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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versión impresa ISSN 1414-3283versión On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.6 no.11 Botucatu agosto 2002

https://doi.org/10.1590/S1414-32832002000200001 

APRESENTAÇÃO

 

 

Já se passaram mais de duas décadas desde o começo da epidemia de Aids. O que parecia, nos primeiros anos, uma emergência à beira da catástrofe, cada vez mais, ao longo da segunda década, foi se mostrando como uma doença grave, mas manejável dentro das possibilidades oferecidas pela tecnologia (especificamente, o desenvolvimento de novos medicamentos) e pela sociedade (a criação de novas formas de organização social e de solidariedade, de diversos tipos, em resposta à epidemia).

Se a resposta social dada à epidemia evoluiu ao longo destes anos, evoluiu também a investigação das dimensões sociais da epidemia de Aids e suas conseqüências na vida das pessoas. Os textos reunidos neste Dossiê especial sobre Aids da revista Interface são fruto desta evolução. Também podem ser considerados como o resultado de um processo de crescimento e maturação no campo da saúde coletiva e das Ciências Sociais, em seu esforço de encontrar respostas para a epidemia da Aids. Este Dossiê é a evidência de que temos caminhado para muito mais além de onde nos encontrávamos há uns 15 anos. Ao contrário da Epidemiologia e das ciências médicas, que foram, por diversas razões, mais rápidas na resposta à epidemia, as Ciências Sociais e Humanas, tanto no Brasil, como em outras partes do mundo, demoraram a encarar a nova ameaça, cercada por todos os lados pela carga pesada da sexualidade e da morte, do fantasma do estigma e pela realidade profunda do medo. Enquanto a resposta da medicina foi, de certa forma, uma resposta solidária perante o sofrimento causado pela epidemia, as ciências humanas pareciam mais tímidas, no início, e mais incertas sobre o tipo de contribuição que podiam dar para o enfrentamento do novo desafio posto pela Aids.

Com o passar do tempo, muita coisa mudou. Ao longo dos anos, o movimento social, que aos poucos se formou em torno da Aids, chamou a atenção para as tremendas dimensões sociais e culturais da epidemia. E, cada vez mais, obrigou as Ciências Sociais e Humanas a encarar suas obrigações na resposta coletiva que a Aids demandava. Partindo de um momento inicial, no qual as investigações das dimensões comportamentais da epidemia, feitas basicamente sob a ótica epidemiológica, dominavam o campo, o olhar das Ciências Humanas se abriu cada vez mais para contemplar os aspectos sociais, culturais e políticos da Aids. Questões de comunicação surgiram como um enfoque central, e uma nova visão do papel da educação em saúde começou a ser construída a partir do trabalho preventivo em relação a essa epidemia.

Os textos reunidos no "Dossiê Aids" da Interface são fruto do intenso desenvolvimento desta área de pesquisa nos últimos anos. São artigos que oferecem uma visão ampla das preocupações teóricas e dos dados empíricos produzidos neste campo. Eles são exemplos de uma nova perspectiva que, cada vez mais, produz insights relevantes, não somente pela investigação da Aids stricto sensu, mas pelo campo da saúde coletiva de uma forma mais ampla. Ou seja, estes textos são exemplos da maneira como as pesquisas feitas sobre Aids alimentam o campo da saúde coletiva como um todo, abrindo caminhos e oferecendo lições relevantes para uma renovação deste campo na atualidade.

O texto de José Ricardo Ayres oferece um exemplo claro deste trânsito entre a Aids e a saúde coletiva de forma mais ampla. Revisando a experiência da educação e prevenção da Aids ao longo dos anos, ele tira quatro lições-chave aprendidas com a Aids: (1) que o terrorismo não funciona; (2) que o risco é um conceito útil, mas limitado; (3) que a prevenção não se ensina; e (4) que nós só podemos constituir nossas identidades a partir de um Outro. Aprofundando uma análise de cada uma destas lições, José Ricardo conduz o leitor na caminhada, às vezes difícil, que tem levado o campo da prevenção a repensar e abandonar as abordagens terroristas das primeiras campanhas lançadas sobre a epidemia, e a se reconstruir de uma outra forma ao longo dos anos, elaborando a noção de vulnerabilidade social perante a infecção pelo HIV, em acréscimo à categoria epidemiológica de risco comportamental. Levando a sério as implicações desta compreensão, o texto dá os primeiros passos na construção de uma hermenêutica da saúde coletiva, em que a construção dialógica das subjetividades substitui a educação vertical que historicamente dominou o campo da educação em saúde. A intersubjetividade, compreendida como um processo dialógico, abre novas possibilidades para uma política de prevenção verdadeiramente emancipadora, na qual as falsas promessas de abordagens mais técnicas (com os seus "públicos-alvo" e "teorias de mudança de comportamento") são desmascaradas.

Um caminho semelhante é percorrido por Vera Paiva em seu texto sobre a emancipação psicossocial na prevenção e cuidado em HIV/AIDS. Partindo da necessidade de politizar o trabalho e o discurso sobre a prevenção e a educação, o texto de Vera procura operacionalizar o conceito da vulnerabilidade por meio do que ela chama de "emancipação psicossocial". Rejeitando o mercado privado da saúde individual, em que as pessoas se tornam meros consumidores de serviços de prevenção e assistência, ela propõe a construção da noção de "sujeito-cidadão" como elemento-chave para uma saúde coletiva. Tal proposição parte da compreensão do continuum entre prevenção e assistência, na medida em que a prevenção da Aids depende também do tratamento e dos cuidados com quem vive com a doença. Com este movimento analítico, o texto retoma a discussão sobre a ética de solidariedade, como fundamento para qualquer ação em saúde coletiva, e aponta para os possíveis caminhos de uma investigação verdadeiramente solidária no futuro.

Estas mesmas preocupações encontram ressonância no texto de Angélica Fonseca sobre a prevenção das DST/AIDS no ambiente escolar. Examinando a maneira como as necessidades da Aids obrigaram o sistema escolar a reconsiderar a importância da educação sexual, o texto de Angélica nos remete para uma reflexão sobre a tensão que existe entre uma abordagem cujo objetivo é "corrigir" os desvios do comportamento humano e uma perspectiva que enxerga, nas práticas educacionais libertadoras, o único caminho que leva, de fato, para uma prevenção eficaz e verdadeira da Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis. Mas a construção da liberdade passa, segundo o trabalho de Angélica, pela desconstrução das categorias estanques que organizam a sexualidade no cotidiano da vida social. Para tanto, a autora realça a sexualidade como uma construção social, fruto das interações humanas, em contraposição às abordagens essencialistas ou naturalistas da sexualidade, que a reificam como produtos da natureza humana.

Os ecos destes três textos mais teóricos irão ressoar nos dois textos mais empíricos deste Dossiê: o texto de Daniela Knauth, Regina Maria Barbosa, Kristine Hopkins, Marion Pegorario e Regina Fachinni sobre a cultura médica e decisões reprodutivas de mulheres soropositivas em São Paulo e Porto Alegre, e o texto de César Ernesto Abadia-Barrero sobre a cultura das casas de apoio para crianças vivendo com Aids no estado de São Paulo. Justamente por causa de suas temáticas (mulheres vivendo com HIV e lutando com as difíceis decisões de como e quando ter filhos, e crianças vivendo com HIV e se transformando em adultos, possibilidades até há pouco tempo descartadas da realidade de uma doença tida como inevitavelmente fatal, tanto social, como biologicamente), estes dois textos chamam nossa atenção para o modo como construímos nossas premissas (ou pressuposições) sobre uma epidemia que, hoje, parece evoluir mais rapidamente que nossa capacidade de acompanhá-la. No texto sobre decisões reprodutivas, as autoras mostram, com clareza, a dificuldade que existe para a Medicina e os médicos deixarem de lado seu domínio da verdade para dialogar verdadeiramente com o paciente, e os danos que esta incapacidade de diálogo pode causar na vida das pessoas. E no texto sobre as casas de apoio para crianças vivendo com HIV, o autor demonstra como a crescente sobrevida, e, portanto, a transformação de crianças em adolescentes, levanta, nos diversos contextos em que os cuidados são realizados, a pesada bagagem de idéias e estereótipos que ainda carregamos conosco em nosso encontro com a complexidade e as contradições levantadas pela epidemia.

Ao reunir estes textos, este Dossiê oferece uma bela visão do tipo de questão posto em discussão nas Ciências Sociais e Humanas pela epidemia de Aids hoje. Os artigos traçam as linhas de uma epistemologia de solidariedade e de uma política da construção do saber que constituem uma contribuição fundamental, não somente para nosso entendimento e compreensão da Aids, mas para o campo da saúde coletiva como um todo. Eles nos lembram que já se avançou muito em nosso confronto com a epidemia, mas que também temos ainda muito por fazer. Este Dossiê chama-nos a todos para um diálogo capaz de construir práticas de saúde pública verdadeiramente democráticas.

 

Richard Parker
Professor Titular e Chefe do Departamento de Ciências Sociomédicas
Escola da Saúde Pública, Universidade de Columbia
<rparker@alternex.com.br>

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