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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

Print version ISSN 1414-3283On-line version ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.23  Botucatu  2019  Epub Apr 15, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/interface.170940 

Artigos

O que os valores-notícia podem nos dizer sobre o Sistema Único de Saúde? Explorando aportes teórico-conceituais da noticiabilidade *

What do news-values say about the Brazilian National Health System? Exploring the theoretical-conceptual frameworks of newsworthiness (abstract: p. 15)

¿Qué nos dicen los valores-noticias sobre el Sistema Brasileño de Salud? Exploración de aportes teórico-conceptuales de la noticiabilidad (resumen: p. 16)

Andrea Langbecker(a) 
http://orcid.org/0000-0001-5292-8220

Marcelo Eduardo Pfeiffer Castellanos(b) 
http://orcid.org/0000-0002-4977-5574

Daniel Catalan-Matamoros(c) 
http://orcid.org/0000-0002-3086-6812

(a)Universidade Federal da Bahia. Rua Basílio da Gama, s/nº, bairro Canela. Salvador, BA, Brasil. 40110-040. <alangbecker@hotmail.com>

(b)Instituto de Saúde Coletiva, Universidade Federal da Bahia. Salvador, BA, Brasil. <mcastellanos@ufba.br>

(c)Departamento de Periodismo y Comunicación Audiovisual, Universidad Carlos III de Madrid. Madri, Espanha. <dacatala@hum.uc3m.es>


RESUMO

Valores-notícia são atributos intrínsecos aos fatos que os potencializam como candidatos à notícia. Este trabalho tem como proposta refletir sobre as bases teórico-conceituais que cercam a notícia e podem sustentar escolhas analíticas para se estudar a cobertura jornalística sobre o Sistema Único de Saúde. Discute, comparativamente, as tipificações desenvolvidas pelos autores Traquina e Silva sobre os valores-notícia de seleção. Silva atualiza a classificação de Traquina ao acrescentar os valores-notícia: ‘conhecimento’, ‘entretenimento/curiosidade’, ‘governo’ e ‘justiça’. Essa autora considera que alguns valores atuam como pré-requisitos na seleção noticiosa, sendo considerados, por isso, como macrovalores-notícia. Destacamos ainda os valores ‘interessante’ e ‘importante`, que abrangem todo o campo da noticiabilidade. Essas variáveis podem dizer muito sobre a realidade social, mostrando-se categorias potentes de análise da cobertura jornalística em saúde.

Palavras-Chave: Critérios de noticiabilidade; Valores-notícia; Sistemas públicos de saúde

ABSTRACT

News-values are factors intrinsic to facts that determine their potential as news stories. The present study proposes a reflection on the theoretical-conceptual framework that structures the news and that support the analytical choices to study the news coverage of the Brazilian National Health System (SUS). Comparatively, it discusses the typology developed by authors Traquina and Silva about the selected news values. Silva adds to Tranquina’s classification by adding news values “knowledge”, “entertainment/curiosity”, “government”, and “justice” The author considers that some values act as criteria when selecting the news, thus considered macro news values. Furthermore, the values “interesting” and “important” encompass the entire field of newsworthiness. These variables say a lot about social reality, proving to be powerful categories of analysis of news coverage in health.

Key words: Newsworthiness criteria; News values; Public health systems

RESUMEN

Valores-noticia son atributos intrínsecos a los hechos que los potencializan como candidatos a la noticia. Este trabajo tiene la propuesta de reflexionar sobre las bases teórico-conceptuales que cercan a la noticia y pueden sustentar elecciones analíticas para estudiar la cobertura periodística sobre el Sistema Brasileño de Salud. Discute comparativamente las tipificaciones desarrolladas por los autores Traquina y Silva sobre los valores-noticia de selección. Silva actualiza la clasificación de Traquina al añadir los valores-notica ‘conocimiento’, ‘entretenimiento/curiosidad’, ‘gobierno’ y ‘justicia’. Dicha autora considera que algunos valores actúan como requisitos previos en la selección noticiosa, siendo considerados, por lo tanto, como macro-valores-noticia. Subrayamos también los valores ‘interesante’ e ‘importante’ que incluyen todo el campo de la noticiabilidad. Esas variables pueden decir mucho sobre la realidad social, mostrándose como categorías potentes de análisis de la cobertura periodística en salud.

Palabras-clave: Criterios de noticiabilidad; Valores-noticia; Sistemas públicos de salud

Introdução

A mídia ocupa um lugar de destaque nas sociedades contemporâneas 1 . Desempenha um papel relevante no processo de seleção do que vai ou não tornar-se público, entre uma série de acontecimentos que compõem o cotidiano 2 , além de atuar como formadora de opinião 3 .

O estudo do jornalismo ao longo do século XX até os dias atuais tem buscado compreender a complexidade dos processos que envolvem a noticiabilidade. Enfocamos aqui, sobretudo, o reconhecimento, por parte de autores como Sousa 4 , Traquina 5 , Silva 6,7 , Wolf 8 e Silva et al. 9 , de que existem critérios que são utilizados para selecionar as notícias: desde características ou atributos presentes nos próprios fatos, que os potencializariam a candidatos a notícia – os chamados valores-notícia –, passando pelo julgamento dos jornalistas, relações com as fontes e a audiência, além de fatores éticos, políticos, econômicos e sociais. O processo de produção de notícia seria resultante desse caldo de fatores que envolvem a noticiabilidade e, por isso, torna-se um fenômeno complexo de se apreender.

A análise dos valores-notícia pode ser em um sentido amplo 10 ou focando temas específicos 11 . Sousa e Lima 10 – ao analisarem dois jornais portugueses do século XVII – concluíram que foi notícia naquela época o que ainda é notícia hoje: morte(d), conflito(e), personalidades de elite(f), o insólito(g), a proximidade(h) e a atualidade(i). Para esses autores, os jornalistas, nos diversos países, tendem a partilhar valores-notícia semelhantes, apontando para uma cultura noticiosa comum. O estudo de Traquina 11 corrobora com essa concepção. Ao analisar a cobertura sobre a Aids em cinco jornais de quatro países, situados em três continentes, constatou que a proximidade geográfica foi um valor-notícia predominante nesses meios de comunicação.

Essa questão da noticiabilidade reveste-se ainda mais de relevância quando buscamos refletir sobre quais os critérios que norteiam o processo de seleção de fatos que podem ter um alto impacto social, como, por exemplo, aqueles relacionados às dimensões do direito à saúde. É o caso da seleção de notícias sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), englobando um emaranhado complexo de temas, como questões relacionadas: ao funcionamento, os profissionais de saúde, os usuários, a prestação de serviços, a gestão, o financiamento e as políticas de saúde.

Como não encontramos estudos empíricos sobre o SUS com essa abordagem (critérios de noticiabilidade), buscamos outras referências em países cujos sistemas de saúde são similares e que possam ser o ponto de partida para ampliar nossa discussão sobre a noticiabilidade. Um trabalho já considerado clássico é o de Best et al. 12 . Eles verificaram que os valores-notícia poderiam ser traduzidos por meio das “estórias” publicadas pelos meios de comunicação, como a inauguração de serviços de saúde ou a disponibilidade de equipamentos.

Já Silva 3 considerou que a informação sobre saúde obedeceu aos “valores-notícia” dominantes – como a “espetacularidade(j)”, a “negatividade(k)”, a “controvérsia(l)”, a “proximidade(h)” e a “novidade(i)” –, ao despertar o lado emocional do público, o que poderia contribuir para uma imagem negativa do sistema público de saúde português. García-Latorre e Gobantes-Bilbao 13 constataram que as notícias relacionadas com a saúde pública tiveram peso como valor-notícia no contexto do Estado de Bem-Estar Social espanhol.

Que pese a contribuição desses autores na análise da cobertura jornalística sobre esses sistemas, identificamos uma tessitura similar na forma como apresentaram esses critérios de noticiabilidade com conceituação e embasamento teórico praticamente inexistentes. É exatamente nesse ponto que este artigo busca colaborar, ao trazer elementos que contribuam para uma maior compreensão dos complexos processos de seleção de notícias. Consideramos, como destaca Silva 7 , que os valores-notícias servem como categorias operacionais de análise, que favorecem a identificação de semelhanças e diferenças nos critérios empregados pelos meios de comunicação, mas não são estanques e só fazem sentido se analisados levando em conta o seu entorno cultural e histórico.

A partir dessas questões, este estudo propõe-se a apresentar e discutir bases teórico-conceituais sobre a noticiabilidade que podem sustentar possíveis escolhas analíticas sobre o processo de seleção de notícias sobre temas de interesse para a Saúde Coletiva, como, no caso, do sistema público de saúde.

A escolha por se conectar a esse tema centra-se na sua importância social. Partimos da premissa de que a mídia pode contribuir para a mobilização a favor ou contra as escolhas políticas e as estratégicas adotadas pelas autoridades governamentais em relação ao SUS. A cobertura jornalística não apenas reflete visões e representações sobre o objeto em questão, mas produz perspectivas, propõe questões, gera e/ou reforça tensionamentos. Por isso, a iminência de se debruçar sobre aspectos que norteiam o processo de seleção de notícias sobre essa temática: o que leva determinado fato a ser selecionado entre uma infinidade de acontecimentos diários sobre o SUS? Tal pergunta pode ser o fio condutor de futuros estudos empíricos com base nos aportes teórico-metodológicos que este estudo propõe-se a apresentar.

O surgimento da notícia

A publicação de notícias como conhecemos – com estilo imparcial e objetivo – foi uma invenção que começou com a imprensa popular americana (imprensa penny ) a partir de 1830 14 . Até esse período, predominava a imprensa política, opinativa ou ‘de partido’, e esperava-se que os jornais americanos apresentassem um ponto de vista partidário, em vez de uma posição neutra 15 . Na verdade, não havia a publicação de notícias com o perfil atual, contendo mais textos opinativos e editoriais, estes considerados o gênero de ouro na era popular da imprensa americana desse período 16 .

As mudanças que ocorreram a partir desse momento contribuíram para o êxito da notícia sobre o editorial e dos fatos sobre a opinião, fazendo com que o editorial começasse a perder seu lugar de destaque. A notícia tornou-se o centro do jornal diário, o ponto de rivalidade entre os jornais, ocupando o espaço que era, antes, dos editoriais, que entraram em declínio. Ocorreu, a partir desse momento, uma separação entre opinião e notícia 14,16 , marcada por uma “ideologia profissional que privilegia(va) a informação objectiva” 16 (p. 93).

Surgia um novo jornalismo que favorecia a informação, distinção vinculada a um conceito de notícia que separava fatos de opiniões: uma mudança de um jornalismo de opinião para um jornalismo de informação. A partir do momento que as notícias começaram a ser tratadas como um produto, houve uma padronização na forma de escrever a notícia, o que chamamos, hoje, de “pirâmide invertida”, enfatizando o parágrafo de abertura, o lead(m).

Embora, na Europa e na América Latina, o cenário jornalístico fosse dominado pela imprensa política durante toda a primeira metade do século XIX, o jeito americano de fazer jornalismo (penny press) atravessou fronteiras e logo teve sucessores no Velho Continente, influenciando o jornalismo em todo o mundo 15 .

Para Sousa 15:

Na Europa também se começaram a propor jornais predominantemente noticiosos e populares a um mercado crescentemente ávido de informações, como prova o surgimento do primeiro jornal popular europeu que seguiu o receituário discursivo e funcional da primeira geração da pennypress norte-americana: o periódico francês La Presse, nascido em 1836 [...]. (p.106)

Essa incorporação lenta do estilo americano também se deve, além da larga tradição política no jornalismo europeu, à grande influência da literatura, sobretudo nos jornais franceses 18 . No Brasil, até a Segunda Guerra Mundial, a principal referência do jornalismo brasileiro era francesa 19 , intensificando-se, depois, a influência americana 20 . Entretanto, é importante destacar que trouxemos aqui os modelos mais significativos, o anglo-saxônio e o francês, por representarem modos de produção distintos que influenciaram, no decorrer dos séculos XIX e da primeira metade do século XX, o jornalismo em muitos países. Nos referimos a influências que podem, inclusive, se entrecruzar, não de algo homogêneo, considerando que foram incorporadas de forma distinta, dependendo das características de cada país.

Estudos sobre a noticiabilidade: de Tobias Peucer a Traquina

A primeira tese acadêmica, no mundo ocidental, considerada um embrião sobre os estudos de noticiabilidade foi defendida pelo pesquisador alemão Peucer 21 – na Universidade de Leipzig, no final do século XVII(n)4,6 . O trabalho colocou, na época, a Alemanha como vanguarda nos estudos da área. O estudo mostra-se atual por trazer elementos que compõem a seleção de notícias. Para o autor, como os fatos são “infinitos”, é necessário selecionar aqueles que “merecem ser recordados ou conhecidos” 21 (p. 21). Seriam eles:

[...] os prodígios, as monstruosidades, as obras ou os feitos maravilhosos e insólitos da natureza ou da arte, as inundações ou as tempestades horrendas, os terremotos [...] as diferentes formas dos impérios, as mudanças, os movimentos, os afazeres da guerra e da paz [...], os decretos, os escritos mais notáveis dos sábios e doutos, as disputas literárias, as obras novas dos homens eruditos, as instituições, as desgraças, as mortes [...] 21 . (p. 21)

O autor 21 também chamava a atenção de que se deveria levar em conta o interesse dos leitores pelos fatos novos. Destacava ainda que as notícias seriam mais agradáveis se se referissem às pessoas notáveis, mostrando já a importância atribuída às elites.

Dando um pulo geográfico e de tempo, esta longa tradição dos estudos de jornalismo na Alemanha foi que levou o jornalista e sociólogo norte-americano Robert Ezra Park a esse país, para sua tese de doutorado no final do século XIX. Park 22 chegou “à sociologia com o objetivo de definir conceitualmente a natureza e a função das notícias e a sua influência no comportamento das pessoas” (p.25). É considerado um pioneiro na pesquisa em jornalismo no mundo e um dos expoentes da escola de Chicago 16,23 , que se desenvolveu nas primeiras décadas do século XX(o). No seu artigo mais conhecido, “a notícia como uma forma de conhecimento”, publicado em 1940, Park 22 estabeleceu uma diferenciação entre o conhecimento científico e o conhecimento jornalístico, considerando-o similar ao conhecimento do senso comum. Para o autor, a notícia tem o papel mais de orientar do que de informar. Em sua concepção, não seria o jornalista que interpreta o fato para transformá-lo e, sim, cabe o leitor fazê-lo 22 . Para Ponte 16 , o olhar sobre o trabalho de Park 22 não pode ser visto sem considerar o contexto de sua produção: recém estava se construindo uma sociologia do jornalismo e os meios de comunicação eram bastante restritos.

Algumas discussões mais críticas somente iriam ocorrem no jornalismo a partir da década de 1960, o que não desmerece a contribuição do autor 16 . As pesquisas de Park 22 se anteciparam, por exemplo, aos estudos sobre os valores-notícia, a que o autor se referia como “valor da notícia” – conceito e tipificações que somente vão ganhar corpo posteriormente nos estudos da área, como veremos a seguir. Para o autor 22 , nem tudo o que é inesperado torna-se notícia, e há eventos que tanto foram notícia no passado como no presente. Nesse caso, são aqueles considerados esperados, simples e comuns, como: os nascimentos e mortes, casamentos e funerais, condições das colheitas e dos negócios, guerra, política, o estado do tempo. Espera-se que esses eventos ocorram, entretanto não se sabe quando, por isso também têm um caráter imprevisível 22 .

Critérios de noticiabilidade e valores-notícia

A notícia – matéria-prima do processo jornalístico e do trabalho do profissional da informação 24 – é compreendida aqui como uma construção social 25-27 , uma das “janelas no mundo” 26 , entre outras que o leitor acessa para compreender essa complexa realidade.

Concordamos com Silva 6-7 ao afirmar que critérios de noticiabilidade e valores-notícia não devem ser entendidos como sinônimos, e que se devem trazer à tona as especificidades que compreendem esses conceitos. Partimos da perspectiva de que “existem parâmetros que levam determinados fatos a receber uma valoração jornalística diferenciada no amplo conjunto dos acontecimentos cotidianos” 9 (p. 11).

Os valores-notícia, um dos critérios de noticiabilidade utilizados na seleção de notícias, são valores intrínsecos aos fatos que os potencializam a serem transformados em notícia, influenciando o processo de seleção. Para Orosa e Santorum 28 , são um dos principais filtros utilizados na produção jornalística.

Traquina 5 – em uma conclusão geral dos estudos sobre os conteúdos dos meios de comunicação – constatou que as notícias apresentam um “padrão” bastante estável, ou seja, valores-notícia: “que determinam se um acontecimento, ou um assunto, é susceptível de se tornar notícia, isto é, de ser julgado como merecedor de ser transformado em matéria noticiável e, por isso, possuindo valor-notícia” (p. 61). Dessa forma, não são critérios abstratos ou pontuais, mas, sim, fazem parte de um quadro de avaliação que é racionalizado e interiorizado pelos jornalistas.

Um conceito considerado clássico para se compreender a seleção de notícias é o de desvio: seriam os fatos que se desviam das normas com mais propensão de se tornarem notícia. Como exemplo, a definição(p) que se tornou emblemática no meio jornalístico: “quando um cachorro morde uma pessoa, isso não é notícia. Mas quando uma pessoa morde um cachorro, isso sim é notícia” 6,29 .

Para Abril Curto 30 , seriam as convicções, os acontecimentos e expectativas compartilhadas no cotidiano que fundamentam nosso sentido de realidade e que dão sentido à noticiabilidade da anedota citada. Porque, se tal fato realmente ocorresse, representaria uma quebra significativa dessas expectativas. E é exatamente esse rompimento de expectativas do comportamento humano que permite que a notícia tenha sentido. Entretanto, destaca o autor, uma notícia que trouxesse a metamorfose de um homem em cachorro se desviaria muito do marco de expectativas construídas socialmente. Um estudo que se baseou na concepção do desvio foi o realizado por Campos et al. 31 Os autores identificaram o valor transgressão como um critério que justificou a noticiabilidade da cobertura jornalística sobre a exploração sexual de crianças e adolescentes na capital mineira.

Segundo Silva 6 , a concepção do desvio lança “luz sobre a presença de possíveis “qualidades duradouras” na prática jornalista” (p. 37). Essas qualidades seriam os valores-notícia que influenciam o processo de seleção. Como chama a atenção Sousa 4 , embora o valor-notícia de um fato não lhe garanta automaticamente um espaço na mídia, considerando que há outros fatores que compõem essa dinâmica, é possível dizer que “se um fato for enquadrado e percepcionado como sendo notável e potencialmente noticiável devido à obediência a um ou vários critérios de noticiabilidade, então poderá mais facilmente vir a tornar-se notícia” (p. 40-1).

Os valores-notícia se originam de regras práticas que, implícita e/ou explicitamente, orientam e dirigem os processos de trabalho nas redações dos veículos midiáticos 8 . Nesse sentido, o processo de rotinização faz com que os jornalistas internalizem o esquema de produção das notícias e estabeleçam critérios quanto à seleção e a apuração dos fatos que podem se tornar notícia. Não seria viável que, a cada edição, os jornalistas tivessem de parar para decidir como selecionar os fatos 32 .

Os critérios utilizados para caracterizar o fato jornalístico e de pauta seriam – conforme destacam Barros Filho e Sá Martino 33 – frutos de uma interiorização da aprendizagem jornalística, de um habitus jornalístico, tomando como base o conceito de habitus , de Bourdieu 34 , o que nos possibilitaria entender “o modo como os padrões culturais intrínsecos na sociedade são transcodificados e disseminados na prática noticiosa” 35 (p. 154).

Para Bourdieu 36 , é por meio dos seus óculos particulares que os jornalistas “veem certas coisas e não outras; e veem de uma certa maneira as coisas que veem. Eles operam uma seleção e uma construção daquilo que é selecionado” (p. 25). Na concepção de Traquina 5 , esses óculos ou prismas utilizados pelos jornalistas seriam os valores-notícia, sendo reconhecidos, conforme destaca Silva 7 , por diferentes profissionais e meios de comunicação por serem: "Um mapa, código, perspectiva ou esquema que orienta o trabalho do jornalista, que os auxilia no campo do saber de reconhecimento. Esse saber de reconhecimento é a capacidade de identificar quais os acontecimentos que possuem valor como notícia" 7 (p.59).

Para Ericson et al. 37 , esses valores não são imperativos, mas elementos que ajudam o jornalista a identificar a importância dos acontecimentos e a fazer sua escolha dentre as possibilidades existentes: “são múltiplos, entrecruzados e difíceis de classificar” (p. 182).

É necessário reconhecer, entretanto, que os valores-notícia, assim como também destaca Pontes, são construídos a partir de referências sociais e culturais. Hartley 38 considera que os valores-notícias não se comportam de forma neutra nem de forma natural porque atuam como um código que percebe o mundo de uma forma bastante específica. São, na verdade, um código ideológico. Para Hall 39 , são um mapa cultural, que orienta os jornalistas, guiando-os a estabelecerem as fronteiras entre o que é considerado ou não desviante do normal, de acordo com o que faz sentido para o seu público. Esses mapas assumem que a sociedade busca o consenso, sendo, para o autor, uma noção basilar para a produção de notícias.

A pesquisa dos noruegueses Galtung e Ruge 40 , realizada em 1965, foi a que primeiro sistematizou, de forma mais consistente, os fatores(q) que influenciam o processo de seleção de notícias. Foi um dos estudos mais citados na literatura consultada, influenciando as investigações que ocorreram posteriormente.

Os autores analisaram o noticiário sobre a crise política nos países do Congo, Cuba e Chipre, e identificaram 12 fatores que compõem a noticiabilidade: frequência ou duração do acontecimento (compatibilidade entre o ritmo do acontecimento e a periodicidade do meio); amplitude (dimensão do acontecimento, que vai desde o número de pessoas envolvidas até a carga dramática do fato); clareza (quanto menor a ambiguidade, maior a notabilidade); significância (diz respeito à proximidade cultural e/ou relevância); consonância (pré-imagem mental; facilidade de inserir o “novo” em uma “velha” ideia que corresponda ao que se espera que aconteça); inesperado (acontecimento raro); continuidade (o que já foi notícia tende a continuar sendo, mesmo que tenha reduzida a amplitude ou tornado familiar o inesperado); composição (o valor de cada acontecimento varia de acordo com o equilíbrio do produto jornalístico como um todo); referência a nações de elite; referência a pessoas de elite (relevância do ator do acontecimento); personalização (possibilidade de ser visto em termos pessoais); negatividade (“ bad News is good News ”).

Para Silva 7 , apesar de um certo reducionismo teórico-conceitual nesse estudo com o qual aborda a complexidade do fenômeno, a “pesquisa constitui uma referência para os estudos que adotam jornais como recorte empírico por configurar uma das primeiras experiências teóricas de elaboração de uma tipologia para os critérios envolvidos na seleção de notícias” (p. 36). Para Hartley 38 , alguns dos valores apontados por esses autores são aplicáveis à seleção de notícias em todo o mundo. E outros já são mais ligados à cultura específica analisada.

Na Europa, Wolf 8 trouxe uma contribuição expressiva ao compreender que os valores-notícia estão presentes durante todo o processo de produção da notícia: desde a seleção dos eventos até a elaboração da notícia. Deriva dessa concepção a proposta de organizar os valores-notícia em duas categorias: os valores-notícia de seleção e os valores-notícia de construção. Traquina 5 , baseando-se então em Wolf 8 , propõe uma categorização de valores-notícia a partir de um compilado de outros autores, que não fizeram esse tipo de distinção, como é o caso dos estudos de Galtung e Ruge 40 e de Ericson et al. 37 . Para Silva 6 , essa separação entre valores de seleção e de construção marca um novo modelo de classificação, desempenhando um papel essencial nos estudos da noticiabilidade.

Os valores-notícia de seleção estão relacionados aos critérios que os repórteres/editores adotam ao escolherem se determinado fato será transformado em notícia ou deixado de lado. São, para Traquina 5 , critérios substantivos que têm a ver com a avaliação direta do acontecimento em termos da sua importância ou interesse como notícia. Já os valores-notícia de construção são qualidades da sua construção como notícia e funcionam como “linhas-guia para a apresentação do material, sugerindo o que deve ser realçado, o que deve ser omitido, o que deve ser prioritário na construção do acontecimento como notícia” 5 (p. 75).

No Brasil, Silva 7 – que vem se dedicando ao tema da noticiabilidade – elaborou uma categorização dos valores-notícia de seleção primária dos fatos (para Traquina 5 , seriam os valores substantivos) também a partir de um compilado de vários autores como: Wolf 8 , Lage 41 , Galtung e Ruge 40 , Bond 42 , Gans 43 , entre outros.

Considerando que Traquina 5 e Silva 6 trazem contribuições atualizadas sobre os valores-notícia, apresentamos, de forma comparativa, suas classificações sobre os valores de seleção, apontando as similaridades e ausências ( Quadro 1 ).

Quadro 1 Demonstrativo comparativo dos valores-notícia de Traquina 5 e Silva 6 (ordem alfabética) 

TRAQUINA SILVA
Conflito Agrega fatos relacionados a guerras, rivalidades, disputas, brigas, greves e reivindicações. Conflito Idem
Ausente Conhecimento Relacionado a descobertas, invenções e pesquisas: bastante utilizado nas seções de ciência e de saúde que centram sua linha editorial na cobertura científica, valorizando a descoberta de um novo medicamento e/ou tratamento de determinada doença.
Ausente Entretenimento/Curiosidade Fatos relacionados à aventura, divertimento, esporte e comemorações.
Escândalo Acontecimentos envolvendo escândalos e controvérsias. É, dependendo do veículo, um critério também bastante valorizado na hora de se decidir o que será notícia. Em alguns casos, a própria mídia estimula controvérsias ainda não existentes. Conflito Idem no conceito
Ausente Governo Temas de interesse nacional, decisões e medidas governamentais, inaugurações de instituições públicas, eleições, viagens e pronunciamentos de representantes do governo.
Inesperado Fatos que irrompem e surpreendem a expectativa: o mega acontecimento, um acontecimento com enorme noticiabilidade que subverte a rotina e provoca um caos na sala de redação. Ex: ataques em 11 de setembro. Surpresa Idem no conceito
Infração Compreende acidentes, violência/crime. Tragédia/Drama Além de acidentes, violência/crime, também considera as catástrofes, acidentes, risco de morte e morte, violência/crime, suspense, emoção e interesse humano, conforme descrito na categoria morte.
Ausente Justiça Compreende acontecimentos relacionados a julgamentos, denúncias, investigações, apreensões, decisões judiciais e crimes. Este critério pode ter mais força se estiver relacionado, por exemplo, ao critério de proeminência, considerando a notoriedade da pessoa envolvida.
Morte Compreende os fatos que envolvem morte. Tragédia/Drama Compreende as catástrofes, acidentes, risco de morte e morte, violência/crime, suspense, emoção e interesse humano.
Notabilidade Traz a dimensão numérica como um fator que impacta na hora de selecionar um fato para se tornar notícia: quanto mais pessoas são afetadas por determinado acontecimento, mais chances têm de este fato ser noticiado. Também faz parte desta categoria o número de pessoas envolvidas; e grandes quantias de dinheiro. Impacto Idem no conceito
Notoriedade Relacionada com a notoriedade do ator envolvido, sua importância social: se é alguém da elite e/ou uma celebridade. Às vezes, não há nenhuma informação relevante na notícia, mas o fato de um político, por exemplo, estar de passagem por determinada cidade, já é notícia. Proeminência Idem no conceito
Novidade O que é inédito ou fatos novos referentes a algo já conhecido. Ausente
Proximidade Geográfica ou cultural. Quanto mais próximo um acontecimento estiver do seu público, mas fácil de ser publicado. Proximidade Idem no conceito
Relevância Preocupação de informar o público sobre algo que tem impacto sobre a vida das pessoas. Decisões governamentais, mudanças na legislação, notícias de guerras, eleições, entre outros, representam critérios de relevância. Ausente
Tempo Atua de formas diferentes:1) quanto mais recente um fato, mais ele terá chances de ser noticiado. 2) o tempo no sentido em que uma data pode servir de pretexto para originar uma notícia, por exemplo, a cada 11 de setembro, desde o ataque às Torres Gêmeas, a cobertura jornalística relembra e/ ou repercute este fato. Ausente
Notabilidade Fatos considerados incomuns, originais ou inusitados. Aqueles que fogem à regra estabelecida socialmente. É um dos critérios considerados clássicos do jornalismo, cuja premissa é que quanto mais um acontecimento se desvia do padrão, mais chances tem de se tornar notícia. Raridade Idem no conceito .

Ao comparar as tipificações, verificamos que, para Silva 6 , “tragédia/drama” engloba uma série de características que, no caso de Traquina 5 , foram desmembradas em “morte” e “infração”. O mesmo ocorre com notabilidade que, para este autor 5 , engloba um leque de características; e, na avaliação de Silva 6 , são desmembradas em raridade e impacto.

Em alguns casos, o vocábulo que designa o valor não é o mesmo, mas o conceito sim, com “escândalo” para Traquina 5 e “polêmica” para Silva 6 “inesperado” e “surpresa”; e “notoriedade” e “proeminência”, respectivamente. Tanto polêmica/escândalo quanto notoriedade/proeminência são considerados valores fundamentais na prática jornalística. Ponte 16 identificou vários valores-notícia sobre o bem-estar das crianças europeias, mas a polêmica foi um dos atributos mais utilizados. Já a proeminência é um fator relevante de noticiabilidade, pois a celebridade ou a importância hierárquica das pessoas envolvidas no acontecimento, ou seja, o seu nome e posição social, tem alto valor como notícia 5 .

Silva 6 , ao se basear em um leque mais amplo de autores, atualiza os valores-notícia ao acrescentar conhecimento, entretenimento/curiosidade, governo e justiça, que não aparecem na listagem de Traquina 5 . O acréscimo de alguns valores parece pertinente, como é o caso de governo, sinalizando que é um fator que influencia na hora da seleção noticiosa, conforme já destacado no estudo de Gans 43 . Sendo uma referência, nos Estados Unidos, nos estudos de jornalismo, o autor 43 concluiu que a cobertura dos telejornais e revistas americanos analisados era direcionada às atividades do governo. Elas versavam sobre conflitos e desacordos; decisões e propostas governamentais e cerimônias; e pelas mudanças de cadeiras nos cargos públicos. O presidente dos EUA, por exemplo, sempre foi notícia, independente de ter feito algo significativo ou não.

Alguns fatores que não coincidem entre os dois autores estão relacionados àqueles considerados por Silva 6 como pré-requisitos indispensáveis do processo de seleção noticiosa. Por esse motivo, Silva 6 os considera como macrovalores notícia, termo cunhado pela autora, como, no caso do “tempo” (no sentido de o fato ser recente), “novidade” e “relevância” (importância), apresentados por Traquina 5 .

Silva 6 , ao referir-se aos valores-notícia “tempo” e “novidade”, avalia: “ser um fato atual ou um acontecimento portador de algum dado novo é o princípio primeiro do jornalismo” (p. 63). E, por este motivo, não constam na sua tipificação. Outros valores englobados como macrovalores, segundo a autora, são: interesse, negativismo, imprevisibilidade, coletividade e repercussão. Sem esses valores antecedendo os demais, chamados de microvalores, estes nem seriam acionados para a seleção. Os microvalores são todos aqueles do Quadro 1, com exceção dos já mencionados como, no caso, do “tempo”, “novidade” e “relevância”. Consideramos que esta separação entre micro e macrovalores é a contribuição mais expressiva nessa tipificação apresentada pela autora.

Nesse sentido, é possível considerar que os macrovalores-notícia podem ser mais facilmente compartilhados pela cultura jornalística, como demonstra o estudo de Moreira 2 . Ao analisar valores-notícia nos três jornais diários de maior repercussão no Brasil, a autora verificou que, independente do recorte utilizado, os valores-notícia que se destacaram nesses jornais foram os mesmos: importância, atualidade, excepcionalidade e proximidade. Na perspectiva de Silva 6 , os três primeiros seriam macrovalores, que permeiam toda a prática jornalística, o que justificaria o seu compartilhamento entre esses jornais, e o último (proximidade) classifica-se como um microvalor notícia.

Vamos nos deter aqui em dois macrovalores, o interesse e a importância, por serem, segundo aponta Gomis 44 , “valores permanentes da noticiabilidade” (p. 226), abrangendo todo o campo de valores-notícia. Seria a primeira pergunta feita pelos jornalistas: “é interessante?”, “é importante?”. Segundo o autor 43 , o interessante é o termo mais frequente, o mais usado nas definições da notícia porque, se um fato não interessa ao público, “tampouco convém ao meio incluí-lo em seu menu informativo” (p. 226).

Em geral, as pautas se enquadram mais na categoria “interessante” para preencher a falta de fatos importantes e/ou para atender ao gosto do público. Os fatos que se classificam com esse valor (interessante) têm a capacidade de provocar comentários e podem ser produzidos com facilidade. Podem ser pseudoeventos, como no caso das declarações. Para Gomis 44: “[...] é o comentário convertido em notícia, a palavra considerada como fato: declarações, discursos, conferências, respostas ocasionais, frases intencionadas” (p. 233).

O importante, por sua vez, refere-se a acontecimentos que podem afetar a população. Para o autor 44 , o importante é um fato que demora mais para ocorrer, porque implica ter resultados e consequências em decorrência desse acontecimento. A realização de uma eleição é um bom exemplo, porque o seu resultado pode efetivamente mudar a vida de um país, mas, por outro lado, é um acontecimento que ocorre de quatro e quatro anos. Já as declarações de políticos podem ocorrem diariamente e provocam muitos comentários. Nesse caso, a seleção desses pseudoeventos é regida pelo valor-notícia “interessante”.

É possível considerar que, na atualidade, cada vez mais o valor “interessante” seja recorrente no processo de seleção noticiosa por estar mais alinhado ao gosto do público e, por isso, as notícias tendem a ter mais receptividade e suscitar muitos comentários por parte dos leitores. Fornece, assim, o material que alimenta os bate-papos diários, os posts nas redes sociais, permitindo que as pessoas possam falar de suas ideias e emitir suas opiniões.

Nesse sentido, se poderia questionar se o “importante” se reveste de “interessante” nas pautas sobre saúde para se adequar mais ao gosto do público. O valor interessante também atende mais a necessidade dos meios que precisam cada vez mais produzir com rapidez um grande volume de notícias, imbuídos pela instantaneidade e para dar conta dos novos formatos on-line. O que nos leva a crer que o valor “importante” – relacionado àqueles fatos que podem afetar a população e que ocorrem com menos frequência – tende a ficar em segundo plano no frenesi da produção jornalística.

Hughes 45(r), na década de 1940, ao analisar as mudanças pelas quais os jornais americanos passaram a partir do século XIX, verificou que o interesse humano começou a ter valor como notícia. Para a autora, esse valor começou a ser incorporado na prática jornalística quando os empresários entenderam que seria mais lucrativo publicar aquelas notícias que os leitores desejavam ler. Os achados de Hughes 45 já sinalizavam que a importância de um fato estava perdendo espaço para aqueles relacionados ao gosto do público, mostrando, assim, o caráter mutável dos valores-notícia 22 .

As categorias aqui apresentadas podem ser aplicadas para praticamente quaisquer temas do campo da Saúde Coletiva. No caso de uma análise específica sobre o Sistema Único de Saúde, devido a sua amplitude temática, poderia abarcar uma ampla gama de tipificações, o que endossaria a sua viabilidade operacional e potencialidade enquanto um recurso teórico-metodológico. Todavia, somente um estudo empírico poderia realmente analisar os valores-notícia praticados por determinado meio ou meios investigados.

Cavaca e Vasconcellos-Silva 46 defendem a necessidade de se reivindicar um valor-saúde-notícia, partindo da constatação de que a cobertura jornalística negligencia temas de saúde que são relevantes e de interesse público. Apesar do esforço dos autores de trazerem essa discussão – que se mostra pertinente e expressa as convicções e anseios de atores sociais do campo da Saúde Coletiva –, o presente artigo buscou demonstrar e embasar que os valores-noticia são fruto de uma prática arraigada na cultura jornalística, inerente à própria formação e sobrevivência do campo jornalístico. Apesar de haver pressões de outros campos, como o político, que podem impactar o campo jornalístico, conforme destacam os autores 46 , dificilmente se poderia mudar esta lógica. Os valores-notícia inclusive não se restringem a uma região ou país, mas podem ser compartilhados por meio de comunicação de países diferentes.

Não acreditamos ser possível criar um valor-saúde, como algo exterior à prática jornalística, o que não significa que não seja viável entrar nessa arena de disputa. Partimos do pressuposto de que isso só se torna plausível quando se conhecem as regras do jogo, começando por se entenderem melhor os processos que envolvem a noticiabilidade.

Considerações finais

Abrimos esta frente de discussão motivados pelo fato de haver poucos estudos no campo da Saúde Coletiva que enfocam a análise de critérios de noticiabilidade. Nos voltamos, especificamente, para aqueles estudos relacionados aos sistemas públicos de saúde. Como os trabalhos apresentados não desenvolveram aprofundamento teórico sobre a noticiabilidade, este manuscrito buscou trazer contribuições nesse sentido, ao apresentar e discutir conceitos e categorias que podem subsidiar pesquisas que têm como foco a cobertura jornalística sobre essa temática.

Uma questão que merece ser explorada em estudos empíricos seria essa dupla relação de macro e microvalores-notícia. Qual seria, por exemplo, a combinação de microvalores-notícia, vinculados aos sistemas públicos de saúde, com o macrovalor-notícia “negatividade”? A pertinência dessa pergunta ancora-se no fato de alguns autores constatarem que a abordagem predominante da cobertura jornalística tende a enfocar as crises e dificuldades enfrentadas, por exemplo, pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Outro ponto a ser explorado refere-se aos macrovalores-notícia “importante” e “interessante”. São duas categorias potentes de análise porque podem dizer muito sobre a realidade atual em que vivemos e, por isso, devem ser foco de futuras investigações.

É relevante ainda que se invista nas diferenças conceituais em relação às categorias de valores-notícia escolhidas. Outra possibilidade seria analisar, de forma comparativa, se diferentes veículos, ou mesmo de diferentes países, compartilham critérios na hora de selecionarem os fatos relacionados ao tema investigado. Caberia também estabelecer conexões entre a cultura noticiosa e o contexto social de produção dessas notícias.

Além da análise das notícias, seria pertinente lançar mão de outras estratégias de produção de dados, como: entrevistas com repórteres e editores para analisar qual a concepção sobre o sistema público de saúde e quais são os valores-notícia considerados prioritários quando a pauta é sobre esse tema, bem como observação participante da rotina jornalística.

Salientamos que os valores-notícia, entretanto, são um dos critérios que cercam a noticiabilidade. Para compreender as outras instâncias, seria necessário analisar também questões organizacionais, relações com as fontes e com a audiência, não deixando de fora uma análise que contemple a relação desses critérios com aspectos econômicos, políticos e sociais.

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dValor considerado fundamental para os jornalistas e uma das razões explicativas do negativismo das coberturas.

eFatos relacionados a guerras, rivalidades, disputas, brigas, greves e reivindicações.

fEstá relacionado com a notoriedade do ator envolvido, sua importância social.

gAcontecimentos que produzem espanto.

hQuanto mais próximo um acontecimento estiver do seu público, em termos geográficos e culturais, mais fácil de ser publicado.

iA notícia é recente, nova, atual.

jCaráter espetacular, o acontecimento como algo extraordinário.

kTrabalha com a carga negativa do evento: “ bad news is good News ”.

lRelacionado aos acontecimentos envolvendo polêmicas e escândalos.

mO lead ocupa o primeiro parágrafo da notícia, trazendo um resumo conciso das informações mais novas e principais do texto, respondendo as perguntas: quem, o que, onde, quando, como, por quê.

nO estudo de Tobias Peucer foi traduzido para a língua portuguesa por Paulo da Rocha Dias, e publicado na Revista Comunicação & Sociedade, em 2000. Depois, foi republicado, em 2004, pela Revista Estudos em Jornalismo e Mídia, que é a versão referenciada neste artigo.

oUm dos pilares do estudo das ciências sociais e do jornalismo, introduziu a investigação no terreno, aberta e do tipo qualitativo sobre os meios de comunicação com enfoque sobre a dimensão social do jornalismo.

pSilva atribui a frase anedótica a Charles Dana, no século XIX; Diezhandino Nieto atribui a John B. Bogart; Cabral a Amus Cummings, todos jornalistas americanos que atuaram no New York Sun.

qOs autores não se referem ao termo valores-notícia.

rOrientanda de Park.

*O presente artigo é resultado da tese de doutorado do primeiro autor, com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Recibido: 21 de Diciembre de 2017; Aprobado: 16 de Mayo de 2018

Contribuições dos autores

Andrea Langbecker participou na elaboração do estudo, realizando a discussão, revisão e aprovação da versão final do trabalho. Marcelo Eduardo Pfeiffer Castellanos e Daniel Catalán-Matamoros participaram da discussão, revisão e aprovação da versão final.

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