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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

On-line version ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.11 no.21 Botucatu Jan./Apr. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-32832007000100015 

DEBATES

 

A saúde persecutória: à espera dos riscômetros portáteis

 

Persecutory health: waiting for portable riskometers

 

La salud persecutoria: esperando los 'riesgómetros' portátiles

 

 

Luis David CastielI,1; Maria Cristina Rodrigues GuilamII

IPesquisador, departamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos em Saúde, Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz (Ensp/Fiocruz), Rio de Janeiro, RJ. <castiel@ensp.fiocruz.br>
IIPesquisadora, Centro de Estudos de Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana, Ensp/Fiocruz. <guilam@ensp.fiocruz.br>

 

 

O pensamento paranóide vem se constituindo sinal representativo de nossos tempos (Innerarity, 2004). Ao operar com a categoria 'risco', obrigatoriamente estamos entrando no espaço futurológico da probabilidade, mas, de certa forma, também, no da paranóia. Assim, algo pode se presentificar, conforme a postulação de determinados valores, obtidos mediante cálculos em estudos com técnicas criadas para esta finalidade. Mas, por suas próprias características virtuais, não possuímos garantias sólidas que isto venha a ocorrer. Indivíduos estão sob risco, mesmo que não apresentem sinais evidentes de adoecimento, mas, por indícios nem sempre muito claros, gerados pelos dispositivos médicos de prospecção e vigilância disponíveis. A mensagem é: ameaças nos rondam e devemos estar atentos a isto. Precisamos nos orientar cada vez mais por critérios de biossegurança.

Por um lado, temos a proposta objetivante erigida pelos estudos empíricos populacionais, cujos resultados geram os níveis de risco conforme as diversas possibilidades de exposição. Por outro, temos o indivíduo que desconhece se sua exposição irá, no futuro, ter um desfecho dicotômico - inoportuno ou não. Entramos, assim, no interior de um domínio imaginário propício a cogitações que podem assumir um caráter, digamos, 'semidelirante', pois (ainda) carecem de fundamento - no sentido de firmeza, uma vez que seu 'fundamento' primordial é quase simultaneamente especulativo e elucubrativo.

Em outras palavras, estamos lidando com feixes de dimensões subjetivas que se constroem a partir de um discurso racional, mas que, por não se caracterizarem pela certeza e consistência, não proporcionam segurança e, muito menos, tranqüilidade. Pelo contrário, somos obrigados a lidar constantemente com uma atmosfera conspiratória, um terreno muito fértil ao desenvolvimento de pensamentos persecutórios, onde a suspeita pode se renovar a qualquer momento.

Além disto, há uma nova 'moralidade' de mercado - ou seja, uma forma de regulação que impele indivíduos a afastarem-se dos princípios morais, como virtude, bem, honestidade etc., socialmente vigentes em períodos de pré-globalização, e seguirem padrões e formas de sentir, pensar e atuar sob a égide de alta competitividade, que marca o âmbito laboral, e de busca individualista de satisfação.

No campo das condutas saudáveis em saúde, há situações em que os fatores regulatórios não demandam o emprego de mecanismos como os que envolvem os potencialmente dolorosos sentimentos de culpa. De certa forma, é possível apelar-se para um eventual componente da culpa, menos intenso e mais transitório, que costuma acompanhar o senso de ridículo - o sentimento de vergonha (o propalado 'mico' que assola os adolescentes).

Neste sentido, a obesidade e as muitas chacotas que, em geral, ridicularizam os que as sofrem, servem de exemplo a esta tese. Obesos podem, conforme as contingências, sentir as pressões e os constrangimentos que suas aparências podem provocar. Há, também, transtornos referidos à imagem corporal, nos quais o sentimento de vergonha é predominante. Assim, aqui não se trata tanto do mecanismo de 'culpar a vítima', mas, como nos referimos anteriormente, do de 'constranger os envergonháveis'. Apesar das indiscutíveis razões de prevenção a enfermidades decorrentes do tabagismo, em alguns contextos, a inibição a este hábito parece envolver a geração desse tipo de sentimento.

Além disto, da mesma forma que Bauman (2005) tece uma crítica ao alcance preditivo da demografia, podemos também fazê-la à epidemiologia. As predições epidemiológicas refletem, também, o espírito anímico da época mais do que a capacidade de descrever os desígnios do futuro. Neste sentido, estão bem mais próximas (do que gostariam) de narrativas proféticas do que de padrões prospectivos que se autorizam como verazes, com o aval da cientificidade. A epidemiologia é um campo de conhecimentos necessários para o âmbito das análises e intervenções sanitárias. Mas está longe de ser suficiente, como, por vezes, parece se arvorar a assumir tal papel.

Como disciplina empiricista, não consegue proporcionar entendimentos satisfatórios (nem assume sua fragilidade neste sentido) diante da complexa dinâmica entre a situação de saúde de pessoas/populações e as aceleradas mudanças socioculturais e subjetivas (que tendem a ser categorizadas de modo demasiadamente simplificador sob a égide das 'variáveis psicossociais'), uma vez que estas últimas se mostram ainda limitadamente inteligíveis. Enfim, os discursos sobre o risco atual indicam a ambivalência da época em várias facetas. Uma delas reflete a insegurança emocional tardo-moderna, ao mesmo tempo que aponta para o primado (de certa forma, mítico) das certezas veiculadas pelos dispositivos racionais da ciência moderna (Reith, 2004).

Uma das formas de pensar as atuais práticas de prevenção aos riscos é o fato de que visam à produção do indivíduo 'autor de sua própria saúde' e, por isto, devotado a merecer o prêmio da longevidade saudável. Esta é a figura gerada pela 'nova saúde pública', que enfatiza certas práticas nas quais o bem supremo é o prolongamento da vida em termos estritos de longevidade, de preferência, com o máximo de conforto possível, conforme as circunstâncias da vida se apresentem e seus bolsos permitam adquirir.

Diante da proliferação hightech que nos acossa de modo inclemente, uma pergunta não quer calar. Será que, com os avanços dos conhecimentos tecnocientíficos, epidemiológicos e genômicos, para fazer companhia aos tecnobjetos portáteis que fazem parte de nosso cotidiano, será que, algum dia, teremos algum tipo de 'riscômetro' portátil (quem sabe, podem chamar-se I-riskpod, mimetizando o onipresente I-pod)? Mais um novo instrumento 'essencial' para a nossa autogestão que, mimetizando os informes meteorológicos, seria capaz de nos proporcionar constantemente boletins periódicos e individualizados conforme nossas variáveis relativas à gestão de estilo de vida, a dimensões genéticas e constantes biológicas sumarizadas computadorizadamente, e capaz de gerar uma previsão contábil constante de nossos riscos. Assim, é possível que, em pouco tempo, talvez, a partir das megainvestigações epidemio-genômicas que estudam o papel dos genes, do ambiente e do estilo de vida nos problemas de saúde, surgirá algo parecido a riscômetros portáteis, que contabilizarão os débitos e ganhos de cada um na gestão cotidiana de riscos em busca da longevidade. Até porque já existem aqueles que estão disponíveis on line, como os que aparecem em portais da internet (www.youfirst.com).

 

Referências

Bauman, Z. Vidas desperdiciadas:la modernidad y sus párias. Barcelona: Paidós, 2005.

Innerarity, D. La sociedad invisible. Madrid: Espasa Calpe, 2004.

Reith, G. Uncertain times: the notion of 'risk' and the development of modernity. Time Soc., v.13, n.2/3, p.383-402, 2004.

 

 

Recebido em 08/01/07. Aprovado em 17/01/07.

 

 

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