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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

On-line version ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.18 no.48 Botucatu  2014

http://dx.doi.org/10.1590/1807-57622012.3879 

Espaço Aberto

O uso do diário como dispositivo cartográfico na formação em Odontologia*

Using the diary as device cartographic in graduation of Dentistry

El uso del diario como dispositivo cartográfico en la formación en Odontología

Eliane Teixeira Leite Flores(a) 

Diogo Onofre Gomes de Souza(b) 

(a)Doutoranda, Programa de Pós-Graduação Educação em Ciências e Saúde: Química da Vida, Faculdade de Bioquímica, UFRGS. Rua Ramiro Barcelos, 1691/92. Porto Alegre, RS, Brasil. 90035-006. elianetl@terra.com.br

(b)Programa de Pós-Graduação Educação em Ciências e Saúde: Química da Vida, Faculdade de Bioquímica, UFRGS. Porto Alegre, RS, Brasil. diogo@ufrgs.br

RESUMO

A desnaturalização de práticas de ensino tradicionais e a subjetivação do cuidado na formação conectam a Odontologia às ciências humanas e sociais ao transversalizar o conhecimento pela problematização das políticas públicas. O potencial intervencionista do diário o torna importante ferramenta de pesquisa pelas narrativas de experiências. A escrita intensifica a cognição-inventiva ao dar visibilidade e enunciação a alguns pontos estratégicos de aprendizagem que produzem afetações nos encontros do cotidiano acadêmico. As releituras dos diários potencializam o ensino/aprendizagem pela análise de implicação dos estudantes e professores com a clínica, a sociedade e a produção de subjetividade da saúde como um bem comum. As narrativas enunciam o interesse dos estudantes de participar do trabalho nos serviços públicos de saúde, que utilizam comumente como usuários. A cartografia produz conhecimento ao conectar o ensino de graduação com a pós-graduação.

Palavras-Chave: Diários; Cartografia; Ensino; Odontologia

ABSTRACT

The denaturalization of traditional teaching practices and the production of health care subjectivity in dentistry training connect both to the social sciences and the humanities, traversing the knowledge by identifying problems regarding public policies. The potentially interventional diary makes it an important research tool due to its experience reports. The diary writing intensifies the inventive-cognition by visualizing and enunciating the learning strategic points, which produce affects in everyday meetings. The readings of the student’s diaries by the teacher  intensifies the  teaching/learning process by using implication analyses with the clinic, the society and the production of subjectivity health as a social common good. The narratives enunciate the students’ interest in participating in public health services both as collaborators and as users. Cartography produces knowledge while connecting the teaching of graduation with post graduation.

Key words: Diaries; Cartography; Teaching; Dentistry

RESUMEN

La desnaturalización de prácticas de enseñanza tradicionales y la subjetivación del cuidado en la formación vinculan la Odontología a las ciencias humanas y sociales al colocar de forma transversal el conocimiento por la problematización de las políticas públicas. El potencial intervencionista del diario lo convierte en importante herramienta de investigación por las narraciones de experiencia. La escritura intensifica la cognición inventiva al dar visibilidad y enunciado a algunos puntos estratégicos de aprendizaje que producen afectaciones en los encuentros del cotidiano académico. Las relecturas de los diarios potencian la enseñanza/aprendizaje por el análisis de implicación de los estudiantes y profesores con la clínica, la sociedad y la producción de subjetividad de la salud como un bien común. Las narrativas enuncian el interés de los estudiantes en participar del trabajo en los servicios públicos de salud que utilizan, por lo general como usuarios. La cartografía produce conocimiento al conectar la enseñanza de graduación con el postgrado.

Palabras-clave: Diarios; Cartografía; Enseñanza; Odontología

Introdução

A formação dos profissionais de saúde passa por transformações na organização tanto dos cursos como das práticas pedagógicas nas diversas carreiras, regiões e contextos. Nesse movimento, importa observar o encontro entre ensino e trabalho, como Barros2 propõe pelos fluxos de criação – sem desconsiderar as especificidades desses territórios institucionais – de novos processos para transformar tanto a universidade quanto o sistema de saúde justamente por distinção e convocação recíproca.

A ênfase na saúde coletiva está planejada para ser polarizada no primeiro semestre do curso e, no final, em forma de estágios na Faculdade de Odontologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Essa descontinuidade só reforça a dicotomia da relação saúde coletiva versus clínica3 e dá sentido à subjetivação do cuidado pela conexão entre o que insiste em continuar separado, ou seja, a clínica e o ensino da saúde coletiva.

Na perspectiva de cuidar da saúde, o exercício de formar a ação força a pensar a clínica e o ensino como um plano coletivo de forças e de formas – plano explicado por Escóssia e Tedesco4 como sendo o que revela a gênese das formas empíricas, isto é, o processo de produção de objetos do mundo e, entre eles, os efeitos de subjetivação. A expressão “coletivo de forças” deriva de uma rede conceitual composta por pensadores, como: Gilles Deleuze, Félix Guattari, Michel Foucault, Gilbert Simondon e René Lourau. É possível, seguindo essa rede conceitual, apreender o coletivo longe da dicotomia coletivo-indivíduo. O conceito de coletivo, na dimensão ampla usada por esses pensadores, refere-se aos planos de forças, também definido como plano de imanência, de consistência, de composição ou instituinte. Nesse plano, o que está em jogo é a consistência com que uma força venha a se combinar com outras forças. Trata-se de processos de subjetivação, em que a criação de outros modos de existência passe a se proliferar por contágio4(c).

Segundo Deleuze e Parnet5, no plano de imanência deixa de existir o sujeito fixado em uma estrutura, de forma que o que há são individuações que se definem unicamente por afetos ou potências. Tem-se, então, um coletivo transindividual ou pré-individual, entendido como espaço-tempo entre o individual e o social, espaço dos interstícios, plano de criação de formas individuais e sociais, origem de toda mudança.

Conforme Costa e Fonseca6, embasados nos estudos da obra de Foucault(d) e Deleuze(e), pensar o homem no seu tempo constitui imposição ética para com o presente, como estratégia que possibilita uma cultura do cuidado-de-si. Quando se fala do presente, pensa-se em certo intervalo de duração que pode ser alongado ou encurtado. A imagem atual (o presente) coexiste com sua imagem virtual (o passado e o futuro).

Aquilo que se diferencia em duas tendências divergentes é um atual, sendo que o atual e o virtual são ambos reais, assim como o real é atual e virtual ao mesmo tempo. Nesse sentido, atualizar, diferenciar, integrar, pensar e problematizar é sempre um processo de criação, e a criação da vida só se dá pela diferenciação do virtual10. O pensador afirma o direito de se criar, enunciar e gerir os próprios problemas, processos que põem em cena não apenas subordinação e adestramento, mas experimentação e dispositivo de abertura a outras sensibilidades. Trata-se de operar uma gênese da intuição, isto é, de determinar a maneira pela qual a própria inteligência se converte em intuição11.

A atenção cartográfica, por meio da criação de um território de observação, faz emergir um mundo que já existia como virtualidade e que, enfim, ganha existência ao se atualizar. Costuma-se tomar como diferença aquilo que não passa de pura repetição – algumas práticas que, cristalizadas, só reforçam os impasses que precisam ser enfrentados. Kastrup12 aponta a perspectiva bancária de produção e transmissão do saber, de acumulação de conhecimento como algo que se sedimenta, fortalecendo a ideia de hierarquia e superioridade de uns saberes e de alguns espaços de produção do saber sobre outros. Adotar uma política de recognição, a título de iniciativa, é adotar o despotismo em nome da estratégia de inventividade; é a adaptação a um mundo já construído.

A aproximação com o movimento inventivo da cognição importa neste trabalho por problematizar, como dispositivo cartográfico, a aprendizagem construída entre estudantes e a professora/doutoranda na graduação de Odontologia. Como alerta Kastrup12, um estudante que se mostra desinteressado pode ser o condutor de outras experiências, pois a propagação dos obstáculos quando há má vontade com o texto escrito, por exemplo, pode propiciar um encontro e mudanças inventivas. Aprender é estar atento às variações e às rápidas ressonâncias que implicam certa desatenção aos esquemas práticos de recognição e se aproximam da concepção de aprendizagem como processo temporal.

Costa e Fonseca6 auxiliam a pensar no plano coletivo de forças e de formas de ensino em Odontologia quando questionam sobre o campo de experiências possíveis, na atualidade, a fim de que se pense de forma a não mais apagar o passado na direção de um futuro ou a valorizá-lo engessado como tradição, ao voltar para ele sem receio de profaná-lo. Para desnaturalizar os fazeres, saberes e existires, importa deslocar aquilo que é invisível, por ser mais próximo e menor, ainda que extremamente abrangente. Estamos nos recriando a todo o instante e, para mergulhar nesse tempo intensivo e diverso, requer-se abrir o campo de possibilidades, conforme os autores. Como subjetivar, então, o ato de cuidar sem cairmos nos discursos esvaziados pelas práticas de ensino cristalizadas e distanciadas dos fluxos do presente?

O seguinte problema em forma de pergunta instiga à pesquisa-intervenção: como conectar, com quem está ingressando na Odontologia, os estudos das políticas da saúde, suas teorias e práticas, e a subjetivação do cuidado?

O presente trabalho de intervenção na formação objetivou, pelo uso dos diários: propiciar a escrita para atenção-a-si próprios em meio ao processo de aprendizagem; ampliar a comunicação pelas escritas e leituras (escrileituras) entre professora e estudantes; analisar a atenção aos temas humanos, sociais e de saúde pelo inesperado/esperado interesse por essas questões conectadas durante a disciplina de Saúde e Sociedade.

A cartografia

A cartografia, como intervenção na formação, trata de investigar um processo de produção de conhecimento e de subjetividade. Escolheu-se cartografar seguindo as pistas propostas por Passos e Barros13 para conhecer e transformar, pelos processos indissociáveis de teoria e prática, que, em seu entrelaçamento, constituem sujeito e objeto da pesquisa.

Este artigo integra um trabalho cartográfico criado nas condições de Doutoranda/Professora Substituta, com 44 discentes (31 alunas e 13 alunos) ingressos na FO/UFRGS em 2009, durante um semestre letivo, na disciplina curricular de Saúde e Sociedade. Os estudantes foram informados e esclarecidos que a escrita dos diários iniciava esse processo cartográfico. A prática trabalhada se manteve durante um semestre letivo de forma descontínua, mas regular, pelo envio em forma de e-mail, sem a imposição de uma frequência efetivamente diária.

As escrituras foram realizadas pelos estudantes como tarefa correspondente às avaliações, sendo que a participação foi considerada relevante como critério. Somou-se um total de duzentos e setenta diários, dentre os quais 216 de alunas e 54 de alunos, variando entre um e, no máximo, 14 por estudante. O uso do diário como ferramenta para a cartografia facilitou o acolhimento do que estava para ser vivenciado no ambiente universitário no que tange à aprendizagem. A escrita nesse gênero textual veio integrar o que pode parecer desfocado, pelo entrelaçamento inevitável das motivações, do interesse para escrever tanto sobre as questões de conteúdo programado pelas disciplinas introdutórias quanto sobre as ações no território existencial do tempo atual/virtual/real do presente.

O escrever em forma de diário é um dispositivo que se alia aos processos de criação. O escrever é um ato inseparável do devir, como algo sempre inacabado e em via de se fazer, como passagem de vida que extravasa qualquer matéria vivida em processo; é produção de subjetividade14. A escrita em forma de diário é um recurso que instiga e prolonga as afetações(f), ao dar visibilidade às alegrias e tristezas produzidas nos encontros nesse território de aprendizagem entre pessoas e material de estudo. Algumas concorrem para modular o próprio problema, tornando-o mais concreto e bem colocado, sendo especialmente interessantes quando o expõem e o forçam a pensar12.

O Diário dos Momentos, assim denominado por Hess15, pode servir a diferentes esferas da vida social e, apesar de ser uma escrita pessoal, pode se transformar em uma escrita coletiva de análise de determinada situação ou problema. Em um diário se aceita a espontaneidade e, eventualmente, a força do sentimento, a parcialidade de um julgamento e a falta de distanciamento. Esses registros operam sobre dois eixos: duração e intensidade, podendo vir a adquirir uma dimensão histórica.

A releitura, para Hess15, é o passo estratégico do uso do diário, visto que é na tomada de distância que se compõem novas abordagens reflexivas ao aliarem prática e teoria. É na releitura que o método pode tornar-se coletivo, em um processo ativo de compreensão, e não de recusa às contradições postas à vista. O diário serve como ferramenta, ao dar visibilidade a esses movimentos de aproximação e distanciamento, seja no momento de releitura das anotações e da escrita, seja ao se refazer o passado no presente.

Nessas condições, não se trata de transmitir mensagens, de investir em imagem identitária, mas de catalisar operadores existenciais suscetíveis de adquirir consistência e persistência, como esclarece16(g). O diário tem o potencial de caracterizar-se como dispositivo que explicita as linhas de força e de tensão, o texto, o contexto e o extratexto de uma dada situação social que, ao ser exposta, afeta e se deixa afetar, produz e transforma a realidade. Trata-se de forças do presente que, ao imprimirem um movimento de problematização às antigas formas, colocam a cognição na rota da experimentação12.

A posição paradoxal do cartógrafo corresponde à possibilidade de habitar a experiência sem estar amarrado a determinado ponto de vista e sem anular a observação. Se há a recusa de responder prontamente e de forma estereotipada à experiência e à não-identificação com ela, o eu identitário enfraquece e dá lugar à liberdade de ação. Assim se está mais perto de acolher o outro e as variações da experiência17.

A análise das implicações coletivas é o trabalho de quebra das formas instituídas que dão expressão ao processo de institucionalização (13). Nos estágios supervisionados da Odontologia da UFRGS, o diário de campo foi adotado como ferramenta de acompanhamento do estudante para descrever suas experiências, observações e percepções. As reflexões dos estudantes têm contribuído tanto para a formação de profissionais quanto para uma aproximação da academia aos serviços de saúde18.

A cartografia, pelas ferramentas que a tornam dispositivo, possibilita a percepção das afetações circulantes entre os encontros que se produzem para o cuidado em saúde, como uma produção social no cenário da micropolítica e das práticas de saúde. Também como produção subjetiva, expressa a força desejante de cada estudante/professor/profissional/usuário19. Há um coletivo se fazendo com a pesquisa, e é acompanhando os efeitos (sobre o objeto, o pesquisador e a produção de conhecimento) que, diante de um caso, pode-se ter como procedimento narrativo a desmontagem. O caso que se pretende desmontar, pela análise dos diários e das anotações da professora, visa extrair a agitação de microcasos, como microlutas nele trazidas à cena. O caso individual é a ocasião para o formigamento de mil casos ou intralutas que revelam a espessura política da realidade contextualizada, segundo Passos e Barros13.

Resultados e discussão

A escrita do diário viabiliza o diálogo, apesar de ser um trabalho introspectivo e pessoal, que perpassa a expectativa dos estudantes relativa à confirmação de recebimento e de leitura, pela professora, em resposta às suas mensagens individuais enviadas por e-mail. As linhas, que se cruzaram nesse tempo e espaço de subjetivação, enquanto elementos de agenciamento maquínico e de enunciação, configuram o mapa existencial das forças de saber e de poder experimentados no plano de consistência do ensino, do estudo da saúde e da sociedade. Essas linhas estão apresentadas de forma a dar visibilidade e enunciação às afetações que se encontram presentes, entre outras aparentemente desfocadas, no cotidiano universitário.

Linha como ensinar: nas anotações da professora, a preocupação com os modos de provocar o interesse dos estudantes para com as questões epidemiológicas, sociais e humanas são constantes. O silêncio, a desatenção e o menor interesse trazem inquietações aos professores da saúde coletiva. As causas do desinteresse podem ser explicadas pelas representações sociais20 da profissão do cirurgião-dentista – habituado a trabalhar isolado e centrado nas técnicas restritivas que caracterizam a clínica odontológica –, assim como pela despolitização, pela inércia, pela dispersão da atenção, pela omissão, pelo costume de não participar (em decorrência da formação anterior), pela vergonha da exposição para não correr riscos de julgamento, ou, simplesmente, por niilismo.

No entanto, encarar essa postura resistente como dispositivo de transformação de práticas é estratégico, por ativar a cognição-inventiva12 e forçar a aprendizagem do professor, ao incentivar a enunciação escrita do que se mostra em constante variação. A invenção implica tateamentos, experimentação com a matéria e a imprevisibilidade.

Entre as anotações, estão enfatizados os tensionamentos que coexistem com as aberturas para a transversalização do ensino16. Os professores, estudantes e profissionais dos serviços enfrentam conflitos resultantes da aproximação do ensino com as instituições públicas de saúde. Entre encontros e desencontros, emerge um esforço individual/coletivo para a criação de mudanças, que podem ser compartilhadas ao serem experimentadas no cruzamento das várias forças envolvidas.

Linha atenção ao estudo e aprendizagem: no acompanhamento das experiências, outros problemas exigem tratamento em separado, não apenas por interromper o ritmo planejado, mas por deixar-se afetar pela agitação do caso trazido à cena21. São frequentes as reclamações de cansaço, de falta de atenção, organização e tempo para aprender no enfrentamento das múltiplas tarefas exigidas e provas acumuladas. Pela releitura dos diários e pela observação coletiva da dificuldade de concentração para estudar, reservou-se espaço e tempo para trabalhar algumas estratégias e exercícios de controle do cansaço e da dispersão, auxiliar o agendamento e a escolha da pauta prioritária e diária.

Uma prova estruturada com direito à consulta e elaborada para forçar o pensamento sobre saúde coletiva foi motivo de registro por uma estudante:

“Esta semana foi a mais cansativa até agora dos meus dias na faculdade, porque eu não consegui estudar muito bem no fim de semana, ficou tudo acumulado, quatro provas com bastante conteúdo, mas acho que passei também em todas, não como eu queria, mas pelo menos não peguei mais recuperação. A prova de Saúde e Sociedade eu achei bastante cansativa, além de que eu já estava muito cansada, quando a professora entregou a prova eu jurei que iria acabar entregando tudo em branco, eu estava mal, nem sei como consegui fazer a maioria, mesmo assim deixei três em branco, uma não consegui achar a resposta, outra não entendi de jeito nenhum, não conseguia me concentrar”.

A dificuldade de atenção reclamada pelos estudantes e o processo avaliativo fundamentado na memorização modulam o plano de composição ou de imanência que expõe veios que devem ser seguidos por oferecerem resistência à ação humana21.

Linha interesse pelas políticas públicas: a problematização sobre as desigualdades sociais tomou intensidade em aula com os questionamentos sobre o Programa Bolsa Família – política pública focalizada na superação da desigualdade e da exclusão. Cabe ao professor habitar a experiência sem estar amarrado a posições radicais de pensamento, para dar lugar à liberdade de expressão17. Sob o ponto de vista de alguns estudantes, essa política pode trazer dependência, diminuir a iniciativa dos mais desfavorecidos e transformar os indivíduos em parasitas sociais. A ênfase na autonomia e na melhoria das condições básicas da população visadas pelas biopolíticas foi conectada ao assistencialismo, então criticado e percebido com desconfiança pelos estudantes. A reatividade às biopolíticas foi enunciada por uma estudante:

“Bom, decidi começar o meu diário dessa semana falando sobre a minha última aula de Saúde e Sociedade. Tivemos discussões bem acaloradas sobre as biopolíticas e sua influência na saúde. Eu me alterei ao me posicionar, talvez tenha sido um erro, porém sempre fui assim quando se trata da minha opinião, sou muito convicta nas minhas ideias. No geral, foi interessante escutar os outros lados da questão social na saúde e seu impacto em nossas vidas. Conversas construtivas sempre são bem-vindas. E, por fim, a família vai bem e a vida também”.

O processo de individuação não conduz a uma totalização, mas persiste no indivíduo. Tratar a cognição como portadora de uma diferença de potencial introduz a complexidade no plano das condições do ser22. Os escritos chamam a atenção para os diferentes modos de subjetivar, mostram a forma desigual e diversa dos estudantes de interpretarem e (re)agirem às estratégias de aprendizagem trabalhadas e aos temas problematizados. A seguinte abordagem dos problemas brasileiros denota reflexão, individuação e implicação política com o bem comum:

“Não sei se entra nos temas propostos deste diário, espero que sim, mas não posso deixar de manifestar minha revolta com a escolha do Brasil para sediar as olimpíadas de 2016. Simplesmente não entendo como todo mundo fica feliz com isso. Será que as pessoas não se dão conta de que o nosso país não tem estrutura para tanto? O dinheiro que será investido nas obras para suportar tal evento deveria era ser investido na educação, na saúde, em tudo o que falta no Brasil e que não é melhorado. Sei que o país recebe verbas da comissão olímpica e tudo o mais, mas certamente terá de investir além, usar do dinheiro que poderia estar sendo útil para uma melhora. Enquanto isso, Madrid já tinha 70, 80% das suas obras prontas para sediar as olimpíadas de 2016, resta esperar ser escolhida para as de 2020. [...] Para terminar, ilustro minha revolta com um trecho de um texto que li, de Danilo Gentili: ‘Meus pais pareciam chatos e duros quando eu era criança. Mas, quando eu cresci, vi que eles tinham razão. Eles só me deixavam comer a sobremesa se antes comesse todo o arroz com feijão. Isso garantiu meu crescimento saudável’. Eu estaria muito feliz com as Olimpíadas no Brasil se antes disso esse mesmo Brasil tivesse uma justa distribuição de renda, ensino e saúde de qualidade e se a cidade sede das Olimpíadas não fosse também a cidade sede de tanta família desfeita por drogas, morte violenta e fonte de hipocrisia e corrupção aliada ao tráfico de drogas. Como eu cresceria se comesse a sobremesa sem comer antes os legumes? Banguelo, anêmico, com déficit de vitaminas e achando que posso fazer qualquer coisa quando na verdade não passo de um tremendo idiota. É a mais pura verdade. Simplesmente o Brasil não está preparado: está fraco e ficará banguelo, anêmico e com déficit de vitaminas”.

Linha afirmação como cotistas: as relações entre cotistas e não-cotistas foram conversadas após uma encenação de teatro-fórum23 por estudantes da UFRGS. A atividade foi desenvolvida por bolsistas do Programa Conexões de Saberes, que visa dar apoio à permanência e à qualificação da formação de estudantes de origem popular, potencializando suas experiências e culturas no diálogo com as comunidades populares. No diário, surgem outras manifestações de oposição e ambivalências:

“Na aula passada, recebemos algumas pessoas que participam de um grupo que se autodenomina cotista, devido à sua situação econômica, que foram expor suas ideias sobre a dificuldade de sua permanência dentro da universidade. Concordo plenamente com essa parte da questão. Deve ser muito difícil para aqueles que não têm condições financeiras se manterem na universidade, pois, apesar de ela ser pública, ela exige que tenhamos certos materiais, como no caso de uma das meninas do grupo que disse que precisava de uma câmera fotográfica de quase mil reais para uma determinada cadeira, mas que não podia comprar. Mas eu não concordo com as cotas. Não acho certo pessoas que não se prepararam tanto quanto aquelas que passaram no vestibular por acesso universal passem na frente daqueles que teriam entrado na universidade. Tenho muitos amigos que são cotistas e são do mesmo nível econômico que eu e que tiveram um ensino tão bom quanto o meu, mesmo em escola pública, e que tiveram mais facilidade para entrar na universidade porque não cursaram uma escola particular”.

A problematização em forma de fórum sobre a desigualdade entre os estudantes é exercício democrático, aumenta a comunicação e colabora com a transversalização do ensino. Ao ser enunciada, pode produzir afetações ao dar visibilidade ao racismo, à xenofobia, ao autoritarismo e ao desencontro/encontro com as diferenças culturais, crenças religiosas e classes sociais. O trabalho colabora com a transversalidade16, nesse caso, por trazer estudantes de outras faculdades da UFRGS para discutir essas questões de profunda natureza política.

As oposições foram menos expostas durante a encenação e mais enunciadas nos diários. Essas críticas silenciosas foram justificadas por serem consideradas politicamente incorretas, se discutidas presencialmente entre os colegas. As manifestações contrárias e a favor da política de cotas sociais e raciais, como as identificações de pobreza e de raça quando autoafirmadas, podem trazer desconforto pela exposição da desigualdade social. A seguinte escritura afirma a condição de pobreza e a perturbação gerada pela sua discriminação:

“Gostaria de manifestar minha opinião referente à nossa aula de Saúde e Sociedade da quarta-feira à noite, onde o grupo do Conexões Afirmativas foi se apresentar e conversar conosco. Achei muito legal a interação deles e a intenção do projeto também, só senti um pouco de autoexclusão por parte deles. Eu sou cotista e não sinto necessidade de ficar me autoafirmando como tal, muito menos como pobre, mas não tenho problema nenhum quanto a isso, vergonha nenhuma de dizer que sou cotista. Abraço”.

Deve-se intervir com as estratégias de comunicação, de emergências e de desvanecimentos - que configuram a microfísica - nessa relação turbulenta de forças, pelos meios de se relacionar consigo, com o outro e com a sociedade24. Importa, então, abrir o grau do coeficiente de comunicação ou transversalidade para intensificar a singularização como invenção da própria vida, para a democratização na luta contra os dogmatismos sempre renascentes que favorecem os retrocessos institucionais.

Linha conversas com a professora sobre trabalho em grupo: entre os seminários interdisciplinares planejados para serem apresentados quinzenalmente, foi proposta a inclusão de mais um encontro para cada grupo de onze estudantes. Encontro para uma roda de conversa sobre o relacionamento entre os participantes do grupo, sobre a vivência e o modo como foram afetados pelo trabalho coletivo que estavam realizando e compartilhando. A seguinte escritura fala de um desses encontros:

“Professora, eu sou do grupo do seminário que apresentou semana passada e estava presente na conversa de hoje na sala 401. Sinceramente achei muito legal a sua iniciativa de vir conversar conosco, foi uma conversa bem agradável e pudemos dar nossas opiniões e ouvir o que os outros pensam. Acredito que tenha sido interessante pelo fato de ser um grupo pequeno, assim me senti à vontade de expor minhas ideias. É claro que nem todos têm a mesma opinião que eu, alguns até nem ‘abriram a boca’, como a senhora deve ter percebido. Sinceramente eu gostaria que as aulas fossem assim também, mas isso não depende da senhora, as pessoas infelizmente não se interessam ou demoram a perceber que de tudo podemos aprender um pouco (inclusive eu mesma pensava em não ir à conversa de hoje). Bom, eu só queria mesmo dizer que foi muito legal, gostei de verdade. Beijos”.

A conversa sobre os confrontos no trabalho em grupo provoca o pensar sobre as próprias limitações, potencialidades, expectativas, e sobre as dos colegas. O momento da escrita, além da busca pela verdade, cria possibilidades de fazer diferente em uma estratégica ação para o cuidado-de-si, por dobrar-se sobre si frente ao que acontece na faculdade e fora dela. Não se trata de subjetivismo ou psicologismo, porque coloca o problema em termos de forças, pelo uso das tecnologias do eu, como técnicas da relação da pessoa consigo mesma, com o outro e com a sociedade9.

Linha visitas à Unidade Básica de Saúde (UBS): nesse plano de imanência, acontecem encontros planejados e espontâneos vivenciados individual e coletivamente. Pela implicação que as vivências podem produzir, tomam maior consistência quando enunciadas pela escrita13. A seguinte escritura de um estudante expressa entusiasmo:

“Nesta semana, voltando para casa, encontrei uma mulher. Ela não conseguia abrir o portão que dava acesso à Faculdade de Enfermagem, então passei meu cartão para ela conseguir ir até lá. Começamos a conversar e eu lhe perguntei qual era a sua profissão, e daí ela me respondeu que era dentista. [...] Conversamos sobre a profissão durante uns 15 minutos e foi muito agradável. Na sexta, fomos à aula, e à tarde fomos procurar um posto de saúde e fazer a entrevista. Fiquei muito surpreso, pois a dentista do posto era aquela senhora que eu encontrei na faculdade. Ela foi extremamente simpática e atenciosa conosco. Nos respondeu todas as questões com muito empenho e nos mostrou as instalações do posto, e nos apresentou também o responsável pelo posto. Fiquei encantado com o posto, que possui uma infraestrutura ótima. A dentista nos convidou para ir com ela às escolas ajudá-la nas escovações. Ganhamos o dia”.

Potencializar o desejo de trabalhar e de gostar do que se faz é questão política, e não apenas de preferência, descaso e juízo. O cuidado em saúde, nas condições atuais de precariedade nas relações de trabalho, merece aprofundamento e estudo entre os estudantes, para ampliar a perspectiva de sorte ou privilégio e para o agenciamento da saúde como bem comum. O conhecimento se faz nesse plano coletivo em que as linhas de forças e de subjetivação podem inventar modos de existir4.

“Fazendo uma breve comparação individual entre a UBS que visitei no meu bairro e a UBS que foi visitada por meu grupo posteriormente, percebo que há muitas diferenças entre os postos de saúde, variando em tamanho, qualidade, infraestrutura e vários outros itens. No primeiro senti o entusiasmo da pessoa que nos atendeu, falando empolgadamente do SUS e de seis projetos para a melhoração do atendimento no posto. Já no segundo, não pude observar essa iniciativa, pois a dentista me pareceu pouco animada e até conformada com a situação de precariedade. Se eu tivesse o privilégio de trabalhar no primeiro, me sentiria muito feliz, enquanto do segundo não posso dizer o mesmo”.

Linha alegria pelo contato com os escolares, com a rede pública de saúde e o desapontamento pelas oportunidades perdidas: alguns estudantes expressam entusiasmo e, em consequência, se mostram desapontados e frustrados quando as possibilidades de maior envolvimento participativo se desfazem e não se concretizam, como a expectativa narrada:

“O dia mais legal dessa semana foi hoje, pois fomos visitar o posto perto do Hospital de Clínicas. [...] Perguntamos, então, se havia dentista na Unidade e nos informaram que havia e que se ele estivesse disponível poderíamos conversar com ele. Por sorte, depois de esperar alguns minutos, conseguimos conversar com a dentista, a única que trabalha no posto. [...] Ela nos levou para visitar e conhecer o posto, que apresenta uma ótima estrutura, comparado aos que conheço. Nos falou também do trabalho que realiza na unidade e nos convidou para irmos com ela daqui a alguns dias fazer uma visita a uma escola, em que poderemos fazer uma palestra, teatro e outras atividades para as crianças. Será realizada a aplicação de flúor e noções de higiene oral. Eu adorei a ideia e estou esperando pelo contato dela. Ela também nos indicou para visitar um posto de saúde que, segundo ela, possui diversas áreas especializadas da odontologia – pretendemos visitá-lo na próxima quarta-feira. Também nos convidou para assistirmos a atendimentos que ela realiza, se quisermos, e estou bastante interessada”.

Os encontros entre ensino/serviço/escola intensificam a experimentação e a aprendizagem. O (des)conhecimento especializado dos estudantes instiga a busca de informações no processo de aprender-ensinando no trabalho com as crianças, adolescentes e adultos, que esperam dos jovens universitários momentos de maior entendimento e de atenção à saúde bucal. Momentos em que a aprendizagem pode ganhar tempo e espaço pela intuição enquanto duração 12. A escrita de uma estudante dimensiona a alegria da criação em uma experiência:

“A escola foi uma experiência divina. As crianças tinham média de idade de 10 anos, era 4ª série. Elas teriam educação física naquela tarde e deixaram a aula tão esperada sem reclamar para que nós pudéssemos conversar. [...] Dividimos a turma em sete grupos e cada ficou com um pequeno grupo. [...] Tivemos que propor atividades para as crianças e foi algo bastante diferente. Cada um de nós era responsável por explicar um tema que eles haviam pedido na primeira visita: doces, cárie, trauma, implante, escovação, fio dental e flúor, doenças da gengiva. [...] Me senti muito bem naquele dia, muito útil. [...] Me empenho nisso porque sei que essas experiências são únicas e bastante enriquecedoras para mim”.

Acolher e afirmar a multiplicidade e a singularidade nos desdobramentos dos encontros produtores de afetações que marcam os estudantes, de forma a plantar ações que abram o tempo para o inventivo, é trabalho do cartógrafo. A autonomia do estudante e o trabalho coletivo podem ser intensificados nessas aproximações com a rede pública de ensino e saúde, a partir de novas conexões entre os fragmentos da atualidade no virtual engendrado na experiência real11. A observação da atenção-a-si e ao coletivo é trabalho de escrita de uma estudante:

“Também achei muito interessante ir ao posto de saúde, por ser um ensaio do nosso futuro e também dos vínculos que se criam numa atividade em grupo dessas. Para mim não foi novidade o posto, até porque em minha vida inteira tive o atendimento público. Mesmo assim foi muito boa a experiência. Outra atividade muito legal foi a visita ao colégio, com a matéria de Introdução à Odontologia. Lá conhecemos as crianças da quarta série, passamos um pouquinho de nosso conhecimento, e como é bom isso, também aprendemos com eles. Vimos como éramos bobinhos em relação a eles quando tínhamos suas idades. É claro que o fator social também conta muito; a maioria dessas crianças certamente já passou por situações difíceis em suas vidas. Me chamou a atenção um menino, posso estar errada, mas é a criança que precisa de atenção especial e é caçoada e desvalorizada pelos outros e até pela professora. É uma pena, mas o ensino público deveria ter uma questão mais forte em relação à psicologia infantil; isso refletirá negativamente no futuro desse menino”.

Linha atenção com o usuário, estudante e profissional da saúde: a escrita visibiliza o que ainda está inacabado e em via de se fazer, em devir14. A implicação dos profissionais, professores e estudantes, a partir das observações sobre as contradições entre o que é ensinado na faculdade, os outros saberes, e o que acontece no cotidiano dos diferentes tempos/espaços da saúde e da educação, dá visibilidade ao que pode ser mudado nesses trabalhos. Um estudante busca na memória o que lhe afeta, trazendo o que está sendo ensinado e o que pensa ser um encontro clínico:

“Alguns colegas meus comentaram que já haviam observado conhecidos seus de semestres mais adiantados e achavam que eles não davam a atenção necessária, não conheciam de verdade seus pacientes. Já outros colegas opinaram que acham que isso depende de cada profissional: alguns são daqueles que se interessam, outros são daqueles que consideram seus pacientes apenas uma boca. Já eu acho que realmente depende do profissional a capacidade de interagir com o paciente. Tem aqueles que têm mais facilidade de começar uma conversa e aqueles que têm dificuldade. Mas acho imprescindível que haja um diálogo entre ambos, que se conheça quem se está atendendo. Claro, ainda não atendi ninguém, mas refleti sobre como eu gosto quando minha dentista se preocupa em perguntar sobre a minha vida, me ouvir. E acho que aqueles que não sabem se comunicar bem devem superar essa questão pessoal e pensar no outro como uma pessoa com sentimentos, e não só com uma boca problemática”.

Pela releitura dos diários, pode-se observar que as políticas públicas estão favorecendo o maior acesso ao SUS, a inclusão social e o ingresso na universidade pública pelo sistema de cotas. A inserção da Equipe da Saúde Bucal (ESB) na Estratégia da Saúde da Família (ESF) do SUS, em decorrência das visitações programadas, é visualizada pelas narrativas dos próprios estudantes que se enunciam usuários, o que os implica com o sistema pela aproximação atual e virtual como cuidadores:

“Deixei para enviar o diário da semana na segunda-feira e não na sexta passada para que eu pudesse incluir a minha visita ao posto de saúde do meu bairro. Eu já conhecia como funciona o atendimento do posto, por ser razoavelmente próximo à minha casa e porque muitas vezes não tive plano de saúde ou condições de pagar um atendimento particular. Já fui várias vezes lá. [...] A dentista já me conhece e sabe que estou fazendo Odontologia na UFRGS. Perguntei a ela se teria como conversar comigo durante rápidos minutos sobre o posto de saúde. Ela foi muito gentil, mas, como era evidente, ela não tinha nenhum minuto sobrando, mas tive uma visão, agora com olhos de quem será um “cuidador”, que é muito grande o número de pessoas que procuram o dentista do ESF, que normalmente disponibiliza 16 fichas por dia. [...] Mesmo com todos os problemas pessoais e do local de trabalho, os funcionários do posto são muito simpáticos. Percebi que todos atenderam as pessoas da fila com um sorriso, o que ajuda a minimizar a raiva de quem necessita de um atendimento e não o terá nesta semana. Abraço”.

Linha semana acadêmica e o interesse pela saúde coletiva: a semana acadêmica (SEMAC) é organizada pelos estudantes e motivo de escrita. O interesse por PET-SAÚDE, estratégia de reorientação curricular para incorporar o discente desde cedo nos serviços de saúde, é enunciado desta forma:

“Nesta semana participei da semana acadêmica (SEMAC) e, como já relatei, nas atividades em que fui aluna colaboradora com outra colega, dividimos tarefas. Na noite de quinta-feira foram apresentados os temas livres. Foram bem interessantes: alunos apresentando diversos trabalhos de diversas áreas da odontologia e o que mais me interessei foi pelo PET-SAÚDE. Observei que muitos alunos só têm contato com a saúde pública e coletiva no 9° e no 10° semestres, o que me deixou meio preocupada, pois esta é uma das partes que mais me interessa”.

As formas de agir e de aprender se tornam atuais e possíveis pelo exercício das tecnologias do cuidado, pela atenção-a-si na escrita dos diários, pela transversalidade das conversas no acontecer dos novos encontros institucionais de ensino e dos serviços de saúde, nas escolas e nas clínicas.

Considerações finais

A experiência narrativa minoritária oportuniza processos de subjetivação mais autônomos e livres, ao desviar-se o ensino da recognição, da transmissão e das avaliações acumulativas de conhecimentos. Importa intensificar-se a aprendizagem pela cognição-inventiva, a fim de não homogeneizar a diversidade de sentidos, sem idealizações, para além e dentro do possível na formação durante o curso.

A atenção à escrileitura permite acompanhar as modulações e as individuações da realidade, que conectam e transversalizam as disciplinas para a integração das áreas básicas, das ciências humanas com a epidemiologia nas práticas de ensino em Odontologia. A análise dos escritos leva a considerar que: 1) os estudantes e a professora exercitam a mudança de modos de olhar e de pensar, ao organizarem sentidos no contato com a desigualdade e a realidade atualizada pelas vivências; 2) as releituras singularizam e instigam a aprendizagem dos professores pela implicação com a docência, com a clínica, com a pesquisa e com a saúde coletiva pela subjetivação do cuidado; 3) os diários aumentam a comunicabilidade e a atenção-a-si, potencializando a aprendizagem; 4) o interesse pela saúde coletiva tem expressão e requer ser agenciado entre estudantes e professores na continuidade do curso; 5) o dispositivo cartográfico abre outras possibilidades pelo maior envolvimento do ensino de graduação com a pós-graduação; 6) a conexão ensino/cuidado/saúde constitui desafio permanente aos servidores da saúde, professores e estudantes, no sentido da produção de conhecimento pelo trabalho individual/coletivo e singular em saúde.

Agradecimentos

Os autores agradecem os apoios institucionais dispensados para a concretização dessa tese: à Capes pela bolsa de doutorado e à direção da faculdade de Odontologia da UFRGS, estudantes, professores e servidores da rede municipal de saúde de Porto Alegre, RS.

Referências

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*Elaborado com base em Flores1; pesquisa financiada pela Capes, aprovada no Comitê de Ética e registrada no sistema virtual da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

(c)A articulação entre as teses de Foucault7 sobre o saber e poder e o conceito de individuação de Simondon8 é trabalhada por Escóssia e Tedesco4 a partir do diagrama de forças. A realidade emerge do processo de produção do saber, efeito do movimento convergente de forças, de caráter discursivo e não discursivo, duas modalidades de práticas distintas, em relação de reciprocidade constante. A individuação é um processo por meio do qual ocorre a constituição de formas individuadas de indivíduos físicos, orgânicos, psíquicos e sociais. Todo ser individuado (um indivíduo, um grupo social ou transindividual) permanece com uma carga pré-individual que pode ser ativada a qualquer momento, o que os torna seres sempre inacabados e em permanente processo de individuação.

(d) Para Michel (9), as tecnologias do eu tomam a forma de elaboração de certas técnicas para a conduta da relação da pessoa consigo mesma, por exemplo, ao exigir que a pessoa se relacione consigo mesma epistemologicamente (conheça a si mesmo), despoticamente (controle a si mesmo) ou de outras formas (cuide de si mesmo) – elas podem ser corporificadas em práticas técnicas particulares (diários e discussões de grupo).

(e) Gilles10 afirma que, no virtual, a diferença e a repetição fundam o movimento da atualização, da diferenciação como criação, substituindo, assim, a identidade e a semelhança do possível. A representação crucifica a diferença, em que só pode ser pensado como diferente o que é idêntico, semelhante, análogo e oposto. É em relação a uma identidade percebida, a uma analogia julgada, a uma oposição imaginada, a uma similitude percebida, que a diferença se torna objeto de representação.

(f)Afetação é a subjetivação que se faz por dobra, isto é: o afeto de si para consigo ou a força dobrada. Abrir-se para a diferença implica se deixar afetar pelas forças de seu tempo, uma vez que as pessoas são permanentemente atravessadas pelo outro, pelos abalos, pelas rupturas, pelo devir. Os modos de subjetivação são meios pelos quais os indivíduos são levados a atuar sobre si próprios, sob certas formas de autoridade, em relação aos discursos de verdade, por meio de práticas do self, em nome de sua própria saúde, de sua família, de alguma coletividade ou mesmo de uma população11.

(g) A função dos agenciamentos de enunciação consiste na utilização de cadeias de discursividade para estabelecer um sistema de repetição, de insistência intensiva, polarizado entre um território existencial territorializado e o universo incorporal desterritorializado, não discursivo. O agenciamento maquínico de subjetivação aglomera essas diferentes enunciações parciais e tem, ao mesmo tempo, um caráter coletivo de enunciação e de visibilidade. O coletivo aqui deve ser entendido não somente no sentido de agrupamento social, pois implica igualmente a entrada de diversas coleções de objetos técnicos, de fluxos materiais e energéticos, de entidades incorporais. A junção entre expressão e conteúdo se constrói como ponte, uma transversalidade entre agenciamento de enunciação e agenciamento maquínico de subjetivação. É nessa zona de interseção que o sujeito e o objeto se fundem e encontram seu fundamento16.

Received: October 31, 2012; Accepted: April 24, 2013

Colaboradores

Eliane Maria Teixeira Leite Flores responsabilizou-se pela análise cartográfica e pela escrita do artigo; Diogo Onofre Gomes de Souza responsabilizou-se pela orientação da doutoranda e revisão do artigo.

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