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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versión impresa ISSN 1414-3283versión On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.5 no.8 Botucatu feb. 2001

https://doi.org/10.1590/S1414-32832001000100024 

CRIAÇÃO

 

Projeto Pegapacapá: saúde, cultura e reprodução no agreste pernambucano*

 

Pegapacapá project: Healthcare, culture and reproduction in the hinterlands of the state of Pernambuco (Brazil)

 

 

Otávio Valença

Pesquisador da CPEx, FCM/ UPE, coordenador geral do Projeto. <otaviovalenca@ig.com.br>

 

 


Palavras-chave: Educação em Saúde; doenças sexualmente transmissíveis; promoção da saúde.


Key words: Healthcare Education; sexually transmitted diseases; health promotion.


 

 

Em Pernambuco, assim como em vários lugares no Brasil, a cultura popular é parte intrínseca da vida da maioria dos cidadãos. Este fato é ainda mais evidente nas camadas pobres da população e entre os excluídos. Nada melhor, portanto, do que se utilizar da cultura popular para educar e informar essas populações, onde a cultura apresenta fortes diferenças em relação ao centro urbano.

Este é justamente o objetivo do Projeto Pegapacapá: Saúde, Reprodução e Cultura no Agreste Pernambucano. Trata-se de democratizar o conhecimento sobre doenças sexualmente transmissíveis e AIDS na região do agreste pernambucano, que geralmente fica à margem desse tipo de informação, fazendo-se valer, para isso, de um instrumento eficaz: a própria cultura das pessoas as quais se visa atingir, tendo como base o universo no qual elas vivem.

 

De onde vem o Pegapacapá?

Ocorre anualmente o Festival de Inverno de Garanhuns, patrocinado pela Secretaria de Cultura do Estado, para o qual convergem operadores culturais, inclusive de outros Estados, e seu cancioneiro. No evento de 1995, foi breve e informalmente articulada uma visita do bumba-meu-boi 'O Boi da Macuca' - um grupo cultural típico da região - aos leitos e enfermarias de Clínica Médica e Pediatria do Hospital Geral da cidade. A presença do 'Boi', naquele espaço árido e restrito da prestação de serviços de saúde, desencadeou emoções nas pessoas internadas, expressas em gestos, choros, risadas e palavras de carinho e cumprimento ao 'animal-homem-mito'. Parecia trazer-lhes algo a mais do que a atenção médica estaria oferecendo.

E foi assim que surgiu a idéia de trabalhar este encontro da saúde com a cultura. Através de práticas inovadoras, ao mesmo tempo em que a saúde ganha uma atmosfera mais lúdica, a cultura popular aceita ensaiar um maior pragmatismo e objetivação de seu devir.

O nome "Pegapacapá" é uma articulação fonética utilizada no linguajar popular do Nordeste para expressar constrangimento ou conflito. Pode tanto caracterizar uma situação doméstica, como pública, envolvendo homens ou mulheres. Sua origem etimológica é a expressão "Pega para Capar", ou "Pega pra Capar", provavelmente relacionada ao cotidiano de trabalho na pecuária.

 

Por quê?

A Coordenação do Programa DST/ AIDS do Ministério da Saúde, em recente Boletim Epidemiológico1 confirma um comportamento preocupante: a epidemia HIV/AIDS caminha em direção ao interior do país, atingindo principalmente donas-de-casa heterossexuais casadas, o que destaca o papel dos homens na circulação do vírus.

Além de sugerir fortemente uma desigualdade na eficácia das estratégias de comunicação em prevenção ao HIV no Brasil, os dados revelam a necessidade de uma maior atenção ao interior do país, às comunidades rurais, para onde a interiorização e pauperização da epidemia deverão encontrar no seu trajeto, serviços e pessoas menos capacitadas a enfrentar o problema, além de uma cultura sexual ainda mais distinta das normas institucionais tradicionais de prevenção.

A linguagem dos processos tecnológicos que acionam programas e práticas de saúde, constituídos à revelia do coletivo, expressam o caráter reprodutor de desigualdades no sistema de saúde, sua direção normatizadora e a distância que guarda de elementos fundamentais ao universo social simbólico. A cultura popular não encontra eco nas instituições e o hiato alcança a própria definição dos problemas de saúde passíveis de priorização, tanto pela população, quanto pelos serviços. Este é o problema fundamental que constrói o espaço de atuação do Pegapacapá, um misto de pesquisa e educação em saúde, que utiliza a cultura popular como instrumento e fim.

Graças a esse trabalho de educação em saúde2, o Projeto recebeu da APTA - Associação para Prevenção e Tratamento da AIDS, em parceria com a UNESCO, UNICEF, Programa Estadual DST/AIDS de São Paulo, Coordenação Nacional de DST/AIDS e Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco, o Prêmio Sheila Cortopassi de Oliveira, como melhor projeto na Categoria ARTES CONTRA A AIDS.

 

Para que?

O desenvolvimento de estratégias de prevenção em Saúde Sexual e Reprodutiva localmente adequadas, que privilegiasse os homens, e utilizasse a Cultura Popular como base instrumental, lançou vários desafios à equipe do Projeto, tais como construir instrumentos de investigação dos elementos simbólicos da sexualidade na cultura popular da região; captar os principais problemas ligados à saúde reprodutiva para a população; levantamento de soluções e enfrentamentos no cancioneiro, relativos aos problemas de saúde reprodutiva identificados e finalmente, "intervir" na proposição temática, por meio de grupos de discussão e da produção de trabalhos conjuntos (oficinas) de prevenção em parceria com os operadores da cultura popular.

Em direção às práticas de saúde, o que se procura é constituir um diálogo mais fecundo entre os serviços públicos locais de saúde e a cultura popular, na esfera da Saúde Reprodutiva, pelo incremento à participação popular no processo de tomada de decisões dos serviços e programas locais.

Ao mesmo tempo e não menos importante, abre-se um novo e importante mercado de trabalho para os artistas populares como operadores da saúde, formando-se "multiplicadores" , o que pode garantir maior auto-sustentabilidade ao Projeto.

 

 

Recebido para publicação em: 05/10/00.
Aprovado para publicação em: 07/11/00.

 

 

* Projeto financiado entre 1998 e 2000 pelo Programa de Bolsas no Brasil da Fundação MacArthur, apoiado pela Coordenação de Pesquisa da Faculdade de Ciências Médicas, Universidade de Pernambuco, FCM/UPE.
1 ANO XIII nº 01 - Semana Epidemiológica 48/99 a 22/00 - Dezembro de 1999 a Junho de 2000.
2 Membros da equipe, pesquisadores em Saúde Reprodutiva: Joseane Guedes Corrêa, psicóloga; Márcia Marcondes, psicóloga sanitarista e bióloga, (mcmarcondes@ig.com.br); Simone Brito da Silva, psicóloga sanitarista, (equiser@bol.com.br).

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