SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.21 número3PROUNI - controversial topics under the view of scholarship studentsInstitutional self-evaluation: a study on the analysis of data from self-assessment in diachronic perspective índice de autoresíndice de materiabúsqueda de artículos
Home Pagelista alfabética de revistas  

Servicios Personalizados

Revista

Articulo

Indicadores

Links relacionados

Compartir


Avaliação: Revista da Avaliação da Educação Superior (Campinas)

versión impresa ISSN 1414-4077versión On-line ISSN 1982-5765

Avaliação (Campinas) vol.21 no.3 Sorocaba agosto/nov. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-40772016000300006 

Articles

A relevância do processo de autoavaliação institucional da universidade tecnológica para a configuração do bom professor

The relevance of institutional self-evaluation process in the technological university for defining the good professor

Carmen Célia Barradas Correia Bastos1 

Nelci Aparecida Zanette Rovaris2 

1Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Cascavel, PR, Brasil. Contato: carmencbcb@yahoo.com.br

2Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Medianeira, PR, Brasil. Contato: nelcirovaris@gmail.com


Resumo:

O objetivo deste artigo é apresentar discussões sobre concepções de bom professor universitário a partir dos resultados dos processos da Autoavaliação Institucional em uma Universidade Tecnológica Federal Paranaense. O estudo apresentado faz parte da dissertação de Mestrado em Educação, do Programa de Mestrado em Educação da Universidade Estadual do Oeste do Paraná -UNIOESTE, Campus de Cascavel e tem como objetivo revelar como os dados/resultados de um processo de autoavaliação institucional da Universidade Tecnológica podem colaborar na configuração do bom professor. Entremeadas na construção histórica do conceito de bom professor e de bom ensino apresentam-se discussões sobre a avaliação institucional, um dos propósitos deste trabalho, que lança um olhar na perspectiva de desvelar a Autoavaliação Institucional como uma ferramenta capaz de proporcionar elementos de intervenção pedagógica para a constituição de melhores condições de ensino e aprendizagem na universidade. Nesse contexto, pergunta-se: Como os dados/resultados do processo de Autoavaliação Institucional podem colaborar na configuração de um bom professor universitário? Como referenciais teóricos sobre Avaliação Institucional utilizaram-se as ideias de Dias Sobrinho (1995, 2010), Belloni (1996), Cunha (2005), Simões (2000), dentre outros teóricos. Como resultado deste trabalho infere-se que a Autoavaliação Institucional na concepção formativa possibilita enxergar e engendrar vários caminhos para consolidar ações de melhoria do ensino, de formação de professores que levem à profissionalização do professor universitário e na configuração do bom professor, em especial, da Educação Profissional e Tecnológica Universitária.

Palavras-chave: Autoavaliação institucional; Bom professor; Educação superior

Abstract:

The objective of this paper is to present concepts of good discussions about university professors from the results of an Institutional Self-evaluation process in a Federal Technological University of Paraná. This study is part of the dissertation of Master of Education, presented in the Master's in Education Program at the State University of West Paraná - UNIOESTE, Campus Cascavel, and aims at to reveal how the data / results from an institutional self-evaluation process of the technology university can collaborate for defining a good professor. Interspersed in the historical construction of the concept of a good professor and good teaching discussions on institutional assessment are presented, one of the purposes of this study, which tries unveiling the Institutional Self-Assessment as a successful tool for providing elements of pedagogical intervention for getting better conditions for teaching and learning in universities. Therefore, the question is: How can data / results of the Institutional Self-Assessment process collaborate for defining a good professor? As theoretical reference on Institutional Self-evaluation were taken the ideas of Dias Sobrinho (1995, 2010), Belloni (1996), Cunha (2005), Simões (2000), among other authors. As a result of this work it can be noticed that the Institutional Self-evaluation in formative conception enables seeing and devise several ways to consolidate actions for improvement of education, professor training leading to the professionalization of the university professor and defining the good professor, in particular, in the professional and technological University education.

Key words: Teacher institutional self-evaluation; Good professor; Undergraduate education

1 Introdução

A partir dos anos 1970, no Brasil, a avaliação institucional se transforma paulatinamente em um artifício de poder nas mãos dos governos, dos organismos e das agências dedicadas à estruturação e à gestão do setor público e, consequentemente, da educação. A avaliação faz parte do cotidiano, principalmente, no ambiente escolar, considerada um patrimônio das instituições educativas (DIAS SOBRINHO, 2008).

Destaca Cunha (2005, p. 60) que "é preciso reconhecer, entretanto, que é grande o peso das políticas institucionais e o poder do Estado na definição das formas de ensinar e aprender na universidade". Também os autores Catani, Dourado e Oliveira (2002) ao analisarem o sistema de avaliação da educação superior no Brasil, a partir dos anos 1990, revelam que o sistema de avaliação implementado determina aos poucos um processo de economização da educação, que esse sistema de avaliação amplia o poder de controle do Estado, altera a lógica de constituição do campo da educação superior e, por fim, que o relacionamento entre as instituições e as políticas de avaliação fomentam mudanças na gestão universitária, na produção do trabalho acadêmico e na formação profissional. Torna-se a Avaliação Institucional mais um importante mecanismo de reconfiguração do campo da educação superior, refletindo também na configuração do trabalho docente, isto é, na concepção de bom professor na atualidade.

Na concepção de Connell (2010), o conceito de bom professor torna-se importante, pois revela como se constitui um bom ensino, um ensino de qualidade, que é introduzido nos projetos institucionais, nos currículos, na tecnologia educacional e na reforma escolar.

Salienta-se sobre a importância da Avaliação Institucional como ferramenta de constituição de um bom ensino. O processo de Avaliação Institucional pode revelar um modelo de bom ensino, construído e desejado pela instituição escolar e é evidente também a força das políticas de Avaliação Institucional na reconfiguração das características e atributos do bom professor. Como menciona Dias Sobrinho (2003), a avaliação do docente deve ser um processo social, capaz de proporcionar a melhoria do ensino, da formação e da profissionalização dos professores, reforçando que "a avaliação deve estar intencionalmente orientada para a profissionalização do corpo de professores e o melhoramento institucional e fazer parte de um programa global" (p. 172).

Por intermédio do conhecimento produzido em literatura da área, pode-se compreender que diversas experiências sobre o processo de Avaliação Institucional das instituições de educação superior, muitas vezes, não passa de um mero procedimento administrativo e apático tanto por parte do professor, como de estudantes e gestores das instituições, revela Rodrigues (2006). Diante deste fato, autores como Dias Sobrinho (1995; 2003; 2010), Cunha (2005), Simões (2000), mostram a necessidade de se dar sentido ao processo de Avaliação Institucional, ou melhor, extrair do processo de autoavaliação de uma instituição de educação superior subsídios para a melhoria da qualidade de ensino.

Diante deste fato, o artigo aqui apresentado objetiva revelar como os dados/resultados de um processo de autoavaliação institucional de uma Universidade Tecnológica podem colaborar na configuração do bom professor ou melhor, como pode influenciar em ações e melhorias de ensino por parte de docentes e gestores da instituição. Este texto faz parte da dissertação de Mestrado em Educação, que teve como objetivo principal conhecer como, por meio da Autoavaliação Institucional, o estudante da Universidade Tecnológica configura o bom professor. Esta pesquisa teve duas perguntas norteadoras: Que características do bom professor são trazidas à tona pelos acadêmicos da Universidade Tecnológica no processo de autoavaliação de desempenho docente? Como os dados/resultados do processo de Autoavaliação Institucional podem colaborar na configuração do bom professor? É intenção neste artigo destacar a segunda questão, que na pesquisa, além de conhece a concepção de bom professor dos alunos da Universidade Tecnológica, evidencia-se como esta concepção de bom professor e entendida como um resultado/dado de uma autoavaliação institucional pode influenciar em ações de melhoria do ensino, no processo de formação de professores e na configuração do bom professor da Educação Profissional e Tecnológica.

2 A constituição dos dados para revelar a concepção de bom professor dos estudantes da Universidade Tecnológica

Para conhecer quais professores da Universidade Tecnológica eram considerados bons professores pelos alunos, utilizou-se do relatório do processo de Autoavaliação Institucional da UTFPR, em especial, o instrumento de Avaliação do Docente pelos Discentes dos anos de 2009, 2010 e 2011. Com o devido Parecer Favorável do Comitê de Ética (nº289.214/2013 - CEP, de 29/05/2013), obteve-se o acesso ao banco de dados do processo de autoavaliação institucional da Universidade. Definiu-se três critérios na escolha do que seria considerado, para o estudo, um bom professor: docentes que obtiveram nas avaliações notas entre 9,0 e 10,0 em cada avaliação semestral; em seguida os professores bacharéis e os professores que fazem parte do quadro docente da Universidade Tecnológica com três anos ou mais de exercício profissional na instituição. O quadro docente de 2011 contava com 124 professores efetivos, destes 83 professores têm curso de bacharelado. Entre eles, 17 professores, 20% deles, obtiveram a avaliação entre nota 9 e 10. De posse deste resultado acessou-se novamente o relatório do processo de Autoavaliação Institucional para extrair os comentários feitos pelos alunos sobre os seus docentes, naquilo em que indicava ser enaltecida a ação docente. Para obter-se esta compreensão, utilizou-se da técnica de Análise de Conteúdo fundamentada em Bardin (1977). O corpus dos dados da pesquisa, portanto, se constituiu pelos relatos dos estudantes sobre os professores, relatos esses oriundos das avaliações do 1o e 2o semestres de 2009, 2010 e 2011, constantes no rol de informações do processo de Autoavaliação Institucional (Avaliação Docente pelos discentes) da UTFPR, Campus Medianeira.

No presente artigo não serão evidenciados as características/atributos do bom professor da Universidade Tecnológica e sim destacar-se-á a importância e necessidade de conhecer a concepção de bom professor, a partir de resultado de um processo de autoavaliação institucional que poderá dar mais sentido a avaliação institucional, isto é, como este resultado pode vislumbrar novas atitudes, novas possibilidades para a melhoria da qualidade de ensino, no processo de formação continuada dos professores, no planejamento de ações/atitudes de gestores educacionais e também na configuração do bom professor.

A opção metodológica utilizada foi a de uma pesquisa bibliográfica, sendo a pesquisa desenvolvida com base em material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos (GIL, 2008). Para dar suporte teórico a este objetivo utilizou-se as ideias de Dias Sobrinho (1995, 2010), Belloni (1996), Cunha (2005), Simões (2000) e outros.

3 A relevância de conhecer a concepção de bom professor, construída pelos estudantes no processo de autoavaliação institucional da Universidade Tecnológica para a melhoria da qualidade de ensino

A Avaliação Institucional engendra e colabora para uma reflexão sobre os valores da universidade, denuncia as suas deficiências, evidencia seus aspectos positivos, interroga as causas, investe em ações de melhoria da instituição (DIAS SOBRINHO, 2010), busca o aperfeiçoamento utilizando o autoconhecimento e a tomada de decisão (BELLONI, 1996), cria, valida conhecimentos e produz conhecimentos (CUNHA, 2005).

Como já revelado neste artigo, muitas vezes o processo de autoavaliação institucional se torna um mero procedimento administrativo e indiferente para a comunidade universitária. Revela-se a necessidade de se dar sentido ao processo de Avaliação Institucional, ou melhor, extrair do processo de autoavaliação de uma instituição de educação superior subsídios para a melhoria da qualidade de ensino e pensando nisso, que aspectos positivos foram encontrados no processo de autoavaliação da Universidade Tecnológica ao conhecer-se a concepção de bom professor revelados pelos estudantes?

Como resposta a esta pergunta, pode-se destacar que a concepção de bom docente da Universidade Tecnológica (resultado extraído da dissertação) se estabelece pelo conhecimento profundo do conteúdo de sua disciplina; por preparar uma boa aula, planejada, com diversas estratégias de ensino e conteúdo contextualizado e ainda o bom professor valoriza os aspectos afetivos, tendo paciência, bom humor, diálogo, é muito dedicado e prestativo com seus alunos. Estes são os aspectos positivos ressaltados e evidenciados na prática pedagógica dos professores bacharéis da Universidade Tecnológica, valorizados pelos seus alunos. Concorda-se com Cunha (2005, p. 204) quando propõe "à medida que a avaliação representar, com algum destaque, uma possibilidade de valorização do positivo, tornar-se-á um dispositivo potencial de mudança". E também se demonstra o que revela Dias Sobrinho (2010) que Avaliação Institucional evidencia e confirma os aspectos positivos da universidade.

Desse modo, ao conhecer a concepção de bom professor da Universidade Tecnológica, e de acordo como propõe Cunha (2005), deve-se apostar no componente positivo da avaliação, em contraponto com a visão punitiva tão presente no cotidiano dos professores e estudantes. Para Belloni (1996) a Autoavaliação Institucional auxilia no processo de autoconhecimento, isto é, na identificação de pontos positivos e negativos da instituição; saber quais são os êxitos e as fragilidades da instituição de Educação Superior significa autoconhecer-se, conhecer-se. Assim, pressupõe-se que sob um olhar atento e proveitoso, a Autoavaliação Institucional deixa claro o perfil docente desejado pelos estudantes, indicativo de como, no caso em tela, a Universidade Tecnológica, mergulhada na sua história (tradição), enxerga/visualiza o seu bom professor. Certamente, estes pontos positivos servirão de referência para desencadear práticas pedagógicas com o intuito de melhorar o ensino da Universidade.

Não obstante, esse ato de conhecer constitui-se em um meio e não em um fim em si mesmo. Como propõe Simões (2000), conhecer o perfil do bom professor por meio da avaliação docente de cunho formativo ou não, servirá de paradigma para o processo de avaliação do seu desempenho. Ou, então, como Catani, Dourado e Oliveira (2002) revelam que a Avaliação Institucional com seus atos, fatos e leis reconfiguram o campo da Educação Superior, e, nesse sentido, aponta Cunha (2005), há um grande impacto na definição da docência, do papel do professor universitário. Certamente que uma das políticas de Avaliação Institucional que envolve diretamente a docência se dá na realização da Autoavaliação Institucional, mais especificamente por meio da Avaliação de Desempenho Docente, pois, como diz a autora mencionada, "Os dados não devem estar a serviço de uma escala de classificação, mas sim servirem para a formulação de um julgamento sobre a qualidade dos serviços educativos prestados pela instituição e melhorar a tomada de decisões" (p. 212).

Conhecer a concepção de bom professor por meio da Autoavaliação Institucional insere-se na dimensão de produção de conhecimento, também proposta por Cunha (2005), quando afirma que é muito importante incluir a pesquisa na rotina da Avaliação Institucional, que na prática é um dispositivo da própria natureza da universidade. "Nesse sentido, pesquisar as experiências vividas no processo de avaliação pode conferir a essa atividade um caráter interessante de produção do conhecimento" (p. 211). Ao conhecer a performance de uma boa docência a partir da percepção dos estudantes da Universidade Tecnológica revela-se a possibilidade de produzir conhecimentos, comprovando e sistematizando a concepção de bom professor, publicando suas particularidades, sua essência e seu contexto único.

Assim é que na análise empreendida nos dados da Avaliação Institucional da instituição, além de evidenciarem-se os pontos positivos do bom professor, os estudantes da Universidade Tecnológica também denunciam as dificuldades e problemas inerentes à prática pedagógica do bom professor, na especificidade da avaliação da aprendizagem. Entende-se, como declara Dias Sobrinho (1995), que o processo de Avaliação Institucional é um exercício com forte sentido pedagógico e tem como função apontar as fragilidades. Neste caso, foi revelado que o bom professor da Universidade Tecnológica de Medianeira (PR) tem dificuldade em avaliar a aprendizagem de seus alunos, e assim sendo, ainda incorpora uma postura tradicional e classificatória de avaliação.

A Avaliação Institucional tem duas orientações, uma formativa e a outra somativa (DIAS SOBRINHO, 1995). A avaliação somativa, de controle, regulatória tem como objetivo a mensuração, a comparação, a classificação dos dados/resultados e a avaliação formativa, emancipatória objetiva ir além dos dados/resultados, ela propõe a elaboração de conhecimentos e crítica que se produz no interior da universidade.

Refletindo sobre essas concepções de avaliação, Graça et al. (2011) destaca que existem três modelos de Avaliação de Desempenho Docente: modelo de responsabilização, modelo de desenvolvimento profissional e modelo misto. Enfatiza-se o modelo de responsabilização, pois constatou-se que é o modelo de Avaliação Desempenho Docente adotado pela Universidade Tecnológica para avaliar seus professores, visando medir o desempenho do professor, cuja pontuação obtida serve para posicionar uma escala de avaliação, isto é, a Avaliação de Desempenho Docente, que constitui um dos critérios para a progressão funcional por mérito do professor.

Na aplicação desse modelo, como primeiro passo, comenta Graça et al. (2011), acontece uma reunião entre o avaliado e o avaliador para estabelecer os domínios sobre a avaliação. Na Universidade Tecnológica, este passo acontece por meio da Comissão Permanente de Avaliação que tem a função de coordenar e articular o processo de Autoavaliação Institucional, definir objetivos, estratégias, metodologia e outros. O segundo passo consiste no recolhimento dos dados/resultados. Esse passo se concretiza na Universidade Tecnológica na realização da Avaliação de Desempenho Docente que inclui três etapas: na primeira etapa é verificada a condição essencial para a avaliação dos docentes que se pauta no número máximo de faltas injustificadas, previsto conforme seu padrão de vinculação à Instituição. O não cumprimento da condição essencial implicará em não realização da avaliação. A segunda etapa, com 30 pontos, consiste na Avaliação do Docente pelos Discentes; a terceira etapa, com 70 pontos, está pautada no desempenho individual do docente (cursos, publicações, participação em comissões, etc.) (UTFPR, 2012a).

Em seguida, o modelo adotado pela UTFPR orienta que o avaliador faça um feedback sobre o desempenho do professor avaliado. Na Universidade Tecnológica a devolutiva ao docente da Avaliação Docente pelos Discentes é feita pelo Coordenador de Curso e pelos Secretários de Educação Profissional e Graduação Tecnológica e de Bacharelado e Licenciatura. Esses coordenadores e secretários fazem acompanhamento com os professores e diversas ações são efetivadas por meio do Departamento de Educação como acompanhamento pedagógico por meio de entrevistas com os docentes quando são discutidos os pontos principais ressaltados na avaliação e as ações imediatas propostas pelo professor e pela equipe do Departamento de Educação (UTFPR, 2012b). Este procedimento também é proposto pelo modelo de responsabilização, quando o avaliado e o avaliador devem criar um plano de melhoria e procedimentos de acompanhamento.

Simões (2000) comenta que a Avaliação de Desempenho Docente no modelo de responsabilização tem característica da avaliação somativa. Essa concepção é percebida na Avaliação de Desempenho Docente da Universidade Tecnológica.

Conforme o citado autor, a avaliação somativa envolve conclusões sobre o mérito (no caso a avaliação feita pela Universidade Tecnológica é um dos critérios para a progressão funcional do professor) e o valor de um processo já estabelecido, sendo usado para selecionar e responsabilizar, também orientada para tomada de decisões como para remediar, promover, reter, contratar, selecionar ou demitir. Daí porque, tradicionalmente sempre se deu muita ênfase à avaliação somativa e, diante disso, há manifestações de rejeição e distanciamento dos professores.

É consenso, principalmente entre educadores da escola pública, a defesa de que os professores devem realmente desempenhar bem a sua função, devem prestar contas do que realizam. Porém, ressalta Simões (2000, p. 45), alguns estudos sobre a problemática dos objetivos da avaliação "concluem que os professores manifestam uma atitude mais favorável em relação à avaliação quando os resultados desta são entregues de modo formativo, ajudando-os a melhorar de desempenho".

Ainda, de acordo com Dias Sobrinho (2010), a Avaliação Institucional deve interrogar as causas dos problemas evidenciados. Com a pesquisa realizada confirma-se que de 124 professores efetivos no período estudado, 83 eram professores bacharéis e deste, 17 professores obtiveram nota entre 9,0 e 10,0, isto é, apenas 20% dos professores do quadro docente da UTFPR, foram considerados como bons professores. Diante do resultado obtido indaga-se: O que este dado revela? Como elevar o percentual de bons professores na Universidade Tecnológica? Como estes professores se tornaram bons professores? Que ações/práticas tanto pedagógicas como administrativas poderão ser desenvolvidas/propostas diante do resultado obtido (percentual e características/saberes dos bons professores da Universidade Tecnológica)?

Estes questionamentos remetem à necessidade da instituição repensar as políticas de formação de seus professores, que na sua maioria, não possui curso de formação pedagógica, mesmo sendo esta uma opção ofertada pela instituição onde trabalham. São professores com titulação de mestres e doutores em diferentes áreas do conhecimento tais como: química, alimentos, elétrica, computação, dentre outras, e a escolha pela carreira docente, para muitos, foi uma decisão determinada pelas circunstâncias, não pela atração da docência em si.

Faz-se necessário, portanto, traçar políticas de formação pedagógica de professores, sistematizadas, planejadas, permanentes e contínuas que vislumbrem a possibilidade de elevar o baixo dado percentual encontrado pela pesquisa. Metas concretas no Plano de Desenvolvimento Institucional e no Projeto Político-Pedagógico da Universidade Tecnológica precisam ser revistos. Esta possibilidade é discutida por Cunha (2005, p. 208) quando propõe que a "Avaliação Institucional só é possível quando referendada num projeto pedagógico claro e assumido coletivamente pelos que fazem a instituição".

Consta na Lei de Diretrizes de Bases da Educação no 9394/1996 (BRASIL, 1996) que para atuar na educação superior o sujeito será preparado e não formado, conforme chama atenção Pimenta e Anastasiou (2005). Esta formação espera-se que aconteça nos programas de pós-graduação (mestrado e doutorado). Alternativas para superar esta situação foram pensadas, conforme constatam as autoras, como por exemplo, a inclusão de uma disciplina de metodologia do ensino superior, com uma carga horária de 60 horas em média nos cursos de pós-graduação. Para muitos profissionais que atuam na docência universitária, e também para os professores da Universidade Tecnológica, este pode ser o único contato com questões pedagógicas sobre a profissão docente. Observa-se que a LDB de 1996 não leva em consideração o processo de formação da docência, mas a concebe como uma preparação prioritária, e não exclusiva para o exercício da profissão professor superior.

Considerando-se a formação de professores de Educação Profissional e Tecnológica, no caso, dos professores da Universidade Tecnológica, concorda-se com Moraes (2007) que essa questão permanece como problema central da educação brasileira ainda não resolvido. Ciavatta (2007) reforça dizendo que a formação de professores de Educação Profissional e Tecnológica, como também dos alunos, passa pela compreensão dos limites socioeconômicos do país, mas não se omite da disponibilidade de recursos materiais e humanos que permitam realizar os objetivos da educação.

Constata-se muitas iniciativas de instituições de educação superior que valorizam a formação continuada oferecendo cursos, seminários, palestras, estágios, etc. Esta atitude também se confirma na Universidade Tecnológica, no início de cada semestre letivo realiza-se uma programação que envolve os professores por meio de palestras, oficinas, reuniões, etc. Portanto, nada mais válido do que ter como referência a concepção de bom professor dos estudantes da Universidade Tecnológica, compreendidas na Autoavaliação Institucional da universidade, para realizar estratégias de formação pedagógica dos professores. Ressalta-se ainda que a concepção do que seja um bom profissional docente, realçada pelos estudantes no caso da presente pesquisa, condiz com as diversas pesquisas feitas no Brasil como também em outros países.

De acordo com Nóvoa (1992), a formação docente deve estimular uma perspectiva crítico-reflexiva, partindo de pensamentos autônomos, projetos próprios, com vista a uma construção de uma imagem profissional. Uma formação profissional de professores não se constrói com acúmulos de cursos, conhecimentos e técnicas, mas de uma reflexão sobre a prática. "A formação passa por processos de investigação, diretamente articulados com as práticas educativas" (NÓVOA, 1992, p. 27-8). Passa por meio de experimentação, inovação e novos modos de trabalhos pedagógicos, neste sentido, os resultados desta pesquisa é uma proposição real para que a partir do conhecimento da concepção de bom professor subsidie uma proposta de formação continua, processual, transformadora de professores na UTFPR, campus de Medianeira.

Corrobora nesta direção a proposição de Nóvoa (2009) quando discute a formação de professores fundamentada em uma combinação complexa de contribuições científicas, técnicas e pedagógicas, tendo como suporte, também, os próprios professores. Afirma o autor que se deve devolver a formação de professores aos professores, e não deixá-la para pessoas externas à sala de aula. Acredita-se, concordando com o referido autor, que no caso em tela, a valorização dos professores experientes e reconhecidos no âmbito universitário, pelos estudantes, venha auxiliar na formação dos futuros e novatos professores. Trata-se de reconhecer as atitudes profissionais de bons professores da Universidade Tecnológica.

Evidencia-se a necessidade e a relevância de se estudar a concepção de bom professor construída pelos alunos para que estes dados/resultados retirados de um processo de avaliação institucional sirvam de parâmetros para ações de formação continuada de professores na instituição, como também sirva de inspiração para elaboração de estratégias que formem pedagogicamente os professores bacharéis da Universidade Tecnológica, conforme aponta Simões (2000), os professores reagem negativamente ao processo de avaliação quando o único objetivo é identificar problemas e reagem menos negativamente quando perceberem com antecedência o que se espera deles, se o feedback do desempenho for frequente e informativo e se existirem recursos, ações que os auxiliem a melhorar o seu desempenho.

Na estratégia sugerida por Simões (2000), portanto, reafirma-se que a prática pedagógica dos bons professores da Universidade Tecnológica, seja aproveitada e que os mesmos possam inserirem-se e colaborem com o processo de formação continuada dos seus colegas, principalmente com os novos professores, como tutores. Assim, sabendo quais são as características do bom professor desejado pelos alunos, que ações, atitudes, podem ser tomadas para proporcionar uma avaliação realmente formativa para o professor da Universidade Tecnológica? Como afirma Stuffebeam (1995 citado por SIMÕES (2000), o objetivo principal da avaliação em educação não é provar, e sim, melhorar.

Respondendo à questão, Dias Sobrinho (2010) esclarece que a Avaliação Institucional investe em ações de melhoria da instituição. Sendo assim, a concepção de bom professor extraída dos comentários dos alunos, na autoavaliação institucional, pode nortear futuras ações, empreendimentos, procedimentos do grupo de gestores, da equipe pedagógica e dos próprios professores no sentido de construir uma formação de professores espelhada, entre outras, também na concepção de Nóvoa (1995), ou seja, com práticas coletivas de formação que contribuam para a emancipação profissional, isto é, para se tornar um bom professor universitário e certamente consolidando os seus saberes e seus valores.

Também Nóvoa (1995) sugere que a formação de professor deve ser um processo contínuo, integrado com o cotidiano do professor e da escola e não uma área especifica, isto é, pedagógica, dissociada dos projetos profissionais e organizacionais da escola. O autor destaca que a produção de saberes, e, no caso desta pesquisa, as características/atributos do bom professor, são constituídos levando-se em conta a pessoa do professor. Ressalta que se deve considerar a cultura profissional do professor, isto é, a história de sua profissão, o contexto vivido.

Infere-se que além de instituir uma política de formação de professores calcada na concepção de bom professor, essa formação deve ser contínua, sistemática, global e processual tendo como pano de fundo a voz do estudante da Universidade Tecnológica, registrada nos acervos dos dados da Avaliação Institucional da universidade.

Assim, compreende-se que a Avaliação Institucional, e mais especificamente, a Autoavaliação Institucional, evidenciada também nas ideias de Ângulo Rasco (2000), vai além de contribuir para o aprimoramento profissional do professor (pós-graduações), a Autoavaliação Institucional revela a pedagogia do professor (Conhece, contextualiza, planeja os conteúdos e diversifica a maneira como apresentar os conteúdos) e os valores do corpo de professores (paciente, dialoga, interage, tem bom humor, dedicado e prestativo).

Afirma Dias Sobrinho (1995) que a pedagogia, uma dimensão da universidade, seja aceita e valorizada por todos os atores da comunidade universitária: físicos, matemáticos, engenheiros, tecnólogos, sociólogos, pedagogos, administradores e outros. Exige-se que, além de uma cultura e refinada sensibilidade pedagógica, um sólido conhecimento sobre questões educacionais. Concorda-se com o autor quando defende que cabe aos profissionais da educação, e não somente a eles, mas a todos os membros da comunidade universitária, um papel relevante na reelaboração de currículos, na reavaliação do perfil profissional, na recriação de novos métodos, técnicas, procedimentos e conteúdos adequados ao momento histórico contemporâneo. Acredita-se que ao assumir verdadeiramente a dimensão pedagógica, a universidade cria condições para o desenvolvimento amplo dos seus processos sociais e políticos, exercendo a plena cidadania.

Considerações Finais

Os pontos evidenciados na pesquisa realizada e aqui sucintamente apresentados revelam a importância dada aos dados/resultados da Avaliação Institucional. A abordagem sobre a concepção de bom professor a partir de estudantes da Universidade Tecnológica pode revelar um caráter formativo da Avaliação Institucional e assim, prever futuras ações, autoconhecimento, tomada de decisão rumo à formação do ser humano.

Neste sentido, ressalta-se que o processo de Avaliação Institucional também pode trazer um modelo de bom professor, construído e desejado pela instituição universitária ou também uma reconfiguração de modelo de bom professor priorizando as necessidades do meio social, político e econômico existentes na atualidade e na universidade contemporânea.

A pesquisa aqui realizada instigou a sugerir formação de parcerias entre professores experientes e bons professores (objeto deste estudo), para, juntamente com a equipe pedagógica da instituição, elaborarem políticas e práticas de formação continuada na universidade. Do estabelecimento dessas parcerias constituir-se-ão equipes, notadamente, de cunho multidisciplinar, composta por professores e especialistas em educação, cujo resultado do trabalho fornecerá subsídios não apenas para enriquecimento das políticas e práticas de formação continuada, já desenvolvidas pela UTFPR, mas, sobretudo, oportunizará a partilha de experiências de práticas de sucesso que, potencialmente, foram indicadas pelos universitários como características/atributos do que seja um bom professor.

Como se percebeu na literatura, a formação pedagógica para a constituição do bom professor também poderá ser abstraída em um dos princípios da Avaliação Institucional: o pedagógico que entremeia a Avaliação Institucional. Dias Sobrinho (1995) e Zabalza (2004) compreendem que o sentido pedagógico tem como definição a formação do ser humano, isto é, o crescimento e melhoria das pessoas. Essa formação encontra na universidade um espaço propício para ocorrer, até porque, é função da universidade, além de ensinar os conhecimentos das disciplinas curriculares, propor-se a conhecer e implantar redes de significação e prática social com base nesses conhecimentos, a fim de criar outras formas de produzi-los para contribuir com a evolução do processo civilizatório da humanidade. Mas, essa contribuição decorrerá da formação de pessoas com a percepção do sentido ético e político do seu trabalho científico; função social da universidade.

O significado dado à pedagogia pelos universitários desta pesquisa - ainda que de forma indireta - revelou sua importância para o trabalho do professor tido como bom professor universitário. Essa assertiva se sustentou na concepção de Nóvoa (1995), para quem é verdadeiramente possível o professor se formar pedagogicamente na universidade, isto porque as práticas coletivas de formação do professor contribuem para emancipação profissional e para a consolidação de uma profissão autônoma na produção de seus saberes e valores. Nesse sentido, portanto, é a Universidade Tecnológica o lugar apropriado, também, para formação do seu bom professor.

Referências

ÂNGULO RASCO, José Félix. A autoavaliação institucional como processo de formação do professorado. In: DIAS SOBRINHO, José; RISTOFF, Dilvo. Universidade desconstruída: avaliação institucional e resistência. Florianópolis: Insular, 2000. p. 73-94 [ Links ]

BARDIN, Lourence. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70; Persona, 1977. [ Links ]

BELLONI, Isaura. A Universidade e o compromisso da Avaliação Institucional na Reconstrução do Espaço Social. Avaliação, Campinas; Sorocaba, v. 1, n. 4, p. 5-14, 1996. [ Links ]

BRASIL. Lei no 9394, 23 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília: CC, 1996. [ Links ]

CATANI, Afrânio Mendes; DOURADO, Luiz Fernandes; OLIVEIRA, João Ferreira de. A política de avaliação da educação superior no Brasil em questão. In: DIAS SOBRINHO, José; RISTOFF, Dilvo. (Orgs.). Avaliação democrática para uma universidade cidadã. Florianópolis: Insular , 2002. p. 99-118. [ Links ]

CIAVATTA, Maria. Formação e valorização dos profissionais de educação profissional e tecnológica. In: CONFERÊNCIA NACIONAL DE EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA, 1., 2007, Brasília. Anais e Deliberações. Brasília: MEC/SET, 2007. p. 219-37 [ Links ]

CONNELL, Raewyn. Bons professores em um terreno perigoso: rumo a uma nova visão da qualidade do profissionalismo. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 36, n. especial, p. 165-184. 2010. [ Links ]

CUNHA, Maria Isabel da. (Org.). Formatos avaliativos e concepção de docência. Campinas: Autores Associados, 2005. [ Links ]

DIAS SOBRINHO, José. Avaliação institucional, instrumento da qualidade educativa: a experiência da Unicamp. In: BALZAN, Newton César; DIAS SOBRINHO, José. (Orgs.). Avaliação Institucional: teoria e experiência. São Paulo: Cortez, 1995. p. 53-86. [ Links ]

DIAS SOBRINHO, José. Avaliação: políticas educacionais e reformas da educação superior. São Paulo: Cortez , 2003. [ Links ]

DIAS SOBRINHO, José. Avaliação educativa: produção de sentidos com valor de formação. Avaliação, Campinas; Sorocaba, v. 13, n. 1, p. 193-207, 2008. [ Links ]

DIAS SOBRINHO, José. Avaliação e transformações da educação superior brasileira (1995- 2009): do provão ao SINAES. Avaliação, Campinas; Sorocaba, v. 15, n. 1, p. 195-224, 2010. [ Links ]

GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2008. [ Links ]

GRAÇA, Anabela et al. Avaliação do desempenho docente: um guia para a ação. Portugal, Lisboa: Editora Lisboa, 2011. [ Links ]

MORAES, Carmen Sylvia Vidigal. Formação e valorização dos profissionais de Educação Profissional e Tecnológica. In: CONFERENCIA NACIONAL DE EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA, 1., 2007, Brasília. Anais e DeliberaçõesBrasília: MEC/SET , p. 213-18, 2007. [ Links ]

NÓVOA, António. (Org.). Vidas de professores. Porto: Editora Porto, 1992. [ Links ]

NÓVOA, António. Formação de professores e profissão docente. In: NÓVOA, António. (Coord.). Os professores e sua formação. 2. ed. Lisboa: Editora Lisboa 1995. [ Links ]

NÓVOA, António. Professores: imagens do futuro presente. Lisboa: Educa, 2009. [ Links ]

PIMENTA; Selma Garrido; ANASTASIOU, Léa das Graças Camargos. Docência no ensino superior. 2. ed. São Paulo: Cortez , 2005. [ Links ]

RODRIGUES, Francisco de Paula Marques et. al. O processo de avaliação institucional como multiplicador de iniciativas para o aperfeiçoamento docente- 1ª parte. Avaliação, Campinas; Sorocaba, v. 11, n. 2, p.151-166. jun. 2006. [ Links ]

SIMÕES, Gonçalo. A avaliação do desempenho docente. Lisboa: Texto, 2000. [ Links ]

UTFPR. Relatório de gestão do exercício de 2011. Curitiba: UTFPR, 2012a. [ Links ]

UTFPR. Relatório da autoavaliação institucional. Curitiba: UTFPR , 2012b. [ Links ]

ZABALZA, Miguel. O ensino universitário: seu cenário e seus protagonistas. Porto Alegre: Artmed, 2004 [ Links ]

Recebido: 04 de Abril de 2014; Aceito: 03 de Março de 2015

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons