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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

Print version ISSN 1414-3283On-line version ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.12 no.24 Botucatu Jan./Mar. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-32832008000100015 

ESPAÇO ABERTO

 

Do científico ao jornalístico: análise comparativa de discursos sobre saúde

 

From scientific to journalistic: comparative analysis of health-related discourse

 

De lo científico a lo periodístico: análisis comparativo de discursos sobre salud

 

 

Rodrigo Bastos Cunha

Bacharel em Lingüística. Universidade Estadual de Campinas. Labjor Unicamp Prédio da Reitoria V 3º piso Cidade Universitária Zeferino Vaz Campinas SP 13.083-970 rbcunha@unicamp.br

 

 


RESUMO

Jornalistas, cientistas e analistas do discurso concordam que há uma transformação da linguagem especializada do discurso científico para a linguagem não especializada no processo de divulgação científica para o público leigo. Consideram essa transformação como recodificação, reformulação, formulação de um novo discurso ou, no caso específico do jornalismo científico, textualização jornalística do discurso científico. Com o apoio da linha francesa da Análise do Discurso, o presente trabalho faz uma análise comparativa de dois discursos jornalísticos envolvendo questões de saúde pública, da seção de notícias da revista ComCiência, em relação aos respectivos discursos científicos que serviram de fonte para elaboração das notícias.

Palavras-chave: Saúde. Discurso científico. Jornalismo científico. Comunicação e divulgação científica.


ABSTRACT

Journalists, scientists and discourse analysts agree that there is a transformation from the specialized language of scientific discourse to non-specialized language during the process of disseminating science to the lay public. They consider this transformation to consist of recoding, reformulation, formulation of a new type of discourse or, in the specific case of scientific journalism, journalistic transformation of scientific discourse into text. With support from the French line of discourse analysis, the present study makes a comparative analysis using two examples of journalistic discourse involving public health questions, taken from the news section of the journal ComCiência, in relation to the respective scientific discourse that served as the source for composing the news.

Key words: Health. Scientific discourse. Scientific journalism. Communication and dissemination of science.


RESUMEN

Periodistas, científicos y analistas del discurso concuerdan en que hay una transformación del lenguaje especializado del discurso científico al lenguaje no especializado en el proceso de divulgación científica para el público lego. Algunos autores consideran esta transformación como recodificación, reformulación, formulación de un nuevo discurso o, en el caso específico del periodismo científico, textualizacíon periodística del discurso científico. Con el apoyo de la línea francesa del Análisis del Discurso, el presente trabajo hace un análisis comparativo de dos discursos periodísticos referentes a cuestiones de salud pública, de la sección de noticias de la revista ComCiência, en relación a los respectivos discursos científicos que fueron la fuente para elaboración de las noticias.

Palabras clave: Salud. Discurso científico. Periodismo científico. Comunicación y divulgación científica.


 

 

Jornalistas, cientistas, pesquisadores da área de comunicação e analistas do discurso concordam que há uma transformação da linguagem especializada do discurso científico para a linguagem não especializada no processo de divulgação científica para o público leigo. O presente trabalho mostra que este processo é tratado de forma diversa pelos diferentes analistas que escolhem a divulgação científica como seu objeto de estudo. Objetivando contribuir para essa discussão, apresento, com o apoio da linha francesa da Análise do Discurso, uma análise comparativa de dois discursos jornalísticos – "Síntese de proteínas pode levar a novos medicamentos" e "Pesquisa analisa discurso envolvendo medicamentos para supressão da menstruação" (ComCiência, 2003a, 2003b) - , em relação aos respectivos discursos científicos – o resumo da tese de doutorado Caracterização e seqüenciamento de peptídeos e proteínas por espectrometria de massa (Cunha, 2003) e a apresentação da dissertação de mestrado Supressão da menstruação – ginecologistas e laboratórios farmacêuticos re-apresentando natureza e cultura (Manica, 2003) –, que serviram de fonte inicial para elaboração das pautas que antecederam as entrevistas com os autores das pesquisas que seriam divulgadas nas notícias. Os textos que formam o corpus desta análise abordam questões que envolvem saúde pública.

Bueno, jornalista e pesquisador na área de comunicação, divide a difusão do conhecimento científico em duas categorias: 1) a da disseminação científica, que envolve a difusão para especialistas, seja ela entre pares científicos da mesma área ou voltada para especialistas de outras áreas; e 2) a da divulgação científica, que envolve a difusão para o grande público em geral (Bueno, 1984). O autor assume que a divulgação, que inclui o jornalismo científico, "pressupõe um processo de recodificação, isto é, a transposição de uma linguagem especializada para uma linguagem não especializada, com o objetivo de tornar o conteúdo acessível a uma vasta audiência" (p. 19; grifo meu).

Fazendo uma divisão semelhante à de Bueno em relação à difusão da ciência, porém com outra terminologia, Epstein, engenheiro civil e também pesquisador na área de comunicação desde a década de 1980, afirma que a comunidade científica "se relaciona consigo mesma, em cada segmento especializado, e com o resto da sociedade, por meio de dois processos comunicacionais distintos, que são chamados, respectivamente, de primário e secundário" (Epstein, 1998, p.61; grifo meu). Segundo esse autor, a comunicação secundária, que não possui uma audiência cativa como a primária, utiliza determinadas funções da linguagem e recursos de retórica para superar a especificidade das linguagens especializadas pouco palatáveis ao público leigo.

Authier (1982), que analisa a divulgação científica sob a ótica da linha francesa da Análise de Discurso – a qual passarei a designar adiante apenas por AD –, usa termos correlatos aos empregados na área de comunicação: discurso primeiro (ou discurso-fonte) e discurso segundo. Para essa autora, a divulgação científica apresenta-se como "prática de reformulação de um discurso-fonte (D1) em um discurso segundo (D2)" (p.35) (grifo meu), por ser destinada a um público receptor diferente do público para o qual se destina o discurso científico.

Também filiada à AD, porém com uma visão crítica em relação a ela, Zamboni faz ressalvas à avaliação de Authier e afirma que a divulgação científica é "resultado de um efetivo trabalho de formulação discursiva, no qual se revela uma ação comunicativa que parte de um 'outro' discurso [o científico] e se dirige para 'outro' destinatário [o público leigo]" (Zamboni, 1997, p.11). Para justificar sua afirmação, considera o discurso da divulgação científica como um gênero específico de discurso, que não pertence ao mesmo campo do gênero do discurso científico.

Retomo aqui o autor em que Zamboni se baseia para tratar de gêneros do discurso. Mikhail Bakhtin (1997) os define como tipos relativamente estáveis de enunciados, utilizados em cada uma das diferentes esferas da atividade humana. Segundo ele,

o enunciado reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas, não só por seu conteúdo (temático) e por seu estilo verbal, ou seja, pela seleção operada nos recursos da língua – recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais –, mas também, e sobretudo, por sua construção composicional. (Bakhtin, 1997, p.279)

Considerando o amplo espectro traçado por Bueno (1984) no âmbito da divulgação científica – envolvendo desde livros didáticos, aulas de ciências e museus de ciência até textos jornalísticos, como artigos e reportagens – e a definição acima, de gêneros do discurso, feita por Bakhtin, julgo mais apropriado dizer que vários gêneros transitam pelo campo da divulgação científica e uma de suas vertentes – o jornalismo científico – segue a construção composicional típica dos discursos jornalísticos.

Alice no País do Quantum (Gilmore, 1998), por exemplo, um livro de divulgação da Física Quântica para leigos, tem uma construção composicional semelhante à da obra com a qual dialoga: Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol. E vale lembrar que a própria disseminação científica (entre os pares) também pode transitar por diversos gêneros, pois nos séculos XVI e XVII era prática comum a difusão do conhecimento por meio da correspondência entre cientistas, prática discursiva que tinha uma construção composicional típica do gênero epistolar, embora o estilo verbal pudesse ser de um campo discursivo restrito. Portanto, no caso específico do jornalismo especializado em divulgação de ciência, considero, junto com Orlandi (2001, p. 151), que "o discurso de divulgação científica é textualização jornalística do discurso científico".

Na análise a seguir, pretendo mostrar algumas características de notícias de divulgação científica, em grande parte ligadas ao gênero da notícia jornalística como um todo, para sugerir que há, de fato, na notícia de divulgação, um trabalho de formulação discursiva, como propõe Zamboni (1997), porém sem a mesma construção composicional de um artigo de divulgação, por exemplo, seguindo a estrutura típica do gênero da notícia e as restrições de uma determinada linha editorial do veículo de comunicação.

 

1 O lide no discurso jornalístico: inversão em relação à estrutura do discurso científico

O termo "lide", aportuguesado do inglês "lead" (conduzir), é empregado em jornalismo para resumir a função do primeiro parágrafo, que consiste em sintetizar a notícia e conduzir o interesse do leitor para a leitura dos demais parágrafos. Zamboni (1997, p.161) observa que "o discurso jornalístico opera uma reversão da superestrutura do texto científico: as conclusões das pesquisas e as potenciais aplicações de seus resultados no cotidiano das pessoas ganham posição de destaque". O trecho abaixo, do parágrafo inicial de um dos textos do meu corpus de análise, mostra que o lide de um texto noticioso, em jornalismo científico, pode apresentar as conclusões antes mesmo de mencionar a pesquisa que está sendo divulgada.

Folhetos produzidos por laboratórios farmacêuticos sobre novos contraceptivos, que podem suprimir a menstruação, trazem imagens e textos que tratam a menstruação como algo indesejável, inconveniente e, além disso, como a causa de efeitos como cólicas e síndrome da tensão pré-menstrual (TPM) e de doenças como anemia e endometriose. Essas são algumas conclusões a que chegou uma pesquisa de mestrado... (ComCiência, 2003b)

O outro texto do meu corpus de análise destaca as potenciais aplicações da pesquisa não apenas no final do lide, mas já no título da notícia: "Síntese de proteínas pode levar a novos medicamentos". A estrutura clássica do lide noticioso, que responde às questões principais em torno de um fato (o quê, quem, quando, como, onde, por quê), é precedida, nesse caso, por uma breve apresentação ao leitor da área que será divulgada:

Depois dos avanços no seqüenciamento de genomas de plantas e animais, vem crescendo, no campo das biotecnologias, a demanda por estudos ligados ao 'proteoma', que pretendem determinar a composição, estrutura e funções de todas as proteínas. A tese de doutorado Caracterização e seqüenciamento de peptídeos e proteínas por espectrometria de massa, por exemplo, defendida, no dia 11 de fevereiro, por Ricardo Bastos Cunha, na Universidade de Brasília (UnB), contribuiu para estudos de cinco laboratórios do país e pode levar à produção de novos medicamentos. (ComCiência, 2003a)

Contudo, a priorização de conclusões e resultados, apontada por Zamboni (1997) e observada nos exemplos acima, não se restringe ao jornalismo científico. Trata-se do que, no jargão jornalístico, é conhecido por "pirâmide invertida", "técnica de redação jornalística pela qual as informações mais importantes são dadas no início do texto e as demais, em hierarquização decrescente, vêm em seguida" (Folha de São Paulo, 1992, p.100). Uma notícia sobre esporte, como futebol, por exemplo, geralmente, apresenta primeiro o resultado de um jogo para, depois, mencionar se, durante a partida, algum jogador foi expulso, se outro perdeu um pênalti ou se os goleiros fizeram defesas espetaculares.

A hierarquização de importância das informações é, sem dúvida, um juízo de valor que, conseqüentemente, envolve certo grau de subjetividade. Mas tanto a possibilidade de produção de novos medicamentos (no caso da notícia sobre ciência), quanto o resultado de um jogo (no caso da notícia sobre esporte), são facilmente identificáveis como aquilo que o Novo Manual da Redação da Folha de S. Paulo chama de informação mais importante a ser noticiada. No próximo item, apresento algumas posições da AD em relação às escolhas, em termos de estilo verbal, que se operam na produção de discursos, para mostrar, com exemplos do jornalismo científico, o trabalho de seleção de recursos lexicais e fraseológicos da língua, realizado na tarefa de divulgação da ciência para o público leigo.

 

2 Estratégias do discurso jornalístico em relação a termos ou expressões de uso restrito ao discurso científico

Quando surgiu na década de 1960, a AD focou, em seus estudos, o discurso político, investigando os aspectos ideológicos ligados à formação discursiva de quem o produziu.Maingueneau (1987) afirma que o discurso científico possui uma natureza muito particular em relação aos discursos que a AD tradicionalmente adotou como seus objetos de estudo. Segundo o autor,

trata-se de uma produção cujos laços com a topografia de conjunto da sociedade são bem menos diretamente formuláveis do que aqueles para os quais uma reflexão em termos ideológicos se impõe imediatamente; além disso, a tendência desse tipo de discurso é fazer coincidir o público de seus produtores com o de seus consumidores: escreve-se apenas para seus pares que pertencem a comunidades restritas e de funcionamento rigoroso. (Maingueneau, 1987, p. 57)

Para ele, a AD afasta "qualquer preocupação 'psicologizante' e 'voluntarista', de acordo com a qual o enunciador ... desempenharia o papel de sua escolha em função dos efeitos que pretende produzir sobre seu auditório" (Maingueneau, 1987, p.45). Segundo Maingueneau, esses efeitos, na realidade, são impostos não pelo sujeito que enuncia o discurso, e sim por sua formação discursiva.

Ao esboçar uma epistemologia da AD que, com o passar dos anos, deixou de eleger o discurso político como único objeto de investigação, Possenti (1988) diz que a noção de ideologia não deve ser usada para a análise de todo e qualquer discurso, mas apenas nos casos em que ela seja um conceito produtivo para a investigação. O autor também afirma que, além da formação discursiva, não se pode deixar de considerar o trabalho do sujeito enunciador, que envolve ação sobre a língua na escolha dos efeitos de sentido que ele quer produzir e destaca o trabalho de escolha do sujeito ao tratar da noção de estilo. Antes de explicitar sua posição, lembro que, para Bakhtin (1997, p.283), "o estilo está indissoluvelmente ligado ao enunciado e a formas típicas de enunciados, isto é, aos gêneros do discurso".

Possenti (1988) critica as teorias lingüísticas que tratam o estilo como desvio da norma (ou da modalidade padrão da língua), e defende que o estilo seja tratado como escolhas lexicais ou sintáticas que cada locutor faz em sua enunciação, deixando a marca da subjetividade no discurso. Segundo ele, "os falantes têm a sua disposição um conhecimento lingüístico diversificado ... e escolhem desse repertório as formas que lhes parecem adequadas para realizar o objetivo que têm em mente" (Possenti, 1988, p.188). Adotando o posicionamento de Possenti, ao analisar o discurso da divulgação científica, Zamboni (1997, p.33) afirma que "o tratamento que se dá à linguagem no processamento da divulgação resulta de um verdadeiro trabalho de escolha das formas, ... ligado, com freqüência, à busca do ideal de tornar compreensível para um público leigo uma linguagem que lhe é primitivamente hermética e inacessível".

A seguir, com base na confrontação entre trechos do discurso científico (DC) que serviu de fonte e trechos do discurso jornalístico (DJ) correspondente, apresento algumas estratégias no processo de divulgação da ciência, que consistem em escolhas não apenas dos recursos lexicais e fraseológicos da língua a serem utilizados, mas também daqueles que são descartados em função do público ao qual a divulgação se dirige.

2.1 Omissão ou supressão

DC (1): "conseguiu-se determinar a seqüência completa de um peptídeo neurotóxico (cangitona) da anêmona marinha Bunodosoma cangicum."

DJ (1): "determinou a seqüência completa de um peptídeo da anêmona marinha Bunodosoma cangicum."

No exemplo (1) é curioso observar não apenas os termos científicos suprimidos (em negrito, no discurso científico), mas aqueles que foram mantidos no discurso jornalístico. O termo "peptídeo" já aparece no lide da notícia, dentro do título da tese que está sendo divulgada, e pertence ao mesmo campo semântico das proteínas (compostos ou substâncias químicas). A palavra "anêmona", por sua vez, pode não ser conhecida por parte do público, mas é identificável como pertencendo ao campo semântico dos animais. Porém, o que chama mais a atenção é o emprego do próprio nome científico da anêmona marinha. Prática comum em quase toda publicação de divulgação científica, a menção do nome científico de uma planta ou animal tem uma função de credibilidade, similar à citação direta da fala de um cientista no discurso jornalístico (ver item 4 deste trabalho).

No exemplo (2), o discurso jornalístico suprime a informação sobre um processo descrito no discurso científico e retém apenas o resultado desse processo apontando, em seguida, um possível uso da toxina em tratamento de doença.

DC (2): "As toxinas do tipo 1 caracterizam-se por ligarem-se especificamente aos canais de sódio, retardando sua inativação durante a transdução de sinal e, dessa forma, estimulando fortemente a contração do músculo cardíaco em mamíferos."

DJ (2): "caracterizado como uma toxina que estimula fortemente a contração do músculo cardíaco em mamíferos."

No exemplo (3), além da supressão de termos científicos semelhantes aos do exemplo (1) e de processos descritos cientificamente como no exemplo (2), o discurso jornalístico revela uma escolha de termos, dentre pares de adjetivos – "atividade inflamatória e edematogênica", "peptídeos hemolíticos e antimicrobianos" –, que não se restrigem ao discurso científico.

DC (3): "A espectrometria de massa permitiu também caracterizar um peptídeo (leptodactilina) com potente atividade inflamatória e edematogênica, isolado da pele da rã brasileira Leptodactylus pentadactylus. Este apresentou similaridade de seqüência com peptídeos hemolíticos e antimicrobianos isolados da pele de outras espécies de rãs, bem como com proteínas ligantes de ferormônio isoladas de insetos e com proteínas repressoras transcricionais reguladoras de apoptose em mamíferos."

DJ (3): "Segundo o pesquisador, a espectrometria de massa também permitiu caracterizar um peptídeo da pele da rã brasileira Leptodactylus pentadactylus, que tem potente atividade inflamatória. Este peptídeo apresentou similaridade de seqüência com peptídeos antimicrobianos da pele de outras espécies de rã."

No exemplo (4), extraído dos textos que tratam de medicamentos para supressão da menstruação, o discurso jornalístico omite o mecanismo de funcionamento do contraceptivo.

DC (4): "Um primeiro contraceptivo cujo material analiso é o implante produzido pela Organon, chamado Implanon, um implante subdérmico ... que libera diariamente um hormônio, etonogestrel ... um método revolucionário, eficaz, reversível, que proporciona praticidade e liberdade à usuária."

DJ (4): "Os novos métodos contraceptivos seriam, então, vistos como uma solução revolucionária que proporciona praticidade e liberdade para a mulher."

2.2 Substituição por expressão equivalente

DC (5): "Esse estudo permitiu caracterizar ambos os peptídeos, por homologia de seqüência, como toxinas do tipo 1 de anêmona."

DJ (5): "sendo caracterizado como uma toxina do mesmo tipo que a do peptídeo que teve o seqüenciamento completo, por eles possuírem seqüências similares."

DC (6): "a menstruação pode ser pensada como um produto cultural, e a sua supressão como uma forma de mimetizar o que aconteceria na natureza."

DJ (6): "a menstruação é pensada como um produto cultural, e a sua supressão, ... como uma forma de imitar o que aconteceria na natureza."

Tanto os exemplos (5) e (6), nos quais o discurso jornalístico usa sinônimo ou paráfrase de expressão do discurso científico, quanto o exemplo (7) abaixo, em que a explicação do termo científico é feita por meio de uma oração subordinada, são práticas comuns de escolhas de recursos da língua para tornar a informação sobre ciência compreensível ao público leigo.

2.3 Menção do termo de uso restrito seguida de explicação

DC (7): "outro peptídeo (andactilina) com atividade ansiolítica, isolado da mesma anêmona."

DJ (7): "Esta outra toxina possui uma atividade chamada de ansiolítica, que reduz a ansiedade."

Ainda dentro dessa estratégia da explicação, a notícia sobre medicamentos para supressão da menstruação apresenta um recurso próprio do veículo eletrônico: no lide, há um link na palavra "endometriose", que remete para um box explicativo sobre o que é essa doença e quais efeitos ela provoca.

 

3 O que é notícia na prática jornalística

Além da escolha de recursos da língua, tratada no item 2, na prática jornalística há a escolha do que é ou não notícia e do que deve ou não ser tratado como relevante dentro de uma notícia. Epstein (1998, p.65) observa que "o conceito de 'novidade', importante tanto para a evolução do conhecimento científico como para a construção da 'notícia' jornalística ... pode ter conotações diferentes nestas duas culturas profissionais", e lembra ainda que são diferentes os "tempos operacionais dos cientistas e dos jornalistas, mais longos os primeiros e mais curtos os segundos".

Zamboni (1997, p.35) afirma que a divulgação científica "privilegia, de modo quase unânime, os resultados, relegando a metodologia – item bastante caro ao trabalho científico – a plano inferior, quando não o suprime totalmente". Cabe ressaltar que o uso ou não desse procedimento de simplificação – a supressão da metodologia – pode servir para diferenciarmos as revistas de divulgação existentes no país. O texto que serviu de fonte para uma das notícias do meu corpus de análise destaca, já no título da dissertação, um conceito (o de re-apresentação) utilizado na pesquisa como chave para a discussão em torno das noções de natureza e cultura (Manica, 2003). A notícia em questão enfoca as imagens e os textos dos folhetos de medicamentos para supressão da menstruação, e introduz a discussão "natureza versus cultura" por intermédio de um intertítulo que antecede o 4º parágrafo, sem mencionar, contudo, o conceito de re-apresentação e seu uso nas ciências sociais. A escolha, nesse caso, recai sobre aquilo que tem ou não apelo para o público leigo.

A outra notícia do meu corpus de análise, conforme visto acima, ao tratar de lide, também enfoca algo de apelo para o público (a possibilidade de produção de novos medicamentos). O texto científico de fonte, nesse caso, destaca, logo em seu início, a espectrometria de massa como "uma técnica que pode trazer grandes avanços para a atividade de pesquisa biomolecular" (Cunha, 2003, p.9). Já a notícia aponta esse destaque feito pelo pesquisador apenas no 6º parágrafo, logo abaixo de uma foto do espectrômetro de massa, explicando o seu funcionamento.

Levando-se em conta a observação de Epstein (1998) quanto aos diferentes conceitos de "novidade", pode-se afirmar que o texto científico dirigido aos pares de seu autor tratou como "novidade" o foco do trabalho na técnica da espectrometria de massa, além de apresentar o seqüenciamento de determinados peptídeos e proteínas, o que "contribuiu para estudos de cinco laboratórios do país", segundo a notícia sobre o tema. Esta última, por sua vez, apresentou, como "novidade", uma ciência pura (ou básica), cujo conhecimento produzido por meio do seqüenciamento de proteínas, pode ser aplicado na produção de novos medicamentos. Tanto essa notícia sobre síntese de proteínas quanto a outra sobre medicamentos para supressão da menstruação contextualizam, no último parágrafo, as respectivas pesquisas divulgadas: a primeira, mencionando o orientador da tese, "um dos primeiros pesquisadores a utilizar o termo 'proteoma' no Brasil", e cada um dos laboratórios brasileiros para os quais a pesquisa colaborou; a segunda, inserindo a discussão sobre as fronteiras entre natureza e cultura, nas questões levantadas pelos avanços da nanociência e das biotecnologias, e colocadas em evidência naquele ano em que se comemoravam os cinqüenta anos da formulação da estrutura do DNA em dupla hélice.

 

4 O discurso do "outro" que dá credibilidade à notícia

Conforme comentado brevemente no item 2 deste trabalho, a fala de um cientista, seja na forma de discurso direto ou indireto, é um dos fatores que conferem credibilidade ao discurso jornalístico de divulgação da ciência. Zamboni (1997) critica o quadro da enunciação proposto por Authier (1982) ao tratar do discurso de divulgação científica, que envolve uma dupla estrutura: "a enunciação do discurso vulgarizador em vias de se reproduzir, manifestada numa ancoragem temporal marcada" e "a enunciação do discurso científico, que aparece grandemente sob a forma do discurso indireto ... em que o nome dos enunciadores, seu estatuto de especialistas e o tempo de enunciação são especificados com abundância e rigor" (p.36). Zamboni (1997, p.80) considera que "o discurso relatado não pode ... ser tomado como traço caracterizador da divulgação científica, mesmo que entre aí como a voz do 'especialista'", e lembra que "no discurso de transmissão de informações do gênero jornalístico, o discurso relatado também aparece como componente de grande peso".

Zamboni está certa nesse último ponto, quando trata do texto jornalístico em geral, pois uma notícia sobre política que traz a fala de um personagem do alto escalão do governo confere mais credibilidade do que outra que, por exemplo, revela uma fonte ligada ao círculo de amizade de "fulano", simulando preservar essa suposta fonte. Talvez, por essa razão, Zamboni deveria ter percebido que, no campo da divulgação científica, o texto jornalístico possui características diferentes do artigo de divulgação assinado por um cientista. Pelo fato de o autor do artigo de divulgação ser a própria autoridade relacionada à enunciação, considerando que, segundo Maingueneau (1987, p.37), "o discurso só é 'autorizado' e, conseqüentemente, eficaz se for reconhecido como tal", ele não precisa inserir em seu texto a fala de um colega cientista para ter credibilidade. Pode fazê-lo ou não.

Apenas para ilustrar o peso que a fala especializada tem na notícia jornalística, particularmente em jornalismo científico, contabilizei, nos textos do meu corpus de análise, o número de inserções de falas dos cientistas que aparecem nas formas direta e indireta. Na notícia sobre síntese de proteínas, há cinco inserções de discurso direto do cientista e três de discurso indireto ("segundo o pesquisador", "o pesquisador destaca" e "ele explica"). Já a notícia sobre medicamentos para supressão da menstruação traz três inserções de discurso direto e nada menos do que dez inserções de discurso indireto, sendo oito da autora da pesquisa que é divulgada na notícia e duas de um médico mencionado na pesquisa ("de acordo com esse médico" e "segundo os argumentos de Coutinho").

 

Conclusão

A análise mostra que, de fato, como propõe Zamboni, há no processo de divulgação científica um trabalho de formulação discursiva que consiste em escolhas ligadas ao estilo verbal – recursos disponíveis na língua (conforme Bakhtin e Possenti) – ou ligadas à prática jornalística (conforme Epstein e Orlandi). Mas o presente trabalho também mostra que não se pode tratar da mesma forma um artigo de divulgação escrito por um cientista e uma notícia jornalística de divulgação da ciência, já que esta última tem uma construção composicional típica do gênero da notícia jornalística como um todo e se submete a processos de edição próprios de cada veículo de comunicação.

 

Referências

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Recebido em 31/08/06.
Aprovado em 04/09/07.

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