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Revista Katálysis

On-line version ISSN 1982-0259

Rev. katálysis vol.22 no.2 Florianópolis May/Aug. 2019  Epub Aug 26, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/1982-02592019v22n2p223 

EDITORIAL

Conflitos sociais, ideologia, cultura e Serviço Social

1Doctor of Social Work: Social Policies and Social Movements from Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Social Worker and retired Professor member of the Graduate Program in Public Policies of the Universidade Federal do Maranhão (UFMA)


Neste momento histórico de acirramento da luta de classes com expressivos conflitos sociais e com forte tendência à barbárie mundial, em particular no Brasil, onde as regressões do trabalho ampliam sua alienação e exploração inerentes ao capitalismo, e avançam na destruição das conquistas trabalhistas e previdenciárias dos trabalhadores, a Revista Katálysis apresenta ao leitor, em seu segundo número de 2019, o instigante tema Conflitos sociais, ideologia, cultura e Serviço Social.

O poder da ideologia, na formação da cultura, no ocultamento da realidade e na explicitação dos conflitos sociais como expressão dos antagonismos de classes, merece destaque para pensar a sociedade brasileira inserida no movimento contraditório do capitalismo neoliberal.

Na dinâmica histórica atual do Brasil, com elevado nível de complexidade e com um amplo leque de políticas regressivas nos diferentes campos da vida social, evidenciam-se, por um lado, processos profundamente violentos mascarados de combate à própria violência e de defesa de princípios morais de preservação da família e da sociedade orientados pela ideologia neoliberal, sob a hegemonia do capital financeiro e, por outro, processos de resistência enquanto categoria histórica que se expressa por movimentos de oposição e protesto à opressão, como força contrária, como reação à subordinação, à exploração e à humilhação inerentes ao capitalismo, agora em crise mundial.

Tais processos constitutivos da atual conjuntura brasileira, nos remetem ao pensamento de Rosa Luxemburgo quando, na segunda fase do apogeu do imperialismo expressou, na mesma trilha de Marx, o que teríamos que enfrentar no futuro: socialismo ou barbárie. Segundo Mészáros (2003, p. 107), a primeira versão dessa ideia Marx situou “[...] no último horizonte histórico das contradições em evolução”. Isto é, para ele, num futuro indeterminado, para salvar a própria existência, seríamos forçados a fazer escolhas certas com relação à ordem societária.

Entendemos que o momento presente é aquele futuro apontado, tendencialmente, por Marx. Portanto, na história atual em movimento, não há lugar para escolhas conciliatórias se pretendemos enfrentar os inúmeros problemas mundiais e no Brasil, desde o desemprego estrutural crônico, até os conflitos sociais, econômicos, políticos e militares internacionais e nacionais, em face da incapacidade do capitalismo, em sua fase histórica de imperialismo hegemônico, dar solução às contradições do sistema. Pois, “[...] somente uma alternativa radical ao modo estabelecido de controle da reprodução do metabolismo social pode oferecer uma saída da crise estrutural do capital”. (MÉSZÁROS, 2003, p. 108). Um movimento socialista radical de massa na perspectiva de construção de um futuro civilizado para a humanidade.

Nessa direção, ideologia e cultura têm papel ativo em processos históricos determinados e são categorias ontológicas fundamentais imbricadas entre si e conectadas a outras categorias que dão corpo à teoria de Gramsci sobre processos históricos revolucionários.

No pensamento gramsciano a ideologia é uma “[...] concepção do mundo, que se manifesta implicitamente na arte, no direito, na atividade econômica, em todas [sic] as manifestações da vida individuais e coletivas [...]” (GRAMSCI, 1978, p. 16). A ideologia tem, portanto, um peso decisivo na organização da vida social, pois se realiza concreta e historicamente, resultando do movimento da estrutura social.

Para Gramsci (1999), essa manifestação da ideologia, enquanto concepção de mundo, objetiva-se em graus diversificados que ele procura demonstrar em suas reflexões sobre o processo de elaboração de uma concepção de mundo crítica e coerente. Estabelece, nessas reflexões, a relação entre filosofia, senso comum e religião, situando esses elementos no interior desse processo de elaboração.

Ao tratar a filosofia, Gramsci (1978) ressalta que há um preconceito bastante difundido de que ela seja algo muito difícil a que apenas uma determinada categoria de cientistas tenha acesso, insistindo que tal preconceito seja destruído. Isso porque, para Gramsci (1978, p. 11), “[...] todos os homens são “filósofos” [...]”, na medida em que - mesmo sem terem consciência - a mais simples manifestação da atividade intelectual está contida uma concepção de mundo, ou seja, está implícita uma ideologia.

Segundo o teórico marxista, essa filosofia tem limites porque é espontânea. Mas é acessível a todo mundo, manifestando-se

[...] na própria linguagem, que é um conjunto de noções e de conceitos determinados e não simplesmente de palavras gramaticalmente vazias de conteúdo; [...] no senso comum e no bom-senso; [...] na religião popular e, conseqüentemente, em todo o sistema de crenças, superstições, opiniões, modos de ver e agir que se manifestam naquilo que se conhece geralmente por “folclore”. (GRAMSCI, 1978, p. 11).

Nessas formas pelas quais são manifestadas concepções de mundo que, segundo Gramsci (1999), são espontâneas, podem ser avaliados os graus de elaboração ideológica; ou seja, a maior ou menor complexidade da concepção de mundo de cada um e qual o grupo a que pertence: se o de homens-massa ou de homenscoletivos. Pois o grau de concepção de mundo pode revelar a tendência a um ou outro grupo, respectivamente. Para Gramsci (1999, p. 94):

Pela própria concepção do mundo, pertencemos sempre a um determinado grupo, precisamente o de todos os elementos sociais que partilham de um mesmo modo de pensar e agir. Somos conformistas de algum conformismo, somos sempre homens-massa ou homens-coletivos. [...] Quando a concepção de mundo não é crítica e coerente, mas ocasional e desagregada, pertencemos simultaneamente a uma multiplicidade de homem-massa, nossa própria personalidade é composta de uma maneira bizarra: nela se encontram elementos dos homens das cavernas e princípios da ciência mais moderna e progressista, preconceitos de todas as fases histórias passadas estreitamente localistas e intuições de uma futura filosofia que será própria do gênero humano mundialmente unificado. Criticar a própria concepção de mundo, portanto, significa tornála unitária e coerente e elevá-la até o ponto atingido pelo pensamento mundial mais evoluído.

Desse modo, a consciência de nossa historicidade, de sua fase de desenvolvimento e de sua relação com outras concepções de mundo é condição fundamental para a constituição de uma filosofia crítica e coerente. A construção dessa filosofia superior ou a criação de uma nova cultura significa, além de todo um processo crítico e de descobertas originais, a difusão e socialização de verdades já desvendadas para torná-las a base do agir das classes subalternas, o elemento de coordenação é de ordem intelectual e moral (GRAMSCI, 1978).

Situando os elementos históricos, filosofia, senso comum e religião no processo de elaboração de uma nova concepção de mundo, Gramsci entende a filosofia como uma ordem intelectual, por ser, ao mesmo tempo, crítica e superação dos demais elementos. Nesse sentido, a filosofia coincide com o bom senso, que se contrapõe ao senso comum. Mas, lembrando o argumento de Gramsci (1978, p. 11), ao afirmar que “[...] todos os homens são “filósofos” [...]”, porque na mais simples atividade intelectual existe uma concepção de mundo, é importante ressaltar que a diferença fundamental entre esses fenômenos é o nível de elaboração crítica. Seguindo o raciocínio do teórico marxista, tanto a religião quanto o senso comum (que também não coincidem, mas o primeiro é um elemento do segundo) expressam concepções de mundo, mesmo que os sujeitos não tenham consciência do que expressam. Ademais, o próprio Gramsci (1999), na passagem de Cadernos do Cárcere em que reflete sobre a relação entre ideologia e filosofia, parte da concepção de religião como concepção de vida e a relaciona ao conjunto das ideologias.

Para o teórico marxista, se a religião é uma concepção de mundo (filosofia) com uma moral (norma de conduta) correspondente, não pode existir diferença entre religião e ideologia e, em última análise entre ideologia e filosofia, embora uma religião, uma filosofia ou uma ideologia, todas possam manifestar-se, historicamente, como fatos individuais.

Essa análise pode se estender para a relação entre filosofia e senso comum, uma vez que ambos constituem concepções de mundo e ambos manifestam-se como fenômenos históricos individuais, sobretudo pela diferença de nível de elaboração e de criticidade existente entre eles.

Enquanto concepção fragmentária, o senso comum manifesta a coexistência de filosofias diferenciadas que são explicitadas na contradição entre o pensar e o agir, ou seja, há uma concepção de mundo que se expressa através do fato intelectual e outra que se manifesta na ação efetiva. Essa contradição será superada com a elevação do senso comum ao plano crítico que, segundo Gramsci (1999), faz-se por meio da luta concreta, no cotidiano das classes subalternas, a partir dos problemas por elas enfrentados. Assim, as classes subalternas poderão chegar a um nível cultural superior e crítico. Mas Gramsci vai mais além em seu projeto revolucionário. Para ele não se trata apenas de realizar uma reforma intelectual e moral dos estratos sociais culturalmente atrasados, mas de realizar um projeto educativo capaz de tirar as massas da passividade e de construir a sua hegemonia e uma nova ordem social (GRAMSCI, 1999).

Portanto, se o senso comum é passível de transformações, realizar sua crítica e a sua superação, pela filosofia, significa desenvolver um processo pedagógico e político, tendo como referência uma prática histórica das classes subalternas.

Assim, se os modos de pensar e agir ocupam um lugar decisivo, para a conquista da hegemonia pelas classes subalternas, no pensamento gramsciano, também é decisivo o papel que o teórico marxista confere aos intelectuais e ao partido na construção de uma nova cultura.

Essa perspectiva de construção de uma nova cultura e do papel decisivo que é conferido por Gramsci aos intelectuais nos remete aos estudos feitos por Abreu (2002), em sua obra Serviço Social e Organização da Cultura: perfis pedagógicos da prática profissional, em que a autora, inspirada no pensamento de Gramsci, analisa, dentre outras relações temáticas importantes, a relação Serviço Social/Cultura, para apreender as tendências da função pedagógica do Assistente Social na sociedade brasileira e os desafios da construção de uma pedagogia emancipatória.

Nesses estudos, Abreu (2002) aponta que a visão de Gramsci sobre cultura está enraizada na relação orgânica estrutura/superestrutura, como mediação que estabelece nexos entre os interesses econômicos, políticos e ideológicos que conferem à discussão pedagógica uma consequência téorico-política-social enriquecedora do debate e das práticas sociais na desmistificação da prática educativa dominante e na construção de processos educativos direcionados para a conquista da emancipação humana.

Sobre a função pedagógica do Assistente Social, são evidenciadas na obra de Abreu (2002) diferentes modalidades de objetivação através de estratégias político-culturais, por meio das quais o Serviço Social se inscreve nos processos de formação da cultura, modos de pensar e agir próprios de um determinado sistema de vida. Essas modalidades são configuradas, pela autora, como perfis pedagógicos da prática profissional do Assistente Social: pedagogia da ajuda, com ênfase em processos psicossociais e ajuda individualizada; a pedagogia da participação caracterizada por estratégias desenvolvimentistas modernizadoras, com apoio no Desenvolvimento de Comunidade, como uma das formas de abordagem do Serviço Social tradicional; e a pedagogia emancipatória que emerge no âmbito do Movimento de Reconceituação do Serviço Social na América Latina, na década de 1960 e no Brasil em meados da década de 1970, como resistência ao projeto conservador predominante nesses contextos e momentos históricos, resguardadas as particularidades nos diferentes países.

Este Movimento é considerado um marco histórico da profissão, pelo seu caráter crítico e contestador a partir de análises e interpretações de orientação marxista e pelo seu significado na formação da consciência crítica e na formação de uma nova cultura dos Assistentes Sociais na América Latina e no Brasil.

No quadro de profundas e complexas transformações e de avanço do conservadorismo no mundo desde o final do século XX, quando as conquistas profissionais alcançam solidez teórica e acadêmica, apoiada no pensamento de Marx e da tradição marxista,

[...] configura-se um contexto estrutural e conjuntural, com a adesão do país ao neoliberalismo e os movimentos hegemônicos das lutas sociais são redirecionados: grande parte dos movimentos que apontavam na direção da construção de uma nova sociedade, alternativa ao capitalismo, passa para a resistência contra o neoliberalismo, com centralidade na luta por míseros direitos, conquistados pelos trabalhadores na luta de classes e tendo o Estado como principal alvo, em face de sua voracidade pela destruição dessas conquistas. (LOPES, 2016, p. 243, grifo do autor).

Ao mesmo tempo, há um avanço na difusão do pensamento da chamada pós-modernidade e da crítica ao pensamento de Marx e da tradição marxista considerados superados por muitos intelectuais, no meio acadêmico e na política.

Entretanto, reafirmamos a atualidade do pensamento de Marx e a tradição marxista como referências fundamentais para uma análise histórico-crítica sobre a atual fase do capitalismo e suas particularidades na América Latina e no Brasil.

Do mesmo modo, entendemos que a perspectiva histórica de emancipação das classes subalternas se mantém viva e em curso no movimento contraditório da luta de classes.

Portanto, “[...] a resistência em defesa do Projeto Ético-Político Profissional do Serviço Social, orientado pela perspectiva de emancipação das classes exploradas, humilhadas e de toda a humanidade, vem se tornando cada vez mais uma necessidade no Brasil”. (LOPES, 2016, p. 244).

Inserido na dinâmica contemporânea da sociedade brasileira configurada por conflitos sociais, expressões da luta de classes, e conectado com uma diversidade de problemáticas decorrentes da crise atual do capitalismo no mundo e reproduzido no Brasil, nos últimos anos, um significativo grupo de pesquisadores expõe nas páginas a seguir os resultados de pesquisas, em forma de artigo, cujos objetos são configurados por complexos orgânicos dessas problemáticas de maior complexidade e por núcleos de categorias teóricas inseridos, predominantemente, nos quadros de referências teórico-metodológicos de Marx e da tradição marxista, imprescindíveis para a análise crítica da realidade social como totalidade histórica.

A esses artigos acrescenta-se uma resenha que é parte da estrutura da Revista Katálysis.

Assim, podem ser destacadas como pesquisas que têm como objeto complexos orgânicos de problemáticas concretas, expressões da questão social, as seguintes: Conflitos socioambientais por água no Nordeste brasileiro: expropriações contemporâneas e lutas sociais no campo, em que as autoras fazem importante reflexão da temática, problematizando determinações estruturais como o agronegócio e seus impactos sobre a população do campo. Para as pesquisadoras é impossível pensar os conflitos por água no campo sem considerar a questão da propriedade da terra, partindo de uma concepção ampliada da questão agrária que inclui a terra, a água, as culturas alimentares e os recursos minerais. Esses conflitos por água, segundo as autoras, situam-se no movimento das classes em conflito em torno da apropriação dos recursos indispensáveis à sua reprodução. Conflitos socioambientais no Nordeste brasileiro: tema de interesse para o Serviço Social evidencia o crescimento significativo dos conflitos, nessa região, como parte das expressões da questão ambiental e seu enfrentamento na contemporaneidade. A terra é destacada como um dos principais recursos ambientais em disputa pelos sujeitos políticos envolvidos nos conflitos, tanto os representantes do capital, quanto do trabalho. Processos de reintegração de posse das escolas ocupadas pelos estudantes no Paraná: a ideologia burguesa do aparelho judiciário e policial problematiza as razões declaradas pelos aparelhos jurídico e policial para reintegração das escolas estaduais do Paraná, ocupadas pelos estudantes secundaristas em 2016. Destaca o caráter ideológico das ações de reintegração de posse, apontando a inversão do real que os especialistas do Estado burguês apresentavam ao utilizar os mesmos argumentos dos estudantes, convertendo as suas lutas pelo direito à educação em assunto policial. Intervenções artísticas em estabelecimentos prisionais portugueses: estudo multidimensional sobre dinâmicas e impactos analisa projetos artísticos e culturais implementados em estabelecimentos prisionais, selecionando três tipos de impactos: interpessoal, intrapessoal e em suas relações com a instituição. Os reflexos da crise econômica sobre os direitos trabalhistas no Brasil faz uma análise crítica da conjuntura brasileira atual, mostrando que: com o agravamento da crise capitalista mundial de 2008 que passa a atingir o Brasil mais profundamente em 2011, a burguesia brasileira renovou sua ofensiva contra os direitos trabalhistas e; o que houve no Brasil, ao contrário dos discursos oficiais de promessas de mais empregos foi o aumento do trabalho precário, do desemprego, das desigualdades sociais e a persistência da crise revelada pelo baixíssimo crescimento econômico em 2018. Precariedade e interdisciplinaridade no trabalho da Assistente Social na esfera pública resulta de uma pesquisa empírica com gestores Assistentes Sociais nas esferas Jurídica, de Assistência Social e da Saúde, no contexto das políticas de proteção social no Distrito Federal. Os resultados apontam para a precarização do trabalho no contexto da neoliberalização, com consequência de sobrecarga e de estresse no cotidiano das profissionais, e destacam conflitos entre necessidade e prestação de serviços no âmbito político-institucional. O trabalho dos cuidadores de idosos na perspectiva da economia do care trata dos desafios do trabalho dos cuidadores de idosos, em particular as percepções desses cuidadores sobre seu trabalho. Alguns eixos considerados como características e desafios desse trabalho nortearam a pesquisa: necessidade para complementar renda; fonte geradora de sofrimento físico e psíquico; dificuldade para ajustar relações de intimidade, envolvimento afetivo e remuneração do trabalho. Os resultados permitiram apreender subjetividades envolvidas no trabalho dos cuidadores e apontam intervenções para sua qualificação e para oferecer melhores condições no ato de cuidar. Sociabilidade dos adolescentes em conflito com a lei de Uberlândia (MG) em 2017 busca compreender os sentidos atribuídos pelos sujeitos às suas experiências sociais. O estudo de caso no Centro Socioeducativo de Uberlândia permitiu a comprovação da hipótese norteadora de que as sociabilidades dos jovens, alvos da pesquisa, são permeadas por expressões da questão social manifestas na pobreza, nas vulnerabilidades, na inserção precária no mercado de trabalho, na exclusão e no preconceito, para as quais a violência e o ato infracional tomaram sentido de formas de resistência e sobrevivência. São, portanto, sociabilidades configuradas pelo metabolismo do capital, de modo a contribuir na reprodução e manutenção dessa estrutura. La cuestión socioambiental. Estudio descriptivo sobre la presencia del tema em los Seminarios Latinoamericanos de Escuelas de Trabajo Social analisa os conceitos mais utilizados pelos autores que abordam diretamente a temática ambiental; as problemáticas socioambientais predominantes; os campos de ação profissional do Assistente Social. Os resultados dão conta do compromisso da profissão para a formulação de uma posição acadêmica e política para o enfrentamento da lógica extrativista capitalista em grande parte da região, em especial o mundo rural e indígena. Memoria profesional y Trabajo Social chileno. Derechos humanos y dictadura cívico militar, como parte de uma investigação interuniversitária, contribui para resgatar a memória do Serviço Social chileno no contexto da ditadura militar no período de 1973 a 1990. Analisa a participação do trabalhador social no processo de defesa de direitos humanos em organizações não governamentais, considerando as principais contribuições que seu desempenho, em contexto de resistência, representa para o desenvolvimento profissional, no âmbito de um país em permanente estado de exceção. No artigo Trabajo Social y gestión. Oportunidad conflictuada, o autor problematiza a construção subjetiva da relação entre Serviço Social e gestão de políticas sociais em trabalhadores gestores dessas políticas. Para tanto, toma como referências entrevistas realizadas em pesquisa desenvolvida entre os anos 2016 e 2017, cujos resultados abrangem um discurso do empreendedorismo no Serviço Social que, após recuperar o nível universitário em 2005, no Chile, acentua a tradição da profissão em face do caráter empresarial da direção assumida pela Nova Gerência Pública, que implicou conflitos, tanto no trabalho profissional quanto culturalmente. A análise do autor sobre as relações conflituosas subjetivadas instigam a reflexão crítica e a resistência aos discursos de gestão social, cuja lógica converge para o mercado que fragmenta o Serviço Social neste século.

No conjunto das pesquisas, cujos objetos definimos como núcleos de categorias teóricas, destacamos: Ideologia e alienação: uma relação necessária analisa, a partir do pensamento de Lukács, a relação entre as categorias ideologia e alienação e afirma, em sua análise, que o aspecto primordial da ideologia é exercer uma função nos conflitos humanos-sociais e que é a função social da ideologia que a conecta às formas de alienação surgidas desde o escravismo. Entretanto, é só no capitalismo que essas relações assumem formas reificadas. As categorias da alienação e do fetichismo na teoria social marxiana parte da premissa que a categoria da alienação adquire novas determinações na teoria de Marx, que estão ligadas organicamente ao modo de produção capitalista e da consequente maturação da crítica à economia política realizada por Marx. Tais determinações se materializam no fetichismo da mercadoria, nos moldes da sociabilidade burguesa desenvolvida. Sob o casaco de Marx? A categoria da alienação no Serviço Social analisa as formas de utilização da categoria da alienação em artigos selecionados da Revista Katálysis e Serviço Social & Sociedade, a partir das seguintes relações temáticas como mediações: política/trabalho/subjetividade/metodologia. O resultado da pesquisa apontou forte presença nas revistas analisadas e as obras mais frequentes, na amostra analisada, são relativas aos clássicos do pensamento marxista. Marx e o Direito do trabalho: a luta de classes, o terreno jurídico e a revolução analisa a relação existente entre as categorias trabalho, lutas de classes e o Direito segundo Marx, mostrando que, ao mesmo tempo que o teórico revolucionário considera o campo jurídico como um palco de conflito classista, evidencia as limitações desse campo. Ou seja, a luta pela redução da jornada de trabalho e a luta pela regulamentação jurídica são essenciais, mas são lutas como parte de uma preparação de um terreno revolucionário, o que não seria possível por meio do Direito, mas pela transformação do modo de produção. Nessa direção, trata-se, portanto, de suprimir a sociedade capitalista, o Direito e a própria centralidade do trabalho que a atividade produtiva tem na vida dos homens na sociedade burguesa. Lukács: a reviravolta dos anos 1930 e a adoção da ontologia como expressão da filosofia de Marx apresenta o impacto das mudanças ocorridas no pensamento de Lukács nos anos 1930, no seu itinerário intelectual e quais as razões do pensador húngaro adotar, na maturidade, a palavra ontologia para expressar a substancial filosofia de Marx.

A resenha, que constitui um dos blocos estruturantes desta edição, refere-se à obra O poder do lixo: abordagens antropológicas dos resíduos sólidos publicada pela Associação Brasileira de Antropologia (ABA). Segundo a resenhista, a principal contribuição da obra é o agrupamento dos estudos em quatro abordagens da Antropologia: o enfoque simbólico; o enfoque ecológico; a abordagem crítica e a perspectiva holística. É a partir desses enfoques que são aglutinados, na resenha, os diversos estudos da coletânea. A resenhista vislumbra, no título da obra, a existência de vários diálogos possíveis entre a antropologia e o tratamento dos resíduos sólidos (lixo), e considera estar “diante de um trabalho denso, profundo, muito informativo, que recupera um debate sobre assuntos cotidianos, e ao mesmo tempo avança na compreensão de dados contemporâneos e futuros, como a sustentabilidade”.

Em síntese, este número da Revista Katálysis, através dos relevantes artigos e resenha, articulados em três blocos, denuncia problemáticas, expressões da questão social, decorrentes da luta de classes, e anuncia formas alternativas de enfrentamento e resistência a essas problemáticas, instrumentalizando teórica e politicamente os intelectuais acadêmicos, profissionais e militantes para contribuírem na construção de uma nova sociedade alternativa ao capitalismo, para emancipação das classes subalternas e de toda humanidade.

Franci Gomes Cardoso, São Luís, 26 de fevereiro de 2019.

References

Abreu, M. M. (2002). Serviço Social e organização da cultura: Perfis pedagógicos da prática profissional. São Paulo, Brazil: Cortez. [ Links ]

Gramsci, A. (1971). Selections from the prison notebooks (Q. Hoare & G. N. Smith, Eds. & Trans.). New York, NY: International. [ Links ]

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Gramsci, A. (1999). Cadernos do cárcere: Introdução ao estudo da filosofia: A filosofia de Benedetto Croce [Prison notebooks: Introduction to the study of philosophy: The philosophy of Benedetto Croce] (Vol. 1). Rio de Janeiro, Brazil: Civilização Brasileira. [ Links ]

Lopes, J. B. (2016). 50 anos do Movimento de Reconceituação do Serviço Social na América Latina: A construção da alternativa crítica e a resistência contra o atual avanço do conservadorismo [50 years of the Reconceptualization Movement of Social Work in Latin America: The construction of a critical alternative and the resistance against the current advance of conservatism]. Revista de Políticas Públicas, 20, 237-252. doi:10.18764/2178-2865.v20n1p237-252 [ Links ]

Mészáros, I. (2001). Socialism or barbarism: From the “American Century” to the crossroads. New York, NY: Monthly Review Press. [ Links ]

Franci Gomes Cardoso

cardosofranci@uol.com.br Doutorado em Serviço Social: Política Sociais e Movimentos Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Assistente Social e Professora aposentada vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da Universidade Federal do Maranhão (UFMA)

UFMA

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