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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versão impressa ISSN 1414-3283versão On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) v.11 n.22 Botucatu maio/ago. 2007

https://doi.org/10.1590/S1414-32832007000200019 

LIVROS

 

 

Silvia Cardoso Bittencourt

Médica; doutoranda, Programa Interdisciplinar em Ciências Humanas, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Florianópolis, SC. <silviafln@terra.com.br>

 

 

RUSSO, M.; CAPONI, S. (Orgs.). Estudos de filosofia e história das ciências biomédicas. São Paulo: Discurso Editorial, 2006.

 

 

No prefácio do livro organizado por Marisa Russo e Sandra Caponi, Michel Paty contextualiza seu lançamento, em um momento em que se renovam os interesses por uma "reflexão crítica, filosófica, epistemológica, histórica e social das ciências contemporâneas" que, em linhas gerais, ocorre a partir da década de 1960. Esse interesse vem se tornando ativo em diferentes países, incluindo o Brasil, e a obra é resultado do trabalho conjunto de pesquisadores do Brasil e da França.

Segundo as organizadoras, o tema é a relação entre história, filosofia e ciência. Particularmente as ciências que lidam com a vida, com a proposta de reflexão sobre a teoria e prática do conhecimento científico. A pretensão da obra é que os textos sirvam como ponto de partida para uma reflexão sobre a ciência do ser vivo a partir do momento em que a ciência moderna instaura-se como tal, ou seja, a partir do século XVII.

A contribuição da filosofia e da história pode ocorrer quando estas se tornam instrumentos para oferecer uma análise da prática e escolha científicas, ao colocar em evidência fatores relacionados a aspectos sociais e humanos, habitualmente não considerados na prática científica.

A atividade científica supõe certa interpretação do mundo, e quando provocamos este tipo de reflexão, colocamos em evidência a atuação das instituições, dos aspectos coletivos da descoberta, o peso das influências políticas, as responsabilidades coletivas das escolhas de teorias científicas, entre outros fatores que influenciam a teoria e prática das ciências, neste caso, das ciências da vida.

Nesta obra, com dezesseis artigos, os autores, a partir de estudos referentes a pesquisas de fisiologistas, médicos, anatomistas, geneticistas, entre outros estudiosos do ser vivo, pontuam aspectos relacionados ao processo de descoberta e desenvolvimento do conhecimento, que na maior parte das vezes são desvalorizados ou passam despercebidos.

O primeiro artigo, de Jean Gayon, fala sobre a epistemologia da medicina, com características próprias que a distinguem daquela da biologia. Este estatuto diferenciado está relacionado tanto ao fato de a medicina ser uma ciência e uma arte, pois tem como objetivo intervir sobre a doença, como por outro lado, utilizar a categoria "doença".

Embora ambas tenham como objeto lidar com a vida do ser humano, para a biologia, algumas alterações na fisiologia seriam consideradas adaptações a para a primeira são inadaptações ou desadaptações, ou seja, doenças.

Se parece claro que a medicina possui uma epistemologia própria enquanto saber específico, por outro lado, o autor questiona o quanto ela tem contribuído para a epistemologia de uma forma mais geral, no sentido dos limites e fundamentos do conhecimento humano.

Assinala que tal contribuição tem ocorrido apenas em relação aos aspectos éticos "o que devo fazer". Em relação a outras perguntas pertinentes ao campo da filosofia, "o que posso saber" e "o que posso esperar", não tem havido manifestações por parte daqueles que atuam neste campo.

A seguir, os artigos de diferentes autores, com relatos em detalhes, caracterizando com dados históricos o contexto em que viviam e trabalhavam os pesquisadores, remetem-nos a um cenário mais amplo, permitindo-nos visualizar os aspectos "ocultos" que interferem no processo de produção do conhecimento. As crenças de uma época, as teorias dominantes, os traços de personalidade e disputa social, as influências políticas e mudanças sociais (industrialização, guerras, mobilizações de população), são alguns dos aspectos que habitualmente não levamos em conta quando aceitamos um fato como uma "verdade" científica.

Para exemplificar, podemos pensar no caso do ácaro que provoca as lesões da escabiose (Sarcoptes scabiei). Será que os profissionais de saúde de hoje podem imaginar que durante cerca de setecentos anos ficaram em disputa várias teorias para determinar a etiologia da escabiose, se estava relacionada a um inseto ou não? Por que a hipótese de que existe um microrganismo passa a ser válida a partir de determinado momento, se décadas antes ele já era visualizado? Na época em que surgiu o microscópio ainda se duvidava de sua existência, porque alguns acreditavam que as imagens visualizadas eram artefatos do aparelho, e não imagens "reais".

Havia outras crenças vigentes e teorias hoje desprezadas, como a geração espontânea de um organismo, eram aceitas. Além disso, questões políticas também estavam em jogo, por exemplo, o reconhecimento de determinado médico na corte, e por ocasião de mudança de governo, modificava-se também quem era o profissional valorizado e, em conseqüência, a teoria defendida.

Da mesma forma que no caso da escabiose, tema de um dos artigos do livro, cada um dos autores traz a análise de casos que nos permitem uma reflexão sobre a trajetória das hipóteses, experiências e atuação de cientistas e pesquisadores na busca de um novo conhecimento científico. Aspectos sociais e políticos apontados e os questionamentos levantados pelos autores, ilustram o quanto um fato pode ser relido a partir da valorização de dados que, em um primeiro momento são considerados secundários.

Para fechar a obra, Olgária Matos aborda a relação da ciência moderna com a natureza, resgatando aspectos pontuados pelos antigos gregos e por autores como Heidegger, Benjamin, Adorno e Horkheimer, entre outros. A cultura contemporânea, priorizando o discurso da ciência moderna e justificando atitudes como o sacrifício de animais, do meio ambiente e de outros seres humanos. O discurso científico incorporado nos diversos âmbitos da vida, do público ao privado, ignorando questões relacionadas aos seus métodos e ao destino do conhecimento gerado por meio das pesquisas científicas.

Olgária traz como destaque a confusão entre progresso científico e progresso da humanidade, enquanto segundo a autora, sofremos "periódicas recaídas na barbárie, no apogeu de uma civilização científica que se pretende lógica e entende que tudo seja explicável". Se antes era a natureza quem aterrorizava o homem com suas forças desconhecidas, hoje é ela quem está nas mãos do homem, assim como a própria humanidade.

Enquanto o desejo de dominação, que desconsidera as vítimas geradas em nome do progresso, não for abandonado e substituído por uma postura que considera a própria natureza como um sujeito, não poderemos falar em progresso da humanidade, apesar do progresso técnico-científico.

A reflexão sobre nossa condição na modernidade e a crítica a determinados procedimentos realizados em nome do desenvolvimento científico, talvez possam nos remeter a uma nova condição, em que o aperfeiçoamento humano também seja priorizado, e então poderemos falar de progresso em um sentido mais amplo.

O distanciamento que nos possibilita a abordagem histórica é um fator importante para refletirmos também em relação a contextos atuais, chamando a atenção para influências que ainda continuam interferindo na construção do conhecimento científico atual e que permanecem desconsiderados na perspectiva hegemônica.

Os pequenos erros de digitação encontrados não desvalorizam o conteúdo da obra, com artigos de leitura agradável e que nos remetem a um cenário em que a riqueza dos detalhes permite a visualização de uma época que não vivenciamos, mas a qual podemos ter acesso a partir do enfoque histórico sobre documentos deixados pelos pesquisadores nos séculos passados. Este é um ponto positivo para aqueles leitores que não têm muita familiaridade com os estudos históricos e filosóficos, como os profissionais da área da saúde e ciências da vida em geral médicos, enfermeiros, farmacêuticos e biólogos, entre outros. Temas familiares a esses profissionais, entremeados de considerações de cunho filosófico e histórico são um convite à reflexão não apenas em relação a questões teóricas, mas também em relação aos atos rotineiros da prática de cada um, no seu dia a dia.

 

 

Recebido em 22/03/07. Aprovado em 26/06/07.

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