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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versão On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.18 no.51 Botucatu out./dez. 2014  Epub 26-Set-2014

https://doi.org/10.1590/1807-57622014.0150 

Artigos

O aprender fazendo: representações sociais de estudantes da saúde sobre o portfólio reflexivo como método de ensino, aprendizagem e avaliação

El aprender haciendo: representaciones sociales de estudiantes de la salud del portafólio reflexivo como método de enseñanza, aprendizaje y evaluación.

Glauce Dias da Costa a  

Rosângela Minardi Mitre Cotta b  

aDepartamento de Nutrição e Saúde, Universidade Federal de Viçosa. Avenida Peter Henry Rolfs, s/n, campus universitário. Viçosa, MG, Brasil. 36570-900. glauce.costa@ufv.br

bDepartamento de Nutrição e Saúde, Universidade Federal de Viçosa. Avenida Peter Henry Rolfs, s/n, campus universitário. Viçosa, MG, Brasil. 36570-900. rmmitre@ufv.br


RESUMO

No contexto atual de necessárias mudanças na formação dos profissionais de saúde, destaca-se o portfólio como método inovador na forma de ensinar, aprender e avaliar. O objetivo deste estudo é identificar as representações sociais dos estudantes no processo de construção do portfólio. Trata-se de uma pesquisa qualitativa utilizando a triangulação de técnicas: observação participante, entrevista e grupo focal. Participaram do estudo 114 estudantes de cursos da saúde. Ao se utilizar a Análise de Conteúdo, foram encontrados os seguintes núcleos de sentido do portfólio enquanto método de ensino e aprendizagem: facilidades na compreensão do conteúdo, autonomia, liberdade, postura crítico-reflexiva. Enquanto método de avaliação: o erro como oportunidade, a interação com o professor e o ambiente de avaliação diferenciado. Pontos de convergência e conflito também foram encontrados: tempo de realização das atividades, processo de reflexão e método inovador em um contexto de ensino tradicional.

Palavras-Chave: Representações sociais; Educação em saúde; Portfólio reflexivo

RESUMEN

En el actual contexto de cambios necesarios en la formación de profesionales de la salud , destaca el portafólio. Es objetivo de este estudio identificar las representaciones sociales de los estudiantes de la enseñanza, aprendizaje y evaluación proporcionada por el portafólio. Se ha utilizado la investigación cualitativa donde se utilizó las técnicas de triangulación: observación participante, entrevistas y grupos focales. Los participantes fueron 114 estudiantes universitarios de cursos de salud. Los datos fueron analizados a través del análisis de contenido. Los resultados apuntan los núcleos de sentido del portafólio como método de enseñanza y aprendizaje: facilidades para comprender el contenido , la autonomía, la libertad, la actitud crítica y reflexiva. Como método de evaluación: el error como oportunidade, la interación con el professor y el ambiente de evaluación diferenciado. También se encontraron puntos de convergencia y conflicto: tempo demandado para la ejecución de las actividades , el proceso de reflexión y el uso de un método innovador en el contexto de la enseñanza tradicional.

Palabras-clave: Representaciones sociales; Enseñanza en salud; Portafólio reflexivo

ABSTRACT

In the current context of the need for changes in the training of healthcare professionals, portfolios can be highlighted as an innovative method for teaching, learning and assessment. The aim of the present study was to identify the social representations of students in the process of constructing portfolios. This was a qualitative study that used a combination of the following techniques: participant observation, interviews and focus groups. In total, 114 students on healthcare courses participated. Through using content analysis, the following core meanings for portfolios as a teaching and learning method were found: easy-to-understand content; autonomy; liberty; and a critical-reflective stance. The following meanings were found for portfolios as an assessment method: error as an opportunity; interaction with the professor; and a differentiated assessment environment. Convergence and conflict points were also found: time taken to perform the activities; reflection process; and innovative method in the context of traditional teaching.

Key words: Social representations; Health education; Reflective portfolio

Introdução

No mundo contemporâneo, é evidente a necessidade de transformação nas formas de ser, pensar, agir e estar dos futuros profissionais de saúde, visando a uma formação acadêmica estudantil que atenda às mudanças que a sociedade demanda, o que exige capacitação pessoal e profissional para a tomada de decisão e solução de problemas cada vez mais complexos.

Nesse contexto, no Brasil, o novo paradigma de ensino proposto pelas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) dos cursos da área da Saúde aponta para a necessidade de mudanças no processo de ensino e aprendizagem, dando protagonismo aos estudantes 1 .

Destarte, o portfólio reflexivo insere-se nesse novo paradigma, o que demanda, dos principais atores desse processo − estudantes e professores −, uma profunda reflexão sobre seus papéis no ambiente educacional. Assim, os portfólios reflexivos constituem instrumentos de diálogo entre educador e educando, devendo ser continuamente (re)elaborados na ação e partilhados, recolhendo diferentes modos de ver e interpretar o mundo em seu cotidiano de vida, estudo e trabalho, e impulsionando a tomada de decisões. Ao professor, cabe um constante processo de autorreflexão, indicando novas pistas e abrindo novas hipóteses, por meio do feedback , permitindo a reorientação em tempo útil para o formando 2 .

Uma vez que o processo educativo se relaciona intimamente com o contexto social e que este varia conforme suas finalidades, cenários e agentes envolvidos, torna-se importante a compreensão do fenômeno educativo dado pela construção do portfólio como método de ensino, aprendizagem e avaliação. Entende-se como agente “alguém que age e ocasiona mudanças e cujas realizações podem ser julgadas de acordo com seus próprios valores e objetivos, independente de as avaliarmos ou não segundo algum critério externo” 3 (p. 33).

Conforme essa perspectiva, este estudo teve por objetivo identificar e analisar as representações sociais, dos estudantes de graduação dos cursos na área de Saúde, do processo de ensino, aprendizagem e avaliação proporcionado pela construção do portfólio coletivo.

Método

Desenho do estudo

Pesquisa qualitativa, que utiliza como pressuposto teórico a Teoria das Representações Sociais (TRS) 4 , visando à compreensão do fenômeno de estudo. Tem-se como premissa que os pensamentos e ações da vida cotidiana dos agentes (os estudantes), em sua constante comunicação com os do mundo que os rodeiam, favorecem a construção da vida social e individual e, por sua vez, interferem nas representações do processo de ensino, aprendizagem e avaliação construídos.

Participaram do estudo 114 estudantes de graduação de cursos da área de Saúde, de um total de 119 (cinco não aceitaram participar) que cursaram a disciplina Políticas de Saúde nos anos 2012 (I e II semestres) a 2013 (I semestre) em uma universidade pública brasileira. Os portfólios foram construídos coletivamente por grupos compostos por, aproximadamente, seis estudantes.

O portfólio foi construído em quatro etapas 5 : 1) Construção do conceito de Portfólio, com destaque para as dimensões que o caracterizam como reflexivo – primeiro, individualmente (ambiente extraclasse) e, em um segundo momento, em pequenos grupos (em sala de aula), a partir de pesquisa na literatura científica. 2) Minha trajetória: cada aluno descreve sobre sua inscrição histórica no mundo: “quem sou eu, de onde eu vim e para onde eu vou”; e, coletivamente, os membros do grupo escrevem sobre a percepção que têm sobre seus colegas: “quem sou eu na visão do outro”. Essas memórias são redigidas no início e reconstruídas no final do semestre letivo. 3) Aprendendo com o grupo: atividades realizadas em grupo de acordo com as temáticas trabalhadas na disciplina (relatos de experiências vivenciadas nos diferentes cenários de práticas, resenhas, sínteses, resumos, relatos de práticas, situações, problemas, enfim, todas as atividades trabalhadas na disciplina e realizadas em grupo. 4) Espaço de criatividade: lugar onde o grupo exercita, com liberdade, a criatividade; charges, poemas, músicas, fotos, desenhos, notícias e reportagens presentes na mídia escrita e eletrônica e/ ou criados pelo grupo e acompanhados de reflexões críticas.

Os rumos da pesquisa: as representações sociais sobre o processo de construção do portfólio reflexivo

O pressuposto teórico-metodológico da TRS 4 privilegia a relação entre o sujeito e o contexto social, e apresenta uma perspectiva de estudo que articula áreas de conhecimento e as entende como contribuições complementares, e não excludentes, para desvelar uma realidade ou fenômeno em sua totalidade/complexidade. Moscovici 4 , ao delinear a TRS, partiu de duas premissas: a primeira considera que não existe um corte entre o universo exterior e o do indivíduo, que o sujeito e o objeto não são absolutamente heterogêneos, e que o objeto está inscrito em um contexto dinâmico; a segunda vê a representação social como uma preparação para a ação.

Jodelet (citado por Silva, p. 668) 6 destacou que a representação social é uma forma de conhecimento corrente caracterizado pelas seguintes propriedades: “1. Socialmente elaborado e partilhado; 2. Tem orientação prática de organização, de domínio do meio (material, social, ideal) e de orientação das condutas e da comunicação; 3. Participa do estabelecimento de uma visão de realidade comum a dado conjunto social (grupo, classe etc.) ou cultural”. Por sua vez, Minayo 7 destacou que “as representações sociais se manifestam em palavras, sentimentos e condutas e se institucionalizam. Portanto, podem e devem ser analisadas a partir da compreensão das estruturas e dos comportamentos sociais” (p. 108).

Na mesma linha da proposta de Moscovici 4 , Minayo 7 afirmou que, para que a pesquisa educacional possa impactar a prática educativa, é preciso adotar “um olhar psicossocial”, preenchendo o sujeito social com o mundo interior e restituindo o sujeito individual ao mundo social. A teoria das representações sociais aponta para a compreensão e o desvelamento dos sentidos atribuídos ao portfólio como um método de aprendizagem e avaliação a partir da perspectiva dos estudantes de graduação dos cursos da área da Saúde. Nesse sentido, a teoria moscoviciana pode auxiliar na compreensão de questões surgidas acerca da aprendizagem e da avaliação no contexto das transformações pelas quais as sociedades vêm passando, especialmente as referentes à formação dos profissionais de saúde.

A fim de apreender os discursos dos estudantes sobre o fenômeno social da aprendizagem dada pela construção do portfólio, de forma coerente com a teoria proposta, utilizou-se, assim, a triangulação de técnicas qualitativas: observação participante, entrevista e grupo focal. A observação participante se deu na atuação da pesquisadora em sala de aula (aulas práticas) e nas visitas aos grupos em reuniões agendadas para a construção do portfólio (extraclasse). O diário de campo foi utilizado como ferramenta essencial na coleta de dados, por meio do registro de todas as observações identificadas a partir das falas, atitudes, gestos, expressões, entre outros, consideradas relevantes de acordo com os objetivos do estudo.

As entrevistas foram realizadas por três pesquisadores previamente treinados, com duração de, aproximadamente, quarenta minutos. Um roteiro aberto, com vinte perguntas, orientava os pesquisadores (Quadro 1). As entrevistas foram gravadas e transcritas pelos pesquisadores. As falas foram numeradas de 1 a 114 e apresentadas nos resultados com os seguintes códigos (E1, E2, E3... E114). Os grupos focais foram realizados nos finais de semestres letivos, com, aproximadamente, 12 estudantes, sem a presença da professora responsável pela disciplina. O debate acontecia a partir de um roteiro-guia, que norteava as discussões do grupo. Os grupos focais foram gravados e filmados, sendo, posteriormente, transcritos pela equipe pesquisadora.

Quadro 1 Roteiro com as vinte perguntas norteadoras das entrevistas realizadas com os estudantes dos cursos de saúde de uma universidade 

Roteiro para as entrevistas com os estudantes de graduação dos cursos de saúde
1) O que é o portfólio para você?
2) No início da construção do portfólio, eram claros, para você, os objetivos de aprendizagem? (Quer dizer, era claro o que deveria ser feito e/ou o que você alcançaria com o portfólio?). Explique.
3) Como era feita a escolha dos conteúdos e evidências para a construção do portfólio?
4) O portfólio te ajudou na compreensão dos conteúdos de Políticas de Saúde e do SUS? Se sim, de que forma? Se não, por quê?
5) Há algo que você verificou na construção do portfólio que transcende (que vai além) os conteúdos da disciplina de Políticas de Saúde? Se sim, o quê?
6) O portfólio te ajudou a perceber suas fortalezas e suas fragilidades no processo de formação profissional e para a vida? Se sim, especifique.
7) Você conseguia (não corrige para conseguiu mesmo?) trazer ou relacionar seus conhecimentos prévios (anteriores -conhecimentos de outras disciplinas ou do que você já tinha aprendido antes) com os conhecimentos adquiridos na disciplina de Políticas de Saúde?
8) A construção do portfólio auxilia/auxiliou na formação do profissional nutricionista ou enfermeiro para atuar no SUS? De que forma?
9) Relate um(ns) episódio(s) ou situação(ões) que te marcou(aram) e fez(fizeram) você refletir durante o processo de construção do portfólio coletivo.
10) O processo de construção do portfólio contribuiu para a interação com os colegas (aluno-aluno)? Se sim, de que forma. Se não, por quê?
11) O processo de construção do portfólio contribuiu para a interação com os docentes (professor-aluno)? Se sim, de que forma. Se não, por quê?
12) Quais os pontos fortes (fortalezas) e fracos (fragilidades) do trabalho em equipe no processo de construção do portfólio?
13) Cite algumas características, relacionadas ao trabalho em grupo, propiciadas pelo processo de construção do portfólio coletivo.
14) Quando você iniciou a construção do portfólio coletivo, quais os sentimentos, percepções e emoções que foram experimentados por você?
15) E, no final da construção do portfólio, quais os sentimentos, percepções e emoções experimentados por você?
16) Qual a etapa do portfólio que você mais gostou de fazer? E por quê?
17) Para você, existe diferença entre o portfólio e um trabalho tradicional feito em grupo?
18) Qual a diferença entre o portfólio e a prova como métodos de avaliação?
19) Para você o que é aprender?
20) Como você aprende melhor?

A pesquisa foi submetida e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Viçosa, de acordo com a Resolução nº. 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde do Brasil, que regulamenta as pesquisas envolvendo seres humanos. Foi solicitado consentimento livre e esclarecido dos estudantes para participarem do estudo, garantindo-se a confidencialidade das informações e o seu anonimato.

Os dados foram analisados por meio da Análise de Conteúdo 8 , 9 à luz da TRS. Após a interpretação global das respostas, passou-se à organização do material de acordo com as unidades de contexto e a elaboração de categorias gerais, para se obter um panorama abrangente do material analisado. Posteriormente, as categorias foram agrupadas e, após leituras, reelaboradas de forma mais sintética e contrapostas às observações e aos estudos bibliográficos, para direcionar as discussões e conclusões do estudo.

As três perguntas norteadoras deste estudo: Como os estudantes interpretam sua realidade estudantil? Como interpretam o portfólio como metodologia inovadora do processo ensino, aprendizagem e avaliação? O portfólio proporciona, aos estudantes, a possibilidade de modificarem suas condutas pessoais e sociais? – guiaram a organização dos dados com base em duas perspectivas: a posição do estudante nos cenários de aprendizagem e a apreensão do portfólio como inovador no âmbito social (nas dimensões de aprendizagem e avaliação).

Resultados

O estudante nos cenários de aprendizagem

A realidade estudantil foi expressa pelos estudantes a partir dos seguintes questionamentos: Quem somos? Como aprendemos?

Os estudantes retratam uma posição passiva diante da instituição, do curso e dos professores detentores do saber. Expressam perceber a passividade perante a forma tradicional do ensino, entretanto não apontam caminhos de ação e/ ou reação.

Paradoxalmente, ao mesmo tempo que manifestam insatisfações, estas vêm acompanhadas pela indiferença: “sempre foi assim”. São protagonistas de um ensino conteudista, recebido pelos estudantes sem questionamento (Quadro 2).

Quadro 2 Percepção dos estudantes do processo ensino-aprendizagem vivenciado no contexto universitário, segundo depoimentos nos grupos focais realizados no final do período letivo dos anos 2011, 2012 e 2013 

"O que eu acho é que a maioria das disciplinas tem muita decoreba. Às vezes, conseguimos assimilar, outras vezes não. É uma abordagem muito mecânica e não temos espaço para falar."
"Somos forçados a decorar, nos falta tempo; é muita coisa para aprender em pouco tempo, é muito conteúdo."
"Aqui funciona assim: você estuda, tira nota e depois esquece. O sistema é nota para coeficiente de rendimento, se você tem coeficiente bom, você tem chances de bolsa, de estágios melhores. Você é a nota que tira."
"Gente, sempre foi assim, e acho que não muda, por que mudar dá trabalho. O portfólio é trabalhoso e nós não estamos acostumados a coisas trabalhosas."
"É verdade, foi muito difícil para mim no inicio do portfolio, não conseguia entender, como fazer, como usar a criatividade, a universidade não nos ensina a fazer isso..."
"Mas acho que não é só culpa dos professores ou do sistema, não da para tirar a culpa da gente não, estamos aqui para pensar, temos que questionar mais."
"Penso que a prova tem seu lugar, vê o potencial individual, força a gente a estudar... mas não pode ficar só nisto."
"Nossa realidade de aprendizagem é muito teórica, nós fazemos estágio só no final, eu aprendo muito com a prática, por isso sinto falta de métodos criativos como o portfólio."

Na perspectiva dos estudantes, o sistema educacional gira em torno da pontuação e de provas classificatórias, e não da aprendizagem. A avaliação é vista como uma forma de provar o saber e classificar os estudantes entre aqueles que estão aptos ou não para o exercício profissional e atuação na sociedade. Dessa forma, os estudantes estudam para tirar boas notas nas avaliações, e não para aprenderem. A nota nem sempre representa, para eles, o processo de aprendizagem em sua totalidade.

A apreensão do portfólio como método de aprendizagem inovador

Os achados deste estudo revelam os seguintes núcleos de sentido a partir da apreensão dos estudantes sobre o portfólio como método de aprendizagem: facilidades na compreensão do conteúdo, autonomia, liberdade, postura crítico-reflexiva. Quanto ao portfólio como método de avaliação, foram considerados os seguintes núcleos de sentidos: o erro como oportunidade, a interação com o professor, e o ambiente diferenciado pela transparência de critérios de avaliação não punitiva. Alguns pontos de convergência e/ ou conflito também foram identificados, sendo eles: o tempo como fator dificultador na construção das atividades e no trabalho em equipe, a reflexão ora como descoberta, ora como incômodo, e o portfólio como método inovador em um contexto de ensino tradicional.

Em se tratando do processo de aprendizagem, o portfólio propicia tanto a compreensão dos conteúdos quanto das habilidades e atitudes necessárias ao estudante e futuro profissional de Saúde para atuar nos moldes do paradigma da Produção Social da Saúde e do Sistema Único de Saúde (SUS), conforme pode ser observado pelos depoimentos dos estudantes no Quadro 3.

Quadro 3 Representações dos estudantes quanto ao processo de aprendizagem propiciado pelo portfólio 

Compreensão do conteúdo (Políticas de saúde - SUS)
"A busca das reportagens, textos, músicas, charges, nos ajudava a fazer relação da teoria com a prática, às vezes lia uma reportagem do cotidiano sobre o setor saúde e dizia "Ah! é isso que a professora quis dizer." (E15)
"O legal do portfolio é que através das buscas que eu fiz, eu aprendia, eu formava meu conhecimento sobre o SUS, hoje saio da disciplina com outra ideia do SUS que não é só para pobres, e foi eu que descobri isso. A professora falava na sala, eu lia nos artigos que ela recomendava, mas no portfólio eu buscava por mim mesma, eu vi e aprendi que o SUS é nossa política e não é só para os pobres mas para todos." (E09)
"O portfólio me ajudou a interligar as coisas, no início achava os textos muito difíceis, mas tinha que ler muito para fazer as reflexões, pensava - Meu Deus, não vou conseguir!!! - mas isso me ajudou e entender os paradigmas de saúde e o quanto está enraizado na gente um olhar biológico e fragmentado do ser humano, no portfólio tinha a chance de não decorar isso, fazia desenhos e usava da criatividade para expressar o que estava aprendendo e sentindo." (E10)

Autonomia e Liberdade
"No portfólio podemos colocar aquilo que a gente achar interessante, mesmo que a professora oriente sobre os passos que a gente deve seguir. Não é uma coisa fechada, podemos exercer nossa criatividade, colorir, pintar, desenhar, sintetizar, fazer esquemas fazendo relação com que estamos aprendendo em sala de aula." (E55)
"O interessante é que a gente faz no portfólio, a gente pesquisa, tem um pouco da gente no portfólio. Mesmo que a professora avalia e fala a opinião dela, a gente pode fazer por a gente mesmo. Por exemplo, tinha uma parte que denominamos: "Olha o que achamos", nós é que buscamos, nós é que fizemos e encontramos e não o professor que falou com a gente, nós descobrimos, acho que assim a gente aprende melhor." (E43)
"Se teve algo que aproveitei com o portfólio foi aprender a buscar as coisas, a refletir sobre elas e ter que argumentar no grupo que aquilo que tinha achado era importante. Sempre recebi pronto e exigia isso do professor, receber pronto. Passei aperto no portfólio com isso, tinha que buscar, correr atrás e defender minha ideia." (E67)
"Não aprendo sob pressão, recuo quando a coisa me prende, parece que bloqueio, reparei isso nesse semestre, aquela disciplina que tinha uma direção boa, mas que me dava liberdade para eu fazer e construir me saí melhor. Acho que as coisas precisam ter leveza, ter prazer de fazer." (E27)

Crítica-Reflexão
"Se tem uma coisa que aprendi com o portfólio, foi a não aceitar tudo que me falam como verdade, por exemplo sempre achei que o SUS era para pobres, que o SUS era ruim. A mídia só apresenta o lado negro do SUS. Então aprendi a ter um pensamento mais crítico - será que isso é verdade? E a buscar o porquê das coisas." (E24)
"No portfólio a gente era forçado a pensar, a refletir, a professora sempre pedia para a gente colocar outros pontos de vista e discutir com os autores, achava difícil fazer isso, não estou acostumada, mas depois fui vendo o quanto cresci, hoje vejo uma reportagem e não aceito tudo que dizem como verdade absoluta." (E41)
"Engraçado falar que precisamos refletir, parece tão óbvio, a gente pensa o tempo todo, mas quando paramos para pensar sobre isso vimos o quanto estamos alienados, e o portfólio me fez ver o quanto estou assim. Colocamos no portfólio muitas coisas sobre os protestos contra a corrupção no Brasil e fiquei pensando o quanto tudo isso mexeu comigo, o quanto estava longe das coisas que acontecem no mundo." (E33)

Os estudantes salientaram a autonomia e a liberdade como pontos-chave no processo de construção do portfólio, o que leva a uma reconstrução de seu papel como agente no processo de aprendizagem. Nos relatos, foram identificados o eu como sujeito em ação: “eu faço”, “eu pesquiso”, “eu busco”, “eu encontro”, demonstrando a mudança no seu papel de agente passivo para ativo. A liberdade de expressão e a busca ativa são destacadas nas comparações com outros instrumentos de avaliação, como as provas e trabalhos tradicionais de grupo. Nessa linha, ressalta-se a liberdade na elaboração de atividades, expressando opiniões, criando ideias, colocando o que consideram relevante e significativo para a construção de sua própria aprendizagem. Assim, autonomia e liberdade caminham juntas nesse processo. O rigor metodológico do método não retira a possibilidade de expressar e construir a aprendizagem com liberdade e autonomia; pelo contrário, incentiva o exercício dessas competências.

Também, de acordo com a percepção dos estudantes, a reflexão e a crítica são elementos de destaque do portfólio, destacando-se a possibilidade de aprender para além da compreensão dos conteúdos, ampliando os horizontes, colocando em xeque o que é apresentado pela mídia e demais fontes de informação.

Não obstante, apesar de a autonomia e criatividade serem estimuladas durante toda a construção do portfólio, o fator tempo, o processo de reflexão, o uso do portfólio em um contexto de ensino tradicional, e o trabalho em equipe aparecem como fatores de incentivo e/ ou dificultadores (Quadro 4). É curioso, no apontamento dos estudantes, o fato de a universidade não ser um espaço para a reflexão e, sim, de decoreba e memorização de conteúdos.

Quadro 4 Pontos de incentivo e/ou dificultadores apresentados pelos estudantes no processo de construção. 

O tempo
"O portfólio é interessante, mas muito trabalhoso, precisa dedicar muito tempo. Fazer prova é mais fácil pelo tempo que temos." (E83)
"Criamos um grupo no facebook e isso nos ajudou muito, a gente não tinha tempo de encontrar toda semana porque no grupo tinham pessoas de turma diferentes e de cursos diferentes, mas no grupo a gente conversava quase todo dia e discutíamos as reportagens, artigos e charges que encontrávamos." (E101)
"Tempo é algo que todo mundo reclama, mas fazer o quê? Temos que dar conta e nos virarmos para fazer o trabalho e bem. Temos é que nos organizarmos melhor - Gestão do Tempo. Todo mundo deixa para a última hora. Acho que a gente não sabe estudar." (E72)

A reflexão
"Não sei, achava estranho avaliar aquilo que penso e que reflito, é algo muito meu. Tenho dificuldades de separa o que é dos autores do que é meu, às vezes acho que não tenho maturidade para discutir com autores, por isto o portfólio ajudou a exercitar o processo de reflexão." (E75)
"Penso que refletir é colocar minha opinião. É difícil, nunca tinha parado para pensar nisso. Às vezes, acho que o que mais vale é colocar a opinião de outros autores e não a minha, realmente preciso exercitar a reflexão e isto a universidade não nos dá chance para fazer." (E56)
"Na universidade não temos espaços para refletir e pensar. Aprendemos a decorar e repetir o que o professor passa. Ler slides, leio em casa. O Portfólio me deu a oportunidade de realmente pensar e exercitar a reflexão." (E51)

O portfólio como método inovador em um contexto de ensino tradicional
"Não temos o costume de fazer um trabalho assim, pra gente é difícil. Fomos entender o que era um portfólio no meio do semestre. Não sabemos fazer reflexão, usar de criatividade, isso só fazíamos no primário." (E29)
"Fazer o portfólio é muito bom, o ruim é que faço 33 créditos só neste semestre, é o que tá na grade curricular. O portfólio exige dedicação não tenho tempo como gostaria." (E13)

O portfólio como método inovador em um contexto de ensino tradicional
"Começamos fazer o portfólio como se fosse uma pasta, na primeira avaliação colocamos as informações e pronto. Aí a professora veio e disse que era importante colocar o que o grupo também pensava a partir do que era lido. Tive que fazer um giro de 180 graus da minha cabeça, na universidade a gente aprende a colocar as informações dos outros, a decorar o que eles falam e ficar com a opinião deles e não formar a nossa. Foi difícil para mim, o portfólio realmente mexe com a gente." (E31)

O trabalho em equipe
"No final da construção do portfólio, tivemos de redigir um texto, o legal é que tivemos que trabalhar isso, chegar a um consenso, ai nós cinco estávamos lá fazendo, e no início não fluía nada, mas a gente pensava, escrevia uma frase, apagava e de repente, começou a aparecer uma chuva de ideias, todo mundo começou a falar ao mesmo tempo. Ficou legal, ficou tão bonito que a gente não acreditava tínhamos a capacidade de escrever aquele texto. Parecia uma coisa muita científica. Daí, percebemos que só conseguimos porque cada um deu uma ideia, pôs algo seu ali, aí eu falei 'realmente nenhuma de nós somos tão boas quanto todas nós juntas, e foi muito bonito sabe? Este trabalho com o outro de cooperação' e só foi possível porque tínhamos a liberdade de construir no portfólio e exercitamos isto." (E05)
"Trabalhar em equipe é algo pra mim difícil. No portfólio não dava para dividir as atividades como nos outros trabalhos e ainda era preciso chegar a conclusões e decidir tudo juntos. Acho mais fácil fazer eu mesma, pegar minha parte e fazer, as pessoas são difíceis, tem gente que não leva a sério. Por outro lado é isso que vou viver lá fora, e tenho que aprender a lidar com isto né?" (E76)

No processo de construção do portfólio, o trabalho em equipe foi crucial para a determinação de uma aprendizagem consolidada. Em grupo, os estudantes destacaram a possibilidade de aprender questões que ultrapassam os conteúdos, para além do ensino tradicional. Aprendem a ser mais pacientes, a respeitar as diferenças, a ser mais solidários e compassivos, e descobrir, na amizade e parceria, a possibilidade de construírem algo juntos. O destaque, em comparação com os trabalhos tradicionais, refere-se à possibilidade de atuação de todos os membros do grupo, cada um dando sua contribuição com suas habilidades pessoais e específicas, além da possibilidade de exercitar o gerenciamento de conflitos tão comum no trabalho em equipe.

Os estudantes apontam o processo de aprendizagem propiciado pelo portfólio como profundo, e não superficial; como algo que fica na memória, que não se esquece. Todos os atributos e núcleos encontrados dimensionam o portfólio como uma possibilidade de inovar a forma tradicional de aprender. Mesclado com o antigo, tomam o novo; remodelando-o para a construção de um saber que permanece e que interfere na forma de ser desses estudantes. Apreendem o portfólio como possibilidade – mesmo diante das dificuldades do meio e do tempo – de avançarem em seu processo de formação profissional.

Quanto à apreensão do portfólio como método de avaliação, a dificuldade e incorreções são percebidas como oportunidades, e não como incapacidades e fraquezas (Quadro 5). Foram comuns, nas falas dos estudantes, os seguintes termos: “posso errar”, “sei o que errei”, “tenho a chance de modificar”, “posso corrigir” e “posso reescrever”. A oportunidade de interação com o professor, nos momentos da avaliação, também é destacada como ponto forte. Os estudantes ressaltam que é nessa relação dialógica, entre professor e estudante, que se dá a transformação do processo de ensino e aprendizagem e, especialmente, de avaliação, estimulando a autonomia, a criatividade e o empoderamento.

Quadro 5 Representações sociais dos estudantes quanto ao processo de AVALIAÇÃO propiciado pelo portfólio 

O erro como oportunidade
"Eu acho o portfólio um método mais justo de avaliação, porque muitas vezes a prova é uma cópia, você decora para a prova, horas depois você não se lembra de mais de nada. Além disso, você não pode errar, não pode concertar. Às vezes, nem sei por que errei e fico o resto do curso sem saber e repetindo o erro. No portfólio você realmente constrói a aprendizagem, e não esquece mais." (E16)
"O portfólio permite voltar naquilo que você não sabe e modificar. Passo a entender o porquê errei, onde está o problema. Acho isso bom pra gente, na universidade às vezes não temos tempo para parar e refletir sobre aquilo que fazemos. Às vezes, os professores dão as provas e a gente nem sabe onde errou e nem por que; eles não mostram a prova e a gente também não vai atrás." (E13)
"Lembro do dia da avaliação que a professora falou que a gente não estava colocando reflexões, nossa opinião, e que colocávamos as notícias e pronto. Dai realmente vi que estávamos fazendo uma pasta e não o portfólio. Com isso, o grupo percebeu que estávamos errando nisso e tivemos a chance de concertar e na próxima avaliação tinha mais de nós no portfólio. A gente não está acostumado com isso, a pensar sobre o que erramos." (E07)
"Nunca gostei de me avaliar, me culpo, tanto que nunca fui atrás de professor para ver minhas notas. Deixo pra lá. Tanto que nos momentos de avaliação ficava angustiada e com medo da professora. Nas avaliações do portfólio vi que não era tão ruim assim, que me ajudou a ver falhas e poder concertar." (E10)

O processo de interação
"O trabalho de construção do portfólio me fez conhecer mais o grupo, tivemos uma interação e integração que me surpreendeu. No início não conhecia o grupo, não tinha convivência com as meninas e depois criamos laços de amizade de trabalho de grupo que vou levar comigo sempre." (E35)
"Sabe o que é trabalhar em equipe? Tivemos uma interação ótima. Todos do grupo se envolviam e cada um fazia o que fazia de melhor. Alguns tinham dons artísticos e habilidades de criatividade, outros escreviam bem, outros tinham espírito de liderança, então isso se somou e deu certo." (E99)
"A interação com a professora se dava especialmente nos momentos de avaliação. Era importante, porque aí a gente sabia o que realmente ela queria, ela sempre dava dicas para as próximas avaliações. Então a gente crescia com isso. Tinha muito medo do portfólio no início, depois que entendi...agora não quero entregar, é meu." (E81)

Ambiente acolhedor: transparência de critérios de avaliação, não-punição e avaliação apreciativa.
"Se tem uma coisa que gostava no portfólio era saber o que iria ser cobrado, a gente nunca sabe o que querem da gente. A professora passava um material para a gente fazer a autoavaliação pelo grupo e fazia a avaliação e entregava pra gente, isso era muito bom porque a gente via o que precisava mudar." (E18)
"Era diferente de uma prova que a gente fica tenso. O clima era diferente, e porque a gente podia concertar a gente ficava mais tranquilo. Era possível melhorar depois, isso era bom." (E01)
"Era bom mostrar o que a gente tinha feito. O trabalho era muito, então a gente queria apresentar para a professora, a gente tinha orgulho do nosso portfólio. Era bom mostrar o que tínhamos aprendido e não era uma coisa tensa, de pressão." (E44)

Assim, os estudantes destacam o ambiente acolhedor, com transparência dos critérios de avaliação, de forma apreciativa e não punitiva, permitindo uma formação construtiva em que o erro é apresentado como uma possibilidade de aprendizado. A Figura 1 apresenta uma síntese dos resultados, apontando o portfólio como um método potencializador de mudanças e transformador do contexto estudantil.

Figura 1 Representação social dos estudantes de graduação dos cursos na área de Saúde sobre o processo de aprendizagem propiciado pela construção do portfólio, na perspectiva de mudança do cenário e do contexto estudantil em uma universidade federal. 

Discussão

O contexto de educação tradicional, fortemente marcado pela disciplinaridade 10 , dificilmente prepara nossos jovens para viverem a complexidade que caracteriza o mundo atual. O ensino fortemente influenciado pela tradição ocidental, que privilegia “o pensamento lógico matemático e a racionalidade, não potencializa o desenvolvimento global do ser pessoa, e facilmente discrimina ou perde os que não se adaptam a este paradigma” 10 (p. 19). É nesse cenário que se inscreve o portfólio como método inovador de ensino, aprendizagem e avaliação, trazendo, em seu bojo formativo, uma práxis educativa diferenciada, que propicia, aos estudantes, uma forma alternativa de aprender, e abre espaços para a transformação da aprendizagem significativa e para a vida.

Moscovici 4 , ao apresentar a TRS, destacou basicamente a existência de dois processos distintos na transposição dos elementos objetivos para o meio cognitivo, e vice-versa: objetivação, cujas ideias abstratas se transformam em imagens concretas, por meio do reagrupamento de ideias e imagens focadas no mesmo assunto; e a ancoragem, cujas ideias se prendem com a assimilação das imagens criadas pela objetivação, processo no qual novas imagens se juntam às anteriores, nascendo, assim, novos conceitos.

Nesse contexto, o portfólio é apreendido, numa perspectiva cognitiva, pelos estudantes a partir destes dois processos: a objetivação, à medida que transformam uma ideia abstrata do portfólio em uma ideia concreta (por meio dos conceitos estudados e formulados); e a ancoragem, em que novas ideias desse processo inovador se reúnem às imagens de um ensino que deveria, e poderia, ser diferente (ideias anteriores), nascendo novos conceitos ou novas ideias, ou seja, o portfólio permite pensar, refletir, criar o estudante como agente desse processo.

Moscovici 4 (p. 20) argumentou “que o propósito de todas as representações é tornar algo não familiar, ou a própria não familiaridade em familiar. A familiarização é sempre um processo construtivo de ancoragem”, o que, neste estudo, é verificado pela familiarização dada pelos estudantes ao processo de construção do portfólio. O que era estranho no portfólio (desenvolvimento da criatividade, da reflexão, entre outros), desconhecido, distante da realidade universitária, passa a fazer parte do cotidiano dos estudantes.

É interessante perceber que esse processo não se dá apenas no âmbito cognitivo de um objeto particular, mas, também, quando o sujeito (indivíduo ou grupo) adquire capacidade de definição, uma função de identidade 4 . Assim, salienta-se que os estudantes se colocam e se veem como sujeitos afetados por um sistema estudantil que determina uma condição de aprendizagem associada à nota e à memorização. Segundo Jodelet ( apud Moscovici, 2003) 4 , “a representação é uma forma de conhecimento prático e refere-se à experiência a partir do qual ele é produzido e, sobretudo, ao fato de que a representação é empregada para agir no mundo e nos outros” (p. 43).

A partir da experiência vivenciada pelos estudantes deste estudo, novos caminhos são, assim, apresentados para uma atitude e uma forma de agir diferenciada no processo de aprendizagem. A atitude mais marcante e intrigante apresentada pelos estudantes é o processo de crítica e reflexão, algo apontado, por eles, como não proporcionado, em geral, no ambiente estudantil. É aqui que se dá a identificação dos estudantes como sujeitos ativos, em que o processo de representação demarcado por eles traz mudanças na forma de agir. É na reflexão que se identifica a possibilidade de sair de uma atitude passiva para uma atitude que proporcione mudanças no cenário de ensino tradicional. Sá Chaves (p. 13) 2 apontou que “a reflexão é um modo de fazer reviver e de fazer a recaptura da experiência com o objetivo de inscrever num sentido, de aprender a partir dela e de, nesse processo, desenvolver novas compreensões e apreciações”. Assim, da práxis de construção do portfólio, dois outros elementos se destacaram: a liberdade e a autonomia, que podem ser analisadas a partir dos conceitos dos ilustres pensadores de nossa época: Amrtya Sen 3 e Paulo Freire 11 . Esses dois conceitos se entrelaçam − a autonomia deve ser conquistada, adquirida a partir de decisões, de vivências e pela própria liberdade. A autonomia, além da liberdade de pensar por si, além da capacidade de guiar-se por princípios que concordem com a própria razão, envolve a capacidade de realizar, o que exige uma atitude de ser consciente e ativo − assim, o sujeito passivo é contrário ao sujeito autônomo 11 . Sen 3 , ao discorrer sobre o desenvolvimento como liberdade, apresentou dois elementos importantes: a capacidade, que representa as possíveis combinações de potencialidades e situações que uma pessoa está apta a “ser” ou “fazer”; e a funcionalidade, que representa as várias coisas que esta pessoa pode, de fato, fazer.

Nessa perspectiva, o portfólio atuou como elemento facilitador de uma educação formativa a partir do momento que permitiu, aos estudantes, atuarem como agentes de seu próprio processo de construção da aprendizagem, com autonomia para realizarem suas buscas, reformulando suas ideias e apresentando-as de forma crítica e reflexiva, bem como abrindo espaços de liberdade para criar e recriar 12 .

Considerações finais

Considerando os achados deste estudo, destaca-se que o processo de aprendizagem vivenciado pelos estudantes a partir da construção dos portfólios permitiu que estes representassem esse fenômeno social, apontando elementos que o caracterizam como método que investe na transformação de uma prática de ensino tradicional para uma prática inovadora. Isso com vistas à qualificação de futuros profissionais de saúde que conjuguem elementos de integração e reflexividade, tão necessários na solução dos problemas complexos da sociedade contemporânea.

A realidade estudantil foi interpretada pelos estudantes como um sistema regido por notas e coeficientes de rendimento que os classifica como aptos ou não aptos. Um contexto que determina uma formação do fazer, e não do ser. Os discentes interpretam o portfólio como um método inovador, que permitiu a aprendizagem autônoma, libertadora, reflexiva, crítica, criadora, reunindo, assim, os elementos de uma formação para o ser. Traz subsídios para que, no processo de reflexão-ação, emerja a identidade (ser estudante) capaz de trazer mudanças no contexto estudantil. No entanto, devido a elementos que influenciam essas modificações, como o formato curricular tradicional, disciplinar e conteudista, surgem conflitos referentes à gestão do tempo, em geral escasso, e ao trabalho em equipe, o que pode se transformar em elementos dificultadores do processo de aprendizagem inovador.

Cabe destacar, ainda, a importância do portfólio como método inovador do processo de avaliação. Na percepção dos estudantes, a avaliação proporcionada pelo portfólio é parte integrante do processo de aprendizagem, o que contribui para uma argumentação favorável às metodologias inovadoras de ensino e aprendizagem.

Sugere-se, assim, que outros estudos sejam realizados a fim de corroborar evidências significativas e suficientes que subsidiem as mudanças necessárias no processo ensino-aprendizagem, seja na (re)formulação de currículos mais integrados, seja na capacitação de professores no uso de metodologias ativas e inovadoras, seja, ainda, na organização da estrutura institucional, (re)qualificando a forma de ensinar, aprender e avaliar.

Referências

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Financiamento

Estudo financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Capes (processo n. 23038.009788/2010-78; AUX-PE-Pró-Ensino na Saúde, 2034/2010).

Recebido: 03 de Março de 2014; Aceito: 08 de Julho de 2014

Colaboradores

Glauce Dias da Costa responsabilizou-se pela idealização da temática, coleta e análise dos dados, bem como, a redação do texto. Rosângela Minardi Mitre Cotta responsabilizou-se pela construção do método portfólio coletivo, orientação na coleta e análise dos dados, e revisão crítica do texto escrito.

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