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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

On-line version ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.3 no.4 Botucatu Feb. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-32831999000100022 

CRIAÇÃO

 

Projeto Internos: a fotografia no hospital

 

 

Haná Vaisman

 

 

"O mundo é um imenso Narciso ocupado no ato de se pensar:
onde ele se pensaria melhor que em suas imagens?"
(Gaston Bachelard a respeito de Joaquim Gasquet, em "A Água e os Sonhos")

Todos nós já nos divertimos com essa cena: num local de interesse turístico, um grande ônibus pára. Descem, então, quarenta apressados indivíduos que sacam suas câmeras fotográficas e registram uma imagem. Entram novamente no ônibus, que arranca deixando atrás de si a paisagem vazia.

Como não há tempo, a fotografia surge como um recurso para a contemplação tardia, uma prova de que se esteve lá, permitindo ao autor que se detenha e observe com distanciamento aquilo que o impressionou. Fazer uma foto é uma tentativa de se apropriar do mundo, de ter consigo um pedaço dele. De posse da fotografia é como se descobríssemos detalhes e expressões que seriam invisíveis a "olho nu".

Não apenas a imagem produzida tem valor. Fotografar inclui uma ação que freqüentemente valoriza o acontecimento que é objeto da atenção do fotógrafo. Muitas das películas impressionadas não são jamais entregues para serem reveladas e entre as que são confiadas a um laboratório, uma proporção considerável não é retirada. O ato de fotografar contribui, sozinho, para transformar o acontecimento em algo excepcional e aquele que fotografa ganha um lugar especial no seio do acontecimento. Diane Arbus, fotógrafa americana com um trabalho pioneiro na década de setenta, ao fotografar tipos considerados "bizarros", dizia: "há um tipo de poder em uma câmera. Todos sabem que você tem alguma vantagem. Você está carregando uma mágica suave, que lhes faz alguma coisa. É como se os arrumasse."

Tendo como pilares essas duas conceituações a respeito da fotografia, idealizei o projeto "Internos". Propus-me a acompanhar, durante o estágio em Clínica Médica que fariam no Hospital das Clínicas, um grupo de alunos de quinto ano da Faculdade de Medicina da USP. O Internato é um momento fundamental na formação do médico. Representa um aumento de "status" e de responsabilidades; há uma grande carga de informação, nem sempre suficientemente assimilada; o contato com o paciente passa a ser constante e a vivência no ambiente hospitalar, central.

Durante três meses fiz visitas às enfermarias e ao ambulatório, fotografando momentos diversos dessa vivência. Fazia uma primeira edição do material e procurava um horário na agenda repleta dos alunos para discutirmos o resultado das imagens. Foram eles que fizeram a segunda edição das fotos, escolhidas para exposições periódicas.

As reações às imagens eram quase sempre coletivas, carregadas de risadas e comentários divertidos. Uma mistura de encanto e admiração, a surpresa de descobrir-se nos registros. Alguns verdadeiramente conversavam com as fotos, explorando cada detalhe e expressão.

Nessas ocasiões pudemos conversar a respeito de temas que as fotos evidenciavam, geralmente negligenciados na formação do aluno, como questões éticas, emocionais e subjetivas a respeito desse momento de suas vidas. A fotografia propiciou ao aluno um distanciamento do dia-a-dia, trazendo a representação da realidade que vive mas sobre a qual tem poucas vezes oportunidade ou possibilidade de refletir. Assim, criou-se uma abertura para que emoções e sentimentos cotidianos ligados à prática médica pudessem ser percebidos e compartilhados de uma maneira original e espontânea.

Formou-se um corpo de imagens de uma experiência que permanecia, até agora, apenas na memória daqueles que a vivem intensamente. Os próprios personagens das fotografias foram convidados a formular as legendas, o que se revelou a essência do projeto "Internos": resgatar, externar e compartilhar o que fica escondido. Enxergar o que não se vê e escutar o que não se fala.

O resultado dessa experiência está em mais de 300 imagens e outros tantos depoimentos que deverão em breve ser publicados em um livro. Como alguns povos primitivos já nos diziam, fotografias podem, sim, capturar a alma dos retratados.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Haná Vaisman é médica psiquiatra da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e fotógrafa.