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Cadernos Saúde Coletiva

Print version ISSN 1414-462XOn-line version ISSN 2358-291X

Cad. saúde colet. vol.27 no.3 Rio de Janeiro July/Sept. 2019  Epub Sep 30, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/1414-462x201900030313 

Artigo Original

Análise espacial das anomalias congênitas do sistema nervoso

Spatial analysis of congenital malformations of the nervous system

Luciana Moura Mendes de Lima1 
http://orcid.org/0000-0002-0370-2361

Ana Cláudia Oliveira de Melo1 
http://orcid.org/0000-0003-0856-1972

Rodrigo Pinheiro de Toledo Vianna1 
http://orcid.org/0000-0002-5358-1967

Ronei Marcos de Moraes1 
http://orcid.org/0000-0001-8436-8950

1Programa de Pós-graduação em Modelos de Decisão e Saúde, Centro de Ciências Exatas e da Natureza, Universidade Federal da Paraíba (UFPB) - João Pessoa (PB), Brasil.


Resumo

Introdução

A anomalia congênita do sistema nervoso ocorre durante o desenvolvimento embrionário. O território pode ser um fator determinante e esse conhecimento é importante para o planejamento de ações ou intervenções em saúde pública.

Objetivo

Detectar aglomerados espaciais da ocorrência das anomalias congênitas do sistema nervoso e caracterizá-las de acordo com as variáveis do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos.

Método

Estudo ecológico em que foram utilizados os dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos no Estado da Paraíba, período entre 2014 e 2016. Para a análise dos dados foram empregados a Razão de Incidências Espacial, a estatística Scan e o teste de Friedman.

Resultados

Foi constatado que nos anos de 2014 e 2016 os aglomerados espaciais estavam espalhados pelo Estado, enquanto no ano de 2015 ocorreu uma maior concentração desses ao noroeste do Estado.

Conclusão

A detecção dos aglomerados espaciais pode auxiliar os gestores na identificação de áreas prioritárias no cuidado à saúde de crianças com anomalias congênitas do sistema nervoso.

Palavras-chave:  análise espacial; análise por conglomerados; anormalidades congênitas; epidemiologia

Abstract

Background

The congenital malformation of the nervous system occurs during embryonic development. The territory can be a relevant factor and that knowledge is important in order to plan actions or interventions in public health.

Objective

Detecting spatial clusters of the congenital malformations of nervous system and characterizing them according to the data of the National Information System on Live Births.

Method

Ecological study using data from the National Information System on Live Births in the State of Paraíba in the period from 2014 to 2016. Spatial Incidence Ratio, Scan statistics and Friedman’s test were used for data analysis.

Results

In 2014 and 2016, spatial clusters dispersed across the State were observed. However, in 2015, there was a higher concentration of spatial clusters in the northwest of the state.

Conclusion

The spatial clusters detection can support managers to identify priority areas from children healthcare with congenital malformations of the nervous system.

Keywords:  spatial analysis; cluster analysis; congenital abnormalities; epidemiology

INTRODUÇÃO

Anomalia congênita, malformações ou defeitos são sinônimos empregados para descrever perturbações durante o desenvolvimento embrionário podendo ser estruturais, comportamentais, funcionais ou metabólicas1. Os estudos de Martin et al.2 e de Kliegman et al.3 citam incidência mundial entre 2% e 2,5%, visto que pode ser influenciada por questões geográficas e socioculturais4.

Enquanto, no Brasil foi verificada uma prevalência que variou entre 1,0% e 2,5%, a depender da região de estudo5,6. A anomalia congênita constitui a segunda causa de óbito na infância no Brasil, com uma taxa de 3,06 por mil nascidos vivos, ficando atrás apenas da prematuridade7, mostrando ser um problema de saúde pública.

Em pesquisas realizadas no Brasil foi constatado que os casos de anomalia congênita do sistema nervoso foram os mais presentes dentre as possíveis causas de óbito na infância listadas na Classificação Internacional de Doenças5,8. Entretanto na região Nordeste fica em segundo lugar9,10. Conforme o desenvolvimento embrionário, as anomalias congênitas do sistema nervoso ocorrem devido a defeitos do tubo neural e malformações da medula espinhal; encefalocele; distúrbios de especificação estrutural; anomalias da fossa posterior, tronco encefálico e cerebelo; distúrbios de crescimento do cérebro; e desordens de crescimento e forma do crânio3. Dentre essas causas, os defeitos do tubo neural são responsáveis pela maior proporção dessas anomalias3.

O conhecimento do território (ou espaço geográfico) é um importante caminho para o planejamento das ações de promoção e de atenção integral a saúde11. Ele apresenta a distribuição demográfica e epidemiológica dentro do contexto social, político, cultural e administrativo. A análise espacial por meio de um modelo inferencial permite identificar a distribuição espacial das doenças e sua relação com os fatores de risco, dentro desse espaço geográfico12. Em razão do quantitativo elevado de anomalias do sistema nervoso, da gravidade e repercussão na vida da criança e seus familiares, o presente estudo teve como objetivos: detectar aglomerados espaciais deste agravo e caracterizar as anomalias conforme as variáveis disponíveis no Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), no estado da Paraíba, durante o período de 2014 a 2016.

MÉTODO

Este estudo é caracterizado por ser ecológico, utilizando dados secundários provenientes do Sinasc, no período entre 2014 e 2016, que foram disponibilizados pela Secretaria Estadual de Saúde da Paraíba. O estado da Paraíba, localizado na região Nordeste do Brasil, é composto por 223 municípios e quatro mesorregiões (Litoral/Mata Paraibana, Agreste Paraibano, Borborema e Sertão Paraibano).

Para caracterizar a amostra da pesquisa foram usadas as variáveis do Sinasc referentes à mãe: faixa etária (até 19 anos, 20 a 30 anos, 31 a 39 anos, 40 anos ou mais), estado civil (solteira, casada, divorciada, união consensual, ignorado, não preenchido), escolaridade (anos de estudo: 0 a 3, 4 a 7, 8 a 11, 12 e mais, ignorado, não preenchido), número de consultas de pré-natal (nenhuma, 1 a 3, 4 a 6, 7 e mais, ignorado), tipo de gravidez (única, dupla, não preenchido) e parto (vaginal, cesáreo); e ao nascido vivo: sexo (feminino, masculino), peso ao nascer (em gramas: menos de 2.500, 2.500 e mais), Índice de Apgar no 1º e 5º minutos (0 a 3, 4 a 6, 7 a 10, não preenchido). Foram incluídos no estudo os casos registrados com anomalias do sistema nervoso, a saber: anencefalia e malformações similares, encefalocele, microcefalia, hidrocefalia congênita, outras malformações congênitas do cérebro, espinha bífida, outras malformações congênitas da medula espinhal, outras malformações congênitas do Sistema Nervoso Central, conforme categorização da ficha de notificação do Sinasc.

Na análise dos dados foram utilizados: a Razão de Incidências Espacial (RIE) e a estatística Scan para detectar os aglomerados espaciais. Foi realizado o teste de Friedman, com o intuito de averiguar a existência de diferenças entre as características sociais e clínicas das mães e as características clínicas dos nascidos vivos entre os anos analisados.

Para compreender a RIE se faz necessário definir duas entidades importantes na análise espacial: a região geográfica e o geo-objeto. A região geográfica é uma área geográfica delimitada de estudo em que os eventos de interesse ocorrem. Por exemplo, para um estudo epidemiológico focado nos casos de anomalias congênitas no território brasileiro o Brasil é a região geográfica. Além disso, pode ser representada por uma coleção de objetos distintos e localizáveis geograficamente dentro dela, estes, por sua vez, podem ser chamados geo-objetos13. Dando continuidade ao exemplo anterior, aquele estudo epidemiológico pode ser desenvolvido a partir das totalizações das notificações de casos de anomalias congênitas em cada estado brasileiro em um período de tempo. Portanto, o Brasil é a região geográfica e cada estado brasileiro é um geo-objeto.

Formalmente, seja uma região geográfica G formada por uma coleção n de geo-objetos denotados por g1, g2, ..., gn. Seja ainda X(gi), i=1, ..., n, uma variável aleatória que refere-se à contagem de ocorrências de um evento epidemiológico em um determinado período de tempo para cada geo-objeto gi; e M(gi) a população sob risco em cada geo-objeto gi. Então, a RIE para cada geo-objeto gi é dada pela Equação 1:

RIEgi=XgiMgii=1nXgii=1nMgi, (1)

ou seja, a RIE do geo-objeto gi é dada pela incidência de um evento epidemiológico no geo-objeto dividido pela incidência em toda a região geográfica.

Para interpretação da RIE(gi) foram empregadas as seguintes divisões: RIE nula quando não existe incidência do evento epidemiológico no geo-objeto gi; maior que 0 e menor que 0,5 atribui que a RIE é inferior à metade da incidência global na região geográfica no geo-objeto gi; maior ou igual a 0,5 e menor do que 1,0, a RIE é superior à metade, mas inferior à incidência global na região geográfica no geo-objeto gi; maior ou igual a 1,0 e menor do que 1,5, a RIE é superior à incidência global, mas inferior à 1,5 a incidência global na região geográfica no geo-objeto gi; maior ou igual a 1,5 e menor do que 2,0, a RIE é superior à 1,5 vezes da incidência global, mas inferior à 2,0 vezes a incidência global na região geográfica no geo-objeto gi; e quando maior ou igual a 2,0, a RIE é igual ou superior à 2,0 vezes a incidência global na região geográfica no geo-objeto gi.

A estatística Scan foi proposta por Kulldorff e Nagarwalla14 com o intuito de detectar e inferir aglomerados espaciais de doenças. O método impõe uma janela circular em um mapa e permite que o centroide do círculo se mova no decorrer da região de estudo procurando áreas vizinhas em que tenham o centroide, também, na sua área. Desse modo, o objetivo da estatística Scan é identificar aglomerados nos quais a ocorrência do evento é significativamente mais provável dentro do próprio aglomerado do que fora. Ela pode ser empregada em situações em que os dados são agregados por área ou quando as coordenadas geográficas exatas são conhecidas para a ocorrência do evento. Para cada centroide, o raio permite que varie de zero a um valor máximo, porém é recomendado que um valor para limitar o raio seja 50% da população sob risco14.

Existem diferentes modelos probabilísticos, no entanto foi optado pelo modelo discreto de Poisson por ele usar dados de contagem de casos15, sendo este o que melhor se adequa ao estudo. Foram utilizadas as simulações de Monte Carlo para testar a significância estatística, cujo número de casos é distribuído aleatoriamente para a população14. As simulações de Monte Carlo foram usadas com um nível de significância de 5%, utilizando 999 replicações aleatórias dos dados sob a hipótese nula de aleatoriedade espacial14.

Para o estudo foram analisados os percentuais 0,1%, 0,3%, 0,5%, 0,7%, 1%, 3%, 5%, 7% e 10% da população sob risco nos mapas da estatística Scan para cada ano utilizando como referência os mapas da RIE. Para avaliar a estatística Scan, foi necessário conhecer as coordenadas geográficas, o número de casos de cada município e a sua população de nascidos vivos.

Os dados foram armazenados em uma planilha eletrônica e analisados no software estatístico livre e gratuito R. O projeto foi submetido à avaliação pela Plataforma Brasil, tendo sido aprovado sob o número de protocolo 082/17 (CAEE n. 64574017.5.0000.5188), respeitando os critérios estabelecidos na Resolução n. 466, de 12 de dezembro de 2012, que regulamenta a pesquisa em seres humanos.

RESULTADOS

A Tabela 1 foi composta por características sociais das mães, da gravidez e do parto de 371 registros identificados com ocorrência de anomalia congênita do sistema nervoso no recém-nascido. Em 2014, a idade das mães variou entre 16 e 45 anos, média de 27,2 anos. No período de 2015, apresentou uma variação entre 14 e 43 anos, com uma média de 25,3 anos, e, em 2016, entre 15 e 41 anos, com uma média de 25,4 anos. Nos três anos foi verificado que mais da metade da amostra estava na faixa etária entre 20 e 30 anos. Em relação ao estado civil, cerca de 40% tinha união consensual. Quanto a escolaridade, em geral, o período em que as mães estudaram variou de 8 a 11 anos.

Tabela 1 Características sociais das mães, da gravidez e do parto no estado da Paraíba, 2014 a 2016 

Variáveis 2014 2015 2016 p
n % n % n %
Faixa etária
Até 19 anos 8 13,55 42 23,60 29 21,64
20 a 30 anos 33 55,93 94 52,80 72 53,73 0,04*
31 a 39 anos 15 25,42 39 21,92 30 22,39
40 anos ou mais 3 5,10 3 1,68 3 2,24
Estado civil
Solteira 18 30,50 66 37,07 48 35,82
Casada 16 27,12 40 22,47 31 23,13 < 0,01*
Divorciada 0 0,00 3 1,70 1 0,75
União consensual 24 40,68 66 37,07 51 38,05
Ignorado 0 0,00 1 0,57 1 0,75
Não preenchido 1 1,70 2 1,12 2 1,50
Escolaridade (anos de estudo)
0 a 3 3 5,10 5 2,81 4 2,10
4 a 7 22 37,28 45 25,29 46 34,33
8 a 11 25 42,37 106 59,55 73 54,48 0,01*
12 e mais 8 13,55 20 11,23 9 6,71
Ignorado 0 0,00 1 0,56 1 0,75
Não preenchido 1 1,70 1 0,56 1 0,75
Consulta pré-natal
Nenhuma 2 3,40 4 2,24 1 0,75
1 a 3 6 10,17 13 7,30 9 6,72
4 a 6 17 28,81 54 30,33 40 29,85 0,01*
7 e mais 30 50,85 97 54,50 80 59,70
Ignorado 4 6,77 10 5,62 4 2,98
Tipo de gravidez
Única 57 96,61 174 97,75 131 97,76
Dupla 2 3,39 3 1,68 3 2,24 0,08
Não preenchido 0 0,00 1 0,57 0 0,00
Tipo de parto
Vaginal 14 23,73 79 44,38 51 38,06 0,13
Cesáreo 45 76,27 99 55,62 83 61,94
Total 59 100,00 178 100,00 134 100,00

n = número de casos; p = p-valor baseado no teste de Friedman

*p ≤ 0,05. Fonte: Sinasc (2014-2016)

No que diz respeito à gravidez, mais da metade das mulheres realizaram 7 ou mais consultas de pré-natal e mais de 90% das mulheres tiveram gestação única nos 3 anos analisados. O tipo de parto mais frequente foi o cesáreo, sendo o ano de 2014 que apresentou percentual maior (76,27%).

As características referentes aos nascidos vivos podem ser averiguadas na Tabela 2. Mais da metade da amostra nos 3 anos era do sexo feminino. Em 2014, a média de peso foi de 2.870 gramas e aproximadamente 70% da amostra apresentou menos de 2.500 gramas, isto é, baixo peso. Em 2015, a média de peso foi de 2.657 gramas e, em 2016, foi de 2.864 gramas. Em ambos os anos foi constatado que os nascidos vivos apresentaram peso igual ou maior a 2.500 gramas, ou seja, peso adequado.

Tabela 2 Características dos nascidos vivos no estado da Paraíba, 2014 a 2016 

Variáveis 2014 2015 2016 p
n % n % n %
Sexo
Feminino 35 59,32 98 55,05 73 54,48 0,13
Masculino 24 40,68 80 44,95 61 45,52
Peso (gramas)
Menos de 2.500 18 69,50 58 32,59 36 27,87 0,13
2.500 e mais 41 30,50 120 67,41 98 73,13
Índice de Apgar 1º minuto
0 a 3 16 27,12 23 12,92 15 11,19
4 a 6 13 22,03 19 10,68 16 11,94 0,05*
7 a 10 30 50,85 134 75,28 101 75,37
Não preenchido 0 0,00 2 1,12 2 1,50
Índice de Apgar 5º minuto
0 a 3 10 16,95 13 7,30 9 6,72
4 a 6 7 11,86 12 6,74 10 7,46 0,05*
7 a 10 42 71,19 151 84,84 113 84,32
Não preenchido 0 0,00 2 1,12 2 1,50
Tipos
Anencefalia e malformações similares 13 22,03 12 6,74 9 6,72
Encefalocele 1 1,70 4 2,25 1 0,74
Microcefalia 5 8,47 133 74,71 75 55,97
Hidrocefalia congênita 21 35,60 16 9,00 28 20,90 0,62
Outras malformações congênitas do cérebro 3 5,08 3 1,68 4 2,98
Espinha bífida 14 23,72 9 5,05 15 11,19
Outras malformações congênitas da medula espinhal 1 1,70 0 0,00 0 0,00
Outras malformações congênitas do sistema nervoso central 1 1,70 1 0,56 2 1,50
Total 59 100,00 178 100,00 134 100,00

n = número de casos; p = p-valor baseado no teste de Friedman

*p ≤ 0,05. Fonte: Sinasc (2014-2016)

Em relação ao Índice de Apgar no 1º minuto, em 2014, 50,85% da amostra apresentou índice entre 7 e 10. Entretanto nos anos de 2015 e 2016, mais de 70% apresentaram estes mesmos valores. Em relação ao Índice de Apgar no 5º minuto, em todos os anos, mais de 70% apresentaram valores entre 7 e 10. Os tipos de anomalias congênitas mais frequentes foram hidrocefalia, em 2014, e microcefalia, nos anos de 2015 e 2016, representando 74,7% e 55,9% dos casos, respectivamente.

Na Figura 1 é possível averiguar a RIE e a estatística Scan das anomalias congênitas do sistema nervoso na Paraíba, no ano de 2014. A RIE destas anomalias variou entre 0 e 22,35 por mil habitantes, e seu maior registro ocorreu em um município localizado ao sudeste do estado. No estado, 35 municípios apresentaram uma RIE diferente de zero havendo uma maior concentração ao leste. Destes, 80% (28 municípios) demonstraram uma RIE igual ou superior a duas vezes a incidência global na região geográfica no geo-objeto gi. Em relação à estatística Scan foi usada 0,3% da população sob risco detectando 10 aglomerados espaciais distribuídos por todo estado.

Figura 1 (a) Razão de Incidências Espacial para o ano de 2014; e (b) Estatística Scan das anomalias congênitas do sistema nervoso na Paraíba no ano de 2014 

A RIE e a estatística Scan das anomalias congênitas do sistema nervoso no estado da Paraíba, ano de 2015, podem ser observadas na Figura 2. A RIE teve uma variação entre 0 e 13,91 por mil habitantes. A cidade que demonstrou a maior RIE fica localizada ao noroeste do estado. Dos 223 municípios, 70 apresentaram uma RIE diferente de zero, destes, 57% (40 municípios) evidenciaram uma RIE igual ou superior a duas vezes a incidência global na região geográfica no geo-objeto gi. A estatística Scan com o percentual de 7% da população sob risco identificou 24 aglomerados espaciais com maior concentração ao noroeste do estado.

Figura 2 (a) Razão de Incidências Espacial para o ano de 2015; e (b) Estatística Scan das anomalias congênitas do sistema nervoso na Paraíba no ano de 2015 

Na Figura 3 é possível observar a RIE e a estatística Scan das anomalias congênitas do sistema nervoso na Paraíba, no ano de 2016. A RIE das anomalias congênitas foi de 0 a 15,79 por mil habitantes, e o município com maior RIE está localizado no noroeste do estado. No estado da Paraíba, 62 municípios apresentaram RIE diferente de zero e, destes, 72,5% (45 municípios) comprovaram uma RIE igual ou superior a duas vezes a incidência global na região geográfica no geo-objeto gi. A estatística Scan com 1% da população sob risco detectou 11 aglomerados espaciais disperso pelo estado.

Figura 3 (a) Razão de Incidências Espacial para o ano de 2016; e (b) Estatística Scan das anomalias congênitas do sistema nervoso na Paraíba no ano de 2016 

DISCUSSÃO

No presente estudo foi verificada a ocorrência e localização dos casos de anomalias congênitas do sistema nervoso no estado da Paraíba nos anos de 2014 a 2016. A estatística Scan identificou que nos anos de 2014 e 2016 os aglomerados estavam espalhados pelo estado e não se concentraram em apenas uma região, diferentemente de 2015, quando se apresentou uma maior concentração ao noroeste do estado. De maneira geral, esses aglomerados precisam ser monitorados por meio da vigilância dos municípios e do estado, apesar da dificuldade decorrente do fato de elas serem multifatoriais.

As diferenças numéricas na frequência observada de casos de microcefalia nos anos 2015 e 2016 identificados no estudo coincidem com as inesperadas diferenças de casos notificados de microcefalia, especialmente na região Nordeste, o que levou o Ministério da Saúde a decretar situação de Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional16. Este aumento tem sido atribuído à provável exposição intrauterina ao vírus Zika17. Entretanto, essa diferença não se mostrou estatisticamente significativa, segundo o tipo de anomalia observada. A descrição espacial fornece outros elementos para se estudar, interpretar, ampliar os possíveis fatores etiológicos deste evento, além de identificar objetivamente áreas prioritárias para o direcionamento das ações de saúde.

Desta forma, o uso da estatística Scan pode ser uma abordagem eficiente para investigar fatores ambientais e/ou genéticos de uma população específica com anomalias congênitas4. O reconhecimento de aglomerados pode ser um ponto de partida para a identificação da suscetibilidade genética associada à ocorrência de anomalias congênitas em regiões com alta taxa de prevalência de nascimentos de crianças com anomalias18.

A estatística Scan na área da saúde foi utilizada em outras pesquisas que abordaram doenças como tuberculose, dengue, hanseníase, anomalias congênitas18-21. Estudos realizados em diferentes regiões do mundo verificaram a distribuição espacial de anomalias congênitas ou de algum tipo de anomalia específica4,18,22,23, confirmando a utilidade e potencialidade deste método para detectar anomalias congênitas do sistema nervoso. Dessa maneira, ressalta a importância deste agravo à saúde e a possibilidade de outros fatores etiológicos, ainda não identificados, estarem relacionados à ocorrência deste agravo no estado da Paraíba, especialmente considerando a concentração espacial do evento.

Os mapas da RIE servem como referência para análise dos mapas providos pela estatística Scan. A utilização da RIE permite padronizar as informações em função da população sob risco dos municípios, relacionando a incidência de cada município à incidência no estado em um determinado período de tempo.

O presente estudo permitiu detectar aglomerados espaciais das anomalias congênitas do sistema nervoso no estado da Paraíba, no período de 2014 a 2016 e descrever a ocorrência dos casos de acordo com as características das mães, parto, gravidez e dos nascidos vivos. A identificação dos aglomerados espaciais serve como subsídio para a eleição de áreas prioritárias no cuidado à saúde, para reduzir os possíveis riscos de ocorrência destas anomalias, também para planejar ações ou organizar os serviços de saúde. Esta metodologia pode ser aplicada a problemas de vigilância similares, sobre este ou outros espaços geográficos e também para outros agravos. Portanto, ela pode trazer importantes contribuições para a gestão pública e os profissionais de saúde.

AGRADECIMENTOS

Pelo apoio financeiro, a CAPES/FAPESQ-PB.

Trabalho realizado no Programa de Pós-graduação em Modelos de Decisão e Saúde – João Pessoa (PB), Brasil.

Fonte de financiamento: CAPES/FAPESQ-PB (88887.144662/2017-00).

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Recebido: 17 de Julho de 2018; Aceito: 19 de Fevereiro de 2019

Endereço para correspondência: Luciana Moura Mendes de Lima – Programa de Pós-graduação em Modelos de Decisão e Saúde, Centro de Ciências Exatas e da Natureza, Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Cidade Universitária, s/n – Castelo Branco – CEP: 58051-900 – João Pessoa (PB), Brasil – Email: lucianamm_@hotmail.com

Conflito de interesses: nada a declarar.

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