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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

Print version ISSN 1414-3283

Interface (Botucatu) vol.15 no.38 Botucatu July/Sept. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-32832011000300028 

ESPAÇO ABERTO

 

Adaptação e simpatia: trajetórias críticas na clínica*

 

Adaptation and sympathy: critical trajectories in the clinic

 

Adaptación y simpatía: trayectorias críticas en la clínica

 

 

Erika Alvarez Inforsato

Laboratório de Estudos e Pesquisa Arte e Corpo em Terapia Ocupacional, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo. Rua Cipotânea, 51. Cidade Universitária, São Paulo, SP, Brasil. 05.360-160. erikainforsato@usp.br

 

 


RESUMO

A partir de elementos conceituais relacionados à adaptação e à simpatia, tomados das proposições da filosofia e da literatura de Nietzsche, Deleuze e D.H. Lawrence, este escrito é um exercício crítico no campo problemático da clínica em interface com as artes. A narrativa de uma situação grupal coordenada em parceria com artistas e terapeutas ocupacionais é a imagem-motor que permite entrelaçar estas perspectivas e pensar os desafios lançados no cotidiano com populações sob condições de grave fragilidade e restrição de suas vidas - em função de questões decorrentes de deficiências física e/ou intelectual. Na relação com o sofrimento, a exclusão e a criação, a proposição deste escrito é a de pensar a clínica em trajetórias críticas, ao considerar a complexidade desses processos enquanto convocações: ações e reações que transitam entre enrijecimentos e porosidades, proximidades e distâncias, reiteração identitária e disponibilidade aos desvios.

Palavras-chave: Clínica. Arte. Terapia Ocupacional. Adaptação. Simpatia.


ABSTRACT

Based on conceptual elements related to adaptation and sympathy, taken from the proposals of Nietzsche's, Deleuze's and D.H. Lawrence's philosophy and literature, this paper is a critical exercise in the problematic field of the clinic in its interface with the arts. The narrative of a group situation coordinated in partnership with plastic artists and occupational therapists is the engine-image that allows interweaving those perspectives and thinking about the challenges in the daily routine of populations under conditions of severe fragility and limitations in their lives - as a result of problems caused by physical and/or intellectual disabilities (impairments). In the relation with suffering, exclusion and creation, the proposal of this paper is to reflect on the clinic in critical trajectories by considering the complexity of those processes as summons: actions and reactions transiting between hardenings and porosities, proximities and distances, identity reiteration and availability for deviations.

Keywords: Clinic. Art. Occupational Therapy. Adaptation. Sympathy.


RESUMEN

A partir de elementos conceptuales relacionados a adaptación y simpatía, tomados de proposiciones de la filosofía y de la literatura de Nietzsche, Deleuze y D.H. Lawrence, este trabajo es un ejercicio crítico en el campo problemático de la clínica en su interfaz con las artes. La narrativa de una situación grupal coordinada por una asociación de artistas y terapeutas ocupacionales es la imagen-motor que permite entrelazar estas perspectivas y pensar desafíos colocados en el cotidiano de poblaciones bajo condiciones de grave fragilidad y restricción de sus vidas - resultantes de cuestiones relacionadas a deficiencias físicas y/o intelectuales. En la relación con el sufrimiento, exclusión y creación, la proposición de este articulo es la de pensar la clínica en trayectorias críticas al considerar la complejidad de estos procesos como convocatorias: acciones y reacciones que transitan entre endurecimientos y porosidades, proximidades y distancias, reiteración de la identidad y disponibilidad a los desvíos.

Palabras clave: Clínica. Arte. Terapia Ocupacional. Adaptación. Simpatía.


 

 

Exposta a todos os contatos. Em dois lentos pés.
Cruzando-se com tudo o que venha pela estrada larga.
Na companhia dos que vogam ao mesmo
compasso pelo mesmo caminho.
Para nenhum destino. Sempre a estrada larga.
Lawrence (1994, p.25-6)

No exercício da clínica, considerado enquanto exercício da própria vida, deparamo-nos com intervenções pautadas em funcionamentos já estabelecidos que, por mais que pareçam solidamente edificados, em determinadas situações, nos trazem à visibilidade sua fraqueza e inconsistência.

É por esse viés que este escrito pretende seguir, ele é um extrato retrabalhado da dissertação "Clínica barroca - exercícios de simpatia e feitiçaria", realizada junto ao núcleo de estudos da Subjetividade do Programa de pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC-SP. A pesquisa propôs uma abordagem do encontro da clínica com a noção de barroco, a partir da leitura da obra de Leibniz feita por Gilles Deleuze e do conceito de "dobra que vai ao infinito" (Deleuze, 1991, p.13), intensificado nessa leitura, e que contribui como um dispositivo no exercício crítico da clínica. O procedimento escolhido na pesquisa foi o de atravessar com esse dispositivo algumas situações clínicas, relatadas a partir de experiências com pessoas em situação de grave sofrimento. Por meio da apresentação dos casos, foram problematizadas algumas relações da clínica com temas tais como: inclusão, adaptação, caridade, crueldade. Alguns estudos do barroco no campo das artes foram tomados naquilo que ressalta sua potência enquanto um operador conceitual, diferindo de outros usos que tomam o barroco por um estilo ou escola artística, anacronicamente (Hansen, 2006). Portanto, o percurso com esse termo ocorreu, sobretudo, em consonância com outros conceitos da obra de Deleuze e Guattari, para operar uma crítica e compor um território que se denominou clínica barroca, com algumas das condições necessárias para reativar, na clínica, o compromisso com a criação. A proliferação de princípios do barroco foi desertada, em favor de uma multiplicidade de agenciamentos, a partir da afirmação diferencial da vida (Deleuze, 2001).

Nessa perspectiva, a noção de simpatia aparece como um intercessor que aponta saídas para uma experimentação da clínica, desinvestida das suas configurações convencionadas.

Os motores de construção do escrito aqui apresentado ressaltam o viés experimental da pesquisa, enfocado através da apresentação de casos. Neste extrato, a noção de barroco não será diretamente abordada, ela opera em ressonância com um outro conceito - o de simpatia -, tensionando as incidências da moral na clínica. Este caso, em particular, advém de uma situação grupal do cotidiano de atendimentos do Programa Composições Artísticas e Terapia Ocupacional - PACTO, projeto didático-assistencial do Laboratório de Estudos e Pesquisa Arte, Corpo e Terapia Ocupacional da FMUSP que, desde 1998, desenvolve estudos e pesquisas na interface entre as artes e a produção de saúde, por meio da criação de novas propostas e da parceria com propostas já em andamento, ligadas a equipamentos de saúde e cultura. São iniciativas que apresentam, em comum, alguns elementos: composição grupal heterogênea - grupos constituídos a partir de encaminhamentos e busca espontânea, com pessoas da comunidade em geral e/ou em situação de vulnerabilidade (com percursos por serviços de saúde mental, de atendimento à pessoa com deficiência ou de assistência social); experimentação com atividades artísticas e/ou corporais; e preocupação com aspectos da convivência e da inscrição sociocultural dos participantes e de suas produções (Lima et al., 2009). No relato que se segue, uma situação é desdobrada de um desses projetos: o PACTO Adolescentes - com participantes diagnosticados sob múltiplas rubricas médicas, em que preponderam questões relacionadas à deficiência intelectual e outras que podem ser associadas ao que se denomina, contemporaneamente, adolescência.

Sob a necessidade de provocar aberturas e acolhimento aos que cuidam e aos que são cuidados, busca-se, com este exercício textual, intensificar a existência de experimentações que ultrapassem e se desviem dos automatismos, aos quais somos insistentemente lançados, através do exercício de fórmulas que identificam e preestabelecem funcionamentos. Aberturas que atuem com as atividades da clínica, que potencializem a efetuação da vida em sua fragilidade, e que escapem aos métodos de uma adaptação imobilizante, reiteradora de alguns lugares identitários como únicos e absolutos.

Terapeutas no exercício da função de "melhoradores da humanidade" - segundo a expressão de Nietzsche sobre aqueles que se colocam a serviço de um "aprimoramento de um determinado gênero de homens" (Nietzsche, 1999, p.380) - numa espécie de sacerdotismo, devoção e caridade, acabamos por adoecer a dimensão "humana", em nome da responsabilidade pelo cuidado. Bem-intencionados, oferecemos à humanidade critérios para um adaptação inclusiva e, com isto, retiramos dela a força, a debilitamos e, nela, instituímos o sentimento de horror e de apiedamento diante da inadequação - corroborando para uma cultura de intolerância, apaziguamento e exclusão.

A escrita por aforismos, no caso de Nietzsche, lhe permitiu formulações intensivas na linguagem que nos convidam a deslocamentos importantes, tais como na proposição radical referente às circunstâncias políticas e sociais vigentes e hegemônicas: "No combate com a besta o tornar-se doente pode ser o único remédio para enfraquecê-la" (Nietzsche, 1999, p.380). Hiperbólica à primeira vista, essa proposição é, sobretudo, uma paradoxal oportunidade, ou melhor, a evidência de uma saída inevitável: a do adoecimento e/ou do disfuncionamento eficiente, com o quê se podem repensar os lugares de sofrimento e fragilidade, compreendendo, em outras chaves, o próprio terapeuta e aqueles por ele cuidados. Esses fios de tensionamento são visualizáveis em situações ordinárias dos encontros, sobretudo os da clínica, em que se entreveem tanto as situações de rendição absoluta quanto as de embate persistente, para se poder efetuar um cuidado de outra ordem, que consiga escapar do protocolo social estabelecido cientificamente, qual seja o de "melhorar" quem quer que seja.

Nesta estratégia melhoradora, que pode ser denominada moral - na perspectiva do conceito de transvaloração de todos os valores de Nietzsche -, encontram-se, em latência, tendências de amansamento e cultivo de uma determinada espécie de homem; ela se dá numa aposta intersubjetiva de que o homem melhora o homem - conveniente para o que predomina na clínica. Num dos polos desse conceito, Nietzsche preconiza que "todos os valores vigentes até agora (isto é, aqueles que se implantaram a partir da ascensão judaico-cristã) devem ser extirpados em sua raiz, de modo a abrirem caminho para a instauração de novos valores" (Rubira, 2005, p.115).

Exemplar de uma destas situações ocorreu num dia em que estávamos reunidos para um dos últimos encontros do grupo PACTO Adolescentes. A narrativa desse acontecimento, feita retroativamente para efeito desse escrito, quer apresentar uma imagem de intensidade, editada a partir de uma experiência, em que o foco de interesse a ser discutido define quais palavras e em que sequência elementos aproximados àqueles vivenciados podem ser encadeados. Assim, das anotações em cadernos de campo do grupo, somadas às sensações e memórias de minha coordenação, apresenta-se o acontecimento.

A sala era a mesma, o grupo era o mesmo. E, entretanto, a sala era outra, o grupo, outro. A preparação para o momento de findar o projeto estava apoiada na concentração dos fazeres em torno dos quais todos estiveram, por quatro anos, numa situação comum. As experimentações artísticas e corporais que desdobraram-se em objetos foram registradas em imagens que poderiam ser transportadas como marcas, e memória de outras marcas que singularizaram todo o processo. Estávamos finalizando catálogos-obras em que cada um deixava registrado e, simultaneamente, criava novos rastros para aquele espaço, naquele grupo. Entre cola, tesoura, fios, latas, tecidos, papel, tentávamos finalizar um universo com pouquíssimas palavras reconhecíveis. Subitamente, apercebi-me de que falava sem parar, e esta percepção passou a girar o tempo da minha presença como terapeuta daquele grupo. Retrospectivamente, dei-me conta de que falava excessivamente há muitos encontros. Essa percepção foi intensificando-se e refinando-se: lembrava e constatava que, por vezes, falava alto, berrava - e aquilo contava-me que, em parte, eu tentava com essa verborragia dar conta da angústia provocada pelo silêncio daquele grupo, ou melhor, por aquela impossibilidade de palavras que, mesmo em se tratando de um processo de finalização, persistia. Alguns participantes efetivamente não falavam: ganiam, gemiam, até mesmo urravam. Palavra articulada, praticamente não havia. Alguns até falavam, de um modo bastante ininteligível, com palavras que ficavam totalmente deformadas. Outros ainda tinham a articulação fonatória preservada, mas não conseguiam encadear nenhum pensamento em fala e gaguejavam. Poucos emitiam palavras tímidas, monossílabos passíveis - somente com muito esforço do interlocutor - de se tornarem uma conversa. E eu gritava, falava incessantemente. Por vezes, colocava música, entre outras razões, na tentativa de preencher aquele espaço vazio ou pleno de ruídos, com alguma coisa que o organizasse e o tornasse mais tolerável - espécie de prótese para suportar o desenrolar dos encontros. E, no entanto, em sua maioria, as músicas colocadas tinham referências dissonantes e estavam cheias de ruídos que intensificavam, sem que eu me desse conta, o insuportável daquelas cenas.

Estávamos mais um dia, então, ali reunidos, para mais um encontro. Um dos últimos. Nós mesmos. Nós outros. E um dos participantes descobriu, em uma das sacolas que sempre carregava, uma bermuda que sua mãe trouxera, para trocar caso urinasse em suas calças - o que era habitual. Ele descobriu a bermuda e resolveu colocá-la em seu corpo imediatamente. Em meio ao ateliê, baixou suas calças para retirá-las, e a cueca junto. Desesperei-me também de imediato e segurei suas mãos dizendo-lhe que ele não podia trocar de roupa ali na sala.

- Não pode.

- Aqui não.

- Eu estou te dizendo que não vou deixá-lo trocar de roupa aqui na sala.

Fiquei engasgada. Um disco riscado. Tonta. Queria dizer-lhe o porquê mas não me convencia por nada que prontamente me ocorresse formular, mesmo que até enunciasse muitas frases.

- A sala é lugar de trabalho, não de ficar pelado; - Se todo mundo resolver trocar de roupa aqui vamos ter que parar de fazer nosso trabalho; - Nós não nos reunimos para trocar de roupa na sala; etc etc. Tudo aquilo que saía de minha boca cheirava a um acordo excessivamente moral, no qual estava enredada sem notar, até o momento em que aquele garoto enorme se pôs a arrancar as roupas diante de mim. Muita coisa se despia ali. Eu mesma. Todos nós nos despíamos um tanto ali. Eu e as demais coordenadoras nos pusemos a segurá-lo e muito suavemente tentar convencê-lo a não baixar novamente as calças que, insistentemente, levantávamos a cada uma das inúmeras vezes que ele insistia em baixar. Num determinado momento, alguém ofereceu, suavemente, a ele, a possibilidade de trocar, sim, de roupa mas, no banheiro. O impasse continuava e eu, nada suave, extremamente rigorosa e autoritariamente o impedia de realizar a troca ali na sala, ao mesmo tempo em que passava a oferecer-me a acompanhá-lo até o banheiro.

O relato cansa. Cansou muito permanecer no acontecido até algum desfecho. Importante também - eu pensava -, era o fato de que eu só conseguia impedi-lo de avançar sua atividade de trocar as calças ali na sala porque ele tinha um dos braços numa atrofia acentuada, resultado de uma paralisia cerebral, o que o impossibilitava de realizar com ele qualquer movimento. Daí, eu, com dois braços e toda minha força física, conseguia impedir aquela "montanha" de um só braço funcionante de realizar o que estava querendo.

Exaustos, sentados no chão da sala - ele com a bermuda na mão, eu tentando convencê-lo a voltar ao trabalho -, ele aponta seu corpo, num gesto que me dava a entender sendo um "eu" e mostra-me a roupa. Insisti, pela enésima vez, que só no banheiro. Ele, finalmente, concordou, levantando em direção à porta (ele era daqueles que não articulava fala alguma), e então fomos. Lá fez a troca com minha ajuda. No banheiro. E voltamos à sala. Em seguida, pôs-se a insistir em ir embora, empurrando a porta, até que não conseguimos mais detê-lo dentro da sala, sobretudo porque a força física que estava tendo de imprimir contra ele e contra mim mesma era de um tamanho que eu não mais podia suportar. Foi-se. Uma das outras coordenadoras falou sobre termos conseguido realizar um intenso processo de negociação. Isso era certo. Os outros integrantes do grupo oscilavam entre risos e preocupações, e tentavam falar de várias maneiras sobre a dificuldade de fazer coisas com ele. Alguns referiram com pesar a mãe dele, como sendo aquela que vive diariamente situações como essas. Senti raiva. Cansaço.

Com o que então se deu a tal negociação? Com uma crença? Um poder? Uma designação? Um acordo? A imagem dessa cena, e todas essas considerações dela decorrentes, permitem pensar direções diversas: negociar, acordar, autorizar, desautorizar, forçar, acolher, conter, designar. É possível arriscar dizer que o que se passou ali guardava relações estreitas com as preceptivas da adaptação. Adaptar enquanto estratégia preferencial: fazer uma prótese com as convenções sociais, e de um ponto de vista "politicamente correto", justificar-se por inscrever o sujeito na ordem vigente - o que elucidaria a narrativa como uma intervenção preparatória do garoto para ser socialmente aceito, incluído, melhorado. Adequado.

Não se pretende, com essas indagações, mistificar o problema da nudez pública - nem legitimar, nem contestar esta regra de conduta (a de que não se deve despir em locais públicos) -, não se quer nem mesmo descartar tudo o mais que podia haver ali, naquele embate com o garoto e suas roupas, que possa relacionar-se aos signos de uma relação que se trava, às vezes, com discordâncias e modos de agir que atropelam e desviam negativamente o movimento de um coletivo. Entretanto, dentre todos os vetores que se pode apontar para pensar o que essa imagem dispara, interessa, para este escrito, o vetor protético, aquele que remete às adaptações e imposições que clinicamente se faz, e com o qual se pode constatar qual e quanta moral age em situações dessa natureza.

Paradoxalmente, é importante ressaltar que toda a proposição do projeto do grupo era a de justapor elementos heterogêneos: pessoas com deficiência, artes, adolescência, universidade, trabalhos com o corpo, convivência. A própria eleição do trabalho com as artes acentua a indecidibilidade da situação, uma vez que elas são tomadas no projeto em consonância com a ideia de que:

A arte ao contrário de uma operação "desinteressada": não cura, não acalma, não sublima, não desinteressa, não suspende o desejo, o instinto ou a vontade. A arte, pelo contrário, é "estimulante da vontade de poder", "excitante do querer". (Deleuze, 2001, p.153)

Diante desta zona de indeterminação, em que coexistem devires revolucionários e reacionários, pode-se pensar que o percurso metodológico da intervenção no PACTO aproxima-se da noção de simpatia, enquanto uma proposição estética para a terapia ocupacional e para outras clínicas, na medida em que busca sustentar e detectar elementos que possam corroborar para que a vida prolifere. "É a simpatia, agenciar [...] Mas a simpatia não é nada, é um corpo a corpo, odiar o que ameaça e infecta a vida, amar lá onde ela prolifera..." (Deleuze, Parnet, 1998, p.66). A própria formação histórica da palavra simpatia ajuda a evidenciar o sentido que ora pretendemos adotar. Ela é resultado da prefixação "sún-" - correspondente ao prefixo latino com-, no sentido de "juntamente, do lado de, em favor de" -, da palavra grega "pathos" - "estar aberto, estar exposto ou acessível, o que se experimenta" (aplicado às paixões e às doenças). A simpatia, trazida à técnica de uma certa clínica seria um modo de invocar esse pathos, através da afirmação de seu conhecimento. "O exemplo mais simples de conhecimento pático nos é dado pela apreensão de um 'clima', o de uma reunião ou de uma festa que apreendemos imediatamente e globalmente, e não pelo acúmulo de informações distintas" (Guattari, 1992, p.161).

O pático diz respeito a fragmentos em conexão, em agenciamento, não somados nem fundidos, mas que exercem forças que ora se acoplam, ora se chocam. Um modo de conhecimento que se dá nos interstícios, nos intervalos de um combate.

É nesse nível que o engendramento de uma forma é passível de esboçar-se. Um ajuntamento ao pathos é uma simpatia atenta ao risco, sem deixar de corrê-lo. Tomada como arma para fugir, no sentido de buscar os acontecimentos nos meios, fugir dos pontos de origem e das conclusões.

Para corroborar com essa perspectiva, e retomando a situação relatada, em sua dimensão reativa, sobretudo no que concerne à possibilidade de refutar um pensamento guiado pela utilidade, torna-se importante questionar a própria necessidade de encontrar uma explicação que dê respaldo a uma intervenção imposta sobre a atividade de alguém. E nesse interrogar, depararmo-nos com o que se destaca nesse modo de intervir: uma moral - retomando a conceituação nitzscheana -, uma linearidade instituída, lógica das origens e finalidades das coisas, que justificaria toda intromissão no curso do fazer de um sujeito singular, em nome da utilidade e da facilitação de sua entrada no mundo dos cordatos, dos que se curvam aos acordos tácitos, dos que se rendem às convenções sociais, dos que se amansam.

Ao nos apercebermos apoiados em prescrições morais, sentimos sua paradoxal edificação: dura e fraca, na qual resta o corpo, o corpo animal, orgânico e dissimulado na função de suas forças aplicadas para a reiteração dos funcionamentos hegemônicos, desperdiçando a possibilidade de inventar outros modos de viver, de fazer funcionar a vida.

[...] sob a pressão dessa idiossincrasia [democrática], põe-se em primeiro plano a "adaptação", isto é, uma atividade de segunda ordem, uma mera reatividade, e chegou-se a definir a vida mesma como uma cada vez mais adequada adaptação interna das circunstâncias externas (Herbert Spencer). Com isso, porém, a essência da vida é equivocada: sua vontade de potência; com isso é ignorada a supremacia que tem, por princípio, as forças espontâneas, agressivas, invasoras, criadoras de novas interpretações, de novas direções e de formas, a cujo efeito, somente se segue a "adaptação"; com isso é negado no organismo mesmo o papel dominador dos supremos funcionários, nos quais a vontade de vida aparece como ativa e conformadora. (Nietzsche, 1998, p.67)

Quando Nietzsche enuncia a adaptação nesse trecho de Genealogia da Moral, aponta um desdobramento que, por parecer óbvio, muitas vezes nos escapa: trata-se da obturação de uma inventividade, de uma vontade de vida que, para efetuar-se, depende da possibilidade de inventar novos usos do corpo e suas relações, com formatações não reconhecíveis por nenhuma originalidade essencial. Isto quer dizer, poder retomar, na realização de uma atividade - no exemplo: trocar de roupa, uma atividade cotidiana, tão cara aos terapeutas ocupacionais -, uma série de noções compartilhadas e regramentos sociais automatizados que podem e necessitam - em função de um acontecimento - ser colocados em questão. Não para contradizê-los, mas dizê-los, pela primeira vez numa repetição: a atividade não vai ser inventada originalmente ali, mas vai ser reinventada na medida em que resiste a uma naturalização, que não tem a ver com oposição, mas com encontrar um modo de se fazer.

O movimento daquele garoto, ao querer trocar de roupa durante o tempo e o espaço grupal, nada tinha a ver com opor-se às regras de nudez privatizada, nem mesmo negar quaisquer combinados internos ao grupo, e justamente por isso colocava tudo isto em questão. É esta força afirmativa que desafia, pois não nos deixa alternativa senão fugir, buscar saídas que não sejam as duras paredes edificadas para aquela atividade; cavar buracos, encontrar respiros. Negociar, talvez. Evitar adaptar. Mesmo que tenhamos de nos render, no sentido de tornarmo-nos temporariamente passivos, para dar tempo a que algo outro possa existir. Permitir apenas que alguma atividade aconteça, não reagir, abrir espaço para que a atividade de alguém possa tornar-se um acontecimento, favorecendo sua vida a movimentar-se. Quem sabe uma cabana, uma proteção que desse início à noção compartilhada de privacidade evitasse a extensão do escândalo. Quem sabe apenas poder olhar para esse momento difícil e pensar que ele não é natural só por tratar-se de um personagem com deficiência mental; pensar que ali reside uma estranheza capaz de produzir outras ordens no mundo, ainda que seja o mundo daquele grupo. Fazer pensar a vida, obrigá-la a se pensar.

O exemplo aqui apresentado, desse modo, deve servir apenas para mobilizar um pensamento, não precisa e nem deve indicar conclusões específicas para essa situação (deixar se despir na sala? obrigá-lo a ficar? encaminhar ao banheiro? criar uma situação de privacidade?); qualquer saída que se acentue seria, no âmbito deste escrito, agir de forma reativa, protocolando condutas terapêuticas e novamente buscando origens e finalidades nas coisas, o que desperdiçaria a possibilidade - que se quer aqui ressaltar como fundamental à clínica - de abertura a outros pensamentos e saídas, ao invés de prescrições.

A história é forte, sua motivação é aparentemente banal. Não é isto o que importa. Interessa, com ela, atentar para os modos de agir de quem cuida, interpelar nossas atitudes automatizadas e preocupadas em, antecipadamente, justificar suas finalidades. Importa verificar com ela quanto recaímos de imediato em prescrições morais, e, com isto, desafiar a possibilidade de cuidar, suspendendo os objetivos finais e priorizando o contato do momento presente, seu acontecimento iminente e imprevisível.

Nunca é o início ou o fim que são interessantes; o início e o fim são pontos. O interessante é o meio. O zero em inglês está sempre no meio. Os estrangulamentos estão sempre no meio. Está-se no meio de uma linha, e é a situação mais desconfortável. Recomeça-se pelo meio. (Deleuze, Parnet, 1998, p.52)

Não é possível saber qual o melhor gesto, nem para essa nem para qualquer outra situação. Impossível estabelecer o que estará à altura da potência que ela pode acionar e quais os riscos que se pode correr protegendo suficientemente o outro de um maior sofrimento e paralisia da vida. Diante dessa paisagem, o que parece possível é a suspensão de nossos movimentos reativos, poder acompanhar e participar do que acontece, e verificar que o que dali decorre e se extrai é uma convocação. Esse é o gesto, necessário, mas não suficiente. O gesto de nos invocar a cada nova/velha situação; mobilizar-se a pensar, a se deslocar sem saber ao certo para onde, nem por quê. Ainda que se tenha de rastejar: estas próteses, estas adaptações não podem nos condenar à despotencialização dos acontecimentos na clínica e na vida.

Se haverá uma razão, uma legitimação pragmática, esta deve ser a simpatia. Não deve ser a caridade a nos mover, não deve ser o ímpeto de correção a nos justificar. Nossa alma precisa poder colocar-se ao lado de outra alma. É por simpatia, e não por adaptação que o desejo pela vida nos coloca em encontros.

Porque simpatia significa sentir com e não sentir por [...] Isto é simpatia. A alma a julgar por si mesma, e a preservar sua integridade própria. [...] A alma simpatiza com a alma. E tudo quanto tenta matar-me a alma, a minha alma odeia. (Lawrence, 1994, p.30-3)

Aquém e além das convenções - não se trata de pregar a imoralidade ou a amoralidade, mas pensar que nenhuma regra garante que a vida vai medrar. Apenas o esforço de rejeitarmos nossas intervenções estereotipadas e de nos liberarmos de comportamentos supridores automáticos, pode nos colocar ao lado, encontrar as distâncias, acolher o pathos, o estranhamento. Em lugar de uma assimilação disciplinada para um pertencimento compulsório, apostar no jogo das distâncias, na ressonância aberta dos encontros, para uma espécie de transvaloração dos valores na clínica - para além de qualquer traçado antropomórfico, humanista, científico ou moral. Agir por simpatia e, às vezes, encontrar a melhor intervenção: a aproximação possível, a justa distância, o gesto suficiente.

 

Referências

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GUATTARI, F. Caosmose - um novo paradigma estético. Trad. Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão. São Paulo: Ed. 34, 1992.         [ Links ]

HANSEN, J.A. Barroco, neobarroco e outras ruínas. Floema Esp., v.2, n.2A, p.15-84, 2006.         [ Links ]

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LAWRENCE, D.H. Whitman. Trad. Ana Luisa Faria. Lisboa: Relógio D'Água Ed., 1994.         [ Links ]

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NIETZSCHE, F. Obras incompletas. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Nova Cultural, 1999.         [ Links ]

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RUBIRA, L. Uma introdução à transvaloração de todos os valores na obra de Nietzsche. Tempo Cienc., v.12, n.24, p.113-22, 2005.         [ Links ]

 

 

Recebido em 08/09/10.
Aprovado em 30/05/11.

 

 

* Elaborado com base em Inforsato (2005). O projeto do PACTO - Programa Permanente de Composições Artísticas e Terapia Ocupacional, mencionado neste artigo, esteve ligado a pesquisas desenvolvidas no Laboratório de Estudos e Pesquisa Arte, Corpo e Terapia Ocupacional da USP, Projeto Fapesp 02/10358, submetido à aprovação da Comissão de Ética para Análise de Projetos de Pesquisa - CAPPesq, do HC-FMUSP.