SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.21 número4Profile of domestic violence against women and family in a city of Minas Gerais, BrazilRisk behaviors prevalence in adolescents índice de autoresíndice de materiabúsqueda de artículos
Home Pagelista alfabética de revistas  

Servicios Personalizados

Revista

Articulo

Indicadores

Links relacionados

Compartir


Cadernos Saúde Coletiva

versión impresa ISSN 1414-462X

Cad. saúde colet. vol.21 no.4 Rio de Janeiro  2013

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-462X2013000400012 

ARTIGO ORIGINAL

 

Uso de substâncias psicoativas por futuros educadores

 

Use of psychoactive substance by future educators

 

 

Flávia Batista PortugalI; Crispim Cerutti JúniorII; Marluce Miguel de SiqueiraIII

IEnfermeira; Mestre em Saúde Coletiva pelo Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da UFES; Pesquisadora do CEPAD da UFES - Vitória (ES), Brasil
IIProfessor Adjunto do Departamento de Medicina Social e do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da UFES - Vitória (ES), Brasil
IIIProfessora Associada IV do Departamento de Enfermagem e do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da UFES; Coordenadora geral do CEPAD da UFES e Orientadora - Vitória (ES), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Estabelecer o perfil do consumo de Substâncias Psicoativas (SPAs) entre estudantes do curso de Pedagogia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).
MÉTODOS: Realizou-se um estudo transversal e quantitativo, com os universitários matriculados no segundo semestre de 2010, sendo utilizado na coleta de dados um questionário fechado e anônimo proposto pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD).
RESULTADOS: O álcool e o tabaco foram as SPAs com maior uso na vida, com 62,9 e 23,8%, respectivamente. Além disso, o uso na vida de SPAs lícitas estava associado à religião, enquanto as ilícitas relacionavam-se ao sexo e à classe socioeconômica.
CONCLUSÃO: A universidade é um espaço privilegiado de discussão, necessitando-se de maior abordagem da temática, especialmente entre os futuros educadores, já que estes atuarão diretamente com o tema em sua vida profissional.

Palavras-chave: transtornos relacionados ao uso de substâncias; estudantes; universidades; tabaco.


ABSTRACT

OBJECTIVE: This study aimed at tracing the profile of psychoactive substance (PAS) consumers among university students at the Federal University of Espírito Santo (UFES), Brazil.
METHODS: A transversal quantitative study was carried out among Pedagogy University students, registered for the second semester of 2010 at the UFES. The study used an anonymous and closed questionnaire proposed by the National Anti-drug Secretariat (SENAD).
RESULTS: Alcohol and tobacco were the most frequently used PAS in life, 62.9 and 23.8%, respectively. According to the multivariate analysis, the use of legal PAS in life was associated to religion, whereas illegal PAS were associated to gender and socioeconomic class.
CONCLUSION: Universities are a privileged place for discussion, and they need further approaches to this topic, especially among future educators, since they will deal with this issue in their professional life.

Keywords: substance-related disorders; students; universities; tobacco.


 

 

INTRODUÇÃO

O uso de Substâncias Psicoativas (SPAs) tornou-se uma das principais preocupações da sociedade atual. O uso cada vez mais precoce e maior abrange todos os estratos sociais, e suas consequências ultrapassam o âmbito da saúde, atingindo também os aspectos econômicos, políticos e sociais. Estima-se que, em 2008, 155 a 250 milhões de pessoas no mundo fizeram uso pelo menos uma vez no ano de alguma SPA ilícita, sendo que 16 a 38 milhões de pessoas forma consideradas "usuários problema" nesse mesmo ano1. Deste modo, observa-se um crescimento de problemas sociais, tais como a violência e o abandono, que geram questionamentos quanto à falta de políticas em longo prazo para solucionar o problema2.

Neste contexto, o Brasil foi cenário de várias pesquisas relacionadas ao uso de SPAs, sendo em 2001 realizado o I Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas em 107 cidades brasileiras. Nele, observou-se que o uso na vida de qualquer SPA (exceto álcool e tabaco) foi de 19,4%, sendo que 4,0% já haviam realizado algum tratamento por causa do uso de SPAs. Já para o álcool e tabaco, o uso na vida foi de 68,7 e 41,1%, respectivamente, sendo que 5,3 e 9,0% eram dependentes3. Em 2006, o II Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas envolveu 108 cidades brasileiras, registrando dados superiores àqueles observados no estudo anterior. O uso na vida de qualquer SPA (exceto álcool e tabaco) foi de 22,8%4.

Entre os universitários, observa-se um uso de SPAs maior que na população em geral5,6. Acredita-se que esses estudantes, após saírem do ensino, trazem sentimentos positivos por terem alcançado uma meta. Entretanto, essa fase também pode se tornar um período crítico, gerando maior vulnerabilidade para o início e manutenção do uso das SPAs7.

Diante do significante uso de SPAs, a Universidade de Michigan realiza há 30 anos um estudo prospectivo que avalia o uso entre estudantes desde a oitava série até a vida adulta, dando ênfase aos universitários. De acordo com esse estudo, o uso no ano de álcool entre universitários foi de 84,3%, 69,7% no mês e 5,2% diariamente. Para o tabaco, o uso no ano foi de 34,4%, 24,5% no mês e 16,9% diariamente. Já o uso no ano de qualquer SPA ilícita foi de 32,9% e 18,8% no mês8.

No Brasil, vários estudos foram desenvolvidos envolvendo universitários. Um dos principais foi realizado por Kerr-Corrêa et al.5 na Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (UNESP), sendo encontradas as frequências de uso na vida - 84% para o álcool, 33% para o tabaco, 30% para os solventes (como, por exemplo, esmaltes, colas, tintas, thinners, gasolina e outros), 17% para a maconha e 14% para a cocaína. Outro estudo, realizado por Lucas et al.6 em universitários da área da saúde, na Universidade Federal do Amazonas, revelou que tanto o álcool como o tabaco foram as SPAs que apresentaram maior uso na vida, com 87,7 e 30,7%, respectivamente. Logo depois, observa-se maior uso na vida para solventes (11,9%), maconha (9,4%), anfetaminas (9,2%), cocaína (2,1%) e alucinógenos (1,2%). Como em outras universidades, a Universidade Federal do Espírito Santo, em 2007, foi objeto de pesquisa sobre o uso de SPAs entre acadêmicos da área da saúde, tendo sido encontrado uso preocupante de álcool e tabaco. Aproximadamente 20% dos estudantes já tiveram de beber "binge"9, o qual é definido como 5 doses ou mais para os homens e 4 ou mais doses para as mulheres. O consumo de SPAs ilícitas por esses estudantes também foi preocupante, principalmente devido aos altos índices de uso de solventes10-13.

Assim, tendo em vista o aumento do uso de SPAs pela população, as escolas tornam-se locais privilegiados para o desenvolvimento de atividades preventivas, uma vez que são espaços ideais para conscientização sobre a saúde, transmitindo valores fundamentais, dentre eles, a convivência harmônica e o respeito perante as distintas formas de se viver14.

Diante do exposto, conhecer o uso de SPAs entre estudantes de Pedagogia é de suma importância, já que o uso precoce atinge cada vez mais as escolas, exigindo dos professores uma atuação preventiva nesse âmbito. E esses acadêmicos, como futuros profissionais de formação pedagógica, psicológica, social e cultural, devem estar preparados para abordagens educativas preventivas nas escolas15. Portanto, conhecer o perfil do uso de SPAs entre estudantes de Pedagogia dará subsídios para uma maior abordagem curricular do tema, até para a criação de programas de prevenção.

 

MÉTODOS

Trata-se de um estudo transversal, descritivo e quantitativo. O estudo foi realizado entre os estudantes matriculados (485 estudantes no total) no segundo semestre de 2010, no curso de Pedagogia da Universidade Federal do Espírito Santo. O tamanho da amostra foi calculado no software Epi Info 6.04, com nível de confiança de 95%, precisão de 5% e prevalência de 50%, resultando em uma amostra de 215 estudantes.

Inicialmente, houve um estudo-piloto, com o intuito de treinar e calibrar os pesquisadores. Posteriormente, deu-se a aplicação definitiva do questionário por bolsistas de iniciação científica durante as atividades acadêmicas, após a anuência dos professores. A aplicação deu-se durante o mês de agosto em todos os períodos (1º ao 8º) do curso, a fim de compensar possíveis perdas e recusas. Durante a aplicação, foi feita explicação sobre os objetivos da pesquisa, ressaltando-se o anonimato. Aqueles que aceitaram participar assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido.

Utilizou-se o questionário proposto pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD) para o I Levantamento Nacional sobre o Uso de Álcool e Outras Drogas entre Universitários das 27 Capitais Brasileiras, o qual foi validado pelo grupo de pesquisa responsável pelo levantamento16. Por meio desse questionário, é possível identificar dados sociodemográficos, dados socioeconômicos, caracterização do curso universitário (por exemplo, ano e período cursado), caracterização da vida acadêmica (por exemplo, locais frequentados dentro da instituição), caracterização da vida diária, prevalência do uso de SPAs, sintomas depressivos, persecutórios e de sofrimento psicológico, políticas institucionais e comportamentos gerais16.

A classificação do padrão de uso de SPAs seguiu a recomendação da Organização Mundial da Saúde17, na qual o uso é dividido em cinco categorias:

• Uso na vida: quando a pessoa fez uso de qualquer substância psicoativa pelo menos uma vez na vida.

• Uso no ano: quando a pessoa fez uso de qualquer substância psicoativa pelo menos uma vez nos últimos 12 meses que antecederam a pesquisa.

• Uso no mês: quando a pessoa fez uso de qualquer substância psicoativa pelo menos uma vez nos últimos 30 dias que antecederam a pesquisa.

A análise estatística foi realizada no programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 17, empregando-se o teste do χ2 para se verificar a associação do uso na vida com as variáveis sociodemográficas e, quando necessário, o teste exato de Fisher. Para fins de análise, agruparam-se as SPAs em lícitas (álcool e tabaco) e ilícitas (tranquilizantes, anfetaminas, maconha, inalantes, analgésicos, sedativos, alucinógenos, ecstasy, cocaína, anticolinérgicos, xaropes, drogas sintéticas, chá de Ayuasca, anabolizantes e crack). Também foram calculadas as razões de prevalência (RP) e os intervalos de confiança (IC) de 95%. Por fim, realizou-se uma análise multivariada por meio da regressão logística múltipla, na qual foram incluídas somente as variáveis associadas ao desfecho com um nível de significância p<0,2.

Para o presente estudo, não há conflito de interesse. Além disso, foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES - Proc. Nº 119/2009) e foi conduzido de acordo com os dispositivos da resolução nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (CNS).

 

RESULTADOS

No total, foram aplicados 298 questionários. Destes quatro foram entregues em branco. Deste modo, a amostra final foi de 294 acadêmicos, o que corresponde a 60,6% de todos os alunos matriculados no período.

Como demonstrado na Tabela 1, a amostra constituiu-se predominantemente por indivíduos do sexo feminino (n=277; 94,2%), de 18 a 24 anos (n=175; 59,5%), de cor/raça caucasoide/branco (n=140; 47,6%) e solteiros (n=184; 62,6%). Quanto à religião, os estudantes em sua maioria eram evangélicos/protestantes (n=126; 42,9%) e católicos (n=118; 40,1%). Com relação à classe socioeconômica, 50,3% (n=148) e 45,2% (n=133) pertenciam às classes B1/B2 e C1/C2/D, respectivamente.

 

 

Na Tabela 2, é possível observar o uso de SPAs, sendo o álcool a SPA mais consumida pelos estudantes, com uso na vida em 62,9% (n=185), uso no ano em 41,8% (n=123) e uso no mês em 27,5% (n=81). A média de idade de experimentação foi de 16,01 anos (desvio-padrão (DP)=8,3). O tabaco foi a segunda SPA com maior uso na vida (n=70; 23,8%), fato não observado nos outros tipos de uso, ou seja, 6,1% (n=18) no ano e 5,1% (n=15) no mês, além de apresentar média de idade de experimentação de 15,71 anos (DP=6,7).

Entre as SPAs ilícitas, os tranquilizantes, as anfetaminas, a maconha e os inalantes contiveram a maior frequência de uso na vida, com 15% (n=44), 7,8% (n=23), 7,5% (n=22) e 5,4% (n=16), respectivamente. Nesse grupo, os tranquilizantes foram as SPAs com maior uso no ano (n=26; 8,8%) e uso no mês (n=20; 6,8%). O crack foi uma das SPAs com menor uso na vida (n=1; 0,3%), não apresentando uso nas outras categorias. Os analgésicos foram as SPAs com menor idade de experimentação (12,5 anos; DP=3,2), seguidos pelo tabaco (15,71 anos; DP=6,7) e inalantes (15,92 anos; DP=1,5).

Na Tabela 3, observa-se o uso na vida das SPAs segundo as variáveis sociodemográficas. Encontrou-se associação com significância estatística (p=0,000) entre uso na vida das SPAs lícitas e religião. Aqueles que declararam não ter religião possuíam 1,88 (IC95% 1,362-2,614) mais chance de apresentarem uso, 1,78 para os católicos (IC95%1,444-2,210) e 1,98 (IC95% 1,245-3,167) para outras religiões. Também houve associação com significância estatística (p=0,025) entre uso na vida de SPAs ilícitas e as classes socioeconômicas B1/B2. Os indivíduos dessa classe socioeconômica apresentaram 1,64 mais chances de usarem na vida alguma SPA ilícita (IC95% 1,119-2,425).

Na análise multivariada (Tabela 4), tendo como desfecho o uso na vida de SPAs lícitas, a variável religião manteve-se significante. Tendo como referência a religião evangélica/protestante, os estudantes das outras religiões apresentam maior chance de uso de álcool e tabaco. Estudantes que se declararam católicos apresentaram RP=4,4 quando comparados a "outras religiões", os que não têm religião, de 5,7, e os evangélicos/protestantes, de 8,2.

Para as SPAs ilícitas, as variáveis sexo e classe econômica B1/B2 foram significantes. Quanto ao sexo, os homens apresentaram RP=3,1 em comparação às mulheres. Os estudantes das classes socioeconômicas B1/B2 apresentam RP=2,2, tendo como categoria de referência C1/C2/D.

 

DISCUSSÃO

Para melhor conhecer os fatores que influenciam o uso e não uso de SPAs, é importante conhecer o perfil da população estudada. Deste modo, a grande maioria dos estudantes de Pedagogia da UFES pertence ao sexo feminino (94,6%). Tal fato decorre da construção histórica da profissão "educador". Com a expansão capitalista, houve maior demanda da inserção feminina do mercado de trabalho. Entretanto, notou-se que a sua inserção estava vinculada a profissões que seriam ditas como ideais para elas. Profissões como a Enfermagem e a Pedagogia foram consideradas como extensão do lar, possibilitando, assim, a conciliação do trabalho doméstico com a vida pública da mulher18. Como resultado de uma construção sócio-histórica, ainda hoje algumas profissões são consideradas femininas, resultando em maior contingente de mulheres nessas graduações, como observado nesta pesquisa em estudantes de Pedagogia.

Corroborando os estudos realizados na própria UFES10-13 e em nível nacional16, a maioria dos estudantes pertence à faixa etária de 18 a 24 anos, à cor/raça caucasoide/branco, ao estado civil solteiro e à classe socioeconômica B. Por outro lado, nota-se uma predominância de evangélicos/protestantes, diferentemente do já encontrado na UFES e em estudos nacionais10-13,16. Hoje, observa-se um crescimento da religião evangélica e um decréscimo do número de católicos na população brasileira19, o que pode ter influenciado na predominância de evangélicos entre os estudantes. Todavia, deve-se ressaltar que a religião católica foi a segunda mais prevalente com índice semelhante (45,2%) ao dos evangélicos.

No presente estudo, as SPAs lícitas foram as mais prevalentes. O uso na vida de álcool foi relativamente mais baixo do que o encontrado no I Levantamento Nacional sobre o Uso de Álcool, tabaco e outras drogas entre universitários das 27 capitais brasileiras, com uso na vida de 86,7%. O uso na vida de álcool em estudos com universitários geralmente encontra-se acima de 80%, tendo já sido encontrado uso na vida de 845, 8620, 87,76, 92,821, 82,110, 86,911, 87,812 e 87,9%13. Em estudos internacionais, o álcool também é a principal SPA usada pelos universitários, como foi demonstrado por Mora-Rios e Natera22 em estudo no México, com uso de 86%. Chavez et al.23, em pesquisa no Equador, encontraram 83%. Nos Estados Unidos, Johnston et al.8 observaram uso na vida de 84,3%. O uso de tabaco corroborou o encontrado tanto em estudos nacionais5,6,10-13,16,20,21 como internacionais8,22,23.

Observou-se neste estudo que o uso na vida das SPAs lícitas estava associado à religião e que os estudantes de Pedagogia sem religião, católicos e de outras religiões possuíam mais chances de usar alguma SPA lícita do que aqueles evangélicos/protestantes. Logo, o baixo uso na vida de álcool relatado pelos estudantes de Pedagogia pode estar associado ao fato de a maioria pertencer às religiões evangélicas/protestantes.

Em estudo realizado por Dalgalarrondo et al.24 com estudantes do ensino fundamental e médio de Campinas (SP), observou-se que a religião influenciou o uso de SPAs, sendo o uso associado àqueles que não tiveram educação religiosa na infância. Os protestantes usaram menos que os católicos. Já entre universitários, Silva et al.25 em São Paulo mostraram que possuir alguma religião influencia o uso de álcool, tabaco e SPAs ilícitas, como também que a religião protestante é fator de proteção ao uso de SPAs. Deste modo, a religião é tida como fator de proteção ao uso de SPAs, em decorrência dos valores transmitidos aos fiéis. Assim, a religião protestante, normalmente apresenta menor prevalência de uso em relação às outras religiões, já que possui um conjunto de normas rígidas, nas quais o uso de SPAs não é uma conduta esperada do praticante.

Entre as SPAs ilícitas, os tranquilizantes, as anfetaminas, a maconha e os inalantes foram aquelas com maior uso na vida. A maioria dos estudos demonstra a maconha e os inalantes como as principais SPAs ilícitas utilizadas pelos universitários. De acordo com o I Levantamento Nacional sobre o Uso de Álcool, tabaco e outras drogas entre universitários das 27 capitais brasileiras, o uso na vida de SPAs ilícitas é de 48,7%, sendo a maconha a mais prevalente (26,1%), seguida pelos inalantes (20,4%)16. Kerr-Corrêa et al.5 em São Paulo, encontraram uso na vida de inalantes de 30% e de maconha de 17%. Canuto et al.26 mostraram um uso na vida de 23 e 14,6% de inalantes e solventes respectivamente. Tais substâncias possuem um lugar de destaque, uma vez que apesar de serem consideradas ilícitas, possuem além de uma ampla disseminação, custos relativamente baixos. O crack surge hoje como um grande problema de saúde pública. Entretanto, o presente estudo, como a maioria das pesquisas com universitários, não demonstra um grande uso dessa substância.

Os tranquilizantes e anfetamínicos foram as SPAs ilícitas mais prevalentes neste estudo. Os estudos normalmente demonstram alto uso dessas substâncias, todavia não são as principais SPAs usadas pelos universitários5,6,8,10-13,16,20-23. A maior prevalência observada pode estar relacionada ao predomínio do sexo feminino. Essas substâncias são geralmente consumidas pelas mulheres, possivelmente reflexo de uma sociedade imediatista, na qual a busca por satisfação e alívio, mesmo que ilusórios, se torna frequente. Em estudo realizado nas cinco regiões brasileiras com universitárias, a maioria delas respondeu que desejavam pesarem menos e que a ideia de uma pessoa saudável era também de alguém com menor peso do que elas27. Deste modo, vive-se uma busca pelo corpo perfeito, aquele presente na televisão e revistas, os quais pregam uma magreza muitas vezes excessiva. A tentativa de adequação ao padrão estabelecido pela mídia pode resultar no uso dessas substâncias.

Encontrou-se associação entre o uso na vida de SPAs ilícitas e as classes socioeconômicas B1/B2 (análise bivariada). O sexo e a classe econômica (análise multivariada) foram significantes. Neste estudo, observou-se que os homens possuíam maior chance de usar alguma SPA ilícita do que as mulheres, o que é compatível com os registros de outros estudos5,6,21,26. Em estudo realizado por Wagner et al.28, em São Paulo, comparando acadêmicos de 1996 e de 2001, mostrou que os universitários do sexo masculino apresentaram aumento no uso na vida de SPAs ilícitas. Tal fato corrobora as características da população brasileira3,4, sendo o uso de SPAs ilícitas, especialmente inalantes e maconha, mais prevalente entre os homens. Por outro lado, é importante ressaltar que além do uso de tranquilizantes e anfetamínicos, observa-se um aumento do uso de SPAs no sexo feminino, exigindo abordagens especificas para essa população.

Na presente pesquisa, os estudantes que pertenciam às classes socioeconômicas B1/B2 possuíam mais chance de usar alguma SPA ilícita do que aqueles pertencentes às classes C1/C1/D. Silva et al.25 mostraram em seu estudo que universitários com renda superior a 40 salários-mínimos mensais usavam mais SPAs ilícitas. Lucas et al.6 registraram maior uso de anfetamínicos entre universitários pertencentes à classe socioeconômica A. Picolotto et al.29 pesquisaram acadêmicos de enfermagem e detectaram mais chances de consumo tanto para maconha quanto cocaína entre estudantes com renda familiar superior a dez salários mínimos quando comparados àqueles com renda inferior a dez salários mínimos. Como nos estudos citados, os estudantes de pedagogia da UFES com menor poder aquisitivo apresentaram menor uso de SPAs. Tal fato pode estar associado a menores condições financeiras de adquirir a substância, como também, estes com menor poder aquisitivo podem não estar inseridos no ambiente universitários.

Ressalta-se que o presente estudo possui um caráter transversal, não sendo possível determinar relação de causa e feito, e sim, associação das variáveis. Como também que os questionários de autopreenchimento medem o relato e não efetivamente o uso, entretanto, são atualmente o meio mais utilizado tanto por sua praticidade como baixo custo.

 

CONCLUSÃO

Hoje, os universitários constituem-se um dos campos de pesquisas na área de Substâncias Psicoativas (SPAs), uma vez que, em breve estarão no mercado de trabalho, sendo responsáveis tanto pelo rumo econômico, como também político do país. Em especial, o uso de SPAs pelos futuros educadores se torna uma questão importante na área, já que em sua vida profissional, os atuais acadêmicos agirão na formação educacional de vários indivíduos, atuando muitas vezes, em idades nas quais normalmente ocorre o início do uso destas substâncias. Há necessidade de interferência em todos os ambientes nos quais os indivíduos estão inseridos, mas a escola merece uma atenção especial. Os professores em seu dia a dia servirão de modelos aos seus alunos, como também deverão orientá-los acerca da temática. Nesse contexto, o uso de SPAs por estudantes de pedagogia é preocupante, visto que o uso/abuso tanto pode influenciar na consolidação de sua carreira profissional como pode interferir na abordagem da temática com seus alunos.

No presente estudo, observou-se que as SPAs mais prevalentes e, consequentemente, mais preocupantes são o álcool e o tabaco. Apesar do uso na vida menor do que o encontrado em outros estudos, nota-se que essas substâncias necessitam de maior atenção do meio acadêmico. Não obstante, o uso das SPAs ilícitas também é preocupante, principalmente dos ansiolíticos e anfetamínicos. Essas substâncias foram as mais prevalentes e esse fato pode ser associado ao uso pelo sexo feminino, o mais prevalente nessa população, sendo reflexo de uma sociedade em busca de prazeres e resultados imediatos. Contudo, não menos importante, a maconha e os inalantes são as SPAs mais difundidas no meio acadêmico de acordo com vários estudo brasileiros.

A universidade é um ambiente privilegiado de discussão, onde todas as vertentes ideológicas possuem e devem ter voz. Deste modo, faz-se necessária a maior abordagem acadêmica do assunto relacionado ao uso de SPAs, tanto na inclusão da temática nos currículos e na criação de locais permanentes de discussão, como na criação de serviços que atendam os estudantes com problemas relacionados ao uso de SPAs.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos a Gabriela Pagotto Fiorotti, Rafaely Rebuli Procópio e Tiago Cardoso Gomes pela coleta de dados.

 

REFERÊNCIAS

1. United Nations Office on Drugs and Crime (Unodc). New York: World Drug Report; 2010.         [ Links ]

2. CREMESP/AMB. Usuários de substâncias psicoativas: abordagem, diagnóstico e tratamento. 2ª edição. Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo/ Associação Médica Brasileira. São Paulo: CREMESP/AMB; 2003.         [ Links ]

3. Carlini EA, Galduróz JCF, Noto AR, Nappo SA. I Levantamento Domiciliar sobre o uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil: estudo envolvendo as 107 maiores cidades do país: 2001. São Paulo: CEBRID - Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas Psicotrópicas; UNIFESP; 2002.         [ Links ]

4. Carlini EA, Galduróz JCF, Noto AR, Fonseca AM, Carlini CM, Oliveira LG, et al. II Levantamento domiciliar sobre o uso de drogas psicotrópicas no Brasil: estudo envolvendo as 108 maiores cidades do país: 2005. São Paulo: CEBRID - Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas Psicotrópicas; UNIFESP; 2006.         [ Links ]

5. Kerr-Corrêa F, Andrade AG, Bassit AZ, Boccuto NMVF. Uso de álcool e drogas por estudantes de medicina da Unesp. Rev Bras Psiquiatr. 1999;21(2):95-100.         [ Links ]

6. Lucas ACS, Parente RCP, Picanço NS, Conceição DA, Costa KRC, Magalhães IRS, et al. Uso de psicotrópicos entre universitários da área da saúde da Universidade Federal do Amazonas, Brasil. Cad Saúde Pública. 2006;22(3):663-71.         [ Links ]

7. Peuker AC, Fogaça J, Bizarro L. Expectativas e beber problemático entre universitários. Psicol Teor Pesqui. 2006;22(2):193-200.         [ Links ]

8. Johnston LD, O'Malley PM, Bachman JG, Schulenberg JE. Monitoring the future national survey results on drug use, 1975-2008: Volume II, College students and adults ages 19-50. Bethesda: National Institute on Drug Abuse; 2009.         [ Links ]

9. Souza RS. Uso de álcool e tabaco entre universitários da saúde de uma universidade pública. 2008 [dissertação]. Vitória (ES): Universidade Federal do Espírito Santo; 2008.         [ Links ]

10. Mardegan PS, Souza RS, Buaiz V, Siqueira MM. Uso de substâncias psicoativas entre estudantes de enfermagem. J Bras Psiquiatr. 2007;56(4):260-6.         [ Links ]

11. Pereira DS, Souza RS, Buaiz V, Siqueira MM. Uso de substâncias psicoativas entre universitários de medicina da Universidade Federal do Espírito Santo. J Bras Psiquiatr. 2008;57(3):188-95.         [ Links ]

12. Portugal FB, Souza RS, Buaiz V, Siqueira MM. Uso de drogas por estudantes de Farmácia da Universidade Federal do Espírito Santo. J Bras Psiquiatr. 2008;57(2):127-32.         [ Links ]

13. Teixeira RF, Souza RS, Buaiz V, Siqueira MM. Uso de substâncias psicoativas entre estudantes de odontologia da Universidade Federal do Espírito Santo. Ciênc Saúde Coletiva. 2010;15(3):655-62.         [ Links ]

14. Sigampa JB, Ferriani MGC, Nakano AMS. Factores protectores frente al consumo de alcohol: concepción de maestros de nivel inicial. Rev Latino-Am Enfermagem. 2005;13(special):771-7.         [ Links ]

15. Fonseca MS. Prevenção do uso de drogas na prática pedagógica dos professores do ensino fundamental [tese]. Campinas (SP): Universidade Estadual de Campinas; 2006.         [ Links ]

16. Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas. I Levantamento Nacional sobre o Uso de Álcool e Outras Drogas entre Universitários das 27 Capitais Brasileiras. Brasília: SENAD; 2010.         [ Links ]

17. Smart RG, Johnston LD, Hughes PH, Anumonye A, Khant U, Mora MEM, et al. A methodology for student drug-use surveys. Geneva: World Health Organization; 1980.         [ Links ]

18. Gontijo CRB. A relação Pedagogia - profissão de mulher: desafio atual para a prática e a formação de educadoras. In: Anais do II Congresso de Pesquisa e Ensino em História da Educação em Minas Gerais; 2003; Uberlândia.         [ Links ]

19. Jacob CR. A diversificação religiosa. Estud Av. 2004;18(52):9-11.         [ Links ]

20. Pinton FA, Boskovitz EP, Cabrera EMS. Uso de drogas entre os estudantes de medicina da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, SP, no ano de 2002. Arq Ciênc Saúde. 2005;12(2);91-6.         [ Links ]

21. Lemos KM, Neves NMBC, Kuwano AY, Tedesqui G, Bitencourt AGV, Neves FBCS, et al. Uso de substâncias psicoativas entre estudantes de Medicina de Salvador (BA). Rev Psiquiatr Clín. 2007;34(3):118-24.         [ Links ]

22. Mora-Rios J, Natera G. Expectativas, consumo de alcohol y problemas asociados en estudiantes universitarios de la ciudad de México. Salud pública Méx. 2001;43(2):89-96.         [ Links ]

23. Chavez KAP, O'Brien B, Pillon SC. Uso de drogas e comportamentos de risco no contexto de uma comunidade universitária. Rev Latino-Am Enfermagem. 2005; 13(special publication 2):1194-200.         [ Links ]

24. Dalgalarrondo P, Soldera MA, Correa Filho HR, Silva CAM. Religião e uso de drogas por adolescentes. Rev Bras Psiquiatr. 2004;26(2):82-90.         [ Links ]

25. Silva LVER, Malbergier A, Stempliuk VA, Andrade AG. Fatores associados ao consumo de álcool e drogas entre estudantes universitários. Rev Saúde Pública. 2006;40(2):280-8.         [ Links ]

26. Canuto MHA, Ferreira RA, Guimarães EMB. Uso e abuso de drogas ilícitas por jovens do 1º ano da Universidade Federal de Goiás. Rev Paul Pediatr. 2006;24(2):135-42.         [ Links ]

27. Alvarenga MS, Philippi ST, Lourenço BH, Sato PM, Scagliusi FBL. Insatisfação com a imagem corporal em universitárias brasileiras. J Bras Psiquiatr. 2010;59(1):44-51.         [ Links ]

28. Wagner GA, Stempliuk VA, Zilberman ML, Barroso LP, Andrade AG. Alcohol and drug use among university students: gender differences. Rev Bras Psiquiatr. 2007; 29(2):123-9.         [ Links ]

29. Picolotto E, Libardoni LFC, Migott AMB, Geib LT. Prevalência e fatores associados com o consumo de substâncias psicoativas por acadêmicos de enfermagem da Universidade de Passo Fundo. Ciênc Saúde Coletiva. 2010;15(3):645-54.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Flávia Batista Portugal
Rua Manoel Barros da Costa, 61, apto. 501 - Jardim Camburi
CEP: 29090-730 - Vitória (ES), Brasil
E-mail: flaviabportugal@gmail.com

Recebido em: 03/01/2013
Aprovado em: 08/11/2013
Fonte de financiamento: nenhuma.
Conflito de interesses: nada a declarar.

 

 

Trabalho realizado no Centro de Estudos e Pesquisa sobre Álcool e outras Drogas (CEPAD) da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) - Vitória (ES), Brasil.

Creative Commons License Todo el contenido de esta revista, excepto dónde está identificado, está bajo una Licencia Creative Commons