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Ambiente & Sociedade

versão impressa ISSN 1414-753Xversão On-line ISSN 1809-4422

Ambient. soc. v.9 n.2 Campinas jul./dez. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-753X2006000200010 

RESENHA BOOK REVIEW

 

 

Natalia Hanazaki

Docente da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

 

Colapso - como as sociedades escolhem o sucesso ou o fracasso. Rio de Janeiro, Record, 2005. Jared Diamond

Depois de ter explorado o tema "por quê há sociedades humanas mais ' bem sucedidas' do que outras?" em "Armas, Germes e Aço" (1998), Jared Diamond agora explora o outro lado da moeda: por quê algumas sociedades humanas trilharam o caminho do colapso, ao longo da nossa história conhecida. O autor examina sociedades do passado e do presente, tendo sempre como pano de fundo as variáveis ambientais que podem ter influenciado no fracasso destas sociedades.

Diamond examina casos que são conhecidos como exemplos clássicos da insensatez humana com relação aos seus recursos naturais como, por exemplo, o colapso da sociedade da ilha de Páscoa, de outras sociedades polinésias, dos Maias em Yucatán e dos Anasazis, na grande bacia da América do Norte. Numa segunda parte do livro, o autor examina sociedades contemporâneas que podem (ou não) estar trilhando os seus próprios caminhos para o colapso e, ao final, tece considerações sobre quais lições podemos tomar do passado.

A análise do autor sobre o colapso da sociedade da Ilha de Páscoa inspira reflexões importantes sobre a insistência dos seus antigos chefes de clãs em erguer estátuas cada vez maiores, com um imenso custo energético - tanto humano quanto de recursos madeireiros, resultando na eliminação de praticamente toda a cobertura florestal original de uma das ilhas mais remotas do planeta. Tendo exaurido recursos como árvores e terras agriculturáveis, os antigos pascoenses provavelmente passaram por uma sucessão de conflitos entre clãs, fome, canibalismo, que resultou na exaustão de não apenas árvores e solo, mas também de aves marinhas e animais aquáticos. Diferente de outros autores, que supersimplificam o colapso da sociedade pascoense, reduzindo-o à maldade, ingenuidade e ganância humanas, Diamond ressalta um elemento fundamental neste cenário: os atributos naturais da Ilha de Páscoa e como estes colaboraram para o colapso. Nas palavras do autor, o ponto fundamental foi o fato dos colonizadores polinésios terem encontrado um ambiente particularmente frágil e, além disso, particularmente remoto. Uma análise recente e hipotética do colapso na Ilha de Páscoa coaduna-se com esta interpretação, segundo a qual o progresso tecnológico, numa abordagem econômica neoclássica, não teria evitado o colapso populacional naquela remota ilha (DECKER & REUVENY, 2005).

Seguindo a mesma linha de raciocínio, Diamond examina como elementos similares levaram ao colapso outras ilhas remotas da Oceania colonizadas inicialmente pelos polinésios, como as ilhas de Pitcairn e Henderson. O autor simplifica o histórico de sucesso ou fracasso de ilhas polinésias identificando nove elementos que devem ter atuado de maneira diferenciada em um total de 81 ilhas. Sua análise prossegue ressaltando elementos de ambientes especialmente frágeis e suas relações com o colapso de algumas sociedades nesses ambientes. Um dos exemplos marcantes é o colapso das colônias vikings na América do Norte e na Groenlândia. Muito antes de Colombo chegar à Hispaniola e iniciar o processo de colapso de tantas sociedades indígenas ame-ricanas, os navegadores Vikings chegaram à América do Norte, mas suas colônias não perduraram por mais de uma década. No caso da colônia viking na América do Norte, em particular, e das sociedades de colonização Viking no Atlântico Norte (talvez com exceção da Islândia), uma característica importante foi o pouco tempo para "aprender a visão ecos-sistêmica do ambiente", trazendo uma concepção equivocada sobre como o ambiente funcionaria, baseado no seu conhecimento do seu ambiente de origem, ao mesmo tempo em que a cultura era pouco aberta a aprender com as experiências nativas dos habitantes indígenas (no caso, os inuit). Esta abordagem traz um enfoque interessante para algumas sociedades, mas parece simplificar demasiadamente o histórico de sociedades como os Anasazis e os Maias. As duas sociedades deixaram construções grandiosas e pistas arqueológicas que levaram Diamond a concluir que, tanto na região da grande bacia, como na região da península de Yucatan, sociedades antigas surgiram, floresceram, exploraram seus recursos naturais e chegaram ao colapso, tendo seus habitantes perecido ou emigrado, contribuindo na formação de outras culturas ameríndias com as quais os europeus se depararam posteriormente. Novamente, o autor não responsabiliza exclusivamente a ganância humana, mas sim a um ambiente particularmente frágil.

Mas nem todas as sociedades refletem fracassos históricos: o autor também examina exemplos bem sucedidos, como o Japão medieval, Tikopia (uma pequena ilha no sudoeste do Oceano Pacífico), Nova Guiné, e exemplos de grandes empresas modernas, além de colapsos contemporâneos em Ruanda e no Haiti, este último comparado com o relativo sucesso da República Dominicana. O caso de Tikopia, por exemplo, ilustra uma sociedade susten-tável após 3 mil anos, em uma área de menos de 5 km2, às custas de vários tabus e práticas que limitam o acesso a recursos e o tamanho populacional. Já o genocídio de Ruanda ilustra um colapso con-temporâneo atribuído a uma causa essencialmente malthusiana, que se conjugou a diversos outros fatores — e o autor deixa claro que neste caso não se deve confundir explicação com desculpa.

Embora não se coloque como um determinista ambiental, Diamond lança mão de análises que convergem para explicações de base material, sob um ponto de vista de um autor norte americano escrevendo para leitores da América do Norte. A análise de algumas grandes empresas modernas ambientalmente bem sucedidas é principalmente voltada para uma realidade norte americana, carcendo de uma visão crítica sobre possíveis efeitos de maquiagem verde (LAYRARGUES, 2000; BRÜGGER et al., 2003) para aumentar a inserção mercadológica destas empresas. Ainda assim, o texto funciona como uma fonte de reflexões na tentativa de analisar quais caminhos percorrer e quais evitar; de analisar como a resiliência pode ou não funcionar dependendo do quanto o ambiente é observado em termos de pistas naturais de que algo não vai bem; e de analisar como colapsos restritos podem ter muito a nos ensinar, numa época de visões de mundo globalizadas. Desconsiderando a simplificação de algumas hipóteses causais, o autor constrói um cenário que só vêm a enfatizar que para agirmos de acordo com a tão almejada sustentabilidade devemos, rigorosamente, evitar o impacto a médio e longo prazo sobre os ambientes onde habitamos e, fundamentalmente, aprender com as mudanças e nos flexibilizarmos a elas. Infelizmente, na maioria das vezes a análise das múltiplas possibilidades de dar os passos certos — ou totalmente frustrados — só é possível depois de atingida uma situação limítrofe.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRÜGGER, P., ABREU, E. & CLIMACO, J.V. Maquiagem verde: a estratégia das transnacionais versus a susten-tabilidade real. In: GUIMARÃES, L. B.; BRUGGER, P.; SOUZA, S. C. &ARRUDA, V. L. Tecendo subje-tividades em educação e meio ambiente. Florianópolis: NUP/CED/UFSC, 2003. pp. 159-170

DECKER, C.S. & REUVENY, R. "Endogenous Technological Progress and the Malthusian Trap: Could Simon and Boserup Have Saved Easter Island?". Human Ecology. New York, 33 (1): 119-140, 2005.

DIAMOND, J. Armas, germes e aço: os destinos das sociedades humanas. São Paulo, Record, 1998.

LAYRARGUES, P. "A empresa "verde" no Brasil: mudança ou apropriação ideológica?" Ciência Hoje, Rio de Janeiro, 27 (158): 56-59, 2000.

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