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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

On-line version ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.12 no.27 Botucatu Oct./Dec. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-32832008000400002 

DOSSIÊ

 

Mudança curricular: construção de um novo projeto pedagógico de formação na área da Fonoaudiologia

 

Cambio curricular: construcción de un nuevo proyecto pedagógico de formación en el área de Fonoaudiología

 

 

Maria Cecília Bonini TrencheI; Luisa BarzaghiII; Altair Cadrobbi PupoII

IFonoaudióloga. Departamento de Clínica Fonoaudiológica, Faculdade de Fonoaudiologia, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Rua Monte Alegre, 984, São Paulo, SP, Brasil. cecilia@trenche.com.br
IIFonoaudiólogas. Departamento de Clínica Fonoaudiológica, Faculdade de Fonoaudiologia, PUC-SP

 

 


RESUMO

Analisa-se o primeiro ano de implantação do novo Projeto Pedagógico do curso de Fonoaudiologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). O objetivo foi analisar não só as mudanças de concepção e práticas pedagógicas, mas a construção de um trabalho coletivo do corpo social do curso. Os resultados apontaram que as novas modalidades pedagógicas (seminários, tutoria, oficinas, vivências formadoras) foram dispositivos importantes para se alcançar as mudanças propostas no novo modelo curricular. Entre outros avanços, destacaram-se: maior integração das disciplinas básicas com as atividades de caráter profissionalizante; melhor compreensão do estudante sobre a importância de uma formação pautada nas necessidades da população; maior articulação entre atividades de ensino, pesquisa e extensão; interação entre estudantes dos vários níveis de formação nas ações de promoção da saúde e prevenção de agravos; planejamento de atividades pedagógicas complementares em função das necessidades dos estudantes detectadas nas avaliações formativas.

Palavras-chave: Projeto pedagógico. Mudança curricular. Fonoterapia. Currículo.


ABSTRACT

The first year of implementation of the new pedagogical project for the Speech Therapy course at the Catholic University of São Paulo (PUC-SP) is analyzed. The aim was not only to analyze the changes in pedagogical concepts and practices, but also to construct collective work by the social body of the course. The results indicated that the new pedagogical activities (seminars, tutorials, workshops and instructive experiences) were important tools for achieving the proposed changes in the new curricular model. Highlighted among other advances were: greater integration between basic disciplines and professionalizing activities; better comprehension by students of the importance of training based on the population's needs; greater linkage between teaching, research and extension activities; interaction among students at various levels of training, regarding health promotion and disease prevention actions; planning of supplementary pedagogical activities according to students' needs detected in educational assessments.

Key words: Pedagogical project. Curricular change. Speech therapy. Curriculum.


RESUMEN

Este artículo contempla la análisis del primer año de implantación del nuevo Proyecto Pedagógico del Curso de Fonoaudiología de la Pontificia Universidad Católica de São Paulo, Brasil (PUC-SP). El objetivo ha sido el de analizar no sólo los cambios de concepción y prácticas pedagógicas sino también la construcción de un trabajo colectivo del cuerpo social del curso. Los resultados mostraron que las nuevas modalidades pedagógicas han sido dispositivos importantes para alcanzar los cambios propuestos en el nuevo modelo curricular. Entre otros avances se destacan una mayor integración de las disciplinas básicas con las actividades de caracter profesionalizante, mejor comprensión del estudiante sobre la importancia de una formación pautada en las necesidades de la población y mayor articulación entre actividades de enseñanza, investigación y extensión.

Palabras clave: Proyecto pedagógico. Cambio curricular. Fonoaudiología. Currículo.


 

 

Introdução

Nos últimos anos, leis, normas, resoluções (Diretrizes Curriculares) e portarias têm sido promulgadas pelos Ministérios da Educação (MEC) e da Saúde (MS), destinadas a acelerar mudanças na Educação Superior.

O MS, em consonância com as diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS), sinalizou um estatuto diferenciado das profissões no campo da saúde, ao definir o perfil (competências e habilidades) comum dos profissionais da área. Indicou e incentivou as mudanças curriculares, por meio de financiamentos de projetos (Promed, Pró-saúde) considerados prioritários e essenciais à implantação de programas estratégicos, como o Saúde da Família (PSF). A articulação entre as políticas do MS e do MEC tem contribuído para diminuir o distanciamento entre a formação profissional e as necessidades do SUS.

Esse movimento de mudança na formação de profissionais de saúde gerou vários espaços de diálogo e construção coletiva, entre eles, destaca-se o Fórum Nacional de Educação das Profissões na Área de Saúde (FNEPAS). Criado em julho de 2004, é constituído por associações de ensino de vários cursos da área da saúde1 e vem se configurando como um ator social comprometido com as transformações da educação em saúde no Brasil, partilhando da concepção de integralidade na atenção e na formação em saúde.

Na área da fonoaudiologia, a partir da promulgação das Diretrizes Curriculares Nacionais em 2002, muitos cursos de graduação vêm realizando mudanças curriculares na busca de se alinharem ao perfil profissional definido pela área. As Diretrizes têm sido também objeto de análise do Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior (SINAES/INEP) e tema relevante de Fóruns de Ensino, organizados pela Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia (SBFa), Academia Brasileira de Audiologia (ABA) e Conselhos Regionais e Federal.

Com base no perfil de formação de profissionais da área da saúde, a literatura que trata de mudanças curriculares, propostas a partir das diretrizes do SUS, focaliza a necessidade de construção de modelos pedagógicos que equilibrem excelência técnica e relevância social, pautando-se na atenção integral aos usuários dos serviços de saúde, sejam eles desenvolvidos em serviços públicos ou privados (Marins et al., 2004; Feuerwerker, 2002).

A noção de integralidade supõe, entre outros aspectos, a ampliação e o desenvolvimento da dimensão cuidadora no trabalho dos profissionais da área da saúde. Essa nova postura leva os agentes a se tornarem mais responsáveis pelos resultados das práticas de atenção à saúde, mais capazes de acolhimento, de construir vínculo com a população-alvo de ações e serviços de saúde.

O processo formativo preconizado desloca o eixo da formação centrada na assistência individual prestada em serviços especializados para uma formação mais contextualizada, que leve em conta as dimensões sociais, econômicas e culturais da população. Destina-se a formar profissionais capacitados para responderem aos problemas de saúde da população e estimular uma atuação interdisciplinar e multiprofissional nos serviços de saúde. Recomenda, ainda, o uso de métodos ativos de ensino-aprendizagem, desenvolvidos em parceria com os serviços de saúde.

Feuerwerker e Sena (1999) destacam alguns princípios norteadores dos processos de mudança na formação profissional em saúde, ressaltando que a reforma dos cursos deve estar sustentada na integração curricular, em modelos pedagógicos mais interativos, na adoção de metodologias de ensino-aprendizagem, centradas no aluno como sujeito da aprendizagem e no professor como facilitador do processo de construção de conhecimento.

Não se trata, pois, de rever disciplinas e conteúdos, mas de instaurar um modo de organização do trabalho pedagógico no qual o estudante possa se preparar para buscar ativamente os conhecimentos necessários para resolver os problemas encontrados no exercício da profissão.

As mudanças curriculares, no entanto, implicam transformações que não ocorrem de forma linear e imediata, porque, sendo estruturais, demandam um longo processo de planejamento, ação e reflexão. Nem sempre o que foi decidido será realizado, nem tampouco tudo o que é realizado resulta da concretização do que foi pensado. Nesse sentido, é imprescindível que seja parte integrante do novo projeto pedagógico o estabelecimento de procedimentos de acompanhamento e avaliação do processo de implantação curricular que possibilitem analisar se: os princípios definidos no projeto aprovado estão sendo seguidos; o que tinha sido planejado no projeto, nas ementas e programas de disciplina está de fato se realizando; os recursos didáticos administrativos estão sendo suficientes e ou adequados ao seu desenvolvimento; o aproveitamento dos alunos é coerente com os métodos de ensino-aprendizagem usados.

Sacristán (1998) entende o currículo como construído no cruzamento de influências e campos de atividades diferenciados e inter-relacionados. Destaca seis fases ou níveis na construção de um modelo de currículo: o currículo prescrito; o currículo apresentado aos professores; o currículo moldado pelos professores; o currículo em ação; o currículo realizado, e o currículo avaliado.

O processo de reforma curricular do curso de fonoaudiologia da PUC-SP se deu em 2004/2005, no contexto dos fatos e discussões apontados acima. O desenho do novo currículo não rompe radicalmente com a estrutura tradicional de ensino, como fizeram, por exemplo, alguns cursos de enfermagem e medicina que optaram por organizar as atividades de aprendizagem em torno de problemas de saúde. Tem-se nele, implícita, a proposta de se transformar um currículo (antigo) estruturado por disciplinas e conteúdos, para uma proposta curricular na qual as atividades de ensino, pesquisa e vivências em ambiente de trabalho se articulam de maneira a se integrarem num plano geral de curso.

Assim, tanto a abordagem interdisciplinar quanto a busca de integrar a fundamentação teórica com as práticas clínicas e introduzir novas modalidades de ensino-aprendizagem levaram professores e alunos do curso a definir ações e estratégias a serem construídas em trabalho coletivo e gerenciadas por um núcleo estruturante do projeto pedagógico, formado por professores e estudantes. Durante a implantação da reforma curricular, este núcleo teve um papel importante na implantação das novas modalidades pedagógicas introduzidas no currículo, tendo contribuído para a reflexão sobre a concepção e as atividades que resultaram na mudança de atitude dos professores em relação ao projeto.

 

A pesquisa e as ações

Durante o primeiro ano de implantação da reforma curricular, momento em que foram planejadas e implementadas as novas modalidades pedagógicas do curso (seminários, tutorias, oficinas técnicas, culturais e de escrita, e vivências formadoras), procurou-se sistematizar informações sobre esse processo, colocando-o como objeto de estudo e pesquisa2.

Sendo o objeto do estudo o processo de implantação da reforma curricular, optou-se pelo método qualitativo. Procurou-se concentrar nas atividades, situações, procedimentos e interações que pudessem auxiliar a compreender o processo de mudança do corpo docente. Caracterizada inicialmente como uma pesquisa-ação, a investigação foi concebida e realizada em estreita relação com as questões trabalhadas com a implantação curricular, na qual as pesquisadoras estavam envolvidas de modo cooperativo e participativo (Thiollent, 1987).

As pesquisadoras procuraram estabelecer uma rotina dos processos avaliativos da proposta, incluindo: análise das oficinas de planejamento; questionários para avaliar a adequabilidade das ações e de seus resultados; entrevistas; relatórios de análise do desenvolvimento da atividade acadêmica; registros de grupos focais realizados com professores e alunos; registros das reuniões do núcleo estruturante do projeto pedagógico e de programas de disciplina. Foram utilizados, também, os parâmetros propostos por Campos et al. (2001), possibilitando a exploração inicial do material usado para análise e discussão do processo de implantação do novo currículo.

Desse modo, a descrição dos resultados focaliza o processo histórico de implantação curricular. Entendeu-se que o registro desse processo e seu acompanhamento produziram saberes e transformaram e aperfeiçoaram o trabalho de formação desenvolvido.

Este artigo relata o processo de construção de um novo projeto pedagógico do curso de fonoaudiologia da PUC-SP em uma perspectiva investigativa, apontando avanços e desafios do novo currículo.

 

A concepção do novo currículo

Sobre a concepção

O curso de fonoaudiologia da PUC-SP promoveu em 2004/2005 um processo de reforma curricular. O antigo currículo, implantado em 1997, foi gestado na perspectiva de uma orientação profissional fortemente centrada na vocação clínico-terapêutica, mais tarde reafirmada pelas Diretrizes Nacionais e considerada basilar para outras possibilidades de atuação, tais como a pesquisa e assessoria. Com base na orientação dada pelo currículo mínimo proposta pelo MEC/SESu, o currículo de 1997 foi constituído por um corpo de disciplinas organizado em três núcleos de formação: núcleo de formação fundamental, núcleo de formação clínico-terapêutica, núcleo de formação em assessoria. Nos anos que sucederam a sua implantação, uma série de mudanças foi proposta aos cursos de ensino superior em função da promulgação das leis de Diretrizes e Bases (LDB/1996) e da resolução das diretrizes curriculares dos cursos de fonoaudiologia (Brasil, 2002). Com elas ficava extinto o currículo mínimo e definidos o perfil, as competências e habilidades do profissional e os campos de saber sobre os quais a formação deveria ocorrer. Por sua vez, a universidade, na elaboração de seu Projeto Pedagógico Institucional (PPI), destacou os seguintes tópicos: formação generalista, visão humanista, pensar crítico, pluralismo, interdisciplinaridade, integração entre teoria e prática, além da indissociabilidade entre pesquisa, ensino e extensão, e flexibilidade na organização dos componentes curriculares.

Nesse cenário, as reflexões, proposições e decisões apontavam pontos frágeis do currículo: a lógica da formação acompanhava a seqüência clássica teoria e prática na produção do conhecimento, sendo os dois primeiros anos basicamente teóricos e com poucas atividades diretamente relacionadas com a atuação profissional. O contato com ambientes de trabalho ocorria apenas nos últimos anos da formação e, até o 3º ano, as atividades práticas eram realizadas na clínica-escola3 que, na época, embora fosse referência no atendimento de pessoas com distúrbios da comunicação, não articulava mecanismos de referência e contra-referência com o SUS. O desenvolvimento de algumas competências e habilidades essenciais ao trabalho em serviços de saúde não se dava de forma gradativa desde o início do curso, e o processo avaliativo centrava-se na aquisição cumulativa de conteúdos. As disciplinas abordavam aspectos da interdisciplinaridade, mas as discussões de casos de caráter multiprofissional só aconteciam em disciplinas específicas. O contato entre as turmas se dava apenas em atividades extracurriculares. As atividades pedagógicas se centravam na modalidade disciplina. O currículo também estabelecia uma rede de pré-requisitos que limitava ainda mais as possibilidades de superação das dificuldades de alguns estudantes.

Com base nessas reflexões, um grupo de trabalho com representantes das diversas áreas e disciplinas foi formado para a construção do perfil profissional e das competências e habilidades a serem desenvolvidas. O resultado foi norteador do planejamento acadêmico anual. As propostas foram pautadas nos conceitos de interdisciplinaridade e integralidade. Os debates focalizaram não só as competências técnico-científicas, mas também as socioculturais4. Além da especialidade, identificou-se a necessidade de se desenvolverem o compromisso e a responsabilidade pela melhoria da qualidade da assistência à saúde e das condições de vida da população.

No currículo anterior, o primeiro ano do curso era basicamente dedicado aos conteúdos vistos como fundamentos da clínica fonoaudiológica, cuja finalidade era promover a compreensão dos aspectos biopsíquico-socioculturais no processo de saúde-doença. Embora esses conhecimentos fossem resgatados nos anos posteriores em situações clínicas ou de assessoria, a dicotomia entre os conhecimentos ministrados no ciclo inicial básico e no ciclo profissionalizante (quando os estudantes realizam estágios) era presente. Com essa forte separação entre teoria e prática no ciclo inicial, e nítido predomínio da teoria, havia, por conseqüência, uma supervalorização da memória, como principal atributo a ser estimulado nas avaliações aplicadas aos alunos nesse ciclo de aprendizado. A motivação do estudante para o estudo das disciplinas teóricas, a despeito dos esforços dos professores de acenar para a importância de tais conhecimentos no cotidiano das práticas fonoaudiológicas, parecia incidir freqüentemente na necessidade de ser aprovado na disciplina.

Outra mudança referiu-se à concepção da aprendizagem discente, concebida como um processo dinâmico de criação e relação, de elaboração de sentidos, de significados, que direciona sua lógica no sentido de levar o aluno a construir e participar de experiências de sentido (Morosini, Rossato, Maciel, 2006). Em conseqüência, entre outros requisitos, tal concepção implicou o redesenho da grade curricular, de modo que as disciplinas não operassem de forma individualizada e centradas em seus conteúdos. Os estudantes deveriam participar de atividades que qualificassem sua inserção no mundo do trabalho, quer por meio de estudos de casos, quer por meio de atividades que os levassem a agir de modo responsável analisando sua formação.

Para atender às Diretrizes Curriculares Nacionais, o processo da nova reforma do curso implicou, também, mudanças, na direção de maior flexibilidade do currículo, orientadas para abordagens interdisciplinares e concentradas no processo de formação do profissional generalista. Destacaram-se nesse processo: reestruturação da grade de atividades acadêmicas; redução de carga horária de disciplinas teóricas; redimensionamento dos conteúdos trabalhados; introdução de novas modalidades pedagógicas; inserção do estudante no campo de trabalho desde as séries iniciais; promoção de visão ampliada de clínica e, por conseguinte, do pensamento e ação interdisciplinar e em equipe multiprofissional ou participação em projetos coletivos; trânsito entre teoria e prática, estimulado pela busca de informação, leitura, reflexões sobre situações problemas; reorientação dos programas de disciplina em função do projeto.

A criação do núcleo estruturante do Projeto Pedagógico do Curso (PPC)

No início do processo de implantação da reforma curricular foi constituído um núcleo formado por: coordenadores de curso e de estágios, um representante de disciplinas teóricas e outro das práticas, um membro da direção da faculdade, um representante discente e um representante administrativo. Esse núcleo, responsável pelo planejamento, execução e avaliação das atividades realizadas semestralmente, desenvolveu as seguintes atividades: organização das oficinas de planejamento das atividades acadêmicas realizadas semestralmente; organização e realização de Seminários interdisciplinares mensais; definição e orientação das atividades de tutoria; definição e orientação para a realização das oficinas do curso; estruturação das atividades de vivências formadoras.5

Implantação das novas modalidades de ensino/aprendizagem

Um dos desafios do projeto foi a implantação das novas modalidades de ensino/aprendizagem. Como mencionado, a reforma curricular foi desencadeada em função de um conjunto de fatores, entre o quais a necessidade de incorporar avanços já alcançados e não contemplados na matriz do currículo antigo. Havia atividades extracurriculares, organizadas em torno dos núcleos de estudos e pesquisa, cujo objetivo era verticalizar temas e assuntos tratados pela graduação e/ou pós-graduação. Tais atividades constituíam um conjunto de realizações bem-sucedidas, caracterizadas pela problematização de questões interdisciplinares da clínica fonoaudiológica. Na avaliação do curso ficou claro que tal dinâmica propiciava a articulação entre ensino, pesquisa e extensão, o que ia ao encontro da concepção de formação pensada com base nas diretrizes curriculares. Tratava-se, portanto, de incorporar essas metodologias ativas de aprendizagem ao novo currículo, inserindo-as como modalidades pedagógicas diferenciadas, que abordam questões transversais da formação, estimulando uma visão ampliada da clínica e do fazer fonoaudiológico.

As seguintes modalidades pedagógicas foram planejadas: seminários, tutoria, oficinas6 e vivências formadoras. Na organização do cotidiano do curso, as atividades de tutoria e oficinas foram alocadas no mesmo dia de aula para todos os períodos do curso7. Essas atividades, semanais, uma vez por mês dão lugar à realização de seminários, possibilitando a participação de todos os estudantes e professores do curso.

Os seminários

Nos seminários, os estudantes são introduzidos ao campo profissional por meio de um conjunto de atividades, para conhecimento e reflexão de práticas interdisciplinares, multiprofissionais, focalizando discussões sobre modos de se compreender um problema ou situação, questioná-los, concebê-los e intervir sobre a realidade. Devem tomar como base situações concretas, evitar temáticas muito gerais, enfatizar uma visão ampliada da atuação do fonoaudiólogo, trabalhar com metodologias ativas e estratégias variadas, como a discussão de casos e situações institucionais.

Com duração de seis horas/aulas, os seminários foram planejados de forma a iniciar com uma atividade de aquecimento, para a discussão sobre um determinado tema (palestras, vídeos, apresentações), seguida de trabalho, em pequenos grupos, com situações problemas (necessariamente compostos por discentes de diferentes níveis de formação na graduação e pós-graduação) e finalizar com uma plenária, durante a qual são sintetizados os conceitos trabalhados.

Como estratégia política de agregação à proposta, os temas foram escolhidos com base em uma oficina8 de planejamento do curso, com a presença de grande parte do corpo docente e representantes discentes de todas as turmas do curso. No primeiro ano de implantação do projeto (2006) foram realizados sete seminários:

1 "As interfaces do campo fonoaudiológico " - objetivou levar estudantes a refletirem e debaterem sobre as áreas de conhecimento que fazem interface com a fonoaudiologia, na busca da compreensão da articulação de saberes considerados fundamentos da área com os campos específicos da atuação profissional.

2 "Diálogos sobre práticas interdisciplinares em fonoaudiologia " - objetivou introduzir a discussão sobre essa prática interdisciplinar. Os estudantes foram orientados a definir, em linhas gerais, um projeto para a criação de um serviço de fonoaudiologia. Após apresentação em plenária, alguns fonoaudiólogos convidados falaram sobre os investimentos científico e pessoal realizados para a construção de sua experiência profissional.9

3 "Sob o signo da diferença " - o tema, abordado por um filósofo e por uma médica do trabalho, objetivou levar os estudantes a debaterem questões relacionadas à formação social do preconceito e dos processos de discriminação. Na seqüência, assistiram ao filme "Meu pé esquerdo ",10 e puderam refletir sobre efeitos de atitudes e idéias preconcebidas sobre a capacidade de pessoas diferentes.

4 "As diferentes linguagens sobre a linguagem " - abordou a questão dos diferentes olhares sobre um determinado problema. Nesse seminário, os estudantes discutiram a questão - linguagem é uma habilidade inata ou adquirida? - com base em um filme (Nell). Foram convidadas para a discussão: uma lingüista, uma neurologista, uma psicanalista e uma fonoaudióloga.

5 "Integralidade como processualidade " - desenvolvido dentro da Semana de Fonoaudiologia, cujo tema foi "Integralidade como princípio da atuação fonoaudiológica no tratamento de transtornos orgânicos e psíquicos ". Contou com a participação de uma fonoaudióloga e dois médicos, um com experiência na área ocupacional e outro com experiência na implantação do PSF.

6 "Políticas públicas da reabilitação de pessoas deficientes: o desafio da inclusão social " - também foi desenvolvido dentro da Semana de Fonoaudiologia, envolvendo palestras e mesas-redondas.

7 "Por uma nova estética de atuação da fonoaudiologia: o corpo da/na linguagem " - teve como objetivo ampliar os referenciais de mundo e de trabalho, por meio do uso de diferentes linguagens: oral, escrita, dramática e corporal. Procurou-se dimensionar o trabalho no campo da linguagem como algo que implica estar em contato com: afetividade, percepção, expressão, sentidos, crítica e criatividade de si e do outro.

Esses seminários desempenharam papel importante na articulação, não apenas dos temas transversais, mas na orientação das discussões temáticas e atividades desenvolvidas na tutoria, nas vivências formadoras e oficinas, uma vez que essas atividades tiveram, como eixo central, as questões abordadas nos seminários. Os professores que participaram mais ativamente dessas atividades as consideraram espaço importante de discussão interdisciplinar, reflexão e compreensão para a articulação das atividades do projeto pedagógico. Na avaliação dos estudantes, os seminários foram percebidos como um ponto de convergência no curso, conforme ilustra o depoimento de um dos alunos: "[...] uma interação brilhante entre professores e alunos dos diversos anos [...] colaborou para a visão da fonoaudiologia [...] mostrou a realidade da profissão [...] os temas abordados me levaram a decidir continuar na profissão [...] ".

Destacam-se, entre outros, dois aspectos em relação ao processo de implantação dos seminários que colaboraram para a integração do currículo. O primeiro diz respeito à abordagem interdisciplinar que, segundo Demo (1998), implica a demolição de fronteiras entre pesquisa e ensino-aprendizagem. Na reforma curricular, os Seminários foram planejados na perspectiva de enxugamento de conteúdos - a integração entre o ensino dos fundamentos e a aprendizagem da prática profissional. Evidências de avanço puderam ser observadas no depoimento de professores sobre a postura e o aproveitamento dos alunos, quer por questionamentos, quer por relações estabelecidas nas discussões em sala de aula. Em segundo lugar, o processo coletivo de definição dos temas e da metodologia utilizada nessa atividade mostrou-se estratégia aglutinadora de idéias, integradora da relação dos docentes com o projeto.

Nesse processo, acompanha-se Feuerwerker (2002) quando afirma que o planejamento estratégico e o esforço organizado de construir canais de comunicação e discussão coletiva são partes essenciais para a condução dos processos de mudança. Os resultados alcançados levaram o núcleo estruturante a compreender, inclusive, que, para otimizar a participação dos docentes e discentes, era necessário delegar a organização e execução dos seminários aos mesmos. Tarefa inicialmente assumida pela comissão didática, que, no decorrer do tempo, passou apenas a gerenciar o processo, procurando antecipar-se aos problemas ou dificuldades e, ainda, oferecendo suporte aos grupos.

Tutoria

Embora tenha se inspirado na caracterização proposta por cursos que se baseiam em metodologias de resolução de problemas, a tutoria, no projeto pedagógico do curso de Fonoaudiologia, foi concebida de modo diverso, com os seguintes objetivos: lançar desafios para desenvolver a capacidade do aluno de articular estudos desenvolvidos nas várias disciplinas com as questões trabalhadas pelos seminários; facilitar o processo educacional; promover ações que resultassem em atitudes crítico-reflexivas; desenvolver atividades focalizadas no aprender, e não no ensinar; assegurar a participação de todos os estudantes, incentivando a iniciativa de contribuição à discussão grupal; auxiliar a auto-avaliação discente e identificação de necessidades para melhor aproveitamento acadêmico; estimular processos de integração e cooperação grupal; iniciar os estudantes em métodos de pesquisa científica.

Inicialmente, a tutoria teve como eixo básico de trabalho a construção do conhecimento científico para a formação do profissional. Tomou como base o conhecimento dos próprios alunos, advindo das experiências pessoais, do senso comum, dos temas veiculados pelas diversas mídias referentes à profissão do fonoaudiólogo. Suas atividades foram organizadas de forma a dar subsídios para a participação nos seminários. Conforme depoimento de uma das tutoras:

A discussão sobre a área de conhecimento da fonoaudiologia e seu campo de atuação preparou os alunos para o primeiro seminário interdisciplinar "As interfaces da fonoaudiologia ". Embora estreantes nesse tipo de atividade, os alunos do primeiro ano participaram ativamente dos subgrupos de trabalho e também da composição da mesa final de discussão em plenária. Puderam compreender a fonoaudiologia como área interdisciplinar, com interface não apenas no âmbito das ciências biológicas e da saúde, mas também no das ciências humanas e sociais. E isso abriu espaço para que o grupo colocasse suas dúvidas em relação a certas disciplinas do primeiro ano, como antropologia. Inicialmente, eles não estavam vendo sentido nessas disciplinas, pois tinham expectativa de um curso na área das ciências biológicas. A percepção de que linguagem não é unicamente um fator biológico fez com que entendessem a necessidade do estudo de temas abordados em ambas as disciplinas [...]. (Relatório de avaliação final da tutoria)

Para preparação do segundo seminário, fizeram uma visita monitorada, como atividade de vivência formadora, a três locais de atuação do fonoaudiólogo, além de entrevistas a fonoaudiólogos, outros profissionais e usuários.

Durante as atividades de tutoria do primeiro semestre, os estudantes também fizeram um levantamento bibliográfico dos temas desenvolvidos em Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs), dissertações, teses e periódicos na área de fonoaudiologia. Segundo uma das tutoras:

esta atividade serviu como uma primeira aproximação ao campo da metodologia científica, pois os alunos puderam perceber, na prática, por exemplo, a importância em se construir um texto conciso e claro, no resumo do trabalho científico, para facilitar as buscas do pesquisador, assim como a adequação do título e a escolha das palavras-chave. (Grupo focal de avaliação/docentes)

Os estudantes avaliaram a tutoria como uma das modalidades pedagógicas "mais significativas do curso " que:

possibilitou a oportunidade de trabalho em grupo [...] favoreceu aproximação com o curso, professores, profissão [...] ampliou a compreensão do curso e da profissão [...] favoreceu a integração dos alunos [...] apontou a importância da educação continuada [...]. (Grupo focal de avaliação/estudantes)

A implementação de metodologias ativas tem sido um grande desafio para professores que realizam a formação na área da saúde, que, em sua maioria, se formaram por metodologias tradicionais e inseriram-se nos currículos de acordo com a área de sua especialização (Marins, 2004; Feuerwerkwer, 2002). A modalidade de tutoria11 foi considerada uma atividade importante para a aproximação do estudante com o campo de trabalho do fonoaudiólogo e para o desenvolvimento de habilidades e atitudes para aprender a aprender. Ao planejar recursos, fazer orientações e acompanhar as vivências formadoras (descritas a seguir), os tutores propiciaram melhores condições para uma aprendizagem significativa.

Segundo Zanolli (2004), o mais importante na educação de adultos é ajudá-los a identificar o que não sabem, e a melhor maneira de fazer isto é expô-los a situações onde possam ativar e testar suas experiências prévias. Além disso, diz o autor que a aprendizagem deve ocorrer de maneira contextualizada em situações reais que os estudantes irão enfrentar em suas vidas. Um elemento a se considerar na implantação do currículo diz respeito aos cenários das práticas para o avanço da proposta de tutoria no segundo ano de implantação curricular. Basear a aprendizagem clínica na prática real desde o início do curso impõe o desafio de aproximar o curso dos serviços de saúde. A reflexão que se faz com base nos resultados alcançados com a implantação (depoimento de alunos e professores) da tutoria e, recorrendo à literatura, é a de que as atividades por elas propostas propiciam não só a aproximação dos alunos com o campo fonoaudiológico, mas também o desenvolvimento de um olhar mais atento para as necessidades (de saúde, educação entre outras) da população atendida (condição de vida, de acesso às tecnologias que melhoram a qualidade de vida, de vínculo com os serviços e de autonomia). Estendendo a reflexão de Zanolli (2004), sobre a formação médica, para a área da Fonoaudiologia, todos esses aspectos devem ser considerados no desenvolvimento de metodologias ativas de ensino-aprendizagem clínica.

Vivências formadoras

As vivências formadoras introduzem o estudante nos ambientes de trabalho e em instituições que podem qualificar o seu olhar para o fazer profissional. Foram centralizadas pelas tutorias e articuladas com disciplinas, oficinas, seminários, entre outros. As atividades desenvolvidas no primeiro ano do curso foram:

. Ida a um espetáculo de ópera, como forma de ampliação do repertório cultural, e discussões específicas na disciplina Trabalho Corporal e na oficina cultural.
. Idas às Bibliotecas dos campi da PUC-SP para a realização da pesquisa bibliográfica, cujo material resultante foi apresentado na tutoria.
. Participação no evento promovido pela PUC-SP, no Dia Mundial da Voz, em atividades de promoção da saúde.
. Visitas monitoradas a locais de atuação do fonoaudiólogo - clínicas particulares, Unidades Básicas de Saúde, hospitais - e realização de entrevistas com profissionais e usuários dos serviços.
. Observação de casos clínicos vinculados às disciplinas aquisição de linguagem escrita, aquisição de linguagem oral e neurologia.
. Visitas ao museu da Língua Portuguesa e Museu da Pessoa.
. Filmagem de uma relação dialógica criança /adulto - disciplina Aquisição de Linguagem e Oficina Técnica.
. Visita a templos religiosos - atividade da disciplina Introdução ao Pensamento Teológico.
. Visita à Derdic, instituição onde se realizam os estágios do 3º ano.
. Participação em ações de promoção de saúde e prevenção de doenças promovidas pelos estudantes do 4º ano (triagem auditiva de crianças de seis meses a dois anos, realizadas em Unidades Básicas de Saúde).
. Participação dos estudantes no XV Encontro de Iniciação Científica da PUC-SP.
. Organização e participação na XIII Semana de Fonoaudiologia e II Jornada Mauro Spinelli.

Em relação às vivências formadoras trabalhadas em visitas monitoradas, os estudantes avaliaram que "enriqueceram muito a formação [...] muito boa essa idéia [...] ajudaram-me a confirmar minha escolha profissional [...] deveriam acontecer mais [...] " (Grupo focal de avaliação/estudantes). A repercussão dessas experiências na formação dos estudantes foi percebida e avaliada positivamente, não só pelos professores que planejaram e monitoraram tais vivências, mas também pelos professores de disciplinas teóricas, que observam mudanças no perfil acadêmico da turma: "mais comprometida, interessada, com mais iniciativa para participar de atividades que contribuem para a formação profissional [...] os alunos estão discutindo com mais propriedade questões sociais gerais e as que envolvem as práticas fonoaudiológicas [...] " (Grupo focal de avaliação/docentes).

Os depoimentos são indicativos de que as vivências formadoras mostraram-se pertinentes ao trabalho de sensibilização dos estudantes nos aspectos psicológicos de motivação para a profissão e idealização do papel profissional. Segundo Nogueira-Martins (2006), experiências realizadas em grupo são fundamentais para a preparação profissional. A criação de atividades e espaço para discussão parece confirmar o pressuposto da autora de que tais espaços acolhem os estudantes e contribuem para sua formação integral.

Oficinas de escrita e oficinas culturais

As oficinas culturais e de escrita estavam articuladas com as demais atividades, propondo trabalhos como: redação de diários, relatórios das visitas, entre outros. O objetivo dessas oficinas foi o de disparar a discussão sobre o modo de relação dos alunos com sua escrita, buscando a construção de um modo mais significativo e prazeroso de se relacionar com a linguagem escrita. Os alunos participaram e relataram suas histórias de letramento. Nessas oficinas discutiu-se a relação entre a Fonoaudiologia e a Arte (em geral, e a literatura em particular) e sua importância para o trabalho terapêutico. Tornou-se prática comum a narração de livros lidos e a troca, entre os alunos, de livros para ler. Segundo a professora das oficinas:

a idéia de fomentar o prazer pela leitura e fornecer elementos que permitam uma escolha mais criteriosa e orientada do que ler foi alcançada. Isto permitiu ampliar o universo de leitura dos alunos, a capacidade de escrita de gêneros não acadêmicos. Essa oficina permitiu que os estudantes identificassem a necessidade de ampliação do universo cultural como um aspecto fundamental para a formação do terapeuta. (Relatório de avaliação final da oficina de escrita)

As oficinas buscaram, também, criar a prática de ler e escrever fora dos muros universitários. Nesta direção, a opção foi trabalhar a produção de um gênero não-acadêmico, mas jornalístico, o artigo de opinião, pois este gênero: (1) permite ao seu leitor o acompanhamento e a tomada de posição frente a questões polêmicas e controversas; (2) mobiliza fortemente a estrutura argumentativa e outros mecanismos lingüísticos e discursivos (polifonia, intertextualidade etc) que são compartilhados por gêneros acadêmicos, como é o caso do artigo de divulgação científica e do ensaio acadêmico; (3) circula em jornais e revistas. Do ponto de vista argumentativo, a discussão sobre os diferentes tipos de argumento (causa, princípio, autoridade e exemplificação) e sobre os movimentos argumentativos (sustentação, refutação e negociação) auxiliou os estudantes a compreenderem a estrutura argumentativa que integra o artigo de opinião.

Sobre a articulação entre os seminários e as oficinas de escrita, a professora refere:

foi possível focalizar as características sobre a fala letrada apresentada por palestrantes que puderam ser relacionadas às dificuldades de compreensão que este tipo de fala pode apresentar [...] a relação entre leitura, fala letrada e tomada de notas [...] a importância de saber definir para tomar notas de exposições orais (aulas, palestras etc...). (Relatório de avaliação final da oficina de escrita)

Na avaliação dessa modalidade pedagógica, os estudantes demonstraram o alcance que esta teve:

mostrou a importância de ler e escrever claramente e corretamente [...] lidar de forma mais crítica com o texto [...] ajudou a escrever melhor [...] abriu minha visão sobre sociedade e cultura [...] comecei a gostar mais de ler e escrever [...] ajudou a entender as matérias [...] ajudou à escrita, mas foram poucas atividades [...] acrescenta a todas as matérias, mas foi pouco. (Questionário de avaliação do curso pelo discente)

A escrita é um dos caminhos que levam o estudante ao acesso e à produção do conhecimento. Um dos desafios da reforma curricular foi oferecer condições para que os estudantes pudessem desenvolver suas potencialidades e sanar suas deficiências, as quais limitam sua formação e seu futuro desempenho profissional. Os atos de ler, escrever e aprender correspondem a realidades muito próximas e, portanto, indissociáveis. Os estudantes demonstraram essa percepção ressaltando os benefícios trazidos pela participação nas oficinas de escrita, relacionando a construção do conhecimento científico à capacidade crítico-reflexiva.

Oficina técnica para atuação na atenção à saúde infantil

No segundo semestre, conforme matriz curricular, as oficinas teriam objetivo de capacitação técnica para atuação profissional. Em consonância com o trabalho de disciplinas teóricas, seu objetivo foi trabalhar, sobre a perspectiva interdisciplinar e multiprofissional, aspectos relacionados à Atenção à Saúde da Criança, na esfera do Sistema Único de Saúde, com destaque para a questão da assistência à criança de risco.

Na avaliação dessa modalidade, constatou-se seu papel articulador nas temáticas trabalhadas por algumas disciplinas teóricas, possibilitando a integração das visões de várias áreas que atuam com esse ciclo de vida e as grandes preocupações gerais das políticas de saúde.

 

Análise do processo de implantação

Ao analisar o processo de implantação curricular do curso, é preciso destacar os referenciais que permitiram o caminhar para a concretização do projeto pedagógico do curso. Interagiram, nesse processo, o PPC idealizado pelos professores (que participaram da construção da proposta, considerando negociações e ajustes realizados antes, durante e após sua aprovação), o prescrito pela instituição, aprovado pelos conselhos superiores da universidade, com o que está sendo efetivamente implantado.

A metodologia de trabalho usada nas disciplinas implantadas mostrou-se coerente com o princípio de fomentar a autonomia no processo de ensino-aprendizagem, quer pela valorização do conhecimento prévio dos estudantes, acionado em todas as situações de formação, quer no trabalho de levá-los a compreender que a formação profissional implica processos de aprender a aprender, aprender a fazer, e aprender a se relacionar.

Diferentemente das áreas que tiveram um maior incentivo para realizarem os processos de mudança curricular, na área da fonoaudiologia, ainda não foram desenvolvidos instrumentos formais para esse tipo de avaliação. Neste estudo, para apreciar os resultados das mudanças alcançadas, foram utilizados, como referência, os eixos propostos por Campos et al. (2001) em uma avaliação de projetos pedagógicos, pensada no contexto da aproximação da formação em saúde com as necessidades da atenção básica.

Tendo em vista o estágio da implantação do novo currículo (primeiro ano), não foi possível trabalhar com todos os eixos e vetores, como os referidos autores o fizeram. Mas é importante ressaltar que forneceram parâmetros importantes para a análise da avaliação da implantação curricular neste estudo. Assim, na análise, foram considerados os seguintes eixos: teórico, abordagem pedagógica, cenários de aprendizagem e preparação para o desenvolvimento do projeto pedagógico.

Eixo - Orientação teórica

O curso possuía um enfoque teórico que permitia uma visão ampliada da clínica fonoaudiológica, uma vez que já trabalhava sobre a perspectiva dos vários determinantes do processo saúde-doença, não restringindo o olhar apenas sobre os aspectos orgânicos. No entanto, segundo relatos e análises dos docentes e discentes, as novas modalidades têm lhes possibilitado a prática efetiva desse olhar, desde os primeiros anos da formação. Segundo Campos et al. (2001), a análise desse eixo aponta a necessidade de o curso aproximar os docentes e os estudantes dos primeiros anos dos serviços de saúde. Considera-se que a problematização de situações e a sistemática de análise do processo da saúde-doença se efetivam nas experiências dos estudantes em equipamentos de saúde.

Eixo - Abordagem pedagógica

Embora o currículo não adote integralmente a metodologia baseada na resolução de problemas, introduz modalidades de aprendizagem ativa. Isto possibilita ao estudante uma maior integração entre as disciplinas consideradas básicas e as atividades de caráter profissionalizante, fazendo com que estas sejam incorporadas de modo significativo.

As atividades de seminários, visitas monitoradas, observações de casos clínicos e organização da Semana de Fonoaudiologia têm promovido a troca de experiências e a interação entre estudantes de diferentes níveis de formação.

A mudança didático-pedagógica vem imprimindo processos de aprendizagem ativa, com orientação feita por tutores, desenvolvendo-se em diferentes cenários de aprendizagem e utilizando diferentes fontes de conhecimento (bibliotecas, visitas monitoradas a serviços, entrevistas a profissionais etc.)

A implementação das modalidades pedagógicas (seminários, tutoria e oficinas) tem possibilitado a inter-relação entre teoria e prática. Ao planejar atividades que trabalham os fundamentos da prática profissional, o currículo tem atendido às necessidades de formação dos estudantes, aperfeiçoando as condições de estudo e investigação.

Foi iniciado o trabalho com os professores para aperfeiçoar os instrumentos de avaliação discente. Embora esse seja um grande desafio, a avaliação formativa tem sido tema de muitas discussões nas reuniões docentes e já está sendo implementada como forma de conhecer o resultado da proposta de cada modalidade pedagógica do curso. Em decorrência, os planos de ensino estão sendo trabalhados em função das necessidades dos estudantes e de cada turma. Esse trabalho tem possibilitado o planejamento de atividades pedagógicas (monitorias, plano de estudos) em função das necessidades de aprendizagem dos estudantes detectadas nessas avaliações.

Eixo - Cenários de aprendizagem

Diferentemente do currículo anterior, no qual os estudantes tinham interação ativa com a população e profissionais de saúde somente no início do terceiro ano, o novo currículo tem propiciado aos estudantes, já no primeiro ano, participarem de ações de promoção da saúde e prevenção de doenças. Este fato possibilita que os estudantes assumam responsabilidades crescentes como agentes prestadores de cuidados, compatíveis com seu grau de autonomia.

As atividades desenvolvidas nos seminários, que problematizam questões diretamente relacionadas com o fazer clínico fonoaudiológico, por seu caráter interdisciplinar têm promovido a integração de docentes de áreas básicas e profissionalizantes, permitindo a abordagem de questões da clínica fonoaudiológica. Uma aproximação maior do curso com uma comunidade e serviços de saúde do território é desejável para criar melhores condições para que a formação dos estudantes fique mais centrada nas necessidades da população.

Eixo - Preparação para o desenvolvimento do projeto pedagógico

Em relação à experiência vivenciada pelo núcleo de implantação curricular, observou-se que seus participantes puderam vivenciar o processo de produção coletiva e planejamento participativo. Embora os temas dos seminários tivessem sido escolhidos previamente na oficina de planejamento, este grupo ficou responsável pela elaboração da proposta e da articulação entre as atividades de tutoria e a preparação dos alunos para sua participação nos seminários. No planejamento desta atividade do segundo ano do curso, cada membro do núcleo está coordenando a organização dos novos seminários, tarefa delegada aos professores e estudantes do curso.

É importante dizer que, nesse processo, houve também resistências para a mudança por parte de alguns professores de disciplinas teóricas, pois, mesmo reconhecendo as dificuldades e limitações de um ensino mais tradicional, a experimentação de inovações produz desarranjos e rearranjos, para os quais nem todos estiveram muito disponíveis. Em relação a esses professores, pode-se dizer que as modificações na formação dos estudantes repercutiram de modo positivo, produzindo mudanças que puderam ser observadas no interesse em participar dos seminários, na elaboração de planos de disciplina, adotando metodologias mais ativas.

A análise deste eixo aponta para a necessidade de sensibilização e preparação de professores que utilizam apenas métodos tradicionais na abordagem de suas disciplinas, para que estes possam ampliar a implementação da problematização como metodologia de ensino-aprendizagem.

No processo de análise do percurso realizado, concordamos com Veiga Neto (2003), ao afirmar que projeto político-pedagógico de um curso deve ser considerado como um processo permanente de reflexão e discussão dos problemas da instituição, na busca de alternativas viáveis à efetivação de sua intencionalidade, que não é descritiva ou constatativa, mas é constitutiva.

Neste sentido, a descrição e análise do processo trouxeram subsídios importantes para a tomada de decisão na continuidade do trabalho de implantação do novo currículo.

 

Considerações finais

Neste artigo registrou-se o início do processo de implantação do novo currículo do curso de fonoaudiologia da PUC-SP, descrevendo e analisando a implementação de novas modalidades pedagógicas (seminários interdisciplinares, oficinas técnicas, de escrita e cultural, e tutorias). Na elaboração do projeto, essas atividades foram consideradas como dispositivo para a passagem de um modelo curricular estruturado por disciplinas para um modelo de atividades acadêmicas estruturadas por um projeto pedagógico com ações programáticas.

Entre outros avanços, destacam-se: maior integração das disciplinas básicas com as atividades de caráter profissionalizante; melhor compreensão do estudante sobre a importância de uma formação pautada nas necessidades da população; maior articulação entre atividades de ensino, pesquisa e extensão; interação entre estudantes dos vários níveis de formação nas ações de promoção da saúde e prevenção de agravos; planejamento de atividades pedagógicas complementares em função das necessidades dos estudantes, detectadas nas avaliações formativas.

Ao final deste estudo, ressalta-se a importância da construção de indicadores nacionais para o acompanhamento e avaliação das mudanças curriculares. No interior das instituições, eles podem orientar a reflexão crítica e induzir mudanças.

 

Colaboradores

As autoras Maria Cecília Bonini Trenche, Luisa Barzaghi e Altair Cadrobbi Pupo participaram, igualmente, de todas as etapas de elaboração do artigo.

 

Referências

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Recebido em 16/08/07.
Aprovado em 04/07/08.

 

 

1 Fazem parte do FNEPAS as associações de ensino dos cursos de Medicina, Enfermagem, Odontologia, Fisioterapia, Psicologia, Serviço Social, Fonoaudiologia, Terapia Ocupacional, Farmácia e Nutrição, além da Rede Unida, da Associação Brasileira de Hospitais Universitários e de Ensino e da Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (Abrasco). Acesse: <http://www.fnepas.org.br>
2 Os professores responsáveis receberam horas-pesquisa do fundo FAP/CEPE da PUC-SP para realizar o trabalho, e parte do registro do material foi feita por bolsistas do PIBIC/CNPq.
3 Divisão de Ensino e Reabilitação dos Distúrbios da Comunicação (DERDIC).
4 As competências do projeto pedagógico do curso estão descritas em Pupo et al. (2006).
5 Definidas no projeto como atividades de inserção dos estudantes no campo e nos ambientes de trabalho.
6 Conforme a grade curricular, as oficinas de escrita e cultural são ministradas no 1º e 4º semestres letivos, e as oficinas técnicas no 2º e 3º semestres.
7 Em 2007 foi implantada a 2ª turma do currículo em questão.
8 Foi realizado um termo de referência dessa oficina para os docentes constando objetivos, metodologia e resultados esperados. A opção por trabalhar com oficinas foi a estratégia usada para engajar o corpo docente e discente na construção/implantação do novo projeto pedagógico. As oficinas diferenciam-se das metodologias tradicionais por serem processos mais horizontais e democráticos, cujos produtos dependem da participação direta de todos os envolvidos.
9 Paralelamente a esse seminário, os estudantes realizaram visitas monitoradas (atividade classificada como vivência formadora) em serviços de fonoaudiologia implantados em dois hospitais, duas UBSs e duas clínicas privadas.
10 O filme aborda processos de interação de um personagem com problemas orgânicos e sociais decorrentes de estigmas. Na tutoria, foram trabalhados aspectos da comunicação do personagem principal, considerados impeditivos ou não dos processos de interação com os outros personagens da história.
11 A modalidade tutoria, aqui apresentada, difere daquela praticada nos cursos que adotaram currículos integrados e metodologias de aprendizagem baseadas em problemas. No currículo de Fonoaudiologia da PUC-SP, ela assume não só a problematização da prática clínica, mas também organiza ações e estratégias de estudo, pesquisa e discussão sobre práticas profissionais da área.