.

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