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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

Print version ISSN 1414-3283

Interface (Botucatu) vol.16 no.42 Botucatu July/Sept. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-32832012000300022 

CRIAÇÃO

 

Cartografando territórios: oficinas de fotografia pinhole como dispositivo de ação em saúde*

 

Engendering territories through the cartographic approach: pinhole workshops as a health promotion dispositif

 

Produciendo territorios a través de la cartografía: talleres de fotografía pinhole como dispositivo de promoción

 

 

Sílvia ReisI; Bruna Lisboa Mendes dos SantosII; Eliana Dable de MelloIII; Daniela Montano WilhelmsIII

ISecretaria Municipal de Saúde de Caxias do Sul. Av. Circular Pedro Mocelin, 4683, Bairro Cinquentenário. Caxias do Sul, RS, Brasil. 95.010-002. silviasreis@gmail.com
IISecretaria Municipal de Saúde de Sapucaia do Sul, RS
IIIServiço de Saúde Comunitária, Grupo Hospitalar Conceição, Porto Alegre, RS

 

 

Introdução

Ou "Da apresentação do território"

É prerrogativa da Atenção Primária a construção de ações em saúde baseadas nos problemas e necessidades da população de um determinado território. Nesse campo, o território é muito mais do que uma área geográfica, pois abrange todos os seus acontecimentos. É território-processo, pois

transcende à sua redução a uma superfície-solo e às suas características geofísicas, para instituir-se como um território de vida pulsante, de conflito de interesses, de projetos e de sonhos. Esse território, então, além de um território solo é, também, território econômico, político, cultural e sanitário. (Mendes, 1993, apud Silva Junior, 2006, p.78)

Um território é sempre um tanto enigmático aos estrangeiros. E como conhecê-lo? É necessário cartografá-lo: não apenas percorrer suas ruas para vê-lo, mas também para escutar seus discursos e deixar-se afetar.

Iniciamos como estrangeiros no bairro Vila Jardim, onde chegamos a propósito da Residência em Saúde da Família e Comunidade. Trata-se de um lugar que parece envolver-nos num jogo de imagens em que figura e fundo mudam constantemente, conforme o ângulo e a rapidez com que olhamos. Mansões, casebres, barracos, áreas verdes, ruas asfaltadas e becos sem calçamento fazem parte deste mundo onde a desigualdade é o que mais se faz ver, se tivermos atenção. Nesse contexto, a temática da violência acaba recebendo certo destaque. Entre os trabalhadores da Unidade de Saúde e entre os próprios moradores da comunidade, fala-se muito do tráfico de drogas, dos furtos, roubos e da ocorrência de mortes por armas de fogo como situações quase cotidianas e que envolvem, em sua grande maioria, a população mais jovem deste território. A sensação que fica - e que incomoda - é a de uma generalização: ali há, apenas, jovens habitantes de um mundo fora da lei, visto que, segundo os discursos circulantes, apresentam sérios problemas de conduta, não têm perspectivas futuras, são promíscuos e querem apenas consumir (seja lá o que for). Discursos como estes marcam a Vila Jardim como um território perigoso, produtor de sujeitos igualmente perigosos.

É importante ressaltar que esses discursos não são apenas produzidos em relação à Vila Jardim, mas ao mundo contemporâneo. A precarização do trabalho, as gritantes desigualdades sociais e a violência urbana - associada e, muitas vezes, confundida com a delinquência juvenil - têm-nos convocado a pensar e a questionar nossas próprias ações voltadas a essa população, assim como a criar novas formas de intervenção. É comum falarmos da adolescência situando esses sujeitos como alguém que está "em crise". Pretendemos falar aqui desde outro lugar, que os situa como alguém que está "em processo de reconstrução de si", de descobrimento de novos territórios existenciais, e que pode ter muitas outras visibilidades.

É a partir da nossa curiosidade e inquietação em relação aos jovens, seus modos de vida e suas trajetórias pelo território da Vila Jardim, que iniciamos esta cartografia. Buscamos (re)conhecer alguns jovens a partir do que eles veem em seu mundo e, assim, (re)conhecer a própria Vila Jardim. Se o olhar e a voz possibilitam (ou não) nossa constituição subjetiva, nossa possibilidade de nos posicionarmos como sujeitos no mundo - e essa constituição é colocada em questão durante a juventude - é o olhar e as narrativas destes jovens sobre si e seus territórios que são o ponto de partida para esta cartografia.

 

Método

Ou "Das formas que percorremos o território"

Para os geógrafos, a cartografia difere do mapa, representação de um todo estático, pois se constitui na medida em que acompanha os movimentos e transformações da paisagem. Segundo Rolnik,

Paisagens psicossociais também são cartografáveis. A cartografia, nesse caso, acompanha e se faz ao mesmo tempo que o desmanchamento de certos mundos - sua perda de sentido - e a formação de outros: mundos que se criam para expressar afetos contemporâneos, em relação aos quais os universos vigentes tornaram-se obsoletos. (Rolnik, 2006, p.23)

Entende-se, portanto, que este estudo configura-se como uma pesquisa intervenção. Ou seja, não é definida a partir de um ponto de origem e um alvo a ser atingido, mas como um processo. Dessa forma, o que interessa são os movimentos, as metamorfoses que acontecem no seu decorrer (Passos, Barros, 2000), e não apenas o resultado que se obtém ao final. Na cartografia, não há a premissa de suposta neutralidade do pesquisador, pois este está inteiramente implicado no processo, uma vez que a realidade pesquisada não está fora dos sujeitos, mas existe a partir do olhar destes sujeitos, inclusive do olhar do pesquisador, e da interação desses olhares. O pesquisador também fornece "dados" para a pesquisa:

Como pesquisadores do campo das ciências humanas, nosso perguntar indaga sobre os modos de viver, de existir, de sentir, de pensar próprios de nossa ou de outras comunidades de sujeitos. O próprio fato de perguntar produz, ao mesmo tempo, tanto no observador quanto nos observados, possibilidades de auto-produção, de autoria. Nossos "objetos de pesquisa" também são observadores ativos, produzem outros sentidos ao se encontrarem com o pesquisador, participam de redes de conversações que podem ser transformadas a partir de novas conexões, novos encontros. (Maraschin, 2004, p.105)

Como dispositivo de produção desses encontros, propusemos aos jovens oficinas de fotografia. O uso da fotografia como estratégia metodológica em pesquisa tem sido mais frequente nas ciências humanas. Conforme Maurente e Tittoni (2007), além da Antropologia Visual, que sempre trabalhou com tecnologias de produção fotográfica e de vídeo, áreas como a Comunicação Social, a Psicologia, a Educação e a Sociologia também vêm investindo na questão da imagem como recurso metodológico. Optamos, nesta cartografia, pela realização de oficinas de fotografia, pois julgamos que seria uma potente ferramenta para a construção não apenas de imagens sobre um território, mas também de imagens e discursos sobre si mesmo.

Consideramos, nesse sentido, que a imagem é uma forma de linguagem e, à semelhança da linguagem verbal, também pode compor narrativas. Então, se a fotografia fala por si mesma, podemos dispensar as legendas. Propõe-se

uma nova forma da utilização da imagem fotográfica, para além da mera ilustração do ambiente e dos sujeitos envolvidos na pesquisa de campo, levando em consideração a potência fotográfica para a reflexão e também como instrumento fundamental nas investigações, pois considera o olhar fotográfico um ato criativo e uma possibilidade de surpresa. (Achutti, 2004, p.1-2)

As oficinas cartografadas aqui utilizaram a técnica da fotografia pinhole (do inglês, "buraco de alfinete"), que permite produzir imagens sem o uso das lentes usadas nas câmeras convencionais. Confeccionam-se recipientes completamente vedados à entrada de luz, a não ser por um pequeno orifício através do qual a luz irá entrar e projetar as imagens em um material fotossensível (no caso, papel fotográfico preto e branco). Utilizamos aqui latas de leite ou chocolate em pó forradas internamente com papel cartolina preto, produzimos um minúsculo furo com uma agulha e confeccionamos um obturador com fita isolante, pois que o orifício só pode ser aberto no momento de obter a fotografia - algo semelhante a um click. A imagem, no entanto, não é obtida instantaneamente, demorando alguns segundos (ou até minutos ou horas) para surgir, de acordo com a quantidade de luz disponível no local. Transcorrido este tempo, torna-se a tampar o orifício com a fita isolante. Abre-se a lata apenas dentro do laboratório, onde acontece o processo de revelação.

A utilização desta técnica de produção de imagens, ao invés das câmeras convencionais, justifica-se por permitir que o sujeito participe de todo o processo criativo, desde a confecção da câmera até o ato de fazer a fotografia e revelá-la. Se entendermos a pesquisa intervenção também como possibilidade de exercício de autoria, algo que os jovens parecem não ser autorizados a exercer, a utilização da fotografia pinhole como ferramenta pode potencializar esse efeito, uma vez que é uma forma de produzir imagens que fogem ao padrão contemporâneo (a fotografia digital, instantânea) e, fazendo um contraponto a toda a fluidez que marca o nosso tempo, pode-se produzir algo permanente e artesanal.

 

Relato de Experiência

Ou "Das narrativas que se produziram"

A cartografia, portanto, iniciou no momento em que começamos a divulgar as oficinas na comunidade, e foi interrompida quando as oficinas deixaram de acontecer. Para registrar o processo cartográfico, foi utilizada uma máquina fotográfica digital e construído um diário de campo. As oficinas aconteceram no decorrer dos meses de junho, julho, agosto e setembro de 2009, abrangendo um total de 14 encontros. Iniciamos as oficinas na escola da comunidade e foram convidados a participar todos os alunos de 12 a 18 anos. A divulgação do trabalho foi realizada nas salas de aula e por meio de cartazes fixados na escola. No entanto, a extensão das férias escolares, em função da epidemia de Gripe H1N1, e certa dificuldade da escola em aceitar o trabalho proposto fizeram com que passássemos a realizar as oficinas na unidade de saúde da comunidade. A perda da referência do lugar onde as oficinas estavam acontecendo acabou por produzir um esvaziamento do grupo no meio do processo e, em decorrência disso, as inscrições foram reabertas e outros jovens aderiram à proposta. Ao todo, tivemos 12 jovens, na faixa etária de dez a 16 anos, participando das oficinas. Alguns permaneceram durante mais tempo, outros menos... Entendemos que todos permaneceram durante o tempo que puderam permanecer, ou seja, o tempo de cada um.

No método cartográfico, o funcionamento da atenção do cartógrafo deve ser "ao mesmo tempo flutuante, concentrada e aberta" (Kastrup, 2007, p.16). Nesse processo, a atenção varia a partir de quatro movimentos: 1) o Rastreio, que é uma espécie de reconhecimento de campo, de acompanhamento do processo de forma semelhante ao movimento de uma ameba, tateando; 2) o Toque é sentido como uma rápida sensação, de intensidade variável, que nos deixa em estado de alerta, pois que algo se destaca no até então conjunto homogêneo de elementos observados; 3) o Pouso é uma espécie de zoom que abre outra janela atencional e exige uma reconfiguração do território observado; e 4) o Reconhecimento Atento é a atitude investigativa decorrente do Pouso. A seguir, palavras "entre aspas" e em negrito são momentos de Pouso. A narrativa que as acompanha descreve o que decorreu dali.

Do vazio

Há muitas escolas na Vila Jardim, mas optamos por realizar a oficina naquela que se localiza dentro do território de abrangência da unidade de saúde e é referência para um grande número de moradores da região. É uma escola vista pelos adolescentes e suas famílias como "mais forte" que as demais. Como toda escola, esta é toda ladeada por muros e mantém o portão aberto apenas no horário da entrada e saída de alunos. Para entrar em outros horários, tínhamos de aguardar ser vistos através de uma pequena janela no portão principal.

No dia em que havíamos agendado para iniciar as oficinas, ninguém compareceu. Recolhemos o material e fomos embora, perguntando-nos o que havia acontecido. Uma das professoras pergunta: "Por que vocês não oferecem um ponto a mais na média daqueles alunos que vierem?". Ora, como se não fosse possível que eles se interessassem pela atividade e tivessem de ser capturados de outra maneira. Este foi o primeiro elemento cartográfico que nos indagou sobre o lugar ocupado pelos jovens nesta instituição.

Da criação

Após nova divulgação dos trabalhos, somos surpreendidos pela presença de cinco jovens e, na semana seguinte, oito! Para as primeiras atividades, de caráter mais teórico, utilizávamos alguma sala de aula disponível. Construímos câmeras de visualização de imagens, técnica utilizada para que todos pudessem entender o princípio da formação de imagens, ou seja, o que aconteceria dentro das "latas fotográficas". Conversamos sobre o que entendiam por imagem, fotografia, bonito ou feio, recortes e olhares. Percebemos que a fotografia é compreendida por eles como uma materialização da memória, ou seja, um registro de fatos ocorridos e está bastante relacionada à beleza estética.

Curiosíssimos para saber "se é verdade" que uma lata poderia fazer fotos, ao que respondíamos sempre que sim, é verdade, mas uma outra verdade, dona de uma outra beleza, diferente daquela a que estavam acostumados. Cada participante construiu a sua câmera e a personalizou da forma que quis, sendo que uma das latas foi inclusive nomeada: era a Latalina!

Do mapa

Antes de fazermos nossas primeiras fotografias, propusemos uma atividade que envolvia o mapa da Vila Jardim e o da cidade de Porto Alegre. A ideia era que pudéssemos identificar no mapa alguns locais por onde costumamos passar, e elencar, dentre esses lugares, aquele que mais gostamos ou que gostaríamos de fotografar por algum motivo. Após um estranhamento com essa nova linguagem, localizaram no mapa algumas ruas conhecidas, mas houve muita dificuldade para que apontassem algum lugar de destaque para si. Parecia que nada ali fazia sentido. Aguiar (2003) coloca que

o mundo que vemos não é o mundo, mas um mundo cujo significado e sentido só existem quando tecemos de modo compartilhado a nossa própria vivência de cada coisa, de cada situação. Apenas desse modo podemos dar visibilidade ao mundo, à vida cotidiana como lugar de encontro, de acasos compartilhados, perceber que o mundo não existe independentemente de nós. Não somos observadores do mundo, participamos dele (Aguiar, 2003, p.146).

Questionávamo-nos: que condição é necessária para nos sentirmos parte de determinado mundo e não apenas expectadores? Que passagem é necessária que se opere aqui? Os adolescentes que olhavam o mapa, naquele momento, olhavam o mapa, apenas. Estava difícil supor que houvesse vidas ali e que os recortes dessas vidas pudessem ser compartilhados através de narrativas, fossem elas verbais ou fotográficas: "Nós não temos histórias para contar, 'sora'!".

Com esforço, após muitos questionamentos, a escola e as praças surgiram no discurso e, no mapa, foram identificadas com alfinetes. Montamos, então, um roteiro. O próximo passo seria ir a cada um dos lugares e fotografá-los.

Do (in)visível

Para as atividades práticas, improvisamos um laboratório fotográfico na sala onde eram guardados os materiais para as aulas de educação física. Neste momento, começamos a ficar mais visíveis pelos corredores da escola, o que provocou incômodo em muitos profissionais: "Vocês não são alunos do turno da tarde? Agora é de manhã, o que vocês estão fazendo aqui?". Parece que o espaço da escola não é um lugar possível de ser vivenciado em outros horários que não sejam aqueles das atividades "formais". No momento em que os professores viram a primeira fotografia, no entanto, pôde então surgir um verdadeiro interesse e curiosidade pelo que estávamos fazendo. Como é de praxe: o que interessa é o produto e não o processo. No que se refere aos pais dos alunos, parece haver uma concepção parecida: "Meus pais não acreditam que eu to vindo pra oficina!". Segundo algumas meninas, seus pais pensavam que estavam saindo de casa para passear ou namorar. Elas falam disso com certa chateação e comentando que "é sempre assim".

Essa primeira fotografia, produzida no pátio da própria escola, foi também o primeiro registro pinhole de nossa turma. De nosso pequeno grupo que, a cada encontro, evidenciava mais e mais potência de vida.

 

 

Do recomeço

Após as férias escolares, então, retomamos o trabalho na unidade de saúde. Nesta mudança, apenas um dos adolescentes seguiu conosco. Porém, outros se engajaram. Saímos do "território da educação" para o "território da saúde". No entanto, a escola permanecia presente no discurso de todos como o principal cenário onde passam suas vidas. Contudo, o fato de realizarmos as oficinas dentro do consultório da psicologia também teve seus efeitos.

Era engraçado o estranhamento de todos ao saberem que uma das pesquisadoras é psicóloga. "Tu é psicóloga? Mas nós não somos loucos!". Ainda é bastante forte no senso comum a associação entre loucura e psicologia, o que parecia assustá-los. No entanto, talvez passado o susto, nos espaços da oficina foi possível falar dos momentos em que realmente foram encaminhados para atendimento psicológico, seja por um pedido dos pais ou da escola. Nos momentos em que surgiu essa discussão, todos os adolescentes presentes já haviam sido encaminhados para atendimento, e alguns tinham seguido em acompanhamento durante determinado período. Enquanto compartilhavam essas experiências, parecia que a psicóloga não estava mais ali. Questionaram muito seus pais, professores e os próprios espaços de tratamento, atribuindo sentidos ao que havia (ou não) acontecido em suas vidas. O fato de que todos já tenham sido encaminhados para tratamento confirma o que temos visto no dia-a-dia dos serviços: o número de adolescentes que são encaminhados para atendimento tem aumentado a cada dia por motivos que incluem a não-obediência, a famosa hiperatividade ou até agressividade. Quando iremos parar e analisar melhor essa questão?

Do fora

Durante nossas "saídas fotográficas" (como chamávamos nossos momentos de ir para a rua fotografar), compartilhávamos histórias, piadas e outras brincadeiras, conversávamos sobre fotografia, escolhíamos os lugares onde iríamos fotografar. Dessa forma, reaproximamo-nos do território da Vila Jardim, mas de um jeito diferente do que havia sido estabelecido no roteiro e do que havíamos imaginado. Nada de fotografar as casas onde os adolescentes moram, os becos, e as ruas por onde normalmente passamos. Ou íamos para as praças, locais identificados por eles como de lazer no fim de semana, ou íamos "lá para cima" (para a parte do bairro que faz divisa com um bairro de classe média alta, onde fica a casa da nossa então governadora, lugar que também foi fotografado). Quando questionados sobre o porquê ir "lá para cima", respondiam: "Porque ali embaixo eu passo todos os dias. E porque aqui as casas são mais bonitas".

Da apropriação

A construção das câmeras pinhole, a produção das imagens, a montagem do laboratório improvisado, o processo de revelação e o ato de transformar os negativos em positivos são todas as etapas que precisaram ser aprendidas pelos adolescentes e que exigem paciência e atenção. Nenhum dos adolescentes recebeu um ponto a mais na média da escola por participar e, nem por isso, se interessaram menos pelas oficinas. Mesmo na escassez de material, permaneciam atentos e na expectativa do porvir.

Se, no início, mostravam certo receio em manusear os materiais e solicitavam que fizéssemos por eles alguma dessas etapas, aos poucos foram se apropriando, autorizando-se a arriscar e a fazerem sozinhos, sempre se surpreendendo com a imagem inesperada ou se decepcionando com a foto "queimada" (quando o papel é exposto à luz por mais tempo do que o necessário, impossibilitando a visualização da imagem). "No ano que vem terá oficina? Quero ser teu aluno de novo, sora!". A nossa resposta? "Sim, terá. Mas no ano que vem, tu serás o profe!".

Daquilo que ficou...

"As imagens têm potencialidades implícitas, histórias dentro de si" (Aguiar, 2003, p.142). Ficaram, então, as imagens, com suas histórias. Ficaram os afetos e os efeitos que se produziram em cada encontro. Ficaram as memórias e muitos planos de continuidade, pois as oficinas seguiram acontecendo vinculadas ao Ponto de Cultura da comunidade, onde também foi produzida uma exposição. E ficou, principalmente, a certeza de que ressignificamos um território, transpusemos a fronteira de uma simples vivência e construímos uma verdadeira experiência (Benjamin, 1985), através das narrativas produzidas.

Das narrativas visuais

 

 

Referências

ACHUTTI, L.E.R. Fotoetnografia da Biblioteca Jardim. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 2004.         [ Links ]

AGUIAR, L.B. O lugar e o mapa. Cad. Cades, v.23, n.60, p.139-48, 2003.         [ Links ]

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MARASCHIN, C. Pesquisar e intervir. Psicol. Soc., v.16, n.1, p.98-107, 2004.         [ Links ]

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* As fotografias que compõe o projeto gráfico desta edição foram produzidas pelos participantes e coordenadores da Oficina de Fotografia Pinhole: Bruna Lisboa Mendes dos Santos, Matheus Fraga Contassot, Paulo Ronaldo Fagundes Costa, Sílvia Reis e Vitória Pinheiro.