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Avaliação: Revista da Avaliação da Educação Superior (Campinas)

Print version ISSN 1414-4077On-line version ISSN 1982-5765

Avaliação (Campinas) vol.20 no.2 Sorocaba July 2015

https://doi.org/10.590/S1414-40772015000200012 

Articles

Contribuições da educação geral na formação de médicos e pedagogos egressos de uma universidade pública

Contributions of general education to the training doctors and educators from a public university

Mirian L Gonçalves1 

Elisabete M. A Pereira2 

1Universidade Estadual de Campinas Campinas | SP | Brasil. Contato: mirian.unicamp@gmail.com

2Universidade Estadual de Campinas Campinas | SP | Brasil. Contato: eaguiar@unicamp.br


Resumo

O texto apresenta os resultados de pesquisa desenvolvida com o objetivo de analisar quais são, para egressos dos cursos de pedagogia e de medicina, da Universidade Estadual de Campinas, as contribuições da formação universitária para uma atuação como profissional-cidadão. Procuramos desvendar a partir da avaliação dos egressos, aspectos de Educação Geral ao longo da formação, tanto nos currículos dos cursos como nas vivências universitárias oferecidas pela Unicamp. A pesquisa teve como base a importância de se ter uma formação universitária que ultrapasse os limites da formação técnica profissional específica e se estenda para uma que possibilite o desenvolvimento do senso crítico, do pensamento reflexivo, comportamento ético, habilitando para uma atuação com responsabilidade social. A amostra foi composta por 22,3% dos egressos do curso de medicina e 23,1% do curso de pedagogia. Os egressos de ambos os cursos avaliam que os aspectos de Educação Geral que mais vivenciaram foram as “discussões sobre grandes temas” e “estudos de clássicos da cultura ocidental”. Quanto à atuação profissional, mais de 90% desses egressos encontram-se atuando na sua área de formação e têm autopercepção de que atuam como profissionais-cidadãos. A maioria (70%) dos egressos avalia ainda que esta atuação está relacionada à formação dada na universidade que foi: adequada para as práticas profissionais; amparada em conhecimentos científicos; com visão social; pautada na ética; com valores humanos, ou seja, possui elementos de Educação Geral que possibilitaram uma formação de profissionais-cidadãos.

Palavras-chave Universidade; Educação geral; Egressos; Pedagogia; Medicina

Abstract

The paper reports the results of a survey conducted with the aim of analyzing what are, for graduates of Pedagogy and Medicine, from the State University of Campinas - Unicamp, the contributions of the university education for a performance as a professional-citizen. The research seeks to unravel, from the graduates point of view, the aspects of General Education in the curricula of the courses as in the other experiences offered by the university. The research was based on the importance of having a university education that goes beyond the boundaries of specific vocational and technical training, that is, that extends to one that develops ethical behavior, critical and reflective thinking, enabling for a performance with social responsibility. The sample comprised 22.3% of Medical School graduates and 23.1% of the School of Education. For the graduates of both programs the aspects of General Education that were more experienced were "discussions on major topics" and "studies of of Western culture classics." As for professional practice, over 90% of graduates are working in their training area and have a perception that they act as a professional-citizens. Most graduates (70%) evaluate that this activity is related to the training provided at Unicamp, as being: suitable for professional practices, supported by scientific knowledge; with social vision; based on ethics and human values. All these are elements of general education that allowed for their formation as professional-citizens.

Keywords University; General education; Graduates; Medicine; Pedagogy

Introdução


O ensino superior no Brasil sempre seguiu uma tendência exclusivamente profissionalizante. Datando pouco mais de 200 anos, a primeira escola de medicina, localizada na Bahia, inicia o ensino superior no Brasil com a chegada da Família Real em 1808. Com a Independência foram criadas escolas profissionais isoladas para suprir a necessidade de profissionais na área da medicina, direito, artes militares e engenharia, no entanto, a educação superior em Universidades data da terceira década do século XX (TEIXEIRA, 1998). O conceito de universidade foi definido em 1931, pelo Estatuto das Universidades Brasileiras. No art. 5º o Estatuto informa que uma universidade deve “congregar em unidade universitária pelo menos três dos seguintes institutos do ensino superior: Faculdade de Direito, Faculdade de Medicina, Escola de Engenharia e Faculdade de Educação Ciências e Letras. A universidade brasileira apresenta-se estruturada basicamente em dois modelos. O primeiro relaciona-se com fazer a intermediação entre o indivíduo e o mercado de trabalho, preparando-o para atender às suas demandas, o que para Chauí (2001, p. 190) é a visão de uma “universidade operacional”, isto é, a que forma mão-de-obra especializada. O segundo modelo parte do princípio de que a construção de uma sociedade mais justa e democrática depende de indivíduos não só profissionalmente competentes, mas de cidadãos com responsabilidade ética e social (GOERGEN, 2010).


Nos dias atuais, o que reforça a visão dos estudos em nível superior como um treinamento para atividades práticas é a presença de uma cultura fortemente materialista e utilitarista que, de acordo com Goergen (2010, p. 19), coloca como principal expectativa dos ingressantes em nível superior, a formação profissional com conhecimento técnico especializado como chave para o futuro sucesso profissional. “[...] A questão não diz respeito à formação profissional em si, que é boa e necessária, mas ao peso exclusivo que essa preparação assume no processo formativo dos estudantes.” 


O enfoque profissionalizante do ensino superior visa uma atuação técnica competente e pouco possibilita o desenvolvimento de profissionais compromissados com o bem-estar social. Acreditamos que uma sociedade verdadeiramente democrática se ampare também no acesso a serviços básicos de qualidade, com profissionais socialmente responsáveis e tecnicamente capacitados.


Diante desse cenário, acreditamos que cabe à universidade formar profissionais que, no dizer de Souza Filho (2006, p. 183) sejam “inconformados, inadaptados”, isto é, profissionais que sejam capazes de atos críticos, de se indignar diante das barbáries sociais e de, por meio da sua atuação profissional, realizar interferência a fim de diminuir as desigualdades e injustiças sociais diante da discriminação e da violência. Nesse sentido, Oliveira (1988) aponta que o ensino superior vai atingir plenamente sua função social se, e quando, o aprendiz souber interagir com a realidade de forma mais amplamente e não exercer sua atuação profissional exclusividade pelo agir técnico. De acordo Goergen (2010), embora a formação profissional apresente um elemento importante de pertinência social, não pode ser tomada como único critério de avaliação de qualidade da universidade. A formação acadêmica de qualidade é mais que o preparo profissional para atuação no mercado de trabalho. Ela envolve a formação do ser humano integral enquanto cidadão político e ético.


A cultura estritamente profissional da universidade faz olhar com maus olhos a ideia de que a universidade deva possibilitar uma formação mais ampla e cultural dos estudantes. Sobre isso, Astin (apud PASCARELLA; TERENZINI, 2005) nos relata que a universidade tem um papel importante a contribuir na formação integral do estudante. O autor atribui ao ambiente acadêmico um papel crítico, que oferece aos estudantes uma ampla variedade de oportunidades para refletirem sobre as mais importantes questões da sociedade atual. Considera ainda a importância do esforço e envolvimento do estudante na apropriação dos recursos proporcionados pela Instituição. 


De acordo com Bowen (1977), os objetivos da educação superior abarcam diversos elementos como: a aprendizagem cognitiva; o desenvolvimento emocional e moral; a competência prática e a satisfação durante os anos de graduação e em épocas posteriores da vida. Estes objetivos abarcam subitens que vão ao encontro da Educação Geral que, de acordo com Santos Filho (2007, p. 19) tem como intuito evitar que os estudantes ao saírem da universidade, não estejam:


“treinados” como bárbaros especializados, ansiosos por ingressar no mercado de trabalho. Esses futuros profissionais poderão ser muito capazes de criar técnicas para torturar sem matar, de construir pontes ou prédios precários para lucrar mais, de aplicar a letra da lei para fazer injustiça porque passaram pela universidade sem oportunidade para refletir sobre a dignidade humana, a prioridade da qualidade de vida sobre o mercado, os problemas éticos, a responsabilidade social da profissão.


Para Pereira (2007), a Educação Geral é uma das contribuições mais importantes que a instituição universidade pode oferecer aos alunos que se preparam para ser um profissional com conhecimentos para além da especificidade de sua área de atuação. Formar um profissional que chamamos de profissional-cidadão. Segundo a autora o termo Educação Geral 


tem sido utilizado para informar o entendimento sobre a parte comum do currículo, oferecida a todos os estudantes como aspecto prévio e primordial do desenvolvimento intelectual, que os prepara para ações cívicas e para a aquisição das competências profissionais. [...] é tida ainda, como a preparação mais necessária para uma vida de contínua aprendizagem, pois oferece uma formação conceitual e não uma formação prática utilitarista (PEREIRA, 2007, p. 67).


A Educação Geral busca alterar os limites meramente técnicos da profissionalização e formar o homem para a liberdade de pensamento, para o agir reflexiva e eticamente. É nesse caminho que se educa o que Pereira (2007) denomina “profissional-cidadão”, ou seja, o sujeito que se vê primeiramente como um cidadão ativo e significativo em seu tempo histórico e que seja capaz de agir profissionalmente em sua área tendo, primordialmente, como perspectiva, a sua condição de cidadão inserido em uma sociedade e em um mundo global e complexo, com pertinência social, sujeitos capazes de contribuir para a construção de uma sociedade melhor, mais humana e justa. 


Freinet (1998) ao discorrer sobre os erros humanos na ciência, diz que os profissionais se comportam como os aprendizes camponeses que adquiriram nas escolas, ou nos livros, algumas noções precisas sobre a cultura da terra e a criação de animais, o manejo das máquinas; que conhecem nomes, mas, depois, na prática, dão-se conta que seu conhecimento não o familiariza com o misterioso dinamismo da integração. Para o autor, os camponeses dão-se conta experimentalmente dos seus erros e imperfeições porque a natureza é implacável, no entanto, “Pedagogos e médicos têm a possibilidade de lançar sobre seus pacientes a responsabilidade de seus fracassos e insuficiências. Eles sempre têm razão.” (p. 33).


É bastante apropriada a crítica de Freinet para os dias atuais diante da precoce especialização que vem acontecendo cada vez mais nos cursos de graduação. As notícias frequentes de falência do sistema de educação e saúde no nosso país, na qual os profissionais se desresponsabilizam da sua obrigação profissional, perpassa também pela incompreensão humana do outro. Assim, é atribuída ao outro (paciente ou estudante), a exclusiva responsabilidade pelo fracasso.


A Unicamp vem favorecendo aos seus alunos um processo de flexibilização curricular desde 1998 visando uma formação acadêmica cultural mais abrangente. Acreditamos que esta visão mais ampla é propulsora de desenvolvimento crítico para os futuros profissionais, capacitando para processos de transformação social (PEREIRA; CORTELAZZO, 2002). 


A pesquisa e seu desenvolvimento


O trabalho teve como objetivo analisar quais são, para egressos dos cursos de pedagogia e de medicina, da Universidade Estadual de Campinas, com até cinco anos de formados (2006-2010), as contribuições da formação universitária para uma atuação como profissional-cidadão. O interesse foi o de conhecer qual era a avaliação dos egressos sobre o currículo dos seus cursos, sobre suas vivências universitárias, e reconhecer nas avaliações elementos de Educação Geral que proporcionasse condições de superar uma formação exclusivamente técnica profissional. 


A pesquisa caracterizou-se como empírica e quali-quantitativa. De acordo com Gamboa (2001) os métodos quantitativo e qualitativo não são incompatíveis, mas complementares. O autor afirma que os métodos quanti e qualitativos podem ser usados pelos pesquisadores sem a preocupação de caírem em contradição epistemológica O uso de ambos os métodos neste trabalho busca a articulação e a complementação na análise. O autor nos adverte que no atual estágio do desenvolvimento do conhecimento humano, e de modo especial na área das ciências humanas e da educação, é pragmaticamente defensável que se admita e se adote a articulação e a complementaridade dos paradigmas a fim de fazer avançar o conhecimento humano.


A seleção do lócus da pesquisa considerou a opção por uma universidade de excelência e que tivesse os dois cursos a ser estudados, no mesmo campus, pois, entendemos que as influências das vivências universitárias podem convergir na medida em que há a possibilidade de os estudantes frequentarem os mesmos ambientes. Fizemos ainda um recorte temporal com os egressos dos anos de 2006 a 2010. A população disponível em tese, tendo em vista o número de ingressante em cada curso (110 no curso de medicina e 45 no curso de pedagogia diurno), era a de 775 egressos. No entanto, ao longo do curso há diversos fatores que modificam o número de egressos em relação ao número de ingressantes e a população total disponível foi a de 707, sendo 534 do curso de medicina e 173 de pedagogia. Desse universo, conseguimos o contato com 119 egressos do curso de medicina (22,3%) e 40 de pedagogia (23,1%), resultando em uma amostra total de 159 egressos.


Tabela 1 - Distribuição da população e porcentagem na amostra 

População Amostra
N % n %

Medicina 534 100% 119 22,3%
Pedagogia 173 100% 40 23,1%

O trabalho com egressos apresenta diversas dificuldades para a coleta de dados. Uma primeira foi a de que as universidades brasileiras não têm uma política de follow-up de seus egressos ou uma Associação de Ex-Alunos com registros sobre endereço de contato. Para os egressos da medicina, recorremos à Comissão de Residência Médica da Unicamp, solicitando que o convite com o questionário da pesquisa fosse enviado aos residentes, egressos da Unicamp. Tivemos também o contado com dois egressos dos anos 2006 e 2007 que solicitamente republicaram a pesquisa entre os colegas de turma e outros tiveram a mesma atitude, o que muito nos favoreceu atingir um grande número de sujeitos. Usamos ainda o contato por meio de uma rede social para alcançar um maior número de respondentes da pesquisa.


O contato com os egressos do curso de pedagogia se deu de forma mais fácil. A coordenação do curso possui um banco de dados com os e-mails dos concluintes que entregaram o Trabalho de Conclusão de Curso. Assim, a coordenação se dispôs a enviar o e-mail para os egressos, convidando-os a participar da pesquisa, o que garantiu um caráter institucional e a devolutiva das respostas mais prontamente.


Para a coleta de dados optamos por um questionário que foi enviado on line por meio da ferramenta “enquete fácil” (ww.enquetefacil.com). O questionário era composto de questões abertas e fechadas em itens Likert. A análise dos dados descritivos foi realizada por meio da Análise de Conteúdo (BARDIN, 2004) e os dados fechados foram analisados por meio do Cálculo do Ranking Médio (RM = média ponderada/nº. de sujeitos respondentes na questão).


Resultados e discussão

A amostra nos evidenciou um perfil de egressos jovens, como era esperado, uma vez que os alunos da Unicamp apresentam tempo regular para cumprimento dos créditos da graduação. Estes egressos têm atualmente idade entre 26 e 29 anos (aproximadamente 52% no total) e 23% encontra-se na faixa etária entre 30 e 33 anos. Estes dados nos permitem afirmar que grande parte dos egressos cursou a universidade na faixa etária entre os 18 a 24 anos, o que diferencia a UNICAMP do cenário brasileiro no ensino superior. Segundo o Censo da Educação Superior de 2010 (INEP, 2011), o número de matriculados nesta faixa etária em 2009, era de 14,4% apenas. 


Quanto ao gênero, no curso de medicina há uma distribuição bastante homogênea entre homens e mulheres: 48,7% e 51,3% respectivamente, enquanto que no curso de pedagogia as mulheres predominam em 95% da amostra, o que é também verdadeiro para o curso.


Os egressos responderam sobre sua ocupação profissional atual: 98,7% dos egressos do curso de medicina atuam na sua área de formação e 93,7% estão satisfeitos na ocupação profissional atual. Dos egressos do curso de pedagogia, 91,7% atuam na área de formação e 77,8% encontram-se satisfeitos na atuação profissional. 


Quanto ao tipo de ocupação, os egressos do curso de medicina estão divididos em médicos especialistas – 65,4%; pós-graduandos da Residência Médica – 30,8%; consultores técnicos – 2,6% e sanitarista – 1,3%. Os egressos pedagogos dividem-se em professores – 51,4%; estudantes de pós-graduação (mestrado e doutorado) – 13,5%; atuação na área pedagógica em geral – 27,0 %; atuação fora da área pedagógica – 8,1%.


Com interesse em conhecer fatores da formação acadêmica, organizamos questões em escala Likert solicitando que respondessem com qual frequência vivenciaram, durante a formação acadêmica, aspectos que, segundo as Diretrizes Curriculares de cada curso, são próprias do perfil do profissional e que, segundo a fundamentação da área da formação geral são próprios para a formação do profissional-cidadão (PEREIRA, 2010). Procuramos conhecer, na visão dos sujeitos se e quando vivenciaram: sólida/forte fundamentação teórica; atividades práticas da profissão; estágios curriculares; discussão sobre grandes temas da sociedade; estudos de clássicos da cultura ocidental e educação em Direitos Humanos. Estas três últimas categorias representam elementos de uma Educação Geral. 


Os resultados estão apresentados na Tabela 2 e foram obtidos por meio do cálculo do Ranking médio. Neste cálculo, quanto mais próximo de cinco estiver o resultado, maior é o número de egressos que vivenciou a categoria em questão na sua gradação máxima, e quanto mais próximo de um, significa menor vivência na categoria.


Tabela 2 - Ranking Médio (RM) da frequência na vivência dos aspectos curriculares
 

RM Medicina RM Pedagogia

Forte fundamentação Teórica 3,9 4,2 Atividades Práticas 4,5 2,9 Laboratórios 3,6 2,2 Estágios Curriculares 4,5 3,2 Discussão sobre grandes temas 3,7 3,8 Estudos de clássicos da cultura ocidental 1,8 3,6 Educação em Direitos Humanos 2,5 3

Enquanto o curso de medicina é marcado pela forte frequência às atividades práticas, com RM de 4,51 o que significa que a maioria dos egressos as vivenciaram “quase sempre” ou “sempre”, o curso de pedagogia é marcado pela forte fundamentação teórica com RM de 4,13 representando que este aspecto esteve presente no curso para a maioria dos egressos. Estes dados iniciais nos levaram a compreender os demais. 


Tendo em vista a ênfase nas atividades práticas, os laboratórios e estágios curriculares também são apontados com alta frequência pelo curso de medicina, enquanto que no curso de pedagogia a frequência nestes itens é mais baixa. A situação se inverte quando se trata de aspectos sobre questões como: “discussão sobre grandes temas” e “estudos de clássicos da cultural ocidental” em que a avaliação dos egressos do curso de pedagogia é maior que 3,5 (RM = 3,8684 e RM = 3,6316 respectivamente), ou seja, significa que a maioria dos egressos vivenciaram esses aspectos curriculares “quase sempre”. Apenas no item Educação em Direitos Humanos, a avaliação é a de que o vivenciaram “às vezes” (RM = 3).


Os egressos avaliaram também a relação entre a formação acadêmica e a atuação profissional. 


Tabela 3 - Relação entre a formação acadêmica e a atuação profissional

 

Medicina Pedagogia

Ranking Médio 4,1 3,7

Os resultados indicaram que os egressos de ambos os cursos, avaliam que há uma forte relação entre a formação acadêmica e a atuação profissional. Entretanto, o valor do Ranking Médio foi maior no curso de medicina do que no de pedagogia (4,1 e 3,7 respectivamente). 


Com a intenção de compreender quais as relações que se estabelecem entre a formação universitária e a atuação profissional, solicitamos aos egressos que avaliassem na forma da escala Likert, de 1 (um) a 5 (cinco), no qual 1 significava nenhuma condição e 5 total condição, em que medida os aspectos necessários para uma atuação profissional foram oferecidos durante a formação universitária pela Unicamp.


Tabela 4 - Condições oferecidas pela formação universitária para a atuação profissional


 

RM – Medicina RM – Pedagogia

Adequada para as necessidades da prática profissional 4,3 3,2
Amparada em conhecimentos científicos 4,3 4,0
Com visão social 4,2 4,0
Pautada na ética 4,3 4,0
Com valores humanos 4,2 3,8

O resultado é bastante positivo, uma vez que todos os valores tiveram alta avaliação. Para eles, a Unicamp, de forma geral, ofereceu “muita condição” para: atuação adequada às necessidades da prática profissional; amparada em conhecimentos científicos; com visão social; pautada na ética; com valores humanos. A média dos RMs na questão foi calculada pela média aritmética simples uma vez que não consideramos pesos diferentes para os valores elencados. 


Pereira (2002) afirma que, para se alcançar uma ciência guiada por valores humanos e sociais, os métodos de reflexão, reorganização e ação interativa precisam ser parte da construção dos currículos. De acordo com a autora,


A educação deverá canalizar suas atividades formativas para o desenvolvimento de cidadãos que tenham como preocupação e que ajam como profissionais responsáveis, cotidianamente, de forma individual e coletiva, para a construção de uma sociedade globalmente melhor. O que se pretende é uma educação de rosto humano (PEREIRA, 2002, p. 44).


A avaliação dos egressos sobre as condições de formação para a atuação profissional já nos apresenta indícios para afirmar que estes receberam na Unicamp condições para atuarem como profissionais-cidadãos, uma vez que a universidade, ao abarcar valores sociais, humanos e éticos na organização curricular, ofereceu elementos que ultrapassavam a visão exclusivamente técnica da formação profissional. 


Questionamos se os egressos se percebiam como profissionais que atuavam para uma sociedade mais humana, ética e justa, ou seja, como profissionais-cidadãos. As respostas, de acordo com o Gráfico 1, revelam que, em ambos os cursos, mais de 90% dos egressos avaliam que atuam como profissionais-cidadãos.


>Quadro 1 - Autopercepção dos egressos quanto à atuação como profissional-cidadão 

Em uma questão aberta, solicitamos que os egressos avaliassem como essa postura se relacionava à formação que receberam na universidade. As respostas foram elencadas em categorias, conforme Tabela 5 (para as respostas dos egressos do curso de medicina) e Tabela 6 (para as respostas dos egressos do curso de pedagogia). 


Tabela 5 - Relação entre à formação universitária e 
à atuação como profissional-cidadão – Medicina
 

Pelos resultados nota-se que a maioria dos egressos de medicina, quase 70%, acredita que a atuação de forma humana e ética, tem relação direta com a formação universitária que receberam. Os egressos relatam que a formação ética ao longo do curso, a vivência no SUS e no hospital universitário; os exemplos que receberam durante as atividades práticas; o comprometimento dos professores; a formação crítica; a formação ampla e social; os projetos de extensão e a vivência universitária foram elementos que possibilitaram essa formação. Apresentamos as “falas” que ilustram esta avaliação.


Completamente. Essa sempre foi a postura dos meus professores. Tivemos aula de ética por 6 anos na faculdade, contato com unidades básicas de saúde desde o 4º ano. (Egresso de 2006)


Sim. Fui treinada para pensar como médica e ao mesmo tempo, estimulada a olhar o mundo com crítica. Essa capacidade de distinguir o certo do errado e o impulso de fazer o certo para que toda a população seja beneficiada é algo pouco valorizado no mundo atual. Se não fosse a formação que recebi, provavelmente nunca conseguiria pensar dessa forma.(Egresso de 2008)


Alguns egressos relataram que a formação contribuiu para a atuação como profissional-cidadão “em partes” porque a criticidade desenvolvida aconteceu na experiência prática, com bons e maus exemplos. Outros relataram que a ênfase maior esteve voltada para a formação científica. Poucos consideram que a postura de profissional-cidadão não está relacionada com a formação acadêmica. Estes egressos fazem parte do conjunto de apenas 6,8%. 


Estes resultados são bastante positivos tendo em vista que a Unicamp não ofereceu a estes estudantes um curso específico de Formação Geral e que a grande maioria dos egressos avalia que a formação universitária mantém relação com a atuação de profissional-cidadão, ou ao menos contribuiu parcialmente para essa atuação. 


Apresentamos a seguir, as respostas dos egressos do curso de pedagogia para a mesma questão. 


Tabela 6 - Relação entre a formação universitária 
e uma atuação cidadã-profissional – Pedagogia
 

Os pedagogos em sua maioria (72,7%) consideram que a Universidade teve completa relação com a atuação que desempenham como profissional-cidadão. Estes egressos acreditam que a formação ampla, crítica e ética; a reflexão da estrutura social; as vivências universitárias (não obrigatórias); e os exemplos de professores críticos e políticos auxiliaram a desenvolverem tal posicionamento, conforme ilustram as “falas” a seguir. 


Sim, pois tive a oportunidade de conhecer pessoas com diferentes pontos de vista, participar em diferentes espaços de formação política e cultural, o que me fez aprender e respeitar o diferente, pensar de forma mais ampla, além das minhas próprias convicções. Aprendi a ser crítica e a suspeitar das verdades pré-estabelecidas, construindo uma nova visão sobre a sociedade e a educação. (Egresso de 2006)


Acredito que sim. Acho que a universidade é um local que te faz pensar de maneira macro. Te faz refletir sobre a realidade na qual estamos inseridos e que, muitas vezes, achamos que não fazemos parte ou que não é nossa responsabilidade estar atento a certos problemas sociais. Mas a partir das discussões, com cada um expondo seu ponto de vista à luz de algum texto de apoio, entendi que, se estou inserida em uma sociedade e ela tem problemas, então esse problema também é meu, e se minha profissão me dá condições de fazer algo, certamente assim o farei. (Egresso de 2009)


Poucos (18,2%) foram os que responderam que a postura de profissional-cidadão está relacionada “em partes” com a formação universitária dos egressos e 9,1% disseram que “não” está relacionada.


Entre médicos e pedagogos que avaliaram não haver relação, percebe-se que apresentam a ideia de que a educação em valores éticos e humanos é papel da família e que à escola/universidade cabe apenas o ensino científico.


Não. Acredito que isso seja uma formação como pessoa que remete a família, valores que trouxemos de casa. "ninguém pode ser melhor médico do que é como pessoa", jargão dito por um grande professor nosso. Não adianta incessantes aulas de ética e de como ver holisticamente o paciente se esse médico não ganhou a habilidade da compaixão na sua formação mais primaria. (Egresso do Curso de Medicina de 2010)


Em parte sim. Porém uma postura ética depende muito mais da formação que se recebeu durante toda a vida na família, na escola, na faculdade, entre os amigos, eventualmente, na igreja, etc.(Egresso do Curso de Pedagogia de 2009)


Interessante notar na resposta de um dos egressos do curso de medicina que, apesar de exemplificar sua postura com lembranças de lições aprendidas com os professores durante a formação universitária, insiste em dizer que os valores éticos e humanos estão relacionados à família. Concordamos que os jovens, quando ingressam na universidade, chegam com valores construídos nos meios em que estiveram inseridos. No entanto, as vivências nos anos da graduação, em que geralmente se inicia uma nova vida longe de casa, em uma nova cidade, com novas pessoas, nova rotina, são fatores que influenciam a forma como se entende e reflete sobre o mundo e como se concebe os valores éticos e humanos. Isso porque, além das atividades que o currículo formal da universidade proporciona, o currículo oculto, ou seja, a convivência com diferentes culturas e diferentes realidades, antes desconhecidas, agregadas por uma universidade de grande porte, possibilitam o desenvolvimento do respeito à diversidade, inerente à raça humana.


Sobre isso, Goergen (2010) enfatiza a necessidade de que, particularmente no contexto brasileiro de tantas carências e problemas, os estudantes sejam levados a refletir as formas concretas de se situarem frente a esta sociedade durante os estudos universitários, estimulando assim, a consciência ética e o sentimento de corresponsabilidade social que devem assumir enquanto profissionais que tiveram a oportunidade de frequentar uma instituição de educação superior.


De forma geral, os egressos dos cursos de medicina e de pedagogia estudados, demonstraram que têm assumido um compromisso social em sua atuação profissional e nos permitem afirmar que a Unicamp oferece uma formação profissional que os habilita para o mundo do trabalho sem, no entanto, deixar de lado uma formação crítica, ética e reflexiva, caracterizando-se como uma universidade com responsabilidade em formar cidadãos competentes profissionalmente, mas também eticamente sensíveis e socialmente responsáveis. 


Considerações finais


Buscamos ao longo deste artigo analisar quais são, para egressos dos cursos de pedagogia e de medicina, da Universidade Estadual de Campinas, as contribuições da formação universitária para uma atuação como profissional-cidadão. Procuramos desvendar, a partir da avaliação dos egressos, possíveis elementos de Educação Geral ao longo da formação, tanto nos currículos dos cursos, como nas vivências universitárias possibilitadas pela Unicamp. 


Os egressos apontaram que foi possível vivenciar, além de uma forte fundamentação teórica, discussões sobre grandes temas, estudos de clássicos da cultura ocidental e Educação em Direitos Humanos, temáticas que ultrapassam os aspectos exclusivamente técnicos profissionais e possibilitam o desenvolvimento de uma postura crítica e reflexiva. 


Quanto à atuação profissional, a pesquisa elucidou que mais de 90% dos egressos atuam profissionalmente na sua área de formação e convergiram quanto a crença de estarem atuando no intuito de uma sociedade mais humana, justa e ética, apresentando um entendimento sobre a sua função social para além das atividades técnicas da profissão. Noventa e cinco por cento dos médicos e 97% dos pedagogos sentem-se atuando como profissionais-cidadãos. Consideramos essa convergência como a mais importante entre os resultados, pois sabemos que as áreas de Educação e de Saúde necessitam de profissionais que se sintam engajados em trabalhar para uma transformação social. Essa postura é de fundamental importância, tendo em vista quão grave são os problemas no cenário destes serviços tão essenciais à sociedade. 


A maioria (cerca de 70%) dos egressos avalia que a atuação, como profissional-cidadão, está relacionada à formação universitária proporcionada pela Unicamp. Para os egressos do curso de medicina a formação ética e humana ao longo do curso, seguida da vivência no SUS, foram as principais características do curso que possibilitaram esta atuação. No caso dos pedagogos, a formação ampla, crítica e ética, seguida da reflexão da estrutura social foram fundamentais para possibilitar um exercício profissional engajado com a realidade local e em busca de transformação social. 


Nosso foco de pesquisa levou em consideração que uma universidade deve garantir uma formação que reverbere socialmente na atuação profissional. Acreditamos que o diálogo universidade-sociedade deve acontecer também por meio dos profissionais que são formados para agir profissional e socialmente. 


Um dos limites deste estudo foi o alcance de um número maior de egressos, o que está relacionado à dificuldade em contatá-los, uma vez que não temos a tradição de ter uma associação de ex-alunos(1). Podemos supor também que os egressos partícipes do estudo sejam os mais engajados com as questões da universidade, empenhados em proporcionar melhorias ao curso que fizeram e isso pode ter gerado um viés positivo nos resultados. Acreditamos que uma amostra mais abrangente, com novos estudos estatísticos poderá complementar esta análise de forma a proporcionar um olhar mais amplo sobre as problemáticas levantadas neste estudo. 


As respostas descritivas dos egressos nos permitem afirmar que a maioria destes se nutriu durante o período na Unicamp de uma formação abrangente, crítica e pautada em valores éticos que garante um olhar crítico sobre a sociedade na qual estão inseridos e uma ação profissional que valoriza o ser humano dentro desta. A forma como apresentaram as respostas demonstrou uma capacidade de reflexão que ultrapassa o olhar estritamente técnico da formação e da profissão, o que nos permite dizer que a presença de elementos de Educação Geral, embora dissolvidos no currículo, já possibilitou o desenvolvimento de um profissional-cidadão tão necessário nos nossos tempos. 


Referências


BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2004 [ Links ]

BOWEN, H. R. Objetivos: os resultados desejados da educação superior. Publicação original: Bowen R. Goals: the intended outcomes of higher education. In: Tradução de Lila de Araujo Rayol e Sandro Ruggeri. INVESTMENTE IN LEARNING: the individual and social value of American Higuer Educacion. San Francisco: Jossey Bass, 1977 [ Links ]

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1A Unicamp iniciou em 2010 o Alumni, um site https://www.alumni.unicamp.br/login.jsp# desenvolvido pelo SAE (Serviço de Apoio ao estudante) e pela Pró-reitoria de Graduação da Unicamp para ex-alunos. O site oferece serviços de empregabilidade, conselho profissional; ligação entre empresas e profissionais; espaço para expor serviços (para profissionais liberais e prestadores de serviços); e serviços como descontos e participação em promoções, etc.. Os egressos se cadastram no site de forma voluntária. Acesso em: 29 dez. 2006.

Recebido: 4 de Abril de 2013; Aceito: 31 de Julho de 2013

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