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versão impressa ISSN 1414-3283

Interface (Botucatu) vol.14 no.33 Botucatu abr./jun. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-32832010000200017 

ESPAÇO ABERTO

 

O corpo como pulso

 

El cuerpo como pulso

 

 

Flavia Liberman

Curso de Terapia Ocupacional, Departamento de Ciências da Saúde, Universidade Federal de São Paulo, Campus Baixada Santista. Avenida Dona Ana Costa, 95 Vila Mathias, Santos, SP, Brasil. 11.060-001. estudiofla@uol.com.br

 

 


RESUMO

O corpo é foco de muitos estudos e intervenções. Alguns paradigmas o concebem apenas em seu aspecto sensório-motor, enquanto outros transitam prioritariamente por uma dimensão psicológica. Procurando contribuir para a formulação de outras perspectivas no campo, apresentam-se aspectos da concepção de corpo de Stanley Keleman em ressonância com os estudos de Regina Favre. A partir de cenas clínicas em grupos de seminários, podemos pensar o corpo como pulso, multimídia, multifacetado, que se (des) constrói permanentemente nos encontros. Articulando experiências clínicas da autora como terapeuta ocupacional e docente da graduação e em grupos de estudos, essas concepções servem como guia para uma clínica pensada, construída e balizada pelo corpo mediante utilização de abordagens corporais para a promoção de encontros plasmados por afetos e acontecimentos, na tentativa de criar corpos que possam sustentar as intensidades vividas e permitam a observação de si, a aproximação com o outro e a produção de singularidades.

Palavras-chave: Concepção de corpo. Terapia ocupacional. Clínica. Dispositivo grupal. Subjetividade.


ABSTRACT

The body is the focus of many studies and interventions. Some paradigms conceptualize the body only in relation to its motor-sensory characteristics, while others prioritize its psychological dimensions. With the aim of contributing towards formulating other perspectives within this field, some aspects of Stanley Keleman and Regina Favre's conceptualization of the body are presented here. Starting from clinical situations during seminar groups, we can take the body to be a multifaceted multimedia pulse that is continually [de]constructed through encounters. Together with the author's clinical experiences as an occupational therapist and teacher or undergraduates, these conceptualizations serve as a guide to clinical practice that is thought out, constructed and balanced by the body, using body approaches to promote encounters molded by affections and events, in an attempt to create bodies capable of sustaining the lived intensity of experiences, and which enable self-observation, closeness to other people and production of singularities.

Keywords: Body conceptualization. Occupational therapy. Clinical practice. Group device. Subjectivity.


RESUMEN

El cuerpo es foco de muchos estudios e intervenciones. Algunos paradigmas lo conciben sólo en su aspecto sensorio-motor mientras otros transitan prioritariamente por una dimensión psicológica. Tratando de contribuir para la formulación de otras perspectivas en tal campo, se presentan aspectos de concepto del cuerpo, de Stanley Keleman en resonancia con los estudios de Regina Favre. A partir de escenas clínicas en grupos de seminarios, podemos pensar el cuerpo como pulso, de muchas facetas, que se (des) construye permanentemente en los encuentros. Articulando experiencias clínicas de la autora como terapeuta ocupacional y docente de la graduación y en grupos de estudios, estas conceptuaciones sirven como guía para una clínica pensada, construida y orientada por el cuerpo mediante el uso de planteamientos corporales para la promoción de encuentros plasmados por afectos y acontecimientos, en la tentativa de crear cuerpos que puedan sustentar las intensidades vividas y permitan la observación de sí mismo, la aproximación con el otro y la producción de singularidades.

Palabras clave: Conceptuación del cuerpo. Terapia ocupacional. Clínica. Dispositivo grupal. Subjetividad.


 

 

Introdução: primeiros batimentos

 

O homem é um organismo em autoconstrução.
Keleman (1992, p.16)

 

O corpo se encolhe, se curva e se fecha pela frente, produzindo uma dor, às vezes insuportável, nas costas. Acompanhando esta posição de certo esmagamento de si, as mãos espalmadas apertam o rosto e os joelhos, que se aproximam um do outro como se quisessem esconder, ocultar algo da ordem da intimidade. Além de todo este movimento, vemos um braço, como que socando, procurando apertar as vísceras da barriga, num traço de agressividade contra aquele corpo, contra aquela vida que quer se expressar, falar de si, tornar-se presença.

 

Através do corpo, a participante pode (re) experimentar uma emoção muito intensa de vergonha, fazendo emergir ainda outras lembranças, memórias intensas de cenas em que foi caçoada, pouco valorizada numa dinâmica familiar em que os homens pensam e agem como se soubessem de tudo, e as mulheres (ainda meninas) têm pouco a dizer.

"Experimente inibir um pouco estas mãos que apertam" "experimente inibir este estado, gradativamente", sugere Favre1.

A proposta é aproximar-se das camadas mais profundas, daquilo que afeta, corrói e constrói nessa existência particular. "Perceba que você contrai tanto a tua barriga que teu pulso diminui", acrescenta Favre.

Não sobra espaço, o movimento se reduz, produzindo uma sensação de vazio, de despotencialização que reverbera em diferentes situações de encontro consigo em suas produções e no colocar-se no mundo.

Todo o grupo acompanha atentamente aquele acontecimento que provoca a emergência de outras cenas:

Felícia2, por exemplo, conta que quando criança era uma menina magrinha, estrangeira; lembrou de momentos em que estava no recreio da escola e também era caçoada pelas colegas por seu nome estranho, por suas características "estrangeiras". Essa situação é relacionada a um sonho, surgido em um dos encontros anteriores, sobre o medo de cachorros do tipo rotweiller, metáfora de uma vivência ligada à violência e agressividade.

A partir desse relato, a participante fala sobre seu medo de se aproximar, de misturar-se, de se relacionar com os outros, produzindo, às vezes, um corpo distante que se esvai porque tem medo de se desmanchar, de cair num vazio, de "ser comida pelos cachorros".

São duas entre tantas cenas que acontecem nos chamados Seminários Vivenciados3 e que possibilitam, mais uma vez, por meio do acompanhamento de experiências de diferentes sujeitos daquele grupo, pensar, viver, e refletir sobre como as pessoas se relacionam e se expressam através de seus corpos, o encontro com outros corpos, com outros mundos.

Considerando-se o emocional como elemento relacional ou vincular, a teoria de Keleman (1996, 1992) torna-se bastante potente para explicá-lo, uma vez que podemos compreender – tal como exemplificado nas cenas apresentadas no início do texto – que a construção de uma anatomia acontece a partir dos tipos de vínculos e dos graus de azeitamento das relações que produzem os mais variados corpos através das experiências no mundo.

A construção desses corpos, ou melhor, os seus modos de funcionamento são efeitos de vários fatores: da cultura; da genética com seus aspectos ligados à hereditariedade; da vida do sujeito e dos acontecimentos vividos; dos tipos de vínculos estabelecidos ao longo de uma existência e da subjetividade que acompanha, molda e orienta certos modos de funcionamento dos corpos e da vida em determinado tempo/espaço, entre tantos outros aspectos.

Evidencia-se a singularidade do chamado pensamento formativo do autor: o que sustenta a produção dos mais variados corpos é a forma humana, herdeira da evolução, da embriogênsese e da experiência, "constituindo formas somáticas que são, em si, operadores de condições ambientais, físicas e afetivas" (Favre, 1987, p.13).

Como diria Keleman (1996, p.9): "de acordo com a minha perspectiva somática, as aflições humanas emocionais e psicológicas surgem de uma base somático emocional, que é evolutiva por princípio – e não estritamente social ou parental em sua origem".

Favre ressalta ainda a necessidade de apreender o mundo como uma ecologia relacional, pautada pelos vínculos e pela afetividade, inaugurada, segundo a autora, pelos animais de sangue quente.

É necessário lembrar que o vínculo está relacionado à capacidade conectiva do sujeito e seu entorno, capacidade que se estende em várias direções, caminhos e modos, produzindo corpos que são expressões vivas de um contínuo desses processos.

 

Acontecimentos nos Laboratórios do Processo Formativo

 

Assiste-se na tela da televisão uma participante do grupo realizando uma fala para uma plateia sobre algumas elaborações realizadas a partir de suas experiências nos Seminários. Após o término da projeção a participante diz que não se reconhece naquelas imagens: "É como se estivesse em um transe. Não consigo reconhecer uma dimensão mais próxima ao tamanho do meu corpo no espaço: às vezes sinto-me maior do que realmente sou, e às vezes sinto-me menor, muito menor em determinados ambientes e situações". Comenta-se no grupo como é difícil habitar um corpo, fazer-se presente nesse corpo, no aqui e agora. Fazer-se presente no corpo e na vida4.

 

Como não apequenar-se em um corpo contido no enfrentamento de algumas situações da vida? Como potencializar este corpo através dos encontros que possibilitem passo a passo uma maior apropriação de si, como alguém que vai em direção aos mundos na busca de construí-los e desmanchá-los permanentemente à procura de mais potência? Como não ser mais, mas também não ser "menos", tal como exemplificado nesse caso em particular?

A análise desse relato explicita a importante contribuição da perspectiva Kelemaniana para o acesso a formas solidamente construídas, na tentativa de, minimamente, desmanchá-las e, a partir daí, criar corpos que possam sustentar as intensidades vividas, que permitam, sobretudo, a aproximação com o outro.

Ou seja, é impossível conceber os corpos e os comportamentos dissociados dos ambientes que os produzem e que são produzidos pelos sujeitos e suas ações e presenças no mundo.

O corpo como bomba pulsátil

 

 

Para compreender a densidade das idéias de Keleman é necessária a vivência do método, ou minimamente exercitar o que ele denomina de ato de corpar, que significa presentificar-se em uma experiência. No entanto, não se trata de "ter consciência" de atos ou estados vividos no corpo como algo que acontece separado de mim - um objeto a ser assistido pelo sujeito/espectador - mas de viver e encarnar o aqui como forma intensa, fruto dos processos excitatórios que acontecem nesse corpo.

Para Keleman, o corpo funciona como uma bomba pulsátil, e o pulso é o princípio fundamental na organização do organismo e na manutenção da vida. Para ele existe, no vivo, e no corpo humano, um padrão pulsátil que organiza os tecidos como bombas: um tecido ligado a outro criando tubos, bolsas e espaços que se comunicam por meio de membranas e camadas, também abertos a conexões; o corpo é um processo construído em uma arquitetura rizomática.

Um dos elementos fundamentais, perceptível em matérias vivas, é a sua organização pulsátil, sua capacidade de se expandir e retrair, de se alongar e encurtar, de inchar e se recolher. Ora, ao observarmos um organismo unicelular, já podemos verificar um pulso. Um unicelular que deu origem ao multicelular e que irá manter o mesmo padrão derivando em um organismo mais complexo (o homem) que segue na sustentação de uma pulsação vital. "Esta é a nossa metamorfose: de células ritmicamente pulsantes para um organismo multimídia, ritmicamente pulsante" (Keleman, 1992, p.19).

Para que os seres se organizem nesse pulso, o corpo se faz ao redor de uma série de espaços que permitem a passagem de líquidos, onde acontece a circulação de nutrientes e substâncias que serão processadas, transformadas pelo metabolismo, retidas ou expelidas - se inúteis ou perigosas ao organismo.

Essas trocas, no corpo e na relação com o ambiente, referem-se a elementos químicos, mas também a afetos, a tudo aquilo que se forma, por meio das experiências, dos encontros - ideia esta fundamental na clínica.

Keleman (1992, p.16) diz:

nos banhamos em um oceano de líquidos para realizar a troca de elementos químicos nutricionais e devolver ao mundo o que foi transformado. Do mesmo modo, absorvemos nutrição emocional do mundo que nos rodeia para nos nutrir e trocar com o outro aquilo que formamos. Trocamos células germinais e experiências, assim como dióxido de carbono e oxigênio.

Para realizar essas trocas com o mundo, o corpo possui ainda passagens e túneis móveis que geram um interior e um exterior. Essas passagens comportam espaços para atividades específicas, como a boca para a mastigação ou decomposição. Há também espaços e bolsas que têm outras funções, com um tipo diverso de motilidade ou peristalse que transforma o que passa por eles, tal como o pulmão-respiração por onde circulam os gases; no estômago-digestão, por onde circulam os nutrientes, ou, ainda, o cérebro, por onde circulam as informações.

O corpo é constituído, de fato, por uma série de tubos e camadas: a vascular, a árvore neural, trato digestivo, entre outros. Para evitar o colapso e a ejeção de nossos conteúdos internos, a expansão e a contração precisam ainda de um apoio que é realizado através de câmaras e válvulas que mantêm os ritmos peristálticos contra a gravidade e, assim, permitem as trocas com o ambiente.

Somos excitação, tentativas de lidar com a força da gravidade (pressão atmosférica) e com todos os afetos de todos os corpos.

Segundo Keleman (1992), a partir da visão da embriogênese, o corpo é composto por três tipos de camadas: uma interna, uma externa e uma intermediária. À externa, de pele e nervos – o ectoderma –, cabe a comunicação. A camada intermediária, formada por músculos e vasos sanguíneos – o mesoderma –, fornece suporte, possibilita a locomoção e, sobretudo, molda as formas herdadas e vividas; a camada interna, de órgãos e vísceras - o endoderma –, é responsável pela nutrição e energia básica. Estas camadas estão em contato, permitindo uma ligação entre o interior e o exterior, revelando claramente a interligação dos tecidos.

Uma imagem desses processos de trocas está em um vídeo5 que tematiza a vida na Terra e os caminhos percorridos na evolução, desde o unicelular ao homem. Uma das cenas desse documentário mostra um sapo que, ao passar a pata em frente ao seu rosto/corpo, retira uma camada de pele/membrana, construindo para si outro corpo. Nosso corpo também vive permanentemente esse processo de trocas de pele, membranas, modos de existência.

Essa imagem reforça, ainda, que a perspectiva não aponta como questão (a perda da pele, por exemplo): o processo de vir a ser sempre, o movimento entendido como fluxo, o presentificar-se a cada novo encontro, o trocar de pele mesmo, ter sempre a possibilidade de encarnar novos modos.

Em relação aos processos de subjetivação, trata-se do encontro com o outro em sua alteridade e as perturbações provocadas por esse outro como presença viva em mim, a partir da permeabilidade, disponibilidade, das condições as mais variadas, e, especialmente, da possibilidade de suportar as turbulências produzidas nesses processos, de engendrar novos modos que pedem passagem, expressão e invenção.

Frente à complexidade desses processos, cabe ainda salientar que esses são, muitas vezes, bastante lentos em sua temporalidade, o que torna complexa a sua efetuação na subjetividade contemporânea, que exige do sujeito, cada vez mais, uma rapidez e a criação do novo a qualquer custo, provocando toda uma sintomatologia própria de nosso tempo.

Em resposta a todas estas demandas, o tempo instantâneo do mundo global nos oferece soluções fáceis denominadas fast forms, que são todo o tipo de objetos e serviços que estão à venda, bordas subjetivas – modos de morar, vestir, pensar, relacionar-se, imaginar, amar, funcionar e gerar histórias de vida. Estes modelos são facilmente assimiláveis como as fast food. Elas aparentemente poupam angústia, esforço e tempo exigido para se construírem os próprios repertórios (menus) de ser e viver no mundo a partir da digestão necessária dos acontecimentos (Favre, 2007).

Assim, a ideia de Anatomia Emocional de Stanley Keleman necessita ser compreendida simultaneamente como uma filosofia, uma biologia, uma pedagogia, uma ética, uma clínica, uma estética, um possível aliado nas micropolíticas de resistência contra a captura da indústria dos comportamentos (Favre, 2007).

O corpo: expansões e contrações, respiros do vivo

 

 

Para Keleman (1992), pode acontecer o que denomina de conflito nos processos de aproximação e distanciamento em relação ao mundo. Por exemplo: podemos nos superexpandir e perder a capacidade de recuar, ou nos encolher e perder a nossa capacidade de expandir. Nessas condições, a amplitude da pulsação celular começa a decair afetando o que ele chama de sentimentos, pensamentos e ações e, portanto, determinando nossos modos de funcionamento no mundo, na relação com as pessoas, na produção da subjetividade.

Segundo o autor: "Saímos em direção ao mundo e voltamos num ciclo interminável [...]. Nós nos movemos em direção a ele para projetar e nos recolhemos para introjetar" (Keleman, 1992, p.29).

De modo bastante poético, Safra (2004) reitera que é preciso encontrar o outro, mas é fundamental o retorno à solidão. É preciso alcançar e recolher, chegar e ir, viver para morrer.

Outra ideia inspirada pelos estudos a partir da reflexão sobre o pulso refere-se ao fato de que as tonalidades, e, portanto os graus de potência (Rolnik apud Liberman, 1995), de um corpo dependem dos sentimentos, dos estados, das ações que se efetuam nos encontros, da capacidade do corpo de realizar conexões, da capacidade de, a partir das experiências, criar corpos, sustentando as intensidades, se redesenhando e se roteirizando continuamente.

Mais do que percepção, estes processos estão vinculados a um estado de presença na produção de acontecimentos, onde produção de si e produção de corpo são processos indissociáveis.

Um corpo cristalizado numa determinada forma, por exemplo, enrijecido ou desmanchado demais, fixado em certo "lugar", impede que receba e se torne suficientemente poroso às afetações que podem instaurar formas mais ricas de responder e cocriar os acontecimentos vividos ao longo de uma existência. Inversamente, os corpos podem ser tão excessivos e continuamente porosos que são varridos pelos acontecimentos sem que tenham possibilidade de assimilar e sustentar a experiência. O efeito desses encontros, das trocas realizadas é que possibilita, aos corpos, se formatarem em consonância com os processos de singularização.

Uma clínica dos encontros entre corpos: articulações com a perspectiva de Keleman e Favre

 

 

Nas buscas que emergem em minha prática profissional como terapeuta ocupacional, encontro na perspectiva Kelemaniana - e, em particular, presentes no livro Anatomia Emocional (1992), obra norteadora dos Seminários coordenados por Regina Favre -, alguns instrumentos que trazem uma concepção de corpo abrangente e complexa, que contribui para o questionamento, a reflexão e a leitura dos corpos observados e acompanhados em minha clínica, que se concretiza por meio de laboratórios, cursos ou workshops que, independente de sua designação formal, são realizados em diferentes configurações, variáveis, quanto ao número e características dos participantes, duração e número de encontros, repertórios etc.

Entre as várias problematizações, podemos destacar: como a clínica pode proporcionar às pessoas que acompanhamos experiências que possibilitem ampliar os encontros, expandir conectividades com o mundo e a vivência de outros modos de funcionamento nos ambientes?

Nesses grupos são realizadas diferentes experimentações, ora individuais, ora em grupo, utilizando dinâmicas que envolvem música, fotografia, literatura, movimentos de dança e jogos teatrais, entre outros recursos, visando à produção de uma mudança de sensibilidade: uma maior atenção ao pulso vital, aos contatos consigo e com os outros, à construção permanente de modos de existir mais singulares, resistentes aos ataques e modelos sociais que restringem e/ou empobrecem aquilo que o corpo pode, suas potências.

Influenciada pela concepção de Keleman e Favre - além de todo um repertório ligado à dança e estudos do corpo, terapia ocupacional, filosofia, psicologia e artes, entre outros -, procuro, em minha clínica, possibilitar diferentes estados, posturas corporais, propostas, posicionamentos nos espaços e nas relações entre os participantes. Produz-se um campo fértil para se vivenciarem situações as mais variadas.

Numa oficina, os participantes caminham pela sala em diferentes direções. A cada vez que a música silencia, é proposto um modo de os corpos se tocarem: mão com mão, pé com cabeça, cabeça com joelho, costas com costas, bumbum com bumbum e assim por diante. Animados pelos encontros, alguns começam a sugerir outras possibilidades – improváveis – de aproximações, provocando risos, estranhamentos, desconcertos. Formam-se, a cada vez, novas composições de corpos, em duplas, trios, quartetos ou grupos ainda maiores. Esta dinâmica, como em outros momentos, remete a um caleidoscópio, que pode nos surpreender a cada nova combinação6.

Em outro contexto, os participantes, enquanto caminham pela sala, experimentam diferentes formas e ritmos, mudam os olhos de posição, voltando-os para o chão, para frente ou para o teto, fechando-os e abrindo-os, a cada situação. Fica claro como cada mudança da forma muda a experiência.

Solicito ainda que troquem impressões, que falem de suas sensações, neste e em outros exercícios, mostrando, a todo momento, quão singular são as respostas que os corpos delineiam a cada afetação, a cada experimentação de si com/ e no ambiente. Para Favre, o corpo é um processador de ambientes, ou seja, incidir sobre sua forma sempre produz algum tipo de mobilização, altera o jogo de forças que atravessam aquele acontecimento, criando outros desdobramentos.

Sarah fala, como em outros encontros, que está cansada de ser tratada como louca, como doente. Diz que sente vontade de mudar. Seu corpo, há muito encurvado pela vida, mostra como os acontecimentos o foram moldando pouco a pouco. Ao falar de suas angústias e medos, Sarah abaixa o olhar para o chão. Tem dificuldade de fitar-me nos olhos. Conforme vai narrando fatos de sua relação com a irmã, que lhe diz a todo o momento que ela não faz nada, que não sai da cama, que fica fumando etc, Sarah curva mais e mais o corpo sobre si.

Peço, aos poucos, em meio a tantos outros procedimentos e sugestões, que Sarah experimente levantar um pouco o seu queixo. Um pequeno gesto de deslocamento, uma mudança de posição. Sarah consegue me olhar. Fixa seus pés no chão e os percute numa espécie de sapateado. "Preciso fortalecer as minhas pernas". Ajeita seus ombros, pousando-os sobre seu corpo, e eleva delicadamente o peito. Nesta posição consegue me olhar e olhar o seu entorno.

Experimentamos várias vezes levantar e abaixar o queixo. Olhar para o chão, para frente, para o chão, para frente, andar pela sala de braços dados como "duas comadres", observando os objetos, sentindo os pés no chão, experimentando outros modos de funcionar o corpo e, talvez, de manejar a vida. A certa altura, Sarah diz: "tenho medo" de mudar de lugar. Pausamos.

Penso que é nos encontros que se expressam e se produzem diferentes graus de abertura, diferentes graus de intensidade; turbulências acontecem, geram-se outros repertórios existenciais que se solidificam. Pequenos eventos podem reverberar em outros jeitos de funcionar, viver e apresentar-se frente ao outro, criando realidades.

Como podemos observar por meio da apresentação das cenas, as experimentações que venho realizando, em laboratórios, cursos e oficinas, não me satisfaz uma leitura dos acontecimentos que atravessam os corpos a partir de um paradigma que concebe o corpo apenas em seus aspectos sensório-motores, nem as leituras que concebem o corpo prioritariamente apenas em sua dimensão psicológica.

As histórias que emergem a partir de determinados exercícios, e que permitem maior aproximação do sujeito consigo mesmo - por exemplo, o tocar-se ou lentificar o próprio gesto para poder encarná-lo como ato que expressa um corpo - mostram como, em algumas situações de certa abertura, é possível acessar camadas muito profundas do sujeito.

Em muitos momentos do trabalho de formação dos alunos e, mesmo, em momentos da clínica com diferentes populações, os participantes reanimam, muitas vezes, sensações intensas que fazem "lembrar no corpo" acontecimentos muito fortes de outros momentos da vida. Ou ainda, retomam experiências em que se sentiam afetados e envolvidos pelo clima grupal, pela proposta e pela possibilidade de aproximar-se de terrenos menos racionais. O corpo se revela surpreendente, produzindo respostas inéditas evidenciadas por falas, assombros e contatos com um emaranhado de emoções, que permitem ao sujeito reconhecer-se como vivo e em permanente transformação.

Para analisar uma série de acontecimentos clínicos, aproximo-me novamente de Keleman que, em sua prática clínica, observa a relação entre conflito emocional e distorção de postura corporal, posturas estas que são construídas a partir das experiências e contatos que se estabelecem ao longo de uma vida.

Em Anatomia emocional, Keleman oferece outro paradigma: "o corpo sede de toda a experiência e a (trans) formação do organismo como uma estratégia da pulsação vital em face à existência" (Favre, 1992, p.10).

Para Favre, o autor compreende o organismo não com base nos órgãos - o que seria restringir a compreensão sobre os processos por meio dos quais acontece uma existência em particular –, mas como um meio que constrói forma permanentemente na manutenção de um pulso vital. O que significa também que construímos e perdemos corpo ao longo de toda a vida.

Segundo a autora,

Keleman pensa o corpo como uma arquitetura tissular, geneticamente programada, finita, em permanente construção e desconstrução, pulsando segundo afetos, com suas câmaras e válvulas, sempre em busca de mais vida, inflando, adensando ou enrijecendo de acordo com o grau de tolerância aos ritmos da excitação gerada pelas experiências de amor e decepção, medo ou agressão, agonia ou prazer. (Favre, 1992, p.10)

Por tudo isso, estou convencida de que se faz necessário um olhar que investigue os encontros entre corpos, através do visível e do invisível, do perceptível e daquilo que ainda não despontou como expressão, ou seja, considerando o corpo um atravessamento de histórias, intensidades, afetos, formas que se desmancham e se configuram permanentemente, sempre no devir, sempre em peregrinação.

Com base nessas considerações podemos compreender o mundo como um lugar plural, palco de acontecimentos no próprio corpo, a partir das relações que se engendram no contexto espaço/ tempo, permeado pelas afetações e modos de relação produzidos nos encontros. Vislumbra-se ainda o corpo como um ambiente dentro de um ambiente, que, por sua vez, encontra-se dentro de outro ambiente; camadas infinitamente entrelaçadas em redes de comunicação.

Nesse contexto é necessário concordar com Keleman, quando ele afirma que os estudos anatômicos tendem a utilizar imagens bidimensionais, perdendo o vivido. Em contrapartida, é comum faltar à psicologia, comprometida com os estudos das emoções, a compreensão anatômica. Sem anatomia, não há afetos. Os acontecimentos em nós têm uma arquitetura somática. Portanto, pensar o corpo significa tentar tocá-lo em suas mais diferentes dimensões, entendê-lo como processos que procuram dar forma (sempre transitória) às intensidades, corporificando as experiências.

Podemos dizer ainda que Keleman alie o estudo da biologia, do corpo-matéria às questões da vida - do unicelular ao multicelular, um organismo é compreendido como vivo e afetado continuamente pelo outro (humano ou não), que o obriga continuamente a alterar os mapas que orientam as formas do viver, fazer coisas, relacionar-se, criando outros modos e repertórios que, por sua vez, constituem outros mapas novamente afetados, desmanchados, re-configurados.

Considerando a força com que a subjetividade impõe certos modos de funcionamento que envolvem, entre vários aspectos, as relações do sujeito consigo, com seu corpo, frente ao outro, no âmbito individual e coletivo, o sujeito se vê muitas vezes a responder certas demandas em relação à sua imagem no mundo. No entanto, diz Keleman, não há sujeito "normal" ou ideal, mas experiências singulares; e cada sujeito, entremeado por todas as dimensões acima mencionadas e com a tendência genética de autoformatar-se e criar corpo, realiza a sua própria existência.

Essa proposição parece teoricamente muito evidente, mas na clínica, nos grupos que acompanho, no contato com os alunos de graduação, observo como é importante inaugurar, nas intervenções, a necessidade de perceber o outro, de reconhecer a multiplicidade e a singularidade de corpos/vidas e de modos de existência que se contrapõem às noções homogeneizantes de normatização - as quais produzem idealizações a respeito dos modos de ser, pensar e agir no mundo, produzindo às vezes um mal-estar ou sintomas diversos, quando se vive na diferença, na turbulência e, particularmente, quando nos deixamos afetar por tudo aquilo que nos toca na produção de vidas mais interessantes, mais potentes, mais próximas aos nossos desejos.

Segundo Favre (2004, p.76),

Começamos a perceber que o outro não é só alguém ou algo que você respeita ou não, numa atitude democrática ou não, do mesmo modo que a realidade não é um pano de fundo nem um mobiliário dentro do qual você se move e se posta. Mas o outro são acontecimentos de toda espécie, movimentos econômicos, políticos, sociais, culturais, inovações tecnológicas, modos, modas, comportamentos, valores, guerra - tudo se fazendo e se desfazendo, se misturando.

Ainda para a autora, esse outro, o diferente, tem a característica de se apresentar como um estranho, um problema, às vezes um desafio excessivo, que te faz viver algo que não se encaixa naquilo que se dispõe como repertório de formas existenciais com as quais responder, e que obriga a criar um si mesmo que não existia antes para que se possa relacionar-se, fazer as coisas, sobreviver (Favre, 2004).

Nesta direção e em consonância com as vivências realizadas nos Seminários Vivenciados, posso dizer que os laboratórios que realizo enquanto terapeuta ocupacional funcionam como um lugar para proporcionar a experiência do encontro com o outro, e simultaneamente a experiência de si como um corpo vivo e presente, pois tantas vezes é o corpo, antes de tudo, que se revela como o outro, como o estranho em nós.

Assim, a diversidade e a produção da diferença, através dos recursos dos quais dispomos, servem como oportunidade para criar uma resistência à serialização. O corpo também, por sua "concretude" e por sua capacidade criativa e de se autoconstruir, continuamente nos permite vivenciar muito claramente essas problemáticas.

As formas que os corpos assumem a cada momento e em cada situação, as diferentes maneiras de participação do sujeito em uma ou outra proposta, as palavras que acompanham suas experiências no mundo constituem elementos reveladores e, ao mesmo tempo, produtores de diversidade e de realidades.

Quando conseguimos experimentar, no corpo, o COMO fazemos, sentimos, moldamos em nossa forma os acontecimentos que nos afetam, e quando sustentados pelo sujeito, pelo grupo e pelo trabalho que ali se constrói, podem-se produzir mudanças significativas nos modos de funcionamento.

É necessário pontuar que esse trabalho grupal representa caminhos efetivos de intervenção bastante potentes. Afinal, pequenas ações, gestos, aproximações, palavras, e sobretudo o compartilhar com um grupo, podem reverberar, às vezes com grande intensidade, numa espécie de contágio, transformando todo o grupo em uma "caixa de ressonância", conforme nos diz a terapeuta ocupacional Maximino (2001), podendo funcionar como um dispositivo, tal como analisam Barros e Benevides (1996) - quando produzem um efeito de caráter ativo, disparando algo em cada participante, nas relações entre uns e outros e no grupo, dão ensejo a produções individuais e coletivas, expressas em elaborações diversas: produções de textos, questionamentos, produções de imagens, sonhos, vontade de se engajar em algum projeto, mudanças em relação à leitura das pessoas e do mundo, experimentações em relação aos modos de relacionamento nas mais diferentes esferas da existência, entre outros.

Considerações finais: viver é sempre um ato corporal

 

 

Podemos dizer que tudo que vivemos é atividade somática, ampliando a visão restrita e cindida de que trabalhar o corpo é somente realizar uma atividade física, como ginástica ou algum esporte, para uma compreensão de que estamos o tempo todo tratando de corpos em formação, construídos e reconstruídos detalhadamente, sutilmente e de modo bastante refinado em cada vivência, em cada experiência, em cada encontro.

As ideias aqui apresentadas e fortemente sustentadas pelo pensamento de Keleman sobre anatomia emocional exigem que façamos uma leitura do corpo como multimídia, multifacetado, implicado fortemente dentro de uma concepção contemporânea da vida; mas o mais importante dessa perspectiva é o rompimento de qualquer dualismo que já tenhamos herdado: mente/corpo, corpo/palavras, empírico/intensivo, orgânico/campo de forças, entre outros. Talvez seja justamente por estas provocações que tantas vezes sentimos estranhamento, inquietação e certo desassossego frente a alguma de suas concepções.

Essa é uma prática existencial, caso contrário não teria sentido adotá-la como referência para a reflexão da prática que realizo, e que tem, em seu cerne, a importância do grupo, do outro, dos encontros se constituindo em uma prática prioritariamente relacional. Seria como teorizar sobre a vida, sem de fato vivê-la. Portanto, a potência de uma clínica pautada nos encontros entre corpos ancorada na ideia de processos vivos, dinâmicos e mutáveis está justamente nessa condição de pensar, criar, dar possibilidades ao sujeito de formar outras realidades nesse mundo a partir de suas relações, de sua capacidade de estabelecer conexões e produzir realidades mais próximas ao desejo e afirmação da vida.

 

Referências

BARROS, R.D.B.; BENEVIDES, R. Dispositivos em ação: o grupo. Cad. Subjet., n.esp., p.97-106, 1996.         [ Links ]

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Recebido em 10/07/08.
Aprovado em 03/05/09.

 

 

1 Filósofa, terapeuta, educadora, criadora do Laboratório do Processo Formativo, pesquisadora autossustentada. Coordenadora dos Seminários Vivenciados em Anatomia Emocional. Formada em Filosofia pela PUC-SP. Primeira geração no campo das terapias corporais no Brasil, desde 1975. Ensina pesquisa e produz no Laboratório do Processo Formativo (SP). As narrativas aqui apresentadas foram elaboradas com base em anotações feitas durante os Seminários coordenados por Regina Favre, no período de 2005 a 2007.
2 Todos os nomes são fictícios.
3 Os Seminários Vivenciados são realizados no Laboratório do Processo Formativo. Disponível em: <http://laboratorio doprocessoformativo. conectiva.inf.br/blog/reginafavre/.> Acesso em: 31 mar. 2009.
4 A narrativa aqui apresentada foi elaborada com base em anotações feitas durante os Seminários coordenados por Regina Favre, no período de 2005 a 2007.
5 DVD apresentado nos Seminários Vivenciados: "Life and Hosted", by David Attenborough. The New York Times, Based Winning Television Series, Warner Home Vídeo, 1986.
6 As narrativas que se seguem foram elaboradas com base em diários de bordo que registram acontecimentos vivenciados em diferentes grupos, como terapeuta ocupacional, na clínica e na formação de alunos de graduação e grupos de estudos.