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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

Print version ISSN 1414-3283

Interface (Botucatu) vol.14 no.33 Botucatu Apr./June 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-32832010000200018 

LIVROS

 

 

Ana Maria Canesqui

Departamento de Medicina Preventiva e Social, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas. Rua Tessália Vieira de Camargo, 126. Barão Geraldo, Campinas, SP, Brasil. 13.083-887. anacanesqui@uol.com.br

 

 

 

NETTLETON, S. The Sociology of health and illness. Cambridge: Polity, 2003.

Sarah Nettleton, socióloga, experiente no ensino e pesquisa de Sociologia da Saúde e Doença, ministrou sociologia para a medicina e odontologia no Bedford College da University of London; passou pelo Department of Social Policy and Social Service da University of York; hospitais e serviços sociais. Atualmente, é professora do Department of Sociology da University of York, onde ensina política social. É editora sênior de Sociologia da Saúde da importante revista Social Science and Medicine.

A autora publicou livros e artigos sobre: Sociologia da Saúde e Doença, profissão médica, experiência da enfermidade, sociologia do corpo, enfermidades crônicas e as não diagnosticadas pela medicina; comunicação e informação em saúde, as práticas farmacêuticas, preocupando-se, ainda, com o universo virtual e comunicação em saúde.

A primeira edição do livro resenhado é de 1995. Ele conta com seis edições sucessivas, e a última é de 2006, segundo informações da editora, que acrescentou os temas: alimentação e comida; informação em saúde, a nova genética e os embriões, atualizando as edições anteriores. Tivemos acesso somente à edição de 2003, comentada neste texto. O livro dirige-se a alunos de graduação e pós-graduação, interessados na Sociologia da Saúde e Doença.

Ele traz uma densa e atualizada bibliografia da significativa presença das ciências sociais no campo da saúde, de autores norte-americanos, ingleses e franceses, que ancoram as análises dos diferentes capítulos. Exemplificando, há referências aos clássicos fundadores da Sociologia da Medicina - como Talcott Parsons; Anselm Strauss e Elliot Friedson -, ao lado de Irwin Goffman e Margot Jefferys e da antropóloga Mary Douglas - pelas feministas, incluindo, ainda, Michael Foucault e Thomas Szasz; os críticos da medicina, como Ivan Illich e Vicente Navarro, e vários analistas do sistema de saúde inglês. Há muitas referências à literatura produzida nas décadas de 1980 e 1990 no mundo anglo-saxão, ao lado de contribuições antropológicas clássicas e contemporâneas.

A autora endossa a perspectiva do construtivismo social, voltado para o conhecimento e a realidade cotidiana, sob o enfoque fenomenológico, interessado nas produções criativas dos indivíduos, no conhecimento do senso comum, nas crenças, nos problemas práticos e nas interações sociais. Na introdução estão considerações não exaustivas sobre a Sociologia da Saúde e Doença e as diferentes concepções de sua natureza e desenvolvimento. Na ordenação do campo está Turner (1987) com os seguintes níveis de análise: o individual, envolvendo as concepções de saúde e doença; o social, que examina a criação das categorias de saúde e doença e da organização do cuidado médico, e o societário, que enfoca o sistema de saúde no contexto político.

Gerhardt (1989) e White (1991) privilegiam os paradigmas, divergindo nas suas classificações, enquanto Nettleton reconhece a natureza empírica da disciplina em torno do corpo humano, objeto simultâneo da medicina e da sociologia, não se tratando do corpo passivo e anatômico, mas do corpo capaz de ação social e interpretação. Ela traz uma visão temática e empírica da Sociologia da Saúde e Doença, interessada nas interpretações alternativas da medicina, saúde, doença e cuidado.

Após esta discussão introdutória, o segundo capítulo aborda o conhecimento médico como socialmente construído, contingente e relativo. O interesse construtivista problematiza a realidade; mostra a criação social dos fatos médicos e sua aplicação na tecnologia e medicalização, vista como controle social pela medicina. Este conhecimento medeia-se pelas relações sociais, e não é produto exclusivo da comunidade científica. A autora também argumenta o interesse do construtivismo pelo conhecimento leigo sobre a saúde e doença, sendo a primeira forte preocupação na sociedade contemporânea.

O terceiro capítulo enfoca as crenças e o conhecimento leigo sobre saúde e doença, juntamente com o conceito de estilo de vida, relacionado aos: padrões de consumo, lazer, esporte, atividade sexual, manutenção do corpo, alimentação e drogadição, associados à potencialidade dos riscos e ao status de saúde, na sociedade contemporânea. O estilo de vida é inseparável da estrutura social, enquanto as crenças relacionam-se com o contexto sociocultural, variando segundo as classes sociais, regiões, grupos étnicos e gênero, sendo simultaneamente individuais e sociais.

A autora reconhece o peso da biomedicina nas crenças sobre saúde e doença, sem que os indivíduos a aceitem passivamente. Com relação à Aids, discute o estilo de vida e corpo; sua relação com a sociedade, grupos, comportamentos e percepções dos riscos, mostrando as dificuldades no uso de medidas preventivas, à luz dos resultados de vários estudos.

O quarto capítulo oferece uma ampla e extensiva literatura sobre a experiência dos enfermos com a condição crônica e seus efeitos sobre eles, os familiares e outros com quem convivem. A importância deste assunto cresce com o envelhecimento da população. Os enfoques sociológicos a respeito são analisados, tais como: o centrado no papel do paciente e nas expectativas em torno das respostas adequadas, derivadas de Talcott Parsons; o interesse no significado e no enfoque interpretativo, postos pela crítica ao funcionalismo, que são bastante aplicados na análise da experiência com a enfermidade.

O interpretativismo é elucidado nas análises do antropólogo norte-americano Arthur Kleinman, acrescentando as feitas pelo sociólogo inglês Michael Bury sobre as rupturas dadas pelas enfermidades crônicas nas vidas dos sujeitos, além de outras que discutem: o significado da experiência com a enfermidade, as mudanças de identidade, o estigma; as formas adaptativas usadas pelos sujeitos; os tipos de trabalho impostos pelas consequências daquelas doenças sobre o corpo e a vida dos sujeitos, assim como a busca dos grupos de autoajuda, como recursos de apoio social.

A sociologia do corpo é abordada no quinto capítulo como assunto emergente na Sociologia da Saúde e Doença, desde a metade da década de 1980, embora a antropologia tenha acúmulos importantes nesta discussão, advindos da antropóloga inglesa Mary Douglas (1970, 1966) e dos estudos das configurações sociais do corpo, do sociólogo Norbert Elias (1978), em seu clássico livro O Processo Civilizatório, publicado pela primeira vez na Alemanha, em 1936. O texto revê outras abordagens do estudo do corpo, como: a naturalista, fenomenológica, construtivista, as relações políticas e de poder; os cuidados corporais pela enfermagem; as posturas feministas e as regulações do corpo pelas tecnologias, em especial da reprodução humana.

A natureza das relações entre profissionais de saúde e leigos passa pela teoria do consenso, do conflito e das relações de poder que impregnam a prática e o cuidado médico, fortemente contestado pelo feminismo, que contribuiu com a institucionalização de novas práticas de cuidado alternativo, ao ofertado pelas instituições médicas. A autora frisa a importância da participação dos pacientes no cuidado, como um aspecto das mudanças sociais atuais e do declínio da cega fé na medicina e nos médicos.

O sétimo capítulo aborda: as desigualdades em saúde, sua mensuração e relações com as classes sociais, diferenças de gênero; raça; localização geográfica; desemprego, e as limitações dos serviços de saúde para debelá-las. Reconstrói as diferentes perspectivas do diálogo da Epidemiologia com a Sociologia.

O capítulo oito refere-se às mudanças da profissão e da prática médica, apontando, em relação à primeira, o declínio do domínio dos profissionais, em especial quando se trata da ascensão das medicinas alternativas e das alterações no trabalho médico. A autora analisa: as mudanças e reestruturação do Serviço Nacional de Saúde inglês; a implementação das estratégias de mercado; a flexibilização da força de trabalho e na sua jornada de trabalho, e as formas gerenciais - alterações estas que não chegaram a abalar integralmente as bases daquele serviço devido às resistências da sociedade, ainda que afetassem a relação dos profissionais com os pacientes.

No nono e último capítulo, são discutidos os três pilares da política contemporânea de saúde: a promoção da saúde e a nova Saúde Pública; o cuidado comunitário; o crescente consumismo e os novos paradigmas da saúde e do cuidado, que estimulam os indivíduos a monitorarem e manterem sua saúde. Toma-se a política de saúde como assunto da Sociologia da Saúde e da Doença e sua contribuição à análise de seu desenvolvimento, além da reflexão crítica sobre sua intervenção e a avaliação dos programas de saúde.

A obra resenhada é de grande relevância para o campo das ciências sociais e humanas em saúde, tendo preenchido o seu propósito didático, capaz de oferecer iniciação aos interessados na Sociologia da Saúde e Doença, delineando, em cada capítulo, as diferentes correntes de pensamento na análise dos assuntos eleitos. Inexiste preocupação de oferecer uma única corrente de pensamento ou a síntese das existentes.

Como vimos, cada capítulo percorre a literatura disponível e as tendências analíticas predominantes, como, por exemplo, a perspectiva interpretativa da experiência da enfermidade, desvendando os significados para os sujeitos enfermos e para os que o rodeiam, e sua dependência dos contextos sociopolítico e culturais mais amplos, envolvendo simultaneamente o indivíduo e a sociedade. O enfoque estrutural está presente na análise das desigualdades em saúde, cujos determinantes ultrapassam o domínio do cuidado médico, radicando-se nas circunstâncias sociais, manifestadas nas diferenças de classe, gênero, raça, inserção no mercado de trabalho e nos mecanismos de dominação, exploração e poder, postos pela autora nas relações entre países desenvolvidos e do Terceiro Mundo.

Pode-se afirmar que prevalecem, nas análises recentes, as correntes compreensivas que enfocam a ação social e o papel dos sujeitos, sem que estes sejam autônomos em relação aos contextos culturais, aos valores, às formas de inserção na estrutura e nas relações sociais sob o capitalismo. A autora admite, na edição resenhada, algumas omissões importantes, como: a sociologia da saúde mental, os cuidados informais e da morte. O livro mostra os esforços de renovação do campo, ultrapassando a tradicional Sociologia da Medicina, como indica o seu título. Recomenda-se fortemente sua leitura.

 

Referências

DOUGLAS, M. Natural symbols: explorations in cosmology. London: Barrie and Rockliff, The Cresset Press, 1970.         [ Links ]

______. Purity and danger: an analysis of concepts of pollution and taboo. London: Routledge and Kegan Paul, 1966.         [ Links ]

ELIAS, N. The civilizing process: the history of manners. Oxford: Basil Blackwell, 1982.         [ Links ]

GERHARDT, U. Ideas about illness: an intellectual and political history of Medical Sociology. Basingstoke: Macmillan, 1989.         [ Links ]

TURNER, B.S. Medical power and social knowledge. London: Sage, 1987.         [ Links ]

WHITTE, K.The Sociology of health and illness. Curr. Sociol., v.39, n.2, p.2-14, 1991.         [ Links ]

 

 

Recebido em 18/01/2010.
Aprovado em 01/03/2010.