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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versão impressa ISSN 1414-3283versão On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) v.11 n.23 Botucatu set./dez. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-32832007000300025 

INFORMES

 

Homenagem a Kurt Kloetzel (1923-2007)*

 

 

Daniel Klotzel

Médico, doutor em Clínica Cirúrgica, Grupo de Apoio à Maternidade e Paternidade (GAMP), São Paulo, SP

 

 

Minha irmã Ruth aqui presente e eu, agradecemos, em nome da família Klotzel, a homenagem que os colegas do Kurt Kloetzel que se foi em 5 de agosto, aos 84 anos hoje lhe prestam, dando seu nome ao importante prêmio conferido aos melhores trabalhos apresentados neste X Congresso Paulista de Saúde Pública. Sinto-me pouco à vontade de falar em seu nome, mas afirmo, do fundo do coração: mais do que orgulho de ser seu filho, tive a felicidade, compartilhada por tantos, de conhecer e conviver com o Kurt.

É muito difícil delimitar sua dimensão pública e privada. Como filho, sempre o admirei como homem público; os seus colegas e, principalmente, seus alunos, sentiam-no como amigo. Nós temos imprimidos bem fundo, sulcados até, traços indeléveis do Kurt. Nós, os amigos do Kurt.

Meu pai teve uma vida conturbada, repleta de acontecimentos. Sempre revoltado, sabia dirigir suas energias de forma positiva, construtiva (e aí o grande exemplo). Nunca o vi entediado.

Seu campo de interesse era quase infinito: quando se interessava por algo, estudava o assunto profundamente. Estudou música, fotografia, física, filosofia, literatura, botânica, zoologia e sei lá mais o que. Nas horas vagas era fotógrafo e jardineiro; pegou na enxada até muito re­centemente. Talvez tenha sido o único "naturalista" termo fora de moda que eu conheci. Isso tudo, por ser um profundo humanista.

Antes de estudar medicina foi engenheiro (durante o curso de Medicina foi responsável pelas caldeiras do Hospital das Clínicas da FMUSP); resolveu ser médico quando percebeu que ter medo de sangue era "frescura" (este, um termo assaz kurtiano).

Já médico, antes de ser um pensador da saúde pública, dedicou-se à broncoscopia (broncoscopia rígida, já preocupado com a tuberculose). Foi infectologista: iniciou sua carreira científica nos "pulmões de aço" da unidade de tétano do HC. Foi também, e sempre, parasitologista (os seus trabalhos na área de esquistossomose são referência mundial).

Recém-formado, mudou-se com a família para Gameleira, no interior de Pernambuco: queria conhecer "in loco" a morada dos homens, mulheres e crianças a quem o "schistozoma" (termo kurtiano) atingia. Foi a esquistossomose, alías, tema de seu doutorado (vou contar o episódio adiante) e foi o que o levou à Nigéria, como consultor da Organização Mundial da Saúde na década de 1960.

Não sei se era um verdadeiro erudito, mas era muito curioso com as humanidades e a natureza. Certa vez, na década de 1990, iniciava um projeto de estudo dos crustáceos da Lagoa dos Patos quando foi convidado pelo seu amigo David Capistrano, então prefeito de Santos, para trabalharem juntos. Mesmo tendo que sair de Pelotas, onde vivia com sua segunda esposa e dois de meus irmãos mais novos, não perderia essa oportunidade por nada neste mundo e, pois, desculpava-se com os crustáceos por adiar o projeto…

Aqui abro um parênteses:

Para os presentes a esta seção que têm filhos (eu diria, dos três aos 15 anos), recomendo o livro "Curiosidade Premiada", de Fernanda Lopes de Almeida e Alcy Linares. Este é o livro de cabeceira na minha filha, Nina, de cinco anos: uma aventura da busca, da pesquisa, que se inicia na tenra infância. A Nina, sabiamente, pensava no avô sempre que surgia uma dúvida que eu não pudesse solucionar (diga-se de passagem, não tão freqüente assim…). Minha filha já intuía que "Vovô sabe tudo, papai finge que sabe".

E quando o Kurt precisava criticar a precariedade da situação da saúde em nosso país, estudava medicina. Para manter viva sua paixão profissional ser professor - mantinha-se sempre atualizado em medicina, ensinando alunos do terceiro e quarto anos nos primeiros contatos com os pacientes.

Ainda não conseguimos fazer o inventário das muitas dezenas de publi­cações científicas, outras tantas participações em congressos, artigos em jornais, consultorias e que tais (outro termo kurtiano).

Escreveu uma dezena de livros. O primeiro, "As Bases da Medicina Preventiva", de 1973, foi o também o primeiro livro brasileiro na área.

Ultimamente preferia não falar em medicina preventiva, achava o termo "fora de moda" e procurava outro nome para sua coluna regular na Revista Diagnóstico e Tratamento, da Associação Paulista de Medicina.

Publicou livros sobre febre, planejamento familiar, meio ambiente, superstição, higiene física e do ambiente… O meu predileto é "O ABC do Charlatão"; imperdível, um verdadeiro clássico. Considero, no entanto, um marco no ensino da medicina o lançamento do livro "Raciocínio Clínico", de 1977, que depois evoluiu para "Clínica Médica: raciocínio e conduta" e, mais recentemente, para "Medicina Ambulatorial". Três livros básicos para quem quiser ser um bom médico.

É nessa linha de pensamento que ele reforça os conceitos de "achado casual" e "remissão espontânea" e cunha o termo "demora permitida", nos incitando a ter cuidado e evitar a intempestividade no diagnóstico ou na terapêutica.

Com isso em mente e, principalmente, a atenção para o indivíduo, quase todos se transformam em bons médicos, frisava "ad nauseum" para seus alunos. A mim, seu único filho médico, também, a quem sempre tratava como um de seus discípulos, apesar da admiração recíproca. Aliás, éramos todos seus alunos.

Quem conviveu com Kurt o conheceu bem: ele era transparente (ou "autêntico", no seu dizer). Parte dessa "autenticidade" tinha a ver com uma expressão, de lembrança desde minha tenra infância: "não levar desaforo para casa". Isto lhe valeu algumas inimizades (merecidas) e muitas admirações…

O meu pai era tão "autêntico" que talvez o seu maior orgulho na vida tenha sido a nota que recebeu no doutorado: nota 7, mínimo necessário para a aprovação. Seu estudo sobre esquistossomose foi severamente argüido (e mais duramente defendido). A nota foi dada com o Kurt, segundo o próprio, sorrindo em superioridade. Para infelicidade dos membros da banca, esse trabalho tornou-se um clássico, e hoje quatro décadas depois ainda é citado.

O Kurt tem passagens memoráveis, pensamentos perenes, mas o que mais me marcou (e que até o fim de sua vida sempre pregou, junto aos seus alunos em início de curso) foi a "Carta ao Calouro". Esta foi uma palestra proferida em meados da década de 1970. Nela, o meu pai alertava os alunos recém-ingressos contra o risco da deturpação de seus ideais por justamente quem? seus professores...

Alemão imigrante na infância, acrescentou por conta própria, já na infância, um "e" após o "o" de Klotzel para manter a pronúncia fechada (no original o "o" tinha trema). A mim isso já causou muito transtorno: sua fama científica fez com que Kloetzel fosse muito mais conhecido do que meu Klotzel.

Renunciou galhardamente (termo kurtiano) à sua cidadania alemã, depois que foi cassada, durante a guerra, como a todos os judeus alemães. Adotou a nacionalidade brasileira depois do nascimento de três de seus cinco filhos.

Mantinha um leve sotaque (segundo alguns, eu não percebia). Era um homem do mundo, mas eu sempre o identifiquei como um patriota, tal era a sua preocupação com o nosso país. Era um anti-racista ferrenho, mas nutria uma admiração especial pelos brasileiros nordestinos. Como David Capistrano, também nordestino, pernambucano.

Todos nós conhecemos um dos maiores homens públicos de nossa época (já homenageado por esta Associação).

David e Kurt tornaram-se amigos no início da década de 1970, quando meu pai era professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí e chefe do Centro de Saúde de Franco da Rocha. Morava dentro do complexo do Juquerí, na época famoso repositório de pacientes psiquiátricos. No complexo funcionava também o Manicômio Judiciário.

Por suspeitar (e esperançoso) que seu pai, desaparecido político, pudesse estar preso lá, David pleiteou emprego no Centro de Saúde e logo a amizade dos dois se iniciou.

Em 1975, David foi preso e no mesmo dia o Centro de Saúde foi fechado e na porta colocado um cartaz com os dizeres: "Estamos fechados, pois nosso pediatra foi preso".

Desnecessário dizer que desde então tornaram-se amigos inseparáveis.

David logo confessou o que o tinha motivado a procurar o emprego; nunca conseguiu obter qualquer informação que o levasse ao pai, até hoje um desaparecido da ditadura militar.

Meu pai veio para o Brasil antes da guerra, diferente de minha mãe, que veio fugida durante a guerra, e refizeram suas vidas no Brasil; situação semelhante a tantos judeus que perderam quase toda a família nos campos de concentração. Minhas avós saudaram a nova pátria - motivo de meus pais serem tão patriotas, tão preocupados com o nosso país e nosso povo. (Minha mãe também é uma grande militante política, diga-se de passagem).

Desse humanismo profundo surgiu a eterna simpatia de Kurt pelo socialismo. Nunca foi militante "de carteirinha" do Partido Comunista Brasileiro, mas era, na época da ditadura militar, o que se denominava "um simpatizante".

Lembro-me de um dia, no final dos anos 1960, em que voltou apesar de tudo, sorridente de um interrogatório no Dops, orgulhoso por achar que tinha conseguido "dobrar", com respostas dúbias, o torturador Sergio Paranhos Fleury, na época o grande algoz dos militares.

Há uns dez anos me confidenciou: "Quem nunca foi socialista, pelo menos na juventude, dificilmente pode ser um humanista".

Em 1964, com a cassação de diversos professores do Depto. de Parasitologia da USP - liderados por Samuel Pessoa - saímos do país e o Kurt nunca mais conseguiu voltar à USP; tentou, em vão, em duas oportunidades e, em ambas, foi claramente boicotado. Acredito ter sido esta a única frustração na sua vida.

Peregrinou pelas faculdades de medicina de Mogi das Cruzes, Jundiaí, Londrina, e foi se fixar na Universidade Federal de Pelotas, onde fundou o Depto. de Medicina Social e Comunitária, em 1978, e tornou-se seu primeiro professor titular. Trouxe e formou uma grande geração de pesquisadores que ajudaram o Departamento se tornar uma referência nos estudos da saúde coletiva.

Kurt gostava de experimentar e brincar com as palavras, mas se prendia a expressões antiquadas: Do arco da velha, tirar o cavalinho da chuva, patavina, diletante, charlatão, pedantismo, eram de utilização trivial.

Tinha uma expressão que repetia sempre: "é frescura!". Podia significar qualquer coisa, desde "essa febre do meu filho não é nada sério", "o chantilly por cima da torta é dispensável", "tal novo exame para auxiliar no diagnóstico da fratura de mastóide aumenta os custos sem acres­centar acurácia…"

Certa vez o Kurt escreveu na apresentação do livro "O que é con­tracepção": "Meu epitáfio deverá rezar: procurou sarna para se coçar. E foi o que mais encontrou". Foi a única menção que jamais fez sobre sua morte (que eu me lembre, sobre a morte em geral: ele só festejava a vida, não lastimava a ausência).

Em vida o Kurt sempre foi muito homenageado, orgulhava-se disso, mas sua (quase) timidez e seu forte sentido de realidade, sempre o protegeram dos bajuladores e oportunistas. O Kurt orgulho-me muito - nunca foi cooptado por instituições ou personalidades. Cada vez que recebia uma homenagem ficávamos todos emocionados e orgulhosos.

Apesar de ele se dizer avesso a essas manifestações às vezes quase tímido ou socialmente desajeitado , era, no fundo, vaidoso.

Vaidade? Como, se vestia-se de forma tão escachada? Quem o conheceu sabe: calças sempre amassadas, camisas invariavelmente furadas pela brasa do cachimbo (e freqüentemente sujas), às vezes o mesmo velho paletó escuro por cima. Nunca o vi de outra forma. Mas seu cavanhaque sempre aparado (descobriu o gel aos 80)…

Dizia, não exatamente nessas palavras: "a vaidade faz parte da alma humana, pode ser instrumento positivo de propulsão da humanidade". Aprendi com ele que se pode melhorar a qualidade do trabalho do médico à medida que se faça público o seu atendimento (por meio do prontuário médico, por exemplo).

No entanto, hoje os homenageados são os ganhadores dos prêmios dos melhores trabalhos científicos na área de sua paixão. Em nome do Kurt eu os homenageio; e haja responsabilidade! Serem os escolhidos no meio de um milhar de trabalhos apresentados!

Fiquem lisonjeados, a vaidade é importante. Mas se quiserem também, "peguem leve, digam que é tudo frescura..."

Marco Akerman, presidente da Associação Paulista de Saúde Pública e mineiro que é, você vai compreender que convidou o filho do pai e, assim, fica difícil abster-se totalmente da pieguice; então tome lá:

Nada sem Guimarães Rosa:

De repente morreu: que é quando um homem chega inteiro, pronto de suas próprias profundidades. Passou para o lado claro... A gente morre para provar que viveu. (...) As pessoas não morrem, ficam encantadas.

 

 

* Discurso proferido na abertura da seção de premiação do X Congresso Paulista de Saúde Pública, dia 31 de outubro de 2007, São Pedro, São Paulo.

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