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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

Print version ISSN 1414-3283On-line version ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.24  Botucatu  2020  Epub Nov 20, 2020

http://dx.doi.org/10.1590/interface.190597 

Espaço Aberto

Sem receita*: deslocamentos do olhar da Nutrição sobre o comer de crianças autistas

No prescription: changes in the nutritional look on autistic children’s eating habits

Sin receta: desplazamientos de la mirada de la Nutrición sobre el comer de niños autistas

Bruna Muratti Ferraz de Oliveira(a) 
http://orcid.org/0000-0002-1669-8453

Maria Fernanda Petroli Frutuoso(b) 
http://orcid.org/0000-0002-6078-5511

(a)Escola Técnica Estadual Sales Gomes, Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza. Praça Adelaide Guedes, 1, Centro. Tatuí, SP, Brasil. 18270-020. <bruna.oliveira418@etec.sp.gov.br>

(b)Departamento de Políticas Públicas e Saúde Coletiva, Instituto Saúde e Sociedade, Universidade Federal de São Paulo. Santos, SP, Brasil.fernanda.frutuoso@unifesp.br


RESUMO

Esta escrita traz reflexões da dissertação Muito além dos nutrientes: a dinâmica alimentar de crianças autistas, que se propôs a (re) pensar a alimentação dessas crianças. Por meio de experimentações com alimentos, oficinas culinárias, passeio à feira livre, festa junina e piquenique, explora alguns deslocamentos do olhar da Nutrição tendo como ingredientes fragmentos fotográficos e escritos de Fernand Deligny, Manoel de Barros e José Miguel Wisnik: a abertura ao imprevisível; o fazer com e estar junto; o desafio de comunicar os resultados da pesquisa para as próprias crianças, usando tirinhas sobre as experimentações; e a proposição do conceito de dinâmica alimentar. Cozinhar e comer juntos permitiram interagir, distanciando-se da concepção restrita de dieta saudável e do nocivo/patológico da comida. Trouxe à tona a complexidade dos processos alimentares, em que o imprevisível – da vida – não desapareceu. Ao contrário, deu sentido ao que aconteceu.

Palavras-Chave: Criança; Alimentação; Culinária; Transtorno do espectro autista

ABSTRACT

This article is a reflection on the Master’s dissertation Muito além dos nutrientes: a dinâmica alimentar de crianças autistas (Beyond nutrients: food dynamics of autistic children), which was a proposal to (re) think autistic children’s eating habits. Through experiments with foods, culinary workshops, visits to farmer’s markets, typical Brazilian parties held in June (festas juninas), and picnics, it explores the changes in the nutritional point of view considering photographic fragments and writings by Fernand Deligny, Manoel de Barros, and José Miguel Wisnik as ingredients: openness to the unpredictable, being and doing together, the challenge of presenting the research results to children using comic strips about the experiments, and the suggestion of the food dynamics concept. Cooking and eating together enabled an interaction away from the restricted conception of healthy diet and of food as harmful/pathological. It brought to light the complexity of the food processes providing the unpredictability of life, giving sense to what happened.

Key words: Child; Nourishment; Cooking; Autism spectrum disorder

RESUMEN

Este escrito presenta reflexiones de la disertación: “Más allá de los nutrientes: la dinámica alimentaria de niños autistas” que se propone (re) pensar la alimentación de esos niños. Por medio de experimentos con alimentos, talleres culinarios, paseo a las ferias en la calle, fiestas de junio y picnics, explora algunos desplazamientos de la mirada de la Nutrición, teniendo como ingredientes fragmentos fotográficos y escritos de Fernand Deligny, Manoel de Barros y José Miguel Wisnik: la apertura a lo imprevisible; el hacer con y el estar junto: el desafío de comunicar los resultados de la investigación para los propios niños, usando tiras cómicas sobre los experimentos; y la propuesta del concepto de dinámica alimentaria. Cocinar y comer juntos permitieron la interacción, distanciándose de la concepción restricta de dieta saludable y de lo nocivo/patológico de la comida. Hizo surgir la complejidad de los procesos alimentarios, en los que lo imprevisible (de la vida) no desapareció. Por el contrario, dio sentido a lo sucedido.

Palabras-clave: Niños; Alimentación; Culinaria; Trastorno del espectro autista

Ponto de partida

Fernand Delignyc, a partir da vivência com crianças autistas na região de Cevènnes, França, na década de 1960, criou com elas um novo tipo de relação descrita como “sendo mais um parceiro nas suas invenções do que alguém que vai interpretar seus gestos”1 (p. 110). Essa relação norteou a dissertação de mestrado “Muito além dos nutrientes: a dinâmica alimentar de crianças autistas”d que se propôs a (re) pensar a alimentação desse público por meio da parceria inventiva em espaços que envolvem o cozinhar e o comer juntos.

Partimos do desconforto diante do hegemônico conhecimento produzido, por países do hemisfério norte, sobre nutrição no transtorno do espectro autista: sob a influência do modelo biomédico, a conduta nutricional para crianças autistas, ainda que não seja consenso na literatura, pauta-se no entendimento do alimento exclusivamente com componentes nutricionais que melhoram ou agravam sintomas e condições de saúde desse público.2-6

Partindo da inserção de um trabalho voluntário em uma instituição que atende exclusivamente a autistas e suas famílias, no interior de São Paulo, SP, interessava dialogar sobre comida com crianças que não se inscrevem nos códigos hegemônicos da comunicação ou da linguagem e criar outras possibilidades diante de uma certa nutrição que não cabe na vida real.

A instituição é uma entidade de caráter assistencial sem fins lucrativos, fundada em 1994, com o objetivo de ofertar atendimento interdisciplinar com equipe composta por profissionais da educação e da saúde, a saber: assistente social, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, nutricionista, psicopedagogo, profissional de educação física, psicólogo, psiquiatra, terapeuta ocupacional, professores de música, dança e artesanato.

Atualmente, são atendidos cinquenta crianças e adolescentes que, no primeiro contato com a instituição, são avaliados pela equipe interdisciplinar com vistas a construir um caminho de apoio e cuidado. A instituição funciona em período integral, das 8 às 17 horas, cinco dias na semana, e as atividades, individuais ou em grupo, acontecem no contraturno escolar e têm a proposta de estabelecer uma rede de assistência integral aos autistas, atuando precocemente e oferecendo subsídios para a inclusão desse público na sociedade.

São realizadas diariamente diversas oficinas temáticas com grupos fixos de, no máximo, cinco participantes, nos períodos matutino e vespertino, sendo de dois a quatro grupos por período. As oficinas têm como objetivo o desenvolvimento neuropsicomotor, alfabetização, socialização e desenvolvimento das habilidades individuais para as atividades diárias, entre outros. Uma vez por semana, são realizadas atividades em grupo para os pais, no mesmo período em que os filhos estão em atendimento terapêutico, por exemplo, em oficinas de artesanato, culinária e exercícios físicos.

Muitos deslocamentos dos modos de olhar e pensar a alimentação de crianças autistas se deram em um percurso de criação e invenção de espaços coletivos para estar e fazer com elas. Experimentações com comidas se concretizaram em 13 oficinas culinárias, com crianças e profissionais da instituição: preparamos e comemos juntos cupcake, pizza, salada de frutas, pão de queijo, pudim; e em momentos de comer compartilhados com familiares: um passeio à feira livre, um piquenique e uma festa junina.

Os encontros aconteceram em junho e julho de 2017 e todos os profissionais da equipe participaram do planejamento, da execução e da avaliação das atividades, de acordo com a disponibilidade no momento das experimentações. As oficinas culinárias ocorreram nos períodos matutino e vespertino, com duração de aproximadamente sessenta minutos e participação de 14 crianças e três adolescentes, com idades entre três e 15 anos, divididos em grupos de três a cinco integrantes, independentemente da idade, os quais puderam participar de mais de uma oficina.

Os alimentos/ingredientes foram apresentados aos participantes, sentados ao redor de uma mesa, os quais ficaram à vontade para o contato e a experimentação entre eles e com os alimentos. Realizaram o preparo da receita com auxílio da terapeuta ocupacional (TO), da nutricionista e de estagiárias (Pedagogia e TO) e, ao final, degustaram a preparação pronta. Havia liberdade para que as crianças levantassem e circulassem pelo espaço.

A feira livre localizava-se a aproximadamente seiscentos metros da instituição e o percurso foi realizado a pé, durante uma manhã. Participaram oito crianças e adolescentes com idades entre quatro e 12 anos, pais/responsáveis, nutricionista, TO, estagiárias e psicopedagogo. Todas as barracas foram apresentadas aos participantes e todos pararam na de pastel para comer.

O piquenique aconteceu na quadra da instituição, durante uma tarde, com dez crianças e adolescentes na faixa etária entre três e 15 anos, e participaram: nutricionista, TO, estagiárias, psicóloga, fisioterapeuta, professora de dança e psicopedagogo. Os alimentos e bebidas foram levados pelos familiares.

A festa junina foi um evento aberto a todos os atendidos na instituição, realizado em uma tarde, com toda a equipe e a presença de 32 crianças e adolescentes. Na festa, havia comida típica ofertada pelas famílias, brinquedos (pula-pula, gira-gira), uma máquina de algodão-doce e música. Houve apresentação de dança das crianças, dos adolescentes e das mães.

A divulgação dos registros fotográficos desta experiência foi autorizada pelos participantes.

Eis alguns fragmentos desses deslocamentos:

Abertura ao imprevisível

“Trata-se disto: ater-me à engenhosidade do agir inato, admirar-me dela e não tentar esclarecer seus mistérios”7. (p.31)

A produção de conhecimento sobre alimentação infantil enfatiza a importância do aleitamento materno e da introdução de alimentos como etapas importantes para a construção de hábitos alimentares que recebem influência do ambiente, incluindo a disponibilidade de alimentos, aspectos culturais e sociais das famílias, estilo de vida dos pais, entre outros8,9.

Além disso, o consumo alimentar está estreitamente relacionado ao desenvolvimento e crescimento das crianças, o que coloca a alimentação como preocupação importante para os seus responsáveis, pedindo ações de promoção de alimentação adequada e saudável8,9.

Nesse contexto, a neofobia e a seletividade alimentar – recusa de alimentos novos e desconhecidos e consumo limitado de alimentos variados, respectivamente – são características recorrentes na alimentação infantil que podem dificultar o processo de construção de hábitos alimentares saudáveis10,11.

Quando tomamos a literatura sobre a alimentação de crianças autistas, a seletividade alimentar é o aspecto predominante, influenciado pelas características sensoriais dos alimentos, como textura, aparência, gosto, cheiro, temperatura, além da apresentação das refeições, utensílios, marcas e embalagens12,13. Vários fatores podem contribuir para a escolha alimentar desse público como, por exemplo, a sensibilidade sensorial, também referida como defensiva sensorial provocada por um processamento sensorial atípico14. Além da relação com a seletividade alimentar, é possível que a sensibilidade sensorial também esteja relacionada a problemas comportamentais nos momentos das refeições. Comer é uma experiência que envolve os sentidos e, diante disso, Leekam et al.15 sugerem que, por não conseguirem relatar seus incômodos, os autistas podem apresentar comportamentos inesperados durante as refeições, afetando negativamente esses momentos familiares.

As atividades desenvolvidas com as crianças nesta experiência não se pautaram na oportunidade de ofertar/ensinar uma alimentação saudável, mas na de explorar os alimentos no campo da sensorialidade: o aveludado do pêssego e a aspereza do abacaxi; os diferentes tons de verde da barraca de verduras e o colorido das frutas; o barulho de morder a pipoca e o pé de moleque, o som dos feirantes chamando os clientes; o cheiro da barraca de peixe e da massa saindo do forno; o sabor da garapa gelada em um dia de calor e do indesejado azedo de uma fruta cítrica.

Nas oficinas havia a definição prévia de uma receita para a aquisição dos ingredientes, mas não interessava propiciar um momento intencionalmente controlado, seguindo o passo a passo da receita e o controle dos aspectos higiênico-sanitários da manipulação dos alimentos e do ambiente: comidas foram cheiradas, tocadas e manipuladas, levadas à boca e lambidas, cuspidas, passadas pelo corpo, na mesa, no chão. As crianças comeram. As crianças recusaram alimentos.

Figura 1 Gestos e coletivos. 

Figura 2 Apetites. 

O estar junto e compartilhar experiências com alimentos, em espaços de exploração sem um desenho planejado, permitiu perceber os gestos, as tentativas e os outros modos de se relacionar com a comida, aproximando-se ao que Deligny chamou de agir, de vagar7,16. Deslocávamo-nos de um fazer – preparar a comida e comer – correto, saudável e intencional.

Abrimo-nos à imprevisibilidade, às aceitações e recusas, às dificuldades, às estratégias, às negociações e às surpresas. Evitamos interpelar, tentamos superar os propósitos terapêuticos premeditados de normatização que acontecem em ambientes limpos e silenciosos que configuram as práticas do nutricionista, o que nos remete a Manoel de Barrose: “Pois minha imaginação não tem estrada. E eu não gosto mesmo da estrada. Gosto do desvio e do desver”17.

Estar junto e fazer com

“O que desabre o ser é ver e ver-se”18 (p. 8)

Os relatos de refeições caóticas em casa e fora dela mostraram os desconfortos dos familiares. Neofobia: recusa a alimentos novos. Seletividade: ingestão alimentar restrita. Algumas das constatações mais ouvidas durante as consultas com os profissionais de saúde da instituição. A literatura confirma que a seletividade alimentar é a principal queixa relacionada à alimentação de crianças autistas, muitas vezes associada a possíveis deficiências nutricionais14,19e/ou momentos conturbados durante as refeições14,20.

As ações com as crianças foram compartilhadas e exigiram deslocamentos também dos pais/responsáveis e da equipe interdisciplinar de educadores da instituição. O diálogo permitiu a abertura para um mundo de possibilidades de ser, de pertencer; de estar junto para cozinhar e comer.

Interessava vivenciar e dar visibilidade ao que estava sendo produzido junto, no percurso das oficinas e dos passeios, tanto para os profissionais como para os familiares das crianças, apontando que as experimentações com alimentos são possíveis – e necessárias – para quaisquer crianças, autistas ou não autistas. Entendendo o ato de comer cotidiano como ato social para todos.

Figura 3 Estar junto. 

Como comunicar os resultados da pesquisa às crianças autistas?

“O maior apetite do homem é desejar ser. Se os olhos veem com amor o que não é, tem ser.”21 (p. 337)

O trajeto com as crianças despertou o desejo de produzir uma forma de comunicação das vivências e dos resultados da pesquisa para as próprias crianças, e construída com elas. Escolhemos coletivamente, com a equipe de educadores, a confecção de tirinhas que, além de comunicar e registrar a experiência, comporiam o elenco de atividades educativas e lúdicas da instituição envolvendo a alimentação.

Figura 4 Passeio à feira livre. 

Figura 5 Festa Junina. 

As tirinhas foram apresentadas às crianças e, no primeiro momento, lidas pelos profissionais, indicando que se tratava de atividades vivenciadas por elas. Algumas falaram “feira”, “pastel”, “festa”; demonstraram alegria ao visualizar as imagens; associaram as tirinhas às atividades de que participaram, respondendo que se lembravam quando questionadas pelos profissionais; e outras se mostraram indiferentes. Em um segundo momento, puderam organizar a história por uma sequência aleatória dos quadrinhos; relacionar as imagens aos balões; desenhar cada quadro com base no texto dos balões; ler e pintar. Cada criança reagiu à proposta de maneira singular. As que apresentavam habilidade de leitura e compreensão realizaram todas as propostas relacionadas às tirinhas com autonomia. As demais obtiveram auxílio dos profissionais em todos os momentos. Todas as crianças realizaram a pintura sem dificuldades.

Figura 6 Comunicação. 

Entre conceitos: a dinâmica alimentar de crianças autistas

A discussão da alimentação de crianças autistas na instituição, por meio do olhar dos pais/responsáveis e da proposição de atividades que envolvem alimentos, trouxe à tona a necessidade de nomear essa outra forma de pensar a comida depois dessa experiência.

Sem abrir mão do desdobramento de subsidiar ações aos problemas identificados, Bosi et al.22 reforçam que enfoques qualitativos possibilitam ampliar e inovar a terminologia e os conceitos que envolvem a comida e o comer. Esta pesquisa apontou imprevisibilidades nos caminhos alimentares das crianças autistas, com momentos marcados por recusas expressivas e aceitações surpreendentes, além das experimentações que envolvem o campo sensorial, realçando as subjetividades e propondo um olhar para as possibilidades e os significados do alimento e do comer.

Nessa perspectiva, a alimentação de crianças autistas coloca em pauta tanto a dificuldade de entender a comida como mediadora de relações, quanto as possibilidades de ajustes a um modo de se alimentar que pode, em uma certa medida, parecer caótico. Como crianças autistas escolhem o que comem? Como introduzir novos e outros alimentos a crianças que supostamente apresentam uma grande seletividade alimentar? Como auxiliar pais/responsáveis na condução da alimentação dos filhos autistas?

A polifonia de termos e recomendações no campo da alimentação e nutrição, por exemplo, o conceito de comportamento alimentar, abre espaço para a observação e a correção da quantidade e/ou qualidade do que as pessoas comem, dado que a predominância de estudos nesse campo associa comportamentos alimentares inadequados a doenças e/ou morte. Trata-se do modelo positivista de produção de conhecimento que define, muitas vezes, determinados comportamentos alimentares como patologia. Nessa perspectiva, os profissionais de saúde responsabilizam os indivíduos pelos comportamentos inadequados e estabelecem condutas pautadas no ajuste e no controle23.

Outros conceitos, como a seletividade e a neofobia alimentar, por exemplo, podem, em uma perspectiva, reforçar a ideia de patologização da alimentação de crianças autistas e não autistas, uma vez que são aspectos frequentes na infância. A literatura, baseada em estudos de abordagem quantitativa, além de apontar dados controversos no que diz respeito ao diagnóstico desses fatores, não comprova a relação entre seletividade alimentar e estado nutricional inadequado9-13.

Embora a seletividade e a neofobia alimentar10-15sejam comumente atribuídas aos autistas, as experimentações desta pesquisa mostraram quanto a alimentação – a recusa e a aceitação – se apresentou de diferentes modos entre as crianças.

Em um repertório considerado restrito pode haver variedade e também aceitações imprevisíveis e/ou momentâneas. É possível perceber, também, que algumas famílias não relatavam preocupações quanto à alimentação dos filhos autistas, mesmo diante de preferências e rotinas alimentares que podem ser consideradas inadequadas do ponto de vista do comportamento e da seletividade alimentar.

Apesar de não ser o foco da pesquisa, cabe pontuar que não foram relatados/encontrados comprometimentos nutricionais nas crianças. Dessa forma, a perspectiva de uso do termo comportamento alimentar, baseada na concepção do que pode ser moldável e patológico23, passível de controle, não dá conta de subsidiar a discussão da alimentação dessas crianças.

Nesse contexto e tomando esta experiência em análise, propusemos a ideia, inédita, de dinâmica alimentar para pensar a alimentação de crianças autistas. Tal proposição, não encontrada na produção de conhecimento no campo da alimentação e nutrição, toma a etimologia da palavra dinâmica – do grego dýnamis – como mote.

A etimologia relaciona-se à ideia de força e potência24 que, em diálogo com a experiência em questão, é ilustrada pelos esforços dos pais/responsáveis em participar dos encontros e em estabelecer estratégias para conduzir a alimentação dos filhos, como, por exemplo, a tentativa de inserir novos alimentos, apresentando-os à criança ou alternando as formas de preparo.

Há potência na experiência com as crianças autistas. Há uma dinâmica no sentido de ações que podem trazer dificuldades no manejo do momento da refeição (como chorar, gritar, tapar os ouvidos, olhar para o nada) que convoca os profissionais e familiares a rever a expectativa de um momento calmo e controlado, em que as pessoas realizam as refeições à mesa, com tranquilidade. Há dinâmica quando as crianças não deixam de comer, de cheirar, de tocar o alimento; de participar da atividade mexendo a massa do cupcake ou enfeitando os bolinhos com confeitos coloridos; e de comer metade do pastel na feira, atitude que uma mãe referiu como “milagre”.

Uma acepção da palavra dinâmica24 emerge da mecânica, a parte que estuda os movimentos dos corpos, relacionados à força que os produzem e os modificam. As atividades extramuros, compartilhadas com pais/responsáveis, bem como as refeições realizadas fora do contexto domiciliar e do escolar, são forças que produzem caminhos e movimentos observados na alimentação dessas crianças. As atividades com os alimentos promovem diversas experiências, sensações e movimentos produzidos pelas crianças nos momentos em que comem, em interação com outras crianças e adultos.

Outra acepção coloca em foco a música24, os diversos graus de intensidade dos sons durante um trecho musical. Há diferentes intensidades das relações que essas crianças estabelecem com a alimentação, marcadas, por exemplo, por recusas e aceitações alimentares expressivas e imprevisíveis que podem apresentar variações em uma mesma criança e entre elas. A título de exemplo, se por um lado pode haver dificuldades na condução da alimentação no domicílio, diante da agressividade da criança quando não recebe o alimento naquele exato momento, por outro pode haver tranquilidade no entendimento das peculiaridades que envolvem a alimentação do filho autista, mesmo nos momentos em que ele recusa determinados alimentos considerados saudáveis.

Outra acepção que nos ajuda a pensar sobre a proposição do conceito de dinâmica alimentar vem da Psicologia e está relacionada às ações em grupo, na medida em que o comprometimento da interação social e da linguagem, bem como os comportamentos repetitivos e estereotipados, impacta diretamente na relação das crianças autistas com seus pares. A literatura aponta que há algum prejuízo na habilidade de atenção compartilhada, mas não há sustentação na ideia de que crianças autistas não respondem à interação social e/ou não desenvolvem relações de apego25-27.

Estímulos para a interação social das crianças autistas, em atividades facilitadas e/ou dirigidas, como nas brincadeiras livres e nas relações sociais espontâneas das crianças com seus pares, oportunizam a ampliação do repertório de habilidades sociais, mesmo nos casos mais severos do autismo25,26.

Na experiência em análise, o estímulo de cozinhar e de comer compartilhado configurou-se como uma oferta de espaços de convívio, permitindo que as crianças interagissem entre si e com os adultos, pais e profissionais, com seus recursos singulares para lidar com as experimentações. Dessa maneira, ao vivenciar as oficinas culinárias e as atividades coletivas com os adultos, as crianças foram construindo uma dinâmica alimentar, ou seja, um modo de se relacionar com a comida e o comer que se modifica de acordo com o estímulo ofertado.

Nas atividades em grupo, as crianças levantaram, interagiram com o colega e com a equipe, realizaram as tarefas, choraram, conversaram, repetiram frases, se afastaram, pularam, gritaram, olharam para “o nada”, taparam os ouvidos, sentaram no chão. E também comeram as comidas que já conheciam e consumiam habitualmente, bem como as que se recusavam a comer, como o pastel da feira.

A ideia de dinâmica alimentar amplia o olhar hegemônico que a Nutrição tem sobre a alimentação infantil: comportamentos controlados durante as refeições à mesa e consumo alimentar adequado – o que inclui a variedade – para o crescimento e o desenvolvimento. As crianças autistas não atendem às respostas específicas esperadas pelos nutricionistas e em todos os momentos de experimentações com a comida não foi evidenciada ausência de resposta e interação, mas sim respostas diferentes das esperadas.

Assim, a proposta conceitual de dinâmica alimentar engloba a potência das mudanças e dos movimentos que circundam a alimentação dessa população, bem como envolve as possibilidades de criar e vivenciar caminhos à medida que a criança autista se relaciona com o alimento e o comer. É um convite a uma outra forma de pensar a alimentação de crianças autistas, para além dos nutrientes.

Considerações provisórias

Esta aposta – de cozinhar e comer junto – possibilitou apoio e cuidado mútuos, com momentos de interação, abertura e respeito, como afirmou Deligny: “respeitar o ser autista não é respeitar o ser que ele seria na condição de outro; é fazer o necessário para que a rede se trame”7 (p.109). Comer é, de fato, uma experiência multissensorial. Experimentar alimentos livremente é deixar falar. É dialogar. É mote para a trama das relações.

Após esta experiência, as oficinas culinárias e atividades compartilhadas com os pais foram inseridas rotineiramente no escopo de ações da instituição. Temos notado a familiaridade de algumas crianças com as oficinas culinárias identificando, por exemplo, o tema/preparação mediante a visualização dos ingredientes. À medida que os grupos das crianças se reorganizam (saída ou inserção de participantes), novas tramas, possibilidades e envolvimento são percebidos, (re)configurando a dinâmica alimentar desse público.

Pais/responsáveis e profissionais (re)pensaram o cuidado em saúde, as concepções que circundam a alimentação das crianças autistas e produziram, além de momentos periódicos de diálogos individuais e em grupo, materiais que dialogam com a vida real e a retratam em vídeos e textos compartilhados entre eles e em mídias sociais.

O distanciamento da concepção restrita da alimentação no transtorno do espectro autista e a aproximação do cozinhar e comer como experiências multissensoriais trouxeram à tona a complexidade dos processos alimentares, em que o imprevisível - da vida - não desapareceu. Ao contrário, deu sentido ao que aconteceu.

[...] quem pode saber

Como se tempera um coração?

[...] Escolhe-se as ervas,

espalha-se o sal,

acende-se o fogo,

marca-se o tempo

e, por fim, de recheio,

a inocente maçã,

que tão doce, úmida e eleita

nos tirou do paraíso

e nos fez assim:

sem receita.

(Alice Ruiz/José Miguel Wisnik)

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* Canção de José Miguel Wisnik (1948-), músico, compositor, ensaísta, professor de literatura brasileira.

cFernand Deligny (1913-1996), francês, foi educador, escritor e cineasta.

dParecer do Comitê de Ética em Pesquisa n. 1.867.143 de 14/12/2016.

eManoel de Barros (1916-2014), brasileiro, poeta.

Recebido: 12 de Setembro de 2019; Aceito: 31 de Agosto de 2020

Contribuições das autoras

Ambas as autoras participaram ativamente de todas as etapas de elaboração do manuscrito.

Creative Commons License  This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License, which permits unrestricted use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.