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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

On-line version ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.11 no.21 Botucatu Jan./Apr. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-32832007000100003 

DOSSIÊ

 

A construção do saber em Odontologia: a produção científica de três periódicos brasileiros de 1990 a 2004*

 

La construcción del saber en Odontología: la producción científica de tres revistas brasileñas de 1990 a 2004

 

 

Karla Patrícia Cardoso AmorimI,1; Maria do Socorro Costa Feitosa AlvesII; Raimunda Medeiros GermanoIII; Iris do Céu Clara CostaIV

IProfessora, disciplina de Bioética, cursos de especializações, Associação Brasileira de Odontologia/Seção RN; cirurgiã-dentista da Aeronáutica, Natal, RN. <karlamorim@bol.com.br>; <amorimkarla@yahoo.com.br>
IIProfessora, departamento de Odontologia, Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde, UFRN. <alfa@ufrnet.br>
IIIProfessora, departamento de Enfermagem; vice-coordenadora, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, UFRN. <rgermano@natal.digi.com.br>
IVProfessora, Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde; coordenadora, curso de graduação em Odontologia, UFRN. <irisdoceu@dod.ufrn.br>

 

 


RESUMO

Este estudo focaliza uma análise das temáticas abordadas por três revistas odontológicas brasileiras, durante o período de 1990 a 2004. Partimos do pressuposto de que estas têm um papel importante na formação profissional, pois são meios dinâmicos de divulgação do saber e, desta forma, podem influenciar e nortear pensamentos, reflexões e atitudes, moldando o fazer odontológico. A análise quantitativa do material empírico, totalizando 2.806 artigos estudados, revela a diversidade de temáticas e assuntos das publicações. As cinco temáticas mais abordadas referem-se às disciplinas técnicas e profissionalizantes, atingindo 52,73% dos trabalhos analisados. Esperamos contribuir para a compreensão do processo de produção de conhecimento, subsidiando reflexões e estudos posteriores e funcionando como parâmetro para o acompanhamento do pensar odontológico.

PALAVRAS-CHAVE: publicações periódicas. Odontologia. conhecimento. indicadores de produção científica.


ABSTRACT

This paper focuses on analyzing the themes dealt with by three Brazilian dentistry magazines, during the period from 1990 to 2004. We start from the assumption that these magazines play an important role in professional formation, because they are dynamic means of publishing knowledge and, thus, they are able to influence and guide the thoughts, reflections and attitudes, thereby molding dentistry practice. A quantitative analysis of the empirical material, totaling 2,806 articles, reveals just how diverse the themes and subjects of these publications were. The five most often dealt with themes, relating to technical and professionalizing subjects, represent 52.73% of the works we analyzed. We hope to be able to contribute to a better understanding of the knowledge-building process, leading to reflection and subsequent studies that will also work as a parameter for monitoring thinking in the dental area.

KEY WORDS: periodicals. Dentistry. knowledge. scientific production indicators.


RESUMEN

Este estudio se propone realizar un análisis de las temáticas abordadas por tres revistas odontológicas brasileñas, durante el período de 1990 a 2004. Partimos del presupuesto que estas poseen un papel importante en la formación profesional, pues son medios dinámicos de divulgación del saber y, de esta manera, influenciarán y guiarán los pensamientos, las reflexiones y las actitudes, modelando el quehacer odontológico. Articulamos un punto de vista cuantitativo, por medio del estudio de 2.806 artículos. El análisis cuantitativo del material empírico, en un total de 2.806 artículos, revela que temáticas y asuntos diversos han sido objeto de las publicaciones. Las cinco temáticas más abordadas se refieren a las asignaturas técnicas y profesionales, alcanzando 52,73% de las publicaciones. Esperamos contribuir a la compresión del proceso de producción del conocimiento, auxiliando a la reflexión y estudios posteriores y también funcionando como parámetro para acompañar el pensamiento odontológico.

PALABRAS CLAVE: publicaciones periódicas. Odontología. conocimiento. indicadores de producción científica.


 

 

Introdução

Os arqueólogos têm afirmado que a arte de escrever teve seu início em meados do quarto milênio a.C., e que essa arte mudaria para sempre a natureza da comunicação entre os seres humanos.

Manguel (1997) reflete sobre a magia da escrita, quando fala que, desde os primeiros vestígios da civilização pré-histórica, a sociedade humana tinha tentado superar os obstáculos da geografia, o caráter final da morte, a erosão do esquecimento; e com um único ato - a incisão de uma figura sobre uma tabuleta de argila - , o primeiro escritor anônimo conseguiu, de repente, ter sucesso em todas essas façanhas aparentemente impossíveis.

Mas escrever não foi o único invento que nasceu no instante daquela primeira incisão, como destaca o autor (Manguel, 1997). Uma outra criação aconteceu no mesmo momento: a leitura.

Escrever e ler foram rapidamente reconhecidas como habilidades poderosas. No mundo científico moderno, em que observamos um aumento no número de pesquisas, as revistas científicas desempenham um papel importante, pois são maneiras dinâmicas de divulgar o conhecimento produzido.

Os títulos têm a responsabilidade de documentar, para a posteridade, cada degrau vencido em prol da evolução do conhecimento e disponibilizar, para a comunidade interessada, os detalhes de cada feito nos laboratórios ou em campo (Andrade, 2004).

Laville & Dionne (1999) afirmam que nas revistas científicas se vê melhor e mais rapidamente a ciência que se faz; é nelas que a comunidade pode avaliar a justa medida da pesquisa, pois o pesquisador precisa dizer o essencial, e com concisão, já que as páginas são limitadas.

Atualmente, são publicadas mais de seiscentas mil revistas científicas em todo o mundo (Biojone, 2001), estimandose que sejam escritos, diariamente, entre seis e sete mil artigos científicos para alimentá-las (Trzesniak, 2001).

Em particular, na área da Odontologia, a produção científica cresceu exponencialmente nos últimos anos. Cury (2004) afirma que, entre 2001 e 2003, houve mais publicações científicas do que durante todo o século XX.

O fato é que revistas são lidas. Em 2003, o Instituto Brasileiro de Estudos e Pesquisas Socioeconômicos realizou uma pesquisa (INBRAPE, 2003) sobre o perfil do cirurgião-dentista, solicitada por diversas entidades odontológicas, entre elas, o Conselho Federal de Odontologia (CFO) e a Associação Brasileira de Odontologia (ABO). Os resultados indicaram que 81,3% dos cirurgiões-dentistas declaram ler com freqüência algum periódico científico odontológico.

Refletindo, criticamente, observamos que a publicação científica além de estabelecer um elo de comunicação entre profissionais e estudantes de Odontologia, serve de depositária das concepções que vão plasmando, moldando e dando existência à Odontologia nacional.

Desta forma, indagamos: que conhecimento vem sendo produzido e publicado na Odontologia? Sob a ótica deste questionamento, o presente estudo teve como objetivo realizar uma análise de temáticas e assuntos abordados por três importantes revistas odontológicas brasileiras durante o período de 1990 a 2004. Objetivo este fortalecido pelas reflexões de Canoletti & Soares (2005), quando advertem que a análise da bibliografia pode contribuir com a avaliação dos rumos que a prática vem tomando, ao mesmo tempo que pode favorecer a crítica e a formulação de novos projetos.

 

Procedimentos metodológicos

Trata-se de pesquisa bibliográfica, com caráter exploratório descritivo, de abordagem quantitativa.

Do conjunto de revistas especializadas em Odontologia, publicadas no Brasil, selecionamos três, quais sejam: Revista da Associação Brasileira de Odontologia (ABO Nacional), Revista da Associação Paulista de Cirurgiões-Dentistas (APCD) e Revista Brasileira de Odontologia (RBO), publicada pela ABO/Seção RJ.

A escolha destas três revistas justifica-se pelo fato de todas serem de caráter geral, ou seja, atingirem um grande público, indo do clínico ao especialista e, assim, expressarem, de uma forma mais integral, a produção em Odontologia. Além da grande tiragem, elas têm circulação nacional regular, reconhecida credibilidade e penetração no meio odontológico. Um survey realizado por Amorim et al. (2005), com o objetivo de analisar, quantitativamente, quais revistas odontológicas estão sendo consultadas e lidas por cirurgiões-dentistas, aponta essas três revistas como as mais citadas. A pesquisa do INBRAPE sobre o perfil do cirurgião-dentista, há pouco referenciada, observou que, dos periódicos científicos mais citados por esse profissional, a APCD, a ABO Nacional e RBO ocuparam, respectivamente, o primeiro (46,5%), o quarto (9,6%) e o sétimo lugar (4,2%).

Esses dados confirmam a potencialidade das revistas escolhidas para serem objeto do nosso estudo. Também é oportuno registrar que as mesmas estão classificadas, pelo Qualis da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), com o conceito B nacional. Mesmo não preenchendo todos os critérios de impacto, competitividade e internacionalidade tão difundidos, atualmente, no mundo científico (Foratini, 1997), ressaltamos que são as revistas mais citadas pelos cirurgiões-dentistas, nas pesquisas referenciadas anteriormente.

Trabalhamos num recorte temporal de 15 anos, no período compreendido entre 1990 a 2004. Como a Revista ABO Nacional teve a sua criação no ano de 1993, foi analisada integralmente. O material empírico constou de 246 exemplares, somando-se as três revistas. Foram estudados noventa exemplares da Revista APCD que, durante todo o período analisado, teve sua publicação bimestral regular. Da revista RBO, foram 87 exemplares, pois esta teve publicação bimestral de 1990 até o último número de 2003. A partir de janeiro de 2004, esta revista passou a ser editada trimestralmente e os números 3 e 4 saíram juntos, em um único exemplar. A Revista ABO Nacional também é bimestral e contribuiu com 69 exemplares, visto que, no ano de sua criação (1993), foram editados apenas três números.

De posse de cada exemplar, este foi analisado por completo, incluindo vários tipos de textos: artigos científicos, casos clínicos, trabalhos de revisão de literatura, matérias jornalísticas, entrevistas e artigos de opinião. No entanto, para efeito da pesquisa, nomeamos todos eles como artigos. O nosso objetivo era verificar as temáticas abordadas, não nos interessando o tipo da publicação. Os editoriais não fizeram parte da pesquisa, haja visto que um único texto, muitas vezes, versava sobre áreas e assuntos diversos, ficando difícil classificá-lo em apenas uma categoria.

Cada artigo foi classificado por assunto, por intermédio do título e das palavras-chave. Quando surgia dúvida, realizávamos uma leitura "flutuante" do resumo e/ou do corpo do texto; esta etapa é o que Gil (1999) nomeia de leitura exploratória numa pesquisa bibliográfica.

Para fim de análise do material empírico, foram estabelecidas 25 categorias temáticas que emergiram do próprio material (Tabela 1). Convém ressaltar que tal categorização foi submetida à apreciação e validação de duas especialistas na área, que propuseram algumas modificações, as quais foram incorporadas. Esses dados foram trabalhados no Microsoft Excel 2001.

 

 

Os registros foram anotados em três tabelas, uma para cada revista. Nelas, assinalávamos quantitativamente os assuntos à medida que iam surgindo. Nas linhas dessas tabelas estavam dispostos os quantitativos de cada assunto abordado durante o recorte temporal analisado e, nas colunas, o quantitativo geral de todos os assuntos disponibilizados nas revistas durante cada ano de análise (tabelas 2, 3 e 4).

Apesar de a maioria das categorias temáticas terem sido nomeadas de acordo com os assuntos nelas inseridos, é oportuno o detalhamento de algumas delas. Disciplinas Básicas foi construída pela inserção de temas de anatomia, biologia, fisiologia e microbiologia. Em Ensino/Formação, além deste tema em si, incluímos os textos que tratavam de publicações e pesquisas. A bioética foi incluída em Ética/Odontologia Legal. Em Estomatologia/Patologia também se encontram assuntos relativos a semiologia e diagnóstico. As emergências médicas fazem parte da categoria Farmacologia/Terapêutica; informática e laser integram a categoria Novas Tecnologias. Em Odontologia do Trabalho incorporamos assuntos referentes à ergonomia e em Odontopediatria, aqueles referentes à odontologia para bebês. Em Outras Áreas, classificamos assuntos pertinentes a astrologia, psicologia, fonoaudiologia, biologia molecular, hipnose, administração, marketing e política da qualidade. Temas como: pessoal auxiliar em odontologia, congresso e eventos, odontologia molecular, odontologia veterinária, odontologia ortomolecular e odontologia desportiva foram inseridos na categoria Profissão, além de artigos que tratavam de uma forma bem direta sobre a mesma. As partes de reabilitação oral e prótese bucomaxilofacial foram incluídas em Prótese/Materiais Dentários. Em Saúde Geral, assuntos como tabagismo, diabetes e AIDS. Por fim, devemos ressaltar que, na catalogação dos assuntos abordados pela revista ABO Nacional, emergiu a categoria Política/Cidadania/Economia, que tratava dessas áreas de uma maneira ampla e sem conexão direta com a área odontológica. Dessa forma, resolvemos classificá-las separadamente e não incluí-las na categoria Outras Áreas.

 

Resultados

Dos 246 exemplares analisados, 2.806 artigos foram classificados e compuseram o material empírico; destes, 808 foram da Revista ABO Nacional, 856 da APCD, e 1.142 da RBO. Após a classificação e catalogação de todos os artigos, tivemos como resultado final os dados expressos nas tabelas 1, 2, 3 e 4.

Examinando as tabelas 2, 3 e 4, que registram os quantitativos gerais da produção científica de cada uma das revistas em separado e, ao mesmo tempo, realizando um cruzamento das dez categorias temáticas mais citadas em todas as revistas, observamos:

· ABO Nacional X APCD: das dez categorias temáticas mais referenciadas, oito coincidem. As diferenças residem no fato de a ABO Nacional ter tratado mais sobre assuntos relativos às categorias Profissão e Outras Áreas, ao passo que a APCD, sobre Cirurgia/Traumatologia e Ortodontia/Ortopedia dos Maxilares.

· ABO Nacional X RBO: das dez categorias, oito coincidem. As diferenças são bem parecidas em relação à APCD, ou seja, em vez de Profissão e Outras Áreas, a RBO publicou mais sobre Farmacologia/Terapêutica e Ortodontia/Ortopedia dos Maxilares.

· APCD X RBO: temos nove coincidências entre as dez categorias mais citadas. A divergência está no fato de a APCD ter falado mais de Radiologia/Imaginologia, ao passo que a RBO, de Farmacologia/Terapêutica.

 

Discussão

A técnica revela-se na ação dos profissionais. Desta forma, ela dá suporte à competência, como adverte Rios (2001). A autora chama a nossa atenção para o fato de a dimensão técnica ter seu significado empobrecido, quando esta é considerada desvinculada de outras dimensões (estética, ética e política). Assim, criamos uma visão tecnicista, na qual se supervaloriza a técnica, ignorando sua inserção num contexto social e político.

De certo modo, essa essência de pensamento está traduzida nas diretrizes curriculares dos cursos de Odontologia, estabelecendo uma

formação profissional generalista, humanista, crítica e reflexiva, para atuar em todos os níveis de atenção à saúde, com base no rigor técnico e científico. Capacitado ao exercício de atividades referentes à saúde bucal da população, pautado em princípios éticos, legais e na compreensão das realidades social, cultural e econômica do seu meio, dirigindo a atuação para a transformação da realidade em benefício da sociedade. (Brasil, 2002, p.10)

As revistas que foram objeto da nossa pesquisa atuam na divulgação do conhecimento odontológico. Podem, assim, contribuir para propagar o saber de uma forma mais aberta, dentro de uma abordagem complexa e integral da vida, tão urgente nos dias de hoje, como explicita Morin (2000); ou perpetuar a tendência atual dominante, cujo enfoque é centralizado no biológico e no técnico, produto da visão cartesiana e newtoniana, constituindo em paradigma do mundo ocidental. Os resultados, por ora revelados, mostram que o saber odontológico tende a percorrer mais o segundo caminho.

Analisando a Tabela 1, observamos que, apesar de as revistas terem abordado diversos assuntos, existem alguns que estiveram mais presentes. Isto é claramente observado quando vemos que 52,73%, ou seja, mais da metade dos artigos analisados, estão inseridos nas cinco primeiras categorias temáticas, sendo estas, na maioria, de cunho técnico e biológico.

A preferência por determinadas áreas e por determinados assuntos é visível. Péret & Lima (2003) argumentam que a ótica mercantilista poderá estar reforçando o modelo tradicional, com ênfase no tecnicismo e no interesse privado, influenciando a pesquisa e a formação.

Dentro desta mesma linha de pensamento, Forattini (1996) adverte que, ao continuar a atual tendência, o impacto do artigo científico cada vez mais será avaliado pelo cumprimento da finalidade tecnológica, a qual nem sempre é precipuamente direcionada para a melhoria da qualidade de vida. Ponthieu (1995) complementa este pensar, ao afirmar que se nota, cada vez mais, a característica comercial da tecnologia.

Sabemos que a maioria das pesquisas têm origem no ensino superior brasileiro. Paula & Bezerra (2003) afirmam que o ensino de Odontologia está adaptado a um contexto baseado na aplicação técnica, refletindo a marcante presença da indústria de equipamentos e materiais odontológicos. Este modelo de ensino, voltado para o mercado de trabalho, centrado na formação técnica, depende do conhecimento externo e dificulta a criação e universalização de soluções adequadas à realidade social e tecnológica do país (Masetto, 1998).

Resultados do nosso estudo corroboram as afirmações desses autores, visto que as áreas de Dentística/Materiais Dentários e Prótese/Materiais Dentários estiveram presentes como temáticas em 21,30% dos artigos catalogados.

A reunião da Sociedade Brasileira de Pesquisa Odontológica (SBPqO), em setembro de 2004, ofereceu amostra representativa da atual produção científica brasileira em Odontologia, que é matéria-prima dos periódicos científicos do setor. Na SBPqO, os trabalhos são divididos por área. Segundo Andrade (2004), a área 5, que compreende as disciplinas de Materiais Dentários e Dentística, foi responsável pelo maior número de submissões.

O alto percentual de artigos distribuídos em poucas categorias também é observado quando analisamos cada revista em separado. Na ABO Nacional, as quatro primeiras categorias somam 50,86% dos artigos publicados (Tabela 2). A APCD apresenta 48,12 dos artigos distribuídos nas cinco categorias mais presentes (Tabela 3). A RBO concentra em quatro categorias 52,10% dos artigos publicados nesses 15 anos de estudo (Tabela 4).

O editor do Brazilian Journal of Medical and Biological Research afirma que existe subjetividade na editoração e nas decisões quanto à escolha de trabalhos para publicação, embora existam coisas concretas e objetivas que podem ser avaliadas, e que o impacto de uma revista depende de decisões objetivas e subjetivas do editor (Greene, 1998).

Yamamoto (1999) também fala nesse sentido, quando afirma que essa seleção, enquanto um empreendimento humano, significa um processo que dificilmente será imparcial, eivado que está de elementos subjetivos, restando sempre a possibilidade de questionamento. E complementa o raciocínio, expondo que seria ingenuidade (e cinismo) negar que, no mundo acadêmico, parâmetros outros, além do mérito, se colocam entre a produção do conhecimento e a sua aparição em periódicos de destaque.

Este ponto de vista também é abordado por Herzberg, durante entrevista para Andrade (2004). Ele refere que o editor deve conhecer as atuais fronteiras da ciência para ter idéia das áreas que estão despertando maior interesse. E complementa dizendo que, se há muita atividade num campo específico, um trabalho pode ser citado com mais freqüência e rapidez. E ainda acrescenta: o editor não pode sucumbir ao que ele chamou de "lascívia por novidade", ou seja, a falta de visão crítica no afã de publicar tal novidade.

Chauí (2000) afirma que está ocorrendo uma perda da autonomia e responsabilidade na geração de novos conhecimentos, uma vez que a utilização dos resultados científicos não tem sido determinada pelos pesquisadores e nem pelo poder público. As pesquisas estão sendo desenvolvidas para fins privados, havendo o abandono da responsabilidade social.

Essas reflexões nos mostram que a responsabilidade ética dos cientistas, profissionais da área de saúde e responsáveis pela divulgação dos conhecimentos é bem maior e deve ser avaliada não só pelo exercício e resultados de pesquisas ou ações técnicas, clínicas e cirúrgicas em si, mas, sobretudo, pelas conseqüências sociais decorrentes da mesma, no sentido de contribuir para a melhoria na qualidade de vida.

Fazendo uma analogia do espaço ocupado pelos diversos assuntos e pelas temáticas nas revistas com as disposições desses nas grades curriculares dos cursos de Odontologia, percebemos semelhanças. Paula & Bezerra (2003), na pesquisa sobre a estrutura curricular dos cursos de Odontologia, relatam que o tratamento proeminente dado à formação técnica é real, bem como a visível separação entre as áreas profissionalizante e de formação básica. Nessa mesma pesquisa, foi observado que o tratamento dispensado a áreas como saúde coletiva, cidadania e ética é bastante díspar, dependente do perfil que cada curso pretenda conceber para o seu alunado.

Acreditamos que esta última observação também é válida quando se trata das revistas, ou seja, a escolha por qual caminho prosseguir é livre, fato que percebemos quando analisamos o perfil de cada uma.

Apesar de serem publicações de caráter geral e se assemelharem bastante, no que diz respeito às suas apresentações e formatos - mesmo em termos dos percentuais dos assuntos por elas abordados - , a revista ABO Nacional apresenta algumas particularidades, tais como: mais matérias jornalísticas, entrevistas e artigos de opinião em relação às outras duas. Tais formatos de artigos parecem ter uma maior "liberdade" para tratar de assuntos "não-odontológicos", assuntos estes, importantes, de interesses diversificados, que normalmente não são abordados em artigos resultantes de pesquisa científica na área da saúde - como economia, política, cidadania e outras áreas do conhecimento - , mas que acabam agindo positivamente para a construção de uma Odontologia mais integral.

A ABO Nacional é publicada pela Associação Brasileira de Odontologia e, dessa forma, acaba servindo como porta-voz da entidade, que congrega a maioria dos profissionais da área. Este fato pode justificar o alto percentual de artigos (11,63%) que tratam da profissão, resultado que divergiu muito das outras duas revistas.

A categoria temática Saúde Coletiva/Odontologia Preventiva também se sobressaiu muito nessa revista, a segunda no âmbito geral. Esta área tem um papel estratégico na Odontologia, apontada como um espaço de discussão dos aspectos políticos e sociais inseridos na saúde (Amorim, 2002).

No entanto, é importante frisar que, apesar do resultado positivo em relação a esta categoria, observamos que a maioria dos assuntos abordados nos artigos dessa área versava sobre conteúdos técnicos e bastante atrelados à Odontologia, como, por exemplo: levantamentos epidemiológicos, programas de saúde bucal e fluoretação. Quanto ao exame do teor qualitativo das categorias, apesar de não ter sido objeto desta investigação, a nossa breve observação aponta para os resultados encontrados por Narvai (1997) sobre a produção científica brasileira na área de Odontologia Preventiva e Social.

Em relação à categoria Ensino/Formação, esta esteve, de uma forma geral, pouco presente nas publicações das revistas, fato este preocupante, visto que consideramos relevante articular as pesquisas e discussões em Odontologia ao ensino e à formação do profissional na área e, sobretudo, refletir sobre os mesmos. A nosso ver, tal assunto merece maior destaque.

É importante chamar a atenção para o pouco espaço que ocupou a área da Ética, a qual foi inserida em conjunto com a Odontologia Legal, como tema transversal de qualquer área do conhecimento, em particular, da saúde. Discussões e reflexões acerca dessa temática assumem, no atual contexto, uma elevada significação, considerando sua importância diante da diversidade de problemas que se apresentam no modelo de sociedade em que vivemos, tais como: fome, miséria, violência, racismo, exclusão social, desrespeito ao meio ambiente, entre tantos outros, que atentam contra a vida. Assim, esta reflexão torna-se imprescindível à formação profissional, qualquer que seja a área de ensino, sobretudo, em se tratando da saúde.

Caso não haja mudanças nas formas de conceber e ensinar a Odontologia, corremos o risco de perpetuar a carreira sob a égide de uma formação eminentemente técnica (Nash, 1998; Baum, 1997), sem a necessária expressão no âmbito das profissões de saúde. Tal tendência já foi constatada em trabalhos envolvendo coleta de dados sobre a profissão odontológica (Hallissey et al., 2000; Chambers, 2001; Skelly & Fleming, 2002).

Baum (2003) afirma que a manutenção do status da profissão está incontestavelmente relacionada a sua capacidade de absorver conhecimentos e tecnologias que possibilitem a real melhoria da qualidade de vida das pessoas. E dentro desta mesma filosofia de pensamento Campanário (1999) ressalta que a formação científica deveria proporcionar elementos básicos para o entendimento da realidade que nos rodeia, como também para a compreensão do papel da ciência em nossa sociedade.

 

Conclusões

Apesar de as revistas analisadas serem de caráter geral e tratarem de temas multidisciplinares, ficou evidente que há assuntos que predominam nas suas temáticas, assuntos estes que correspondem, na sua maioria, às disciplinas técnicas de cunho eminentemente profissional.

Salientamos que reflexões sobre ética, que contribuiriam para uma visão complexa, reflexiva e crítica da realidade, propiciando mudanças no fazer odontológico, são pouco abordadas e divulgadas. Também o ensino e a formação não são contemplados como deveriam, para que pudéssemos reconstruir o ser e fazer odontológicos, dentro de princípios mais compatíveis com as novas diretrizes curriculares para a Odontologia.

Ao relacionarmos os resultados da presente pesquisa com a estrutura curricular dos cursos de Odontologia brasileiros observamos que as temáticas abordadas nas revistas parecem obedecer a uma disposição semelhante àquela ocupada pelas disciplinas correlatas, no âmbito da formação, ou seja, uma maior ênfase e espaço cedido às áreas técnicas e profissionalizantes.

Podemos depreender que o modelo mercantilista, a fragmentação do saber, aliados a uma visão positivista e cartesiana da realidade, fazem com que percamos de vista as questões globais e o sentido holístico do homem. Assim sendo, acreditamos que a forma como a Odontologia vem sendo concebida e estruturada, muitas vezes, antagoniza-se com a busca do novo perfil do profissional desta área, voltado para uma concepção generalista, humanista, crítica e reflexiva, como estabelece a Resolução CNE/CES 3/2002 das Novas Diretrizes Curriculares dos cursos de graduação em Odontologia. Ao mesmo tempo, contribui para a construção de uma ciência sem alma, que desumaniza e banaliza a vida (Morin, 2000).

Com efeito, é pertinente ressaltarmos, mais uma vez, que as revistas servem como elo de comunicação científica entre os profissionais e estudantes, sendo consideradas veículos importantes para a geração de novos conhecimentos, influenciando diretamente a prática e a formação em Odontologia, como também se deixando influenciar por estas.

Em suma, a comunicação exercida pelas revistas científicas pode contribuir para melhorar a qualidade de vida e a vida em sociedade, ao influenciar e nortear pensamentos, reflexões e atitudes, moldando os fazeres em todos os campos do conhecimento. Precisamos ter em mente que esta é a função social das revistas.

Pensar mais como a ciência é feita e entendê-la, em sentido mais profundo, são tarefas complexas. Dessa forma, esta pesquisa procurou contribuir para a compreensão das características do processo da produção do conhecimento odontológico; no entanto, faz-se necessário um aprofundamento qualitativo do estudo e uma ampliação das análises, para investigarmos em qual estágio se encontra cada área do saber na Odontologia. Mesmo considerando essas limitações, os resultados parecem oferecer subsídios para a reflexão, assim como para estudos posteriores sobre o tema, servindo de parâmetro para acompanhar a evolução do pensar odontológico.

 

Referências

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Recebido em 09/01/06. Aprovado em 06/08/06.

 

 

Colaboradores
K.P.C. Amorim participou da concepção e do planejamento da pesquisa, da revisão bibliográfica, coleta do material empírico, análise e interpretação dos dados e resultados, discussão e redação final do artigo; M.S.C.F. Alves e I.C.C. Costa participaram do planejamento da pesquisa, da análise e interpretação dos dados e resultados e da revisão final; R.M. Germano participou da concepção e do planejamento da pesquisa, da revisão bibliográfica e revisão final do artigo.

* Pesquisa realizada no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, UFRN (Amorim, 2006). }
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