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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

Print version ISSN 1414-3283On-line version ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.24  Botucatu  2020  Epub June 08, 2020

https://doi.org/10.1590/interface.190550 

Artigos

Leitura e discussão de clássicos da literatura aplicados a pessoas com quadro psiquiátrico grave: uma análise winnicottiana*

Reading and discussion of literature classics applied to people with a severe psychiatric condition: a winnicottian analysis

Lectura y discusión de clásicos aplicados a personas con cuadro psiquiátrico grave: un análisis winnicottian

Maria Sílvia Motta Logatti(a) 
http://orcid.org/0000-0002-6269-6344

Licurgo Lima de Carvalho(b) 
http://orcid.org/0000-0002-7979-467X

Nadia Vitorino Vieira(c) 
http://orcid.org/0000-0002-3863-8865

Maria Teresa Mendonça de Barros(d) 
http://orcid.org/0000-0002-1621-7365

Dante Marcello Claramonte Gallian(e) 
http://orcid.org/0000-0002-9979-6787

(a)Pós-graduanda do programa de Saúde Coletiva (doutorado), Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Rua Loefgreen, 2032, Vila Clementino. São Paulo, SP, Brasil. 04040-033. <logattim@gmail.com>

(b, c, d, e)Centro de História e Filosofia das Ciências da Saúde, EPM, Unifesp. São Paulo, SP, Brasil. <licurgo.carvalho@unifesp.br> <nadia.vieira@unifesp.br><tecamendonca@uol.com.br> <dante.cehfi@epm.br>


RESUMO

O presente artigo tem como objetivo apresentar parte dos resultados de uma investigação realizada com pessoas com quadro psiquiátrico grave de um grupo psicoterapêutico. Partindo da metodologia do Laboratório de Leitura (LabLei), foram realizadas duas experiências literárias: 1) Leitura da obra “O Alienista” de Machado de Assis, com 11 encontros; e 2) Leitura da obra “O sonho de um homem ridículo”, de Fiódor Dostoiévski, com oito encontros. No total, 25 pessoas participaram, sendo 17 usuários em sofrimento mental, seis terapeutas e dois pesquisadores. Posteriormente, foram realizadas seis entrevistas de História Oral de Vida que puderam ser analisadas a partir de uma compreensão winnicottiana. Como resultado, o Laboratório de Leitura (LabLei) se mostrou efetivo como um coadjutor do espaço terapêutico, favorecendo um modo de comunicação não repetitiva e reveladora de outros materiais psíquicos, proporcionando um espaço potencial integrador do mundo externo e interno, além de fomentar a expressão artística e a criatividade.

Palavras-Chave: Saúde mental; Literatura; Psicanálise; Loucura e grupo

ABSTRACT

This article aims to present part of the results of an investigation carried out with people with a severe psychiatric condition who participate in a psychotherapeutic group. Based on the methodology of the Reading Laboratory (LabLei), two literary experiences were held: 1) Reading of the work “The Alienist”, by Machado de Assis, with 11 meetings; and 2) Reading of the work “The Dream of a Ridiculous Man, by Fyodor Dostoyevsky, with eight meetings. Overall, 25 people participated: 17 users in mental distress, six therapists, and two researchers. Subsequently, the researchers conducted six Oral History interviews, which were analyzed from a winnicottian perspective. As a result, the Reading Laboratory (LabLei) proved to provide effective help for the therapeutic space, favoring a mode of non-repetitive communication that revealed other psychological materials, enabling the creation of a space with potential for integrating the external and internal worlds, and fostering artistic expression and creativity

Key words: Mental health; Literature; Psychoanalysis; Madness and group

RESUMEN

El objetivo del presente artículo es presentar parte de los resultados de una investigación realizada con personas con cuadro psiquiátrico grave de un grupo psicoterapéutico. Partiendo de la metodología del Laboratorio de Lectura (LabLei), se realizaron dos experiencias literarias: 1) “El alienista” de Machado de Assis, con 11 encuentros, y 2) “El sueño de un hombre ridículo” de Fiódor Dostoiévski, con ocho encuentros. En total, participaron 25 personas, siendo 17 de ellas usuarios en sufrimiento mental, seis terapeutas y dos investigadores. Posteriormente, se realizaron seis entrevistas de Historia Oral de Vida que pudieron analizarse a partir de una comprensión winnicottiana. Como resultado, el LabLei se mostró efectivo como un coadjutor del espacio terapéutico, favoreciendo un modo de comunicación no-repetitiva y reveladora de otros materiales síquicos, proporcionando un espacio potencial integrador del mundo externo e interno, además de fomentar la expresión artística y la creatividad.

Palabras-clave: Salud mental; Literatura; Psicoanálisis; Locura y grupo

Introdução

O presente artigo apresenta parte dos resultados de uma investigação realizada com pessoas com quadro psiquiátrico grave de um grupo psicoterapêutico. Partindo de uma pesquisa de doutorado desenvolvida na Escola Paulista de Medicina, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o estudo foi realizado por meio da aplicação do LabLei, metodologia que nasceu no Centro de História e Filosofia das Ciências da Saúde (CeHFi) da Unifesp a partir de uma dinâmica desenvolvida no âmbito acadêmico denominada Laboratório de Humanidades. Esta surgiu de forma experimental no início dos anos 2000 e atualmente apresenta-se como uma proposta de formação humanística e de humanização em saúde, a partir da experiência estético-reflexiva com clássicos da literatura1,2.

Os participantes do LabLei revelam que a participação na dinâmica provoca mudanças na maneira de encarar a si mesmo, o outro e o mundo, transformações que se refletem no âmbito existencial e do trabalho, apontando para um efeito humanizador.

Até agora, o LabLei tinha sido pesquisado somente no contexto dos profissionais da saúde; já o presente estudo teve por objetivo compreender se poderia haver um alcance terapêutico para pessoas em sofrimento mental. Complementarmente a esse objetivo central, procuramos verificar em que medida esta atividade poderia ser introduzida nos serviços de saúde, promovendo assim a articulação entre Saúde Coletiva, Artes e Ciências Humanas.

Do ponto de vista empírico, uma possível transposição para o campo terapêutico foi aventada ainda na discussão sobre os grupos organizados dentro da universidade, pois grande parte dos participantes relata sentir o efeito terapêutico da dinâmica mesmo no contexto acadêmico1.

Esta pesquisa foi realizada com o Grupo Vida, grupo terapêutico iniciado em 2001 com oito pacientes psicóticos, visando buscar uma melhoria na qualidade de vida e reintegração psicossocial. O Grupo Vida faz parte de um trabalho social oferecido para pacientes por uma escola de psicanálise e é coordenado por duas professoras da instituição, assessoradas por dois analistas e apoiadas por dois psicoterapeutas que estão em processo de formação na escola. A dinâmica segue a linha psicanalítica, com reuniões semanais de duas horas, em que os participantes podem trazer livremente questões e acontecimentos de suas vidas3.

O acesso ao Grupo Vida é livre, mas, para ser aceito como paciente regular, é preciso estar em acompanhamento psicoterapêutico e psiquiátrico individual, sendo que a escola ajuda a encontrar o terapeuta e/ou médico adequado, que é um profissional formado ou em formação na escola. Para esta pesquisa, uma parceria foi firmada respeitando o fluxo natural de entrada e saída dos participantes. Essa cooperação surgiu porque um dos pesquisadores conheceu a atividade do Grupo Vida e percebeu que a aplicação do LabLei poderia ser frutífera. Uma vez apresentada e aceita a proposta pelos responsáveis da escola, ficou acordado que o LabLei aconteceria na meia hora final do grupo. Mas, após três reuniões, os usuários acharam que era pouco tempo e pediram para que o LabLei abrisse os encontros, deixando somente os últimos trinta minutos para se tratar de outros temas.

Os aspectos terapêuticos apontados por participantes da dinâmica estético-reflexiva do LabLei encontram ressonância com o pensamento de Donald Winnicott4, pediatra e analista inglês que concedeu um lugar especial para as experiências culturais. O autor explora possibilidades terapêuticas para além da psicanálise tradicional e afirma que eventos da vida cotidiana, sobretudo práticas culturais, podem ter efeitos terapêuticos especialmente se contemplarem a criatividade.

Segundo Winnicott4, criatividade é saúde e não está relacionada à sublimação, mas a uma atitude para com a vida e o viver, levando em consideração aspectos tanto subjetivos quanto objetivos da realidade.

A teoria e prática winnicottiana estão ligadas a uma teoria do amadurecimento pessoal4-6, sendo o desenvolvimento do ser humano complexo e dinâmico, um processo que ocorre por meio de um peculiar processo interacional com o ambiente. Considera-se maturidade emocional como sinônimo de saúde, e esta é considerada um processo. Ser saudável na infância ou adolescência não significa ser um adulto precoce. O adulto saudável é capaz de se identificar com a sociedade e assumir papéis sociais sem sacrifício demasiado da espontaneidade pessoal.

A criatividade originária é a possibilidade de o lactante criar o mundo e esta só ocorreria de forma satisfatória em um ambiente facilitador. No início da vida, mãe (trata-se de uma função materna que normalmente é desempenhada pela mãe) e bebê estão em um processo de identificação primária, possibilitada pela identificação inconsciente da mãe com o bebê. Assim, o bebê tem suas necessidades satisfeitas quase que de maneira integral, dando a ele a possibilidade de viver uma experiência de onipotência, na qual ele teria a ilusão de que seria o criador do cuidado que encontra no ambiente. Se o processo de maturação ocorre de maneira satisfatória, as relações com o objeto começam a mudar de “objeto subjetivo” para “percebido objetivamente”. Nessa etapa do desenvolvimento, a qualidade do objeto não está totalmente ligada nem ao mundo interno, nem ao externo, mas sim a um espaço intermediário, uma terceira área da experiência que é a transicional. A elucidação desses fenômenos transicionais abre portas para a compreensão da ilusão como um evento que ocorre nessa região intermediária. O autor não irá restringir o fenômeno da ilusão ao bebê, estendendo-o para toda a vida humana. Dessa maneira, a experiência humana de construção da sua realidade ocorre em três áreas: 1) na realidade interna ou subjetiva; 2) na realidade externa ou compartilhada; e 3) na terceira área da experiência, que é a transicional.

As brincadeiras infantis e as experiências culturais são herdeiras diretas dessa experiência transicional e funcionam em um lugar de experimentação, conhecido como espaço potencial. O brincar é essencialmente criativo e permite experimentar a realidade e novas maneiras de se fazer a interface entre o mundo interno e realidade externa. Segundo o autor, a atividade terapêutica deve ser uma segunda chance para aqueles que não conseguiram um processo de amadurecimento satisfatório na primeira infância. O que propomos é que o LabLei seja um espaço para vivenciar a experiência cultural que assim facilitaria a integração do mundo interno e externo. Dentro dessa perspectiva, a literatura aparece como um instrumento pertinente (ainda que não o único) não apenas por ser um recurso estético despertador de afetos e pensamentos, mas também por suscitar a reflexão e compreensão sobre crenças, sentimentos e valores pessoais e sociais a partir da dinâmica narrativa.

Metodologia

De acordo com a metodologia original1, o LabLei ocorre como disciplina eletiva no Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da Unifesp, e seus ciclos são semestrais e seguem um modelo acadêmico de avaliação. São oferecidas trinta vagas para alunos da graduação, pós-graduação e pessoas da comunidade, sendo que a duração dos encontros é de uma hora e meia. Os professores da disciplina são responsáveis pela escolha da obra e usualmente optam por clássicos da literatura, já que estes sobrevivem ao crivo do tempo e abordam temas que se aprofundam na condição humana. Os livros devem ser lidos previamente. A metodologia conta com três fases: histórias de leitura, itinerário de discussão e histórias de convivência.

Nas histórias de leitura, os participantes contam de maneira simples, franca e aberta como leram o livro: se gostaram ou não, se foi fácil ou difícil, agradável ou desagradável e, sobretudo, quais foram os questionamentos, reflexões e afetos despertados. A intenção é convidar o leitor a viver a experiência estética da maneira mais plena possível, desfrutando a obra de acordo com aquilo que Bachelard7 chamou de “leitor feliz”, isto é, um leitor com uma atitude não técnica diante da escrita literária e que opta por uma perspectiva não instrumental, aproximando a leitura de uma vivência sensível e imaginativa.

A partir do compartilhamento das histórias de leitura, o coordenador elabora o itinerário de discussão. É nesta segunda fase que se desenvolvem as discussões girando em torno da história e dos personagens. Cada dia do itinerário deve focar em um trecho da obra.

Os encontros do LabLei são essencialmente dialógicos, com uma dinâmica de troca livre de impressões e sentimentos em relação ao texto lido. O coordenador só interfere, normalmente com perguntas instigadoras, em três ocasiões: 1) quando a discussão não acontece; 2) se há repetição e polarização excessiva de temas; e 3) quando o grupo se dispersa da temática evocada pela obra.

Na fase final, conhecida como histórias de convivência, todos falam espontaneamente sobre a experiência vivida, procurando sintetizar o significado de ler e compartilhar reflexões e afetos sobre a obra, além de considerar como a dinâmica repercutiu em sua vida. Os participantes também entregam um relato por escrito.

O estudo com o Grupo Vida contou com dois ciclos de leitura: 1) o conto “O Alienista” de Machado de Assis8 com 11 encontros; e 2) “O sonho de um homem ridículo” de Fiódor Dostoiévski9, com oito encontros, que, a seguir, serão referidos neste artigo apenas com “Alienista” e “Sonho”.

Para a realização do LabLei nesse contexto de ambiente terapêutico, algumas modificações foram necessárias, sobretudo na primeira experiência. Não foi cobrada leitura prévia da obra, que foi realizada na hora do encontro por um dos pesquisadores, que lia dois capítulos em voz alta. Além disso, não foi pedido relato por escrito, mas no encontro final todos comentaram oralmente suas impressões. A escolha da obra de Machado de Assis ocorreu partindo do pressuposto de que o adoecimento psíquico e suas implicações pudessem interessar ao grupo. Para Winnicott4, a capacidade de poder fazer uso de um mundo externo para ampliar e enriquecer o mundo interno é uma habilidade complexa que o indivíduo adquire ao longo do seu processo maturacional e que depende de o ambiente apresentar os objetos de acordo com as capacidades daquele indivíduo. A realidade externa deve ser apresentada de forma cuidadosamente calibrada, de acordo com a capacidade de compreensão daquelas pessoas envolvidas na experiência, especialmente em um conjunto com as características do Grupo Vida. Os pesquisadores acreditaram que essa escolha poderia ser boa, especialmente por tratar a loucura com bastante humor.

Terminado esse primeiro ciclo, os participantes pediram que um novo livro fosse discutido, mas decidiram que seria necessária uma pausa de dois meses, e que durante esse tempo voltariam à dinâmica original de terapia em grupo. Durante essa pausa, os pesquisadores continuaram fazendo parte dos encontros.

Na segunda experiência, o texto do conto foi fornecido com antecedência, sendo possível promover a discussão das primeiras impressões sobre o texto – as histórias de leitura –, isto é, todos relataram suas impressões e afetos diante da história. A escolha da segunda obra se deu a partir de uma demanda dos usuários, que queriam discutir um livro que não tratasse diretamente do adoecimento mental. Os pesquisadores apresentaram algumas opções e a escolhida foi o “Sonho”. Como no conto o personagem central é potencialmente suicida, foi realizada uma reunião de preparação para abordar o tema. Durante os encontros, cada capítulo a ser discutido era novamente lido em voz alta. Desta vez, no fim da experiência, foi solicitado um texto por escrito, mas somente dois participantes entregaram.

No total, os encontros contaram com 25 pessoas, sendo 17 usuários em sofrimento mental, seis psicoterapeutas e dois pesquisadores. No fim de cada etapa, todos foram convidados para uma entrevista, e seis usuários concordaram.

Quadro 1 Informativo sobre os participantes das vivências 

Usuário, idade (*) Sofrimento mental Núcleo familiar, estudo e trabalho Alienista (**) Sonho (***) Entrevista
Ricardo, 34 Esquizofrenia Mora com mãe e irmã. Cursou Administração. Voluntário em uma ONG. Palestra sobre esquizofrenia. 11 8 Sim
Beatriz, 33 Esquizofrenia Mora com a mãe. Psicóloga. Aposentada por doença. 9 8 Sim
Miriam, 57 Esquizofrenia Mora com o marido. Três filhas e cinco netos. Psicóloga clínica. 9 7 Sim
Pardal, 52 Transtorno afetivo bipolar Mora com a esposa. Cursou um ano de Assistência Social. Aposentado por doença. 9 7 Sim
Paulo, 55 Esquizofrenia Solteiro. Mora com a irmã. Ensino Médio. Aposentado por doença. 9 8 Sim
Renata, 42 Esquizofrenia Solteira. Mora com pai, madrasta e irmã. Pedagoga. Trabalha com telemarketing. 9 NP Não
Fernando, 32 Esquizofrenia Solteiro. Mora com mãe e irmãos. Curso de cuidador. Trabalha no cuidado de idosos. 8 4 Não
Onofre, 42 Depressão Solteiro. Mora com mãe, irmão e sobrinho. Terapeuta holístico. Não consegue trabalhar. 7 NP Não
Cláudio, 45 Esquizofrenia Solteiro. Mora com a mãe. Ensino Médio. Faz “bico”. 7 NP Não
André, 32 Esquizofrenia Solteiro. Mora com mãe e irmã. Ensino Médio. Músico de rua. 7 8 Não
Mário, 42 Esquizofrenia Solteiro. Mora com padrasto. Ensino Médio. Não trabalha. 4 NP Não
Kelly, 65 Depressão Casada. Mora com dois filhos. Curso de Modista. Secretária. 1 8 Sim
Carla, 32 Esquizofrenia Solteira. Mora com a mãe. Cursou Serviço Social. Não trabalha. 1 NP Não
Clarisse, 45 Transtorno afetivo bipolar Solteira. Mora com mãe e filha. Ensino Médio. Não trabalha. 1 NP Não
Carlos, 30 Esquizofrenia Solteiro. Mora com a família. Ensino Médio. Não trabalha. NP 4 Não
Camilo, 29 Transtorno afetivo bipolar Solteiro. Mora com a família. Ensino Médio. Não trabalha. NP 3 Não
Mara, 23 Transtorno afetivo bipolar Mora com a família. Está no cursinho. NP 3 Não

(*) nomes fictícios foram utilizados para preservar suas identidades (**) Participação no “Alienista” (total de 11 encontros). (***) Participação no “Sonho” (total de 8 encontros). NP: não participou.

Como o objetivo da pesquisa era compreender se o LabLei poderia ser um coadjutor do espaço terapêutico, buscamos metodologias que possibilitassem aceder não tanto à dimensão do factual e quantificável, mas sim do subjetivo e experiencial2,10. Logo, optamos pela complementariedade obtida da união de três metodologias de pesquisa qualitativas que se adequavam ao nosso objetivo: a observação participante, a História Oral de Vida e a análise documental.

A observação participante, tal como vem sendo trabalhada no âmbito da pesquisa qualitativa, aponta para uma relação entre pesquisador e objeto não a partir do princípio de neutralidade, mas sim a partir da noção de explicitação da subjetividade como fundamento da objetividade e apresentou-se como uma abordagem adequada para descrever e compreender nosso objeto enquanto acontecimento2,11. Os pesquisadores fizeram uso de diário de campo e os encontros foram gravados e transcritos.

As entrevistas, livres e semiestruturadas, foram realizadas segundo a metodologia da História Oral de Vida12. Após a explicitação dos objetivos e do aceite do colaborador, pedimos que ele nos contasse sua vida, focando o âmbito do adoecimento, na experiência no Grupo Vida e na participação do LabLei. Oportunamente, foram feitas as seguintes perguntas de corte: “Como foi sua entrada no Grupo Vida?” e “Como foi participar da experiência do Laboratório de Leitura?”. A segunda entrevista focou apenas a participação do “Sonho”, com a seguinte questão de corte: “Como foi participar da experiência do Laboratório de Leitura do ‘O sonho de um homem ridículo’?”.

Todo material obtido (entrevistas, diários de campo e transcrições) foi interpretado de acordo com a técnica de “Imersão e Cristalização” que, segundo Borkan13 e Benedetto e Gallian10, pode ser considerada um estilo de organização de dados da pesquisa baseado na fenomenologia hermenêutica. Seu processo básico consiste em ler, reler e emergir profundamente nos dados até que insights se cristalizem, permitindo assim que o pesquisador reconheça os temas emergentes. Ainda que a imersão seja uma etapa anterior à cristalização, não se trata de um processo linear no qual a cristalização de temas ocorra necessariamente após a imersão, mas de um processo espiral em que ambas as etapas estão intimamente imbricadas. Trata-se de um círculo hermenêutico no qual o significado das partes é determinado pelo significado global do texto, que, por sua vez, pode alterar o significado global e vice-versa. Trata-se de um círculo frutífero que implica em um aprofundamento e entendimento contínuo do significado até se chegar à definição de temas ou categorias que podem ser analisados a partir de referenciais teóricos mais específicos. No nosso caso, nesta etapa da interpretação, o referencial winnicottiano apresentou-se como particularmente pertinente.

Terminados os dois ciclos do LabLei, os pesquisadores ainda participaram por seis meses do grupo. Os nomes dos participantes foram substituídos e esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Unifesp, sob o parecer nº 1325/2015.

Resultados e discussão

A partir da análise dos dados, emergiram temas que foram organizados nas seguintes categorias de análise: 1) O LabLei enquanto lugar de comunicação não repetitiva e reveladora de outros materiais psíquicos; 2) O LabLei enquanto espaço potencial integrador do mundo interno e externo; e 3) O LabLei enquanto fomento para a expressão artística e uma comunicação intermediária.

Durante a dinâmica de leitura e discussão em grupo da obra “Alienista”, os principais temas discutidos foram: loucura, estigma, formas de tratamento do adoecimento mental, ciência, poder e o LabLei. No “Sonho”, foram discutidos: sentir-se ridículo, suicídio, ciência, esperança, transformação, morte, amor, beleza, sofrimento, paraíso, inferno, compaixão, LabLei, sonhos e alucinações.

Foi perceptível o quanto o Grupo Vida tinha uma dinâmica efetiva com e sem a intervenção do LabLei, mas, quando acontecia sem a discussão literária, as histórias trazidas ficavam repetitivas.

O grupo acontece e a gente traz sempre o que está mais emergente, e às vezes fica repetitivo. Quando chega uma leitura diferente, abre porta de coisas escondidinhas, e daí a gente vai, e começa a avaliar aquelas também. As duas leituras me permitiram entrar em contato com coisas que eu nunca tinha me permitido. (Miriam)

Freud14 havia estudado o fenômeno da repetição enquanto uma forma de não comunicação. Winnicott5 se distancia desse tipo de compreensão, acreditando que o fato de o indivíduo repetir estaria ligado à esperança de que em algum momento futuro haveria a oportunidade para uma nova experiência. A repetição é uma procura, no ambiente, para poder viver aquilo que não viveu. Diante disso, foi notável que o LabLei pôde apresentar este algo novo que abriu espaço de um modo diferente para que assuntos recentes (ou muito antigos) pudessem ser falados e compreendidos. A obra literária nos permite entrar em contato com a alteridade, com um mundo diferente do nosso, e, ao fazer isso, somos convidados a revisitar nossa própria história de maneira inédita15,16.

Ricardo parece ter sentido impacto semelhante, pois, apesar de ser participante assíduo, sempre ficava calado, apenas ouvindo. Quando convidado a falar, trazia fatos rotineiros e repetitivos. Porém, evocou o seguinte aspecto:

[...] Foi muito interessante ler o livro e ver que quem não se encaixava era excluído. Relacionei com a minha história, mas como tenho crítica, sempre tive uma vida escondida. Tenho uma vida psíquica muito ativa, então evito mostrar muitas coisas, porque tenho medo de não ser enquadrado como “pessoa normal” e ir parar na Casa Verde. (Ricardo)

Nessa fala de Ricardo, é possível perceber que, por meio do conto de Machado de Assis, o participante pôde revelar ao grupo o porquê de seu comportamento. Nesse dia, preferiu não dizer qual era esta “vida meio escondida” e o grupo respeitou este movimento.

Passados alguns meses, examinando o papel que o sonho teve no conto de Dostoiévski, alguns participantes disseram que a vivência fora tão forte que parecia que o personagem tinha vivido, e não apenas sonhado. Nesse dia, eles puderam trazer a relação com seus sonhos e a conexão com seus delírios e alucinações. Ricardo relatou que desde a infância teve “uma visão diferenciada do mundo” e que vê coisas que outras pessoas não veem, como espíritos. Disse que, apesar de a ciência denominar suas experiências como alucinações, ele prefere se referir a elas como “sonhos vívidos”. Durante sua entrevista, considerou:

Teve um dia que eu trouxe a experiência dos meus sonhos vívidos. Aquilo foi difícil de falar. Acabei contanto dos anos que passei resgatando espíritos do inferno. Invadia aquela pocilga e os espíritos falando “me tirem daqui!”, e eu tinha que tirar, mas sem conseguir resgatar todos. Tenho esta vivência que sei que é muito estranha, mas para mim é coisa normal. (Ricardo)

Apesar da dificuldade sentida por Ricardo, o LabLei foi fundamental para que ele pudesse se abrir e trazer suas experiências mais elementares, contribuindo para estar de maneira mais plena no grupo e na vida.

O tema da transformação também foi bastante presente.

O texto levou-me a pensar nas minhas experiências, porque não fico voltando nelas sempre, não trago muito isto no grupo porque não é muito bom e não gosto de ficar mexendo. Mas não foi ruim, possibilitou que eu compreendesse que se o personagem teve êxito com seu sonho, eu também tive, não com um sonho, mas com remédios, com terapias individuais e em grupo. Isso me levou a pensar também na minha transformação. (Beatriz)

Ao entrar em contato com a transformação do personagem de Dostoiévski, Beatriz pôde olhar para seu passado e reconhecer sua transformação positiva. É nesse sentido que o LabLei funciona como um espaço potencial, no qual há interação entre a realidade interna e externa, como se fosse um espaço de reflexão, experimentação e integração dessas duas realidades, o que permite um processo de amadurecimento emocional4,6. A partir do uso da literatura, a dinâmica permitiu que o participante entrasse em um estado menos defensivo, já que pôde falar de si com a ajuda de um personagem literário.

Além disso, o conto permitiu reflexões sobre suicídio. Durante a discussão dessa temática, Miriam destacou:

Com este texto, tive a oportunidade de falar a respeito do suicídio da minha irmã. Este era muito mal resolvido para mim. Sempre que tocavam neste assunto, desconversava, até mesmo nas reuniões familiares. Ao conversar sobre este assunto percebi que não tinha toda esta dor não! Tudo isto me permitiu sentir o suicídio dela, ver o que aconteceu de verdade no dia. Consegui ter raiva dela, porque por mais que ela amasse aquela menininha, ela me abandonou! Porque ela cuidava de mim, quando eu tinha apenas cinco anos de idade e meus pais eram doentes. Achei que ela foi egoísta, ficou uma mistura de amor e ódio por ela, foi interessante tudo isto ter vindo, porque precisava ser resolvido. (Miriam)

A fala de Miriam é impactante, pois mostra que a partir do contato com a literatura pôde reconhecer uma das grandes dores de sua vida, e a vivência no grupo lhe deu a oportunidade de fornecer um novo olhar para a experiência. Miriam se identificou com a menininha da história, fato que se tornou facilitador para que esses conteúdos pudessem vir à tona. O paciente psicótico tem dificuldade de falar de outra coisa que não seja de si mesmo. A identificação com um personagem faz com que olhe para fora de si, permitindo alargar o campo da experiência com um objeto externo, mesmo que seja por pouco tempo, pois logo volta para a sua própria história, porém, ampliada por interferências externas enriquecedoras4,6.

A capacidade de brincar está intimamente ligada a um amadurecimento individual que acontece por meio de um peculiar processo interacional com o ambiente. No início da vida, a figura materna tem que apresentar o mundo de maneira que o lactante possa ir assimilando aos poucos, sem se sentir invadido. Uma falha nesse aspecto pode levar o indivíduo a um adoecimento e a um desenvolvimento a partir de uma defesa contra uma nova possível invasão4,6. No contexto da atual pesquisa, a literatura foi apresentada de modo a ser assimilada pelos participantes, a fim de contribuir com o processo de amadurecimento de cada um. Em relação a esse aspecto, Miriam afirmou:

Gostei da experiência de ler com o grupo, porque quando lia sozinha tinha uma experiência ruim, a leitura acabava confundindo minha mente e não sabia o que fazer com aquilo, mas no grupo era bem diferente, pois tinha o que fazer com aquilo que tinha mexido comigo, havia um lugar para trazer tudo aquilo e trabalhar com os sentimentos. (Miriam)

A partir do espaço para compreender os afetos despertados, os participantes puderam ler e se emocionar sem se sentirem invadidos e desorganizados e, além disso, puderam “brincar” com as obras, contribuindo para o amadurecimento pessoal. Para Winnicott, o espaço terapêutico seria a sobreposição de duas áreas do brincar, a do paciente e a do terapeuta – isso para pessoas que têm o amadurecimento necessário para poder estar nesse lugar. Em contextos nos quais o brincar não é possível, o trabalho efetuado pelo terapeuta é dirigido no sentido de trazer de um estado em que não é capaz de brincar para um estado em que o é, ou seja, trabalhar no sentido de uma integração para colocar em marcha o desenvolvimento pessoal4.

A dinâmica do LabLei possibilitou que os participantes usufruíssem do ficcional nessa área transicional, em que tanto realidade interna quanto mundo externo contribuíram. Era um temor dos pesquisadores que os integrantes participassem de maneira puramente defensiva e “colassem” em um personagem, passando a copiá-lo e a viver exatamente como este vivia, anulando assim seu mundo interno. No entanto, o diálogo proporcionado pelo LabLei foi fundamental para uma vivência criativa. A respeito disso, Kelly observou:

Depois que comecei a frequentar o Grupo Vida, parei de ler tanto autoajuda. Comecei a ler esses livros depois de frequentar os “Neuróticos Anônimos”, mas estava sendo ruim porque comecei a querer fazer exatamente igual ao que o autor fazia no livro. Ficou uma coisa bitolada, e comecei a perceber que cada caso é um caso, e que não vou conseguir fazer o que o Dalai Lama ou o Gaspareto fizeram! A experiência de ler em grupo me fez perceber que é como a Bíblia, cada um entende da sua maneira, cada um tem um ponto de vista. Muitas vezes você está focada em algo, e quando alguém fala algo diferente dá para refletir e perceber que aquilo que a pessoa está falando é legal. (Kelly)

Kelly nos apresenta duas formas diferentes de viver a experiência da leitura. A primeira ela classifica como “bitolada” e “desgastante”, uma vivência de leitura que não a convocava a pensar sua vida em relação à alteridade, mas sim em anular seu modo de ser, copiando aquilo que era diferente, já que o seu estava errado. Nessa experiência que relatamos, o mundo exterior era vivido enquanto objeto puro e só restava a ela se enquadrar.

Já a segunda forma de vivenciar a leitura parece ter sido apresentada a Kelly pelo LabLei, uma experiência que a fez pensar sobre sua própria vida de maneira mais flexível e compreensível. Nesse contexto, a experiência literária é um lugar de criatividade em que os mundos externo e interno contribuem4. A dinâmica do LabLei proporcionou um diálogo com os outros e com a obra, que transformou sua relação com a leitura, colaborando para que a participante vivenciasse o LabLei nessa área transicional. Winnicott diferenciava a apercepção criativa que ocorreria nesta terceira área da submissão à realidade externa. Nessa perspectiva, o LabLei foi um facilitador no sentido de promover a apercepção criativa, e não a submissão à realidade. Segundo o autor, seria por meio da apercepção criativa, mais do que qualquer outra coisa, que o indivíduo sentiria que a vida é digna de ser vivida4.

O LabLei ainda possibilitou a expressão espontânea de conteúdos artísticos. Onofre, no quarto encontro do “Alienista”, trouxe voluntariamente uma poesia, exprimindo a repercussão que a leitura teve em sua vida:

Levantem as mãos quem me dará atenção alienista, alienado ou não.

O que sinto no peito, um despudor ou desrespeito não seria Dr. Simão capaz de enxergar e classificar.

Me colocaram no fundo duma casa verde, me tacharam como louco. Louco,

quem dará razão ao louco?! Ao indivíduo à margem da sociedade. Nos tratam

sem dó nem piedade, somos bons se quietos no nosso canto.

Num rompante de minhas crises me querem longe, num local cheio de árvores.

Dr Simão Bacamarte, se traço um paralelo ao mundo de hoje...

Hoje existe a luta manicomial que luta contra os desvalidos de espírito.

A sociedade lava as mãos, essa carga é demais para mim. Deixe que vá à casa

branca, verde ou amarela.

Quero esse sujeito longe das minhas vistas!

Assim ficarei longe desse peso, dessa ameaça! Ao meu mundo perfeito em que loucos

ficam enfileirados na fila do refeitório e acomodados num leito de um sanatório.

Longe dos holofotes,

à procura de lucidez.

Lutando dia a dia, mês a mês.

Longe deste povo que me despreza,

de um governo corrupto,

de que nada entendem e a tudo nega.

Era isso amigo, se não ajudei, espero que não tenha atrapalhado.

Louco às vezes é um sujeito atabalhoado sim, mas com um coração

maior que tudo, maior que o mundo. (Onofre)

A obra machadiana lhe tocou diretamente em temas essenciais. Seu poema, ao mesmo tempo em que os traz à tona, preserva algo de sua intimidade que ele talvez não quisesse revelar. Para Winnicott5,6, a capacidade de comunicação estaria intimamente ligada ao modo como a pessoa se relaciona com o mundo. Assim, existiria uma forma de comunicação intermediária, que é a aquela dos fenômenos transicionais.

O indivíduo saudável é quem é capaz de se comunicar e apreciar a comunicação, mas que também guarda um núcleo que nunca se comunica com o mundo dos objetos percebidos. Uma possível violação a esse “núcleo inviolável” seria sentida como algo pior que um “estupro espiritual”. Para Winnicott, era uma preocupação que os processos de análise invadissem esse núcleo isolado, e a não comunicação fosse reconhecida somente enquanto defesa.

As experiências culturais guardam essa forma de comunicação, que interage com o mundo externo ao mesmo tempo em que preserva esse núcleo interno inviolável. Em geral, nos artistas podemos detectar um dilema inerente que pertence à coexistência dessas duas tendências. Normalmente, uma obra tem a necessidade urgente de se comunicar com o público, e outra necessidade ainda mais urgente de não ser plenamente decifrada5,6. Nesse sentindo, o LabLei pode ser considerado uma experiência que permite a expressão artística e uma comunicação intermediária, que comunica o que deve ser comunicado, mas que ao mesmo tempo resguarda este núcleo inviolável que não deve ser acessado.

Ricardo também gosta de se exprimir artisticamente, sendo o desenho sua forma privilegiada. No fim dos grupos de discussão do “Alienista”, uma das coordenadoras do Grupo Vida sugeriu que ele trouxesse um desenho. Apesar de certa resistência inicial, trouxe sua criação três semanas depois.

Fonte: Ricardo (2018), participante do Grupo Vida.

Figura 1 Homem pensando, sobre o livro “O Alienista”. 

Ao ser questionado sobre o desenho, afirmou:

Quando me pediram para fazer um desenho, confesso que fiquei com preguiça e cheguei a pensar em não fazer para não impor a minha ideia sobre o grupo, pois talvez o que eu fizesse não iria refletir o que eles haviam pensado. Mas de repente estava arrumando a cama, pensando sobre algumas ilustrações que gostaria de fazer e me veio a ilustração do “Alienista” na cabeça, praticamente pronta. Pensei que a ideia era muito boa para desperdiçar. Queria fazer o Simão Bacamarte com a mão no queixo, expressando um pensamento sobre loucura. Consegui passar isto de maneira bem clara e comecei a me divertir enquanto estava fazendo, porque coloquei o cabelo do Machado de Assis. Então pensei que ele deveria ter bigode, porque todo homem da época tinha. Quis um bigode mais cômico, não igual ao do Salvador Dali, mas achei que ficou bem engraçado. Os traços retos reforçam um pouco esta ideia de austeridade. (Ricardo)

Ricardo conseguiu expressar como foi fazer o desenho, que materializa sua interpretação da obra. Cabe observar que estamos diante de um exercício de simbolização que alia uma imagem à representação de um afeto, o que é uma dinâmica bastante desafiadora para um psicótico.

Depois de duas semanas do fim das discussões do “Sonho”, Ricardo trouxe espontaneamente mais duas ilustrações.

Fonte: Ricardo (2018), participante do Grupo Vida.

Figura 2 Desenho sobre o livro “O sonho de um homem ridículo”. 

Fonte: Ricardo (2018), participante do Grupo Vida.

Figura 3 Desenho sobre o livro “O sonho de um homem ridículo” II. 

Nessa ocasião, perguntamos se gostaria de falar sobre suas obras. “Os desenhos falavam por si”, respondeu, mas quis saber a opinião das pessoas. Todos foram unânimes em dizer que se tratava de dois belos desenhos e que retratavam muito bem o livro.

É notável que a experiência do LabLei tenha funcionado como um convite à expressão artística que contempla essa comunicação intermediária, abarcando tanto a comunicação quanto a não comunicação. Ademais, funcionou como lugar de comunicação não repetitiva e reveladora de outros materiais psíquicos, possibilitando que os usuários entrassem em um estado menos defensivo ao falar de suas dores e tormentas, além de ser um espaço potencial integrador do mundo externo e interno4-6.

Considerações finais

Na parceria com o Grupo Vida, os pesquisadores temiam que o impacto da literatura pudesse ser desorganizador para pacientes psiquiátricos. Mas como era necessário estar em tratamento psiquiátrico e psicoterapêutico individual para participar, achamos válido utilizar desse anteparo em um primeiro estudo. Além disso, notamos, ao longo da pesquisa, que a própria dinâmica do LabLei oferece mecanismos de contenção, possibilitando que o participante seja afetado pela obra, mas sem deixar de refletir e elaborar no diálogo com o grupo. Assim, o resultado obtido tornou-se encorajador para novos estudos.

Apesar de se tratar da primeira pesquisa envolvendo o LabLei em um espaço terapêutico, o trabalho demonstrou que a dinâmica pode ser uma ferramenta factível e com resultados imediatos estimulantes para ulteriores estudos. Para que isso ocorra, acreditamos que seria interessante que grupos fossem montados especificamente para a investigação, podendo ser esclarecido de antemão, por exemplo, que a entrevista final seria condição de participação.

A metodologia do LabLei pareceu promissora no contexto terapêutico e a leitura em conjunto nos pareceu uma escolha acertada e positiva. Vale ressaltar que a pesquisadora responsável pela leitura lia pausadamente e com entonações precisas, tornando a atividade prazerosa e até divertida. Ainda que o segundo texto tenha sido fornecido de antemão, ler junto e em voz alta também nos pareceu necessário.

Acreditamos que a leitura e discussão do “Sonho” foi mais fluente, talvez pelo fato de que os participantes já estivessem acostumados e receptivos. No entanto, dois aspectos em relação aos textos parecem ter contribuído para isso. O texto machadiano lança mão de palavras pouco conhecidas, o que em alguns momentos gerou dispersão. Já com Dostoiévski, que além de ser mais curto e o número de encontros ter sido menor, a tradução recente traz o texto para mais perto do leitor. A sugestão é que a experiência ocorra entre seis e oito encontros. Onze reuniões, tal como aconteceu com o “Alienista”, nos pareceu excessivo, pois no fim os participantes pareciam cansados. Já no segundo ciclo, a finalização ocorreu no tempo ideal.

O uso da arte como expressão da subjetividade da pessoa em sofrimento mental vem sendo estudado no Brasil desde Nise da Silveira16,17, que se concentrava nas artes plásticas. O presente estudo aponta para a efetividade também do uso da literatura, sobretudo na dinâmica do LabLei, que permite uma ampliação dos efeitos por meio do uso da palavra e da representação.

Em tempos sombrios como os nossos, em que o recurso manicomial volta a ser aventado, pesquisar formas coadjutoras para pensar o tratamento psiquiátrico apresenta-se como um caminho necessário e humanizador. Experiências como a do LabLei, compreendido em uma perspectiva winnicottiana do lugar da cultura no processo terapêutico, mostram-se como um recurso extremamente importante no contexto da saúde mental, sobretudo porque as práticas culturais produzem saúde e potencializam a vida e o viver.

Concluímos, portanto, que o LabLei é uma atividade cultural que pode ser oportunamente introduzida nos serviços de saúde, promovendo a articulação entre Saúde Coletiva, Ciências Humanas e Arte, em uma junção capaz de promover a humanização nos serviços de saúde e o avanço do conhecimento nessas áreas específicas.

Agradecimentos

À Dra. Araceli Albino e ao Grupo Vida pela imensa colaboração ao trabalho.

Referências

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* Pesquisa financiada com bolsa de doutorado CNPq para a autora principal.

Recebido: 20 de Agosto de 2019; Aceito: 06 de Abril de 2020

Contribuições dos autores

Todos os autores participaram ativamente de todas as etapas de elaboração do manuscrito.

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