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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

On-line version ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.11 no.21 Botucatu Jan./Apr. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-32832007000100006 

ARTIGOS

 

Caso-pensamento como estratégia na produção de conhecimento*

 

Thinking case-studies as a strategy for producing knowledge

 

Caso-pensamiento como estrategia de producción de conocimiento

 

 

Christiane SiegmannI,1; Tania Mara Galli FonsecaII

ITerapeuta ocupacional, integrante do Grupo de Pesquisa "Modos de trabalhar, Modos de subjetivar", Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, RS. <chrissiegmann@cpovo.net>
IIProfessora, Programas de Pós-graduação em Psicologia Social e Institucional e Informática Educativa, UFRGS; coordenadora, Grupo de Estudos e Pesquisas "Modos de Trabalhar, Modos de Subjetivar", Instituto de Psicologia, UFRGS. <tfonseca@via-rs.net>

 

 


RESUMO

Este texto estabelece que o ato de pesquisar se aproxima do ato de conversar, configurando-se também como dispositivo de subjetivação e espaço de criação. Propõe-se um modo poético e singular de criar um processo de investigação e, simultaneamente, de atuação profissional, procurando romper com o método de investigação mecanicista e dicotômico. Apresenta-se uma estratégia metodológica que utiliza a análise de casos-pensamento elaborados com base na experiência clínica do terapeuta ocupacional e que tem como teia-conceitual os referenciais da Filosofia da Diferença, Terapia Ocupacional, Psicologia e Literatura.

PALAVRAS-CHAVE: Terapia Ocupacional. Psicologia. técnicas de pesquisa. estratégias metodológicas. caso-pensamento. conhecimento.


ABSTRACT

This text establishes that the act of researching resembles the act of talking, constituting as it also does a subjection device and a space for creation. It proposes a singular and poetic manner of creating, at one and the same time an investigation and professional performanceprocess in an attempt to supersede a mechanicist and dichotomous method of investigation. A methodological strategy that uses the analysis of thinking case-studies, prepared from the clinical experience of the Occupational Therapist, is presented, which takes as its conceptual web, references from the fields of Philosophy of Difference, Occupational Therapy, Psychology and Literature.

KEY WORDS: Occupational Therapy. Psychology. research techniques. methodological strategies. thinking case-study. knowledge.


RESUMEN

Este texto establece que el acto de investigar se aproxima del acto de conversar, configurándose también como dispositivo de subjetivación y espacio de creación. Propone un modo poético y singular de crear un proceso de investigación y, simultáneamente, de actuación profesional procurando romper con el método de investigación mecanicista y dicotómico. Analiza una estrategia metodológica que utiliza el análisis de casos-pensamiento elaborados a partir de la experiencia clínica del terapeuta ocupacional y tiene como tela conceptual los referenciales de la Filosofía de la Diferencia, de la Terapia Ocupacional, de la Psicología y de la Literatura.

PALABRAS CLAVE: Terapia Ocupacional. Psicología. técnicas de investigación. estrategias metodológicas. conocimiento. caso-pensamiento.


 

 

Procura da poesia
(...) Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

(...) Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma se te provocam.
Espera que cada um se realize e consuma
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o

como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Drummond de Andrade (2003, p.247)

 

Na procura da poesia, o poeta nos propõe, inicialmente, uma escuta. Uma escuta singular sobre aquilo que ainda não se dissipou - as mil faces secretas das palavras. E, então, nos aconselha um movimento por entre as palavras e o silêncio. Um movimentar-se entre interstícios e vazios onde habitam gestos, sentidos, traços ou falas ainda imperceptíveis ao nosso corpo tecnicista e aflito. Contudo, esse movimento exige paciência e contemplação. Coragem para rachar as palavras e deixar passar as potências que possam dali provir. Movamos, então, nossos corpos! Retiremos o véu que reveste nossos sentidos para percebermos o que está oculto sob a face neutra das verdades universais e de nossas certezas.

A aparente segurança implementada pelo racionalismo científico, do qual parecíamos pertencer, já não encontra seus alicerces na contemporaneidade. As verdades absolutas, a ordem e estabilidade colocam-se em crise. A pretensa dominação do homem sobre a natureza por meio da mensuração, divisão e classificação hierárquica de seus elementos e fenômenos cede a diferentes modos de produção de conhecimento comprometidos com a abertura à complexidade do real.

A elaboração de um procedimento de pesquisa segundo uma visão epistemológica em que seja possível observar o embate com a objetividade, previsibilidade e lógica da verificação e, acima de tudo, com a tradição de neutralidade das ciências, tem se constituído um grande desafio, a começar pelo próprio entendimento que se faz, nos diferentes tempos, do conceito de verdade. Para delinear alguns traços de aproximação a uma nova possibilidade de pesquisa e criação, faz-se necessário, num primeiro momento, colocar em suspenso nossas concepções de verdade, saber e ciência e, conseqüentemente, seus sentidos, sua legitimidade e alcance. Pairar, portanto, sobre as paisagens seculares que enraizaram diferentes modos de conceber a natureza e a humanidade. Perceber, ainda, a linha, nem sempre linear, que leva a diferentes caminhos de investigação e, assim, descortinar pequenas paisagens que nos conduzem às ciências humanas contemporâneas, atualizadas no presente e que perpassam nossa ação sobre o mundo.

Entre as paisagens percorridas, encontram-se as inovações teóricas e os avanços no domínio da Mecânica Quântica, Microfísica, Química e Biologia, ocorridos nos séculos XX e XXI, que trouxeram intensas modificações às ciências, agregando-lhes novos elementos, como imprevisibilidade, auto-organização, espontaneidade, irreversibilidade, desordem e criatividade, que passaram a constituir a base do paradigma emergente. A manipulação do mundo cede lugar à compreensão deste buscando, no campo da subjetividade, explicações para muitos fenômenos e a elaboração da nova ciência: a ciência da complexidade, que se opõe à concepção dualista da realidade, à distinção entre exterioridade e interioridade, individual e social, observador e observado, cultura e natureza e produz encontro com outros saberes.

Nesta perspectiva, partimos rumo à construção de um modo de produção de conhecimento que se revele como possibilidade de rompimento com o método de investigação mecanicista, cuja racionalidade se estabelece em relações binárias e na elaboração da 'metodologia científica' determinada a priori. Uma estratégia metodológica na qual o ato de pesquisar aproxima-se do ato de conversar, de estabelecer um diálogo entre diversos campos de saber, configurando-se enquanto dispositivo de subjetivação e espaço de criação. Uma linha com múltiplas possibilidades de produção, registradas em cada um dos infinitos e imperceptíveis pontos que a compõem, e na qual as 'verdades' são consideradas, não mais como verdades únicas, mas como múltiplas verdades, paradoxos, incertezas e transitoriedades, que descrevem a linha condutora deste trabalho.

O que é verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas, obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esqueceu o que são, metáforas que se tornam gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas. (Nietzsche, 1991, p.34)

Neste caminho, descortinamos um modo poético e singular de criar um processo de investigação e, simultaneamente, de atuação profissional. Um procedimento de análise que denominamos de caso-pensamento e se constitui de dois momentos díspares, mas essencialmente interconectados, por emergirem de uma zona de indiscernibilidade entre prática profissional e análise teórica, quais sejam: a escrita de ensaios poïéticos e a formação de teias-conceituais. Estas constituem-se de discursos que procuram dar contorno à teia formada pela reflexão crítica do pesquisador com a experiência do terapeuta, entremeada por operadores conceituais; aqueles referem-se a situações clínicas significativas, que emergiram do plano intensivo da memória do terapeuta, e compõem-se de uma escrita com maior liberdade formal, em linguagem poética e literária.

Os ensaios poïéticos, que são posteriormente analisados como casos-pensamento para a construção das teias-conceituais, misturam registros de prontuários; fragmentos das falas dos pacientes e de seus familiares sobre sua história de vida, necessidades e expectativas; informações da avaliação terapêutica ocupacional - como desempenho na realização das atividades de vida diária, lazer e trabalho - com memórias e sensações inscritas no corpo do terapeuta/pesquisador durante sua prática profissional. A essas informações também são agregadas imagens, nomes, situações e discursos ficcionais, de modo a preservar a identidade dos sujeitos atendidos e constituir uma escrita poética.

O termo caso-pensamento emerge em consonância aos estudos de Deleuze, cuja análise dos casos examinados - 'caso Hume', 'caso Bergson' etc. - surge do movimento já existente em suas expressões filosóficas. Deleuze opera um procedimento de subtração ativa, extraindo o que não é dito, mas que se faz presente no pensamento dos filósofos. Efetua novos agenciamentos, problematiza seus conceitos e expõe a multiplicidade contida em seus pensamentos. "Não se trata de repetir o que o filósofo disse, mas de reproduzir a semelhança, desnudando ao mesmo tempo o plano de imanência que ele instaurou e os novos conceitos que criou" (Deleuze & Guattari, 1992, p.74). Espinosa, Proust, Kafka, Pierre Boulez, enfim, filósofos, literatos e músicos têm suas potências capturadas por Deleuze, de modo a fazê-lo prosseguir por caminhos nos quais nem os próprios pensadores haviam percorrido. 'Casos de pensamento' que o forçam a pensar e a percorrer uma espécie de tendência virtual apenas esboçada, gaguejada, talvez nem sequer autorizada.

Desse modo, os 'casos de pensamento' assim como os 'casos-pensamento' constituem-se, respectivamente, como intercessores na filosofia deleuziana e na pesquisa em construção. Surgem das fissuras que cada experiência rememorada contém e acabam por expor suas virtualidades. "Cada caso se impõe ao pensamento como um desafio: trata-se sempre de construir uma multiplicidade, de escapar dos impasses da representação e da oposição do Um e do Múltiplo" (Abreu, 2004, p.90).

A construção dessa estratégia metodológica emergiu no decorrer da elaboração do projeto de dissertação, no período em que se realizavam levantamentos bibliográficos e aprofundamentos teóricos, inspirada em, pelo menos, dois fatores que considero determinantes. Em um dado momento, após a leitura de um artigo, senti-me convidada a escrever uma situação vivenciada em minha prática profissional que me parecia significativa e relacionada ao tema estudado. Não havia, naquele momento, uma preocupação estética ou um objetivo específico para realizar a escrita. No entanto, ao reler as anotações percebi, nas entrelinhas do texto redigido, uma divergência entre o rememorado e as palavras ali impressas. Algumas semanas depois, tive oportunidade de um encontro inusitado com a literatura drummondiana. Ao contemplar o poema 'Procura da Poesia' permaneci inerte, silenciosa, capturada pela intensidade de seus versos. Meus olhos absorviam suas palavras e, a cada releitura, faziam emergir espaços, linhas de fuga e vazios que conduziam minha atenção a fragmentos da experiência profissional descrita na semana precedente. Na reconstituição desse processo de escrita, etapa por etapa, começava a visualizar a criação de uma possível estratégia de produção de conhecimento e, ao mesmo tempo, tornava-se difícil discernir o que era constitutivo do ato de pesquisar e do ato clínico no campo da Terapia Ocupacional que começava a ser problematizado.

O processo de investigação nasce, dessa forma, em consonância com os estudos e a pesquisa iniciada na Pós-graduação em Psicologia Social e Institucional da UFRGS, que se propõe a dar visibilidade a um modo de trabalhar na Terapia Ocupacional próximo a uma concepção de saúde na qual se processa a justaposição dos conceitos de complexidade e transdisciplinaridade, bem como a superação das certezas e verdades universais. Mas, fundamentalmente, busca o entendimento do campo molecular pelo qual circula a ação do terapeuta ocupacional e da capacidade de invenção que transversaliza as ações do sujeito no mundo.

Inspirada nas palavras de Drummond sobre o fazer poético, surge, então, a análise de casos-pensamento como método de pesquisa. Método aqui compreendido em sua origem etimológica, do grego, hodós, que significa caminho. Um caminho construído à medida que nos movimentamos na escrita e na pesquisa, sem a intenção de confirmar o que se sabe, nem atingir um objetivo preestabelecido. Um método composto de um olhar sensível do pesquisador para si mesmo e para o outro dentro da prática clínica, mas que procede a uma análise crítica de suas experiências profissionais. Neste processo, pesquisador e objeto tornam-se indissociados e estão implicados numa produção de conhecimento que busca a compreensão da complexidade da vida.

Memórias, linhas de fuga e desvios sugerem ao pesquisador, como descreve Drummond, penetrar surdamente no reino das palavras e, ao contemplá-las, proceder a uma procura poética de suas virtualidades e, simultaneamente, a uma cartografia do saber-fazer-em-Terapia-Ocupacional. À medida que as intensidades das experiências profissionais e das forças que atravessam o campo da Terapia Ocupacional são rememoradas, a paisagem do vivido vai traçando um novo desenho por meio dos movimentos das palavras sobre o papel e estas se constituem como dispositivo para fazer-pensar as forças atravessadas naquele momento vivenciado. O exercício de construção textual surge inicialmente num ímpeto são palavras soltas, fragmentos de marcas, lembranças e registros de encontros impressos num retrato, como imagem estática de algo já vivido. No entanto, no processo de elaboração textual, o passado pode atualizar-se e trazer consigo afetos, sensações, deslocamentos e desterritorializações; memória involuntária, duração vivida, não como instante que substitui outro instante, mas como "progresso contínuo do passado que rói o futuro e que incha avançando [...] e acompanha-nos, sem dúvida, por inteiro a cada instante" (Bergson, 1964, p.44). Cada palavra-retrato, pouco a pouco, ganha fluidez, expande-se e forma novas conexões, rede tensa que provoca uma torrente de novas sensações e significações, criando marcas no corpo e fazendo-o vibrar.

O corpo do terapeuta deverá, então, permitir incorporar o pesquisador-aranha, na imagem do narrador que Deleuze compõe com Proust, capaz de sentir as infinitesimais vibrações das forças que atravessam tais acontecimentos, pois a

teia e a aranha, a teia e o corpo são a mesma máquina [...] Sensibilidade involuntária, memória involuntária, pensamento involuntário são como que reações globais intensas do corpo sem órgãos a signos de diversas naturezas [...]. Estranha plasticidade do narrador. (Deleuze, 1987, p.182)

Alcançável, talvez, pela ampliação e transmutação de seu corpo sem órgãos3,corpo-devir-aranha.

E como fazê-lo? Como criar para si um corpo sem órgãos? Quiçá proceder inicialmente a uma abertura à imprevisibilidade das formas e à irreversibilidade do tempo; esquivar-se de explicações e soluções a uma dada situação pelo já conhecido, ou quem sabe, ainda, "[...] violentar o espírito, contrariar a inclinação natural da inteligência"? (Bergson, 1964, p.65) Estratégias possíveis.... mas, por ora, retomemos ao modo de produção de conhecimento aqui delineado.

As forças constitutivas dessa teia-acontecimento são, então, percebidas e enunciadas pelo pesquisador, que procura refletir acerca de sua própria prática profissional ao tecer uma permeável e complexa trama entre a escrita dos casos-pensamento e os referenciais teóricos da Filosofia da Diferença. Nesse processo, é possível conectar-se àquilo que se sobressai ao vivido, o intempestivo, o plano da vida. "Trata-se, portanto, na via da história, de contatar com o a-histórico [...], perseguir o objetivo de contatar o plano intempestivo" (Rauter, 2000, p.30). Desta forma, é possível ao pesquisador capturar, do encontro entre os corpos do terapeuta e do paciente, agora, rememorado, as intensidades-signo que os transversalizam mas que, embora sejam constitutivas de cada sujeito e de sua história, surgem apenas no 'entre-tempos' e 'entre-momentos' como um acontecimento entre duas vidas impessoais, ou seja, singulares, únicas e imanentes a uma vida nua (Deleuze, 2002). Uma vida que é pura potência e que permite aos sujeitos abrirem-se para o novo, criando novas possibilidades de vir a ser. Nesse retorno à percepção das vibrações, há novamente o reencontro do terapeuta-pesquisador com sua intuição, um retorno ao tempo heterogêneo e qualitativo da duração, cuja qualidade intrínseca é "imediatamente ontológica, e não somente existencial, psicológica ou epistemológica: passado, presente e futuro não se reduzem a momentos de uma cronologia, eles são o Ser mesmo" (Do Eirado, 1997, p.209).

O pesquisador, ao enunciar as palavras e contemplá-las à procura de sua poética, não compõe uma linearidade de lembranças registradas do passado, pois não se trata de buscar registros no arquivo das experiências passadas, distantes e representadas, ou de realizar uma retrospectiva por intermédio da memória voluntária. Mas, sim, propõe contatar com o ser em si do passado, o virtual que lhe escapa. Para Bergson, o passado

não representa alguma coisa que foi, mas simplesmente alguma coisa que é e coexiste consigo mesma como presente; [...] o passado não pode se conservar em outra coisa que não nele mesmo, porque é em si, sobrevive e se conserva em si. (Deleuze, 1987, p.58)

Neste sentido, o sujeito e suas experiências do vivido têm como característica essencial a temporalidade, isto é, a duração, que se constitui como processo instaurador da imprevisibilidade e criação do novo, uma vez que a duração é também memória, passagem, devir e heterogeneidade. Comporta diferenças, desvios e multiplicidades. Trabalha sobre acontecimentos virtuais, sobre o não-sentido, e só pode ser captada pela intuição, implicação e pelo movimento do pesquisador, já que a intuição

é sobretudo o movimento pelo qual saímos de nossa própria duração, o movimento pelo qual nós nos servimos de nossa duração para afirmar e reconhecer imediatamente a existência de outras durações acima e abaixo de nós. (Deleuze, 1999, p.23)

Proceder a uma forma de pesquisa atravessada pela memória, que procura acionar o devir e aproximar-se, portanto, da inventividade, requer que acionemos a memória involuntária, como propõe Proust. Nesse caminho, Deleuze afirma que a memória involuntária "rompe com a atitude de percepção consciente e da memória voluntária, torna-nos sensíveis aos signos e, em momentos privilegiados, dá-nos a interpretação de alguns deles" (Deleuze, 1999, p.64). Sua emergência devém de um tropeço, de um desequilíbrio de nossa aparente estabilidade e da percepção de pequenas fissuras que têm o potencial, assim como a Arte, de recriar o passado e de promover a desterritorialização de nosso corpo, a desconstrução do 'eu' absoluto e identitário, para "torná-lo permeável ao plano intensivo da produção desejante" (Rauter, 2000, p.41).

Os casos-pensamento compõem, portanto, uma escrita reflexiva sobre planos intensivos da memória, que pedem passagem no corpo do pesquisador. Planos que constituem uma multiplicidade virtual. Memórias do sujeito nessas ações e sua história, não como obra da razão que o paralisa, mas como um inconsciente plano de intensidades. Uma história que "surge de uma relação de imanência com a vida, aquela praticada pelo que gera a vida e não apenas a conserva [...] o passado tomado numa perspectiva poética, oracular - a história como obra de arte" (Rauter, 2000, p.28). Nesta perspectiva, o ato reflexivo não trata de um retorno à interioridade. Caminha no sentido inverso. Coloca o dentro exposto ao fora. Relança as experiências ao campo intensivo das memórias para que possam ser rasgadas a novos sentidos e, assim, sujeitarem-se às forças de criação.

As intensidades-signo, agora corporificadas em palavras-intensidade, podem ainda contagiar aquele que lê, que se deixa mergulhar na superfície do corpo textual e se levar pela luminosidade do plano de imanência ali constituído. Ao contemplar as palavras, permite-se transformar em leitor-aranha, cujas vibrações sentidas na teia de palavras poderão reverberar nas relações que o sujeito-leitor tem nos campos profissional ou pessoal, ampliando a rede conectiva de produção de conhecimento constituída na pesquisa. Esse contágio só é possível à medida que a arte de cartografar componha mapas heterogêneos e múltiplos de potencialidades, capazes de produzir afecções nos territórios subjetivos, que impulsionem novos devires e agenciamentos coletivos de enunciação.

A cartografia que emerge dessa tessitura instaura no sujeito - pesquisador-terapeuta ou leitor - "um estado de outramento, que consiste em tornar-se estrangeiro de si mesmo, possibilitando-lhe experimentar-se em novos espaços e modos de existência" (Kirst, 2003, p.96) Nesse processo, o sujeito de enunciação (pesquisador) não pode ser distinguido do sujeito do enunciado (terapeuta), como não foi possível entre o narrador e o herói na Recherche. A escrita dos casos-pensamento encontra-se, portanto, no plano de singularização, uma vez que se refere a acontecimentos imersos em determinados contextos e que só existiram enquanto potência no entre corpos do terapeuta e do paciente, produzindo processos subjetivos singulares. Assim, a análise dos casos-pensamento distancia-se do método cartesiano de pesquisa, no qual o objeto de estudo é quantificado e submetido à análise comparativa, uma metodologia em que o pesquisador age como o homem de juízo que "classifica a multiplicidade para reduzir suas diferenças acidentais à diferença específica e à identidade do gênero, isto é, para reduzi-las à unidade universal da razão" (Fuganti, 1990, p.40).

Trata-se, portanto, de uma estratégia metodológica cuja utilização, nesta pesquisa, prevê a escavação das marcas deixadas pela experiência sensível vivenciada pelo terapeuta-pesquisador e por sua reflexão acerca do emaranhado de forças imersas na racionalidade científica, que ainda perpassam as diferentes práticas da Terapia Ocupacional. As marcas, segundo Rolnik (1993, p. 242), são

os estados inéditos que se produzem em nosso corpo, a partir das composições que vamos vivendo. Cada um destes estados constitui uma diferença que instaura uma abertura para a criação de um novo corpo, o que significa que as marcas são sempre gênese de um devir.

Essa escavação é lenta e deve acontecer em consonância com o caos da terra revolvida, simultaneamente, ao acaso dos golpes de sua enxada que capturam determinadas forças, e não outras (Benjamim, 1997). As experiências percebidas como casos-pensamento são, então, aquelas em que as forças são perceptíveis intensamente, fazendo vibrar o corpo do pesquisador-aranha.

A escolha das experiências profissionais que têm uma potência para vir a ser um caso-pensamento, ou seja, tornarem-se dispositivos para fazer-pensar, depende da emergência da potência de deslocamento, de estranhamento e de desassossego que a tentativa de contatar com o virtual das situações vivenciadas na prática profissional impõe ao corpo. Se o pesquisador permanecer à deriva de suas escolhas, cairá na armadilha de uma escolha valorativa entre um encontro bom ou ruim para a pesquisa, ou seja, um encontro escolhido com o intuito de chegar a uma determinada resposta já prevista. Nesse tipo de seleção, não há um entendimento dos atravessamentos que agem nos corpos e a percepção do desejo que nasce dos fluxos moventes entre as forças que compõem tal encontro.

A efetivação dessas escolhas precisa acontecer sob aspectos éticos, estéticos e políticos. Na dimensão ética, no sentido de permitir a seleção de superfícies, solos ou poesias em que não há um julgamento pelo grau de semelhança ou discrepância de um modelo determinado previamente, mas que podem ser agenciadores de encontros que fortalecem os corpos ao se conectarem ao germe potencializador de afetos e aos modos inventivos de viver o cotidiano. Dimensão que, portanto, é indissociável da estética na medida em que procede a expressão criadora, a abertura de novos processos de subjetivação e trata da dimensão sensível do corpo. Enfim, aproxima-se, também, de uma dimensão política porque se processa numa luta contra as cristalizações e enrijecimentos de qualquer produção.

Tal estratégia proporciona ruptura com as evidências de saberes hegemônicos, dicotomias e generalizações que perpassam a prática da Terapia Ocupacional. A decomposição dos elementos do ensaio-poético e o entendimento das múltiplas linhas que o atravessam compõem um 'poliedro de inteligibilidade' capaz de proceder à 'diminuição do peso causal'4 e analisar a multiplicidade de forças coexistente nos acontecimentos, embora não seja possível esgotar todas as faces desse polígono. O acontecimento, absorvido da zona oculta do conhecimento, na qual se mantinha na qualidade de forças-intensivas, emerge dos agenciamentos realizados pelo próprio terapeuta-pesquisador pelas diferenças, transformando-se em conhecimento capaz de atualizar o presente e impor-se como potência inventiva, afirmando a vida. Nessa máquina - teia-acontecimento e pesquisador-aranha - a obra poética é, então, remetida ao plano impessoal pela implicação do pesquisador com as imagens-tempo que se formam na construção textual.

Dessa forma, a expectativa na exploração do território das marcas-intensidade aproxima-se não só de um modo de pesquisar mas, fundamentalmente, de estratégias de atuação clínica do terapeuta ocupacional que se distanciam da lógica cientificista. Ao pesquisador cabe perguntar à poesia-pesquisa: trouxeste a chave que pode ampliar e sensibilizar o olhar para o não dito, o indizível e para as 'mil faces secretas sob a face neutra' da razão? A resposta compõe-se de uma multiplicidade de chaves e de verdades possíveis, mas ao terapeuta-pesquisador interessa aquelas que trazem a emergência daquilo que não pode ser universalizado ou constituído como modelo. Seu olhar atento e minucioso percebe, através do corpo sem órgãos, as chaves minoritárias, os processos, detalhes e vestígios que apontam para possíveis transformações nos processos subjetivos e nas práticas sociais dos sujeitos.

A construção de um modo de fazer pesquisa na qual o passado, o presente e o futuro constituíram, aqui, um novelo entrelaçado de tempos coexistentes, aponta, enfim, uma estratégia de produção de conhecimento e atuação profissional que não se encerram em si mesmas, pois se mantêm em constante atualização e estão sempre em vias de formação no decorrer da pesquisa e da prática clínica. Conhecer, apreender, (des)cobrir, pesquisar implica subjetivar e, portanto, encontra-se no campo da singularização, da imprevisibilidade e da diversidade de trajetórias possíveis de uma prática atravessada pelo plano ético-estético-político, cujo compromisso maior é a afirmação da vida. Um encontro e uma aceitação dos paradoxos que percorrem a contemporaneidade, assim como da potência poética existente em nossos fazeres cotidianos, que nos trazem sempre o impensável e aquilo que não é possível considerar como norma e verdade única no desenvolvimento de uma pesquisa. Neste sentido, pesquisar é concordar com Drummond (1984, p.95) sobre sua visão da vida transcrita neste pequeno Lembrete: "Se procurar bem, você acaba encontrando. Não a explicação (duvidosa) da vida. Mas a poesia (inexplicável) da vida".

 

Referências

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ROLNIK, S. Pensamento, corpo e devir: uma perspectiva ético/estético/política no trabalho acadêmico. Cadernos de Subjetividade: Núcleo de Estudos e Pesquisas da Subjetividade do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUCSP, v.1, n.2, p.241-51, 1993.         [ Links ]

SIEGMANN, C. Pensar e inventar-se: Terapia Ocupacional como clínica dos afectos. 2006. Dissertação (Mestrado) - Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.         [ Links ]

ZOURABICHVILI, F. O vocabulário de Deleuze. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2004.         [ Links ]

 

 

Recebido em 11/04/06. Aprovado em 20/09/06.

 

 

* Elaborado a partir de Siegmann (2006), dissertação de Mestrado com apoio financeiro da Capes.
1 Rua Umbu, 1630, apto. 329 Porto Alegre, RS
91.350-100
2 "O plano de imanência é a condição sob a qual o sentido tem lugar, o próprio caos sendo esse não-sentido que habita o fundo mesmo de nossa vida. O plano é coisa bem diversa, porém, de uma grade de interpretação, que se assemelha às formas prontas de pensamento, aos clichês com que recobrimos o caos em lugar de enfrentá-lo: o plano não é subjacente ao dado, como uma estrutura que o tornaria inteligível a partir de uma 'dimensão suplementar' àquelas por ele comportadas". (Zourabichvili, 2004, p.78)
3 "Esse corpo é tanto biológico quanto coletivo e político; é sobre ele que os agenciamentos se fazem e se desfazem; ele é o portador das pontas de desterritorialização dos agenciamentos ou linhas de fuga. O corpo sem órgãos varia (o da feudalidade não é o mesmo que o do capitalismo). Se o denomino corpo sem órgãos, é porque ele se opõe a todos os estratos de organização, tanto aos da organização do organismo quanto aos das organizações de poder." (Deleuze, 1996, p.22)
4 Quanto mais se analisar, interiormente, cada detalhe do processo a ser pesquisado ou observado, mais se conseguirão estabelecer relações exteriores com outras práticas. Como o exemplo, citado por Foucault, do processo de 'carceralização' e sua relação externa com as práticas disciplinadoras da escola e do exército (Foucault, 2003).