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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

On-line version ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.12 no.26 Botucatu July/Sept. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-32832008000300004 

DOSSIÊ

 

Corpo, sexo e subversão: reflexões sobre duas teóricas queer

 

Cuerpo, sexo y subversión: reflexiones sobre dos teóricas queer

 

 

Pedro Paulo Gomes Pereira

Graduado em Ciências Sociais. Universidade Federal de São Paulo. Rua Albuquerque Lins, 724, apto. 73. Higienópolis São Paulo, SP 01.230-001 pedropaulopereira@hotmail.com

 

 


RESUMO

Neste texto apresento duas importantes teóricas queer, Beatriz Preciado e Marie-Hélène Bourcier. Depois de delinear o trabalho das autoras e ressaltar suas definições de sexo e gênero, discuto sobre a centralidade do corpo na economia geral de suas obras. Finalizo elaborando algumas indagações nas quais ressalto a premência de se inquirir sobre os vários vetores da diferença, resultantes de desigualdades e exclusões.

Palavras-chave: Corpo. Sexo. Queer. Gênero.


ABSTRACT

The aim of this text is to present two important queer theoreticians, Beatriz Preciado and Marie-Hélène Bourcier. After outlining their work and highlighting their definitions of sex and gender, I discuss the centrality of the body in the general economy of their works. I conclude by posing some questions, in which I emphasize the urgency of inquiring into the various vectors of differences that result from inequalities and exclusions.

Key words: Body. Sex. Queer. Gender.


RESUMEN

En este texto trato de presentar dos importantes teóricas queer, Beatriz Preciado y Marie-Hèléne Bourcier. Depués de delinear el trabajo de las autoras y resaltar sus definiciones de sexo y género, discuto sobre la centralidad del cuerpo en la economía general de sus obras. Finalizo elaborando algunas indagaciones en las que resalto la urgencia de inquirir sobre los varios vectores de la diferencia resultante de desigualdades y exclusiones.

Palabras clave: Cuerpo. Sexo. Queer. Género.


 

 

A teoria queer apresenta um campo semântico provocante, composto por vocábulos como: re-conversão, deslocamento, reconfiguração, desnaturalização, subversão, performance, paródia. Muitas dessas expressões são tropos que indicam movimento e transformação, assinalando que algo muda após o ato performático de transformar um insulto numa forma orgulhosa de identificação. Os textos parecem ressaltar, destacar, enfatizar o caráter inusitado e sísmico das inversões e das diferenças donde o tom hiperbólico das narrativas. Ademais, há uma particularidade pouco observada pelos pesquisadores, mas que se apresenta quando pensamos na sinonímia de paródia: as respostas às vozes homofóbicas que afirmam a abjeção de certos corpos no processo de auto-designação queer são também bem-humoradas, e irreverentes. Nesse contexto impressionisticamente traçado e que espero delinear mais adiante , duas autoras se destacam, justamente por serem mordazes e com apurado senso de humor; sensíveis à literatura contemporânea das humanidades, e a ela extremamente críticas. Refiro-me a Beatriz Preciado e Marie-Hélène Bourcier.

Preciado publicou, em 2000, em francês, o Manifeste Contra-sexuel, obra que, em 2002, sairia em espanhol. Bourcier lançou a primeira versão de Queer Zones em 2001, e Sexpolitiques: Queer Zones 2, em 2005. Esses livros não foram traduzidos para o português até o momento, e as referências a eles são raras no Brasil. À exceção da feliz lembrança de uma entrevista com Preciado, publicada nos Cadernos Pagu, e esparsas citações em revistas especializadas, as autoras não parecem ser conhecidas no país, lacuna que nos afasta da frutífera polêmica que vêm causando na Europa1.

Neste ensaio, efetuo uma aproximação às principais idéias dessas autoras, buscando, mesmo que de forma rápida e limitada, preencher a lacuna assinalada. Nas seções seguintes, discorrerei sobre os livros mencionados (Bourcier, 2006, 2005; Preciado, 2002) sem a intenção de ser extensivo ou de abarcar a totalidade das questões tratadas , para, logo após, ressaltar o lugar e importância do corpo na economia geral dessas obras. Por fim, elaborarei algumas indagações gerais, no intuito de destacar dimensões que me interessam mais particularmente: falo sobre o papel do riso na obra das autoras; defendo a necessidade de se inquirir sobre vetores de diferença, resultantes de desigualdades e exclusões; pondero sobre a premência de se estar atento aos dizeres da forma; abordo a dimensão da violência na sexopolítica.

 

Manifesto contra-sexual

O manifesto contra-sexual de Preciado elabora uma proposta de subversão dos mecanismos de poder cultural, social e político que construíram o que hoje se compreende como sexo e gênero. A escolha do termo "contra-sexualidade" se inspira em Foucault, para quem a forma mais eficaz de resistência à produção disciplinar da sexualidade seria a contraprodutividade, ou seja, a produção de formas de prazer-saber alternativas da sexualidade moderna (Bourcier, 2002). E a estruturação da narrativa num "manifesto" se deve à influência do Manifesto para os Cyborgs, de Donna Haraway (Haraway, 1991a, 1991c).

A intenção é promover uma análise crítica da diferença gênero-sexo, produto do contrato social heterocentrado, cujas performatividades normativas vêm sendo inscritas nos corpos como verdades biológicas2. Esse contrato heterocentrado deve ser substituído por outro, o contra-sexual, no qual "corpos falantes" buscariam estabelecer procedimentos que possibilitem escapar da sujeição heteronormativa. Além de criticar a naturalização do sexo e do sistema de gênero, o contrato contra-sexual propõe uma sociedade de equivalência, de sujeitos falantes que estabeleçam relações de forma contratual a elaboração desse contrato, assim, deve muito ao saber prático e, também, contratual das comunidades sadomasoquistas.

O manifesto contra-sexual defende a sexualização total do corpo. O que justifica a busca contínua de compreender a práxis das tecnologias do sexo, já que no espaço de paródia e de transformação plástica surgem as primeiras práticas contra-sexuais como possibilidade. Entre elas, a erotização do ânus, a utilização de dildos e o estabelecimento de relações sadomasoquistas3.

Os discursos e práticas afirmam a igualdade de natureza e heterossexualidade. O sistema heterossexual surge como aparato social de produção do feminino e do masculino, que opera por divisão e fragmentação dos corpos, e que identifica partes desses corpos-fragmentos como centros naturais e anatômicos da diferença sexual. O ânus surge no processo de fragmentação do corpo como um dos primeiros órgãos a ser privatizado e colocado "fora do campo social"4. Em sua tarefa de identificar os espaços errôneos e falhos da estrutura manifestos, por exemplo, nos corpos intersexuais e hermafroditas , e reforçar os poderes das formas que desviam do sistema heterocentrado, a contra-sexualidade ressexualiza o ânus, que assume status de centro contra-sexual universal.

A heterossexualidade é uma tecnologia social e não se pode pressupô-la como uma "origem fundadora". Os princípios da contra-sexualidade destinam-se a desmontar o sistema heterocêntrico e subverter as práticas de produção da identidade sexual, os esforços se direcionando para o processo de re-significação do corpo. Ao eleger o ânus como centro contra-sexual universal, por exemplo, temos uma paródia das relações heterocentradas, paródia que subverte a própria base dessas relações, desnaturalizando-a e demolindo a ficção de origem.

Nas novas biotecnologias de produção e reprodução do corpo o corpo aparecendo como espaço da opressão e lócus de resistência , as próteses assumem destaque especial. O dildo transforma em plástica a expressão sexual, desnaturalizando a noção tradicional de sexo e gênero. A contra-sexualidade se volta para as relações que se estabelecem entre o corpo e a máquina, justamente porque a natureza humana é um efeito da tecnologia social que reproduz os corpos.

As práticas de inversão contra-sexual reafirmam a função das próteses. Não se trata, aqui, só do uso de vibradores, mas de converter qualquer parte do corpo em dildo. Muitas vezes, a utilização do vibrador é associada à teoria freudiana da carência de pênis; na teoria contra-sexual, o vibrador supõe uma operação de deslocamento do suposto centro orgânico da produção do prazer para um lugar externo ao corpo ou para os espaços errôneos do corpo, como o ânus. Esse corpo-fragmento é re-significado: partes errantes são alocadas como centro, partes não associadas ao corpo se transformam em corpo. A ação de se retirarem ou de se desestabilizarem os centros de gravidade do corpo heterossexual subverte a própria forma de se pensar o corpo. No caso do dildo, por exemplo, qualquer coisa ou qualquer parte do corpo pode se transformar em dildo, inclusive o pênis.

O dildo é a verdade da heterossexualidade como paródia, e assinala que gênero não é simplesmente performativo como desejava Butler (2004, 1998, 1990). O gênero é, antes de tudo, prostético, e se manifesta na materialidade dos corpos, puramente construídos e inteiramente orgânicos. O gênero se assemelha ao dildo, pois sua plasticidade carnal desestabiliza a distinção entre o imitado e o imitador, a verdade e a representação da verdade, a referência e o referente, a natureza e o artifício, e entre órgãos sexuais e as práticas de sexo.

Ao se distanciar cada vez mais do referente anatômico, o dildo contra-sexualiza o corpo, fustigando as ilusões de origem. Quando algumas teóricas lésbicas criticam a utilização do dildo por sua cumplicidade com os signos de dominação masculina, se prendem apenas ao vibrador como pênis no sexo, e olvidam os efeitos acima mencionados, esquecendo o processo de deslocamento e de reversibilidade que possibilita múltiplas combinações. O caráter subversivo do vibrador está relacionado às re-contextualizações das práticas queer.

Preciado elabora, ainda, crítica às tecnologias do sexo, seja à heteronormatividade das intervenções dos seres intersexuais, seja às cirurgias realizadas nos transexuais, demonstrando como essas intervenções manifestam um olhar masculino. A autora, entretanto, não essencializa a tecnologia como simples efeito da dominação masculina o que obnubilaria as dimensões e as possibilidades contra-sexuais dessas mesmas tecnologias , o movimento devendo ser o oposto: o de compreender o sexo e o gênero como tecnologia.

 

Zonas queer

Bourcier analisa as configurações dominantes de ação biopolítica da contemporaneidade que ela e Preciado denominam de sexopolítica. A busca é a de compreender zonas de pensamento, focalizando o olhar em formas de expressão como: o cinema pornográfico, o sadomasoquismo, a construção das figuras do travesti, do transgênero e do transexual. As zonas queer constituem acredita a autora espaços de intervenção privilegiados.

O polêmico filme Baise-moi, de Virginie Despentes e Coralie Trinh-Thi (2000), e as películas do diretor independente LaBruce, são fundamentais para a discussão empreendida5. O cinema desses diretore(a)s e as reações de lesbofobia e de homofobia que suscita levaram Bourcier a aprofundar as possibilidades e as limitações da pornografia como instrumento de liberação e de questionamento da sexualidade.

Foucault (1985) afirmou que a função da pornografia não era a de liberar as pulsões, mas a de construir as identidades sexuais. Em suas análises sobre a história da sexualidade, já havia demonstrado que o falar sobre sexo por si não se colocava contra a repressão. A repressão sexual não era o único e nem o principal dispositivo de controle da sexualidade, e a miséria sexual não derivava só da repressão. A questão era ver como se organizavam os mecanismos positivos que produziam a sexualidade. O discorrer de forma livre sobre o sexo pode gerar a mesma miséria sexual atribuída à repressão. Na verdade, o discurso sobre sexo surgiu como tecnologia que naturalizou o casal heterossexual e a heterossexualidade; o discurso, portanto, inventa o sexo.

A pornografia da forma como a conhecemos na atualidade é produto de regime de produção visual que surge à época da Ilustração e se desenvolve com o positivismo. Ou seja, a pornografia nasce num momento de produção e difusão das análises taxionômicas dos comportamentos humanos, época em que se multiplicam as publicações detalhadas sobre tipologias, sobre as obscenidades e perversões sexuais, e se irrompem as coleções privadas de conteúdo erótico. Aparecem, nesse período, as primeiras publicações que buscavam decodificar e decifrar a sexualidade feminina, sempre do ponto de vista masculino e num processo que objetifivava o corpo feminino. Como se sabe, na construção da mirada pornográfica moderna, a psicologia e a medicina foram fundamentais.

Uma película pornô propõe pedagogias de sexualidade e opera normalizando e naturalizando as relações entre os corpos. A pornografia, portanto, cria modelos de sexualidade; assinala como devemos utilizar os órgãos; afirma quais são os órgãos sexuais e quais não são; sustenta em que situações, com quem e em qual lugar devem ser utilizados. Não se trata, então, somente de retratar a realidade do sexo, mas de uma produção performática que cria o que almeja descrever.

A existência de um regime pornográfico monopolizador, que se sustenta num cine pornô hetero, não nubla, assevera Bourcier, a possibilidade de existirem outras formas de ações, de vivências e de representação das práticas sexuais. A autora acredita que está surgindo um novo tipo de discurso pornográfico, por ela denominado de "pós-pornografia", com diretas conexões com os pressupostos queer. E, com base na noção da sexualidade como performance, identifica elementos da pós-pornografia em novas propostas fílmicas como as do já citado filme Baise-moi. Esse filme utiliza alguns recursos narrativos das películas pornôs modernas, mas de uma perspectiva que neutraliza seus efeitos, desestabilizando a mirada heterocentrada. Nele se processa uma desnaturalização do discurso pornográfico que ocorre por meio de uma inversão dos papéis de gênero e de uma releitura dos motivos temáticos habituais. Tais experiências rompem, sempre segundo a autora, com o regime de produção sexual hegemônico e buscam criar novas formas em novas performances de experiências sexuais.

Se a pornografia moderna é um regime de produção da verdade sobre o sexo, a pós-pornografia indica uma ruptura nos códigos da mirada tradicional do gênero, propondo mudança de papéis sexuais que acaba por colocar diretoras e atrizes como agentes da produção sexual. A pós-pornografia não se constitui mais num campo reservado a homens. Ao desnaturalizar o discurso pornográfico por meio de uma inversão dos papéis de gênero e de uma reinvenção dos motivos temáticos, a pós-pornografia surge como gesto político que se conecta às estratégias queer de reapropriação de noções abjetas, conferindo-lhes novos significados.

Com o título Baise-moi, as diretoras se reapropriam de uma frase, adstrita a um cenário heterossexual, que os homens gostam de ouvir das mulheres para confirmar seu desejo e seu poder; Nadine e Manu, as duas protagonistas do filme, e Despentes e Trinh-Thi, por amálgama, ressignificam essa fórmula consagrada. Elas se reapropriam da sentença pornô, mas desabilitam a autoridade e o privilégio da masculinidade dominante, pois Baise-Moi quer dizer Fuck me! e também Fuck off! O filme opera uma re-conversão pelas mulheres na economia da sexualidade.

O pornô é uma celebração hiperbólica e hiper-realista das normas da heterossexualidade. O realismo pornográfico que é uma ficção realista como as outras, uma organização da representação, e não a "realidade" do sexo parece anunciar uma mudança de caminhos. A pornografia tradicional está em plena desconstrução, já que suas funções principais a renaturalização da diferença sexual, o congelamento das identidades de gênero e das práticas sociais são reconfiguradas.

Despentes e Trinh-Thi se apossam dos códigos de representação pornográfica e os desnaturalizam. Elas se tornam agentes de representação pornô, e não mais seus objetos; quando filmam como homens, embaraçam o essencialismo masculinista segundo o qual a pornografia é a expressão naturalmente masculina. Se as mulheres podem filmar pornôs como os homens, invalida-se a oposição entre homens e mulheres, entre os que amam o pornô e os que amam o erotismo.

Como vimos, o contrato contra-sexual é herdeiro do saber prático e também contratual das comunidades sadomasoquistas, e é sobre essa experiência que Bourcier direcionará seu olhar. O desejo dessas autoras, como se nota, é de expor os leitores aos poderes subversivos e às limitações das sub-culturas do corpo.

Em 19 de fevereiro de 1997, a Corte Européia de Direitos Humanos começa a legislar sobre o sadomasoquismo como prática sexual desviante, se debruçando sobre o caso de Laskey, Jaggard e Brown, três ingleses que foram condenados ao cárcere privado por práticas sadomasoquistas. Os policiais britânicos entraram em seus domicílios para confiscar as provas das seções de S/M. O evento passou a se denominar caso spanner em seguida. No desenrolar jurídico do caso, os ingleses argumentaram que a pena a eles conferida contradizia a própria Convenção dos Direitos Humanos e constituía uma ingerência de uma autoridade pública na vida privada dos acusados. O problema jurídico em questão não era saber se a ingerência na vida privada era legítima, dado que a lei prevê situações nas quais ela é justificada, sobretudo diante do argumento de proteção à saúde e à moral (parágrafo 2 do artigo 8). O ponto era o caráter de ingerência numa sociedade democrática. E mais, uma das argumentações utilizadas foi a de que as práticas S/M foram efetuadas sem a adequada atenção médica. Tal evento evidenciou a dimensão política do sadomasoquismo como exercício contratual diferenciado demonstrando como essas práticas se colocam contra as instâncias que legislam sobre os corpos.

As práticas sexuais diferenciadas, em situações tidas como não habituais, em público, com muitas pessoas, em lugares distintos do quarto do casal hetero, se defrontam com o habitual confinamento da sexualidade na esfera privada e doméstica. A ressexualização se traduz por uma relocalização e uma ressocialização que faz emergir novas dimensões sociais, políticas e epistemológicas do sexo.

Além da análise da pornografia e do sadomasoquismo, a autora realiza uma abordagem das figuras do travesti, do transgênero, do transexual, salientando aspectos como as origens da regulação médico-jurídica da "transexualidade", e as novas teorias sobre a performatividade dos gêneros.

Em Sexpolitique. Queer zones 2, Bourcier volta a examinar a pornografia e o sadomasoquismo, abordando também outros temas, como o sujeito feminino unitário e a polêmica da utilização do véu. Mais próxima dos estudos pós-coloniais, esses temas tornam-se relevantes na crítica sobre o desejo de abolir as diferenças e a vontade civilizadora francesa, ou seja, sobre o desejo de exercer um cosmopolitismo civilizador como forma de controlar a diversidade. A autora elabora, ainda, crítica ao que denomina de "universalismo unissexo de Badinter".

Todavia, talvez um dos momentos instigantes de Sexpolitique seja sua crítica da conhecida análise de Bourdieu da "dominação masculina". A autora almeja romper com o que denomina de "descrição reificante da dominação masculina", já que para ela a formulação de Bourdieu se ancora numa concepção dualista de gênero, que acaba por colar sexo e genital, e genital e gênero.

A análise de Bourdieu da dominação masculina se sustenta, na percepção de Bourcier, no sistema binário da hierarquia entre gêneros. Quando Butler redefiniu os gêneros como performance e performatividade, interrogou-se sobre a produção e reprodução do sistema sexo/gênero normativo e binário, concluindo que, da mesma maneira que sexo e sexualidade não são a expressão de si ou de uma identidade, mas, o efeito do discurso sobre o sexo um dispositivo disciplinar, portanto , o gênero também não é uma expressão do sexo. Se a feminilidade não deve ser necessária e naturalmente a construção cultural de um corpo feminino; se a masculinidade não deve ser necessária e naturalmente a construção cultural do corpo masculino; se a masculinidade não é colada aos homens e se não é privilégio dos homens biologicamente definidos; é porque o sexo não limita o gênero, e o gênero pode exceder os limites do binarismo sexo feminino/sexo masculino (Bourcier, 2005)6.

Todo gênero é uma performance de gênero, ou seja, uma paródia sem original. Bourcier salienta que, na análise de Bourdieu da dominação masculina, existe uma dissociação da força simbólica que possibilita a dominação e a força da performatividade de gênero. Com efeito, se a força da performatividade que preside os gêneros é derivada, se os gêneros são re-significáveis, então as características da força performativa não são as mesmas da força simbólica que impõe a dominação masculina. Ao contrário, o exercício da dominação está localizado na tentativa de colocar limites na força performativa. Na abordagem de Bourdieu, as mulheres kabyles e suas estratégias simbólicas são anuladas e insuficientes para subverter a dominação masculina; mas, se é verdadeiro que a força performativa é reversível, ela pode suscitar uma variedade de locais de resistência e de apropriação/derivação da construção de identidades. A homogeneização das mulheres é um universalismo mascarado, pois as mulheres não são um grupo explorado, mas uma coalizão política a construir, e que não se define unicamente pelo gênero ou pela opressão de gênero.

 

Corpos queer

A categoria gênero surgiu nas discussões sobre a Mulher, e sobre mulheres, como sujeitos históricos, sempre na busca de interrogar a universalidade atribuída ao Homem; categoria esta pensada como constituída por relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos, e que se instituíam no interior de relações de poder. Gênero era, enfim, a organização social da diferença sexual. A diferença sexo-gênero ou seja, a relação de gênero e as diferenças percebidas entre os sexos pressupunha a antecedência do sexo. Tal pressuposição, no entanto, acabava por colocar o sexo como elemento pré-discursivo, como não tardou em assinalar certa crítica feminista que, ancorada em análises de autores como Foucault e Laqueur, passou a refletir sobre o caráter histórico do sexo. Tal movimento permitiu afirmar que, em realidade, o sexo é resultado discursivo, e que o gênero constituía o sexo.

Butler, por exemplo, foi uma das autoras mais incisivas a questionar a categoria gênero como interpelação cultural do sexo, afirmando que gênero não está para cultura assim como o sexo está para a natureza. Questionou, portanto, a constituição pré-discursiva do sexo. Ademais, argumentou a autora, a distinção entre sexo e gênero acaba por manter o binarismo da complementaridade categórica estável entre homem e mulher o qual reproduz a lógica da normatividade heterossexual. A diferença sexo-gênero deveria, pois, ser criticada, tratando-se de redargüir concepções que estabeleçam idéias de identidade estável de gênero.

Gênero para Butler seria performance social, e a performatividade do gênero é um efeito do discurso o sexo consistiria, portanto, num efeito do gênero. As regras discursivas da heterossexualidade normativa produzem performances de gênero, que são reiteradas e citadas. A própria sexualização dos corpos deriva de tais performances. No processo de reiteração das performances de gênero, algumas pessoas, fora da matriz heterossexual, passam a ser consideradas como abjetas. A política queer consiste em perturbar os binários de gênero e brincar com as menções feitas sobre gênero espaço privilegiado para as teorizações e práticas queer.

Contudo, a crítica à distinção sexo-gênero acabou por desestabilizar tanto a categoria do sexo biológico quanto a de identidade de gênero como apontaram Toril Moi (2001) e Íris Marion Young (2003). Se essa desestabilização possibilitou pensar na pluralidade de identidade e práticas, aumentou também sua abstração em relação à corporeidade e, simultaneamente, tornou o conceito de gênero virtualmente inútil para teorizar a subjetividade e identidade (Moi, 2001). Dentro desse quadro, surgem as obras de Preciado e de Bourcier, simultaneamente herdeiras de Butler, e buscando algo mais do que uma teoria de performatividade que se sustenta num modelo de linguagem fundamentada em atos de fala; atuantes de uma política queer que aposta nas possibilidades subversivas dos corpos anormais (abjetos, estranhos, queer), e em busca de uma materialidade dos corpos. Donde a aproximação às técnicas que constroem os corpos (vibradores, pornografia, cinema, cirurgias), e a necessidade de historicizar as categorias de sexo, carne, corpo, biologia e natureza tal como conclamava Haraway (1991b). O que torna o conceito de sexopolítica e a importância conferida ao corpo questões centrais nos argumentos das autoras.

Sexopolítica é a configuração dominante da ação biopolítica no capitalismo contemporâneo (Preciado, 2005a). O sexo os denominados órgãos sexuais, as práticas sexuais e os códigos de masculinidade e feminilidade é elemento fundamental dos cálculos do poder, já que o sexo e as tecnologias de normatização das identidades sexuais são agentes de controle da vida. A heterossexualidade, concebida como regime político de administração dos corpos e gestão da vida, conforma-se numa tecnologia destinada a produzir a normalidade, a produzir corpos héteros. Porém, o corpo é múltiplo e plástico, possuindo uma pluralidade de expressões que não podem se reduzir ao masculino e feminino. A categoria gênero foi inventada para restringir essa multiplicidade à masculinidade e feminilidade.

Há, portanto, um vínculo entre produção de identidades e a fabricação de certos órgãos como sexuais e reprodutores. O sexo se converte num objeto central da política e da governabilidade. Daí a necessidade de regular, controlar e normalizar os corpos definir a normalidade e estabelecer o que se definiria como anormal. Esse controle depende de uma produção tecnológica fluxos de silicone, hormônios, técnicas cirúrgicas , além de um fluxo de representações. Como nem tudo circula de forma previsível e constante, a apropriação pelos corpos não é uniforme, existindo deslocamentos dos órgãos nos corpos e a reinvenção constante dos corpos.

O corpo está longe de ser o efeito de um sistema fechado de poder ou de idéias que atuam na matéria passiva; ao contrário, pode-se defini-lo como o nome de um dispositivo sexopolítico a medicina, a pornografia, os vibradores ; dispositivo este que é re-apropriado pelas minorias sexuais, pelos seres "abjetos" e "anormais".7 O corpo não é um dado passivo de um biopoder, mas a potência que torna possível a incorporação prostética dos gêneros; a sexopolítica não é apenas um lugar do poder, mas o espaço de uma criação onde se sucedem e se justapõem homossexuais, movimentos feministas, transexuais, inter-sexuais, transgêneros. Esses corpos desestabilizam a heterossexualidade e a própria economia do poder.

As tecnologias que objetivam produzir corpos normais e a normalização dos gêneros são ressignificadas. Se os corpos queer carregam a marca dessas tecnologias de normalização como fracasso ou como resíduo podem intervir nos dispositivos biotecnológicos de produção da subjetividade sexual. Nesse contexto, os corpos e as identidades anormais são potências políticas potências que tornam possível a incorporação prostética dos gêneros.

Bourcier e Preciado salientam, pois, as reapropriações e reconversões dos discursos da medicina ou da pornografia, por exemplo que construíram corpos queer. A ênfase recai sobre a re-apropriação das disciplinas dos saberes/poderes sobre os sexos, sobre a rearticulação e reconversão das tecnologias sexopolíticas da produção dos sexos. Os corpos queer se rebelam contra a própria construção de corpos normais e anormais, subvertendo as normas de subjetivação da sexopolítica. O queer promove uma virada da força performativa dos discursos justamente na reapropriação das tecnologias sexopolíticas de produção de corpos anormais, e entra no cenário atual como proposta de transformação na circulação dos discursos e na mutação dos corpos.

 

Temas estranhos e risadas inconvenientes

Parece evidente, depois do exposto, que as narrativas de Preciado e de Bourcier primam por uma infidelidade à Academia (Bourcier, 2005), "infidelidade" que pode ser observada em, pelo menos, três dimensões que gostaria de ressaltar: a postura extremamente crítica e polêmica, os temas elegidos e a própria forma de dizer.

O caráter crítico e polêmico sugere a "infidelidade" em relação às próprias fontes de inspiração. Poucos autore(a)s escapam ileso(a)s da escrita. Butler é um dos primeiros alvos. Como já mencionei, Preciado e Bourcier afirmam que as análises queer ortodoxas em termos de gênero como performance são insuficientes para entender os processos de incorporação de sexo e gênero. Ao acentuar a possibilidade de cruzar os gêneros por meio da performance teatral, Butler havia subestimado os processos corporais e de transformação sexuais presentes nos corpos transexuais e transgenéricos, mas também as técnicas estandardizadas de estabilização de gênero e de sexo que operam nos corpos normais8. A crítica transgenérica colocou em pauta as transformações corporais, sexuais sociais e políticas que ocorrem no espaço público.

Outro alvo das críticas é Foucault. A noção de sexopolítica, apesar de se inspirar nesse autor, questiona a concepção política segundo a qual o biopoder só produz disciplinas de normalização e acaba por determinar as formas de subjetivação. Nas narrativas de Preciado e de Bourcier, os corpos queer aparecem como potências políticas, e não como simples efeitos dos discursos sobre o sexo. Ademais, a própria forma de manifesto, tal como elaborada por Preciado, a despeito de se fundamentar na contraprodutividade proposta por Foucault, não compartilha a desconfiança do autor de Vigiar e Punir em relação à identidade como lugar de ação política.

Por fim e só para ficarmos em três das principais referências teóricas de Preciado e Bourcier, fundamentais na economia geral de suas obras, como se depreende, por exemplo, da própria discussão da fragmentação do corpo , o outro alvo: o autor de Anti-Édipo. Segundo Preciado, Deleuze criticava o que denominava de identidade "homossexual molar" porque pensava que promovia o gueto gay, e idealizava a homossexualidade molecular, que lhe permitia fazer das boas figuras homossexuais de Proust ao travesti afeminado exemplos do processo de "devir mulher". Falar em homossexualidade molecular possibilitou a Deleuze dissertar sobre a homossexualidade em vez de questionar suas premissas heterossexuais.

Além desse caráter polêmico, os temas recorrentes são aqueles muitas vezes evitados pela Academia e pelo feminismo tradicional: jogos sexuais, prostituição, sexualidade anal, designação do sexo dos meninos inter-sexuais, operações de mudança de sexo, sadomasoquismo e fetichismo. Temas e objetos "menores", como vibradores, pin-ups, filmes pornôs, a "cultura de massa", freqüentemente desprezados, ganham visibilidade, e sobre eles se voltam os olhares intrigantes das autoras. Não obstante o impacto e a importância desse novo direcionar da mirada, talvez seja, sobretudo, a formade dizer o que mais singulariza as narrativas em análise.

Butler (1990) afirmou, logo no prefácio de Gender Trouble, que rir de categorias sérias é indispensável para o feminismo; para Preciado e Bourcier esse riso de que fala Butler está no centro das argumentações. O movimento de perceber o corpo em mutação, sustentando uma hipersexualização e um hiperconstrutivismo do corpo e de seus órgãos sexuais, parece assinalar com cores fortes a dimensão de paródia das performances de gênero. Paródia que, como a própria sinonímia indica, não se pode separar do riso. E basta uma pequena passada de olhos nos títulos dos capítulos dos livros analisados para verificarmos a importância do riso e do humor. No Manifiesto Contra-sexual: Dildotectónica, La lógica del dildo o las tijeras de Derrida, Breve genealogía de los juguetes sexuales o de cómo Butler descubrió el vibrador, De la filosofía como modo superior de dar por el culo;em Queer zones: Baise-moi encore, Ceci n'est pas une pipe: Bruce La Bruce pornoqueer; e em Sexopolitique. Queer zones 2: Dirty talk, Nique la Rep. Dominator contre Madonna, Il y a une vie aprés l ' éjac faciale, Nique ton genre. ZAP la psy.

O riso aqui se refere a um sentido de humor que questiona a seriedade e a normalidade da vida. No momento em que Preciado e Bourcier colocam o riso no centro das narrativas, parecem sustentar que, quando o insulto se transforma em elogio; quando os corpos anômalos advogam normalidade; quando a estética se confunde; quando os corpos mudam sua lógica e exibem a centralidade de partes e órgãos antes menoscabados; então, o riso queer emerge sustentando que o poder que constrói corpos normais é falho, incongruente. O humor surge como atos de percepção que transcendem a realidade da vida ordinária, mostrando, muitas vezes hiperbolicamente, o abalo das re-configurações. Não se trata, portanto, de fugir da realidade, mas de questioná-la, de reinventar e perceber as reinvenções.

Narrativas com tamanha verve crítica, textos que se expõem tão fortemente, tornam-se mais vulneráveis às críticas. Discorrerei um pouco mais sobre essa "exposição" ao final deste ensaio, mas, antes de concluir, gostaria de fazer algumas observações sobre: 1) a premência de se inquirir sobre os vários vetores da diferença; 2) a necessidade de se estar atento aos dizeres da forma; 3) a dimensão da violência na sexopolítica.

1) Poderíamos nos questionar sobre a possibilidade de a experiência queer, no singular, estendida para todos os lugares e conjunturas e sem delimitação mais precisa sobre os contextos de nacionalidade e de raça, por exemplo , acabar naturalizando aquilo que se almeja desnaturalizar. Essa possibilidade conduz a algumas indagações. A experiência do transexual de hoje, ainda para exemplificar, seria equivalente à do gay universal, ou seja, a transexualidade independeria dos contextos locais e teria uma aplicabilidade universal? As experiências queer seriam as mesmas em todos os lugares? Quais as dimensões de uma das principais fontes de identidades do mundo moderno a nação e quais seus efeitos na experiência queer? Dito de outra forma: qual seria a relação entre o queer e os dilemas identitários de nação ou de raça? Seguindo o próprio movimento teórico de Preciado e Bourcier, podemos elaborar, ainda, as seguintes questões: como pensar as tecnologias que constroem corpos racializados? (ver, por exemplo, a abordagem de hooks (1997) sobre a representação da sexualidade feminina negra). De que maneira as biotecnologias são reinventadas no que se refere à raça? E como elas atuam? Enfim, estou indagando sobre o lugar de variantes como raça e nação na teoria queer9.

Esta questão é fundamental para a teoria queer, já que o descuido com as diferenças, e com a política da diferença, implica, muitas vezes, universalizar determinados aspectos cultura, raça, classe, orientação sexual , apagando as especificidades dos sujeitos. Sobre esse aspecto, inclusive, Butler (1998) já havia afirmado que gênero que nem sempre é constituído de maneira coerente e consistente nos diferentes contextos históricos seria intersectado por modalidades raciais, étnicas, sexuais, regionais e de classe das identidades discursivamente constituídas. Sendo assim, é impossível separar gênero das intersecções políticas e culturais por meio das quais ele é invariavelmente produzido e mantido.

Se no Manifiesto Contra-Sexual, Preciado não aborda direta ou extensamente tais questões, em trabalhos posteriores está atenta ao que denomina de sobrecruzamento de opressões (Preciado, 2007). A questão, alerta a autora, não é apenas a de ter em conta a especificidade racial ou étnica da opressão como uma variante a mais, junto à opressão de sexo e gênero, mas a de inquirir sobre a constituição mútua de gênero e raça (Preciado, 2005b). Bourcier (2005), por sua vez, adverte contra certa vontade civilizadora francesa e o desejo de exercer um cosmopolitismo civilizador como forma de controlar a diversidade. Da forma como leio, as autoras sinalizam que poderemos esperar, em obras futuras, análises mais detidas nesses aspectos.

2) Uma proposta teórica que não queira apenas girar em torno de si, abdicando sua vocação crítica, tem de enfrentar a especificidade dos discursos e das linguagens. O cinema não é um discurso ideológico entre outros; tampouco, apenas um documento histórico-social. Não se trata, portanto, de apreendê-lo com um discurso à parte, mas de percebê-lo em sua particularidade, de maneira que o objetivo principal não se centre exclusivamente no estudo dos temas tratados, mas no estilo, nas relações intrínsecas entre forma e conteúdo (Pereira, 2006). Os aspectos socioeconômicos e a posição do autor seu lugar diferencial , assim sendo, necessitam ser localizados como integrantes do texto ficcional. Nessa perspectiva, cabe a indagação: a "pós-pornografia", tal como visualizada por Bourcier nos filmes de Despentes e Trinh-Thi e de LaBruce, consegue romper com a linguagem tradicional da pornografia? A maneira de contar se altera? Ou se perpetua a forma de narrar da pornografia tradicional, apenas se alterando centralidade, gênero e tipos de personagens? Acredito que os textos de Bourcier, de uma forma ou outra, abordam ou tocam os aspectos acima salientados; o que estou sugerindo nessa defesa da necessidade de uma maior atenção aos dizeres da forma é que talvez uma abordagem que insista mais na especificidade fílmica possa radicalizar tanto a crítica das películas pornôs tradicionais, como apresentar a mirada queer da pós-pornografia.

3) Vance (1989), problematizando a associação direta da sexualidade aos modelos coercitivos de dominação assim como a articulação desses modelos a posições estáticas de gênero , afirmou que a sexualidade envolve as dimensões de prazer e de perigo10. Prazer porque há uma promessa de erotismo e uma busca de novas alternativas eróticas em transgredir as restrições impostas à sexualidade quanto tomada apenas como exercício da reprodução. Perigo na medida em que é importante refletir sobre aspectos como o estupro e o abuso como elementos do exercício da sexualidade. Há, contudo, alertou Vance, certa tendência em dissociar o prazer do perigo, tomando-os disjuntivamente, sem examinar as conexões das duas dimensões. No sadomasoquismo, por exemplo, há a disposição a uma concepção de prazer como força libertadora, sobretudo quando submetido ao consentimento entre parceiros; o perigo sendo tratado como se o consentimento, como um ato de vontade, garantisse na tradução em prazer, olvidando-se, assim, a dimensão da violência.

Um exemplo pode ajudar a tornar mais claras as relações entre prazer e perigo. Entre os anos de 2004 e 2005, realizei uma pesquisa, direcionando o olhar na "pornografia heterossexual". Percorri, na época, o caminho de divulgação e de trânsito desses filmes, como bancas de revistas, internet, sites, grupos de discussão. A análise do material que consegui e da experiência vivida nesse período me sugeriu que essas películas trabalhavam com a violação como um pressuposto utilizei, então, a definição de violação de Segato (2003). A pornografia heterossexual se constituía em performances da violação, tratando-se, pois, de um tipo de cinema que alegoriza a violação, transformando-a em objeto de fantasia. O prazer sinalizado pelo menos nos filmes que consegui ver e analisar é aquele que possibilita, no nível da fantasia, a resposta de um sujeito masculino que performatiza a violação sobre o sujeito feminino. Dessa maneira, a violência se colocava como estrutura da pornografia. Concentrar-me em filmes pornôs heteros me possibilitou verificar o papel da violência ou do perigo na pornografia, mas a focalização num tipo de cinema acabou por demonstrar os limites desse tipo de análise; limites que podem ser observados na abordagem de Bourcier e em seu direcionamento a outros experimentos fílmicos (na pós-pornografia).

Contudo, concentrar a análise na subversão não estaria colocando em segundo plano a dimensão da violência, tanto na pornografia quanto no sadomasoquismo? As práticas queer mostram que as subversões surgem justamente nas falhas da cadeia de repetição, sugerindo outras repetições que questionam a prática reguladora de identidade. Até que ponto, então, dirigir o olhar ao movimento de subversão não acabaria por invisibilizar traços e conteúdos violentos envolvidos em práticas sadomasoquistas e na pornografia? Dito de outro modo, as subversões queer implicariam para utilizar os termos de Vance uma concentração no prazer e uma invisibilidade do perigo? De que forma a pós-pornografia e as atuais experiências S/M se afastam ou se relacionam na gramática de gênero da violência?

Os pontos assinalados como possíveis ressalvas ao pensamento de Preciado e Bourcier já vêm sendo como antes sugeri desenvolvidos pelas próprias autoras. Ainda que acredite que questões como a dimensão da violência na sexopolítica ou a possibilidade de uma universalização da experiência queer que desconsidere os contextos locais e raciais devam ser mais bem esclarecidos e mais enfocados, noto o esforço e o movimento das autoras nessa direção.

De qualquer maneira, a leitura de Preciado e Bourcier seria interessante não só pelas dimensões que venho assinalando até aqui. Devemos acrescentar, além disso, que as autoras: 1) alertam, na própria ação de perturbar, que a utilização sem questionamentos de autore(a)s consagrado(a)s é prejudicial ao próprio pensamento queer; 2) salientam a necessidade da mirada queer (crítica, perturbadora) voltar-se para todos os autore(a)s, inclusive para as fontes de inspiração e para os principais interlocutore(a)s; 3) ressaltam que o movimento de apenas "aplicar" a teoria queer implica se distanciar de qualquer coisa que possa se denominar queer; 4) assinalam a instabilidade do próprio queer que deve ser também um dos alvos das ações de distorcer, transgredir, estranhar, perturbar.

O que é possível concluir, enfim, diante das narrativas de Preciado e Bourcier? Temas menores, estranhos, ditos de forma inadequada, num tom inapropriado. Evidentemente, tais considerações só poderiam ser expressas dentro do ponto de vista de um olhar que as próprias autoras desejam evitar e subverter. Se os discursos causam estranheza por parte de pensamentos mais ortodoxos ou conservadores, tal fato, ao contrário de desqualificar as autoras, indica suas características: elas perturbam, desestabilizam, incomodam; invertem miradas, criticam cânones, aborrecem os mais acomodados; subvertem a própria forma de narrar e de polemizar. Estranhar, subverter, perturbar, desestabilizar parecem reafirmar, insistente e hiperbolicamente, as autoras são marcas da própria experiência queer.

Disse anteriormente que todos os que se expõem abrem flancos para futuras críticas. Mas, acredito que essa "exposição" realça os pontos fortes e as fragilidades das obras, e esse "realçar" permite uma dimensão reflexiva, autocrítica, constante e intensa características que conferem à teoria queer sua vitalidade. O ato de se expor talvez seja um grande convite ao debate; e talvez as críticas, as risadas constantes e os temas polêmicos devam ser percebidos como uma incitação ao diálogo. Almejei, de alguma forma, responder a essa incitação neste ensaio; no entanto, a intenção foi menos a de me movimentar pelos possíveis flancos, na busca de apontar limites ou expressar discordâncias, do que a de indicar as potencialidades das abordagens de Preciado e Boucier teóricas queer centrais nos debates contemporâneos sobre corpo, sexo e gênero.

 

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Recebido em 20/01/08. Aprovado em 06/06/08.

 

 

1 A entrevista foi publicada no dossiê "Sexualidades Disparatadas", na Pagu, organizado por Richard Miskolci e Júlio Assis Simões (2007). Embora a primeira citação de Preciado no Brasil seja de Daniel Welzer-Lang (2001), acredito que a pioneira no Brasil a divulgar o trabalho da autora mais sistematicamente seja Berenice Bento (2006). Ver também Andréa Lacombe (2007) e Vera Paiva (2006). De Bourcier temos a alusão de Welzer Lang (2001) e de Bento (2006). Sobre o impacto que as autoras vêm causando, basta lembrar que na Espanha, o Manifesto Contra-sexual foi recebido como uma das propostas mais inovadoras e provocantes da atualidade, e que Bourcier tem sido aclamada como a crítica queer mais contundente da França. Para análise da teoria queer, ver Louro (2001).
2 A distinção sexo-gênero teve como base o trabalho de Rubin (1986). Trata-se da idéia de que o sexo (biológico) seria moldado pela intervenção humana e social, realizada de forma convencional. Posteriormente, Rubin (1989) alertou para a necessidade de se analisar em sexualidade e gênero como categorias independentes, problematizando a vinculação entre gênero, sexualidade e subjetividade. Tratarei do assunto mais detidamente adiante.
3 Dildo é um objeto desenhado para ser inserido na vagina e no ânus, se diferenciando dos vibradores; estes possuem modelos análogos aos dos dildos, mas com aparato tecnológico que os permitem vibrar. Utilizo aqui a definição de Maria Filomena Gregori (2004).
4 A idéia é de Gilles Deleuze e Félix Guattari (1998 apud Preciado, 2002, p.27): "O primeiro órgão a ser privatizado, colocado fora do campo social, foi o ânus."
5 Entre os filmes de LaBruce, Bourcier cita Super 8 et ½ (1994) e Skin Flick (2000).
6 Gênero, para autoras como Butler ou Bourcier, deve ser compreendido como ordem social que antecede ao sexo, e que fornece possibilidades de leitura e de atuações para o próprio sexo. Assim, gênero não se limita ao sexo, na medida em que ele transita de um corpo ao outro independente do sexo. O que Bourcier enfatiza nessa frase é a possibilidade de tipos de identidades em que o gênero não decorra do sexo e em que o desejo e as práticas não decorram nem do sexo nem do gênero, como manifesto nos corpos queer.
7 Talvez seja interessante efetuar uma comparação entre Toril Moi e Preciado e Bourcier, buscando verificar como o corpo é pensado por essas autoras. Se todas chegam à conclusão da importância e centralidade do corpo, parece que os significados de corpo são diferenciados (refiro-me, obviamente, à diferença entre as autoras queer por mim analisadas e a proposta de Toril Moi), bem como diferentes são os caminhos teóricos percorridos pelas autoras.
8 Pelo que se depreende da argumentação de Preciado e Bourcier, a subestimação do corpo se constitui numa particularidade teórica de Butler, a despeito das tentativas efetuadas em Boddies that Matter e Undoing Gender.
9 São diversas as teóricas que procuram compreender estas intersecções, como hooks (1990) e Young (1990).
10 Acompanho, aqui, além do texto de Vance (1989), a leitura de Gregori sobre as dimensões de prazer e perigo (2004, 2003).