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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versión impresa ISSN 1414-3283versión On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.1 no.1 Botucatu agosto 1997

https://doi.org/10.1590/S1414-32831997000200021 

NOTAS BREVES

 

Jornalismo, saúde e cidadania

 

 

Bernardo Kucinski

Departamento de Jornalismo e Editoração Escola de Comunicações e Artes/USP

 

 

O projeto Jornalismo, Saúde e Cidadania, apoiado pela Fundação MacArthur, tem como objetivo principal a formação de quadros jornalísticos habilitados para a cobertura dos problemas de saúde pública e reprodutiva nos meios de comunicação de massa. O público primário do projeto são estudantes de jornalismo em fase de conclusão de curso, mas o projeto está aberto a estudantes de outras ciências sociais, áreas médicas e paramédicas, farmácia e biologia.

O núcleo do projeto é  a implantação de uma disciplina regular "Jornalismo, Saúde e Cidadania, no curso de graduação de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da USP, como parte do rol de disciplinas optativas desse curso. A ECA é vista pelo conjunto das escolas de jornalismo, públicas e privadas, como uma instituição exemplar e sinalizadora.

O curso terá como critérios:  a) despertar o interesse do aluno nesse campo específico; b) desenvolver a capacidade crítica do aluno; c) transmitir e discutir os conceitos fundamentais relacionados às principais doenças emergentes e re-emergentes, endêmicas e epidêmicas e à saúde reprodutiva; d) pesquisar  e listar  conjuntos de fontes, dados de referência e especialistas nos principais temas do curso.

Apesar da relevância da temática Saúde e do crescente interesse pelos problemas da saúde coletiva e saúde reprodutiva por parte dos meios de comunicação de massa, não existia no currículo de nenhuma das mais de 60 escolas de comunicação e jornalismo do país, uma disciplina regular dedicada à saúde pública. Em nível de pós-graduação existem poucos projetos localizados em cursos de comunicação e um número um pouco maior de iniciativas — quase sempre na forma de cursos de extensão — localizadas na área médica, na qual é crescente a preocupação com o papel da informação e da mídia nas campanhas e ações educativas e promotoras da saúde, e na formação de uma consciência crítica no campo da saúde reprodutiva.

Uma disciplina em nível de graduação, normalmente, faria parte do rol de disciplinas optativas que devem constituir uma parte da  carga do curso de graduação, em geral da ordem de um terço da carga horária. No entanto, as opções em geral à disposição do aluno refletem ou temáticas dominantes nos anos 70, tais como "jornalismo sindical", ou temáticas fortemente inspiradas no neo-liberalismo, tais como "jornalismo empresarial". As disciplinas optativas que mais se aproximam das questões de saúde coletiva seriam "jornalismo científico" e "jornalismo e meio ambiente, nenhuma das quais se dedica especificamente aos problemas de saúde pública como tais. Com a alocação de maiores espaços aos problemas da saúde pública nos meios de comunicação após a eclosão da pandemia da AIDS, a ponto de alguns veículos terem criado seções regulares dedicadas à saúde, o ponto de estrangulamento na disseminação da problemática da saúde pública está óbviamente na preparação dos quadros jornalísticos equipados para ocupar esses espaços com mais competência e criatividade dentro de uma visão social e crítica.

Tanto o jornalismo que é uma práxis localizada no espaço público referendada por uma ética de interesse público, como a comunicação em geral, esta atuando em todos as interfaces da sociedade, têm papéis centrais e específicos na promoção da saúde. O jornalismo, ao desvendar as políticas  públicas de saúde, vigiar e denunciar. A comunicação, por meio das assessorias, das campanhas institucionais e das ações de promoção da saúde, ao levar, de forma mais ampla e às camadas mais pobres da população, o conhecimento preventivo, a informação, a educação sobre a saúde e problemas emergentes de saúde púbica, em especial os relacionados às drogas, à AIDS, à saúde reprodutiva e às doenças da terceira idade. Como sabemos, a falta de conhecimento é ainda um dos fatores implicados na emergência e reemergência de doenças infecciosas.

A formação de quadros jornalísticos habilitados na área da saúde envolve questões de linguagem, pois parte substancial dessa população informa-se pela linguagem oral da televisão. Adicionalmente, a própria ênfase dada às novas doenças, especialmente à AIDS, fez com que caíssem num relativo equecimento endemias que sempre afetaram importantes parcelas da população mais pobre, tais como a Esquistossomose, Mal de Chagas, Hanseníase.

Nossa experiência no ensino de jornalismo, mostra que a oferta na grade curricular de uma disciplina optativa específica (tal como "Jornalismo Econômico", ou "Jornalismo e Política Internacional "), gera um processo de atração e de especialização dos futuros jornalistas nessas áreas, já a partir dos temas e projetos de pesquisa ou de vídeo que os alunos escolhem como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). A existência dessa disciplina também influi nas escolhas de outras disciplinas optativas, em outras unidades, no caso da USP, ao montarem o que o nosso currículo designa como "campo complementar", um conjunto de disciplinas de qualquer área do conhecimento, que sejam consistentes entre si e possuam potencial formativo, referendadas por um professor-orientador do curso de jornalismo.

 

O PROJETO

A primeira disciplina do projeto foi implantada na pós-graduação, no primeiro semestre de 1997, como espaço interdisciplinar de reflexão sobre os conceitos básicos da  saúde coletiva e direitos reprodutivos, sob a ótica da cidadania e, portanto, com implicações diretas na práxis jornalística e da comunicação. Foi denominada "Jornalismo, Cidadania e Novos Sujeitos de Direitos: direitos reprodutivos". Atraiu grande número de pós-graduandos das áreas da comunicação, enfermagem, medicina e também integrantes de movimentos feministas. Trata-se de uma experiência ainda em curso e que deverá sofrer consideráveis mudanças em razão do balanço dos resultados alcançados. Verificou-se, já nesse primeiro curso, que os alunos oriundos das áreas de comunicação e jornalismo desconhecem quase totalmente a temática dos direitos reprodutivos e os enfoques de gênero. O curso deverá ser oferecido a intervalos regulares.

A etapa principal, com início no segundo semestre de 1997 é a da implantação da disciplina regular optativa dedicada à saúde pública e reprodutiva  no curso de graduação de jornalismo. A disciplina será oferecida simultaneamente no matutino e no noturno, objetivando uma análise comparativa, pelo desenvolvimento de diferentes metodologias.  O curso regular será depois oferecido a cada dois anos, ou todo ano, conforme a demanda e o número ideal de alunos por classe que a experiência determinar.

O curso de extensão será oferecido numa terceira etapa, na USP e, também, em outras regiões do país, por meio de convênios com outras universidades públicas, conforme já se fez com o curso de extensão em Jornalismo Econômico. A programação exata desse curso vai depender das circunstâncias de sua implantação, número de horas-aula, público alvo, e localidade. Em princípio, deverá contar com um número maior de profissionais de saúde.

A última etapa do projeto consiste na elaboração e publicação de um manual de orientação e referência sobre os problemas da saúde pública e reprodutiva para uso em cursos de jornalismo e de comunicação social, e entre profissionais dos meios de comunicação. Esse manual procurará tratar do desenvolvimento de linguagens jornalísticas mais eficazes na disseminação de conhecimentos preventivos junto às populaçõs de baixa renda, sobre os problemas da saúde pública e reprodutiva, da AIDS, drogas, gravidez precoce e indesejada, aborto, assim como das doenças endêmicas e das infecções que atingem especialmente os recém-nascidos e crianças.

Para atingir todos os objetivos, o projeto prevê realização de viagens por todo o país, localizando temas e situações de interesse jornalístico na área da saúde coletiva e dos direitos reprodutivos, além da compra de equipamento de vídeo para a realização de trabalhos de conclusão  de curso que utilizem a linguagem de vídeo.

 

 

Projeto financiado pela Fundação MacArthur.
 (Implantação de disciplinas em cursos de jornalismo, para a formação de quadros habilitados para a cobertura dos problemas de saúde coletiva e saúde reprodutiva.)

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