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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versão On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.16 no.40 Botucatu jan./mar. 2012  Epub 12-Abr-2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-32832012005000013 

Primazia da beleza feminina e juventude empobrecida: notas de uma relação conflituosa

 

Primacy of feminine beauty and impoverished youth: notes on a conflicting relationship

 

Primacía de la belleza femenina y la juventud empobrecida: notas de una relación conflictiva

 

 

Aline da Silva Nicolino

Faculdade de Educação Física, Universidade Federal de Goiás. Campus Samambaia, Km 12, rodovia Neropólis-Goiânia. Goiânia, GO, Brasil. 74.001-970. aline.nicolino@gmail.com

 

 


RESUMO

O estudo investiga a preocupação atribuída à aparência física e as implicações representativas de um modelo ideal de corpo para 53 estudantes empobrecidas, entre 13 e 18 anos. A pesquisa de campo foi realizada durante oito meses, utilizando-se de observação participante e de questionário como instrumentos de coleta de dados, valendo-se da técnica de análise de conteúdo para codificar e interpretar as informações. Foi possível observar que as escolares atribuem alto valor para o corpo, porém apresentam cuidados menos rígidos e intervenções menos agressivas que o esperado, revelando arranjos de uma civilidade que não é pensada, vivenciada e materializada de forma homogênea, mas plural.

Palavras-chave: Corpo. Gênero feminino. Cultura corporal.


ABSTRACT

This study investigated the worries relating to physical appearance and the representative implications of an ideal body model, among fifty-three impoverished students, aged between thirteen and eighteen years. The field research was conducted over an eight-month period; participative observation and a questionnaire were used as data-gathering instruments; and the content analysis technique was used to code and interpret the information obtained. It was observed that the students attributed high value to their bodies, but they also demonstrated less rigid care and less aggressive interventions than expected, thereby revealing dispositions of civility that is not thought of, experienced and materialized homogeneously, but plurally.

Keywords: Body. Female gender. Body culture.


RESUMEN

La investigacion es sobre la preocupación con la apariencia física y sus implicaciones representativas en un modelo ideal de cuerpo de cincuenta y tres estudiantes pobres, entre trece y dieciocho años de edad. La investigación de campo se llevó a cabo en ocho meses por medio de observación participante y el cuestionario como instrumentos, basándose en la técnica de análisis de contenido para interpretar las informaciónes. Se observó que las estudiantes atribuyen gran valor para el cuerpo, pero mostrando la atención menos rígida y menos agresivas que lo esperado, revelando acuerdos de una civilidad que no se pensó, vivió y materializó de una manera homogénea, sino plural.

Palavras clave: Cuerpo. Género femenino. Cultura del cuerpo.


 

 

Introdução

O estudo partiu de uma pesquisa anterior, em que permanecemos oito meses em campo, na tentativa de identificarmos e problematizarmos a concepção de beleza de estudantes empobrecidas, em uma escola pública no interior do estado de São Paulo1. O tempo de permanência no universo escolar permitiu interpretações para além das finalidades propostas, identificando discursos e linguagens variadas, o que nos motivou a analisar o cuidado e o controle diário despendido por elas com a aparência física.

Arranjos e tramas próprios daquele contexto mostraram-se, muitas vezes, distantes das produções teóricas vigentes, as quais priorizam conhecimentos de grupos sociais com alto poder aquisitivo, que se valem de um modelo de beleza feminino magro, esculpido em músculos sutis, sem excessos e sem marcas. É a partir desses referenciais que vamos problematizar e confrontar os modos de ser, pensar e vivenciar a saúde dessas escolares, delimitando a higiene e a feminilidade como importantes interlocutores da dedicação e dos cuidados voltados às formas físicas.

Partindo da ótica ocidental contemporânea, traz-se o ideal de beleza feminino, magro, rígido e jovem, para sinalizar os excessos de cuidados apontados em diferentes estudos2 – as invasivas formas de intervenção cirúrgicas (silicone, lipoaspiração, lifting, minilifting, peelling, rinoplastia, blefaroplastia, botox)3, o uso de medicamentos, a aplicação de anabolizantes, os extenuantes exercícios físicos e as severas dietas – como representantes dessa dedicação despendida ao corpo, que extrapolam a cartilha higienista ensinada nas escolas, ganhando formas plásticas na mídia e, algumas vezes, manifestando-se de forma drástica na linguagem corporal cotidiana das mulheres4.

A temática tem merecido atenção de diversas áreas de conhecimento, visto suas implicações na excessiva e diária preocupação com a aparência física. Deixar de comer, fazer dietas sem nenhuma orientação especializada, realizar exercícios físicos extrapolando os limites das cargas para obter uma musculatura rígida e torneada, assim como se submeter às intervenções cirúrgicas para esculpir a forma física, são fatos frequentes em nosso convívio social e apresentados amplamente em diversos meios de comunicação (televisão, outdoors, rádio, jornais, revistas, dissertações, teses, livros).

A intolerância à flacidez e ao excesso de gordura, quando analisada sob o discurso popular por meio da mensagem "só é feio quem quer", reforça a associação entre beleza/saúde/potência, já apontada por Novaes (2006) em seu livro "O intolerável peso da feiúra", ao discutir uma educação reguladora dos corpos e licenciada pelo coletivo. Portanto, pertencer, ser ou estar belo, em nossa sociedade, demanda tempo e investimento cotidianos, tanto no uso de ornamentos, vestimentas, calçados, maquiagens, cremes, exercícios e intervenções evasivas no corpo, quanto na ingestão de nutrientes, remédios e permanente vigia na falta de atenção e cuidado, interpretados como desleixo, preguiça e, muitas vezes, doença. Expressões desse investimento podem ser traduzidas em elogios, maiores oportunidades de se relacionar afetivamente e melhores chances no mercado de trabalho5.

Compreendemos que, em diferentes sociedades, classes e contextos, o corpo belo e seus significados são vistos, sentidos e representados com intensidades e formas diversas. Assim, buscamos, por meio desta análise, fazer um recorte de uma realidade particular, contudo, trazendo a construção da feminilidade ocidental para a discussão, por entendermos ser, esta última, a expressão máxima das investigações e investidas contemporâneas sobre o corpo, bem como o foco de mensagens e linguagens sobre a representação de um protótipo inalcançável, que enseja, no discurso de ser/estar saudável, um legitimador de tais cuidados e práticas. Nessa lógica, acreditamos ser o gênero feminino6 o maior representante da atenção higiênica nesse processo de obsessão por um ideal de beleza, sendo a mulher a figura que sofre maior pressão no que diz respeito à valorização corporal, consequentemente, tendendo a dar maior atenção, cuidado e disciplina ao seu corpo (Vázquez, 1994).

O cuidado de si, relacionado à aparência corporal, nos remete a novos questionamentos ou à busca de novos paradigmas, tais como: a compreensão da dinâmica social em que estamos inseridos; as veiculações de imagens corporais que as mídias impressas e eletrônicas transmitem diariamente; a racionalidade técnica empregada na gestão do corpo; a associação de beleza e hábitos saudáveis com felicidade; bem como a dependência mascarada por símbolos de independência diária e contínua. Constata-se que o corpo em si exerce poder.

Essa instauração do poder no corpo, como parte de uma visão fragmentada de ser humano, normatiza linguagens e comportamentos, de modo a legitimar um padrão estético que atrela saúde aos discursos das formas e curvas corporais delineadas e delgadas, sendo a disciplina da forma física a vitrine da lógica do corpo como capital. Por esse viés, a cultura corporal ocidental pode ser interpretada como expressão máxima da interface corpo, cuidados e identidade feminina.

Tais mensagens, divulgadas e estimuladas pelos meios midiáticos (televisão, revistas, rádio, internet), ao estabelecerem nexos entre beleza e poder, por meio do investimento em necessidades e modelos de felicidade centrados no indivíduo, nomeiam um estereótipo corporal como hegemônico. Tal normatização é vislumbrada por Novaes (2006) como um problema, pois, ao se distanciar das formas corporais da grande maioria das mulheres, constroem-se formas de sociabilidade centradas em ideais físicos.

Na tentativa de apresentar e problematizar algumas discussões no âmbito da temática corpo, utilizamos o conceito de beleza expresso na linguagem local, no sentido de identificar necessidades, interesses e implicações de 53 escolares do sexo feminino, entre 13 e 18 anos de idade, moradoras de favelas circunvizinhas a uma escola estadual em Ribeirão Preto/SP.

A pesquisa parte do princípio de que as investidas para ter/manter uma aparência bela são mais notáveis em classes sociais de médio e alto poder aquisitivo, por meio da visível e expressiva remodelagem corporal, assim demonstrada pela atenção despendida por estudiosos em documentar tais conhecimentos. Contudo, observamos que tais investimentos aparecem também em grupos sociais de menor poder aquisitivo, expressam-se em arranjos diversos, como apresentados em estudo anterior:

[...] nas escolhas de suas vestimentas, no uso de apetrechos para valorizar seus cabelos, nas pinturas para realçar olhos, boca e unhas, nas atitudes de deixar de comer e fazer ginástica, além das demonstrações verbais nas conversas entre elas [...] Tais mensagens revelam que, mesmo em classes populares que não têm a possibilidade de despender um alto investimento financeiro, não deixam de acompanhar as tendências da moda, consumir produtos e atribuir alto valor para a aparência física. (Nicolino, 2007, p.165)

Por entendermos e concordarmos com Novaes (2006), ao afirmar que o culto ao corpo se atualiza nas diferentes classes sociais de forma semelhante, nesse estudo verificamos tal cuidado também expresso em linguagens corporais normatizadoras, presentes nas manifestações do grupo. E, para analisarmos tais representações de corpo observadas em campo, nos valemos do corte qualitativo para interpretarmos o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes das participantes em voga (Minayo, 2004).

Para melhor decifrarmos os códigos, relações e linguagens do universo investigado, utilizamos, como procedimentos metodológicos, a observação participante, transcrevendo, em diário de campo: conversas informais, situações inusitadas, rituais de entrada, recreio e saída, bem como atitudes, comportamentos, dúvidas e perguntas emergidos no ambiente escolar. Além das observações realizadas, aplicamos, às estudantes, um questionário direcionado aos dados sociodemográficos dos estudantes, e algumas perguntas referentes aos cuidados com o corpo, como: "O que mais gosta e menos gosta?"; "O que faz para estar e sentir-se bem?" e "O que atribui como negativo para sua vida?"; momento em que fundamentamos e retroalimentamos nossos olhares, atenções e procedimentos em referenciais das ciências sociais (Minayo, 2004; Molina Neto; Triviños, 2004, 1987). Para a coleta dos dados, permanecemos oito meses em campo, estando dois dias, à tarde, na semana, desde o horário da entrada até a saída, no período vespertino, durante todo o ano letivo de 2006.

Para interpretarmos e discorrermos sobre as informações extraídas das observações e questionários, agrupamos as informações de acordo com o consenso de ideias, convergentes ou divergentes, de forma a codificarmos as mensagens produzidas, elegendo a técnica de análise de conteúdo preconizada por Bardin (1979) como instrumento metodológico, para reconhecermos as contradições e desnaturalizarmos o discurso presente nas conversas informais (registradas em diário de campo) e nas descrições dos questionários.

 

Apresentação, problematização e análise dos dados

A permanência no ambiente escolar permitiu estarmos presentes em diferentes momentos e rituais, identificando e registrando, em diário de campo,7 as falas e as dinâmicas plurais que perpassam o processo de ensino e interferem no pensar e vivenciar a escola. Assim, flutuação de professores, falta de planejamento coletivo por causa de choque de horários e prioridades, precárias condições de trabalho e salários, "terapias negativas coletivas" na sala de professores, centradas no descontentamento da educação familiar dos estudantes, falta de interesse nos estudos, e o desvalor social da figura do educador, foram fatores observados que consideramos interferir diretamente nas agressões sofridas, na indisciplina, na desmotivação dos alunos com o ensino e na pouca participação em sala de aula.

Diante de um olhar empírico, os atores investigados foram sinalizados nesta pesquisa como pertencentes a uma realidade marginalizada, marcada por conflitos e tensões sociopolíticas. Tal interpretação pode ser expressa na fala de uma educadora, ao comentar sobre a história de vida de alguns estudantes em análise, com idade entre 16 a 18 anos, pois a docente relata que os alunos estão em um caminho sem volta, referindo-se ao tráfico de drogas dentro da escola. Gestores e educadores complementam,

Eles continuam freqüentando a instituição para terem fácil acesso, entram em sala de aula, respondem à chamada e logo saem. Quando são contrariados, fixam o olhar no educador como forma de amedrontar e desafiar. Muitas vezes, acendem cigarro dentro da sala, não participam de atividades, não fazem tarefas, provocam brigas e possuem linguagem corporal e verbal própria, demarcando uma identidade violenta, distante e de confronto.

Segundo informações fornecidas pela direção, alguns estudantes possuem ocorrências na polícia por causa de roubo e furto, e muitos já tiveram passagem pela Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (FEBEM). Outros não aceitam seguir regras estipuladas para o convívio coletivo, fazendo batucada durante as aulas, entrando em outras classes para conversas com colegas, e depredando a instituição.

Notícias de brigas e roubos circulavam de forma frequente pelos corredores da escola, indo ao encontro da constância com que a polícia se fazia presente no local. A rotina da ronda militar dentro e nos portões da escola revela mais que uma visita amistosa e preventiva de segurança, mas um alerta constante de repressão àqueles que pretendem transgredir as regras, visando manter a lei e a ordem. Dentro dos portões da instituição, vestimentas e ornamentos, uso de aparelhos eletrônicos e linguagens próprias sinalizavam poder e afirmação social, entre pessoas que estavam envolvidas no tráfico de drogas. Tal realidade era interpretada, pela professora de Ciências, como falta de perspectiva no ensino e no futuro profissional, refletida no pouco interesse e desempenho em sala de aula, sendo status namorar garotos envolvidos na bandidagem e no tráfico. As relações entre classe, corpo e educação, expressas e marcadas nas falas e contextos, nos chamam a atenção para os conhecimentos e saberes produzidos no processo de formação escolar como importante referência de discussão, problematização e transformação da realidade. Por acreditarmos que educação também é um ato político, compreender e refletir sobre as categorias – sociedade, ser humano, escola e trabalho – nos remete às indagações iniciais: qual o conhecimento transmitido? Para quem e para quê?

Em um estudo que analisa tais marcas e linguagens da violência neste meio escolar, Nicolino (2008) apresenta as poucas possibilidades de ascensão financeira e social, em um contexto marcado pela marginalidade e pela pobreza. Ela alerta que o alto índice de escolares que abandonam o ensino, a falta de interesse e limites, as agressões físicas e verbais, a busca por mercados não convencionais de trabalho (tráfico), assim como um vocabulário escasso, dificuldades em escrever, compreender e discutir, são apontados como importantes expressões da marginalidade social.

A realidade, dentro e para além dos muros da escola, vem se mostrando dura, tensa e conflituosa, refletindo diretamente no processo de ensino-aprendizagem e em outras formas de manifestações. Partindo do pressuposto de que tais linguagens de violência se expressam no modo de ser, pensar e agir das pesquisadas, apresentamos a análise dos dados sociodemográficos, bem como a discussão de questões referentes aos cuidados e significados atribuídos ao corpo, exemplificando as informações para maior visibilidade e unidade, visando complementar os elementos elucidados nas observações. Assim, idade, religião e renda familiar foram algumas perguntas, sistematizadas em dados percentuais, desse primeiro levantamento de identificação socioeconômica das estudantes.

A faixa etária predominante do grupo pesquisado é de 14 anos de idade (36%), seguida de 15 (23%) e 16 anos (9%). O elevado número de estudantes, com idades entre 15 e 18 anos, com defasagem escolar, o equivalente a 43%, pode ser interpretado pelas histórias de vida de algumas das participantes, reveladas em conversas informais. Contam que perderam o ano porque tinham de ficar cuidando da casa e de irmãos menores; outras por causa da mudança de emprego de seus pais ou, até mesmo, por desinteresse em permanecer dentro de sala de aula, repetindo por faltas. Os dados coletados reforçam a articulação entre classe, mulher jovem e abandono escolar, como apresentado em outros estudos que descrevem mudanças de domicílio, precariedade das redes de ensino público e, ainda, a violência como causas da evasão escolar, temporária ou definitiva, sendo a internalidade feminina no ambiente doméstico fator determinante nas classes populares. Heilborn et al. (2002) afirmam que as carreiras escolares também revelam-se marcadas pela descontinuidade e repetência, sendo a tarefa de cuidar da casa e dos irmãos mais jovens justificativas frequentes, do universo feminino, para o abandono do estudo. Cano, Ferriani, e Mendonça (1999) também apontam como as maiores causas de abandono e repetência escolar: o desinteresse com o ensino e a necessidade de auxiliar em despesas familiares, sobretudo em classes populares.

Referente à religião, a maioria declarou ser católica (70%) – que, sob uma vertente histórica, a moral religiosa cristã atribui à mulher responsabilidades com a família e com a reprodução sexual (Birman, 2009). Na mesma direção, Giddens (1995) analisa o discurso da orientação católica ortodoxa para a figura feminina, subordinada ao lar e ao isolamento do espaço público, como importantes condicionantes para o casamento e maternidade. Contextos religiosos e/ou expressões da realidade local, conversas informais demonstraram que grande parte das estudantes é responsável pelos serviços domésticos e pelo cuidado de irmãos menores. Assim, relatos como: "agora tenho que chegar, arrumar a casa e lavar a louça"; "é um saco ter que ficar cuidando do meu irmãozinho, ele não pára"; "a gente (irmãs gêmeas) que cuida da casa e do meu irmão pequeno, para a minha mãe poder trabalhar, só eu que ajudo a minha mãe em casa, o meu irmão não faz nada, e ela ainda dá as coisas para ele", foram comentários frequentes entre as participantes. As falas reforçam dados da literatura que apontam o ambiente familiar como de responsabilidade feminina, e, por consequência, uma entrada tardia no mercado de trabalho formal, bem como uma menor diversidade de possibilidades de emprego, quando comparada com as dos meninos (Heilborn et al., 2002).

Embora os dados revelem maior controle e vigia dos cuidadores sobre as participantes, maior permanência no âmbito doméstico e participação pouco expressiva no mercado de trabalho, não podemos desconsiderar as implicações que a religião católica exerce no âmbito da sexualidade. Na atualidade brasileira, a religião apresenta-se com peso e significados diferentes de tempos atrás, pois havia uma forte tradição simbólica ocidental que se inscrevia nos corpos femininos por meio da regulação, normatização e culpa. Entendemos que os tabus religiosos não exercem, hoje, com a mesma intensidade e representatividade, a moral nos corpos, portanto, representações e (re)arranjos manifestam-se sob diferentes linguagens, que, por via da família, atribui símbolos, normas e valores morais diferenciados para mulheres e homens. Tais linguagens podem ser expressas no controle e disciplinamento da mente aos órgãos genitais, em que há um desvalor do corpo perante a mente, bem como do profano sobre o sagrado, trazendo a categoria sexualidade como pertencente e própria da figura masculina. Neste contexto, cabe à figura feminina vigiar, controlar e punir desejos, emoções e ações entendidas como subversivas a sua identidade de esposa e mãe, como identificado na fala de duas professoras. Uma revela que "as meninas de hoje não se dão mais o respeito, correm atrás dos meninos", e a outra diz que "as meninas não querem mais saber de namorar só um, querem ficar com um monte, e que elas vêm para escola parecendo que querem dar" (referindo-se às vestimentas curtas e decotadas e o excessivo uso de maquiagem). Estas linguagens também estão expressas nas falas de um grupo de estudantes, ao comentarem sobre outras escolares que consideravam ser "meninas fáceis". Segundo elas, uma aluna não se dava o respeito por ficar com todo mundo, outra ainda afirma que a mesma passa de mão em mão, referindo-se a vários meninos com quem se relacionou, e, por isso, ninguém vai querer se casar com ela. Tais mensagens reforçam algumas ressignificações presentes nos códigos morais religiosos e patriarcais ainda presentes nas interseccionalidades sexualidade e feminilidade.

Ao serem indagadas sobre a renda total da família, as respostas revelam que grande parte das escolares vive com saldo mensal inferior a três salários-mínimos ao mês (56%), caracterizando as participantes em um grupo social pobre. Tal dado reforça observações e interpretações anteriores que apontam as categorias classe e gênero interferindo diretamente no pouco interesse no ensino e evasão escolar, bem como nas diferentes formas de violência enfrentadas.

Nas questões sobre o tema central – cuidados com o corpo – a primeira pergunta refere-se a como as estudantes se veem quando se olham no espelho. A maioria respondeu ver-se magra (40%), seguido de acima do peso e esbelta com a mesma quantidade (21%). Tais respostas sugerem um possível contentamento com seu corpo, suas formas e curvas. Contudo, a análise isolada desses dados ainda não nos permite afirmar que há uma satisfação ou insatisfação com a aparência corporal por parte das jovens. Para tanto, as perguntas que seguem, sobre o que mais e menos gostam em seus corpos, destinam-se a melhor articular tais informações.

 

Quadro 1

 

As estudantes demonstraram gostar mais dos olhos, boca e cabelo, elementos importantes, na expressão cultural brasileira, de uma sexualidade feminina sedutora. O gostar do corpo teve um percentual elevado, o que vem a confirmar os dados anteriores referentes à maioria se ver magra e esbelta, indicando um contentamento sobre a forma como se veem de quase metade da amostra. Tais resultados contradizem estudos desenvolvidos, na Espanha, com estudantes frequentadoras de escolas públicas, indicando insatisfação corporal, sobretudo em relação à metade inferior do corpo (cintura, quadril, nádegas e coxas), após os 15 anos, por acreditarem que, nessa faixa etária, já é possível visualizar as mudanças corporais mais significativas (Miñano, 2005; Miñano, Galliano, Díaz, 2002). Dentre as respostas sobre o que menos gostam, a maioria descreveu pés, gordurinhas e nariz. Altura e peso apareceram de forma equilibrada nas duas dimensões. Destaca-se a soma das respostas das escolares que escreveram não gostar de nada em seu corpo (12%), dado que, quantitativamente, ultrapassa o número de respostas das que afirmaram gostar de tudo em seu corpo (9%).

As observações dos diálogos, comentários, vestimentas e comportamentos, analisados juntamente com as respostas, sugerem uma espécie de "permissividade" sobre o seu corpo e o do outro, expressa na aceitação dos excessos nas formas e contornos corporais, na maior tolerância com as marcas e cicatrizes expostas, bem como nas menores exigências de cabelos alisados e alta estatura. Aparentemente, os valores edificados na (re)construção da representação de um corpo belo, para esse grupo, se inscrevem em códigos sociais mais frouxos, se comparados a grupos sociais de alto poder aquisitivo. Estes, muitas vezes, se utilizam de intervenções cirúrgicas, uso de medicamentos e exaustivos treinamentos físicos para estarem sempre jovens, com formas e contornos rígidos, sem marcas e excessos.

 

Quadro 2

 

Quando indagadas sobre o que fazem para o corpo estar sempre bem, a maioria descreveu caminhada, seguida de academia, exercícios e esportes, sendo que estes dois últimos não especificaram as práticas corporais ou as modalidades realizadas. Tais dados corroboram com a literatura, que indica exercícios físicos, desenvolvidos por meninas, de cunho individual e direcionados para a parte estética, como a caminhada, exercício (abdominal) e dietas (Conti, Frutuoso, Gambardella, 2005; Salles-Costa et al., 2003; Miñano, Galliano, Díaz, 2002).

Foi significativo o número de respostas que descreveram não fazer nada (36%), bem como voltar seus cuidados ao corpo por meio de uma "alimentação balanceada e saudável" (20%) e utilizar cremes (8%). A estudante de 15 anos descreveu: "compro produtos da Avon, Natura, mas não preciso malhar e nem tomar remédios". Outra resposta voltada para os cuidados com o corpo revela: "me alimento bem, passo vários cremes contra celulite, espinhas, cravos, manchas etc" (14 anos). Tais relatos nos possibilitam recordar que não é recente a articulação entre mulheres, higiene e alimentação. Esse fato perpassa toda a história da ciência médica moderna em forma de discursos preventivos e/ou cartilhas de ensinamentos higiênicos propagados nas instituições escola e família. Na esfera da Educação Física escolar, os principais locutores centravam-se na figura do instrutor, depois do técnico e, posteriormente, do professor. Já no âmbito doméstico, a figura da mãe ou da cuidadora foi, e ainda é, a mais representativa. Ao encontro disso, regular, aferir e disseminar foram técnicas utilizadas em práticas corporais durante o ensino escolar e momentos de lazer, disseminados em hábitos disciplinares, marcados no corpo e alicerçados no discurso preventivo que, ainda hoje, permanece engendrado em nossa forma de ver, ser, agir e interagir no mundo (Góis Junior, 2003; Soares, 2001).

O referido discurso contemporâneo da obtenção e manutenção de uma vida saudável, ao articular alimentação balanceada com formas simétricas e rígidas, circunscreve no corpo que o acúmulo, representado pelo excesso de gordura, é observado e atribuído ao corpo improdutivo, ao descuido e falta de higiene. Nesse sentido, a Educação Física e os esportes, ao longo do século XX, foram importantes campos científicos para educar o corpo e colocá-lo em movimento, obtendo legitimidade no campo da higiene pessoal e da coesão social, por meio da "[...] profilaxia, quando bem dirigida, fortifica e disciplina o caráter e o corpo dirigindo também para diversões sãs" (Soares, 2003, p.129). Tais soluções propostas para "endireitar" o corpo podem ser elucidadas em frases que associam uma estudante a uma porca por estar com as unhas sujas; ou como expresso em outra fala, em que uma colega é tida como nojenta por chegar suada e fedida na escola, de modo a percebermos que, cotidianamente, nomes de animais, como baleia e porca, são utilizados para estabelecerem comparações entre excesso de gordura e falta de higiene, visando aproximar figuras animalescas com falta de civilidade, portanto, falta de saúde e higiene. O discurso recorrente e polarizado de agressões e/ou violência é carregado de carga simbólica, para além de não estar dentro dos padrões femininos de beleza, pois perpassa a discussão normativa de uma feminilidade inferior, que necessita ser, pelo menos, asseada, dócil, contida e delicada.

As histórias compartilhadas no convívio escolar nos permitiram sinalizar que a higiene e o cuidado eram circunscritos em roupas limpas, cabelos lavados e penteados, unhas feitas, bem como representados em atributos de delicadeza, meiguice e sensualidade. Mãos limpas, tom moderado de voz e expressões corporais comedidas compunham e fortaleciam um imaginário quase que assexuado para as chamadas "meninas de família" – termo corrente entre os escolares e professores para definir jovens com atributos morais suficientes para casar, cuidar do marido, filhos e afazeres domésticos.

Na contramão dessa identidade contida, algumas escolares utilizavam-se de tons fortes de maquiagem no rosto, roupas decotadas e apertadas, ornamentos coloridos e chamativos, unhas pintadas com cores escuras e vocabulário repleto de gírias, transgredindo uma moral feminina doce, meiga e comportada. Tais linguagens nos levam a questionar essa aparente sexualidade feminina inovadora, visto que os diálogos e ações presenciados centravam-se em como satisfazer os desejos masculinos, os futuros maridos, modelos próximos daqueles vendidos pelas mídias, em que o corpo da mulher torna-se objeto de prazer e satisfação masculina, e não expressão de uma sexualidade consciente, autônoma e renovadora. Contudo, é inegável que as tensões geradas em estruturas hegemônicas, ao se manifestarem em falas, atitudes e pensamentos, defrontam-se com os códigos morais de uma sexualidade ocidental historicamente construída por uma servilidade e pela negação do prazer feminino. Portanto, explorar os cuidados e manutenções com o corpo, por meio de análises e problematizações, pode ser um primeiro passo para ampliar discussões e reflexões sobre as desigualdades ainda expressas nas interseccionalidades classe, identidade feminina e sexualidade.

 

Considerações finais

Levando em consideração os registros em diário de campo e as informações emergidas do questionário, as escolares investigadas mostraram atribuir um alto valor para o corpo. Este foi expresso: nas escolhas de suas vestimentas, no uso de apetrechos para valorizar seus cabelos, em pinturas para realçar olhos, boca e unhas, em atitudes como deixar de comer ou controlar alimentação, em fazer exercícios físicos, no uso de cosméticos, além de demonstrarem verbalmente, em conversas informais, essas atenções. Tais expressões e rearranjos, apresentados em cuidados menos rígidos e intervenções menos agressivas que os apresentados por outros estudos, contemplam formas mais arredondadas e disciplinamentos menos rígidos, quando comparados ao disciplinamento de grupos sociais de alto poder aquisitivo. São mensagens e linguagens que nos instigam a questionar: há emergência de uma cultura corporal disciplinadora ou uma proposta de inovação ao corpo civilizado?

Nuances e interpretações possíveis, a partir da ida ao campo, revelam que os grupos populares, mesmo que não tenham a possibilidade de despender um alto investimento financeiro em cirurgias, medicamentos e exercícios físicos, não deixam de acompanhar as tendências da moda, consumir produtos e atribuir um alto valor para a aparência física, (re)elaborando e construindo suas identidades locais na interface classe, feminilidade e faixa etária. Portanto, uma normatização fortemente marcada para o gênero feminino perpassa as relações, pessoal e coletiva, expressa em linguagens e mensagens, em conceitos morais e religiosos, sabedorias populares e científicas, advindas do seu relacionamento familiar, de seus ciclos de amizade, de seus relacionamentos amorosos e do seu entorno social. Assim, as desigualdades apresentam-se nas diferentes formas de conceber o belo, a higiene, a alimentação, entre outras temáticas que permeiam o discurso de uma vida saudável para diferentes povos, etnias, classes e gêneros.

Isso nos leva a acreditar que a evasão, a repetência e o desinteresse no ensino, elementos que apareceram de forma expressiva nessa escola, mesmo não sendo objeto desse estudo, merecem uma leitura atenta para as falas, atitudes e comportamentos, pois revelam marcas e linguagens para além da discriminação da mulher, mas, sobretudo, a distância entre ricos e pobres, presente tanto nos gostos, nos comportamentos e concepções, quanto nas oportunidades, possibilidades e arranjos de uma civilidade que não é pensada, vivenciada e materializada de forma homogênea, mas plural.

 

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Recebido em 10/11/2010
Aprovado em 25/07/2011

 

 

1 Este texto explora e interpreta dados de Nicolino (2007) - pesquisa de doutorado concluída em 2007. Os dados foram coletados em diário de campo e questionário, com 53 alunas de duas oitavas séries do Ensino Fundamental, durante o ano letivo de 2006. O estudo foi avaliado e aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa com Seres Humanos da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto/USP.
2O corpo feminino ocidental como centro de investimentos ideológico e tecnológico é tema de diversos estudiosos (Novaes, 2006, 1997; Goldenberg, 2004; Breton, 2002; Courtine, 1995; Sant'Anna, 1995; Vázquez, 1994), que analisam as diversas expressões (social, política e cultural) envolvidas no culto de um determinado modelo de beleza.
3 Para saber mais sobre a indústria da beleza e formas de intervenções, ler Alexander Edmonds (2002).
4 O Brasil é campeão mundial de cirurgias plásticas com finalidades estéticas (Goldenberg, 2004).
5 RABELO, C.; MAGALDI, M. Quem disse que beleza não põe mesa? Revista Isto É, ed. 2037, 19 nov. 2009.
6 O termo gênero, compreendido como uma categoria analítica (Scott, 1995), visa desestabilizar a noção de um determinismo biológico construído pelas diferenças corporais entre homens e mulheres, justificando determinadas desigualdades. Apropriamo-nos dessa categoria para dialogar, desconstruir uma lógica de um lugar "natural" e fixo para cada gênero, como enfatizado por Louro (1997), partindo de alguns conceitos pós-estruturalistas elaborados por Michel Foucault e Jacques Derrida, que privilegiam a linguagem como local de produção das relações que a cultura estabelece entre corpo, sujeito, conhecimento e poder.
7As citações expressas neste artigo referem-se aos registros feitos no ano de 2006 em diário de campo.

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