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Ambiente & Sociedade

On-line version ISSN 1809-4422

Ambient. soc. vol.8 no.1 Campinas Jan./June. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-753X2005000100011 

RESENHA BOOK REVIEW

 

A bordo do "motor-de-linha" de Victor Leonardi

 

 

Tatiana Schor

Economista, doutoranda pelo PROCAM/USP e professora do Campus Universitário SENAC - Santo Amaro

 

 

Os historiadores e os rios: natureza e ruína na Amazônia brasileira.
Victor Leonardi
Brasília: Paralelo 12 e Editora da Universidade de Brasília, 1999.

Mais um motor-de-linha sobe e desce o paraná Pixuna. Vê-se e pouco se entende da natureza e ruína na amazônia brasileira ao longo deste espetacular paraná Pixuna, que na geografia de língua portuguesa perde seu nome tupi e ganha o nome descritivo de Rio Negro.

Conhecer o Rio Negro e seus afluentes, desvendar seus mistérios, é um dos maiores desafios daqueles que se encantam pelo seu brilho. Entender a natureza e a ruína na Amazônia brasileira é navegar por longos percursos de uma sociologia ocultada pela opulência de sua flora, fauna e água. Afinal, como nos ensina Leandro Tocantins1 "O rio comanda a vida" e a água morna nos pinica com seus cauxis. Como dizem alguns pesquisadores amazônicos, estudar a Amazônia é como brincar com uma boneca de piche: pega nela e ela gruda na mão e queima.

O livro de Victor Leonardi "Os historiadores e os rios: natureza e ruína na Amazônia brasileira" é uma boneca de piche para aqueles que transitam nos campos fluídos da natureza e da sociedade, da história desconhecida do Paraná Pixuna e de seus afluentes. O livro é um grandioso "motor-de-linha" que nos leva pelos meandros de uma história na qual o social e natural se misturam e se perdem no meio da floresta.

Com as ruínas da cidade de Airão, na mira do fotógrafo Juan Pratginestós e a história social do Rio Jaú - um dos afluentes do Rio Negro - Leonardi, a partir de uma discussão teórica metodológica da história ambiental, propõe uma interpretação coesa e concatenada de um passado que muito tem a ensinar sobre a Amazônia de hoje: das propostas de ordenamento territorial, de desenvolvimento econômico, de preservação da natureza.

Afinal, como entender as ruínas que permanecem no meio da floresta? O que elas nos dizem? Para responder a essas questões, Leonardi retoma a história da ocupação deste afluente do Rio Negro por vários prismas diferenciados: o aldeamento e instalação das missões em 1694, os diferentes indígenas que lá habitavam e suas trajetórias (os que ficaram e os que se foram), os mandos e desmandos da coroa Portuguesa, as relações de trabalho, as visitas dos estrangeiros e seus ciclos econômicos - drogas do sertão e borracha. Todos esses, documentados por fontes historiográficas as mais diversas: documentos de época, relatos de viajantes, leis e produções científicas. Monta um quadro que se insere na historiografia brasileira com suas melhores fontes e análises.

Leonardi, não satisfeito com o quadro no qual não cabe a amplidão do rio, descreve o mesmo processo pela temática da geografia regional, inserindo as ruínas de Airão na discussão da formação do território nacional. Os segredos ecológicos da toponímia e as dificuldades de determinação do que seria o território das etnias que por lá se estabeleceram, passaram ou se arruinaram conjuntamente com a constituição de um território, parte de um território ainda maior: o nacional. As conseqüências das lutas e disputas, mais especificamente da Cabanagem, na formação e conformação, do médio Rio Negro, do qual o Rio Jaú faz parte, são aspectos fundamentais para compreender a história ambiental que essas ruínas são, tal como no filme Roshamon de Kurosawa, nosso Pórtico, o narrador desta história.

O fazer parte do território nacional é entender como a produção do espaço se desdobra para se submeter ao Estado. As ondas migratórias incentivadas por políticas deliberadas, forçadas ou não, de fuga ou de encontro, montam um cenário que se apresenta como constante depopulação e vazio: símbolos e mitos da Amazônia moderna. O dinamismo ganho pela região do Rio Negro com o auge curto da borracha se estabelece e permanece com a navegação constante por meio de motores-de-linha e regatões que sobem e descem com pessoas e mercadorias. A riqueza se instala na forma de casas e casarões que, na Rua Occidental da cidade de Airão, permanecem nas fotos e nas ruínas e, quem sabe, na memória de alguns: afinal, memória na Amazônia se desvai com a água da chuva e escorre rio abaixo, mas se sedimenta no solo e permanece fragmentada nos documentos, relatos, livros e ruínas. A história e a historiografia ambiental cavoucam documentos e solo para refazer, entender o passado tão presente na retórica e prática contemporâneas.

É o estranhamento, como nos diz Guinzburg2 (1998), a chave de entrada da casa grande da Rua Occidental. Afinal, "pintar o rio ao revés" é construir uma historiografia ambiental na qual a Amazônia tem muito a contribuir. O livro de Leonardi nos ensina muito mais que a história ambiental do Rio Jaú e das ruínas do Airão. Ensina-nos a amplidão e paixão da pesquisa. É boneca de piche: pega o livro na mão e em poucas horas aprendemos a brincar e juntar fontes documentais das mais distintas - da lei ao cinema - e nos queima de vontade de pegar o primeiro "motor-de-linha," subir o Rio Negro e perder-se nas ruínas do Airão.

 

 

1. TOCANTINS, Leandro. O rio comanda a vida - uma interpretação da Amazônia. 9ª. Ed. rev, Manaus: Valer / Edições do Governo do Estado AM, (1952) 2000.
2. GINZBURG, Carlo. Olhos de madeira: nove reflexões sobre a distância. Tradução: Eduardo Brandão, São Paulo: Companhia das Letras,1998.