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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

On-line version ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.12 no.26 Botucatu July/Sept. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-32832008000300007 

ARTIGOS

 

Narrativas, processos reflexivos e prática profissional: apontamentos para pesquisa e formação

 

Narrativas, procesos reflexivos y práctica profesional: contribuciones para investigación y formación

 

 

Taís Quevedo MarcolinoI; Maria da Graça Nicolletti MizukamiII

ITerapeuta ocupacional. Doutoranda, Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal de São Carlos. Rodovia Washington Luís, km 235, Caixa Postal 676 São Carlos, SP 13.565-905 taisquevedo@gmail.com
IIPedagoga. Centro de Comunicação e Letras, Programa de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura, Universidade Presbiteriana Makenzie, São Paulo

 

 


RESUMO

Este trabalho oferece contribuições metodológicas para projetos de pesquisa e formação que envolvam o uso de narrativas e processos reflexivos. Com base em um estudo sobre prática profissional, foram analisadas narrativas escritas de sessões clínicas de Terapia Ocupacional utilizando-se as categorias propostas por Hatton e Smith (1995), para evidenciar o processo de reflexão-sobre-a-ação: narração descritiva, descrição reflexiva, reflexão dialógica e reflexão crítica. Os resultados apresentados referem-se ao detalhamento da operacionalização da metodologia, sobretudo em relação à forma (estrutura gramatical) e aos conteúdos (reflexão evidenciada) de cada categoria. Neste sentido, procura-se complementar o trabalho de Hatton e Smith, oferecendo uma melhor sistematização para o uso dessas categorias.

Palavras-chave: Narrativas. Educação. Metodologia de pesquisa. Profissional reflexivo. Terapia ocupacional.


ABSTRACT

This study offers methodological contributions for research and educational projects involving the use of narratives and reflective processes. Based on a study on professional practice, written narratives from clinical sessions within Occupational Therapy were analyzed using the categories proposed by Hatton and Smith (1995), to show the process of reflecting on actions: descriptive narration, reflective description, dialog reflection and critical reflection. The results presented in this paper relate to the details involved in putting this methodology into operation, especially regarding the format (grammatical structure) and the content (manifested reflection) of each category. In this respect, it was sought to complement the work of Hatton and Smith, through providing better systematization for using these categories.

Key words: Narrative inquiry. Education. Research methodology. Reflexive practitioner. Occupational therapy.


RESUMEN

Este trabajo ofrece contribuciones metodológicas para proyectos de investigación y formación que envuelvan el uso de narrativas y procesos reflexivos. Con base en un estudio sobre práctica profesional, han sido analizadas narrativas escritas de sesiones clínicas de Terapia Ocupacional utilizándose las categorías propuestas por Hatton e Smith (1995) para evidenciar el proceso de reflexión sobre-la-acción: narración descriptiva, descripción reflexiva, reflexión dialógica y reflexión crítica. Los resultados presentados en este trabajo tienen por objetivo detallar la ejecución de tal metodología, sobre todo en relación a la forma (estructura gramatical) y al contenido (reflexión evidenciada) de cada categoría. De este modo, se busca complementar el trabajo de Hatton e Smith y ofreciendo una mejor sistematización en el uso de las categorías.

Palabras clave: Narrativas. Educación. Metodología de investigación. Profesional reflexivo. Terapia ocupacional.


 

 

Introdução

Desde a década de 1980, tem aumentado o interesse, em diversas profissões, de investigar a prática profissional, especialmente após as contribuições de Donald Schön (2000; 1983) sobre a natureza desta prática, que passou a ser compreendida, não como uma aplicação de teorias, mas como conhecimento produzido pelo profissional com base em situações onde existe incerteza, singularidade, complexidade e conflito de valores.

Estas proposições também promoveram transformações nas práticas de ensino das profissões, tanto na formação inicial como na formação continuada, sobretudo ao se valorizarem atividades formativas-investigativas voltadas para como os estudantes e/ou profissionais constroem suas compreensões sobre seu fazer profissional (Mizukami et al., 2002; Almeida, Feuerwerker, Lhanos, 1999).

O conhecimento que se demonstra em situações do dia-a-dia é um conhecimento tácito, ou implícito o profissional sabe que sabe, mas não consegue explicar o que sabe (Schön, 1983) e necessita se tornar explícito para que possa ser conhecido e avaliado. Nesta direção, o profissional precisa se envolver em um processo de reflexão sobre a ação, com base no qual ele poderá descobrir se suas ações estão coerentes com suas crenças e compreensões pessoais, redefinir seus significados e até produzir novos conhecimentos valendo-se dessas reflexões.

O processo reflexivo, caracterizado como um tipo de pensamento atrelado à ação e que demanda uma ação qualificada diferente da rotineira (Rodgers, 2002; Hatton, Smith, 1995; Dewey, 1976), tornou-se um dos elementos mais importantes para se compreender a construção do conhecimento prático-profissional. Além disso, também se tornou o eixo para nortear a aprendizagem da prática, ao propiciar uma maior compreensão das relações que se estabelecem com outras experiências e idéias e, assim, criar uma condição de continuidade da aprendizagem (Rodgers, 2002).

Desse modo, diversas estratégias têm sido utilizadas tanto para pesquisa como para formação para acessar a reflexão sobre a prática, sendo a principal delas o diário reflexivo (Zabalza, 1994). O conteúdo do diário caracteriza-se como uma narrativa sobre a prática, na qual o estudante ou o profissional pode relatar quais foram suas reflexões e suas ações em determinada situação, permitindo o acesso ao pensamento, fixando a ação no contexto em que ela ocorre, e explicitando suas compreensões, em um movimento que permite retornar à experiência (Rodgers, 2002; Cunha, 1997). Todo este processo demanda o que o psicólogo Jerome Bruner (1997) nomeou de pensamento narrativo, que é um tipo de pensamento trilhado no particular e que se preocupa com as conexões entre os eventos específicos para explicar os motivos.

O processo de narrar a própria experiência possibilita ao sujeito reconstruir sua trajetória e lhe oferecer novos sentidos, estabelecendo uma relação dialética entre experiência e narrativa, mediada pelos processos reflexivos (Rodgers, 2002; Cunha, 1997).

Desta forma, compreender como estes processos reflexivos acontecem e o que realmente evidenciam tornou-se bastante relevante neste contexto de ensino e pesquisa. Hatton e Smith (1995), em pesquisa realizada com alunos do curso de formação inicial de professores reflexivos da Universidade de Sydney, Austrália, indicaram que as narrativas escritas mostraram-se as ferramentas mais adequadas para se evidenciarem diferentes tipos de reflexão utilizados pelos alunos.

Para a análise destes relatos, os autores elegeram uma estrutura operacional apoiada no modelo de níveis reflexivos, proposto por Van Manen (1977 citado por Hatton, Smith, 1995), derivado do trabalho do filósofo Habermas, com base na qual foram evidenciados quatro tipos diferentes de relatos, que variaram desde uma simples descrição dos eventos, a modos reflexivos que tanto justificavam as ações como explicitavam as compreensões de forma mais ampla, envolvendo experiências anteriores e outros contextos. São eles: redação descritiva, descrição reflexiva, reflexão dialógica e reflexão crítica (a tradução dos termos seguiu o trabalho de Mizukami et al., 2002). Tanto o conteúdo como as diferentes estruturas de linguagem utilizadas nos relatos auxiliaram na categorização dos tipos de reflexão, embora este processo não tenha sido explicitado no artigo.

Todos os tipos de reflexão foram encontrados nos resultados apresentados por Hatton e Smith (1995), mas com diferenças qualitativas entre eles. Os autores ressaltaram a importância de não se colocar uma hierarquia entre estes diferentes tipos, pelo menos sem contextualizar de que forma ela pode acontecer. Um exemplo para este fato foi a qualidade dos relatos caracterizados como reflexão crítica (consciência de que as ações e os eventos não são apenas explicados por muitos pontos de vista, mas também pelos diferentes contextos sociohistórico-político-culturais), pois embora estes relatos procurassem incluir contextos mais amplos, o conteúdo das reflexões encontradas mostrou ser bastante superficial. Em contraponto, os relatos caracterizados como reflexão dialógica explicitavam conteúdos reflexivos mais consistentes.

Estas categorias também foram utilizadas para a análise dos dados de uma pesquisa interessada em compreender a dimensão educativa presente nos procedimentos terapêuticos de Terapia Ocupacional com base na investigação das narrativas de uma profissional sobre sua prática (Marcolino, 2005). Durante o processo de análise dos dados, foi possível construir um maior detalhamento no uso das categorias, identificando características singulares para cada uma delas, de modo a complementar o trabalho de Hatton e Smith (1995).

 

Metodologia

Este trabalho é parte dos resultados da pesquisa supracitada, com ênfase no detalhamento do uso das categorias utilizadas para evidenciar os processos reflexivos presentes nas narrativas escritas.

Deste modo, os dados da pesquisa foram provenientes de narrativas escritas, por uma terapeuta ocupacional, de dez sessões de atendimento clínico de uma única paciente, coletadas no período de março a maio de 20041. Foi solicitado à terapeuta ocupacional que estes relatos pudessem expressar a descrição dos eventos e suas reflexões sobre o que julgasse relevante (reflexão sobre a prática). A análise dos dados pautou-se nas categorias dos diferentes tipos de processos reflexivos, propostas por Hatton e Smith (1995).

No processo de análise dos dados, em um primeiro momento, após a leitura de todos os relatos escritos das sessões de atendimento, procurou-se identificar os trechos em que houvesse indícios de reflexão. Desta forma, obteve-se um quadro contendo trechos de descrição, caracterizados como narração descritiva, e trechos reflexivos. Cada trecho deste foi chamado de evento.

Após esta etapa, foi feita uma nova leitura dos trechos reflexivos, mediante a qual foi possível categorizar os eventos reflexivos, pois, em alguns trechos, a terapeuta ocupacional justificava suas ações, caracterizando uma reflexão descritiva, e em outros trechos expandia suas reflexões em uma conversa consigo mesma, envolvendo acontecimentos passados relacionados ao tratamento, à relação com a paciente, às informações coletadas anteriormente em conversas e em suas observações, o que caracteriza a reflexão dialógica. Não foram encontrados relatos tipo reflexão crítica.

Ainda assim, restavam dúvidas sobre em qual categoria deveriam ser incluídos alguns fragmentos, de estrutura similar, que se caracterizavam por expressar a percepção da terapeuta sobre a paciente. Estes eventos, embora pudessem ser enquadrados como uma conversa consigo mesmo, pareciam se referir ao momento atual, e não a um retorno ao passado. Além disso, não se caracterizavam por uma ação prévia ou posterior e, neste sentido, não ofereciam uma justificativa. Portanto, embora pudessem parecer casos de reflexão dialógica, inferiu-se que estes fragmentos estariam mais próximos da narração descritiva, pois descreviam uma observação subjetiva da terapeuta, na qual ela levantava uma hipótese, mas não a explorava. Sendo assim, estes fragmentos foram mantidos junto à narração descritiva.

Em nova etapa, cada tipo de relato reflexivo foi analisado separadamente. Neste momento, foi possível identificar as semelhanças entre eles, tanto no que se refere ao seu propósito e conteúdo, como sua estrutura gramatical que, na grande maioria das vezes, continha elementos que se repetiam.

Cabe ressaltar que as categorias propostas por Hatton e Smith (1995) não estavam delineadas com detalhes e os autores não discutiram profundamente a forma como trabalharam na análise dos relatos dos estudantes. Este fato, ao mesmo tempo que deixa em aberto a possibilidade do uso de tais categorias, não oferece uma estrutura clara de como utilizá-las. Pretendemos, com este trabalho, oferecer contribuições para um melhor delineamento destas categorias, para seu uso em pesquisa e no ensino, ressaltando que há linhas tênues entre a separação de um ou de outro tipo de reflexão.

 

Resultados

A seguir, serão apresentados os diferentes tipos de relato narrativos e reflexivos encontrados, ressaltando-se o conteúdo evidenciado e a estrutura gramatical associada a cada tipo. Cada categoria será seguida de um excerto narrativo ou reflexivo, a título de exemplo, no qual a estrutura gramatical aparecerá sublinhada em tracejado.

Narração descritiva

A narração descritiva é o registro dos eventos em que não há justificativa para a ocorrência das ações. Os excertos de narração descritiva se detêm na descrição da situação e de seu contexto, apresentam o desenrolar da trama, mostrando as ações dos personagens envolvidos, sem suas justificativas explícitas.

Como foi apresentado anteriormente, na narração descritiva incluiu-se um tipo de fragmento que apresenta a percepção da terapeuta sobre a paciente e que parece descrever uma observação subjetiva da terapeuta no momento presente. As expressões gramaticais características desses eventos foram: parece que, observo, percebo. Além de outras expressões gramaticais que parecem indicar uma observação subjetiva da terapeuta sobre o que poderia estar acontecendo com a paciente, tais como: [a paciente estaria] tentando entender, prestando atenção, tenta compreender.

Vou chamar F. na sala de espera, F. entra rapidamente na sala dizendo que precisava fazer dois presentes para o aniversário de duas meninas de sua sala de aula, um para o dia 1 de abril e outro para o dia 4 de abril.

Falo que antes de começarmos os projetos eu necessitava conversar uma coisa importante com ela e falo sobre a pesquisa. F. rapidamente fala que aceita, falo da necessidade de conversarmos com a mãe, já que era ela que deveria assinar o termo de compromisso (consentimento). F. fala que adora ajudar as pessoas...

Logo que termino de falar F. rapidamente pede para eu ajudá-la a fazer algo para dar de presente para as meninas ... e da necessidade de ser rápido para dar tempo de fazer dois presentes. Falo do tempo que tem disponível para fazer, conto quantos atendimentos ainda tem para acabar os presentes, F. parece não escutar e logo começa a abrir as gavetas, andando de um lado para o outro. (1ª sessão)

Descrição reflexiva

A descrição reflexiva procura oferecer justificativas para as ações baseadas no julgamento pessoal ou em referências da literatura. É uma tentativa de reflexão, mas de modo descritivo. Reconhece diferentes pontos de vista e aparece sob duas formas: a) centrada na perspectiva pessoal; b) centrada no reconhecimento de múltiplos fatores (Hatton, Smith, 1995).

Foram encontradas duas espécies de relatos tipo descrição reflexiva, de mesma estrutura, mas que diferiam quanto ao tipo de justificativa para as ações: um deles evidenciava a finalidade da ação (a); e o outro uma intenção investigativa (b).

No primeiro caso (a), a construção gramatical mais comum foi o uso de um verbo na primeira pessoa do singular, no Presente do Indicativo, mostrando ações diretivas da terapeuta ocupacional, como: faço, mostro, tento associar, tento fazer, resolvo, pergunto; seguido de uma expressão que denota a idéia de finalidade: na tentativa de, para que, com o objetivo de, para tentar, tento fazer com que, estava tentando.

Pergunto se ela tinha pensado em alguma coisa que gostaria de fazer para presentear, ela fica andando de um lado para o outro e fala que não sabe, e que eu tinha que ajudá-la a pensar em algo. Primeiramente começo a mexer nos materiais, convido-a mexer também, com o objetivo de provocá-la a chegar em algum produto. (1ª sessão)

No segundo caso (b), a mesma construção gramatical (uso de um verbo na primeira pessoa do singular, no Presente do Indicativo) foi seguida de uma expressão para caracterizar a postura investigativa, como: para investigar, para entender melhor, na tentativa de entender melhor, na tentativa de conhecer, para ver se, para tentar entender, para conhecer melhor, com o objetivo de conhecer, para tentar observar.

Peço para ela me explicar mais sobre sua religião que eu não conhecia muito bem e tinha vontade de aprender (faço isso na tentativa de conhecer como ela se relacionava com a religião, relação de espírito e sintomas psicóticos, alucinações). (4ª sessão)

Reflexão dialógica

Episódios de reflexão dialógica foram comuns na narrativa da terapeuta ocupacional e apareceram em quase todos os relatos. A reflexão dialógica caracteriza-se por uma forma de discurso consigo mesmo, um retorno aos fatos usando diferentes alternativas para levantar e explicar hipóteses. Como a descrição reflexiva, aparece sob duas formas: centrada em julgamentos pessoais e no reconhecimento de múltiplos fatores (Hatton, Smith, 1995).

A estrutura gramatical associada a este tipo de reflexão apresentou-se da seguinte forma: expressões que indicam uma ação de refletir lembro das vezes em que, penso que, pensei que, fiquei pensando, acho que, pude observar, faço hipóteses, tento lembrar, havia observado, já observei momentos em que, venho percebendo, fiquei pensando, fiz associação muitas vezes em conjunto com expressões que apontam para um tempo passado já teve atendimentos em que, em outros atendimentos, em vários atendimentos, em momentos anteriores.

Logo que termino de falar F. rapidamente pede para eu ajudá-la a fazer algo para dar de presente para as meninas (observo que ela não fala "amigas", parecendo algo distante e desconhecido, uma vez que sua vida é despovoada de amigas, relacionando-se apenas com a mãe e os avós, algo que surgiu em outros atendimentos, paciente reconhece a falta e carências dessas pessoas em sua vida, acredito que ela esteja em um processo de aproximação de algumas pessoas na escola"). (1ª sessão)

 

Discussão

O delineamento da operacionalização destas categorias ofereceu parâmetros para se identificarem os diferentes tipos de reflexão explicitados nas narrativas escritas, tendo como eixo a construção gramatical de cada tipo associada à intenção da reflexão. Deste modo, a descrição reflexiva, que se caracteriza por evidenciar justificativas para as ações, apresentou uma construção gramatical em que aparece uma ação da profissional (verbo na primeira pessoa do singular, no Presente do Indicativo) associada a expressões que denotam ora intencionalidade, ora uma postura investigativa, ambas evidenciando o que estava implícito na decisão tomada pela profissional.

Na reflexão dialógica, que se caracteriza por ser uma ampliação do pensamento com base em experiências anteriores, tanto para explicar como para levantar hipóteses, a construção gramatical incluiu expressões que indicam uma ação de refletir, seguida do alvo da reflexão, e expressões que apontam para um tempo passado, seguidas do relato das experiências anteriores que se relacionam com a situação do presente. Esta estrutura parece favorecer a compreensão sobre como experiências anteriores são resgatadas para a construção de sentidos sobre uma situação singular.

É importante ressaltar que, muitas vezes, não há uma linha bem demarcada entre uma categoria e outra, como foi visto ao se incluírem determinados fragmentos com estrutura reflexiva, que descreviam percepções subjetivas, na categoria narração descritiva, pois não havia exploração posterior deste pensamento. Entretanto, este aspecto pode ser melhor explorado em pesquisas posteriores, assim como uma melhor caracterização da categoria reflexão crítica, que não foi encontrada nos dados desta pesquisa.

De modo geral, o uso deste formalismo metodológico em pesquisas que envolvam narrativas escritas e o pensamento reflexivo pode favorecer a compreensão sobre: como se dá a construção de conhecimento pelo profissional-prático; os modos pelos quais os profissionais organizam seus pensamentos para tomarem decisões e agirem; como os referenciais teóricos são acessados na prática; como experiências anteriores vão sendo incorporadas à prática profissional, tanto para a construção de sentidos de situações singulares como no reconhecimento de padrões (ao longo da carreira).

A utilização da análise dos diferentes tipos de reflexão em experiências formativas pode favorecer uma maior compreensão do estudante ou do profissional sobre os motivos de suas ações na prática; possibilitar o questionamento destas ações; aumentar a consciência sobre como os referenciais teóricos estão presentes na prática; ampliar as possibilidades de reflexão quando o profissional se depara com situações onde há incerteza e conflito de valores, e, também, servir como fonte de evidência para a melhoria da prática.

Por um lado, todas estas indicações apontam a relevância do uso destas categorias em projetos formativos e investigativos em torno do profissional reflexivo; e, por outro, também deixam em aberto a necessidade de maiores investigações neste campo.

 

Considerações finais

A construção do arcabouço teórico-metodológico para esta pesquisa, com foco em elementos da prática profissional, incluiu o paradigma da racionalidade prática, o pensamento narrativo, as narrativas e os processos reflexivos.

As narrativas escritas se mostraram instrumentos capazes de fixar a ação em seu tempo e contexto e, assim, possibilitar o acesso ao pensamento do profissional implicado em um processo de reflexão sobre a ação. A vinculação entre reflexão e ação, proposta originalmente por Dewey (1976), e assumida pelos autores que referenciaram este trabalho, caracteriza o tipo específico de pensamento reflexivo analisado.

Neste sentido, de modo a colaborar para uma melhor sistematização das pesquisas que envolvem os processos reflexivos e para seu uso na formação profissional, o presente trabalho procura preencher a lacuna sobre como operacionalizar as categorias propostas por Hatton e Smith (1995), criando critérios para a identificação destas categorias.

 

Referências

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Recebido em 01/08/07. Aprovado em 24/02/08.

 

 

1 Atendimento na área de Saúde Mental. Na época, a paciente era uma adolescente de 16 anos, com diagnóstico clínico de esquizofrenia, e que já estava em atendimento de Terapia Ocupacional, em clínica particular, há seis meses.