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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versión impresa ISSN 1414-3283versión On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.3 no.4 Botucatu feb. 1999

https://doi.org/10.1590/S1414-32831999000100021 

ESPAÇO ABERTO

 

AIDS (por exemplo): o que quer dizer "eu tenho informação"?

 

 

Fernando Lefévre

Professor Associado da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo - USP

 

 

No que toca à AIDS (não por ela, em si, mas porque a síndrome dá mais visibilidade ao tema) ouve-se e lê-se, com freqüência, de bocas e penas supostamente autorizadas, que a população, aqui e alhures, já tem informação, que já sabe o suficiente; mas que, a despeito disso, a epidemia não pára de crescer.

Daí tiram-se conclusões: é preciso fazer mais e outras coisas, como por exemplo, distribuir gratuitamente ou vender camisinhas a baixo custo etc.

Não se costuma parar para pensar no quanto de arrogância sanitária ou epidemiológica tais afirmações e conclusões carregam: para essas cabeças emissoras o mundo saudável é e só pode ser aquele dirigido por e/ou integralmente submisso à lógica sanitária ou epidemiológica do: se não me obedecer, morre.

Graças a Deus, que (como atesta o mito bíblico - não o televisual - da Torre de Babel) nos fez diferentes, o leigo não-sanitário-epidemiólogo além de saber que não se pega AIDS na piscina ou no aperto de mão e, sobretudo, usando camisinha, também sabe (para a infelicidade do sanitarista epidemiólogo) que a camisinha, com sua inevitável plastificação da carne, é um inequívoco signo de desconfiança que, além de inviabilizar, necessariamente macula uma relação humana como a conjunção carnal, que só pode ser decente se baseada justamente na confiança.

Mas será esta última informação considerada, oficialmente, um saber?

Qualquer que seja a resposta oficial a esta questão resta o fato de que a camisinha é, também, doença. Afinal, podem os homens ser considerados sadios quando, em atividade sexual, tiverem, sempre, em todas as circunstâncias, usando camisinha e, portanto, sempre e em todas as circunstâncias, como se preconiza, desconfiando uns dos outros? É este o mundo sadio dos sanitaristas e epidemiólogos?

A partir do exemplo da AIDS, cabe, então, a pergunta: quando se trata de saúde e doença, o que quer dizer: informação ou estar informado?

Uma resposta adequada a esta questão, creio, tem a ver com o modelo de informação adotado. Nesta linha parece que podemos confrontar dois modelos antagônicos:

a) o modelo que pressupõe uma comunicação vetorizada, do centro, locus do saber técnico científico, em direção à periferia, locus do não saber ou do saber desqualificado;

b) o modelo onde a informação não é vetorizada mas trocada, nas diversas "arenas" existentes (na Internet por exemplo, porque não?) e vista como insumo imprescindível para que se possa enfrentar, sem hipocrizia, como em uma psicanálise coletiva, as chagas, os problemas, as dificuldades que, como todos sabemos, estão na raiz de quase todos os nossos males, do corpo e do espírito.

O que nos une como seres humanos são nossas mazelas coletivas, das quais jamais conseguiremos dar conta enquanto as sociedades forem baseadas no poder (da grana, do "tresoitão" ou do saber sanitário, pouco importa) de uns sobre outros. Em matéria de informação para a saúde, ou todos sabemos, sem qualquer prejulgamento sobre nossos respectivos saberes, ou estaremos entrando, de cheio, na era da barbárie high-tech.

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