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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

On-line version ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.10 no.19 Botucatu Jan./June 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-32832006000100017 

ARTIGOS

 

Avaliação do conhecimento em práticas de higiene: uma abordagem qualitativa

 

Evaluación del conocimiento en prácticas de higiene: un análisis cualitativo

 

 

Paula TavolaroI; Carlos Augusto Fernandes OliveiraII,1; Fernando LefèvreIII

IPrograma de Pós-Graduação em Epidemiologia Experimental e Aplicada às Zoonoses, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP. <ptavolaro@yahoo.com>
IIFaculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos, Universidade de São Paulo, Pirassununga, SP. <carlosaf@usp.br>
IIIFaculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP. <flefevre@usp.br>

 

 


RESUMO

Investigou-se o conhecimento de ordenhadores de cabra sobre higiene nas operações de ordenha, antes e após uma capacitação em Boas Práticas de Fabricação (BPF), por meio de uma abordagem qualitativa. Para isto, foram realizadas entrevistas com ordenhadores de três propriedades rurais do Estado de São Paulo, baseadas em um formulário semi-estruturado, cujas respostas foram gravadas, transcritas e analisadas de acordo com a metodologia do Discurso do Sujeito Coletivo. Após a entrevista inicial dos ordenhadores, em cada propriedade, realizou-se a capacitação em BPF por intermédio de aula expositiva dialogada, de uma hora de duração, sobre os temas "princípios gerais de BPF" e "cuidados higiênicos recomendados para ordenha". Após dois meses da capacitação, realizou-se nova entrevista com os ordenhadores. Não foram identificadas diferenças nos discursos obtidos antes e após a capacitação. A análise individual dos discursos mostrou que os ordenhadores apresentavam prévia experiência em ordenha de animais, gostavam do que faziam no trabalho e desejavam aprender mais sobre o ofício, mas não tinham sugestões claras em relação à melhoria do seu fluxo de trabalho.

Palavras-chave: discurso do sujeito coletivo. manipuladores. ordenhadores. capacitação em serviço. saúde ocupacional.


ABSTRACT

It was investigated the knowledge of goat milkers on milking hygiene, before and after a Good Production Practices (GPP) training course, through a qualitative approach. In order to achieve this objective, milkers from three goat dairy farms in the state of São Paulo, Brazil, were interviewed, using a semi-structured questionnaire. The responses to the questions were recorded, transcribed and analyzed using the Discourse of the Collective Subject methodology. Milkers were then trained through a one-hour lecture following a content-based exposition and dialogue approach on "GPP principles" and "recommended hygienic procedures for milking". Two months after training, the milkers were interviewed again using the same questionnaire as before. No difference was found between discourses obtained before and after training. Individual analysis of the discourses showed that milkers had previous experience milking of animals, liked their jobs and were willing to learn more about it. However, they had no clear suggestions on how to improve their work routine.

Key words: discourse of the collective subject. food handlers. milkers. inservice training. occupational health.


RESUMEN

En este trabajo se evaluó cualitativamente el conocimiento de ordeñadores de cabra acerca de higiene en las operaciones de ordeño antes y después de ser entrenados en Buenas Prácticas de Fabricación (BPF). Con este fin se realizaron entrevistas con ordeñadores de tres establecimientos rurales en el estado de São Paulo, Brasil. Las entrevistas se basaron en un cuestionario semiestructurado y las respuestas fueron gravadas, transcriptas y analizadas usando el método del Discurso del Sujeto Colectivo. Después de la entrevista inicial de los ordeñadores de cada establecimiento se realizó la capacitación en BPF mediante una clase expositiva de una hora de duración sobre los temas "Principios generales de BPF" y "Cuidados higiénicos recomendados para el ordeño". Entre 1 y 2 meses después del entrenamiento los ordeñadores fueron entrevistados nuevamente. No encontramos diferencias entre los discursos obtenidos antes y después del entrenamiento, y un análisis individual de los mismos mostró que los ordeñadores tenían experiencia previa de ordeño, les gustaba su trabajo y les gustaría aprender mas sobre el oficio, pero que no tenían sugerencias claras sobre cómo mejorar su flujo de trabajo.

Palabras clave: discurso del sujeto colectivo. manipuladores. ordeñadore. capacitación en servicio. salud ocupacional.


 

 

Introdução

A capacitação de funcionários para a manipulação de alimentos é fundamental para o controle de microrganismos indesejáveis nas matérias-primas utilizadas na dieta humana. Isto é particularmente importante no que concerne ao leite, sobretudo o leite de cabra, uma vez que, durante a ordenha, este produto está sujeito a contaminações das mais variadas origens. O leite de cabra é um produto geralmente indicado para grupos populacionais específicos, como crianças, idosos e adultos debilitados, e a produção deste leite ocorre, principalmente, em países em desenvolvimento, sob condições rudimentares (Camacho & Sierra, 1988), por pequenos produtores, os quais, normalmente, não são assistidos por programas de extensão que envolvam higiene e melhoria das condições de produção. Estes fatores contribuem para diminuir a qualidade microbiológica do leite de cabra e, conseqüentemente, aumentar a probabilidade de riscos à saúde humana decorrentes do consumo de leite de cabra contaminado.

A expressão "Boas Práticas de Fabricação" (BPF) é utilizada para indicar um conjunto de ações aplicadas à produção de alimentos, medicamentos e instrumentos médicos, com a finalidade de assegurar a qualidade dos produtos e prevenir riscos à saúde do consumidor. As BPF foram implantadas na área de alimentos na década de 1970, embora somente tenham sido formalizadas em diversos países a partir de 1995 (Hooten, 1996). No Brasil, as BPF tornaram-se obrigatórias para a produção industrial de alimentos em 1997, quando foram publicadas as portarias 326/97, do Ministério da Saúde, e 368/97, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Brasil, 1997). Entretanto, não há obrigatoriedade de aplicação de BPF durante os procedimentos de ordenha em propriedades leiteiras.

Os trabalhos de extensão a pequenos proprietários rurais podem ser bastante influenciados pela ideologia dos técnicos, os quais, despreparados para lidarem com aspectos educativos, creditam a não-aceitação dos pacotes tecnológicos a três agentes principais: os próprios agricultores e sua ignorância; outros técnicos, incluindo seu despreparo e atitudes pouco éticas; e as instituições e seu poder (Oliveira, 1993). Assim, para superar este tipo de limitação na execução de programas de extensão, é necessário que se conheça mais a fundo o público-alvo a quem os programas são dirigidos. As pessoas que manipulam alimentos devem ser continuamente capacitadas, e para que sejam implementadas modificações nos hábitos higiênicos dos manipuladores, as crenças e atitudes relacionadas à segurança alimentar devem ser estudadas por métodos qualitativos (Costa et al., 2002; Coleman et al., 2000; Cleary, 1988; Mergler, 1987).

O objetivo do presente trabalho foi fazer uma avaliação qualitativa do conhecimento relacionado aos cuidados de higiene nas operações de ordenha de ordenhadores de cabra de pequenas propriedades localizadas no Estado de São Paulo, antes e após uma capacitação em BPF, empregando-se a metodologia do Discurso do Sujeito Coletivo (Lefèvre & Lefèvre, 2003).

 

Métodos

O estudo foi conduzido em três propriedades de criação de caprinos para a produção de leite no Estado de São Paulo, duas delas com ordenha manual e outra com ordenha mecânica. Em cada propriedade, a seqüência dos procedimentos de ordenha foi observada cuidadosamente, levando-se em consideração os itens previstos na planilha de avaliação das BPF estabelecida pela legislação brasileira (Brasil, 2002). Esta atividade possibilitou identificar os problemas mais importantes, referentes à higiene da rotina de ordenha, a serem abordados na capacitação em BPF aplicada aos ordenhadores.

Antes da observação dos procedimentos de ordenha e da capacitação, os ordenhadores foram entrevistados individualmente, sendo as respostas das perguntas gravadas e transcritas integralmente. Empregou-se, na entrevista, um formulário semi-estruturado, previamente testado e ajustado aos objetivos do estudo, contendo as seguintes questões: 1 Você é ordenhador, não é? Como chegou a ser ordenhador? 2 Como você aprendeu esse ofício? Teve algum treinamento? Fale um pouco sobre isso. 3 Você sabe quem costuma tomar o leite que o senhor ordenha? 4 Explique agora como você faz para ordenhar as cabras, desde o começo. 5 Qual a pior parte do seu trabalho? Existe alguma? 6 E a melhor parte? 7 O leite de cabra pode transmitir algumas doenças. O que você sabe sobre isso? 8 Você acha que vai continuar nesse trabalho? 9 Existe alguma coisa que você acha que poderia mudar aqui, que melhorasse o seu trabalho?

A capacitação em BPF foi realizada, nas três propriedades, pelo mesmo profissional veterinário, empregando-se material pedagógico com figuras e texto simples, escrito com fonte de tamanho trinta e elaborado de acordo com as informações obtidas nas entrevistas e com os problemas apontados durante a observação dos procedimentos de ordenha. Adotou-se como base o conceito de comunicação, e não de extensão, de Paulo Freire (Freire, 1977). Dois temas principais foram abordados, em uma palestra de cerca de uma hora de duração: princípios gerais de BPF e cuidados higiênicos recomendados para ordenha. Depois de apresentado e discutido este material, foram sugeridas as possíveis soluções técnicas para corrigir as deficiências encontradas em relação às BPF, chegando-se a um consenso sobre as modificações a serem implantadas, que variaram de propriedade para propriedade.

Após dois a três meses da conclusão da capacitação, foram realizadas novas visitas às propriedades estudadas. Nessa ocasião, cada ordenhador foi entrevistado novamente, com a finalidade de verificar a existência de diferenças nos discursos obtidos antes e depois da capacitação. Os dados qualitativos coletados pelas entrevistas de cinco ordenhadores antes da capacitação, e de três ordenhadores depois da capacitação, foram analisados de acordo com a metodologia do Discurso do Sujeito Coletivo (Lefèvre & Lefèvre, 2003).

 

Resultados

As respostas obtidas nas questões um a nove do formulário aplicado antes e após a capacitação em BPF encontram-se nas Tabelas 1 e 2, respectivamente.

 

 

 

 

Para a questão 1, foram observadas duas situações básicas: ou o indivíduo trabalhava com outros animais, ou fazia um pouco de tudo nas propriedades rurais, e não houve mudança nas idéias centrais antes e após a capacitação. Na questão 2, aparece a noção de que a ordenha é um trabalho solitário, que se aprende sozinho, no dia-a-dia, e que o ordenhador considera que não há variações no procedimento de ordenha de espécies diferentes. Na maioria dos casos, o procedimento foi ensinado por outro ordenhador, e, em apenas um dos casos, por um veterinário. Aqui, existe a sugestão de que os próprios veterinários não consideraram a capacitação dos ordenhadores entrevistados como algo a que deveriam dedicar muita atenção, pois o modo de ordenha é um dos menores problemas enfrentados por esses profissionais no seu dia-a-dia de trabalho em propriedades produtoras de leite de cabra. Neste caso, perde-se uma chance para a melhoria da qualidade do leite, assim como para a disseminação de diferenças de manejo de espécies leiteiras diversas.

No tocante à questão 3, apenas um dos ordenhadores não sabia o que acontecia com o leite, e os outros sabiam que o leite era consumido preferencialmente por crianças. Dois deles falaram sobre o consumo por crianças doentes e alérgicas, e um deles, do consumo por idosos. Verificou-se, com isso, que os ordenhadores sabiam que o leite de cabra é um produto que tem uso medicinal, o que foi repetido na aplicação deste mesmo questionário após a capacitação. Quanto à questão 4, todos os ordenhadores executavam o procedimento padrão esperado, com algumas modificações: dois deles afirmaram fazer o teste da caneca de fundo preto; todos lavavam os tetos com água fria, e não com água morna; dois deles faziam uma desinfecção com água clorada antes da ordenha, embora a quantidade de cloro colocada não fosse uma medida conhecida; todos enxugavam os tetos com papel toalha, usando o mesmo papel para os dois tetos, e então começavam a ordenha; dois deles forneciam alimento no cocho durante a ordenha, mas apenas um fornecia concentrado específico para animal leiteiro; todos os outros usavam apenas farelo para que o animal ficasse mais tranqüilo durante o procedimento; depois da ordenha, todos usavam solução à base de iodo para proteção contra a mastite.

No que concerne à questão 5, três dos ordenhadores afirmaram que o trabalho com as cabras era agradável, e dois deles, que trabalho é apenas trabalho. Dois deles deram a entender que algumas atividades eram mais custosas de serem executadas, como a retirada do esterco. Entretanto, consideraram que, de maneira geral, a lida com os animais não era atividade pesada, e que raramente saíam cansados no final do dia. A questão 6, relacionada à questão anterior, revelou diferentes idéias centrais nos discursos antes da capacitação: o melhor momento é quando não se está trabalhando (um discurso); ou quando se recebe o pagamento (um discurso); é o momento da ordenha (um discurso); ou é o próprio leite (dois discursos). Após a capacitação, foram observados dois tipos de resposta: a melhor parte é o momento de folga (dois discursos), ou quando o leite está pronto para o consumo (um discurso).

As idéias centrais apresentadas à questão 7, antes da capacitação, indicaram que o conhecimento dos ordenhadores versava sobre as doenças que afetam a produção de leite (mastites) ou a brucelose, herança do trabalho com vacas, uma vez que a Brucella mellitensis, transmitida pela cabra, é uma doença exótica, não notificada no Brasil (Astudillo, 2004). Apenas um dos ordenhadores se referiu à higiene do procedimento como algo de importância para a veiculação de doenças pelo leite, mas a relação entre o leite e as doenças pareceu ser mais freqüentemente associada à saúde do animal do que à higiene na ordenha do leite. Outro ordenhador mostrou que gostaria de aprender mais sobre as doenças, por entender que este é um ponto importante para melhorar seu trabalho e sua vida.

Na questão 8, a maioria dos trabalhadores respondeu que permanecer no trabalho não dependia unicamente deles, e sim de conjunturas externas a eles, o que se repetiu nas respostas obtidas após a capacitação. Entretanto, nos discursos obtidos antes da capacitação, os ordenhadores afirmaram que, pelo fato de gostarem do trabalho com os animais, era possível que continuassem. Quanto à questão 9, os discursos foram diversos: dois deles gostariam de mudanças na estrutura física, que melhorariam o fluxo do trabalho, o que se repetiu na análise dos mesmos questionários no final do estudo. Dois outros achavam que não havia necessidade de modificações, e apenas um se referiu a um salário melhor.

 

Discussão

A Organização Mundial de Saúde recomenda que os programas educacionais sejam culturalmente apropriados para os manipuladores de diferentes países, levando-se em consideração os hábitos alimentares e crenças da população de modo que se consiga mudanças nos hábitos e atitudes em relação aos alimentos (Ehiri & Morris, 1994). Para tanto, devem-se utilizar métodos antropológicos e sociológicos na determinação de programas em segurança alimentar. O uso de entrevistas tem como objetivo explorar e descrever o espectro de atitudes e experiências dentro de um certo campo, mais do que quantificar as opiniões coletadas (Vaarst et al., 2002). Isto baseia-se no fato de que, para conseguir implantar boas práticas de higiene na manipulação de alimentos, todos os fatores que condicionam estas práticas (individuais e coletivos, comportamentais e ambientais) devem ser investigados (Costa et al., 2002).

A análise dos discursos apresentados para a questão 1, "O senhor é ordenhador, não é? Como chegou a ser ordenhador?", permite constatar que, para os ordenhadores entrevistados, o trabalho com os animais é algo que pode não variar muito segundo a espécie com que se lida, não se explorando a necessidade de especialização; e que, embora possam ter recebido algum tipo de capacitação questão 2, o trabalho se aprende é no dia-a-dia, ao se executarem as atividades. Por outro lado, a idéia de faz-tudo no campo, presente nos discursos tanto antes quanto após a capacitação, pode ser vista como simples oportunidade de trabalho dentro das cidades onde esses trabalhadores moram. São ordenhadores, assim como poderiam estar trabalhando em qualquer outro ramo de atividade de baixa especialização.

Na questão 2, "Como o senhor aprendeu esse ofício? Teve algum treinamento? Fale um pouco sobre isso", não foram observadas diferenças comparando-se a resposta obtida antes e após a capacitação em BPF. A capacitação formal ocorreu apenas na propriedade 2, onde havia ordenha mecânica e o leite era parte da renda da propriedade; as outras propriedades eram apenas sítios de fim-de-semana. No discurso obtido após a capacitação, ficou mais claro que a capacitação desse funcionário tinha ido além do que a que ocorreu em outras propriedades, envolvendo cursos sobre manejo e saúde dos animais, o que mostra que o vínculo financeiro que esse proprietário tem com a criação de cabras e sua produção leiteira pode levar a um maior interesse na capacitação dos ordenhadores.

Para a questão 3 "O senhor sabe quem costuma tomar o leite que o senhor ordenha?", notou-se, no ordenhador que desconhecia o que acontecia com o leite, a sensação de que ele não dominava o fluxo de seu trabalho. Isto pode ser um fator que influenciou o sucesso da capacitação, pois o desconhecimento do fluxo de trabalho não estimula a participação e o envolvimento. Os trabalhadores têm uma noção fragmentada sobre qual a melhor forma de se executar uma tarefa. Eles normalmente são tecnicamente qualificados na sua pequena área de conhecimento, são disciplinados, politicamente submissos, isolados e não organizados, pois o conteúdo do seu trabalho foi esvaziado e mecanizado (Kuenzer, 1995). A participação e iniciativa dos trabalhadores tende a ser fraca se eles não estiverem bem representados (Mergler, 1987), o que é uma realidade para os ordenhadores, que não são organizados como uma classe. A participação, portanto, estaria apoiada na postura individual do ordenhador, na confiança que ele tivesse no técnico, e no seu interesse em relação ao trabalho que estivesse executando. A relação de descompromisso com o trabalho, visível na análise dos discursos do grupo em estudo nas duas ocasiões, foi possivelmente um dos grandes entraves ao sucesso do treinamento em BPF.

Quanto à questão 4, "Explique agora como o senhor faz para ordenhar as cabras, desde o começo", apenas um dos ordenhadores se referiu à higiene necessária ao procedimento, principalmente mãos limpas e unhas cortadas, e ao uso de desinfetante nas mãos antes da ordenha, e outro afirmou que a lavagem da sala de ordenha era importante. Entretanto, a lavagem das mãos antes de começar a ordenha nunca foi citada como parte do processo. Alguns dos ordenhadores eram também responsáveis por buscar as cabras, após o que ordenhavam os animais, sem lavar as mãos, tanto antes quanto depois da capacitação. Duas das propriedades tinham pias e detergente disponível na sala de ordenha, mas que eram apenas usados para lavar os materiais antes da ordenha, e não as mãos, seja antes ou durante a ordenha. Nos dois locais onde a sala de ordenha era aberta, não havia pia ou detergente disponível. Na propriedade onde havia ordenha mecânica, os funcionários que buscavam as cabras, às vezes, lavavam as mãos antes da ordenha, porém isto pode ter ocorrido devido ao efeito de Hawthorne (Goldehar & Schulte, 1994), segundo o qual os trabalhadores mudam seu comportamento simplesmente porque os pesquisadores estão presentes no local de trabalho. Portanto, o procedimento de ordenha permaneceu o mesmo nos discursos antes e após o treinamento, o que pôde ser confirmado pela observação do trabalho na ordenha.

No que concerne à questão 5, "Qual a pior parte do seu trabalho? Existe alguma?", os ordenhadores consideraram que, de maneira geral, as atividades executadas não eram cansativas. Na ordenha de vacas, por outro lado, já foi demonstrado que o impacto da carga física pode afetar a capacidade de trabalho e o estado de saúde de trabalhadores na ordenha (Shenkman & Badken, 1989), como em outros tipos de atividades (Sell, 2002). Na resposta obtida à mesma pergunta aplicada após a capacitação, repetiu-se a observação de que trabalho é apenas trabalho, não existindo uma pior parte. O tipo de atitude observada nesses discursos não é mérito único dessa categoria de trabalhadores e pode dificultar enormemente o envolvimento desses homens em programas educativos. Pode-se entrever, nas respostas, um baixo grau de comprometimento com as tarefas, não apenas nesta questão, mas também na questão seguinte da entrevista.

As respostas dadas à questão 6, "E a melhor parte?", indicaram, novamente, a idéia de que, por se tratar de um trabalho não altamente qualificado, os trabalhadores entrevistados o aceitam, como aceitariam outro tipo de trabalho dentro ou fora de propriedades rurais, a fim de garantir sua sobrevivência. Contudo, houve uma resposta que se destacou das outras: o funcionário que acreditava ser a melhor parte "quando tá pasteurizando o leite. [...] Que o leite tá lá, tá engarrafando, tá saindo, tá tudo bonitinho", era o mesmo que foi submetido a cursos formais de capacitação em manejo dos animais e produção de leite. Este fato sugere que o investimento dos proprietários rurais na capacitação técnica pode elevar a auto-estima dos funcionários e, conseqüentemente, gerar maior envolvimento e abertura ao processo educativo.

No discurso apresentado à questão 7, "O leite de cabra pode transmitir algumas doenças. O que o senhor sabe sobre isso?", observou-se um maior conhecimento dos ordenhadores sobre as doenças transmitidas por alimentos, que era o que se buscava nas entrevistas, após a capacitação em BPF. Um dos funcionários se referiu ao assunto abordado na capacitação, observando que o material usado na ordenha e a higiene do procedimento eram importantes para a transmissão de doenças pelo leite. Isso pode ter ocorrido devido ao fato de o intervalo entre a capacitação e o novo questionário ter sido menor do que nas outras propriedades, por arranjos no cronograma do estudo. Já o ordenhador que foi capacitado formalmente lembrou-se da tuberculose, o que provavelmente foi abordado em cursos que ele tenha freqüentado sobre a tecnologia do leite. Outro ordenhador, que passava por problemas pessoais, pediu desculpas por não se lembrar do que tinha sido falado. Aqui, pode-se fazer uma crítica ao formato da capacitação neste estudo, uma aula expositiva, pouco incentivadora da participação (Bernardo, 2003), o que reforça a necessidade de preparação para o técnico exercer adequadamente seu papel como educador.

Quanto à questão 8, "O senhor acha que vai continuar neste trabalho?", um dos ordenhadores se referiu ao fato de o trabalho não ser difícil nem pesado, e também afirmou que o trabalho é sempre igual, o que pode ser pouco desafiador e motivador para ele, levando a um certo desinteresse pela sua na rotina e por modificações dela. Este era o mesmo ordenhador que afirmou não saber o destino final do leite que ordenhava. Na resposta obtida após a capacitação, a questão da sobrevivência e do sustento da família foi abordada, o que não foi tão claro na primeira entrevista. Todas as respostas indicam o pequeno comprometimento dos trabalhadores do grupo analisado com seu trabalho, o que acabou dificultando enormemente os resultados do treinamento.

Dos discursos apresentados para a questão 9, "Existe alguma coisa que você acha que poderia mudar aqui, que melhorasse o seu trabalho?", após a capacitação, destaca-se o do funcionário cujo intervalo entre as entrevistas feitas antes e após a capacitação foi menor, o qual refere-se claramente às informações abordadas na capacitação sobre higiene e BPF aplicadas ao procedimento de ordenha.

A análise global das idéias centrais, obtidas nas entrevistas com os ordenhadores das três propriedades, demonstraram que os funcionários tinham noção da necessidade de limpeza na ordenha, mas ignoravam a existência da necessidade de uma etapa de desinfecção. Deste modo, procurou-se trabalhar com estes conceitos, e enfatizou-se esta diferença no processo de capacitação. Um segundo ponto observado nos locais em estudo, e também bastante comum em outras pequenas propriedades, é o fato de a mão-de-obra ser constituída de apenas um funcionário, ou de um pequeno grupo familiar, que se dedica a todas as atividades dentro da propriedade. Esta múltipla dedicação, no presente trabalho, deve ter contribuído para que não existissem cuidados especiais com o momento da ordenha (uso de uniforme diferenciado, lavagem de mãos constante durante o procedimento), pela carga de atividades da qual esses trabalhadores têm que dar conta. Assim, apesar de os ordenhadores terem considerado importante o que tinham aprendido, a ponto de repetirem algumas das informações na entrevista contendo as mesmas questões realizada um a dois meses após o treinamento em BPF, observou-se uma enorme dificuldade para se modificar os procedimentos já cristalizados pelo hábito.

Os veterinários que normalmente estão envolvidos neste tipo de ação educativa em propriedades leiteiras muitas vezes encontram dificuldades na transferência do conhecimento ao homem do campo, devido às próprias limitações de sua formação profissional. Neste sentido, as idéias centrais dos relatos dos ordenhadores entrevistados deveriam ser levadas em consideração pelos veterinários em seus trabalhos de educação em propriedades de criação de caprinos. Adicionalmente, são necessárias grandes mudanças no currículo de graduação em veterinária, privilegiando, além das informações técnicas, uma formação mais humanística e holística (Goodger, 1982). Este tipo de mudança poderia beneficiar enormemente tanto a população em geral quanto os trabalhadores com os quais os veterinários devem ter contato.

 

Conclusões

Os resultados do presente trabalho evidenciaram as dificuldades de se trabalhar com educação para a mudança de comportamento de ordenhadores de cabra. Embora os funcionários saibam que os conhecimentos discutidos são importantes, mudanças na rotina acabam sendo afetadas por uma série de barreiras técnicas à implantação dos programas de garantia de qualidade, além de barreiras de natureza antropológica e sociológica que deveriam ser ao menos conhecidas e estudadas pelos profissionais responsáveis pela capacitação de mão-de-obra em áreas rurais. Esta abordagem deveria ser melhor explorada em programas educativos destinados à melhoria da qualidade do leite de cabra, de modo a se ampliar o alcance e a eficácia das ações de extensão aos produtores rurais.

 

Referências

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Recebido em: 19/04/05. Aprovado em: 04/10/05.

 

 

1 Departamento de Engenharia de Alimentos, Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos, USP
Av. Duque de Caxias Norte, 225
Pirassununga, SP
Brasil - 13.635-900