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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versión impresa ISSN 1414-3283versión On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.6 no.11 Botucatu agosto 2002

https://doi.org/10.1590/S1414-32832002000200012 

DEBATES
DEBATEDORES

 

Medicina Baseada em Evidências: "novo paradigma assistencial e pedagógico"?

 

Evidence Based Medicine: "a new paradigm for teaching and the provision of care?"

 

 

Luiz Augusto Facchini

Professor do Departamento de Medicina Social da Universidade Federal de Pelotas/ UFPel; Secretário Municipal de Saúde de Pelotas. <lfachini@zaz.com.br>

 

 

DESAFIOS NA TRANSFORMAÇÃO DA PRÁTICA MÉDICA

O texto de Castiel e Póvoa é uma excelente contribuição ao debate sobre a crise da prática médica contemporânea e suas alternativas de superação.

A Medicina do século XIX foi fortemente marcada pela valorização da experiência clínica e da erudição médica, enquanto cresciam os recursos tecnológicos. No século XX, houve uma clara inversão dessa relação. Novas drogas e novos procedimentos diagnósticos e terapêuticos começaram a se incorporar ao cotidiano da prática médica cada vez mais rapidamente (Entralgo, 1978; Piñero, 1982). No século XXI a Medicina continua vivendo intensamente o impacto da revolução científico-tecnológica. A genética, os sofisticados meios diagnósticos por imagem e a revolução provocada pela indústria da informática, estão trazendo grandes mudanças no modo de exercer a profissão (Tosteson et al., 1994).

Vivemos o desenvolvimento de uma ciência que se destaca por transferir a racionalidade médica, de modo cada vez mais aperfeiçoado, para os equipamentos. A possibilidade de chegar a um diagnóstico por meio da semiologia clínica como linguagem mediadora, hoje também está ao alcance das máquinas. Este desenvolvimento tornou possível a realização de diagnósticos sem a intervenção do médico e a definição de condutas também sem o seu auxílio (Tosteson et al., 1994). Nos próximos anos, estes fatos se tornarão ainda mais comuns. Isso significa que parte do trabalho médico poderá ser executado por máquinas, principalmente as tarefas mais estruturadas e que possam ganhar eficácia mais facilmente ao utilizar a tecnologia em desenvolvimento.

O mais surpreendente neste início de século é o contraste existente entre o fantástico desenvolvimento instrumental da Medicina, o avanço e a disseminação de sua capacidade diagnóstica e terapêutica, a crise estrutural da formação de médicos e dos modelos de assistência à saúde. A fragmentação da Medicina, em um processo incessante de especialização e ruptura de suas tradicionais características de atividade artesanal, tem contribuído para o esvaziamento do ato médico, enquanto arte de cuidar de pessoas (Piccini et al., 2000). Esta fragmentação propicia uma incorporação irracional de tecnologias e insumos e, assim, o incremento crescente dos custos para o sistema de saúde. A ampliação do acesso da população aos serviços de saúde, sem o correspondente aumento da satisfação dos usuários e de impacto positivo nos indicadores de qualidade da atenção médica, acaba tornando-se uma prática ineficiente (Dias da Costa, 2002).

Muitas alternativas pedagógicas e assistenciais têm sido propostas para enfrentar a crise, sendo algumas, como por exemplo, a Medicina baseada em evidências (MBE), divulgadas como novos paradigmas científicos (Sackett et al., 1997). Integração do ciclo básico com o profissionalizante, ensino em tutoria para pequenos grupos, aprendizado baseado em problemas, cuidados médicos gerenciados e inserção em atividades clínicas desde o início do curso também integram o conjunto de propostas dirigidas à reforma dos currículos médicos e, em conseqüência, à transformação da prática assistencial (Tosteson et al., 1994).

A superação da crise da Medicina requer a utilização de todo o arsenal técnico-científico disponível, incluída a MBE. Mas, dificilmente a utilização da MBE canalizará as transformações capazes de superar a crise da prática médica, caso suas raízes estruturais permaneçam intocadas. A relevância dos recursos da MBE é indiscutível, mas não há protocolo capaz de tornar um médico mais receptivo e acolhedor às demandas dos pacientes, caso não ocorra uma revolução do paradigma médico, hoje fortemente vinculado à prescrição de medicamentos e exames complementares e ao encaminhamento a outro nível de complexidade do sistema de saúde.

Por exemplo, a padronização de medicamentos baseada em evidências clínicas e a ampliação do acesso aos serviços ambulatoriais de saúde mental são instrumentos essenciais para a boa prática em saúde, mas não são suficientes para diminuir o número de indivíduos que usam regularmente medicação psicotrópica, sem necessidade. Ao contrário, podem acabar estimulando o uso da medicação, caso a facilidade de acesso seja desacompanhada de uma qualificação do cuidado. A tomada de decisão médica baseada em evidências clínicas (ou epidemiológicas) não assegura a transformação da prática médica e a qualidade do sistema de saúde (Brook, 1997; Márquez, 1990). Logo, a disponibilidade de evidências não altera a lógica da atenção à saúde, a menos que seja incorporada como um dos instrumentos da reorganização das práticas de saúde, incluindo reformulações estratégicas do sistema de saúde e da formação dos profissionais (Dias da Costa, 2002).

Portanto, a superação da crise requer um novo paradigma assistencial capaz de reorganizar o trabalho médico, oportunizando ao profissional a atualização permanente sobre os recursos diagnósticos e terapêuticos disponíveis, mas, principalmente, a compreensão complexa do sofrimento do paciente. O novo paradigma deve reforçar a responsabilidade do médico em acompanhar e cuidar do usuário em sua trajetória na busca de cura ou alívio para seus sofrimentos.

O novo paradigma assistencial deverá solucionar os conflitos de um modelo de prática médica que, além de caro e crescentemente oneroso, é avaliado como inadequado às necessidades de saúde da população e às possibilidades econômicas de financiamento. Recursos como a MBE e os Cuidados Gerenciados de Saúde (Health Managed Care), apesar de valiosos, não solucionam a crise da prática médica, assim como o aprendizado baseado em problema e o ensino por tutoria, não solucionam a crise da formação médica (Brook, 1997).

A crise não será superada através de padronização do raciocínio clínico e uso de recursos diagnósticos e terapêuticos. A superação da crise requer a qualificação da prática médica, a valorização de seu caráter mais humanizado, mais particular, mais artesanal: a relação do médico com seu paciente e com sua comunidade. A reestruturação da prática médica deverá reforçar a percepção do profissional sobre os limites da intervenção medicamentosa e dos procedimentos armados, e sobre as possibilidades de ampliar o cuidado médico, incluindo as características do indivíduo, de sua família e de sua comunidade para lidar melhor com o sofrimento humano e a busca de uma vida melhor.

A revolução paradigmática da Medicina requer a ampliação e valorização das dimensões do trabalho médico que não podem ser capturadas por equipamentos tecnológicos. A significação do sofrimento humano, das queixas referidas por usuários de saúde, deverá extrapolar os resultados de exames complementares, testes terapêuticos e revisões sistemáticas da literatura médica, incluindo o cuidado integral das necessidades bio-psico-sociais da população, o acompanhamento dos problemas crônicos, a eqüidade na distribuição de cuidados preventivos e a indução de atitudes saudáveis. A transformação da prática médica requer que os médicos disponham de tempo para o envolvimento com populações e indivíduos sob sua responsabilidade e de capacitação permanente, não apenas para a atualização sobre revisões clínicas sistemáticas, mas também para desenvolvimento de atitudes e habilidades direcionadas à humanização do cuidado e à gestão coordenada das ações de saúde. A humanização da Medicina deve ser encarada como um salto de qualidade no seu desenvolvimento, especialmente no que diz respeito a ampliação das dimensões psíquica e social do ser humano. A gestão criteriosa do uso dos recursos técnicos e a responsabilidade com as necessidades de saúde dos pacientes, ampliam o significado do trabalho médico, valorizando o ato criativo.

 

Referências

BROOK, R. Managed care is not the problem - quality is. JAMA, v.278, n.19, p.1612-4, 1997.         [ Links ]

DIAS DA COSTA, J. Análise de custos ambulatoriais em Saúde: um estudo de base populacional no Sul do Brasil. Porto Alegre, 2002. Tese (Doutorado). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Curso de Pós-Graduação em Medicina.         [ Links ]

ENTRALGO, P.L. Historia de la Medicina. Barcelona: Salvat Editores, 1978.         [ Links ]

MÁRQUEZ P.V. Control de costos en Salud: experiencias en paises de las Américas. Bol. Of. Sanit. Panam., v.109, n.2, p.111-132, 1990.         [ Links ]

PICCINI, R.X, FACCHINI, L.A., SANTOS, R.C. (Orgs.) Preparando a transformação da Educação Médica: projeto CINAEM III Fase. Pelotas: Editora Enfoque/UFPel, 2000.         [ Links ]

PIÑERO, J. L. Medicina, Historia, Sociedad. Barcelona: Siglo XXI de España, 1982.         [ Links ]

SACKETT, D. L., RICHARDSON, W.S., ROSENBERG, W., HAYNES, R.B. Evidence-based medicine. How to practice and teach EBM. London: Churchill Livingstone, 1997.         [ Links ]

TOSTESON, D., ADELSTEIN, S.J., CARVER, S. (Ed.) New pathway to Medical Education. Cambridge: Harvard University Press, 1994.         [ Links ]

 

 

Recebido para publicação em: 11/06/02
Aprovado para publicação em: 17/06/02

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