SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.10 número especialProblemas de realismo e teoricismo na pesquisa social e no Serviço SocialA particularidade histórica da pesquisa no Serviço Social índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Revista Katálysis

versão On-line ISSN 1982-0259

Rev. katálysis v.10 n.spe Florianópolis  2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-49802007000300004 

ENSAIO

 

Procedimentos metodológicos na construção do conhecimento científico: a pesquisa bibliográfica

 

Methodological procedures in the construction of scientific knowledge: bibliographic research

 

 

Telma Cristiane Sasso de Lima; Regina Célia Tamaso Mioto

Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

 

 


RESUMO

Este artigo trata da pesquisa bibliográfica no contexto da produção do conhecimento. Apresenta a pesquisa bilbiográfica como um procedimento metodológico que se oferece ao pesquisador como uma possibilidade na busca de soluções para seu problema de pesquisa. Para tanto, parte da necessidade de exposição do método científico escolhido pelo pesquisador; expõe as formas de construção do desenho metodológico e a escolha dos procedimentos; e demonstra como se configura a apresentação e análise dos dados obtidos. Apresenta, também, um desenho metodológico de aproximações sucessivas, considerando que a flexibilidade na apreensão dos dados garante o movimento dialético no qual o objeto de estudo pode ser constantemente revisto. Enfim, postula que trabalhar com a pesquisa bibliográfica significa realizar um movimento incansável de apreensão dos objetivos, de observância das etapas, de leitura, de questionamentos e de interlocução crítica com o material bibliográfico, e que isso exige vigilância epistemológica.

Palavras-chave: pesquisa bibliográfica, procedimentos metodológicos.


ABSTRACT

This article concerns bibliographic research in the context of production of knowledge, as a methodological procedure that offers the researcher the possibility of seeking solutions to a research problem. It recognizes the need to present the scientific method chosen by the researcher; to present the forms of construction of the methodological design and the choice of procedures; and demonstrates how the presentation and analysis of the data obtained is configured. It also presents a methodological design of successive approximations, considering that the flexibility in the apprehension of data guarantees the dialectical movement in which the object of study can be constantly revised. That is, it postulates that bibliographic research involves conducting a tireless movement of apprehension of objectives, observance of steps, reading, questioning and critical interlocution with the bibliographic material and this demands epistemological vigilance.

Key words: bibliographic research, methodological procedures.


 

 

Introdução

O conhecimento como elemento fundamental na construção dos destinos da humanidade tem sido cada vez mais evidenciado e propagado no contexto da sociedade atual, na qual o saber encontra-se engendrado pelos processos de globalização e de mercantilização. Decorre desses o fato de as inovações e os avanços tecnológicos serem considerados como condição de desenvolvimento econômico.

A constatação de que o desenvolvimento econômico é o principal condicionante para a produção de conhecimento, torna-se o motivo principal pelo qual se deve produzir e encaminhar pesquisas. Tal afirmação pode ser confirmada pelo novo modo de produção do conhecimento, movido pela articulação universidade-empresa-Estado que, dentre outros aspectos, caracteriza-se pela diminuição da influência da hierarquia acadêmica na condução da prática científico-tecnológica. Esta passa a ser pressionada pelo meio empresarial e orientada pela busca de resultados práticos e pela alteração dos critérios de qualidade acadêmica tradicionais que começam a ser definidos por espaços externos aos centros de pesquisa (TRIGUEIRO, 1999).

Diante desse quadro, as transformações no modo de produzir conhecimento alteraram profundamente o estatuto da Universidade, particularmente a brasileira. Para Chauí (1999), transformou-se em uma "universidade operacional", ou seja, aquela que está estruturada por estratégias e programas de eficácia organizacional e avaliada por índices de produtividade. Isso implica em um aumento significativo no estímulo às atividades de pesquisa, como também os seus resultados têm sido exigidos no âmbito das instituições de ensino responsáveis pela formação de novos pesquisadores, particularmente no âmbito da pós-graduação. Esse incentivo e essa exigência geram grande aumento nas publicações de pesquisas realizadas por estudantes que são, cada vez mais, pressionados pelo cumprimento de prazos e/ou por professores preocupados com a sua produtividade. Aliado a isso, cresce a oferta de congressos e de eventos destinados à apresentação de uma expressiva gama de trabalhos científicos, cuja participação faz-se necessária quando se observam os critérios de avaliação encaminhados no interior das instituições de ensino e de fomento à pesquisa.

Quanto a essa conjuntura, sem entrar na discussão das suas implicações ético-políticas, pode-se dizer que se, por um lado, ela tem estimulado de forma crescente o número de pesquisas, por outro, pode ser questionada a qualidade das produções. Dentre os inúmeros questionamentos, que podem ser realizados ao longo de todo processo de proposição e efetivação de pesquisas – especialmente na área das ciências humanas que se ocupa prioritariamente com pesquisas de natureza qualitativa –, merecem destaques os procedimentos metodológicos.

Destacar as formas de encaminhar e de construir um processo de pesquisa, relativas à definição dos procedimentos metodológicos que orientarão tal processo, baseia-se na observação de que vários relatos de pesquisas, notadamente, carecem de rigor científico na maneira de definir seus procedimentos, que exigem do pesquisador clareza na definição do método a ser utilizado. Um dos procedimentos mais visados pelos investigadores na atualidade, que pode ter sua escolha definida sem o devido cuidado com o objeto de estudo que é proposto, é a pesquisa bibliográfica.

Não é raro que a pesquisa bibliográfica apareça caracterizada como revisão de literatura ou revisão bibliográfica. Isto acontece porque falta compreensão de que a revisão de literatura é apenas um pré-requisito para a realização de toda e qualquer pesquisa, ao passo que a pesquisa bibliográfica implica em um conjunto ordenado de procedimentos de busca por soluções, atento ao objeto de estudo, e que, por isso, não pode ser aleatório.

Na intenção de apresentar a pesquisa bibliográfica sob essa perspectiva, o presente artigo busca abordar a importância que possui a delimitação dos critérios e dos procedimentos metodológicos que permitem definir um estudo como sendo bibliográfico. Através da exposição de exemplos, construídos a partir de uma pesquisa dessa natureza, pretende-se chamar a atenção para as exigências que a escolha por esse tipo de procedimento apresenta ao pesquisador à medida que este constrói a busca por soluções ao objeto de estudo proposto.

Entende-se pesquisa como um processo no qual o pesquisador tem "uma atitude e uma prática teórica de constante busca que define um processo intrinsecamente inacabado e permanente", pois realiza uma atividade de aproximações sucessivas da realidade, sendo que esta apresenta "uma carga histórica" e reflete posições frente à realidade (MINAYO, 1994, p.23). Desse modo, ao considerar a pesquisa qualitativa, todo objeto de estudo apresenta especificidades, pois ele:

a) é histórico – está localizado temporalmente, podendo ser transformado;

b) possui consciência histórica – não é apenas o pesquisador que lhe atribui sentido, mas a totalidade dos homens, na medida em que se relaciona em sociedade, e confere significados e intencionalidades a suas ações e construções teóricas;

c) apresenta uma identidade com o sujeito – ao propor investigar as relações humanas, de uma maneira ou de outra, o pesquisador identifica-se com ele;

d) é intrínseca e extrinsecamente ideológico porque "veicula interesses e visões de mundo historicamente construídas e se submete e resiste aos limites dados pelos esquemas de dominação vigentes" (MINAYO, 1994, p. 21);

e) é essencialmente qualitativo já que a realidade social é mais rica do que as teorizações e os estudos empreendidos sobre ela, porém isso não exclui o uso de dados quantitativos (MINAYO, 1994).

Considera-se, portanto, que o processo de pesquisa se constitui em uma atividade científica básica que, através da indagação e (re)construção da realidade, alimenta a atividade de ensino e a atualiza frente à realidade. Assim como vincula pensamento e ação já que "nada pode ser intelectualmente um problema se não tiver sido, em primeiro lugar, um problema da vida prática" (MINAYO, 2001, p. 17).

Desse modo, Minayo (1994) afirma que a objetivação não é realizável quando se trabalha com dados prioritariamente qualitativos, porque é impossível descrever a realidade com exata fidedignidade. Para a autora, a única forma de objetivação possível, nesse processo, consiste no "repúdio a neutralidade", o que exige atenção do pesquisador para "reduzir os juízos de valores" ao máximo. Nesse sentido, os métodos e as técnicas de coleta e tratamento dos dados adquirem importância.

Como a pesquisa bibliográfica tem sido um procedimento bastante utilizado nos trabalhos de caráter exploratório-descritivo, reafirma-se a importância de definir e de expor com clareza o método e os procedimentos metodológicos (tipo de pesquisa, universo delimitado, instrumento de coleta de dados) que envolverão a sua execução, detalhando as fontes, de modo a apresentar as lentes que guiaram todo o processo de investigação e de análise da proposta.

Na perspectiva desse artigo, pretende-se contribuir para a qualificação dos estudos que estabelecem a pesquisa bibliográfica como procedimento metodológico. Inicialmente apresenta-se a importância de expor com clareza o método científico do qual parte o pesquisador; a segunda seção sinaliza as formas de construção do desenho metodológico e a escolha dos procedimentos que permitem realizar a classificação do material e do conteúdo a ser pesquisado; a terceira seção aborda a exposição do percurso de pesquisa realizado, direcionado às formas de apresentar e de analisar os dados obtidos; por fim são tecidas algumas considerações e listadas as referências bibliográficas.

 

1 A exposição do método: primeiro passo na definição do percurso metodológico

Ao apresentar a metodologia que compõe determinada pesquisa, busca-se apresentar o "caminho do pensamento" e a "prática exercida" na apreensão da realidade, e que se encontram intrinsecamente constituídos pela visão social de mundo veiculada pela teoria da qual o pesquisador se vale. O processo de apreensão e compreensão da realidade inclui as concepções teóricas e o conjunto de técnicas definidos pelo pesquisador para alcançar respostas ao objeto de estudo proposto. É a metodologia que explicita as opções teóricas fundamentais, expõe as implicações do caminho escolhido para compreender determinada realidade e o homem em relação com ela (MINAYO,1994, p. 22).

Assim, pode-se considerar a metodologia como uma forma de discurso que apresenta o método escolhido como lente para o encaminhamento da pesquisa. O primeiro passo se caracteriza pela escolha de determinada narrativa teórica que veiculará a concepção de mundo e de homem responsável pela forma como o pesquisador irá apreender as condições de interação possíveis entre o homem e a realidade. Significa que existem diferentes modos de entender a realidade, como também há diferentes posições metodológicas que explicitam a construção do objeto de estudo, a postura e a dinâmica que envolvem a pesquisa, dando visibilidade aos movimentos empreendidos pelo pesquisador nessa direção.

A pesquisa que dá base a este artigo tem o método dialético como a lente orientadora de todo o processo de investigação e de análise realizado. Escolheu-se o método dialético por levar o pesquisador a trabalhar sempre considerando a contradição e o conflito; o 'devir'; o movimento histórico; a totalidade e a unidade dos contrários; além de apreender, em todo o percurso de pesquisa, as dimensões filosófica, material/concreta e política que envolvem seu objeto de estudo.

Cabe salientar que a opção pela perspectiva dialética difere de outras simplesmente porque compreende outras epistemologias. Não por considerá-la a melhor no âmbito da pesquisa científica, mas por ela pontuar as diferenças paradigmáticas entre esse método e o de outras teorias do conhecimento, pois a nenhuma linha de pensamento, ou método, cabe o monopólio da apreensão e explicação total e completa da realidade social. Vale lembrar que, no método dialético, o pesquisador é orientado a afirmar com clareza a partir de qual concepção está situada a investigação e a análise empregada sobre o seu objeto (IANNI, 1988).

O método dialético implica sempre em uma revisão e em uma reflexão crítica e totalizante porque submete à análise toda interpretação pré-existente sobre o objeto de estudo. Traz como necessidade a revisão crítica dos conceitos já existentes a fim de que sejam incorporados ou superados criticamente pelo pesquisador. Trata-se de chegar à essência das relações, dos processos e das estruturas, envolvendo na análise também as representações ideológicas, ou teóricas construídas sobre o objeto em questão. É, portanto, um estudo aprofundado sobre a produção do conhecimento que envolve concretamente o objeto, e uma análise revolucionária porque a interpretação crítica do objeto adere a ele destrutivamente (IANNI, 1988). Desse modo, o conhecimento da realidade não é apenas a simples transposição dessa realidade para o pensamento, pelo contrário, consiste na reflexão crítica que se dá a partir de um conhecimento acumulado e que irá gerar uma síntese, o concreto pensado (QUIROGA, 1991). Convém enfatizar que o pensamento tem que estar em constante diálogo com o real, isto é, as categorias são apreendidas a partir da realidade, da observação empírica do movimento histórico concreto (QUIROGA, 1991; PONTES, 1997).

Esse desvendamento do real e a apreensão da sua essência consistem em 'aproximações sucessivas que não são lineares' porque o que prevalece são os elementos produzidos social e historicamente. Assim, para se apreender essa realidade como uma totalidade complexa e em movimento faz-se necessária a construção de mediações, de um sistema de mediações. O processo é reflexivo, pois a razão reconstrói o movimento do real para depois realizar o caminho de volta até o objeto, caminho este muito mais rico porque traz consigo novas e múltiplas mediações (PONTES, 1997).

Portanto, realizar uma pesquisa entendendo a realidade social dinâmica, contraditória, histórica e ontológica implica na utilização de procedimentos metodológicos que consigam engendrar todos esses pressupostos com a mesma intensidade como se apresentam quando estão em relação.

 

2 Segundo passo: a construção do desenho metodológico e a escolha dos procedimentos

A pesquisa bibliográfica tem sido utilizada com grande freqüência em estudos exploratórios ou descritivos,casos em que o objeto de estudo proposto é pouco estudado, tornando difícil a formulação de hipóteses precisas e operacionalizáveis. A sua indicação para esses estudos relaciona-se ao fato de a aproximação com o objeto ser dada a partir de fontes bibliográficas. Portanto, a pesquisa bibliográfica possibilita um amplo alcance de informações, além de permitir a utilização de dados dispersos em inúmeras publicações, auxiliando também na construção, ou na melhor definição do quadro conceitual que envolve o objeto de estudo proposto (GIL, 1994).

A partir do exemplo de uma pesquisa exploratório-descritiva, apresentar-se-á o percurso construído com utilização da pesquisa bibliográfica como procedimento metodológico. Esta, enquanto estudo teórico elaborado a partir da reflexão pessoal e da análise de documentos escritos, originais primários denominados fontes, segue uma seqüência ordenada de procedimentos (SALVADOR, 1986). No entanto, não significa que os procedimentos a serem seguidos são determinados de uma vez para sempre, pois mesmo que o pesquisador tenha definido o objeto de estudo, o vínculo com determinada tradição e o desenho da investigação, ele sempre poderá voltar ao objeto de estudo à medida que forem obtidos os dados, de modo a definilo mais claramente ou reformulá-lo. Conseqüentemente, esse movimento acarretará novas alterações, ou escolhas quanto aos procedimentos metodológicos.

Essa flexibilidade, porém, não significa descompromisso com a organização racional e eficiente frente à tarefa, pois a pesquisa bibliográfica requer do realizador atenção constante aos 'objetivos propostos' e aos pressupostos que envolvem o estudo para que a vigilância epistemológica aconteça. Para tanto, há uma seqüência de procedimentos a ser cumprida e que compreende, de acordo com Salvador (1986), quatro fases de um processo contínuo, onde cada etapa pressupõe a que a precede e se completa na seguinte, a saber:

a) Elaboração do projeto de pesquisa – consiste na escolha do assunto, na formulação do problema de pesquisa e na elaboração do plano que visa buscar as respostas às questões formuladas.

b) Investigação das soluções – fase comprometida com a coleta da documentação, envolvendo dois momentos distintos e sucessivos: levantamento da bibliografia e levantamento das informações contidas na bibliografia. É o estudo dos dados e/ou das informações presentes no material bibliográfico. Deve-se salientar que os resultados da pesquisa dependem da quantidade e da qualidade dos dados coletados.

c) Análise explicativa das soluções – consiste na análise da documentação, no exame do conteúdo das afirmações. Esta fase não está mais ligada à exploração do material pertinente ao estudo; é construída sob a capacidade crítica do pesquisador para explicar ou justificar os dados e/ou informações contidas no material selecionado.

d) Síntese integradora – é o produto final do processo de investigação, resultante da análise e reflexão dos documentos. Compreende as atividades relacionadas à apreensão do problema, investigação rigorosa, visualização de soluções e síntese. É o momento de conexão com o material de estudo, para leitura, anotações, indagações e explorações, cuja finalidade consiste na reflexão e na proposição de soluções.

Dentro dessa lógica, a coleta de dados é iniciada com a adoção de critérios que delimitam o universo de estudo, orientando a seleção do material. Isso requer que sejam definidos:

a) o parâmetro temático – as obras relacionadas ao objeto de estudo, de acordo com os temas que lhe são correlatos;

b) o parâmetro lingüístico – obras nos idiomas português, inglês, espanhol, etc.;

c) as principais fontes que se pretende consultar – livros, periódicos, teses, dissertações, coletâneas de textos, etc.;

d) o parâmetro cronológico de publicação – para seleção das obras que comporão o universo a ser pesquisado, definindo o período a ser pesquisado.

A partir da escolha desses critérios, define-se a técnica a ser utilizada para a investigação das soluções. No caso da pesquisa bibliográfica, a leitura apresenta-se como a principal técnica, pois é através dela que se pode identificar as informações e os dados contidos no material selecionado, bem como verificar as relações existentes entre eles de modo a analisar a sua consistência.

Salvador (1986) orienta que sejam realizadas leituras sucessivas do material para obter as informações e/ou dados necessários em cada momento da pesquisa, identificando-as como:

a) Leitura de reconhecimento do material bibliográfico – consiste em uma leitura rápida que objetiva localizar e selecionar o material que pode apresentar informações e/ou dados referentes ao tema. Momento de incursão em bibliotecas e bases de dados computadorizadas para a localização de obras relacionadas ao tema.

b) Leitura exploratória – também se constitui em uma leitura rápida cujo objetivo é verificar se as informações e/ou dados selecionados interessam de fato para o estudo; requer conhecimento sobre o tema, domínio da terminologia e habilidade no manuseio das publicações científicas. Momento de leitura dos sumários e de manuseio das obras, para comprovar de fato a existência das informações que respondem aos objetivos propostos.

c) Leitura seletiva – procura determinar o material que de fato interessa, relacionando-o diretamente aos objetivos da pesquisa. Momento de seleção das informações e/ou dados pertinentes e relevantes, quando são identificadas e descartadas as informações e/ou dados secundários.

d) Leitura reflexiva ou crítica – estudo crítico do material orientado por critérios determinados a partir do ponto de vista do autor da obra, tendo como finalidade ordenar e sumarizar as informações ali contidas. É realizada nos textos escolhidos como definitivos e busca responder aos objetivos da pesquisa. Momento de compreensão das afirmações do autor e do porquê dessas afirmações.

e) Leitura interpretativa – é o momento mais complexo e tem por objetivo relacionar as idéias expressas na obra com o problema para o qual se busca resposta. Implica na interpretação das idéias do autor, acompanhada de uma interrelação destas com o propósito do pesquisador. Requer um exercício de associação de idéias, transferência de situações, comparação de propósitos, liberdade de pensar e capacidade de criar. O critério norteador nesse momento é o propósito do pesquisador.

A investigação das soluções também pode envolver a construção de um instrumento que permita pinçar das obras escolhidas os temas, os conceitos, as considerações relevantes para a compreensão do objeto de estudo. A elaboração desse instrumento também obedece a critérios: ele deve estar diretamente relacionado com o objeto de estudo proposto e com a delimitação teórica realizada no projeto de pesquisa; e deve ter a finalidadede proceder a um exame minucioso das obras selecionadas, ocorrendo sua aplicação separadamente em cada obra, sendo que seu preenchimento acontecerá sempre após a referida seqüência de leituras para o levantamento das informações.

O instrumento em questão refere-se a um roteiro para leitura e seus campos podem ser ampliados ou reduzidos, conforme o pesquisador sinta necessidade, ou dependendo da quantidade de informações que o objeto de pesquisa demande, como exemplo citam-se três campos para investigação das informações:

a) indentificação da obra
– Referencia bibliográfica completa;
– Localização da obra – local onde pode ser encontrada (bibliotecas, bancos de dados eletrônicos, etc.), facilita a busca pelas informações.

a) Caracterização da obra
– Tema central – destaca o principal tema abordado;
– Objetivo da obra – permite verificar se o objetivo proposto na obra corresponde ao tema central;
– Conceitos utilizados – permitem identificar as referências conceituais presentes na obra e se são pertinentes ao objeto de estudo proposto;
– Paradigma teórico;
– Referencial teórico – permite verificar o referencial utilizado pelo autor e a conexão das suas proposições, observando o paradigma assumido.

b) Contribuições da obra para o estudo proposto – consistem no registro das reflexões, dos questionamentos e encaminhamentos suscitados pela leitura da obra, bem como na indicação de como podem ser utilizados na elaboração do texto final.

É importante considerar que o pesquisador pode estabelecer quantos campos forem necessários para que o instrumento permita o exame detalhado das obras pesquisadas. Desse modo, pode ser elaborado um roteiro com mais de três campos de investigação, como também com vários outros subcampos. Essa construção, porém, terá de estar atenta ao objeto de estudo e aos objetivos a serem alcançados pela pesquisa.

Cabe destacar ainda que o roteiro deve ser construído sempre em observância àquilo que pedem os objetivos definidos para o estudo, o que requer do pesquisador muita clareza quanto a eles, sendo que ao empreender reformulações deve necessariamente rever os campos que compõem o roteiro.

Por fim, a análise e interpretação dos dados consistem na síntese integradora que apresenta a reflexão, realizada a partir do referencial teórico e dos dados obtidos no intuito de realizar uma aproximação crítica dos objetivos propostos.

O desenho metodológico que se tem em mente apresenta um processo de pesquisa pautado em um esquema que é denominado por Mercado-Martínez (2004) como circular ou de aproximações sucessivas e que conta com a flexibilidade na utilização dos procedimentos a serem adotados.

De acordo com esse esquema, a coleta de dados contribui tanto para a melhor definição do objeto de estudo – uma vez que as informações são obtidas provisoriamente, permitindo voltar ao material para se obter informações adicionais – , quanto para aprofundar no decorrer da análise os aspectos que ainda se demonstram confusos ou contraditórios. Assim, alguns procedimentos são incorporados 'inicialmente', quando da formulação do projeto, de acordo com os objetivos e as propostas teóricas do estudo, mas novos procedimentos podem ser incorporados 'durante' todo o percurso de pesquisa, devido a uma série de motivos que obrigam o pesquisador a retificar o caminho quando encontra dificuldades, ou quando as estratégias inicialmente propostas se demonstram inviáveis (MERCADO-MARTÍNEZ, 2004).

A partir do exposto, passa-se ao terceiro passo que consiste em apresentar o detalhamento do percurso de pesquisa, segundo as etapas e critérios apresentados nessa seção.

 

3 Terceiro passo: a apresentação do percurso da pesquisa

Esta seção detalha o caminho percorrido pelo pesquisador na coleta e na análise dos dados e encontra-se dividido de acordo com as fases definidas por Salvador (1986): investigação das soluções; análise explicativa; e síntese integradora.

 

3.1 Detalhamento da investigação das soluções

O percurso da investigação das soluções obedece aos critérios definidos inicialmente pelo pesquisador (o material bibliográfico selecionado; as fontes; o período; os idiomas, etc.). Desse modo, atentando para os procedimentos metodológicos escolhidos, pode-se dividir o percurso da investigação em três grandes etapas, a saber: levantamento do material bibliográfico; teste do instrumento para levantamento das informações; levantamento das informações.

 

3.1.1 Primeira etapa: levantamento do material bibliográfico

Refere-se à classificação do material selecionado como fonte de pesquisa como por exemplo: livros, coletânea de textos (citando o nome daqueles que foram consultados), teses e dissetações, periódicos (citando o nome daqueles que foram consultados).

 

3.1.2 Segunda etapa: teste do instrumento para levantamento das informações

Selecionado o material bibliográfico e construído o instrumento para monitorar as leituras, essa etapa permite o levantamento das informações. Para validar o instrumento construído, é importante realizar um teste, com algumas das obras selecionadas, que possibilite avaliar a eficiência do roteiro de leituras de modo a ampliar seus campos de investigação, caso as questões não estejam suficientemente claras.

O roteiro mostrando-se eficiente, permitindo o alcance de uma vasta série de dados considerados importantes pelo pesquisador, pode-se realizar outra classificação a partir da aproximação do material bibliográfico selecionado, ou seja, 'o material pode ser novamente classificado de acordo com o seu conteúdo'. Essa classificação permite agrupar as publicações em 'grupos temáticos' que auxiliarão na análise dos dados no momento para o qual se encaminha a síntese integradora.

Depois de verificada a eficiência e a viabilidade do roteiro de leituras a ser aplicado em todas as obras selecionadas, prossegue-se com a busca pelo material bibliográfico. É importante destacar que 'a classificação a partir do conteúdo do material acompanha as leituras posteriores, pois ela deve ser aplicada na totalidade do material bibliográfico selecionado para a pesquisa'.

Finalizadas essas duas etapas (de levantamento do material bibliográfico e de teste do instrumento para levantamento das informações), o pesquisador dispõe de dados prévios que lhe permitem construir a versão final do seu projeto de pesquisa, pois o objeto de estudo já se encontra suficientemente delimitado.

 

3.1.3 Terceira etapa: levantamento das informações

Essa etapa contempla, de acordo com a seqüência proposta por Salvador (1986), o 'segundo momento da investigação das soluções' e apresenta o percurso realizado para o levantamento das informações. Essa etapa pode ser apresentada de acordo com a classificação realizada para o material bibliográfico (teses e dissertações, livros, periódicos). Nela detalha-se todo o percurso e o trabalho despendido na busca pelas fontes bibliográficas. Nela o pesquisador apresenta o resumo da busca empreendida para localizar as obras a serem pesquisadas, assim como apresenta a forma que o material selecionado foi adquirido.

Descrito o percurso de investigação das soluções, passa-se à exposição ordenada dos dados obtidos, ou seja, ao momento de análise explicativa das soluções.

 

3.2 Análise explicativa das soluções

A análise explicativa das soluções é construída a partir dos dados obtidos nas obras selecionadas, conforme a metodologia proposta e baseada no referencial teórico construído para a pesquisa. Dessa forma, realiza-se a sua exposição sempre observando os procedimentos metodológicos definidos e as classificações realizadas de modo que esta fase 'apresente os dados a partir da classificação referente ao conteúdo das obras pesquisadas'.

Assim, nos itens que podem compor a análise explicativa das soluções, os dados obtidos podem ser apresentados em categorias conceituais, devendo sempre vir exemplificados com as afirmações dos autores, selecionadas como pertinentes ao tema/conceito em questão. É uma fase bastante ilustrativa, na qual o pesquisador procura demonstrar a validade das suas afirmações a partir dos autores pesquisados.

 

3.3 Síntese integradora das soluções

Consiste na fase de reflexão e de proposição de soluções, baseada no material de estudo que compôs a pesquisa. A partir do objeto de estudo proposto, que definiu a pesquisa como exploratório-descritiva, expõe-se a síntese integradora das soluções que formaram o processo de investigação.

Uma pesquisa referenciada em um desenho metodológico, construído através do movimento circular ou de aproximações sucessivas, possibilita inúmeras incursões ao referencial teórico e ao material pesquisado, bem como permite um amplo mapeamento bibliográfico que garante a apreensão constante de elementos caracterizadores do objeto de estudo.

Para construir essa etapa, parte-se da caracterização do objeto de estudo, usando as publicações que, classificadas como lentes, não foram utilizadas na ilustração dos conceitos apresentados no momento da análise explicativa das soluções, mas que trazem elementos de análises importantes para a compreensão do objeto de estudo proposto. Essas publicações, juntamente com o referencial teórico construído para o estudo, compõem a base de sustentação da reflexão que o pesquisador deve apresentar.

 

Conclusão

Através das considerações expostas, é possível afirmar que para a realização de uma pesquisa bibliográfica é imprescindível seguir por caminhos não-aleatórios, uma vez que esse tipo de pesquisa requer alto grau de vigilância epistemológica, de observação e de cuidado na escolha e no encaminhamento dos procedimentos metodológicos. Estes, por sua vez, necessitam de critérios claros e bem definidos que são constantemente avaliados e redefinidos à medida que se constrói a busca por soluções ao objeto de estudo proposto.

Ao tratar da pesquisa bibliográfica, é importante destacar que ela é sempre realizada para fundamentar teoricamente o objeto de estudo, contribuindo com elementos que subsidiam a análise futura dos dados obtidos. Portanto, difere da revisão bibliográfica uma vez que vai além da simples observação de dados contidos nas fontes pesquisadas, pois imprime sobre eles a teoria, a compreensão crítica do significado neles existente.

Utilizar-se de um desenho metodológico circular ou de aproximações sucessivas no encaminhamento da pesquisa bibliográfica, permite, através da flexibilidade na apreensão dos dados, maior alcance no trato dialético desses dados, pois o objeto de estudo pode ser constantemente revisto, garantindo o aprimoramento na definição dos procedimentos metodológicos, como também a exposição mais eficiente do percurso de pesquisa realizado.

No entanto, a flexibilidade na obtenção dos dados não torna a pesquisa bibliográfica mais fácil. Ao contrário, requer mais trabalho do pesquisador, pois exige disciplina e atenção tanto no percurso metodológico definido quanto no cronograma de estudos proposto para que a síntese integradora das soluções não seja prejudicada. É um movimento incansável de apreensão dos objetivos, de observância das etapas, de leitura, de questionamentos e de interlocução crítica com o material bibliográfico que permite, por sua vez, um leque de possibilidades na apreensão das múltiplas questões que envolvem o objeto de estudo.

Finalizando, reafirma-se a pesquisa bibliográfica como um procedimento metodológico importante na produção do conhecimento científico capaz de gerar, especialmente em temas pouco explorados, a postulação de hipóteses ou interpretações que servirão de ponto de partida para outras pesquisas.

 

Referências

CHAUÍ, M. Reforma do Ensino Superior e autonomia universitária. Revista Serviço Social & Sociedade, São Paulo: Cortez, n. 61, p. 118-126, 1999.        [ Links ]

GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Atlas, 1994.        [ Links ]

IANNI, O. Dialética e capitalismo: ensaio sobre o pensamento de Marx. Petrópolis: Vozes, 1988.        [ Links ]

MERCADO-MARTINEZ, F. J. O processo de análise qualitativa dos dados na investigação sobre serviços de saúde. Pesquisa qualitativa de serviços de saúde. Rio de Janeiro: Vozes, p. 137-174, 2004.        [ Links ]

MINAYO, M. C. Ciência, técnica e arte: o desafio da Pesquisa Social. In: ______. (Org.) Pesquisa social: teoria, método e criatividade. Petrópolis: Vozes, 2001, p. 09-30.        [ Links ]

______. O desafio do conhecimento. São Paulo/Rio de Janeiro: HUCITEC-ABRASCO, 1994.        [ Links ]

PONTE, R. N. Mediação e Serviço Social: um estudo preliminar sobre a categoria teórica e sua apropriação pelo Serviço Social. São Paulo: Cortez, 1997.        [ Links ]

QUIROGA, C. Invasão positivista no marxismo: manifestações no ensino da metodologia no Serviço Social. São Paulo: Cortez, 1991.        [ Links ]

SALVADOR, A. D. Métodos e técnicas de pesquisa bibliográfica. Porto Alegre: Sulina, 1986.        [ Links ]

TRIGUEIRO, M. Universidades públicas. Brasília: UnB, 1999.         [ Links ]

 

 

Recebido em 20.02.2007. Aprovado em 03.04.2007.

 

 

Telma Cristiane Sasso de Lima
Assistente Social
Mestre em Serviço Social pelo Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Regina Célia Tamaso Mioto
Doutora em Saúde Mental pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
Pesquisadora PIBIC/CNPq
Professora no Departamento de Serviço Social da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Centro Sócio-Econômico
Campus Universitário Reitor João David Ferreira Lima
Florianópolis – Santa Catarina
CEP: 88040-900

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons