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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versão On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.4 no.7 Botucatu ago. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-32832000000200018 

TESES

 

Mulheres e homens alcoolistas: um estudo comparativo de fatores sociais, familiares e de evolução

 

 

Maria Odete Simão

Dissertação de Mestrado, 1999. Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo

 

 

O alcoolismo afeta cerca de 5% das mulheres e 15% dos homens na população brasileira acima de 15 anos de idade e na maioria dos países ocidentais. Apesar de os estudos enfocarem predominantemente o alcoolismo masculino, pesquisas têm mostrado mudança na proporção de ocorrência de alcoolismo em homens e mulheres, em uma variação de 14:1 até 2:1. Segundo alguns autores, as razões levantadas para tentar explicar as diferenças no padrão de ingestão entre homens e mulheres se baseariam nos seguintes fatores: os homens começam a beber com menor idade; há uma repressão social e cultural para que as mulheres não bebam em excesso (uso nocivo ou problemático); mesmo aquelas que costumam beber em excesso, procuram esconder esse fato; há diferenças orgânicas importantes como: peso corporal menor, maior quantidade de tecido adiposo, menor massa muscular e menor volume de água corpórea, menor quantidade de enzimas metabolizadoras de álcool, além de outras variações no metabolismo e as flutuações hormonais (tanto próprias das funções fisiológicas reprodutivas, como decorrentes da ingestão de anticoncepcionais e/ou das terapias de reposição hormonal). A literatura discute o efeito de atitudes culturais tolerantes, que fazem do "beber" ou consumir drogas uma conduta ligada ao sexo masculino. Considera, de forma pertinente, que normas, valores, atitudes e expectativas podem ser tão ou mais importantes que as diferenças biológicas entre os sexos, para diminuir o padrão de consumo e suas conseqüências. As mulheres estariam ingerindo bebidas alcóolicas por um período igual ao dos homens ao longo da história e, em certas culturas, tão freqüentemente quanto eles. Destaca, portanto, a necessidade de ampliar o enfoque transcultural para compreender melhor os diversos papéis da mulher frente ao álcool. Esse estudo descreveu, analisou e comparou o perfil de pacientes alcoolistas, com base no gênero e segundo variáveis sócio-demográficas e econômicas, história do uso de álcool, relacionamento familiar e evolução dos pacientes que procuraram tratamento. Para tanto contou-se com 171 alcoolistas, 114 homens e 57 mulheres inscritos no Programa de Alcoolismo do Ambulatório de Psiquiatria da Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP, no período de 1990-94. Utilizou-se para a coleta dos dados, um questionário semi-estruturado e um instrumento padronizado para avaliação da gravidade da Síndrome de Dependência do Álcool - "Short Alcohol Dependence Data" - SADD. Quanto às características sócio-demográficas, 56,1% das mulheres e 57,0% dos homens tinham entre 30 e 44 anos; 21,1% das mulheres e 6,1% dos homens eram analfabetos, com renda familiar entre dois a três salários mínimos (57,4% das mulheres e 46,3% dos homens). Os principais resultados mostraram que embora a maioria residisse com familiares, a estrutura familiar estava comprometida, com relacionamento difícil (55,6% das mulheres e 65,7% dos homens). A violência familiar foi detectada em 74,1% das mulheres e 61,1% dos homens. O agressor, na maioria das vezes, era um familiar (o cônjuge) em 42,9% das mulheres e 29,6% dos homens. Em relação ao uso de álcool, as mulheres iniciaram a ingestão mais tarde que os homens, em geral com seus cônjuges, enquanto estes o fizeram mais cedo sozinhos (79,8%). Não houve diferença de evolução ao tratamento entre os gêneros. O principal fator determinante da melhor resposta ao tratamento foi o nível de gravidade de dependência: dependentes leves e moderados apresentaram mais chances de melhorar do que quem o iniciou com dependência grave.